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Débora Lucia Lima Leite Mendes (Organizadora) MÚLTIPLOS OLHARES SOBRE O AUTISMO: pesquisas & experiências Editora CRV Curitiba – Brasil 2021 ESTA OBRA TAMBÉM ENCONTRA-SE DISPONÍVEL EM FORMATO DIGITAL. CONHEÇA E BAIXE NOSSO APLICATIVO! DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) CATALOGAÇÃO NA FONTE Bibliotecária Responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506 Copyright © da Editora CRV Ltda. Editor-chefe: Railson Moura Diagramação e Capa: Designers da Editora CRV Revisão: Analista de Escrita e Artes M954 Múltiplos olhares sobre o Autismo: pesquisas & experiências / Débora Lucia Lima Leite Mendes (organizadora) – Curitiba : CRV, 2021. 150 p. Bibliografia ISBN Digital 978-65-251-0509-3 ISBN Físico 978-65-251-0508-6 DOI 10.24824/978652510508.6 1. Educação 2. Transtorno do espectro do autismo 3. Avaliação 4. Diagnóstico I. Mendes, Débora Lucia Lima Leite, org. II. Título III. Série. CDU 37 CDD 370 Índice para catálogo sistemático 1. Educação 370 2021 Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 - E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br Comitê Científico: Altair Alberto Fávero (UPF) Ana Chrystina Venancio Mignot Conselho Editorial: Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andréia da Silva SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 9 Débora Lucia Lima Leite Mendes Este livro passou por avaliação e aprovação às cegas de g (UERJ) Andréia N. Militão (UEMS) Anna Augusta Sampaio de Oliveira (UNESP) Barbara Coelho Neves (UFBA) Cesar Gerónimo Tello (Universidad Nacional de Três de Febrero – Argentina) Diosnel Centurion (Univ Americ. de Asunción – Py) Eliane Rose Maio (UEM) Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT) Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Carmen Tereza Velanga (UNIR) Celso Conti (UFSCar) Cesar Gerónimo Tello (Univer .Nacional Três clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA 11 Débora Lucia Lima Leite Mendes NEUROEDUCAÇÃO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS: reflexões acerca da educação de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) 23 Marisa Ribeiro de Araújo Elenise Tenório de Medeiros Machado Lindolfo Ramalho Farias Júnior AVALIAÇÕES EXTERNAS E A PARTICIPAÇÃO DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO (TEA): uma inclusão excludente? 43 Brena Stefani de Brito Pinheiro de Sousa Débora Lucia Lima Leite Mendes A INCLUSÃO DE PESSOAS COM AUTISMO NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: desafios e possibilidades 53 Dulcimar Lopes Carvalho FAMÍLIAS DE PESSOAS COM AUTISMO: onde está realmente localizado tanto estresse? 63 Patricia Trigo Sumara Frota do Nascimento Jefferson Falcão Sales CONTRIBUIÇÕES DO AEE NO PROCESSO DE INCLUSÃO ESCOLAR DE UM ESTUDANTE COM TEA 75 Francisca Anice Bezerra Lilianne Moreira Dantas A PRÁTICA PSICOPEDAGÓGICA E O TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA: história, contribuições e intervenções 91 Ana Karla Gomes Barbosa Débora Lucia Lima Leite Mendes clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA: diagnóstico tardio e insucesso escolar 101 Dulcinea Bandeira Soares Timbó Sabrina Soares Timbó Saulo Edson Soares Timbó REPRESENTAÇÃO DA IMAGEM DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) NA LITERATURA INFANTIL 111 Maiara Fonseca de Alencar Barbosa Heloisa Fonseca Barbosa Robéria Vieira Barreto Gomes Maria José Barbosa DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A INCLUSÃO DO ESTUDANTE COM DEFICIÊNCIA: a experiência de uma escola municipal de Fortaleza 123 Ana Karla Gomes Barbosa Débora Lucia Lima Leite Mendes COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA: uma ponte para a inclusão de pessoas com autismo 133 Amanda de Sousa Alves Rodrigues Sales Débora Lucia Lima Leite Mendes ÍNDICE REMISSIVO 141 SOBRE OS AUTORES 145 clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml APRESENTAÇÃO Débora Lucia Lima Leite Mendes Com alegria e satisfação apresentamos esta coletânea de textos que reúne o pensamento crítico e reflexivo de pesquisadores e estudantes da área de educação e afins. Todos os artigos envolvem a temática: Transtorno do Espectro do Autismo e agregam informações que buscam orientar e esclarecer tanto a acadêmicos, quanto ao público em geral, sobre aspectos peculiares do TEA, assunto de relevante importância. Nessa perspectiva, esta obra é composta por onze capítulos que abordam desde a avaliação da aprendizagem, perpassando pela problemática da inclusão das pessoas com deficiência; as contribuições da neurociência e a importância do Atendimento Educacional Especializado (AEE) até reflexões sobre práticas pedagógicas e psicopedagógicas; diagnóstico tardio e comunicação alternativa, objetivando sempre contribuir para compreender e/ou elucidar eventuais dúvidas acerca do assunto. Assim, desejamos a todos que tiverem acesso a esta obra, profundas e transformadoras reflexões capazes de gerar uma sociedade mais justa e inclusiva. Boa Leitura! REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA Débora Lucia Lima Leite Mendes 1 Considerações iniciais Diante da realidade do atual cenário educacional em que medidas governamentais questionam o paradigma da inclusão, surgem algumas indagações em torno do processo de ensino e aprendizagem de estudantes com Transtorno do Espectro do Autismo, sobretudo no que se refere à avaliação de rendimento desse alunado. clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtmlcom as demandas das pessoas com TEA. Semelhantemente, familiares têm denunciado a omissão e despreparo por parte das instituições de ensino. Nessa perspectiva, acredita-se que alguns dos componentes de programas de TCC poderiam ser adaptados ao contexto escolar, ressignificando algumas crenças distorcidas, incentivando a criação de um trabalho colaborativo entre familiares, profissionais das escolas e terapeutas. Acredita-se, ainda, que o paradigma da Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva poderá alcançar resultados promissores quando, efetivamente, as políticas públicas forem implementadas, garantindo o cumprimento da legislação vigente, no que concerne, sobretudo, à presença de formação adequada a todos os profissionais envolvidos e apoio aos familiares. REFERÊNCIAS ARAUJO, M. R. de. Desafios e perspectivas para inclusão de alunos com autismo na rede pública municipal de Fortaleza: estudo de caso. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em formação continuada de professores para o AEE) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2014. ARAUJO, M. R. de; ALENCAR, M. L. A. A criatividade no ensino de atenção às diferenças: reflexões acerca da educação de alunos com altas habilidades/superdotação. Revista Brasileira de Altas Habilidades/Superdotação, v. 1, n. 1, p. 67-77, jan./jun. 2013. ARCANJO, A. D. M. 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Brena Stefani de Brito Pinheiro de Sousa Débora Lucia Lima Leite Mendes 1 Considerações iniciais Avaliar é uma atividade inerente ao cotidiano escolar e tem por objetivo identificar, aferir, investigar e analisar determinados fatos, situações ou processos. Pode-se afirmar que avaliação educacional é composta por diferentes procedimentos que devem servir como subsídio à prática docente, objetivando sempre a melhoria do processo de ensino- aprendizagem. Especificamente, existem duas dimensões da avaliação precisam ser consideradas quando abordamos sobre o rendimento da aprendizagem. A primeira, diz respeito às avaliações internas, caracterizadas, sobretudo pela ação docente em sala de aula, àquela que busca verificar a aprendizagem do estudante e é determinada pelo plano de trabalho docente e projeto político pedagógico da escola. A segunda dimensão, por sua vez, contempla as chamadas avaliações externas, que também objetivam identificar o desempenho dos estudantes, porém, são realizadas por agentes externos à escola, geralmente aplicadas em larga escala. Constituem-se ferramenta que fornece elementos para a formulação e monitoramento de políticas públicas, bem como, possibilitam o redirecionamento de práticas pedagógicas. Notadamente, a busca por informações sobre avaliações externas, tem sido alvo permanente de pesquisas e reflexões sobre a área. Porém, se faz necessário esclarecer que ainda há elevada escassez de estudos voltados para as avaliações em larga escala, sobretudo quando se referes aos aprendizes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), é visando contribuir para minimizar a ausência de estudos desta natureza que este artigo se constitui. O presente estudo é fruto da investigação realizada como trabalho de conclusão do curso de graduação em Pedagogia. O interesse por essa área de estudo surgiu das experiências vivenciadas através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), do subprojeto sobre Inclusão Escolar, ofertados pelo curso de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará e também da disciplina de Estágio Supervisionado Obrigatório nos anos iniciais do Ensino Fundamental. O cotidiano escolar nos trouxe motivação para esta pesquisa. Pois, os comentários dos educadores sobre as avaliações em larga escala e as posturas assumidas frente a aplicação das provas às crianças com TEA, nos despertou interesse, conduzindo-nos à intenção de verificar qual a real concepção de Inclusão Escolar no que se refere às crianças com TEA, frente ao desafio das avaliações externas. A respeito de uma compreensão sobre avaliação, Vianna (2000) traz a ideia de que a avaliação não apresenta um fim em si mesmo. Portanto, nunca é um todo acabado, autossuficiente. Ao contrário, é uma das inúmeras possibilidades de explicar um fenômeno, analisar as suas causas, determinar prováveis consequências e sugerir elementos para uma discussão posterior, acompanhada de tomada de decisões, que considere as causas dos fenômenos analisados criticamente. 2 Metodologia Esta pesquisa caracterizou-se como um Estudo de Caso, de abordagem qualitativa objetivando analisar as práticas avaliativas em larga escala envolvendo crianças que se enquadram no TEA, matriculadas em instituições escolares da rede pública municipal de Fortaleza-CE e se estas favorecem ou não a efetiva inclusão escolar. Os dados do presente estudo foram obtidos por meio de observações e aplicação de questionários, a fim de identificar e analisar a influência das avaliações externas e a participação das crianças com TEA frente a aplicação das provas em larga escala nas instituições escolares. 3 Fundamentação Teórica 3.1 Desafios da escola frente às avaliações externas e a inclusão de crianças com TEA Semelhantemente às crianças neurotípicas¹, aquelas que estejam no TEA ou que possuam alguma deficiência, devem ser consideradas e envolvidas em todas as atividades escolares e igualmente avaliadas, uma vez que este alunado é composto por sujeitos com diferentes histórias de vida, capacidades, limitações, necessidades e também potencialidades (FERNANDES; VIANA, 2009; BRASIL, 2008). Convém assinalar que as crianças com TEA são capazes de realizar uma avaliação satisfatória, mas, faz-se mister que esta seja pensada e adequada para elas, posto que, para as crianças com necessidades de uma assistência educacional diferenciada, fazem-se necessários instrumentos avaliativos adequados às suas particularidades (FERNANDES; VIANA, 2009). Não obstante, nos últimos anos, ocupar posição de destaque e alcançar bons resultados nas avaliações externas tornaram-se alvos de grande parte das instituições escolares públicas do estado do Ceará, uma vez que as escolas com bom rendimento são prestigiadas pelo poder público com um orçamento extra, enquanto as instituições que não atingem o desempenho esperado não recebem auxílio. Diante desta realidade, é comum que no cotidiano escolar, muitas instituições escolares públicas invistam na preparação dos discentes para o dia da prova. Conforme alerta Vasconcellos (2010, p. 216), “Sabemos de escolas e educadores que incorporam a tal ponto a preocupação em preparar seus alunos para as avaliações externas, que abriram mão, pessoal e coletivamente, de um projeto pedagógico mais vivo e significativo”, mostrando-nos o quanto essas avaliações estão norteando o ato pedagógico e educativo de várias instituições públicas. As avaliações em larga escala são elaboradas objetivando buscar diagnósticos sobre a realidade educacional, para que, a partir delas, seja possível a elaboração e implementação de políticas públicas voltadas para a melhoria da qualidade educacional. Todavia, algumas dessas avaliações tornaram-se apenas dados para realizarem um escalonamento entre as escolas, centrando-se nos resultados e notas, esquecendo-se do desenvolvimento processual alcançado pelos discentes durante o processo de ensino–aprendizagem. O que se faz com os dados coletados nessas avaliações são de extrema importância, conforme afirmam Otaviano, Silva e Lima (2017, p. 291), “Não basta apenas mensurar a aprendizagem, é preciso tornar os resultados das avaliações visíveis, com vistas aos processos de melhoria contínua [...]”, para que com esses dados sejam planejadas estratégias educacionais que favoreçam a aprendizagem significativa dos estudantes. A importância das avaliações externas é inegável, todavia, salientamos que estas necessitam de aperfeiçoamento. Nesse sentido, concordamos com os autores Silva, Silva e Trompieri Filho (2017), quando afirmam que as avaliações em larga escala, [...] não respeitam o tempo e o ritmo de aprendizagem, gerando o insucesso crescente do indivíduo, sendo que a avaliação, por ser em sua essência humana, dinâmica, processual, diagnostica inclusiva e dialógica, é penalizada pelo próprio sistema de ensino (p. 196). Diante deste cenário, nota-se que a tendência da instituição escolar é preocupar-se em manter os resultados dessas avaliações na “margem do normal”, “na média mínimaexigida”, visto que o sistema de ensino leva em consideração somente os resultados finais obtidos nas práticas avaliativas externas. Nesse sentido, Luckesi (2011) afirma que: “O estabelecimento de ensino está centrado nos resultados das provas e exames. Por meio de sua administração, o estabelecimento de ensino, deseja verificar no todo das notas como estão os alunos” (p. 20). Desta maneira, podemos afirmar que, frequentemente, os interesses do sistema de ensino estão centrados na apuração e percentual de aprovação e reprovação dos discentes. Todavia, as estatísticas das provas externas em muitos casos disfarçam e escondem a realidade educacional dos estudantes, visto que estes resultados não revelam as situações pedagógicas às quais muitas crianças são submetidas para alcançarem as metas estabelecidas. Nesse sentido, julgamos que muitos dos resultados gerados são incoerentes, sem dados fidedignos, visto que não consideram o processo avaliativo como um todo e, de modo geral, não possibilitam a inclusão de todos os estudantes. Considerando o contexto inclusivo, todos os indivíduos, inclusive as pessoas com deficiência e/ou TEA, deveriam participar ativamente de todas as atividades e momentos promovidos pela instituição escolar, inclusive das avaliações em larga escala. No entanto, na prática, não é o que ocorre, o direito ao acesso à escola, participação e a efetiva aprendizagem, bem como a possibilidade de um desenvolvimento integral lhes são negados. Nesse sentido, coadunando com as ideias de Cardoso e Magalhães (2013), asseveramos que é necessária uma maior articulação entre os programas provenientes das políticas educacionais inclusivas e as avaliações externas para que a inclusão das crianças com TEA ou qualquer tipo de deficiências seja de fato respeitada pela comunidade escolar e consequentemente pela sociedade. Tendo em vista que, “Os resultados apontam que, apesar da implementação das políticas inclusivas, a participação dos alunos com necessidades educacionais especiais [com deficiência] nas avaliações em larga escala é mínima, o que denota a ideia de ambiguidade entre discurso e prática inclusiva”, conforme Silva e Melletti (2012, p. 432), expuseram em seus estudos acerca do assunto. Promover, verdadeiramente a inclusão, vai muito além de matricular e inserir as crianças nas escolas. De fato, a inclusão deve promover aprendizagens significativas que favoreçam a participação ativa dessas crianças em todas as atividades planejadas. Nesse aspecto, conforme assinala a pesquisadora Leite (2007, p. 14), “o direito a educação normal para crianças com deficiência é respaldado por uma legislação nacional e internacional que reconhece o direito a diferença”. Assim, as escolas devem possibilitar a todos o reconhecimento das capacidades de cada discente, norteando a descoberta de identidade de cada um. Apesar de todos os avanços no conhecimento sobre o Espectro do Autismo, ainda existe escassez de estudos no que se refere às avaliações externas e participação das crianças com TEA, uma vez que essa participação aparenta não ser significativa para o corpo docente e/ou para os governantes. Diante dessa realidade, destacamos a importância e a relevância desse estudo, uma vez que a participação dessas crianças nessas avaliações é fundamental, visto que elas fazem parte da comunidade escolar e seu desenvolvimento e aprendizagem é tão importante quanto das demais crianças. É válido salientar que a instituição escolar, como inclusiva, deve adaptar- se aos discentes, buscando compreender e respeitar as particularidades do alunado que compõe a comunidade escolar, conforme assinala Pereira, Barbosa, Silva e Orlando (٢٠١٥, p. 194-195), “A inclusão escolar traz o pressuposto de que a escola é que tem que se ajustar aos educandos, ao invés destes se ajustarem àquela”. Reafirmamos que estudos como este são imprescindíveis para firmarmos a inclusão como ato social e político. Conforme assinala Sales e Viana (2017, p. 331), é fundamental que “O discente autista matriculado numa escola convencional tem o direito a uma avaliação de acordo com sua condição, respeitando sua diferença, tendo sempre em vista o seu desenvolvimento global”. Desta maneira, a participação dos sujeitos com TEA nas avaliações em larga escala e em outras atividades propostas nas instituições escolares nos leva a compreender a concepção de inclusão existente nas escolas. 3.2 Avaliação externa e inclusão de crianças com TEA: uma articulação possível? As políticas de avaliação em larga escala e a perspectiva de uma educação inclusiva surgem no mesmo período histórico, na década de 1990, apesar disso existe um descompasso entre a prática inclusiva e este modelo de avaliação. Atualmente, as práticas educacionais refletem a disparidade entre a inclusão educacional e as avaliações externas, fato comprovado durante a execução da presente pesquisa que identificou que, no período destinado a aplicação das avaliações em larga escala, as crianças com TEA ou com deficiência, eram suprimidas dessas atividades, explicitando a exclusão desse alunado e evidenciando que a aprendizagem ou a ausência desta, não é importante. Nesse contexto, depreende-se uma equivocada compreensão de que essa classe de pessoas não tem potencialidades a serem desenvolvidas. O que nos causa indignação, a partir do seguinte questionamento: – Existe certo nível de preconceito sendo legitimado pelos instrumentais de avaliação? Apesar disso, cremos que nenhum potencial deva ser desperdiçado. Durante o período de desenvolvimento desta pesquisa, mediante as observações na instituição escolar, foi nítido que há uma permanente preocupação institucional com o “bom” rendimento dos educandos nas avaliações em larga escala, visto que, no decurso do segundo semestre do ano letivo escolar, as crianças são submetidas semanalmente a simulados dessas avaliações externas. Existindo assim uma sobrecarga sobre os educandos e educadores, conforme evidencia Luckesi (2011), as práticas educativas são direcionadas pelos exames, estando assim polarizadas pelas avaliações em larga escala. Além disso, essa proposta explicitou a exclusão das crianças com TEA e/ou outras deficiências, dado que elas não são envolvidas nesse momento educacional e preparatório para as avaliações externas, evidenciando mais uma vez que estas avaliações assumem um caráter excludente. Ainda em conformidade com as observações e estudos, é explicito que a inclusão das crianças com TEA no âmbito educacional, em concordância com Montenegro (2018), limita-se em subsumir esses sujeitos nas escolas e controlá-los para não causar incômodo aos demais discentes. Dessa forma, a inclusão escolar aparenta ser compreendida pela comunidade institucional como o ato de estar nas escolas com crianças ditas “normais”, esquecendo que a instituição escolar deve possibilitar o desenvolvimento integral e a aprendizagem para e com todos os alunos. Ao longo das observações, foi perceptível que as crianças com TEA, em muitos momentos das atividades, não ficam em sala, saem e ficam passeando na instituição escolar sem nenhum direcionamento pedagógico, assim como em algumas atividades propostas pela professora, não há uma orientação pedagógica direta para as crianças com TEA. Assim, muitas dessas atividades não são associadas aos assuntos que a turma está trabalhando, ou seja, são desvinculadas e utilizadas meramente para a ocupação desse alunado. Evidenciamos que é necessário se compreender a heterogeneidade dos indivíduos com TEA, para que a inclusão seja bem-sucedida, favorecendo o desenvolvimento integral desses discentes. Infelizmente, durante esta pesquisa, pudemos perceber um certo “alívio” por parte de alguns educadores e gestores, no que se refere às crianças que possuem diagnóstico ou seja, as crianças laudadas, como comumente os rotulam. Pois, nestes casos, geralmente esta parcela do alunado se torna imediatamente o público alvo do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que por sua vez, não é computada nas avaliações externas,pois, seus resultados não são considerados no rendimento final da instituição. Institucionaliza-se assim, o caráter excludente das avaliações externas. Infelizmente, a pesquisa comprovou que os resultados das instituições cearenses, em algumas dessas avaliações externas em larga escala, estão diretamente relacionados com o recebimento de uma premiação ou verba extra. De acordo com Silva, Silva e Trompieri Filho (2017, p. 198), “[...] o que acontece, principalmente em escolas que tiram baixas notas, é que as verbas que recebem são reduzidas e, muitas vezes, precisam de apadrinhamento de outras escolas no período em que mais precisam [...]”. Diante dessa realidade, é indispensável para as instituições escolares que os estudantes alcancem o rendimento satisfatório nas avaliações. A elevada preocupação com o rendimento dos estudantes nas avaliações externas é reflexo de uma pedagogia centrada nos resultados finais e não na aprendizagem e no desenvolvimento integral dos discentes. Há ainda por parte dos órgãos normativos e secretarias, a preocupação com a elaboração e divulgação de rankings, que por sua vez, revelam o desempenho de cada instituição escolar e consequentemente com as premiações (verbas) a serem recebidas pelas respectivas instituições. Nesse sentido, Silva, Ribeiro e Nascimento (2017) descrevem como o resultado de uma dessas avaliações é organizado: Os resultados são agrupados em cinco padrões de desempenho [...]. Cada padrão é representado por uma cor, sendo o inferior (não alfabetizado) representado pela cor branca, e o superior (desejável) representado pela cor verde escuro (p. 244). Por isso há uma grande preocupação e uma supra valorização das estratégias para se alcançar a tão desejável “cor verde escuro”. Assim, analisando as observações realizadas na escola, é nítido que existe, factualmente, uma enorme distância entre a inclusão idealizada e a inclusão realizada pelas instituições escolares. Identificamos que as crianças com TEA não participam dos momentos de atividades direcionadas para as avaliações em larga escala e que a inclusão desses discentes limita-se a mantê-los ocupados, evitando as dispersões dos demais estudantes. No entanto, salientamos que a participação das crianças com TEA nas avaliações externas em larga escala são, de extrema importância, pois, conforme assinala os autores Sales e Viana (2017), concordamos que: [...] a ideia de escola inclusiva não se explica unicamente pelo aceite da matrícula de alunos com deficiência, mas na reconstrução da cultura escolar com o objetivo primeiro de superação dos princípios da pedagogia tradicional, permitindo, assim, a criação de condições para a aprendizagem e o desenvolvimento de todos os discentes (SALES; VIANA, 2017, p. 330). Depreende-se que, a participação de autistas nas avaliações externas em larga escala são fundamentais para a compreensão da aprendizagem e desenvolvimento dos discentes com TEA. Portanto, faz-se necessário que tais avaliações respeitem as diversidades sociais, culturais e comportamentais dos estudantes. Para que, dessa forma, a inclusão não seja limitada ao ato de matricular os estudantes com TEA nas instituições escolares. 4 Considerações finais A partir da análise dos dados coletados, percebe-se o descompasso existente entre a inclusão de crianças com TEA e o processo avaliativo em larga escala, uma vez que, as avaliações externas assumem um caráter classificatório que desconsidera o desenvolvimento integral dos educandos, não respeitando também o tempo e o ritmo de aprendizagem. Reconhecemos que as avaliações em larga escala são importantes e servem para direcionar as tomadas de decisões, tanto no âmbito político educacional quanto pedagógico. Porém, deveriam assumir um caráter mais inclusivo e não apenas classificatório e excludente. Por conseguinte, os resultados obtidos através destas avaliações devem nortear o direcionamento do sistema educacional, possibilitando reflexões sobre as ações pedagógicas, visando transformar a realidade educacional, a partir dos resultados apresentados. Outrossim, tanto as avaliações externas, como as políticas educacionais, devem promover igualdade de condições de participação para os educandos com TEA. Referimos ainda que não há uma fórmula para a inclusão de crianças com TEA. Porém, se faz necessário uma compreensão quanto à heterogeneidade dos sujeitos com autismo. Assim, é essencial que aos educandos envolvidos no TEA, seja concedido o direito de participarem das avaliações e das atividades propostas pela instituição escolar, no entanto é fundamental que essas avaliações e atividades sejam adequadas às condições dos educandos, respeitando as particularidades de cada discente, para que assim seja possível o desenvolvimento global, do contrário, as avaliações externas apenas revelarão seu caráter excludente que não se preocupa com uma educação de qualidade para todos e com todos. Compreendemos que o assunto em evidência ainda necessita de outros estudos que possibilitem um aprofundamento, fazendo-se necessários outros estudos, para que possamos compreender as concepções de inclusão e possamos assim exigir avaliações que possibilitem a participação de todo o alunado, posto que todos são potentes e devem desenvolver integralmente. REFERÊNCIAS BRASIL. Política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. 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A INCLUSÃO DE PESSOAS COM AUTISMO NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: desafios e possibilidades1 Dulcimar Lopes Carvalho 1 Considerações iniciais A inclusão de pessoas com autismo é um tema que vem ganhando espaço nas produções científicas e que vem sendo discutido de forma mais frequente após a criação da Lei nº 12.764, de 2012, que concede legalmente às pessoas com autismo os mesmos direitos das pessoas com deficiência. Atualmente, no Brasil, as pessoas com autismo têm reconhecido, pelo menos legalmente, o direito à educação e à inclusão escolar. A referida Lei institui a Política Nacional de proteção aos direitos da pessoa com transtorno do espectro do autismo (TEA), denominação atual do autismo. O acesso das pessoas com autismo ao ensino regular é, portanto, muito recente, visto que, historicamente, elas permaneciam segregadas em instituições especializadas e não tinham acesso à escolarização formal. Em se tratando da inclusão na educação superior, o tema é ainda mais recente, para não dizer quase escasso, visto que, na revisão bibliográfica realizada durante a pesquisa que serviu de base para este artigo, em três bases de dados científicos: Scielo Educa, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e no banco de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), não foi encontrada nenhuma pesquisa publicada até a data de conclusão da pesquisa supracitada. Escolarizar, portanto, é diferente de incluir. Na inclusão educacional está contida a escolarização, porém nem sempre, no processo de escolarização, há a inclusão. A aprendizagem também não acontece só no espaço escolar; ela pode acontecer em diferentes espaços e contextos. Assim, escolarização também é diferente de educação. A educação tem um sentido muito mais amplo e envolve muitas relações, além daquelas que se encontram no ambiente escolar. Mas o que é inclusão? A palavra inclusão, segundo Farias, Santos e Silva (2009), vem do latim, do verbo “includere”, e significa colocar algo ou alguém dentro de outro espaço. Porém, a inclusão vai muito além desse conceito, pois estar incluído é muito mais do que uma presença física. Implica um sentimento de pertencimento, isto é, a pessoa sentir que pertence àquele espaço e, no caso da escola, não se trata simplesmente de inseri-la no ambiente educacional. Isso é apenas inserção, não inclusão. Inclusão, segundo Silva (2012), é uma política que busca atender as necessidades educativas especiais de todos os alunos em salas de aula comuns, em um sistema regular de ensino, de forma a promover a aprendizagem e o desenvolvimento pessoal de todos. A escola e a educação, contudo, se encontram atualmente muito aquém dessa realidade de inclusão citada pela autora, visto que ainda apresentam dificuldades de incluir em salas de aula comuns até mesmo os alunos que não apresentam necessidades educativas especiais, promovendo sua aprendizagem e seu desenvolvimento, considerado “normal” pela sociedade como um todo. 2 Fundamentação Teórica 2.1 O processo de escolarização das pessoas com autismo na escola regular/ educação superior Conhecer como as pessoas com autismo acessaram a escola regular pode ajudar a compreender como o processo de inclusão acontece nesse espaço escolar, com seus desafios e possibilidades. Em relação aos educandos com autismo, nos últimos anos, segundo pesquisas realizadas por Serra (2008) e Lazzeri (2010), os números estatísticos revelam um aumento expressivo de casos de inserção desses educandos no ensino regular, mais especificamente na educação básica. Esse número, conforme Lazzeri (2010), passou de 64.781, em 2007, para 93.900 em 2008. Pode-se inferir, portanto, que esses educandos estão começando a acessar também a educação superior, e os números de matrículas nesse segmento tendem a crescer a cada ano. Foi, portanto, a partir de 2005 que o Censo Escolar começou a identificar as matrículas de estudantes com autismo, partindo de 10.053 matrículas em 2005 e atingindo 72.410 matrículas em 2012, com um crescimento de 620%, sendo 84% das matrículas no ensino regular. Essa evolução é demonstrada nos gráficos a seguir: Gráfico 1 – Registro das matrículas de estudantes com autismo (2005-2012) 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Total 10.053 11.215 90.528 120.346 59.480 65.274 66.020 72.410 Matrículas em Escolas Regulares/Classes Comuns 2.930 3.702 65.090 94.004 48.654 53.156 55.097 60.663 Matrículas em Escolas Especializadas e Classes Especiais 7.123 7.513 25.438 26.342 10.826 12.118 10.923 11.747 Fonte: MEC/Inep (2012). Observa-se no Gráfico 1 o declínio considerável das matrículas nas escolas especiais e, consequentemente, o aumento das matrículas na escola comum. Dados específicos referentes às matrículas de estudantes com autismo começaram a ser registrados em 2009. Assim, o Censo Escolar MEC/Inep denota evolução nas matrículas de estudantes com autismo, de 65.117 em 2009 para 97.716 em 2015, representando crescimento de 50%. Nas classes comuns do ensino regular, verifica-se um crescimento de 56%, passando de 53.859 estudantes em 2009 para 84.012 em 2015. Apesar desse crescimento no número de matrículas, observa-se que a inclusão educacional não acontece com a mera inserção dessas pessoas na escola. A inclusão não acontece por força das leis, pois quem inclui são as pessoas. Uma escola realmente inclusiva precisa ser mais do que um espaço para convivência. Precisa possibilitar a aprendizagem dos conteúdos socialmente e culturalmente valorizados. Isso só poderá se concretizar a partir da atenção às peculiaridades de aprendizagem e desenvolvimento da pessoa com autismo. No ensino superior ainda há poucos registros sobre o acesso das pessoas com autismo, pois por muito tempo, historicamente, elas ficaram segregadas, sem acesso à escola. Elas permaneciam em casa ou segregadas em instituições especiais. Assim, mesmo a mera inserção das pessoas com autismo nas escolas de educação superior vem ocorrendo há poucos anos. O que se percebe na prática de nossas escolas é que o trabalho educacional, quando existe, ainda está pautado em um modelo médico, e não educacional e social, e ainda há a crença de que as pessoas com autismo não são capazes de aprender e se relacionar com as outras pessoas, dada as dificuldades de interação que ora possuem. Além disso, as pessoas temem pelo contato com elas, de que sejam agressivas e outras crenças errôneas que acabam dificultando e até impedindo que a aprendizagem aconteça. Isso graças a um diagnóstico médico e imutável que determina quem poderá ou não aprender, dentro de uma padronização de sintomas e características próprias da síndrome, mas não para todas as pessoas de igual forma. Cabe pensar aqui até quando a escola irá ceder o espaço da educação para a saúde e permitir que o poder médico impere dentro dela comosaber único e inquestionável (ORRÚ, 2017). Precisamos nos apropriar do que é nosso e do que realmente nos cabe dentro da educação. 2.2 O processo de inclusão de um estudante com autismo na educação superior: um estudo de caso O caso aqui retratado é de um jovem de 21 anos de idade, diagnosticado, depois de inúmeras idas e vindas em diversos médicos e especialistas, através de uma busca incessante, especificamente pela sua mãe, com síndrome de Asperger, hoje conhecida como autismo de grau leve. A mãe retrata os desafios enfrentados nesse processo e as particularidades do estudante, que são próprias de cada pessoa e não estão ligadas necessariamente a nenhuma deficiência, doença ou transtorno. A mãe, em seus relatos, conta que logo que o filho nasceu, percebeu peculiaridades que não eram próprias às crianças de sua idade, especificamente nas questões da fala e também relacionadas à interação social. A mãe conta que o filho tinha aversão às mudanças de rotina, a alimentação era restrita e limitada a poucos tipos de alimentos, tinha aversão a barulhos e dificuldades de interação até mesmo com as pessoas da família. Segundo ela, o filho não apresentava todos os sintomas do autismo clássico, como, por exemplo, o comprometimento intelectual, as dificuldades na fala e até mesmo a forma de demonstrar os sentimentos. A mãe conta que, diferentemente das crianças com autismo, o filho era carinhoso, dominava muito bem a língua e não apresentava nenhuma dificuldade intelectual. O autismo pode apresentar diferentes formas de manifestação que não se encaixam no dito “autismo clássico”. Algumas pessoas, assim como o estudante retratado neste artigo, podem não apresentar as mesmas características típicas da síndrome. As pessoas são únicas e possuem diferenciações e múltiplas possibilidades. A mãe mencionou que se sentia culpada pelos problemas do filho: A mãe, ela tem uma tendência a se culpar... “O que será que eu fiz durante a gravidez que desencadeou isso?” Primeira pergunta que vem na cabeça. Aí fui pesquisar... e fui ver que... ah, uma gripe muito forte durante a gravidez pode ter algum problema neurológico no feto. “Nossa... Passei muito mal na gravidez...”, aí tu já começa, “se eu tivesse me cuidado mais...” Conforme Schimidt e Bosa (2003), a mãe é o genitor que apresenta maior nível de tensão física e psicológica em virtude de que a demanda dos cuidados com a criança recai, em sua maioria, sobre ela, o que acaba levando-a a esse sentimento de culpa. A família como um todo passa por momentos que envolvem muitos sentimentos ambíguos e até contraditórios, que se alternam da negação até a aceitação, o que pode levar muito tempo para acontecer, visto que há uma mistura de rejeição, culpa e angústia, além da insegurança de não saber exatamente o que está acontecendo. Com a superação dessa fase é que acontece a busca por informações. Por isso, quanto mais demorado for esse processo de aceitação, mais demorada será também a busca por informações e intervenções necessárias. A mãe conta que o filho sempre teve acompanhamento de vários profissionais desde a infância, como fonoaudiólogos, neuropediatra, psicopedagogos, psicólogos, terapeutas educacionais e psiquiatras, além de avaliação interdisciplinar realizada pela escola privada que frequentou por vários anos. Acredita-se que esse fato contribuiu muito para que o estudante conseguisse chegar à educação superior, pois foi o que proporcionou a ele a condição de ter acesso a um acompanhamento multiprofissional, possibilitando-o avançar em seu nível de desenvolvimento inicial. Sobre isso, Orrú (2010) afirma que o apoio psicopedagógico e o atendimento de outros profissionais da saúde são imprescindíveis para que o aluno com autismo tenha um desenvolvimento e desempenho com qualidade na escola. A mãe fala, com certo alívio, do diagnóstico. Para ela, isso representou um momento positivo após tantas buscas por respostas que ela finalmente encontra. Assim, ao ser indagada sobre o que mudou após o diagnóstico, a mãe responde: – Ah..., O que muda é que pelo menos tu sabe que caminho percorrer. Mas tem também a questão do preconceito... Na fala da mãe, pode-se perceber as duas vertentes que podem ser apontadas pelo diagnóstico: a que aponta caminhos e a que produz o preconceito. O diagnóstico pode, também, ser altamente negativo quando é atrelado a uma classificação estática e imutável, que determina as atitudes e práticas educativas e pedagógicas que são tomadas em relação a essa pessoa. Orrú (2013) discute que a supervalorização do diagnóstico é um fator importante de condução ao fracasso escolar de crianças com diagnóstico de autismo. Segundo a autora, o perigo está na crença de que no diagnóstico possam ser encontradas as principais respostas para o tratamento da pessoa, podendo levar os profissionais da educação e familiares à subestimação do potencial de cada um, que é singular e não pode ser determinado por padrões homogêneos e classificatórios. A autora pontua que o diagnóstico é universal, mas as diferenças são singulares, e por isso elas não podem ser avaliadas mediante algo que supervaloriza o déficit, a doença e a incapacidade, ou seja, o biológico não tem o poder de ditar as regras sobre o social, o cultural e principalmente o singular das pessoas. Muitas vezes é o diagnóstico que acaba dificultando a interação da pessoa com deficiência, pois após o diagnóstico essa pessoa é vista como alguém que possui um déficit, uma anormalidade, e não uma pessoa com possibilidades e singularidades. O ser humano é, portanto, repleto de possibilidades que muitas vezes não são conhecidas e tampouco valorizadas e exploradas. No caso das pessoas com autismo, muitas delas apresentam habilidades específicas em muitas áreas que podem auxiliar em outras nas quais apresentam dificuldades, como é o caso do estudante com autismo. Como todo mundo, as pessoas com autismo apresentam habilidades e dificuldades que precisam ser conhecidas e trabalhadas. Nesse sentido, a mãe conta que o acesso à educação superior foi um processo relativamente tranquilo, pois ele tinha muita facilidade com as questões da linguagem: escrevia e falava muito bem, lia muito e demonstrava muito interesse pelos livros, enfim, demonstrava dificuldades de relacionamento, mas facilidades com línguas. A maior dificuldade relatada pelo estudante foi nas relações sociais, ter que lidar com novas pessoas e situações. Essa é uma das principais contribuições que a escola pode dar às pessoas com autismo, pois é nas relações com os outros que elas podem encontrar o suporte para enfrentar a dificuldade que ora possuem de comunicação e interação. As relações sociais podem promover transformações no desenvolvimento; logo, as pessoas com autismo poderão desenvolver diferentes possibilidades de aprendizagem a partir das relações (ORRÚ, 2013). De acordo com os relatos das professoras da educação superior, o estudante apresentava um comportamento muito diferente do comumente esperado: movimentava-se muito, tinha dificuldades em aceitar regras, ausentava-se muito da sala etc. Porém, os colegas e professores o acolheram de tal forma que essas dificuldades foram sendo atenuadas ao longo do curso. Com a ajuda dos colegas e professores e também com a participação ativa do estudante no curso, com muita vontade de aprender e de se desenvolver, o estudante conseguiu atingir, com muito sucesso, os objetivos do curso, sendo apontado pelos professores como um dos melhores alunos do curso, segundo as suas expectativas. Torna-se importante lembrar que, como seres sociais que somos, estamos a todo momento buscando corresponder às expectativas sociais que ditam o que se pode ou não fazer e quem se deve ou não ser. Aqui cabe uma profunda reflexão a respeito das terapias que visam a modificar ou mesmo extinguir os comportamentos que a sociedade considera desadaptativos, apresentados pelas pessoas com autismo. É preciso repensar por qual motivo essas terapias visam à modificação ou à extinção desses comportamentos. Seé para promover o bem-estar das pessoas com autismo, por que elas não estão se sentindo bem com esse comportamento ou por que as pessoas ao seu redor estão incomodadas ou não aceitam esses comportamentos? Se for por esse motivo, esse tipo de terapia está a serviço da sociedade no atendimento às suas expectativas, e não à pessoa com autismo. Estar a todo o momento buscando atender às expectativas sociais pode causar adoecimento nas pessoas e não devia, portanto, ser reforçado em nenhuma terapia que vise à saúde ou ao bem-estar pessoal. A família precisará enfrentar, com firmeza, diversas situações que porventura ocorram em relação à manifestação desses comportamentos considerados desadaptativos, com vistas ao bem-estar e desenvolvimento da pessoa com autismo, independentemente do que a sociedade espera que ela seja ou faça, o que pode ser extremamente difícil. 3 Considerações finais A inclusão é um processo complexo, que demanda esforços múltiplos de todos os envolvidos na educação e especialmente uma intensa reformulação na formação de nossos professores, incluindo novas metodologias, formas de avaliação diferenciadas e principalmente uma desmistificação da deficiência e de quem são essas pessoas, com suas reais possibilidades. As dificuldades no processo de inclusão não são apenas dos alunos, mas resultam, em grande parte, do modo como o ensino é ministrado e de como a aprendizagem é concebida e avaliada. Ainda hoje o que vemos é que há uma dificuldade das pessoas em conviver com a diversidade, sendo vista como um “problema” a ser enfrentado, e não como uma condição subjetiva da pessoa. Estendendo essa situação para o âmbito educacional, verifica-se que há, também, uma dificuldade por parte da escola e de seus agentes em lidar com a diversidade, tornando-se muitas vezes elitista e segregadora, quando separa e classifica segundo rígidos padrões de “normalidade”. Portanto, para a efetiva implementação da inclusão na educação, faz- se necessária uma profunda reorganização escolar que requer, entre outras medidas, nova infraestrutura e a construção de novas dinâmicas educativas. Cada pessoa possui interesses e habilidades diferenciadas e necessita, portanto, de métodos e estratégias de ensino também diferenciadas, e isso requer uma mudança profunda a fim de transpor o modelo de organização escolar pautado na e para a homogeneidade. Enquanto esse modelo existir, haverá a presença de barreiras que restringem o acesso e a permanência das pessoas com autismo nos espaços escolares. É preciso, também, que os professores revejam esse discurso do “despreparo”, pois há muito tempo já existem as políticas de inclusão, materiais publicados, eventos realizados, além de vasta bibliografia nessa área. Porém, essa suposta preparação nunca estará completa. Ela se constrói a cada dia, com cada desafio. No caso das pessoas com autismo, o ambiente educacional favorece muitas aprendizagens, muito além da aquisição de conteúdos pedagógicos, que residem principalmente nas interações com os pares que proporcionam a esses educandos infinitas possibilidades de trocas afetivas, sociais e culturais. A comunicação também é favorecida e ampliada à medida que se intensificam essas relações. O papel e as expectativas da família também influenciam muito no processo de inclusão das pessoas com autismo. Ela exerce influência estruturante no desenvolvimento das crianças, oferecendo estabilidade social, senso de identidade, apoio emocional e consequentemente a segurança de que elas precisam para vencerem suas dificuldades. A família constitui fonte de experiências e realizações, mas também de fracassos, caso não consigam cumprir esse importante papel. O estudo de caso apresentado neste artigo mostra claramente a importância do papel da família, representado pela mãe, nos progressos e avanços que o estudante obteve ao longo de sua escolarização até chegar à educação superior. Foram muitos os desafios, mas as possibilidades foram maiores à medida que professores e colegas acolheram o estudante e acreditaram em sua capacidade de aprender e de se relacionar, mesmo dentro das dificuldades que o autismo lhe trazia nesse sentido. O autismo não define a pessoa, mas é definido por ela. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Fixa Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996. Disponível em: portal.mec.gov.br. Acesso em: 29 ago. 2017. CENSO ESCOLAR. MEC/Inep. Disponível em: portal.mec.gov.br/sinopse_ educaçao_superior_2012. Acesso em: 3 fev. 2016. FARIAS, Iara Rocha; SANTOS, Antônio Fernando; SILVA, Erica Bastos da. Reflexões sobre a inclusão linguística no contexto escolar. In: DIAZ, F.; BORDAS, M.; GALVÃO, N.; MIRANDA, T. (org.). Educação, deficiência e contexto social: questões contemporâneas. Salvador: Edufba, 2009. LAZZERI, Cristiane. Educação Inclusiva para alunos com autismo e psicose: das políticas educacionais ao sistema de ensino. 2010. 111 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria-RS, 2010. ORRÚ, Sílvia Ester. O perigo do diagnóstico: Rótulos introdutórios ao fracasso escolar de crianças com autismo. Revista Eletrônica Gestão e saúde, v. 4, n. 1, 2013. ORRÚ, Sílvia Ester. O re-inventar da inclusão: os desafios da diferença no processo de ensinar e aprender. Petrópolis-RJ: Vozes, 2017. ORRÚ, Sílvia Ester. Síndrome de Asperger: Aspectos científicos e educacionais. Revista Iberoamericana de Estudos de Education, n. 53, 2010. SCHMIDT, Carlo; BOSA, Cleonice Alves. A investigação do impacto do autismo na família: revisão crítica da literatura e proposta de um novo modelo. Interação em Psicologia [on-line], v. 7, n. 2, p. 111-120, jul./dez. 2003. SERRA, Dayse. Entre a esperança e o limite: Um estudo sobre a inclusão de alunos com autismo em classes regulares, 2008. 127 f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2008. SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mundo singular: Entenda o autismo. São Paulo: Fontanar, 2012. FAMÍLIAS DE PESSOAS COM AUTISMO: onde está realmente localizado tanto estresse? Patricia Trigo Sumara Frota do Nascimento Jefferson Falcão Sales 1 Considerações iniciais A literatura acadêmica possui muitos artigos que falam do autismo, possíveis causas, formas de tratamento e estratégias diferenciadas para lidar com os problemas de comportamento. Quando se trata de filhos com deficiência, a pena e a empatia se misturam. Uma criança com autismo não tem traços característicos que compõe a síndrome. O duo do diagnóstico são: dificuldade de comunicação sociais e as estereotipias e comportamentos repetitivos. Uma crise gera olhares curiosos, impiedosos e questionamentos sobre a educação que aqueles pais passam para a criança. Uma família que tem uma pessoa com autismo é muito suscetível ao estresse. Alguns artigos foram publicados sugerindo uma diversidade de fatores que podem agravar ainda mais o caso. Urge pensar em alternativas para que a criação de um filho autista fique mais leve para todos. Serviços de cuidador temporário, feito com treinamento específico para a criança com TEA, pode ser uma alternativa. Se a família não tem um parente para ficar com a criança para que os pais saiam para um cinema, um jantar ou uma festa, contratar serviços de empresas especializadas em cuidadores pode ser uma saída. É importante, porém, que a família conheça o funcionário antes, que utilize seus serviços estando um parente em casa para que saiba, com certeza, se houve vínculo entre o adulto e a criança. Uma vez confiante, o casal pode, enfim, delegar ao cuidador temporário algumas horas de cuidado à criança para relaxar. Esse artigo tem como base demonstrar as causas dos estresses em familiares com pessoas com autismo, é importante conhecer tais causas para que as famílias venham preparar-se para amenizar ou evitar alguns estresses. O trabalho aqui apresentado é fruto de uma pesquisa com famílias com pessoas com autismo. 2 Famílias com autismo: explanação da pesquisa A pessoa com autismo é muitosensível, então, facilmente, ela consegue absorver quando o seu cuidador está estressado, como diferenças no tom de voz, mudanças posturais e irritabilidade acentuada. Essa bola de neve, com as frustrações de todos maximizadas, gera nessa relação entre cuidador e ser cuidado muita impaciência e insegurança. Algumas crianças têm dificuldade de dormir. Umas podem dormir muito tarde e outras ter uma noite de sono irregular. Não ter uma noite tranquila e sem interrupções causa fadiga e irritabilidade. Durante a última semana de fevereiro do ano de 2019, foi disponibilizada uma pesquisa on-line onde foram listados 17 fatos que uma família, que tenha uma pessoa com autismo, enfrenta. Não houve estipulação de faixa etária dos pais, das pessoas com autismo ou da gravidade do espectro. A grande maioria das respostas veio de famílias que residem em Fortaleza, Ceará. É a primeira pesquisa voltada especificamente para esse público e capaz de sinalizar quais são os limítrofes da rotina com uma pessoa com TEA e o que causa mais estresse nessa família. Cento e vinte e cinco pessoas responderam às perguntas num intervalo de duas semanas. Dentre os itens da pesquisa havia seletividade alimentar, uso contínuo de medicação; desregulação sensorial; falta ou escassa ajuda da família e outros; aceitação do diagnóstico; pouco suporte do cônjuge; falta de tempo e/ou energia para cuidar de si mesmo; administração das terapias (contando com profissionais, horários, tempo e trânsito); privação de sono ou noites mal dormidas; falta de momentos a sós com o cônjuge; escola: falta de preparo da equipe pedagógica; escola: bullying; abandono da carreira profissional para cuidar do filho(a) com TEA; estereotipias; crises de comportamento em público e dificuldade da criança em se comunicar. No entanto, selecionamos para destaque nessa pesquisa apenas os pontos que tiveram mais respostas com porcentagem maiores em relação ao estresse. Quando falamos em pessoas com autismo, o diagnóstico é o primeiro impacto na vida da família, pois surgem diversos questionamentos, dúvidas, conflitos interiores quando descobre. Em relação à aceitação do diagnóstico 32,00% (n=42). Como mostra o gráfico abaixo a seguir. Gráfico 1 – Aceitação do diagnóstico Fonte: Elaboração própria. Outro fator que mais sobressaiu, relacionados ao causar estresse, é sobre uso contínuo da medicação 33,6% (n=42), mesmo sendo relacionado baixo, mexe muito com a família. Como mostra o gráfico abaixo a seguir. Gráfico 2 – Uso contínuo de medicação Fonte: Elaboração própria. A dificuldade da criança em se comunicar causa estresse muito grande na família em 34,4% (n=43), pois a comunicação que quem acompanha o dia a dia entende, fora da realidade familiar as pessoas, muitas vezes, não compreendem e julgam aquela pessoa com autismo. Gráfico 3 – Dificuldade da criança em se comunicar Fonte: Elaboração própria. No entanto, as estereotipias causam pouco estresse na família, apenas 28,8% (n=36), esperava-se que as mesmas causassem estresse maior na família, mas entende-se que isso faz parte do processo. Gráfico 4 – Estereotipias Fonte: Elaboração própria. Outro fator que causa muito estresse na família é quando um dos membros precisa abandonar a carreira profissional para cuidar do(a) filho(a) com autismo, geralmente esse papel recai sobre a mãe. Porém, teve um resultado abaixo do esperado, gerando algum estresse (25,6%). Como mostra o gráfico a seguir. Gráfico 5 – Ter abandonado a carreira profissional para cuidar do(a) filho(a) com TEA Fonte: Elaboração própria. A necessidade de um dos cônjuges abandonar a carreira para ficar responsável pela rotina de terapias da criança com TEA é outra realidade. Toda vida projetada antes da faculdade precisa ser redesenhada e sonhos com novas roupagens são escolhidos. Kopruszinski corrobora com ideia de que: [...] muitas mães passam por tudo isso sozinhas, pois alguns pais acabam se separando ou não assumem a função paterna, deixando as mães sozinhas e bastante sobrecarregadas. A partir do momento que estas encontram outras mães com situações parecidas, criar uma rede de suporte muito forte, que as auxiliam a enfrentar as dificuldades do dia a dia. Portanto, se faz necessário existirem mais redes de apoio e suporte para essas mães, fazendo com que se sintam fortes para lidar com as consequências que o transtorno do espectro autista traz (KOPRUSZINSZKI, 2018). Se existissem mais empregos com flexibilidade de horários ou maior disponibilidade de trabalho domiciliar poderia ser a chave para a administração entre família e carreira. Os itens mais destacados ao nível alto de estresse foram relacionados à escola. Tanto em relação à falta de preparo da equipe pedagógica quanto ao bullying. O primeiro alcançou a estatística de 44,5% (muito estresse) (n=57). Como mostra o gráfico abaixo. Gráfico 6 – Escola: Falta de preparo da equipe pedagógica Fonte: Elaboração própria. A ausência de sensibilização da equipe pedagógica provoca uma ansiedade grande entre todos que trabalham com a criança. Ao invés de aproveitar a inclusão para trabalhar respeito e tolerância com o grupo ou encorajar os professores à pesquisa e à criatividade, as crianças com deficiência são empurradas por uma lei que não há fiscalização para as metas traçadas para aquele aluno. O bullying na escola foi outro ponto que alcançou o maior nível de estresse familiar, a pontuação maior, 46,4% (n=56). Gráfico 7 – Bullyng Fonte: Elaboração própria. Sabe-se que a escola não mudou muito durante os séculos. As cadeiras continuam enfileiradas e a quantidade de livros didáticos e paradidáticos aumentou muito. Os resultados do Enem geram uma competição desmedida entre as escolas que, em Fortaleza, onde colocam as estatísticas de aprovação e desempenho de seus alunos em outdoors ao longo das ruas da cidade. A proliferação de escolas bilíngues aumentou a sua carga horária dos alunos, com mais uma aula com exigências e rotinas. A falta de flexibilização dos currículos e a ausência de atividades para trabalhar as inteligências múltiplas gera uma robotização dos alunos. O volume de tarefas realizadas em sala e em casa leva qualquer aluno ao estresse, quiçá uma criança que precisa de motivação a mais para realizar suas atividades. A dificuldade da pessoa com TEA em participar de eventos e/ou festas teve duas representações, metade das famílias marcou muito estresse 28% (n=35). Gráfico 8 – A pessoa com autismo e sua dificuldade em particular de eventos e/ou festas Fonte: Elaboração própria. Essas dificuldades muitas vezes estão atreladas a diversos fatores, tais como: impaciência, falta de aceitação da sociedade, muitas tarefas para ser realizada, todo um processo para deslocamento da pessoa. E na maioria das vezes relaciona-se a falta de apoio familiar, pois a saída com uma pessoa com autismo gera diversas atitudes e planejamento. Assim como administrar diversas terapias com diferentes profissionais e horários levou a 48,8% (n=61) das famílias assinalarem como muito estressante. Gráfico 9 – Administrar diversas terapias: profissionais, horários, trânsito e fedbacks Fonte: Elaboração própria. O trânsito também é gerador de estresse. Ruas movimentadas, grande fluxo de motociclistas e, principalmente, exposição à violência promove insegurança. Em especial, a busca por vagas, próximas à entrada dos estabelecimentos para evitar caminhadas mais longas com a pessoa com autismo. Diante desses fatos, a pouca ou escassa ajuda da família e outros causa estresse altíssimo na família da pessoa com autismo de 42,4% (n=53). Gráfico 10 – Falta ou escassa ajuda da família e outros Fonte: Elaboração própria. Se existissem parentes e/ou uma rede de amigos para ficar com a pessoa com autismo, com certa frequência, por exemplo, teríamos pais mais calmos e energizados. E talvez, crianças, adolescentes e jovens com TEA mais flexíveis, se acomodando melhor em novos espaços com outras pessoas, participando melhor de eventos e festas. De acordo com Santos: As famílias que têmum filho com deficiência intelectual tendem há despender muito tempo e esforço para se adaptarem aos padrões de funcionamento da criança, o que torna importante indagar sobre o que os pais consideram importantes ou que tipos de apoio desejam receber para os manejos das demandas da criança com DI no cotidiano. Já é amplamente reconhecida à importância de se firmar uma parceria entre pais e profissionais para proverem o apoio necessário às crianças com deficiência, sendo este um dos elementos-chave do autocuidado centrado na família (SANTOS, 2016). No meio nuclear dessa família, ainda existem casos em que os pais têm também que ser cuidadores de avós e/ou dividir a assistência entre todos. A fusão de tantos papéis para administrar pode levar à exaustão. O pouco suporte do cônjuge também é um fator alarmante de nível de estresse 36,% (n=45), muitas vezes a mãe que fica com toda responsabilidade com a criança e, às vezes ainda surge o abandono do cônjuge quando descobre que tem um filho com autismo. Então, todo suporte a essa pessoa com autismo recai em cima de apenas uma pessoa da família, gerando assim um nível de estresse muito alto. Raras exceções. Fica claro que esses cuidadores precisam espairecer e relaxar. Gráfico 11 – Pouco suporte do cônjuge Fonte: Elaboração própria. Essa verdade é tão transparente que o fator falta de tempo e/ou energia para cuidar de si mesmo, apareceu como muito estressante 40,8% (n=51). Gráfico 12 – Falta de tempo e/ou energia para cuidar de si mesmo Fonte: Elaboração própria. A privação de sono e/ou noites mal dormidas foi apontada como muito estressante por 45,6% (n=57) das famílias. Gráfico 13 – Privação de sono ou noites mal dormidas Fonte: Elaboração própria. Diante desses dados, ficou claro que a família com uma pessoa com autismo enfrenta muito estresse. Uma rede empática de amigos, parentes e pessoas precisa ser criada com o intuito de ajudar na rotina desses pais. Oferecer para levar à escola, ou a uma terapia, já pode ajudar. Sigman (2002) enfatiza que por causa da dificuldade de se viver com uma criança com autismo, os membros de uma família frequentemente precisam de outras pessoas para falar sobre problemas específicos ou generalizados O estresse em se ter uma pessoa com TEA na família passa por consequências físicas como aumento da pressão arterial, enxaqueca, insônia até por emocionais como impaciência, medo e ansiedade. A rotina sistematizada de uma pessoa com autismo tem regras que são importantes para organizar e criar maior noção de tempo. Se a criança não for flexível, qualquer interferência pode gerar desconforto e insegurança em todos. Outro fator que causa vulnerabilidade é o aspecto financeiro. A necessidade de ter muitas terapias leva a uma administração de profissionais, horários e orçamentos. Se houver comorbidade, ou seja, se a criança tiver outros transtornos agregados ao autismo como deficiência intelectual ou transtorno de linguagem, por exemplo, a evolução é mais lenta, resultando em anos de tratamento. 3 Considerações finais Seminários voltados para atitudes práticas de manejo do comportamento para os pais e cuidadores, seria interessante. Com dicas de intervenções, essas palestras podem ajudar os pais a minimizar problemas de comportamento, reduzindo situações de estresse. Há possíveis alternativas para que o estresse dessas famílias seja amenizado, como a necessidade de um tempo reservado para o autocuidado dos cônjuges. A injeção de energia e ânimo na relação entre os pais deve ser alimentado com frequência para que o amor e a cumplicidade não morram e os dois possam ser abastecidos por novos desafios e alegria. É visível, porém, que colocar a pessoa com autismo com profissionais qualificados ou proporcionar um número elevado de terapias não é necessariamente proporcional à redução do estresse dessa família. Não há a menor possibilidade de não trabalhar com esses pais ao longo do tratamento. Nenhum resultado será tão gratificante na vida dessa pessoa com autismo do que proporcionar momentos de leveza e tranquilidade para a família dela. Não se pode deixar de lado esse dado, uma vez que os resultados de uma terapia significativa não vão surtir efeito numa família que vive somente para o autismo, sem momentos de trégua e descanso. Todo profissional que trabalha com esse público não pode deixar de conhecer esses dados. A terapia só terá efeito se for feita em comunhão com os pais, com constantes feedbacks e respondendo às perguntas destes, com orientações e estratégias. É como cuidar de uma plantinha. Não bastam adubos e água. Mas paciência, perseverança e fé. Uma vez nutrida, essa planta gera frutos e flores. E a beleza da natureza enchem a vista e a alma. Apenas uma pausa do dia para respirar e retomar as atividades, todos mais leves e energizados. REFERÊNCIAS DIAMENT, Michelle. Autism moms have stress similar to combat soldiers. [S.l.], 2009. Disponível em: http://www.disabilityscoop.com (disability scoop). KOPRUSZINSKI, Paula e Silva. O nível de stress em mães de crianças com TEA. [S.l.]: Grupo Rhema Educação, 2018. SANTOS, Manoel Antonio; PEREIRA-MARTINS, Maria Laura de Paula. Estratégias de enfrentamento adotadas por pais de crianças com deficiência intelectual. Disponível em: scielo.com.br. Acesso em: 3 mar. 2019. SIGMAN, Marian; CAPPS, Lisa. Children with autismo – a developmental perspective. Massachusetts: Harvard University Press, 2002. XI, Lu; JIAR, Yeo Kee. Parenting stress and psychological distress among mothers of children with autism. THE INTERNATIONAL CONFERENCE ON EARLY CHILDHOOD AND SPECIAL EDUCATION (ICECSE), 2011. Anais [...]. [S.l.]: Universiti Teknologi Malaysia. CONTRIBUIÇÕES DO AEE NO PROCESSO DE INCLUSÃO ESCOLAR DE UM ESTUDANTE COM TEA Francisca Anice Bezerra Lilianne Moreira Dantas 1 Considerações iniciais A partir da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva – PNEEPEI (BRASIL, 2008), a Educação Especial se reconfigura enquanto modalidade de ensino, passando a atuar como colaboradora do processo de inclusão de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, considerado seu público-alvo. No ensino regular, um dos serviços da Educação Especial apresentado por essa política é o Atendimento Educacional Especializado (AEE), serviço que “[...] identifica, elabora e organiza recursos pedagógicos e de acessibilidade, que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas” (BRASIL, 2008). Conforme a Resolução nº 04/09 que dispõe sobre as Diretrizes Operacionais do AEE na Educação Básica, este atendimento deve ser oferecido em salas de recursos multifuncionais (SRM), presente no espaço escolar, ou em Centros de AEE, no contraturno, sem substituir o processo de escolarização do ensino comum, sendo complementar. Na referida Resolução são elencadas atribuições do profissional que atua no AEE, entre elas dá-se ênfase aquelas que se relacionam ao trabalho com professores da sala comum e com as famílias: VI – orientar professores e famílias sobre os recursos pedagógicos e de acessibilidade utilizados pelo aluno; VIII – estabelecer articulação com os professores da sala de aula comum, visando à disponibilização dos serviços, dos recursos pedagógicos e de acessibilidade e das estratégias que promovem a participação dos alunos nas atividades escolares. Com a garantia prevista nos preceitos legais do Brasil a educação passa a ser direito de todos, e as crianças com autismo saem do isolamento social e chegam às escolas regulares motivando os sistemas de ensino a se adequarem para melhor contribuírem para seu desenvolvimento e aprendizagem. Percebe-se avanços quanto ao acesso, mas ainda muitas questões rondam o trabalho pedagógico a ser desenvolvido junto a esse público. Diante deste novo contexto educacional, a presença de estudantes público-alvo da Educação Especial (PAEE) no ensino comum foi sendo ampliada, entre eles, aqueles com transtornodo espectro autista (TEA), que em 2012 a partir da Lei nº 12.764, passaram a ser considerados pessoas com deficiência, garantindo direitos tais como o acesso ao ensino comum. Em face da realidade que tem se configurado nas instituições escolares, o presente artigo trata do relato de experiência de uma professora que atua no AEE junto a um estudante com diagnóstico de TEA, regularmente matriculado na rede pública de ensino de Horizonte – CE. O estudo intenciona apresentar o trabalho do AEE e sua contribuição ao processo de inclusão do estudante participante. O desenvolvimento desse estudo ancorou-se na metodologia qualitativa de pesquisa, uma vez que tomou o ambiente como fonte privilegiada de informações sobre os sujeitos, suas visões de mundo e significados como elementos importantes para a compreensão do fenômeno estudado. O método definido foi o estudo de caso, baseado na metodologia da Aprendizagem Colaborativa em Rede – ACR. Segundo Ropoli et al. (2010, p. 30), o foco desta metodologia é “a aprendizagem colaborativa, o trabalho em equipe, contextualizado na realidade do aprendiz”. Os passos de desenvolvimento deste método são: “apresentação do problema, esclarecimento do problema, identificação da natureza do problema, resolução do problema e elaboração do plano de AEE” (CAMARGO; GOMES; SILVEIRA, 2016, p. 25). O sujeito dessa pesquisa é o Benjamim2, matriculado no 3º ano do ensino fundamental em 2019, mas acompanhado na SRM desde quando era estudante do 1º ano. Para este relato, foram utilizados os dados registrados dos relatórios semestrais de acompanhamento do estudante, no período de março de 2017 a março de 2019, que correspondem do 1º ao 3º ano cursados pelo aluno. Desse período constam as informações advindas do trabalho desenvolvido durante o atendimento; informações colhidas por ocasião dos diálogos com os professores, familiares e estagiários de apoio à inclusão (EAI)3, bem como com os profissionais do centro de atendimento clínico e educacional Maria de Nazaré Domingues (CACE)4, especialistas que atendiam o estudante no decorrer desse período. Com base no estudo de caso do AEE, foi realizado o levantamento e a análise das dificuldades e potencialidades do estudante, considerando sempre o ambiente escolar e buscando na luz dos fundamentos teóricos, contribuições para a compreensão das necessidades específicas desse estudante no contexto educacional. Foi elaborada também uma proposta de trabalho para Benjamin com sugestões de intervenções a serem desenvolvidas no AEE (referente ao atendimento na SRM), através da articulação com a família, professores da sala comum, EAI e em interlocução com demais profissionais que o atendem fora da escola. 2 Conhecendo um pouco sobre o TEA A cada dia são diagnosticadas mais crianças com TEA e estas tem chegado à escola comum, mas segundo Paiva Junior (2019) “sem estudos estatísticos, o país não sabe quantas pessoas têm autismo, muito menos quantas já têm diagnóstico. Dois milhões? [...] o Brasil não tem estudos de prevalência de autismo. Não temos números oficiais”. No Brasil, de acordo com Braga (2018), os diagnósticos confirmados e notificados para TEA são em média de dois milhões de casos, mas o autor acredita que haja um percentual ainda maior sem receber o diagnóstico ou ainda com diagnóstico incorreto. Para Khoury et al. (2014), essa realidade tem sido vista nas instituições de ensino ano após ano, desde a educação infantil, [...] crianças e adolescentes com um dos Transtornos do Espectro do Autismo (TEA) têm sido identificados com maior frequência do que ocorria até poucos anos atrás. Estima-se, atualmente, que a prevalência seja de um indivíduo afetado em cada 100 pessoas, aumento significativo em relação às taxas observadas há algumas décadas (KHOURY et al., 2014, p. 6). Como assevera Belisário Filho e Cunha (2010, p. 8), as pessoas com esse transtorno “representam uma categoria na qual estão agrupados transtornos que têm em comum as funções do desenvolvimento afetadas”. Atualmente, de acordo com Bez (2014), houve mudanças na nomenclatura que passaram a englobar outros transtornos que afetam tais funções: [...] a partir da DSM-5, o Transtorno Global do Desenvolvimento passa a chamar-se Transtorno do Espectro Autista [...] que inclui, o transtorno autista (autismo), o transtorno de Asperger, o transtorno desintegrativo da infância e os transtornos invasivos do desenvolvimento sem outra especificação, conforme a DSM-5 (APA, 2014). Belisário Filho e Cunha (2010, p. 11) chamam a atenção para o fato que “os diferentes modelos explicativos do autismo, de 1943 aos dias atuais, implicaram a cada momento histórico, diferentes impactos para as famílias e para as crianças com autismo”. Como por exemplo, em relação às intervenções educacionais, algumas delas inicialmente não possibilitaram as pessoas com autismo a exposição ao meio social. O TEA é, portanto, um distúrbio do desenvolvimento neurológico que deve “estar presente desde a infância ou no início da infância, mas pode ser detectado mais tarde devido a mínimas demandas sociais e do apoio dos pais ou responsáveis nos primeiros anos” (BEZ, 2014, p. 63). Atualmente, o diagnóstico de TEA se baseia em duas áreas: prejuízo persistente na interação e na comunicação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. De acordo com Elias (2018, p. 100) a terminologia TEA, [...] apresenta uma perspectiva dimensional (espectro) para representar a grande variabilidade dentro do espectro e dentro de um continuum sintomatológico de sinais e sintomas, com as classificações de leve a severo, diferenciados em três níveis principais (níveis 1, 2 e 3, de acordo com a quantidade de auxílio necessário para desenvolver as atividades diárias). Fernandes, Tomazelli e Girianelli (2020, p. 4) explicam esta organização do diagnóstico a partir de níveis presente na DSM-5, como vemos a seguir: Nível I – na ausência de apoio, há prejuízo social notável, dificuldades para iniciar interações, por vezes parecem apresentar um interesse reduzido por estas, há tentativas malsucedidas no contato social, além da dificuldade de organização, planejamento e certa inflexibilidade de comportamentos; b) Nível Nível II – exige apoio substancial havendo prejuízos sociais aparentes, limitações para iniciar e manter interações, inflexibilidade de comportamento e dificuldade para lidar com mudanças; c) Nível III – exige muito apoio substancial, havendo déficits graves nas habilidades de comunicação social, inflexibilidade de comportamento e extrema dificuldade com mudanças. Ainda de acordo com os autores, “quanto menor o grau de comprometimento do nível, melhor tende a ser o prognóstico do paciente” (FERNANDES; TOMAZELLI; GIRIANELLI, 2020, p. 4). Assim, entende- se que as manifestações do TEA em cada sujeito dependem do comprometimento presente na condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade, entre outros fatores. Segundo Paiva Junior (2019) os estudos confirmam que o TEA: Não há só um, mas muitos subtipos do transtorno. Tão abrangente que se usa o termo ‘espectro’, pelos vários níveis de comprometimento – há desde pessoas com condições associadas (comorbidades), como deficiência intelectual e epilepsia, até pessoas independentes, que levam uma vida comum. Algumas nem sabem que são autistas, pois jamais tiveram diagnóstico. [...] O símbolo do autismo é o quebra-cabeça, que denota sua diversidade e complexidade (PAIVA JUNIOR, 2019, p. 8). Com isso fica clara a necessidade de conhecer cada estudante com TEA, pois cada um é único, com características, interesses, histórias de vidas próprias. A evolução que cada pessoa com TEA apresentará ao longo da vida estará relacionada aos estímulos feitos para seu desenvolvimento desde a mais tenra idade. Sabe-se da importância em iniciar o tratamento brevemente, mesmo que ainda não haja um diagnóstico fechado ou ainda que seja apenas uma suspeita clínica, pois quanto mais cedo começarem as intervenções, maiores serão as possibilidadesOs obstáculos à avaliação são enormes, uma vez que, aparecem desde a seleção e encaminhamento desse alunado para a identificação das respectivas necessidades específicas a serem atendidas, de modo que favoreçam a aprendizagem. É preciso salientar ainda que, a avaliação da aprendizagem desse alunado precisa contar com métodos quantitativos e normativos, para a descrição qualitativa respeitando sempre o contexto em que o sujeito está inserido (VIANA, 2009). A conquista de um modelo avaliativo para as pessoas com TEA passa por um processo reflexivo crítico a respeito da capacidade de se trabalhar de forma democrática com a diversidade individual e cultural presentes na escola, sendo imprescindível o estímulo das potencialidades do aluno na apropriação do saber. A finalidade principal da avaliação deve consistir em analisar as potencialidades de desenvolvimento e aprendizagem de todos os alunos, sejam com ou sem deficiência, considerando a necessidade dos recursos educacionais adequados para o benefício da aprendizagem. Assim, A forma como se aplica a avaliação pode causar situações desfavoráveis no tocante à evolução da aprendizagem e prejudicar inclusive a autoestima do aluno com TEA, ao contribuir para um histórico escolar insatisfatório. Diante das carências metodológicas, de um currículo rígido e padronizado, tem-se buscado compreender que este precisa levar em consideração a natureza dinâmica das necessidades dos estudantes, para que conquistem seu espaço na vida e na sociedade (daí o enfoque em aprender a aprender). Logo, as informações precisam ganhar significado e sentido para quem está aprendendo (daí a importância de se levar em conta as experiências, os interesses e o nível de entendimento do aluno) (STAINBACK; STAINBACK, 1999). Pesquisar sobre a temática é uma necessidade premente, devido a crescente demanda desse grupo, e do fato de que esses alunos ainda não encontram na escola regular atendimento apropriado às suas especificidades. Assim, o presente artigo propõe-se a revelar conhecimentos que tornem possível a construção do saber, subsidiando e alicerçando a efetivação de uma avaliação de qualidade. Nesse sentido, a pesquisa que deu origem a este trabalho objetivou, de modo geral, conhecer os métodos de avaliação da aprendizagem, mais comuns, aplicados aos alunos com TEA. De forma mais específica, objetivou-se: a) realizar levantamento bibliográfico sobre avaliação da aprendizagem de alunos com deficiência; b) Conhecer os métodos avaliativos mais comuns e c) Identificar as práticas avaliativas utilizadas para verificar o rendimento escolar. Por fim, pretende-se que a leitura deste artigo possa contribuir também para que os educadores possam se conscientizar a respeito da importância de se qualificar melhor para atender esses alunos no cotidiano escolar, buscando caminhos mais adequados para o desenvolvimento social, afetivo e cognitivo dos estudantes incluídos no TEA, com vistas a atingir os objetivos propostos para o ensino e aprendizagem. Desta maneira, na busca por consolidar este estudo, primeiramente, foi realizado levantamento bibliográfico seguido de uma revisão da literatura, objetivando nos apropriar de conceitos essenciais que fundamentaram a investigação. A presente pesquisa se baseia principalmente na concepção de avaliação da aprendizagem numa perspectiva inclusiva, como recomenda Beyer (2010), Luckesi (2010) e Hoffmann (2009) e se constitui de grande valia, pois, é premente a necessidade de pesquisas em torno da temática ora investigada, visto que, através destes conhecimentos pode-se contribuir de forma efetiva, auxiliando docentes e demais profissionais da educação no atendimento de alunos com deficiência. 2 A importância da Avaliação no decorrer da história O vocábulo avaliar origina-se do latim, oriunda da composição a-valere, que exprime “dar valor a...”. Segundo o Dicionário Aurélio Júnior da Língua Portuguesa (2011), avaliar significa “determinar o valor de, apreciar ou estimar a grandeza de algo ou de alguma coisa”. Logo, a avaliação equivale a atribuir uma recompensa ou qualidade a alguém ou alguma coisa. A avaliação não tem um fim em si mesmo, representa um meio. Desde os primórdios, mesmo antes de existir modelos teóricos de avaliação, a prática avaliativa já servia para classificar, discriminar e selecionar pessoas. Existem relatos de procedimentos avaliativos empregados na seleção de pessoas nos anos 3.000 a.C. e de exames empregados por educadores gregos e romanos. No período da Idade Média, iniciou-se um esboço para uma avaliação mais formal, através de exames orais, realizados nas universidades, como requisito para obtenção de títulos universitários, rumo à formação de professores (ESCUDERO, 2003). Na Idade Moderna, ainda sob forte influência da religiosidade da Idade Média, apareceu a Pedagogia Jesuítica, no século XVI. Os exames eram realizados de forma solenes, muitas vezes envolvendo a composição de bancas examinadoras. Em 1599, os jesuítas publicam um trabalho intitulado Ratio Studiorum, contendo um capítulo dedicado à prática de exames escritos e orais, em que definia as regras de como deveria se realizar os exames (LUCKESI, 2010). Ainda, sob influência do protestantismo da Idade Moderna, evidenciou- se, no século XVII, as ideias de João Amós Comênio (1592-1672), colaborando para a transformação da Educação europeia da época refletindo ainda nas práticas educacionais da atualidade. Reconhecido como o “pai da Pedagogia Moderna”, e por mostrar a Pedagogia como uma ciência sistematizada, aspirando uma escola que oferecesse um ambiente agradável e encantador, e eliminou os castigos corporais existentes. Sua obra mais divulgada, no Brasil é Didática Magna que convoca aos educadores e demais leitores a refletir sobre sua prática educativa de uma instituição que seja universal, que se ensinem tudo a todos. Como consequências das transformações sociais, descobriu-se no final do século XIX e início do século XX, a Psicometria ou Abordagem psicomética, que emergiu com Francis Gastón (1822-1911) e James Cattell (1860-1944), com o objetivo de revelar e instituir diferenças individuais para reconhecer suas capacidades. Desponta, a partir daí, uma forma de avaliar a inteligência utilizando métodos científicos. A testagem psicológica causou grande impacto social e foi utilizada para valorizar e classificar os sujeitos conforme suas capacidades. Com uso dos testes psicológicos, retirou-se toda a responsabilidade do sistema, da escola, e do professor pelo fracasso escolar recaindo exclusivamente sobre o aluno (ESCUDERO, 2003; VIANNA, 2000). A avaliação, sob este viés, não apresentava coerência com a instrução educacional, não satisfazia as necessidades avaliativas dos sistemas educacionais, tão pouco da aprendizagem dos educandos. O pensamento de medir a aprendizagem surge na década de 1920, com a Docimologia do grego dokimé, que quer dizer nota, considerada a corrente pioneira em aproximação com um modelo de Avaliação Educacional. A Docimologia projetou bases para uma visão sobre os métodos avaliativos e buscou superar a avaliação psicológica. Respeitada como a ciência dos exames ou da medida por exames, a Docimologia alicerçou a mensuração de aprendizagens, atribuindo valores para o que era aprendido (ESCUDERO, 2003; FURLANETTO, 2006; HADJI, 2001). Em meados de 1960, Scriven propôs o modelo de Avaliação Formativa. Percebendo que a avaliação desempenhava muitas funções, porém se centrava num único objetivo, isto é, determinar o valor ou mérito do que está sendo avaliado. Outra contribuição importante foi destingir as avaliações em somativa e formativa, em que a primeira seria realizada somente no final do processo de aprendizagem, como era sugerido por Tyler, e a segunda, durante todo o processo (FURLANETTO, 2006; VIANNA, 2000). 3 Afinal, para que serve a avaliação? A avaliação faz parte da vida cotidiana de todas as pessoas e na vida escolar não poderia ser diferente. Avaliar é indispensável à educação, sendo inerente e indissociável quandode garantir a qualidade de vida da pessoa com TEA. Sendo “o diagnóstico precoce, ainda que não definitivo” e o “atendimento multiprofissional” alguns dos direitos garantidos pela Lei nº 12.764 de 2012. Segundo Braga (2018, p. 129) os prognósticos melhores previstos para as evoluções de sujeitos no TEA são “presença ou ausência de deficiência intelectual e comprometimento da linguagem associado (linguagem funcional por volta dos 5 anos de idade é um sinal de bom prognóstico), bem como outros problemas de saúde mental”. Mas muito já pode ser feito para o desenvolvimento de pessoas com esse transtorno neurobiológico, respeitando a forma singular de seu funcionamento cerebral. As intervenções psicoeducacionais, terapias e medicamentos existentes podem favorecer maiores possibilidades de uma vida funcional, com mais qualidade e certa autonomia. Como as redes neurais podem se modificar conforme as interações com o meio, os estímulos às pessoas com TEA são fundamentais em todos os ambientes sociais, a começar com a família em casa, na escola e demais espaços. Segundo Braga (2018, p. 52): Para que o nosso processo de aprendizagem aconteça de forma satisfatória e de acordo com as demandas do meio, faz-se necessário que haja uma perfeita integridade neurobiológica associada à presença de um contexto social de fato propício e facilitador a esse processo tão complexo de desenvolvimento. Segundo a Lei nº 12.764 de 2012 que Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA, a pessoa com esse diagnóstico é considerada com deficiência e tem todos os direitos legais. Assim todas as políticas públicas voltadas a garantia dos direitos das pessoas com deficiência atendem também as pessoas com TEA. Conforme essa lei a pessoa com TEA é aquela com síndrome clínica que tem as características a seguir: I – deficiência persistente e clinicamente significativa da comunicação e da interação social, manifestada por deficiência marcada de comunicação verbal e não verbal usada para interação social; ausência de reciprocidade social; falência em desenvolver e manter relações apropriadas ao seu nível de desenvolvimento; II – padrões restritivos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades, manifestados por comportamentos motores ou verbais estereotipados ou por comportamentos sensoriais incomuns; excessiva aderência a rotinas e padrões de comportamento ritualizados; interesses restritos e fixos (BRASIL, 2012). Com os aparatos legais vigentes em nosso país fica possível um diagnóstico mais ágil para que os encaminhamentos as intervenções multidisciplinares necessárias sejam feitas o mais precocemente possível, o que favorecerá as chances de minimização dos sintomas com o aproveitamento da plasticidade cerebral durante o desenvolvimento infantil, mas que deverá continuar ao longo da vida. 3 Relatos de experiências articuladas pelo AEE na escola comum O AEE como parte integrante do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, visa entre outros objetivos, a autonomia do estudante PAEE. Partindo desta compreensão, as possibilidades e as necessidades educacionais específicas do Benjamim, estudante sobre o qual discorre o presente relato de experiência, foram discutidas com os profissionais da educação que o acompanhavam, de modo a serem elaboradas estratégias de favorecimento de sua participação e aprendizagem no cotidiano escolar. Benjamim nasceu em 17 de junho de 2009, teve diagnóstico de TEA aos quatros anos de idade e a família logo procurou matriculá-lo numa escola regular privada e a levá-lo em terapias. Inicialmente, ele frequentou atendimentos com uma psicomotricista relacional no CACE e atualmente é acompanhado pela fonoaudióloga e pela terapeuta ocupacional. A partir do 1º ano do ensino fundamental começou a estudar na escola regular pública e a frequentar o AEE na SRM que funciona nessa mesma instituição. Ainda segundo sua genitora, ele fazia uso de medicamentos indicados pela neuropediatra que o acompanhava. A partir de um trabalho colaborativo, em que todos que atuam no ensino regular e/ou na educação especial se aproximam para discutir e planejar ações para a inclusão (ROPOLI, 2010, p. 18), foi possível estabelecer o papel de cada um neste processo e como todos poderiam contribuir para que o estudante apresentasse evolução significativa em seu processo de aprendizagem e de desenvolvimento. Ainda que o foco de trabalho do professor da sala comum fosse o ensino de conteúdos relacionados às diferentes áreas do conhecimento, e o do professor da educação especial sendo complementar/suplementar à formação do estudante, tais professores precisam ser parceiros para que seus objetivos específicos de atuação sejam atendidos. Para tanto, a cada ano foi elaborado um plano de ação com as informações colhidas no coletivo e colocadas em prática com o estudante PAEE, o que também ocorreu com Benjamim. Durante os momentos de interlocução, todos os mediadores foram estimulados através de situações de aprendizagens com o intuito de melhor aproveitar as vivências, respeitando o funcionamento e as singularidades de Benjamim. Havia também o cuidado de inseri-lo junto aos seus pares, usufruindo das vivências que contribuíam para as mudanças e ganhos no seu desenvolvimento e aprendizagem; especialmente nos aspectos do comportamento, da comunicação, da linguagem e das questões pedagógicas. Inicialmente, no ano de 2017, procurou-se conhecer melhor a criança realizando uma avaliação inicial durante os atendimentos na SRM quanto as habilidades que ele já dominava, quais interesses e necessidades. E em paralelo era realizada a coleta de informações sobre ele junto à família, professora da sala comum e profissionais da área clínica. Naquele momento a turma não contava com EAI nem para o Benjamim e nem para os outros dois alunos com deficiência matriculados na turma. Nas observações iniciais, percebeu-se uma criança inteligente, que compreendia comandos simples, que demonstrava gostar da escola, mas que demonstrava dificuldades em aceitar regras, reagia com choros e gritos, apresentava dificuldades de interação, dificuldade para se comunicar, e resistente às situações de aprendizagens propostas em sala de aula, especialmente no âmbito da escrita. Quando aceitava participar, só conseguia escrever cobrindo algumas letras do seu nome e/ou palavras com letras pontilhadas, ficava sentado por poucos minutos, permanecendo a maior parte do tempo circulando pela sala de aula. Na interlocução com a professora do Benjamim no primeiro ano, a professora afirmou não saber como lidar com o estudante, alegava ter pouca experiência com alunos com deficiência e não saber quase nada sobre o TEA. Dizia não saber como despertar a atenção dele e como envolvê-lo no grupo e dar atenção as demais crianças durante as atividades em sala. Relatava o receio de contrariá-lo, colocar limites, pois temia que ele tivesse uma crise com choros e gritos. De posse de todas as informações, a professora de AEE elaborou o plano de ação anual da SRM em 2017, as atividades listadas e executadas foram as seguintes: momentos para interlocução da professora do AEE com as professoras da sala comum, com a EAI, com a família e com os demais profissionais da escola. O primeiro contato entre os profissionais da escola, a família e o Benjamim aconteceu antes do início do ano letivo, durante a semana pedagógica. O encontro foi articulado visando oportunizar à criança um contato com os espaços e profissionais da escola de forma tranquila, sem aquela agitação comum na chegada dos estudantes para o primeiro dia de aula. Dessa forma, ele poderia conhecer os espaços e as pessoas com as quais passaria a ter contato diariamente. Foi ainda possível a conversa entre as professoras e a família sobre as características e interesses da criança. Essa ação aconteceu também antes do início do ano letivo tanto em 2018 quanto em 2019. Em 2017, os momentos de interlocução entre a professora do AEE e professoras da sala comum aconteceram de maneira mais informal,com diálogos durante o recreio e o período de planejamento institucional5, e/ou durante visitas rápidas à sala de aula, quando faltava algum estudante atendido por ela na sala de recursos. A partir de 2018 a interlocução da professora do AEE com as professoras do ensino comum, inclusive com a professora do Benjamim, aconteceu de forma mais organizada. Começou em 30 de janeiro daquele ano, por ocasião do planejamento coletivo durante a semana pedagógica. Na oportunidade, a professora de AEE propôs um momento de estudos e reflexões para compreensão sobre o serviço de AEE, como era organizado, quem era o público alvo, os objetivos deste serviço e o papel da professora que realiza esse atendimento, enquanto articuladora de ações que favorecessem a participação e aprendizagem dos estudantes PAEE. Propôs ainda reflexões sobre a avaliação inicial desses estudantes e a importância de conhecer suas potencialidades e necessidades para a elaboração do planejamento individual. Durante os meses de fevereiro e março de 2018 as professoras do AEE e da sala comum conversaram no momento de planejamento institucional da professora da sala comum sobre o planejamento individual do Benjamim, em data agendada previamente. No planejamento coletivo de 24 de abril de 2018 a discussão sobre o Planejamento Educacional Individualizado – PEI dos estudantes PAEE foi discutida com todos os professores. Estes, por sua vez, se organizaram em grupos e elaboraram metas/objetivos para cada estudante PAEE. Ao final do encontro, a professora de AEE recolheu o material, digitou, acrescentou sugestões e devolveu para que cada professora analisasse e fizesse as alterações pertinentes. Para concluir esse processo, na semana de 11 a 15 de junho de 2018 houve novamente a interlocução entre a professora do AEE e as professoras da sala comum que finalizaram os PEIs, entre eles o de Benjamim. Os professores regentes I e II6, professora de AEE e coordenadoras pedagógicas ficaram com uma cópia do PEI para consultarem sempre que necessário, servindo como norteador do trabalho. Vale ressaltar que para que essa ação fosse possível, foram desmarcados os atendimentos aos estudantes PAEE na SRM durante a última semana do mês, informando aos pais que seria realizado o AEE para os estudantes através da prática colaborativa entre a professora de AEE e os professores da sala comum, nas datas pré-agendadas. Esta ação demonstra a importância do AEE acontecer não apenas nas salas de recursos, mas também em diferentes espaços da escola – de modo articulado, e não apenas exclusivamente com o estudante – como se a perspectiva do serviço fosse de cura ou de ajuste deste estudante à escola regular. O trabalho colaborativo favorece uma mudança de atitude e contribui para a redução de barreiras que são impostas pela instituição, sendo este o principal papel do AEE. Já em 2019, a Secretaria de Educação Municipal orientou que a 3ª semana de cada mês deveria ser reservada para que a professora de AEE realizasse observações nas salas de aula onde houvesse estudantes PAEE e, na semana seguinte, reunir-se com os professores das salas comuns para as trocas de informações. Neste momento, a professora que atua no AEE poderia apresentar sugestões de estratégias e recursos a serem utilizados durante os atendimentos na SRM e que poderiam ser usados na sala de aula comum. Durante estes momentos com a professora de Benjamim, essas observações e orientações foram realizadas, bem como a mediação com o EAI, em situações que favoreceram a aprendizagem do estudante. Assim tem sido feito com relação a todos os estudantes PAEE matriculados nessa escola. Consideramos essa articulação fundamental para uma inclusão efetiva, visto que a escola na qual todos aprendem faz-se com o trabalho de muitos atores. Durante os atendimentos de AEE, tanto na SRM como na sala de aula comum, foram realizadas intervenções utilizando recursos sensoriais que contribuíam com sua autorregulação, através de recursos visuais para ajudá- lo a envolver-se na rotina e facilitar a comunicação. Foram realizadas adequações das atividades, encurtadas para estimulá-lo a ficar sentado realizando-as, e ainda foram utilizados jogos para estimular algumas habilidades no processo de alfabetização. Vale ressaltar que a função desse atendimento é complementar, e que sua alfabetização acontecia prioritariamente no ensino comum. Dentre as ações planejadas e orientadas à professora da sala comum e à EAI de Benjamim pela professora do AEE, foram a acolhida deste estudante, evitando proporcionar a ele vivências que não fariam parte da sua rotina no futuro. Como por exemplo, evitando horários reduzidos para adaptação progressiva, permanência separada da turma em espaços como sala da direção, alimentação em horário diferente do restante da turma, entre outros. Ao contrário, o aluno era orientado e estimulando a participar do cotidiano escolar e das rotinas diárias. No início do dia, também era explicado para Benjamin, o que iria acontecer ao longo do dia, sempre que possível com o apoio de imagens, para que ele pudesse se envolver melhor nas atividades da rotina em sala de aula, nos deslocamentos entre os diversos espaços: na saída e retorno do recreio, na organização no horário da merenda (fila, recebimento da merenda e descarte dos utensílios utilizados), nas atividades em espaços diferenciados na escola, na saída ao final da aula, bem como na rotina pedagógica, das atividades propostas, favorecendo a apropriação das experiências pelo estudante com TEA. Ainda durante a interlocução da professora de AEE com a professora do ensino comum e com a EAI, foram realizadas sugestões de como lidar com o estudante em situações diversas em sala, quando necessário, com dicas de manejo de comportamentos inadequados, e ainda com sugestões de estratégias, recursos e mediações pedagógicas durante a realização das atividades em sala, estimulando a interação do estudante junto aos colegas de sala e de seu interesse para realizar e permanecer no desenvolvimento das propostas. Uma estratégia também adotada pela professora de AEE foi a de estimular os demais professores, EAI e família a estudarem e pesquisarem informações sobre o tema TEA. Em geral, isto ocorreu através do compartilhamento via WhatsApp e material em forma de textos, vídeos, ou ainda com informações sobre cursos on-line grátis. Todos estes atores relataram da importância deste compartilhamento, pois passaram a compreender melhor sobre alguns comportamentos apresentados por Benjamim, e ainda sobre lidar com algumas situações. Além disso, a professora do AEE articulou momentos de estudos junto aos profissionais da escola sobre práticas e estratégias que visavam a inclusão escolar durante os momentos de planejamento coletivo. Esses estudos também foram realizados nos momentos de prática colaborativa no tempo de planejamento do professor regente na escola, e em eventos como a Mostra de Experiências Inclusivas realizadas anualmente desde 2017 na escola – e que contam com a participação de palestrantes pesquisadoras abordando temáticas como TEA, dificuldades de aprendizagem, PEI, entre outros. A intenção deste evento foi de que cada professor se reconhecesse, em seu fazer, aderindo à proposta da inclusão escolar, e ainda formar uma rede de apoio e de troca de ideias, verificando diferentes possibilidades de atuação nos diferentes espaços escolares. Toda a comunidade escolar participava da mostra: gestão escolar, professores do ensino comum (regentes I e II), da sala de AEE, da biblioteca e estagiários de apoio à inclusão. Era um momento de oportunizar formação aos participantes. Com relação aos momentos específicos com os EAI, a professora de AEE acolhia cada estagiário ao chegar à escola através de uma conversa sobre o trabalho que vinha sendo realizado com o estudante que acompanharia, incluindo Benjamim. Havia orientações sobre estratégias e recursos que poderiam ser utilizados. Além deste acompanhamento, a Secretaria Municipal de Educação oferecia acompanhamentoe formação continuada (1 vez/mês – 4h/por encontro) abordando o serviço de AEE e a atuação com TEA/Autismo, entre outros temas pertinentes às práticas dos estagiários. Outra ação realizada anualmente foi a sensibilização com cada turma do 1º ao 5º ano, manhã e tarde. Estudantes e seus professores foram até a SRM, assistiam a vídeos e discutiam sobre a importância do respeito e cuidado com os colegas que têm alguma deficiência, para que eles pudessem reconhecer nestes colegas a possibilidade de participação em todas as atividades desenvolvidas nos diversos espaços escolares, junto aos seus pares. Na turma do Benjamim, os colegas eram mobilizados a serem parceiros da professora e estimularem a interação social dele durante o recreio e nas atividades pedagógicas. Belizário Filho e Cunha (2010, p. 24) confirmam a importância da inclusão na escola no desenvolvimento da criança com TEA, [...] se, por um lado, esses rituais são inerentes à rotina escolar, também o são as situações inusitadas, as novidades e surpresas [...] a escola tem se mostrado essencial por ambos os aspectos, demonstrando que a exposição ao meio social é condição de desenvolvimento para qualquer ser humano (BELIZÁRIO FILHO; CUNHA, 2010, p. 24). Nas conversas com a família, notava-se a ansiedade com relação a chegada de Benjamim à nova escola (em 2017), pela mudança na rotina e pela dificuldade na comunicação, já que ele ainda não verbalizava. Logo ficou visível a necessidade permanente da interlocução entre família e escola, o que vem sendo realizado continuamente. Faz-se necessário para que todos possam compreender as manifestações apresentadas pela criança em determinado momento da escolarização, além da família ser o elo de interlocução com o profissional da saúde junto à instituição escolar, informando a inserção de novo medicamento, alterações na medicação ou na dosagem. Dessa forma, a escola pode compreender os estados de sonolência ou agitação incomuns quando houver, e orientar a continuidade de algumas ações desenvolvidas na escola com Benjamim, como por exemplo, a organização de uma rotina. Desde a chegada de Benjamim à escola, a interlocução da professora de AEE nesse espaço foi sempre a de estimular os profissionais da escola a darem retorno à família sobre todas as conquistas apresentadas pela criança no ambiente escolar, uma vez que a família acreditava na parceira escola- família à medida que entendia o processo pedagógico do filho e percebia os pequenos avanços, que são muito significativos, especialmente para a família. A mãe do Benjamim era muito parceira e comprometida com a frequência de Benjamim nos atendimentos e na sala de aula comum. Esteve sempre aberta às orientações e sugestões dadas pela professora de AEE, seja através de conversas individuais e/ou nas reuniões de pais realizadas semestralmente na SRM. Segundo Ropoli et al. (2010), no nível da sala de aula e das práticas de ensino, a mobilização do professor e/ou de uma equipe escolar em torno de uma mudança educacional como a inclusão não acontece de modo semelhante em todas as escolas [...] há que existir uma entrega, uma disposição individual ou grupal de sua equipe de se expor a uma experiência educacional diferente das que estão habituados a viver (ROPOLI et al., 2010, p. 14). Com o trabalho realizado por todos os envolvidos no processo de inclusão, foi possível perceber resultados muito significativos. Verificou-se que a articulação da professora de AEE com a mãe, com as professoras, com as EAI e com os colegas de sala, foi acontecendo de forma satisfatória, visto que algumas sugestões e orientações dadas já foram incorporadas à prática. Verificou-se que as sensibilizações realizadas com a turma deram bons resultados, as crianças passaram a ser mais colaborativas com Benjamim, buscando interagir com ele em todos os espaços da escola. As professoras e EAI investiram mais na autonomia e independência da criança sempre acreditando que ele era capaz e, principalmente, estimulando sua participação e aprendizagem em todos os momentos da aula, considerando o currículo da turma e suas potencialidades e singularidades. Avanços significativos na aprendizagem do Benjamim também foram identificados. Nos primeiros atendimentos na SRM, quando ainda era aluno do 1º ano, ele não utilizava as cadeiras e as mesas, apresentava rejeição às atividades diretamente pedagógicas. Não identificava seu próprio nome, letras, números, as cores, e ainda não havia desenvolvido as habilidades para a alfabetização, como conseguir parear letras, e envolver-se na rotina da turma. Se distraia com facilidade e não finalizava as atividades propostas. Atualmente, nos atendimentos na SRM fica mais tempo sentado realizando as atividades propostas. Aceita usar o lápis grafite e o pincel para escrita do seu nome, bem como as letras móveis. Tem uma boa interação com a professora de AEE, brinca de esconde-esconde, de fazer bolhas de sabão, jogando boliche das letras e numerais, imitando a professora, dançando. Benjamim reconhece as vogais, escreve seu nome completo copiando da lousa, ainda com mediação, e escreve o primeiro nome sem modelo. Aceita escrever usando materiais diversos como lápis, pincel para quadro branco, letras móveis e digitando no computador. Consegue parear cores iguais, números iguais e nomes trabalhados, realiza jogos de encaixe e quebra-cabeça de poucas peças. Na sala comum, Benjamim se envolve na realização das tarefas, participa com mais concentração dos diferentes momentos da rotina planejada para a turma, com os devidos ajustes às suas necessidades, com atividades adequadas ao seu nível de aprendizagem. Faz uso de diferentes estratégias e recursos pedagógicos, com o apoio de imagens e a mediação da professora e/ou da EAI. Ele aceita melhor as regras e as negações, aceitando limites, participa de forma eficiente da rotina da turma. Também participa dos eventos escolares como o carnaval e das atividades extraescolares, como passeio ao circo. O aluno tem apresentado ganhos significativos na coordenação motora fina, sua oralidade e comunicação (resultado também das intervenções dos atendimentos no CACE). Consegue comunicar o que deseja com palavras e gestos. Já aceita manusear os livros didáticos e paradidáticos, utiliza o computador (antes não permitia nem que ligassem o equipamento) no desenvolvimento de algumas atividades, demonstrando mais interesse. A partir deste relato de experiência, compreende-se a importância do trabalho coletivo para dois aspectos principais: uma mudança de atitude dos profissionais que atuam na escola e dos demais estudantes, e no desenvolvimento e aprendizagem de estudantes com TEA. Considerando estes resultados, é notória a necessidade de os sistemas escolares ampliarem e sistematizarem a interlocução entre os professores, as formações em contexto e o fortalecimento da parceria com as famílias para a construção de uma cultura inclusiva nos espaços escolares. 4 Considerações finais A questão que suscitou este estudo, quanto a contribuição do AEE para inclusão de estudantes com TEA, estimula a continuar desenvolvendo um trabalho de articulação com os diferentes atores envolvidos no processo de inclusão. Através deste relato de experiência foi possível verificar a relevância do trabalho do AEE na interlocução com o professor da sala comum, com o EAI, e com os colegas de sala de aula e familiares. Esse dado pode ser constatado no trabalho desenvolvido com a participação de Benjamim, trazendo-lhe benefícios para sua participação e aprendizagem. A inclusão escolar, mesmo que ainda seja considerada desafiadora, precisa de parcerias e ainda de considerar diversas situações particulares. No caso de Benjamim, o estudante em questão, a mudança de EAI em seu acompanhamento devido ao contrato temporário do estagiário, dificultava a continuidade do trabalho que vinha sendo orientado. No entanto, um novo EAI, assim como um novo professor a cada ano, apresenta algumas vantagens, pois cada novo profissional terá a oportunidade contribuirneste processo de inclusão do estudante PAEE. Dessa forma, todo trabalho voltado para esse público em específico tem sua importância, ainda que sejam necessárias melhores condições de trabalho e de formação que atendam essa demanda. A presença de Benjamim tem mobilizado esforços dos diferentes atores citados, estimulando-os a ressignificarem suas práticas, proporcionando a solidariedade entre as crianças e uma formação de pessoas que veem as diferenças com respeito e que valorizam a convivência com a diversidade como uma oportunidade de valiosas aprendizagens para todos. Isto reitera a defesa pela escola pública inclusiva, de qualidade, de oportunidade, para todos e todas. Mesmo que esta ainda esteja em processo de constituição, já temos identificado avanços importantes para profissionais e estudantes, sejam eles com ou sem deficiência. A oportunidade de viver a diversidade colabora para uma formação cidadã. A Educação Especial, através do AEE, tem dado significativa contribuição para a desmitificação de estereótipos que acompanham historicamente os estudantes PAEE. A ampliação do olhar dos diferentes atores envolvidos neste relato de experiência permitiu mudanças atitudinais, garantindo a participação e aprendizagem efetiva de todos, especialmente de Benjamim. Atualmente lhes é possível compreender melhor como ele aprende, quais estratégias utilizar no ensino, e também aprender com ele. A inclusão tem se caracterizado como um processo contínuo, de quebra de paradigmas historicamente cristalizados na sociedade e consequentemente, nos espaços escolares e que, se devidamente enfrentados os desafios pelos atores envolvidos, provoca a melhoria da qualidade da educação para todos os estudantes, com ou sem deficiência, e consequentemente para a sociedade. REFERÊNCIAS BELISÁRIO FILHO, José Ferreira; CUNHA, Patrícia. 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O cenário difícil que se estendeu do século XIX até meados do século XX, não garantiu nenhuma assistência ou qualidade de ensino às pessoas que tinham um desenvolvimento não correspondente ao parâmetro estabelecido pela sociedade da época, sendo assim, os índices de insucesso escolar e desigualdade social aumentaram causando segregação na escola e na sociedade. Esse fato fez com que a escola repensasse o seu papel de proporcionar educação de qualidade para todos os indivíduos, independentemente de suas condições cognitivas, o que levou ao envolvimento de diferentes profissionais na busca de substituir a realidade desfavorável da época por mudanças significativas que possibilitassem acesso a um ensino de qualidade. Diante desse fato e das mudanças positivas que ocorreram ao longo dos anos, geralmente oriundas de reflexões a partir de estudos médicos, psicológicos, psiquiátricos, dentre outros, considera-se importante observar o processo de surgimento da Psicopedagogia, bem como, a importância da influência das intervenções psicopedagógicas voltadas para o indivíduo com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, tendo em vista que pessoas com o transtorno podem também apresentar problemas de aprendizagem e a abordagem psicopedagógica adequada pode trazer benefícios ao desenvolvimento desse público. É importante saber que o TEA também passou por uma complexa trajetória para o esclarecimento sobre o seu surgimento, tendo recebido também a contribuição de diversos estudos da área da saúde e afins, com o objetivo de compreender as características comportamentais que se diferenciavam das características já existentes em patologias da época. Salienta-se que todo esforço feito por esses estudiosos resultou na melhor compreensão do TEA em suas características e desafios, o que resultou no estímulo para compreender as contribuições que a psicopedagogia poderia trazer para o bom desenvolvimento escolar e social daqueles que estão incluídos nesse transtorno. Os avanços na prática psicopedagógica e na compreensão do TEA proporcionaram o surgimento de diferentes intervenções e de uma prática específica e investigativa de forma individualizada, que proporciona a inclusão do sujeito na família de origem e consequentemente, na sociedade, como também oferecem oportunidades de melhor aprendizagem, tanto dos conteúdos formais quanto nas simples ações cotidianas de comunicação interpessoal, que para um autista é desafiador.2 Psicopedagogia: um caminho em direção ao fim da segregação na escola do século XIX e o início de uma nova perspectiva A escola, como ambiente que favorece a aprendizagem, possui um papel social que tem dentre os seus objetivos, incentivar o respeito às diferenças e ofertar educação de qualidade a todos os educandos que fazem parte de sua comunidade. Conhecendo-se essa realidade, é possível fazer relação com o cotidiano vivenciado por inúmeras crianças e adolescentes que apresentavam dificuldades e transtornos de aprendizagem ainda no século XIX. Nesse período, o insucesso escolar atingiu um aumento significativo, fato que passou a ser atribuído à desigualdade social da época, como também à negligencia escolar com as pessoas que possuíam ‘desvio’ no parâmetro de aprendizagem e desenvolvimento naquele contexto. Segundo Bossa (2011), entendendo que o saber tem um alto valor, é necessário encontrar lugar no ciclo de produção e dominá-lo, para que se possa ter sucesso. Sendo assim, a instituição escolar foi direcionada a uma posição de significativa responsabilidade pelo acesso do conhecimento às pessoas com limitações no seu aprender, para que dessa forma, possa cumprir o seu papel social garantindo oportunidades a todos os indivíduos independente de suas condições naturais, físicas etc. Considerando o contexto relatado no parágrafo anterior, a Psicopedagogia iniciou sua jornada com o objetivo de traçar um caminho de atendimento às pessoas com dificuldades ou transtornos que geravam comprometimento na vida social e na aprendizagem. Iniciada com marcos literários vindos da Europa, em meados do século XX, contou inicialmente com o engajamento de diversos estudiosos e profissionais da área da saúde, os quais buscaram orientar os profissionais da educação e também oferecer atendimento especializado dentro das escolas públicas às crianças e adolescentes com dificuldades físicas e cognitivas. É importante ressaltar que essas primeiras iniciativas foram indispensáveis para o fazer psicopedagógico alcançasse o seu lugar de transformação na vida de crianças e famílias que necessitam de suporte complementar na sua vida acadêmica e social. Vale ressaltar que a prática psicopedagógica, que tem como objetivo proporcionar meios estratégicos para facilitar a aprendizagem do sujeito, não se concentrou na Europa, mas alcançou sua amplitude na Argentina sendo solidificada cada vez mais com a criação de centros psicopedagógicos, cursos de graduação e faculdades, e chegando ao Brasil para promover congressos, encontros psicopedagógicos e apresentações de trabalhos importantes, destacando-se ainda como uma área muito procurada como curso de pós-graduação lato-sensu. É interessante refletir que o esforço inicial de estudiosos do século XX tenha promovido o crescimento de uma área que tem representado grande diferença para o público de pessoas com desenvolvimento atípico, que outrora era estigmatizado e segregado por suas diferenças. Cumpre mencionar que a psicopedagogia teve o seu início marcado pelo olhar clínico de médicos e psicólogos, que ao estudar o histórico de uma criança visavam elaborar hipóteses para explicar as razões de suas dificuldades, como também promover a superação das mesmas através de diferentes intervenções. Porém, atualmente, além o olhar clínico da área médica ou psicológica, conta também com a prática pedagógica e interventiva, que contribui significativamente para promover a aprendizagem de crianças que apresentem algum nível de dificuldade. Segundo Fernàndez (1991), a atitude clínica marca o trabalho desempenhado nos consultórios, onde o psicopedagogo busca os conhecimentos sobre como o sujeito aprende e tem o interesse de descobrir traços orgânicos e sociais da história de vida do aprendente. Entende-se todo esse procedimento por construção do diagnóstico psicopedagógico como peça fundamental para a continuidade do trabalho psicopedagógico que pode ocorrer na instituição escolar. É importante ressaltar, ainda, que a Psicopedagogia não estagnou na prática clínica, mas continuou a oferecer atendimentos no contexto escolar. Seu trabalho institucional tem promovido a prevenção das dificuldades de aprendizagem dentro da escola, como também o uso de significativas intervenções para aqueles que possuem limitações e transtornos de aprendizagem. Além disso, o diálogo do psicopedagogo na escola também é uma realidade, pois o referido profissional oferece orientações para o vínculo saudável entre professores, pais/responsáveis e alunos, oportunidades de inclusão para a criança com deficiência em geral e orientação às famílias das crianças que frequentam a sala de atendimento psicopedagógico. Menciona-se ainda, o trabalho dialógico que o psicopedagogo realiza com toda a comunidade escolar visando o respeito às diferenças, como também proporcionando a prevenção das dificuldades de aprendizagem. Conforme Bossa (2011), o psicopedagogo atua considerando todo histórico da instituição, como também envolve todo o grupo que a ela pertence, pois tudo está associado ao existir do sujeito. Sendo assim, se pode afirmar que a prática minuciosa e investigativa desse profissional vai para além da clínica, buscando oferecer oportunidades de aprendizagem e boas interações nas escolas, nas empresas e na sociedade. 3 Transtorno do Espectro do Autismo – TEA: compreendendo o sujeito e a sua realidade Diante do avanço considerável que a sociedade vivenciou em relação ao respeito e a assistência para as pessoas com deficiência, dificuldades e transtornos, é interessante buscar compreender as relações existentes entre a Psicopedagogia e o Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, pois se sabe da importância do fazer psicopedagógico a todo aquele que possui dificuldades para se adaptar à rotina escolar e à sociedade, como também da complexidade do transtorno mencionado e o aumento de crianças com características autísticas na escola. Fundamentando-se nos fatos relatados, se acredita ter relevância, primeiramente em abordar o surgimento do TEA, as suas características e as dificuldades vivenciadas pelo aprendente, antes de investigar a atuação psicopedagógica em relação ao sujeito. Desde o início do seu surgimento, o autismo se apresentou como algo longe de ser compreendido com facilidade. As características que apareceram nos primeiros sujeitos, em nada se assemelhavam com os casos já existentes na medicina e na psicologia, sendo assim, era a esquizofrenia que caracterizava pessoas com sintomas que rompiam com a realidade. Segundo Donvan e Zucker (2017), era o comportamento esquizofrênico, amplamente aceito como doença mental, que fazia com que o indivíduo tivesse alucinações, pensamento desordenado e fuga da realidade. Dessa forma, o TEA, como hoje é conhecido: o autismo foi durante algum tempo confundido com a referida patologia. Conhecendo o contexto mencionado, se pode perceber que foram necessários diversos estudos para que o Transtorno do Espectro do Autismo – TEA pudesse ser compreendido em toda sua individualidade e complexidade, fornecendo subsídios necessários para chegar a um diagnóstico claro e assim, proporcionar atendimento adequado à pessoa que o vivencie. Conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V, o TEA é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento, que se manifesta na infância e atinge significativamente a vida escolar. É com base nessa afirmação que já se pode observar as dificuldades vivenciadas pela criança ou adolescente com o referido transtorno em uma instituição de ensino. O Transtorno do Espectro do Autismo – TEA tem como principais características, a ausência de interação social e linguagem verbal, em muitos casos, o que dificulta o desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional do sujeito. Além disso, a pessoa também pode apresentar diferentes comportamentos como: repetição de fala, o que se conhece por ecolalias, repetição de movimentos, o que se conhece por estereotipias e padrões restritos de interesses e atividades. Alémdisso, o sujeito com o transtorno pode apresentar comorbidades que vão de deficiência intelectual até distúrbios de ansiedade e de alimentação. Todas essas características tornam claro o fato de que o ambiente educacional pode ser desafiador para o progresso da criança com TEA. Entendendo que, como afirma Vygotsky (1998) a aprendizagem necessita de interação com o meio, é relevante se pensar na dificuldade de aprendizagem que o aprendente com TEA pode vivenciar na sala de aula. A barreira na compreensão dos relacionamentos, como também de atitudes básicas a um indivíduo apto para viver em sociedade pode levar com que o educando seja separado do todo, dificultando o seu desenvolvimento. Nessa perspectiva, o indivíduo com TEA pode apresentar dificuldades na percepção da funcionalidade dos objetos, ou seja, o brincar inadequado é algo comum na maioria dos sujeitos que estão no espectro. Entende-se que o ensino por meio de metodologias e recursos lúdicos facilita a aprendizagem, o que não é suficiente em si mesmo para a criança com autismo, que necessita de significativa mediação para aprender. As dificuldades decorrentes da ausência da fala também são consideradas preocupantes quando pensamos na aprendizagem de crianças com TEA. Segundo Romero (2008) apud Orrú (2009), as crianças começam a balbuciar tardiamente e não desenvolvem a fala, outras possuem um curto repertório de palavras. Atentar-se a essa realidade torna um pouco compreensível o difícil contexto vivenciados pelo sujeito com o transtorno, seus familiares e aqueles que o cercam na comunidade escolar. A criança com TEA, tendo dificuldades de verbalizar, não é compreendida no seu comunicar, sendo assim, é necessário pensar em estratégias que possam proporcionar comunicação e compreensão das necessidades da criança. Além disso, existe a necessidade do referido sujeito também perceber a rotina dos diferentes ambientes em que está inserido para que seu comportamento se torne cada vez mais adequado e saudável em sociedade, apesar de suas dificuldades. É imprescindível pensar na realidade vivenciada pela família da criança com TEA, pois ausência de interação social e verbal podem gerar dificuldades na compreensão do sujeito por parte de seus familiares. Acredita-se que esse fato pode contribuir para que os responsáveis da criança levem tempo para entender os reais dilemas que perpetuam a situação, não oferecendo a assistência adequada. É pertinente mencionar sobre a supervalorização da rotina, uma característica muito comum nas crianças com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA. Sabe-se que na escola, existe a organização de uma rotina, que por inúmeros motivos, pode sofrer alterações. Para o indivíduo com TEA as alterações podem ser razões para birras e agressões, é diante disso que se pode afirmar a necessidade de o aluno com esse transtorno possuir um cronograma que atenda a todas as suas necessidades para cada momento de sua aprendizagem. Vale ressaltar que, mudanças e a constante ruptura das rotinas podem dificultar o seu desenvolvimento na escola. Percebe-se que a criança ou adolescente com TEA possui um espectro de características e individualidades que necessitam ser estudadas para que o referido sujeito tenha acesso a uma educação acadêmica de qualidade e vida social saudável. É compreendendo a complexidade do transtorno e fazendo uso do que já se tem em conhecimento, que o psicopedagogo e diversos outros profissionais poderão atuar de maneira significativa, assertiva, contribuindo para o avanço de oportunidades ao sujeito com TEA e todos aqueles que precisam de atendimento especializado. 4 O papel do psicopedagogo frente ao sujeito com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA As dificuldades de aprendizagem e os transtornos que evidenciam significativos problemas para aprender têm aumentado no ambiente escolar. Essa situação tem gerado questionamentos em diferentes profissionais sobre como proporcionar maiores oportunidades às crianças que possuem diferença no seu desenvolvimento. É diante dessa complexa realidade, que se pode pensar, concordante ao objeto de estudo dessa pesquisa, no papel do psicopedagogo frente ao Transtorno do Espectro Autista – TEA, visto que ele é um profissional responsável por investigar as causas de a aprendizagem não ocorrer, como também elaborar hipóteses que possam explicar as razões das dificuldades no aprender da criança. Entende-se que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento considerado complexo e de comportamentos específicos. Sabendo que o psicopedagogo tem grande importância na evolução positiva no desenvolvimento de uma criança com esse transtorno é importante salientar que os procedimentos de intervenção devem ser aplicados em um trabalho multidisciplinar, ou seja, envolvendo profissionais de diferentes áreas. Essa realidade tem como objetivo proporcionar ao aprendente com TEA uma amplitude de ações que o contemplarão como um todo, sabendo que seu desenvolvimento se dará, assim, mais eficazmente. Outro ponto importante do trabalho com sujeitos com TEA é a participação significativa da família. A prática psicopedagógica tem como característica a necessidade de compreender a história do indivíduo desde a concepção até a vida escolar e rotina familiar, para que se possa elaborar métodos eficazes de intervenção, como também contribuir para a elaboração do diagnóstico. Nesse processo, de compreensão da história e dificuldades do sujeito, a família é uma das principais fontes de informações que levarão o psicopedagogo a um nível adequado de entendimento que resultará em um fazer direcionado. Na escola, se sabe que o papel do psicopedagogo é de prevenção, porém sua atuação frente ao educando com TEA busca oferecer uma amplitude de bem-estar, acolhimento, inclusão e oportunidades de aprendizagem por meio de metodologias específicas. O referido profissional deve buscar, como atitude inicial, estabelecer um vínculo de confiança com a criança e observar sua interação com o contexto educativo, o que será indispensável para as etapas posteriores. O profissional psicopedagogo participa, junto à comunidade escolar, do processo de familiarização do aluno com a escola. É relevante mencionar que o fazer psicopedagógico, sendo na escola ou na clínica, parte de uma iniciativa investigativa, ou seja, é por meio da observação que o referido profissional irá elaborar um planejamento direcionado às necessidades do seu aprendente. Defendemos que a observação contribui para o melhor entendimento do sujeito, o que é muito importante em se tratando de crianças autistas, visto que se trata de um espectro composto por diferentes estágios, que podem ser classificados como: leve, moderado ou severo. Além disso, as características comportamentais também são consideradas diversas e diferentes a cada nível. Sendo assim, o planejamento funciona como ferramenta norteadora da atuação psicopedagógica, onde visa o benefício da criança com TEA e o envolvimento de pais e professores em todo o processo. Caracteriza-se como aspectos da prática psicopedagógica: i) a entrevista com a família; ii) a elaboração da anamnese; iii) momentos lúdicos com o aprendente na sala de atendimento e iv) suporte aos professores, quando a atuação é feita de forma institucional. Acredita-se que a atenção a cada uma dessas etapas resultará no bom desenvolvimento da criança com TEA através de uma ação específica e eficaz. Segundo Cunha (2017), os alunos com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA devem receber apoio através de intervenções de caráter terapêutico, afetivo, social e pedagógico. A criança deve ser estimulada a desenvolver bons resultados do âmbito social, como também estímulos para a iniciação ou aperfeiçoamento verbal e o contato com recursos pedagógicos que irão contribuir para a sua evolução intelectual. É importante ressaltar que o fato mencionado acima também se estende à vida social do indivíduo, fora da escola ou da clínica. O psicopedagogo deve buscar conversar com os responsáveis da criança ou do adolescentesobre a importância de se manter uma rotina que estimule o progresso do aprendente nos diferentes ambientes que ele frequenta. Salienta-se que essa atitude não se caracteriza apenas pelo diálogo, mas o profissional também pode oferecer sugestões práticas de como isso pode ser feito. Um aspecto muito observado pelo psicopedagogo em relação à aprendizagem do aluno com TEA é a situação dos vínculos que a criança pode fazer nos diferentes ambientes. Compreendendo-se que as boas relações influenciam na maneira como o sujeito interage com o objeto do conhecimento, o profissional da psicopedagogia investiga as relações escolares e familiares do indivíduo. Esse procedimento busca identificar possíveis barreiras que possam estar acarretando em uma possível dificuldade de aprendizagem. São inúmeras as contribuições que o fazer psicopedagógico pode disponibilizar à pessoa com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA. Sua prática, seus estudos, suas observações e o seu diálogo com outros profissionais têm facilitado a elaboração de intervenções específicas voltadas para os referidos sujeitos. Essa realidade tem proporcionado o surgimento de um novo olhar que possibilita a interação social da criança, apesar de suas limitações. Além disso, o profissional da psicopedagogia participa de forma significativa para a ação diagnóstica, contribuindo cada vez mais para o desenvolvimento dos aprendizes, tanto para seu bem-estar, como para o de sua família. 5 Considerações finais Percorrer historicamente o caminho feito pelas pessoas que vivenciaram dificuldades de aprendizagem ou possuíam diferença do padrão social, em relação ao seu desenvolvimento, é perceber a grande contribuição que o surgimento da psicopedagogia trouxe a esses indivíduos. Contudo, é inevitável não enxergar as barreiras encontradas pela criança ou adolescente com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, visto que o mesmo faz parte do público que outrora era visto como impossibilitado de aprender ou de se desenvolver socialmente. Diante dos fatos mencionados, percebe-se importância da prática psicopedagógica para o boa evolução da aprendizagem e socialização da criança com TEA. Visto que, por meio de suporte eficaz tem participado do processo de inclusão desses indivíduos na sociedade, com sua ação investigativa, buscando sempre compreender o sujeito como um todo, considerando sua complexidade e diversidade comportamental, sempre com o objetivo de elaborar intervenções direcionadas seja para o atendimento na clínica ou na instituição escolar. Cumpre mencionar que através da Psicopedagogia, o aprendente com TEA tem sido assistido no seu ambiente familiar e educacional, visto que, parte do fazer psicopedagógico a disponibilização de orientações aos pais e professores, que convivem diariamente com o referido sujeito; necessitando obter também uma ação específica e direcionada. A busca por compreender a prática psicopedagógica atrelada às necessidades da pessoa com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA também possibilitou o reconhecimento do significativo trabalho que esse profissional tem desempenhado junto a outros profissionais, participando do levantamento de hipóteses voltadas para a elaboração do diagnóstico e corroborando para que o aprendiz tenha a oportunidade de ser mais compreendido em suas dificuldades visando a superação das mesmas. É com base no que já foi mencionado que se percebe a importância do necessário reconhecimento ao profissional psicopedagogo e à sua prática para as necessidades da criança com TEA. Dessa forma, se acredita ser possível aperfeiçoar ainda mais a ação voltada para o referido público de aprendentes, objetivando seu bem-estar, envolvimento social e evolução acadêmica. REFERÊNCIAS BOSSA, Nadia Aparecida. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 4. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. CUNHA, Eugênio. Autismo e inclusão: psicopedagogia e práticas educativas na escola e na família. 7. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2017. DONVAN, John, ZUCKER, Caren. Outra sintonia: a história do autismo. Tradução Luiz A. de Araújo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. DONVAN, John. Manual diagnóstico e estatístico de transtorno mentais. American Psychiatric Association. Tradução Maria Inês Corrêa Nascimento et al.; Revisão Técnica Aristides Volpato Cordioli et al. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. Dados eletrônicos. DSM-5. FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada. Tradução Iara Rodrigues. Porto Alegre: Artmed, 1991. ORRÚ, Sílvia Ester. Autismo, linguagem e educação: interação social no cotidiano escolar. 3. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2012. ROMERO, Priscila. O aluno autista: avaliação, inclusão e mediação. Prefácio Eugênio Cunha. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1994/1998. TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA: diagnóstico tardio e insucesso escolar Dulcinea Bandeira Soares Timbó Sabrina Soares Timbó Saulo Edson Soares Timbó 1 Considerações iniciais Muito tem se falado sobre autismo ultimamente. Ele é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento, de base neurológica e etiologia diversificada, com déficit de comunicação e interação social, muitas vezes marcado por comportamento e movimento repetitivo. Este artigo pretende proporcionar ao leitor uma visão breve quanto ao grau de complexidade que envolve o tema do autismo e as consequências que o diagnóstico tardio pode trazer para a vida escolar e social do autista. Após uma revisão de literatura, observou-se que, em alguns casos, mães e pais de autistas só recebem o seu próprio diagnóstico na fase adulta, depois de terem acesso ao diagnóstico de seus filhos. Os discursos dessas pessoas demonstram que somente então elas compreendem por que, na infância, a sensação que tinham era a de que toda criança, exceto eles, parecia ter recebido um manual de instrução que lhes ensinava como se comportar. Os pais de crianças autistas, agora sabendo-se também autistas, passam a compreender por que se sentiam diferentes na infância. Com o amadurecimento, o indivíduo autista, especialmente o de nível 17, aprende e desenvolve múltiplas habilidades, mas não sem muito sofrimento. Tornando-se adultos, passam a compreender que é possível processar informação sensorial e social – embora de forma diferente da maioria das pessoas – e gerenciar a energia social, evitando o excesso de estímulos sensoriais e encontrando um senso de identidade. Segundo dados do Laboratório de Análises Genéticas focado em Medicina Personalizada para Transtorno do Espectro do Autismo e Síndromes Relacionadas (TISMOO, 2018), a literatura científica está repleta de explicações sobre por que há uma frequência maior de homens com o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) do que mulheres. Embora alguns destes estudos tenham concluído que o cérebro masculino requer alterações menos extremas que o feminino para produzir os sintomas do TEA, há quem diga que as mulheres não estão sendo diagnosticadas corretamente. Isso acontece desde a infância, época em que as meninas costumam apresentar dois quadros: um mais grave, que acaba sendo identificado mais facilmente, já que algumas manifestações são mais expressivas e podem envolver movimentos repetitivos e atraso de linguagem, por exemplo; e outro mais leve – manifestações que, muitas vezes, passam completamente despercebidas ou estão associadas a outras condições, como o TOC e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Outro fator que dificulta o diagnóstico é que, de forma geral, garotas com TEA têm menos atitudes repetitivas e restritivas que garotos com este mesmo diagnóstico. É possível que as garotas consigam “camuflar” melhor seus sintomas, desenvolvendo estratégias de adequação a diferentes situações e até mesmo podendo imitar comportamentos de meninas neurotípicas da sua idade. Com raras exceções, o histórico de insucesso escolar quase sempre está presente na vida desses indivíduos devido à sua dificuldadede memorizar, imitar, manter contato visual e dar respostas efetivas e rápidas, entre outras limitações que se apresentam na exigência da vida escolar. Em alguns casos, o problema não é escolar, e sim está relacionado a como o indivíduo encara o aprendizado, os conceitos, os prazos, os limites de entrega de trabalhos etc. Além do insucesso escolar, o bullying na escola é uma consequência grave no diagnóstico tardio do TEA, pois a quantidade de anos vividos pelo autista estigmatizado como “estranho” é o suficiente para o desenvolvimento e o aparecimento de questões de saúde mental – incluindo a ansiedade, que é típica do autismo, e a depressão. Observa-se que 70% dos indivíduos com TEA têm algum grau de deficiência intelectual, por conseguinte, pelo menos 10% dos pacientes com deficiência intelectual também são portadores de TEA – algumas condições, inclusive, apresentam alta taxa de comorbidade (FLEURY, 2018). Ademais, essas condições podem se manifestar de forma isolada ou acompanhadas por malformações, crises epilépticas, alterações comportamentais e outros sintomas neurológicos. Onde há deficiência intelectual, normalmente há déficit cognitivo; no entanto, não podemos considerar que essa população apresente sempre um Transtorno de Aprendizagem Específico, como dislexia, por exemplo. Esses sujeitos apresentam não apenas dificuldades pontuais para ler e escrever, mas uma dificuldade estrutural, presente em vários aspectos da vida, desde as atividades escolares até as atividades diárias, corriqueiras, como os cuidados com a higiene pessoal. O diagnóstico tardio de TEA também dificulta a avaliação clínica. O próprio amadurecimento mascara o autismo, confundindo o especialista, que vê no paciente características de outros transtornos mentais, como a psicose-esquizofrenia. Nesse caso, o sintoma do diagnóstico de esquizofrenia faz referência às “reações psicóticas” em crianças (reação esquizofrênica), não apresentando designações específicas sobre o autismo (GRANDIN; PANEK, 2015). O diagnóstico diferencial da psicose e do autismo deve superar a dicotomia organogênico/psicogênico8, introduzir a incidência do discurso contemporâneo sobre o autismo e levar em conta a passagem do autismo para a psicose. Este diagnóstico, assim formulado, terá consequências clínicas sobre a direção do tratamento, em especial sobre a escuta dos pais. Esta seção do livro propõe uma leitura atenta e um olhar apurado às consequências do diagnóstico tardio do TEA, dando ênfase ao insucesso escolar, considerando a escola, depois da família, como o grande espelho e instrumento formador da personalidade humana. 2 O TEA e a escola Segundo Bastos (2018), um dos principais problemas enfrentados na escolarização de pessoas com TEA é o fato de que muitas delas experimentam dificuldades para estabelecer uma relação socializada com os outros. Nesse sentido, mais do que a chance de aprender, a escola oferece à criança com autismo uma certidão de pertinência, proporcionando-lhes o lugar de estudantes. Com a inclusão escolar, aposta-se no poder das diferentes produções discursivas presentes no ambiente da escola – assim, ela delineia, assegura e sustenta o lugar social de aluno. Entretanto, sabe-se que é penoso para o professor ter em sala de aula um estudante que está imune aos laços afetivos e ao contato social. Esses alunos não têm curiosidade pelo conhecimento e não entram no regime das relações e das trocas sociais. Dessa forma, eles participam de maneira atípica das atividades. Não se trata de um reducionismo – é preciso lembrar que nem todos os autistas apresentam as mesmas características. Porém, uma vez que se apresentam no ambiente da sala de aula, a angústia do professor é inevitável; o que não é de todo ruim, pois isso instiga a comunidade escolar a questionar e discutir as crenças pedagógicas vigentes. Kayet et al. (2002) afirmam que o estudo do desenvolvimento cognitivo nos leva a uma perspectiva da evolução da capacidade de pensar e de como a mente gera os conhecimentos a partir das experiências vividas. A forma pela qual uma criança pensa, resolve problemas e compreende o mundo torna-se mais complexa à medida que a criança vai crescendo e amadurecendo. A maturação cognitiva é necessária para a aquisição da linguagem. Alterações no pensamento modelam o curso e o nível final do desenvolvimento emocional, social e moral. Sendo assim, como se dá o processo de aprendizagem no autismo, considerando que o TEA é um transtorno de base neurológica e que estudos mostram que o cérebro autista apresenta áreas com irregularidades – como o cerebelo, a amígdala, o hipocampo, o corpo caloso, o giro do cíngulo e o tronco encefálico –, bem como o comprometimento das funções mentais superiores localizadas no lobo frontal? É importante enfatizar que nada no autismo é tão simples, mesmo em se tratando de autistas de nível 1. O insucesso escolar faz parte do histórico de indivíduos com TEA – muito devido à falta de conhecimentos sobre as bases neurológicas do autismo por parte dos educadores. Só é possível “ensinar” uma criança autista se houver aprofundamento e compreensão de como seu cérebro funciona com as irregularidades apresentadas. A concepção piagetiana diz que a aquisição de conhecimento ocorre através da relação entre o desenvolvimento cognitivo, a consolidação da estrutura neurológica de pensamento e o desenvolvimento das características hereditárias (PIAGET, 1970). Demonstra-se, assim, que existe uma relação entre a capacidade de aprender e o desenvolvimento do sistema nervoso. O que Piaget salienta é que, para haver aprendizagem, é necessário um aparato nervoso em funcionamento regular – o que, no autismo, não existe. 3 O caso L.E L.E. é um garoto de 12 anos que apresenta características comportamentais atípicas. Desde a primeira infância, demonstrou ser diferente dos outros irmãos e dos coleguinhas da escola. A mãe, após o período de negação à espera do “filho idealizado”, buscou respostas peregrinando pelos consultórios clínicos e terapêuticos. Nunca recebeu um diagnóstico preciso. Em janeiro de 2018, L. E. compareceu à clínica para uma avaliação psicopedagógica com orientação psicanalítica e neuroeducacional. L. E. não falava na escola ou na “rua”. Apenas dentro de casa – no ambiente familiar, falava normalmente. A criança estava cursando o ٥º ano do Ensino Fundamental I. Após tentativas infrutíferas de fazê-lo falar, e percebendo que ele lia e escrevia perfeitamente, a terapeuta iniciou com L. E. uma comunicação através da escrita. A criança havia desenvolvido mutismo9. L. E. gesticulava com a cabeça quando uma resposta era positiva ou negativa, apontava para um jogo de sua preferência, não olhava nos olhos e, às vezes, esboçava um leve sorriso de canto de boca. Demonstrava compreensão sobre as regras dos jogos. A cognição estava preservada. A comunicação seguia o seguinte formato: em uma folha de papel, a terapeuta escrevia “Pergunta 1”. Na folha de papel de L. E., ele escrevia: “Resposta 1”. Exemplo: Terapeuta: Pergunta 1 – Você foi à escola hoje? Ele: Resposta 1 – Sim. O discurso de L. E., às vezes se apresentava fantasioso, mirabolante. Estava clara a sua pouca habilidade e seu pouco contato com a realidade. L. E. demonstrava dificuldades em separar o real do imaginário. Em seus relatos, dizia que parou de falar porque alguém lhe dissera que sua voz era feia. Um dia, sem querer, falou a palavra “não” na frente da terapeuta e ficou visivelmente perturbado. Marcava no calendário o dia em que ele falaria com ela no consultório, mas, quando chegava o dia, ele não falava. Enquanto isso, na escola, L. E. não conseguia tirar notas além da média. Durante uma avaliação psicopedagógica, foi observado que alguns conceitos não foram totalmente compreendidos por ele, como a divisão e algumas regras gramaticais. O fato de não falar em sala de aula remete à possibilidade de que as suas dúvidas não eram elucidadas pelos professores. Na família, L. E. vivia uma relação conflituosa com os irmãos e o pai. A ligaçãosimbiótica com a mãe não assegurava aos dois uma relação tranquila. Por vezes, L. E. dizia à mãe: “Você precisa morrer”, e isso a deixava angustiada. Queria a todo custo viajar para a Argentina e se revoltava quando a mãe dizia que não era possível. Na clínica, o relacionamento entre L. E. e sua terapeuta sempre foi amistoso, tranquilo, mas sem maiores demonstrações afetivas. O abraço sempre partia da iniciativa da terapeuta. Os braços de L. E. sempre estavam pendurados ao longo do corpo. Percebeu-se, na comunicação escrita de L. E., um agravamento do quadro: havia um contexto e uma relação com o sobrenatural, com elementos místicos, e parecia perfeitamente possível que a criança estivesse sofrendo de alucinações e delírios, características de psicose infantil- esquizofrenia. A mãe relatava que ele tinha aderência a rotinas relacionadas ao uso de objetos: beber no mesmo copo, usar a mesma roupa e andar na mesma bicicleta. Isso indicava, portanto, uma característica do autismo. L.E. teve um surto no dia da sua consulta com a psiquiatra infantil, marcada em uma cidade vizinha. Ele fugiu de casa, correu pela rua. Foi contido pelo pai; na volta, ficou, durante toda a viagem, deitado no chão do carro. Ao chegar ao consultório da psiquiatra, rasgou a roupa da mãe entre gritos e movimentos de força e agressividade. A medicação começou a fazer efeito na conduta, mas não na fala. Em sua escrita, relatava que estava “nervoso e tranquilo”; achava que era “doido”. L. E. iniciou um despertar da libido, demonstrando desejo pela mãe com tentativas de toque físico. O reajuste da medicação minimizou o comportamento libidinoso. L. E. também passou a maltratar os seus porquinhos-da-índia intencionalmente e, em seguida, sentia-se culpado por isso, prometendo não repetir essas ações. E assim foi a comunicação entre L. E. e sua terapeuta, de janeiro a agosto de 2018, até que ela precisou se ausentar da clínica por motivo de viagem. Um dia, estando ela ainda em viagem, recebeu uma mensagem de áudio em seu celular. L. E. dizia: “Tia, essa é a minha voz. Eu não gostei porque você viajou. Eu te amo”. Voltando à terapia, L. E. falou normalmente, superando parcialmente o mutismo, pois, na escola, ainda não conseguia falar. Posteriormente, L. E. passou a falar também na escola, viajar a passeio e ir para consultas sem resistência. Porém, o seu diagnóstico está inconcluso. Na escola, seu rendimento não é dos melhores, mas melhorou consideravelmente. O medicamento trouxe alguns efeitos indesejáveis, como certas dificuldades nas expressões faciais. L. E. mantém um sorriso constante e fora de contexto. Diz que na escola sofre bullying e que sente vontade de rir toda hora. Em casa, apresenta comportamento “nervoso” e diz que “se o bullying não parar”, vai “morrer”. Observa-se que a criança apresenta algumas características que sugerem psicose, como perda de contato com a realidade e pensamentos persecutórios. 4 Psicose e autismo: diagnóstico diferencial Psicose é o nome dado a um estado mental patológico caracterizado pela perda de contato do indivíduo com a realidade, passando a apresentar comportamento antissocial. A psicose é uma desordem psíquica que não diz respeito ao âmbito da personalidade, mas, sim, à perda de contato com a realidade. Já a psicopatia é uma condição muito mais grave: consiste em uma desordem de personalidade. A esquizofrenia e o transtorno bipolar são alguns exemplos das psicopatias mais conhecidas que existem. Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner isolou o autismo de outras doenças mentais e descreveu cientificamente o transtorno, considerando um “caso 1”, embora haja registros de pacientes que apresentaram características de autismo já em 1901. A este transtorno, Kanner deu o nome de “Transtorno Autístico do Contato Afetivo”. Em 1956, o próprio Kanner considerava o autismo um tipo de psicose, diferenciando-o dos quadros deficitários sensoriais (como a afasia congênita) e dos quadros ligados às oligofrenias, sem delírios ou alucinações evidentes, como nos casos típicos de psicose. Desde então, há controvérsias quando o assunto é psicose e autismo. Para Fernandes (1996), o autismo infantil está incluído entre as psicoses e é considerado um distúrbio global do desenvolvimento. A sua etiologia ainda é obscura, apesar de ser objeto de estudo de muitos teóricos, principalmente no que se refere à hipótese comportamental. Laznik (2004), pautada em sua experiência clínica, não acredita que o autismo e a psicose pertençam à mesma estrutura. Ela tem como hipótese que o autismo estaria atrelado a uma impossibilidade ou recusa no terceiro momento do percurso pulsional10. De acordo com Costa e Nunesmaia (1998), o autismo infantil é uma severa desordem da personalidade, que tem como origem a relação com os outros, enquadrando-se, portanto, no campo das psicopatias. Segundo os lacanianos, para entender e classificar o autismo dentro de um perfil comportamental, é necessário ter uma leitura psicanalítica do funcionamento de um ser humano. Referem-se às três grandes estruturas – a neurose, a psicose e a perversão. Ora, como o autismo não cabe nem na perversão nem na neurose, tem de caber na psicose. Trata-se de uma escolha por eliminação. Ao estabelecer a distinção entre psicose e autismo, Laznik (2004) enfatiza: A distinção entre psicose e autismo é muito importante. Se eu não tivesse tido a possibilidade de distinguir a psicose do autismo, seria incapaz de detectar os dois sinais preditivos de um perigo de evolução autística, que têm a ver com o que chamamos, na psicanálise lacaniana, de alienação da criança na relação com o Outro. Desse ponto de vista, fala-se na necessidade da instauração da alienação como um momento positivo, sem o quê, nenhum sujeito advém à humanidade – a “falha” do autismo se dá neste registro da alienação (LAZNIK, 2004, p. 201). “Alienação com o outro” tem a ver com outro conceito: subjetivação. Segundo Touraine (2006), subjetivação é o processo de tornar-se sujeito em contato com outros sujeitos. Essa alienação deriva do que Lacan chamou de “separação”, um tempo lógico de subjetivação que permite à criança não ser psicótica. Laznik (2004) afirma que, na psicanálise, a conceituação de “sinais clínicos” permite pensar a relação pulsional com o outro. O circuito vai se formando até que a criança tenha bases cognitivas estabelecidas, desde que não haja falha nesse circuito. Entretanto, sabe-se que, no autismo, a “falha” existe. A partir dessa discussão, em torno do diagnóstico entre a psicose e o autismo, adota-se aqui, em resumo, a seguinte posição teórica, advinda de uma das direções possíveis abertas pelo ensino de Lacan: o autista está fora do campo da linguagem, enquanto o psicótico está na linguagem, mas fora do discurso. Segundo Laznik (2004), a riqueza da nosografia clínica psicanalítica consiste exatamente em distinguir a psicose do autismo, e não em confundi-los. A partir da última edição do Manual de Saúde Mental – DSM-V, que é um guia de classificação diagnóstica, todos os distúrbios do autismo, incluindo a Síndrome de Asperger, juntaram-se em um único diagnóstico chamado “Transtornos do Espectro Autista” (TEA); portanto, a psicose se trata de um outro quadro patológico. 5 Considerações finais O diagnóstico tardio do TEA traz prejuízos não apenas para as questões escolares do indivíduo – no caso, da criança –, mas também para a sua própria constituição enquanto sujeito. Para que esse processo de subjetivação aconteça, evitando que o sujeito se predisponha a desenvolver um quadro psicótico, é necessário que os circuitos cerebrais não apresentem falhas. Segundo Cody, Pelphrey e Piven (2002), no autismo existe uma irregularidade neurológica, o que torna inviável o desenvolvimento de estratégias específicas para minimizar prejuízos cognitivos, emocionais e sociais, caso não haja um diagnóstico preciso e precoce. REFERÊNCIAS BASTOS, Marise Bartolozzi. Tratar e educar: Escrita e alfabetização de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). In: MACHADO, AdrianaMarcondes; LERNER, Ana Beatriz; FONSECA, Paula Fontana (org.). Concepções e proposições em Psicologia e Educação. São Paulo: Blucher, 2018. p. 135-148. CODY, Heather; PELPHREY, Kevin; PIVEN, Joseph. Structural and functional magnetic resonance imaging of autism. Internacional Journal of Developmental Neuroscience, v. 20, n. 35, p. 421-438, 2002. COSTA, Maria Ione Ferreira da; NUNESMAIA, Henrique Gil da Silva. Diagnóstico genético e clínico do autismo infantil. Arquivos de Neuro- Psiquiatria, v. 56, n. 1, p. 24-31, 1998. FERNANDES, F. A questão da linguagem em autismo infantil: uma revisão crítica da literatura. Revista de Neuropsiquiatria, Infância e Adolescência, v. 2, n. 3, 5-10, 1996. FLEURY [Medicina e Saúde]. Deficiência Intelectual e Autismo. [S.l.], nov. 2018. Disponível em: http://www.fleury.com.br/medicos/educacao- medica/revista-medica/materias/Pages/deficiencia-intelectual-e- autismo.aspx. Acesso em: 25 maio 2018. GRANDIN, Temple; PANEK, Richard. O cérebro autista: Pensando através do espectro. Rio de Janeiro: Record, 2015. KAYET, N. Jean Piaget e Epistemologia Genética. Portal da Educação. Disponível em: www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/psicologia/jean-piaget-e- epistemologia-genetica-psicologia-da-educacao/37942. Acesso em: 15 ago. 2016. LAZNIK, Marie-Christine. A voz da sereia: O autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2004. PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. Petrópolis: Vozes, 1970. POR QUE é mais difícil identificar os sintomas do Transtorno do Espectro do Autismo em mulheres? TISMOO [Laboratório de Análises Genéticas], mar. 2018. Disponível em: https://medium.com/tismoo- biotecnologia/por-que-%C3%A9-mais-dif%C3%ADcil-identificar-os- sintomas-do-transtorno-do-espectro-do-autismo-em-mulheres- a21d4bf60c10. Acesso em: 25 maio 2018. TOURAINE, Alain. Um novo paradigma para compreender o mundo hoje. Petrópolis: Vozes, 2006. ZENONI, Alfredo. “Traitement” de l’autre. Préliminaire, n. 3, p. 101-113, 1991. REPRESENTAÇÃO DA IMAGEM DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) NA LITERATURA INFANTIL Maiara Fonseca de Alencar Barbosa Heloisa Fonseca Barbosa Robéria Vieira Barreto Gomes Maria José Barbosa 1 Considerações iniciais A construção social da imagem das pessoas com TEA, historicamente, passou por uma série de desenvolvimentos. Por um longo período, as pessoas com autismo foram consideradas incapazes perante a sociedade, que as estigmatizava e condenava seus comportamentos tidos como atípicos e/ou inadequados. A ausência de informação sobre as características e manifestações do TEA fez com que a imagem da pessoa com autismo fosse fortemente influenciada por uma visão incapacitante e estigmatizada. Consequentemente, a exclusão de pessoas com TEA dos meios sociais e educacionais era explícita e amplamente aceita. De acordo com Piovesan (2013), a evolução dos direitos das pessoas com TEA ocorreu em quatro fases, sendo elas: a primeira, marcada pela intolerância, a segunda marcada pela invisibilidade, a terceira marcada pelo assistencialismo e a quarta marcada pela visão de direitos humanos de pessoas com autismo como sujeito de direito. Atualmente, vivenciamos no âmbito da legislação, a Lei n. 12.764/12, que decreta a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, determinando seu acesso à educação, à vida digna, ao livre desenvolvimento de sua personalidade, à segurança e ao lazer, dentre outros direitos. Todavia, em decorrência de um histórico de exclusão, mesmo em um cenário com a garantia de direitos sociais, é possível observarmos que a imagem da pessoa com autismo, muitas vezes, continua sendo marcada por uma visão assistencialista e estereotipada. A falta de aceitação de pessoas que não estão no padrão hegemônico estabelecido socialmente pode levá- las a sofrer atos de preconceito e exclusão. Assim, a discussão sobre a representatividade de pessoas no espectro, é necessária e urgente, visto que esses indivíduos fazem parte de um dos grupos considerados minoritários na sociedade. Nesse contexto, as produções literárias podem contribuir como um recurso importante para auxiliar no processo de desmistificação e desconstrução de estereótipos. Entretanto, podem também reforçar os preconceitos já existentes, uma vez que, em diversas obras, a representação de pessoas com TEA é insuficiente e muitas vezes negativa, o que resulta no fortalecimento de estereótipos em relação à pessoa com autismo. 2 Metodologia A presente pesquisa objetivou analisar a representação da imagem de pessoas com TEA na literatura infantil. Para o alcance desse objetivo, optamos pela realização de uma investigação de cunho qualitativo. De acordo com Minayo (1994, p. 22), a abordagem qualitativa “[...] aprofunda- se no mundo dos significados das ações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações médias e estatísticas”. Definimos como objeto de estudo, estórias infantis com personagens com TEA, produzidas e publicadas com o intuito de apresentar e/ou conscientizar o público infantil acerca do autismo. Estabelecemos como obras a serem analisadas três narrativas: “Nós somos incríveis, 1, 2, 3!”, “Um amiguinho diferente” e “Todas as minhas listras; uma estória para crianças com autismo”. Os critérios de elegibilidade desses materiais foram ter uma narrativa voltada para o público infantil e ter um personagem diagnosticado com autismo. Como metodologia e instrumento de coleta de dados, utilizamos a análise documental dos referidos materiais de leitura. A análise documental, de acordo com Gil (2002, p. 46) “[...], assemelha-se muito à pesquisa bibliográfica”. Aquilo que as diferencia, segundo o autor citado anteriormente, é que “a pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto”, enquanto a pesquisa documental “[...] vale-se de materiais que não recebem ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetos de pesquisa” (GIL, 2002, p. 45). 3 Desenvolvimento O autismo consiste em um transtorno complexo de neurodesenvolvimento e caracteriza-se por um déficit na dimensão comportamental e nas áreas da comunicação e da socialização do indivíduo, manifestando-se de forma singular em cada um que é diagnosticado com esta forma de transtorno (GADIA, 2006). Os estudos pioneiros sobre o autismo foram iniciados em 1943, ano em que o psiquiatra Leo Kanner publicou o artigo “Distúrbios autísticos do contato afetivo”. Nesse trabalho, ele descrevia onze casos de pacientes, entre dois e onze anos, atendidos por ele, que apresentavam comportamentos e características semelhantes entre si. Ele denominou que a condição clínica desses pacientes era a de um transtorno até então bastante desconhecido. De acordo com Klin (2006, p. 1): Nesses 11 primeiros casos, havia uma “incapacidade de relacionar-se” de formas usuais com as pessoas desde o início da vida. Kanner também observou respostas incomuns ao ambiente, que incluíam maneirismos motores estereotipados, resistência à mudança ou insistência na monotonia, bem como aspectos não-usuais das habilidades de comunicação da criança, tais como a inversão dos pronomes e a tendência ao eco na linguagem. Essas características, apontadas por Kanner em 1943, permanecem válidas na atualidade para o diagnóstico do TEA, contudo outras foram incorporadas na literatura psiquiátrica. De acordo Donvan e Zucker (2017), antes dos estudos realizados por Kanner, o termo “autismo” era utilizado por psiquiatras, para nomear uma condição de indivíduos adultos diagnosticados com esquizofrenia que tendiam ao isolamento social. Os primeiros estudos sobre o TEA buscavam elucidar sua gênese e, por conseguinte, compreender por que algumas crianças tinham autismo e outras não. Uma das primeiras teorias desenvolvidas foi proposta por Kanner. Ele defendeu que a origem do autismo estaria relacionada à criação por mães afetivamente frias. Posteriormente, essa teoria foi refutada ao sercompreendida como processo de reflexão sobre a ação, a avaliação representa um processo inato na vida educacional, pois como é do conhecimento de todos não existe processo educativo formal sem avaliação. No decorrer da história os modelos de avaliação vêm sofrendo variações, com o objetivo de oferecer informações necessárias para uma melhoria nas práticas pedagógicas, e se tratando da avaliação escolar de pessoas com TEA, o desafio é ainda maior, visto que faz-se necessário atentar não somente para o fazer, mas, também ao desenvolvimento peculiar de cada estudante. A finalidade maior da avaliação não é certificar os conhecimentos já adquiridos pelos educandos, mas impulsioná-los a progredir de um nível de aprendizado para outro, concedendo apoio pedagógico individualizado, visto que as dificuldades e as facilidades são inerentes de cada um. A avaliação, nessa perspectiva, deverá encaminhar-se a um processo dialógico e cooperativo, por meio do qual educandos e educadores aprendem mais sobre si mesmos no ato da avaliação (HOFFMANN, 2009). Nesse sentido, faz-se necessário que o docente entenda a sua importância diante do processo ensino-aprendizagem, especialmente se atende o estudante enquadrado no TEA, comprometendo-se com o desenvolvimento de seu aluno. Assim, avaliar requer do professor: um entendimento abrangente a cerca da sua disciplina; conhecer bem seu aluno e suas especificidades; a assimilação sobre o processo de aprendizagem e aprofundamento em teorias do conhecimento. Inúmeras vezes, no cotidiano escolar, ouvimos de pais, mães, docentes e gestores que, avaliar é ato de acompanhar a construção do desenvolvimento do aluno, pois, acredita-se que o acompanhamento é algo extremamente importante em qualquer ação de crescimento e desenvolvimento. No que se refere às pessoas com TEA, acompanhar o desenvolvimento, avaliar,comparar são fundamentais. É importante lembrar que a avaliação é um processo que possibilita a realização de análises de informações a respeito de determinado elemento que oportunize intervenções conscientes, que visem à definição dos objetivos de ensino e aos fins propostos pela educação. Segundo Esteban (2003, p. 14), a ação de avaliar é definida como “[...] uma tarefa que dá identidade à professora, normaliza sua ação, define etapas e procedimentos escolares e orienta a prática pedagógica”. Libâneo (1994, p. 196) define a avaliação escolar como: “[...] um componente do processo de ensino que visa, através da verificação e qualificação dos resultados obtidos, determinar a correspondência destes com os objetivos propostos e, aí orientar a tomada de decisão em relação às atividades didáticas seguintes”. Demo (2002, p. 23), refere-se à avaliação como um fenômeno complexo, e nos ensina que: “toda avaliação ao mesmo tempo em que revela alguma coisa, também esconde, pois representa recorte selecionado e parcial. Segue igualmente que toda avaliação acaba cometendo alguma injustiça, porque qualquer escalonamento é também reducionista”. A avaliação segundo Luckesi (2010) auxilia na tomada de decisões em relação à aprendizagem dos educandos, visando garantir a qualidade do que estamos propondo. Porém para que a avaliação se torne uma ferramenta subsidiaria da prática educativa, faz-se necessário que tanto a prática educativa, quanto a avaliação sejam orientadas com certo rigor científico. E para tanto, temos a ciência pedagógica, apta a nos oferecer subsídios à condução de uma prática educativa, com vistas a atingir resultados significativos de aprendizagem, em favor do educando. Com propriedade o mesmo autor defende Avaliação da Aprendizagem como um ato amoroso, visto que a avaliação, por si, é um ato acolhedor, integrativo e inclusivo. Para isso, é necessário distinguir avaliação de julgamento. Em sua compreensão, “o julgamento é um ato que distingue o certo do errado, incluindo o primeiro e excluindo o segundo”. Logo, entende-se que a avaliação da aprendizagem escolar como ato amoroso, só acontece quando a avaliação tem como meta diagnosticar e incluir o educando, envolvendo atividades que contemplem todos os seus conhecimentos já adquiridos (LUCKESI, 2009). Na concepção de Hoffmann (2009), a avaliação é a [...] reflexão transformada em ação. Ação, essa, que nos impulsiona a novas reflexões. Reflexão permanente do educador sobre sua realidade, e acompanhamento de todos os passos de educando na sua trajetória de construção do conhecimento. Por conseguinte, constata-se que a avaliação é uma tarefa didática imprescindível do trabalho docente, que precisa acompanhar de forma continua o processo de ensino e aprendizagem. Através dela, os resultados obtidos na execução das tarefas realizadas por professores e alunos serão comparados com os objetivos propostos, com a intenção de perceber os progressos, dificuldades e reorientar os trabalhos caso seja necessário. 4 Avaliar para Incluir é preciso Existe uma relação direta entre as maneiras de se avaliar o aluno com deficiência e o que vigora em alguns paradigmas, no qual a visão clínicomédico, embasada na patologia, é a mais antiga. As maneiras de se avaliar pessoas com deficiência estão subjugadas às compreensões historicamente construídas, a respeito da deficiência pela sociedade. Podem ser entendidas por diversos ângulos, que transporta suas experiências a uma avaliação diferenciada. Beyer (2010) reconhece cinco paradigmas: i) clínico-médico; ii) sistêmico; iii) sociológico; iv) crítico-materialista; e v) da educação inclusiva. Para cada concepção, esclarece o modelo de avaliação adotado. Reportando-nos ao paradigma – clínico-médico, a avaliação, realizada através da anamnese ou histórico clínico, recai sobre os déficits e restrições do indivíduo, colaborando de forma decisiva para o encaminhamento do aluno a escolas especiais, em que os recursos terapêuticos imperam sobre a ação pedagógica. Na percepção sistêmica, são consideradas as demandas curriculares, sendo a avaliação seletiva e disjuntiva, com o objetivo de ofertar um programa curricular apropriado mediante encaminhamentos para escola regular ou especial, conforme o caso. O sistema educativo precisa lidar de forma racional com esse alunado que não consegue se adequar ao currículo. Dessa forma, aos alunos que não aprendem conforme o esperado devem ser ofertadas alternativas. No paradigma sociológico, a deficiência é determinada através da reação do grupo social, que pode agravar (por incompreensão ou preconceito) ou facilitar (por empatia ou compreensão) o crescimento do indivíduo de forma integral. Como ser social, os valores pessoais do professor repercute na forma de avaliar o aluno e na expectativa a respeito de sua aprendizagem (VIANA, 2009; BEYER, 2010). A visão crítico-materialista, com fundamentos na sociedade de classes, entende a inaptidão produtiva como produto direto da deficiência, sendo a avaliação uma maneira eficiente de restringir a participação do deficiente no mercado de trabalho. Pois, como se sabe fazemos parte de um grupo de pessoas que o poder de consumo é supervalorizado e, o indivíduo deficiente passa a ser deficiente para a produção. A partir da proposta de inclusão educativa, temos assistido grandes discussões e questionamentos em torno do assunto, relacionado às práticas de ensinar e avaliar. Como produtos emergem novas propostas para a realização de uma Educação Inclusiva, em que se considerem as particularidades do educando. Entretanto, ainda são escassas na literatura especializada, informações sobre a temática avaliação da aprendizagem para esses alunos. Tendo como consequências avaliações inadequadas, manifestando uma pouca compreensão ou entendimento equivocado a respeito do processo de ensino e avaliação para esses alunado, ou mesmo a descrença em sua capacidade de desenvolvimento potencial (FERNADES, VIANA, 2009). Com base nos paradigmas apresentados anteriormente, pode-se inferir que as práticas avaliativas na área da educação especial precisam ser tratadas de modo específico. Nesse sentido Guthke (1996, p. 190) apontacomprovado que nenhum indivíduo pode “adquirir” autismo, uma vez que é um transtorno que acompanha a pessoa desde o seu nascimento (DONVAN; ZUCKER, 2017). Atualmente, de acordo com a revisão do DSM-V11, o TEA é considerado um transtorno de origem neurobiológica que pode ser diagnosticado como: grau leve (nível 1), grau moderado (nível 2) e grau severo (nível 3). O diagnóstico é realizado por meio de observação e avaliação do comportamento do sujeito, considerando os seguintes critérios: déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos; padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (APA, 2014). Essas características se manifestam nas pessoas no espectro de forma variável, não sendo possível homogeneizar o perfil da pessoa com autismo. Entretanto, por conta da divulgação de informações equivocadas sobre o TEA, bem como reforço de estereótipos sobre esse transtorno, essa ação de homogeneização de indivíduos com autismo ainda é muito presente na atual sociedade. Para Bhabha (1998, p. 117): “O estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade”. Em decorrência de um histórico de isolamento social, persistem, na atualidade, o desconhecimento sobre as características e manifestações do TEA por boa parte das pessoas. Por conta disso, muitas delas percebem o autismo sob as lentes de estigmas e estereótipos. Sendo assim, para a formação de uma sociedade consciente sobre essa temática, faz-se necessário que, desde a primeira infância, seja oportunizado que crianças tenham acesso a recursos que abordam o TEA de maneira ética, adequada e contextualizada, a fim de evitar a reprodução de preconceitos e equívocos conceituais de sua parte sobre o autismo. Segundo Arendt (2008), o preconceito tem relação com a experiência não revista no passado. Para a desconstrução de conceitos e estereótipos muitas vezes ainda enraizados na sociedade, é necessário compreender o outro em sua diferença, evitando a formulação de juízos preconcebidos ou a negação de revisá-los. No tópico a seguir, analisaremos estórias infantis com personagens com TEA, produzidas e publicadas com o intuito de apresentar e/ou conscientizar o público infantil sobre o autismo. 4 Resultados e discussão Para a realização da análise e discussão dos dados, estabelecemos duas categorias de análise: Na primeira, “Retratação do autismo”, buscamos compreender como o autismo é explicado aos leitores das obras. Na segunda categoria, “Estímulos para a inclusão de pessoas com TEA”, objetivamos analisar de que maneira os outros personagens interagem com o personagem com autismo, e de que modo essas interações presentes nas obras podem contribuir para a inclusão de crianças com TEA. Para fins de organização, optamos em apresentar cada estória individualmente, considerando as categorias mencionadas. 4.1 “Um amiguinho diferente” A primeira obra analisada foi o gibi “Turma da Mônica – Um amiguinho diferente” publicado pelo Instituto Cultural Maurício de Sousa em 2003. Esse gibi contém a primeira aparição do personagem André, diagnosticado com TEA. O personagem foi criado a partir de estudos feitos para uma campanha da Associação de Amigos do Autista (AMA) e a convite da Universidade de Harvard. Na estória, o autismo é explicado pela personagem Lucila nas seguintes palavras: Autistas são crianças especiais! Elas são diferentes das outras! Mas não na aparência! Muitas crianças autistas não olham nos olhos das pessoas... Outras não falam e nem acenam, oi ‟ou tchau”... Não apontam para coisas interessantes... Falam o essencial ou repetem frases ou palavras ouvidas há segundos ou dias... Não imitam outras crianças nem brincam de faz- deconta! Algumas gostam de alinhar carrinhos ou outros objetos... Repetem movimentos (ALMANAQUE DA MÔNICA, 2003, p. 6). Diante dos extratos da fala da personagem, é possível inferirmos que o objetivo central da publicação é conscientizar crianças que não fazem parte do espectro sobre características que fazem parte do quadro diagnóstico do TEA, uma vez que são informados para o leitor, comportamentos e condutas geralmente presentes em crianças com autismo. A explicação de Lucila sobre o autismo é acompanhada por imagens do próprio personagem, André, realizando esses comportamentos, indicando que eles são parte do seu quadro de TEA. Pode-se concluir, portanto, que as explicações sobre os traços de TEA de André, são as mesmas utilizadas para descrever “muitas crianças autistas”, sugerindo uma intenção de fazer do personagem uma base para a compreensão de como seriam “muitas crianças autistas”. A linguagem utilizada ao longo da explicação, com termos como “Muitas”, “Outras” e “Algumas”, ajudam a reforçar que os traços de André não são os traços de todas crianças com autismo, o que evita um discurso generalizante. A visão da pessoa com TEA, abordada na estória, dialoga com os pressupostos teóricos de Santos e Vieira (2017, p. 221) quando os autores afirmam que: “[...] não se pode homogeneizar o sujeito com autismo, considerando que são sujeitos diversos”. É válido ressaltar ainda que o termo “criança especial” utilizado pelos autores, está atualmente em desuso. Entretanto, no período de publicação da estória, era a expressão comumente utilizada para se referir a crianças que fazem parte do público-alvo da educação especial, estando presente em leis e documentos orientadores sobre a temática. Ao analisarmos a obra, percebemos que, apesar de alguns estranhamentos iniciais, o personagem André é acolhido pela turma, sendo inclusive elogiado como um garoto “bonito” e “esperto”. No entanto, quando ele é convidado para brincar pela personagem Magali, ele não participa ativamente da brincadeira proposta pelo grupo, ficando simplesmente alheio ao que está ocorrendo, sem que os personagens tentem efetivamente inclui-lo na atividade ou compreender sua perspectiva. A atitude adotada pelos personagens em não propor soluções alternativas para que André se envolvesse na brincadeira, reforça princípios existentes no paradigma da integração, uma vez que a presença física da pessoa com autismo nos espaços, não implica necessariamente na inclusão desse sujeito nesses ambientes (MANTOAN, 2003). Em um outro momento da estória, esse comportamento dos personagens é reforçado quando Cebolinha pede que André pare de enfileirar os gizes para ajudar na elaboração de um plano. Novamente, André tem dificuldade em se juntar a uma atividade coletiva, mas Cebolinha se contenta em ouvi- lo dizer (por ecolalia12) “Gorducha, dentuça...” e o deixa ficar sozinho, enfileirando os gizes. Essa é, portanto, uma segunda situação social presente na estória em que é mostrado implicitamente que a única forma de interagir com uma criança com autismo é deixá-la fazendo o que quer, sem buscar compreender o que ela está fazendo ou participar de sua brincadeira. 4.2 “Nós somos incríveis, 1, 2, 3!” O segundo trabalho analisado por nós é o livro infantil “Nós somos incríveis, 1, 2, 3!: Uma estória sobre amizade e autismo.”, escrito por Leslie Kimmelman, e ilustrado por Mary Beth Nelson. Esse livro foi publicado em 2017 e partiu de uma iniciativa criada em 2010, chamada “Veja o incrível em todas crianças”, da companhia Oficina Sésamo, conhecida por produzir a série de televisão infantil Vila Sésamo. De acordo com o site oficial da Vila Sésamo, Desenvolvido com contribuições dos pais, de pessoas que atendem à comunidade autista, e de pessoas com autismo, “Veja O Incrível Em Todas As Crianças [...] oferece às famílias maneiras de lidar com desafios comuns, de simplificar atividades do cotidiano e de aumentar as conexões e o apoio da família, amigos e comunidade (SUSKIND, 2017, p. 1). A obra, “Nós somos incríveis, 1, 2, 3!” contém a primeira aparição da personagem Júlia, a primeira personagem com autismo na Vila Sésamo. De acordo com um artigo sobre a criação da personagem feita pela Smithsonian Magazine, a Oficina Sésamo optou pela criação de uma personagem feminina,apesar da maioria dos casos diagnosticados de autismo serem de homens, pois isso quebraria mais as expectativas para um personagem com autismo. Atualmente, de acordo com o último levantamento realizado Center of Deseases Control and Prevention (CDC) órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, publicado em 2018, existe hoje um caso de autismo a cada cinquenta e nove pessoas. Embora a prevalência de gênero no autismo tenha diminuído, o número de homens diagnosticados ainda é superior ao número de mulheres, em uma proporção de quatro homens para uma mulher (AMA, 2019). Na estória de Júlia, diferentemente da estória de André, o autismo é mais exemplificado pelo comportamento dela ao longo da estória do que explicado diretamente para os leitores ou para os personagens. Apenas uma página menciona explicitamente que Julia tem autismo, quando o personagem Elmo comenta: “O papai do Elmo disse para o Elmo que a Júlia tem autismo. Então ela faz as coisas um pouco diferente. Algumas vezes, Elmo fala com a Júlia usando menos palavras e repete a mesma coisa várias vezes” (KIMMELMAN, 2017, p. 10). Nesse trecho, é interessante ressaltar que, comparando-se à estória de André, Júlia não é considerada “diferente”, ela apenas “faz as coisas” de modo diferente. Para Arendt (2007), a diferença é inerente ao ser humano. Essa linha de pensamento dialoga com o que é proposto por Mantoan (2003), quando a autora, afirma que todos nós temos diferenças, e não apenas as pessoas com deficiência e/ou TEA. Desse modo, para a construção de uma sociedade inclusiva é necessário compreendermos e valorizarmos todas as diferenças existentes. Na obra, as diferenças da personagem Julia são apresentadas em um viés inclusivo, pois elas fazem parte de sua personalidade, mas o autismo não é sua única característica. De acordo com os aportes teóricos de Santos e Paulino (2006. p. 12) “[...] incluir não é nivelar e nem uniformizar o discurso e a prática, mas exatamente o contrário: as diferenças, invés de inibidas, são valorizadas”. Os comportamentos de TEA apresentados por Julia ao longo do livro não são diretamente ligados ao TEA, mas à própria personagem, como no trecho “Movimentos repetitivos são o que Julia faz quando está feliz!” ou na fala do personagem Elmo, “Julia tem ótimas orelhas.”. Essa é uma abordagem que valoriza a individualidade da personagem, as suas experiências particulares dentro do espectro. Enquanto o texto não orienta diretamente as crianças sobre quais são os traços do autismo, ele mostra esses traços como aspectos naturais de uma personagem, que podem ser aceitos e respeitados e não impedem que ela consiga fazer amizade com outras crianças. É válido ressaltar que a obra não chega a dizer explicitamente quais comportamentos de Julia se devem ao seu autismo e isso talvez gere dúvidas para um leitor que não sabe que o autismo é um espectro, possibilitando a interpretação de que Júlia é uma representação para todas as pessoas com autismo, ainda que essa não seja a intenção por trás da criação da personagem. O livro, desde o início, aborda sobre as relações afetivas de Júlia, mostrando sua amizade com Elmo e sobre as coisas que eles gostam de fazer juntos. Em algumas atividades exemplificadas, Julia apresenta diferenças de comportamento em relação a Elmo. Ainda que ambos gostem de brincar com blocos, Elmo gosta de fazer torres altas e depois destruí-las, enquanto Julia prefere enfileirar os blocos, formando paredes. Ainda que ambos gostem de brincar de carrinho, Julia prefere ficar girando os pneus deles. Durante toda a obra, Júlia é convidada a participar das brincadeiras, e em determinado momento, os três personagens da estória (Elmo, Júlia e Abby) vão brincar e escolhem um jogo por sugestão de Julia. A personagem se sai bem no jogo e comemora fazendo estereotipias motoras. O narrador explica que essas estereotipias “[...] é o que Julia faz quando está feliz”. Em seguida, Elmo comemora pulando e Abby comemora fazendo uma pirueta e o narrador explica que “[...] isso é o que eles fazem quando estão felizes”. Nesse momento, podemos observar que o grupo realmente acolheu a personagem Júlia. Além de incluí-la, de fato, nas brincadeiras, eles a respeitam e valorizam suas diferenças, tal como é defendido por teóricos da área da Inclusão como Mantoan (2003), Figueiredo (2010), Santos e Paulino (2006) 4.3 “Todas as minhas listras: uma estória para crianças com autismo” A terceira obra analisada por nós foi o livro infantil “Todas As Minhas Listras: Uma estória para crianças com autismo”, escrito por Shaina Rudolph e Danielle Royer e ilustrado por Jennifer Zivoin. Ambas autoras são educadoras e se inspiraram nos seus anos de trabalho com crianças com autismo para escreverem um livro com um personagem com o qual crianças com TEA pudessem se identificar. O livro conta a estória de uma zebra chamada Zane que volta da escola chateada, depois de um dia difícil e desabafa para a sua mãe sobre suas experiências. Diferentemente das obras anteriores trabalhadas, o livro “Todas as minhas listras”, tem como público-alvo crianças com autismo. A intenção da obra não é explicar ou exemplificar comportamentos de pessoas com TEA como nas duas obras analisadas anteriormente, mas fazer com que crianças com autismo consigam se identificar com o personagem principal e se aceitarem melhor. Por isso, a perspectiva do protagonista é a de uma criança com TEA com dificuldades de se ajustar em um mundo moldado para neurotípicos13. O autismo é representado na obra por uma listra que faz parte do personagem, sem, no entanto, ser a única listra dele. Pelo que é mostrado para os leitores, listras parecem ser uma representação visual de diferentes traços do personagem, e além da listra do autismo, ele possui listras como a listra da curiosidade. Na estória, o personagem Zane não consegue se integrar às outras crianças devido às suas dificuldades sociais, tampouco ser incluído, mas ainda assim, podemos considerar essa obra em um viés inclusivo, pois ele foi feito para dar uma representação positiva para crianças com autismo aceitarem suas diferenças e compreendê-las como aspectos positivos em si mesmas. Desse modo, inferimos que a obra possibilita que crianças no espectro compreendam, conforme ilustra Palumbo (2012), que o problema não é do autismo, e sim da sociedade, que tem dificuldade em incluir os indivíduos no espectro. De acordo com a autora, anteriormente, o TEA, era encarado exclusivamente, como um problema da pessoa, e atualmente: “[...] entende- se como resultado da interação dela com o meio, ou seja, não se trata de característica intrínseca ou essencial do indivíduo, e sim como dificuldades da sociedade em incluí-los no meio” (PALMUMBO, 2012, p. 2). No final da estória, quando o personagem diz “Há mais em mim do que só a minha listra do autismo. Ela é só parte de mim. As outras partes fazem com que eu esteja completo. Eu amo cada listra porque sem elas, eu não seria eu!” (RUDOLPH; ROYER, 2015, p. 25) é transmitida a mensagem de que o autismo não define completamente um indivíduo, mas é uma parte da pessoa, sem a qual ela não seria quem ela é. Por fim, ao analisarmos as três histórias que compuseram o objeto de investigação dessa pesquisa, os resultados mostraram o quão são importantes tais recursos para o processo de inclusão social das pessoas com TEA, proporcionando à sociedade momentos de reflexão, conhecimento, discussão e análise do que é ser um sujeito de direitos e deveres com TEA. Não esquecendo que cada pessoa com autismo é individual e possui características especificas. 5 Considerações finais A presente pesquisa objetivou analisar a representação da imagem de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na literatura infantil. Diante dos dados obtidos, concluímos que as três obras analisadas possuem abordagens diferentes sobre o autismo. Na categoria de análise “Retratação do autismo”, em que buscamos compreender como o autismo é explicado aos leitores das obras, verificamos que em duas delas: “Um amiguinhodiferente” e “Nós somos incríveis, 1,2,3!” – o objetivo é apresentar o TEA para crianças que não fazem parte do espectro, através de personagens com autismo. No entanto, divergem nessa apresentação, pois na segunda estória, diferentemente da primeira, o autismo é mais exemplificado pelo comportamento da personagem ao longo da estória do que explicado diretamente para os leitores ou para os personagens. A terceira estória “Todas as minhas listras: uma estória para crianças com autismo” é a única obra analisada que tem como público-alvo crianças com autismo e não as neurotípicas, o que torna sua abordagem bastante diferenciada. O objetivo central desse material é fazer com que crianças no espectro se sintam representadas pelo personagem e valorizem as suas diferenças. Na segunda categoria de análise, “Estímulos para a inclusão de pessoas com TEA”, em objetivamos analisar de que maneira os outros personagens interagem com o personagem com autismo, e de que modo essas interações presentes nas obras podem contribuir para a inclusão de crianças com TEA, inferimos que as estórias, tal como na primeira categoria, abordam essa temática de maneira diferente entre si. Na primeira estória, embora o personagem André permaneça fisicamente com o grupo durante boa parte da estória, ele não participou ativamente das atividades propostas em momento algum, e os outros personagens não buscaram uma solução para isso. Na segunda estória, a personagem Júlia foi realmente incluída, participando das brincadeiras e de todos os momentos do grupo, além de ter suas sugestões acatadas e suas diferenças respeitadas, bem como valorizadas por todos. Por fim, na terceira estória, embora o personagem Zane não consiga se integrar às outras crianças devido às suas dificuldades sociais, tampouco ser incluído, podemos considerar essa obra inclusiva, pois ela foi feita para dar uma representação positiva para crianças com autismo aceitarem suas diferenças e percebê-las como aspectos positivos. Tendo em vista essas considerações, afirmamos que as obras analisadas podem contribuir de maneira significativa no desenvolvimento de todas as crianças, tenham elas autismo ou não, uma vez que podem tanto contribuir para que as crianças com autismo se sintam representadas em obras literárias, como também ajudar as crianças neurotípicas a aprenderem a conviver com a diversidade. REFERÊNCIAS ALMANAQUE DA MÔNICA. Um amiguinho diferente. São Paulo: Maurício de Sousa Editora, 2003. v. 1. ARENDT, Hannah. A condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. BHABHA, Homi K. A outra questão: O estereótipo, a discriminação e o discurso do colonialismo. In: O LOCAL da cultura. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1998. BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Brasília, 2012. DONVAN, John; ZUCKER, Caren. Outra sintonia: A história do autismo. São Paulo: Editora Schwarcz S.A, 2017. GADIA, Carlos. Aprendizagem e autismo: transtornos da aprendizagem: abordagem neuropsicológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Editora Atlas, 20002. KIMMELMAN, Leslie. Somos incríveis, 1,2,3! Nova York: Random House Children’s Books, 2017. KLIN. Autismo e Síndrome de Asperger: Uma visão geral. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 28, maio 2006. MANTOAN, Maria Teresa Égler. Inclusão escolar: o que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003. MINAYO, M. C. de S. (org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 1994. PALUMBO, Livia Pelli. A efetivação dos direitos das pessoas com deficiência pelos sistemas de proteção dos direitos humanos: sistema americano e europeu. Revista Científica Eletrônica do Curso de Direito, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 2-22, jul. 2012. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e Direito Constitucional Internacional. 13. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 289-290. RUDOLPH, Shaina; ROYER, Danielle. Todas as minhas listras: a história de uma criança com autismo. Washington Dc: American Psychological Association, 2015. SALES, Jefferson Falcão; VIANA, Tania Vicente. Autista no ensino regular: avaliação, inclusão e vulnerabilidade. In: CIASCA, Maria Isabel Filgueiras Lima; SILVA, Lucas Melgaço da; ARAÚJO, Karlane Holanda. Avaliação da Aprendizagem: a pluralidade de práticas e suas implicações na educação. Fortaleza: Uece, 2017. p. 324-340. SANTOS, Mônica Pereira dos. PAULINO, Marcos Moreira. Inclusão em educação. São Paulo: Editora Cortez, 2006. SUSKIND, Ron. Why the Team Behind Sesame Street Created a Character With Autism. Smithsonian Magazine, December 2017. Disponível em: https://www.smithsonianmag.com/innovation/team-sesame-street- createdcharacter-autism-180967218/. Acesso em: 1º out. 2019. DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A INCLUSÃO DO ESTUDANTE COM DEFICIÊNCIA: a experiência de uma escola municipal de Fortaleza Ana Karla Gomes Barbosa Débora Lucia Lima Leite Mendes 1 Considerações iniciais Observando os registros históricos referentes à trajetória das pessoas com deficiência é possível perceber a presença de intensas lutas e mobilizações para que seus direitos fossem garantidos. Inseridos em uma sociedade dita ‘normal’, os indivíduos com algum tipo de deficiência ou transtorno vivenciaram momentos de discriminação, sendo segregados dos demais e sendo definidos por suas limitações. Em diversos momentos da história, a pessoa com deficiência foi estigmatizada e impedida de aprender, por não atender ao padrão estabelecido pela sociedade. A realidade discorrida acima só foi modificada através de manifestações isoladas que proporcionaram o surgimento das primeiras ideias de reconhecimento dos direitos das pessoas com deficiência, na Europa. Centros de tratamento foram fundados, campanhas, escolas especiais, com o objetivo de proporcionar voz ao público que durante anos fora marginalizado por seu desenvolvimento diferenciado. A garantia desses direitos através de dispositivos legais, surgiu a partir século XX, uma conquista que proporcionou ao sujeito com deficiência a ser reconhecido como cidadão atuante na sociedade. É com base nesses fatores históricos que a pessoa com deficiência conquistou o seu direito a uma educação de qualidade, não somente isso, mas a possibilidade de ser vista em sua individualidade, deficiência e forma específica de aprender. Sabe-se que ainda existe um longo caminho de conquistas a ser percorrido, mas ao se comparar o cenário antigo com o atual, instiga-se a curiosidade de compreender a realidade prática da inclusão nas escolas públicas, atualmente. Sendo assim, se acredita que a instituição pública funciona como cenário propício para a prática do respeito à diversidade proporcionando a inclusão no ensino. Por essa razão, existe a necessidade de se investigar a Educação Inclusiva do estudante com deficiência no ambiente de ensino. A escola lócus de pesquisa está situada em Fortaleza-CE; se busca compreender o trabalho realizado pelo Atendimento Educacional Especializado – AEE junto às crianças com desenvolvimento diferenciado. A presente experiência consiste em uma pesquisa de caráter exploratório, desenvolvida na escola supracitada, a qual tem como sujeitos a professora do AEE, um aluno com Transtorno do Espectro Autista – TEA da sala regular e estudante assíduo da sala de recurso multifuncional, a professora da sala regular e a contribuição da mãe do estudante. A metodologia utilizada foi com base em observações no espaço escolar, entrevistas semiestruturadas com os sujeitos e observações da rotina escolar do referido aluno. Os dados coletados da pesquisa foram registrados no diário de campo e através de gravações. 2 O Atendimento Educacional Especializado – AEE: um caminho para a inclusão na escola pública De acordo com o que já foi brevemente mencionado, o cenário que envolvia as pessoas com deficiência foi marcado pordiscriminações que levaram a iniciativas de lutas sociais. É relevante saber que as primeiras formas de atendimento especial, surgiram de maneira segregada, ou seja, mesmo com a existência do ensino especial a inclusão ainda não era realizada com o objetivo de tornar o indivíduo com deficiência parte da sociedade, o que pode se dizer, estimulava o preconceito e limitava a inserção do sujeito com deficiência na sociedade. Segundo Magalhães (2002) o atendimento segregado e institucionalizado oferecido, até metade do século XX, às pessoas com deficiência era visto como o mais adequado para a época. A atitude de separar as pessoas com um desenvolvimento diferente do que se acreditava fugir da normalidade social, só fortalecia a ideia do preconceito e deixava clara a necessidade de que houvesse uma mudança no pensamento e no olhar das pessoas do referido tempo, em relação àqueles que tinham alguma deficiência. Em uma proposta mais inclusiva, surgiu o Atendimento Educacional Especializado – AEE como um dos resultados das diversas mobilizações já realizadas para assegurar os direitos das pessoas com deficiência, ou seja, seu público alvo são os estudantes que, por ficarem à margem do ensino regular devido suas limitações, podem ter um complemento no ensino capaz de proporcionar aprendizagem independente de sua condição. O AEE é fruto da Política Nacional de Educação Inclusiva (2008), tem como objetivo oferecer atenção aos educandos com deficiência ou transtorno garantindo a inclusão do referido público dentro da instituição escolar. Conforme Costa, Holanda e Souza (2015) o AEE foi organizado para apoiar o desenvolvimento dos alunos com deficiência e diferentes transtornos, através de programas de enriquecimento curricular, ou seja, o referido atendimento visa contribuir e complementar o ensino da sala de aula regular oferecendo metodologias específicas para o aluno com deficiência, afim de que o mesmo também possa ter acesso ao conhecimento. O programa oferecido pelo AEE proporciona a inserção da criança com deficiência em uma educação de qualidade, como também a oportunidade de aprender novas habilidades e de potencializar as habilidades já existentes. É através desse serviço que o estudante recebe um novo olhar do professor e de toda a comunidade escolar, onde será compreendido em sua individualidade e maneira de aprender. É importante ressaltar que para o bom desenvolvimento do AEE dentro da escola, a instituição deve elaborar um plano de ação que tenha como fundamento os princípios legais que norteiam a inclusão e um cronograma facilitador ao estudante e sua família. Segundo Costa, Holanda e Souza (2015), o AEE deve ser ofertado no turno oposto ao da escolarização, prioritariamente na sala de recurso multifuncional que são espaços organizados com equipamentos, mobiliários, materiais didáticos e pedagógicos adequados a este atendimento. A sala de recurso multifuncional deve ser um ambiente que desperte o interesse do aluno, proporcione interação e bem-estar e ofereça opções de recursos pedagógicos ao professor do AEE no desempenho de sua função. Sobre o plano de ação elaborado pelo Atendimento Educacional Especializado – AEE, nas escolas públicas, é sabido que o referido serviço é responsável por olhar o estudante como um todo, ou seja, considerando sua história de vida, habilidades já existentes, as dificuldades que ele tem, para que dessa forma, as intervenções planejadas sejam específicas e assertivas na superação ou amenização das dificuldades vivenciadas pelo estudante. O fato relatado sobre o plano de ação também consta nas Diretrizes da Política do MEC, que orienta o profissional do AEE a elaborar o planejamento de intervenção correspondente às necessidades do aluno que está matriculado no atendimento. Salienta-se que esse processo é indispensável, pois além de nortear o trabalho desempenhado pelo educador da sala de recurso multifuncional, ainda contribuirá para as intervenções sejam eficazes gerando bons resultados ao desenvolvimento do estudante. É relevante salientar que apesar de o AEE ser importante para o bem- estar dos estudantes e das famílias da escola pública, ainda existem desafios que precisam ser superados para que mais crianças e adolescentes tenham acesso ao referido serviço. Em muitas escolas, ainda são reais as necessidades de formação adequada aos profissionais da sala de recurso multifuncional, a participação dos funcionários, núcleo gestor e demais professores na proposta elaborada pelo AEE e a existência de recursos variados e suficientes para formar o acervo da sala. Outro fato que deve ser considerado um desafio, é que o atendimento Educacional Especializado – AEE é obrigatório para os alunos da instituição pública, mas os mesmos só podem comparecer com a autorização das famílias. Sendo assim, atrelado ao AEE está a mobilização e conscientização sobre a necessidade da participação dos responsáveis em encaminhar suas crianças ao atendimento, o que também se torna uma grande necessidade, pois muitas famílias ainda não reconhecem o significado do AEE, nem tão pouco o trabalho realizado por ele e seus resultados. 3 O professor do Atendimento Educacional Especializado: um desafio de formação Ao falarmos da educação voltada para os estudantes com deficiência na escola regular, uma importante figura que aparece em protagonismo juntamente com educando, é o professor do AEE. Contendo atribuições específicas para o seu papel, esse profissional se encontra na linha de frente dos atendimentos voltados para aos estudantes com deficiência da escola pública. Sendo assim, precisa de formação adequada e de todo suporte possível por parte das instituições de ensino, da comunidade escolar como um todo e das famílias dos estudantes, para que suas ações sejam desempenhadas, eficazmente. Segundo Costa, Holanda e Souza (2015) apud Brasil (2010) constituem atribuições do professor do AEE: 1. Elaborar, executar e avaliar o Plano de AEE do aluno, comtemplando: a identificação das habilidades e necessidades educacionais específicas dos alunos; a definição e a organização das estratégias, serviços e recursos pedagógicos e de acessibilidade; o tipo de atendimento conforme as necessidades educacionais específicas dos alunos; o cronograma do atendimento e a carga horária, individual ou em pequenos grupos; 2. Programar, acompanhar e avaliar a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagógicos e de acessibilidade no AEE, na sala de aula comum e nos demais ambientes da escola; 3. Produzir materiais didáticos e pedagógicos acessíveis, considerando as necessidades educacionais específicas dos alunos e os desafios que estes vivenciam no ensino comum, a partir dos objetivos e das atividades propostas no currículo; 4. Estabelecer a articulação com os professores da sala de aula comum e com demais profissionais da escola, visando a disponibilização dos serviços e recursos e o desenvolvimento de atividades para a participação e aprendizagem dos alunos nas atividades escolares; bem como as parcerias com as áreas intersetoriais; 5. Orientar os demais professores e as famílias sobre os recursos pedagógicos e de acessibilidade utilizados pelo aluno de forma a ampliar suas habilidades, promovendo sua autonomia e participação; 6. Desenvolver atividades próprias do AEE, de acordo com as necessidades educacionais específicas dos alunos: ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras para alunos com surdez; ensino da Língua Portuguesa escrita para alunos com surdez; ensino da Comunicação Aumentativa e Alternativa – CAA; ensino do sistema Braille, do uso do soroban e das técnicas para a orientação e mobilidade para alunos cegos; ensino da informática acessível e do uso dos recursos de Tecnologia Assistiva – TA; ensino de atividades de vida autônoma e social; orientação de atividades de enriquecimento curricular para as altas habilidades/ superdotação; e promoção de atividades para o desenvolvimento das funções mentais superiores. É diante do foi relatado, que é possível observar as inúmerasações desempenhadas pelo professor do AEE em uma escola, sendo assim, existe a importância de se ressaltar que o referido profissional não atua sozinho na condução de um estudante no caminho para superar suas dificuldades e limitações, toda a comunidade escolar deve estar empenhada nessa tarefa, juntamente o professor da sala de aula regular, que também atua com o estudante diariamente. Sabe-se que o trabalho realizado pela instituição pública em relação às pessoas com deficiência deve ser de parceria, visto que o currículo proposto pelo AEE se alinha com o que é proposto na turma regular, sem que haja substituição de um serviço pelo outro. Sabendo dessa realidade, é correto reforçar a necessidade de uma formação eficaz, não apenas ao professor do AEE, mas aos professores que fazem parte da escola pública e que interagem com os estudantes com deficiência, diariamente. Acredita-se, que por estar diretamente ligado com a causa da inclusão escolar, o professor do Atendimento Educacional Especializado – AEE também possui o papel de conscientização do respeito às diferenças, na escola. É ele o sujeito capaz de promover o conhecimento dos direitos dos estudantes com deficiência, como também prestar auxílio aos demais professores em relação às metodologias que também podem ser trabalhadas na sala de aula regular, esse profissional é capaz de dar sugestões de estratégias e recursos pedagógicos que irão enriquecer o trabalho dos professores da sala comum e atender às necessidades dos alunos com alguma deficiência na sala de aula. O profissional do AEE desempenha um papel indispensável na escola, pois é ele quem pode atuar de maneira mais eficaz e direta na superação das limitações causadas pelas diferentes deficiências que a diversidade educacional proporciona. O professor do AEE conhece as diferentes dificuldades, deficiências e transtornos que chegam à escola, mais que isso, ele pode contribuir no direcionamento das aprendizagens do referido público. Diante disso, a valorização a esse educador consiste no primeiro passo que a educação escolar pública chegue com qualidade a todos os estudantes, independente de sua condição emocional, física ou intelectual. 4 A Educação Inclusiva de uma escola municipal de Fortaleza- CE: ações direcionadas ao Transtorno do Espectro Autista – TEA Diante do que já foi relatado na presente pesquisa, encontrou-se a necessidade de investigar a prática da inclusão em uma escola municipal de Fortaleza. Inicialmente, os espaços da escola foram observados, a instituição lócus de pesquisa é caracterizada como sendo de grande porte, onde atende diariamente alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I. A escola, também possui grande equipe de profissionais divididos entre docentes e funcionários; e sua estrutura é composta por salas de aula; espaço para lazer e recreação; quadra de esportes; biblioteca; laboratório de informática; sala de recurso multifuncional e as demais salas que atendem o setor administrativo da escola. Para a presente pesquisa, foi de suma importância observar atentamente a sala de recurso multifuncional. Foi constatada boa adequação de espaço e uma diversidade de recursos pedagógicos utilizados nos atendimentos com os estudantes com deficiência, além disso, a sala era aconchegante e colorida, o que representou um estímulo positivo para os estudantes. Da mesma forma, foram observadas as salas de ensino regular. Constatou-se que se caracterizam em ambientes amplos, com decorações nas paredes e estante com diferentes tipos de jogos, os quais são utilizados durante as aulas. Na ocasião da pesquisa, existiam 28 alunos matriculados no AEE, porém não havia garantia de frequência por parte de todos os estudantes. Diante desse fato desafiador, foram estipulados critérios para a escolha de um estudante, cujos atendimentos pudessem proporcionar uma breve compreensão do trabalho desempenhado pela escola. O aluno sujeito da pesquisa possui Transtorno do Espectro Autista – TEA, estuda no 2º ano do Ensino Fundamental I, é assíduo nos atendimentos do AEE e possui o acompanhamento da família em todo o processo. A rotina da referida criança foi observada na sala de ensino regular e na sala de recurso multifuncional. Segundo Cunha (2017) a Classificação Internacional de Doenças – CID 10 classifica o TEA como um dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento e sua manifestação ainda é de causas desconhecidas, mas com grande contribuição de fatores genéticos. Além disso, se sabe que o referido transtorno possui um espectro de características no indivíduo, que torna complexa a atuação dos profissionais de diferentes áreas. A verbalização e a socialização são os principais eixos que orientam as dificuldades decorrentes do TEA na vida do sujeito. Na presente pesquisa, o primeiro ambiente observado com a presença do estudante com TEA foi a sala de aula regular. A professora recebeu o aluno juntamente com uma profissional de apoio, e em seguida estimulou sua interação com as demais crianças da turma durante a acolhida e a contação de histórias. Entende-se que a ação da educadora foi positiva, visto que uma das dificuldades da criança com TEA é a ausência da socialização; a escola lócus de pesquisa tem buscado desenvolver um bom trabalho que não retira o aluno da sala de aula limitando sua interação, mas através de diferentes metodologias, promove um ambiente facilitador e interessante para os estudantes com deficiência. A professora iniciou, após a rodinha de contação de histórias, uma atividade sobre as famílias das crianças; durante esse momento, a profissional de apoio realizou a mesma atividade com o estudante sujeito da pesquisa. Diante desse fato, percebeu-se a necessidade de um profissional que auxilie a professora da sala regular, para que o estudante com deficiência tenha o acompanhamento necessário em seu processo de ensino-aprendizagem. Foi observado, também, o interesse da professora de ensino regular nas propostas elaboradas pelo AEE, ou seja, constatou-se a parceria nos planejamentos entre as profissionais da turma regular e a professora do Atendimento Educacional Especializado – AEE. A educadora da sala regular afirmou pedir e receber orientações sobre como adaptar o seu planejamento, de forma a abranger especificidades voltadas à aprendizagem do estudante com TEA. Conforme Romero (2018) os profissionais da Educação Especial e Inclusiva quando pensam em inclusão de crianças e adolescentes com deficiências e transtornos, se lembram do conceito de mediação. Entende-se que esse procedimento é o responsável por conduzir a criança no caminho de descobertas e aprendizagem. Na escola lócus de pesquisa, foi constatada a atenção que as educadoras têm no referido conceito, sendo elas, professoras da sala regular ou do AEE. Outro ambiente observado com a presença do estudante foi a sala de recurso multifuncional. A profissional do AEE já havia elaborado o plano de ação para aquele dia, o que demonstrou a organização no planejamento pedagógico e sua especificidade para o estudante sujeito da pesquisa, cuja dificuldade é o Transtorno do Espectro Autista – TEA. Foi observado que o atendimento com o estudante no AEE teve a duração de 1 (uma) hora. A professora da sala de recurso multifuncional ressaltou a adequação do ambiente demonstrando satisfação: “Os alunos gostam de vir para cá, pois é uma sala colorida e tem tudo que eles precisam”. Foi possível certificar esse fato, pois o educando entrou na sala e se sentiu à vontade explorando diversos brinquedos e recursos pedagógicos. Esse momento inicial é de fundamental importância, pois o aluno pode escolher os brinquedos de sua preferência proporcionando ao profissional a possibilidade de identificar interesses. A professora do AEE realizou uma acolhida com diferentes brinquedos, em seguida iniciou a proposta do dia. Percebeu-se que a professora do AEE estava realizando com o estudante, um trabalho de sondagem de conceitos. Esse procedimento é muito importante para buscar identificar o que o aluno já aprendeue o que ainda precisa aprender. A professora promoveu atividades envolvendo cores, formas, tamanho e ideias de dentro e fora. O atendimento foi lúdico proporcionando boa socialização entre a criança com TEA e a professora, e a presença de sutil verbalização quando o aluno foi estimulado a dizer os nomes das cores. Utilizando tintas coloridas, a professora também trabalhou o nome do estudante; o conduzindo na pronúncia e observação de cada letra. É importante ressaltar que essa prática também estava sendo, diariamente, desenvolvida na sala de ensino regular. Observou-se ainda, satisfação por parte da mãe do estudante, que o aguardou durante todo o atendimento e garantiu sua presença nos próximos. A responsável pela criança mencionou perceber evolução no desenvolvimento do aluno após os atendimentos, pois a professora do AEE também a orienta como proceder nas atividades, em casa. Observou-se que ocorre o encaminhamento de atividades de casa, como também o envio de matérias pedagógicos, que são elaborados pela professora do AEE, para que a família interaja com a criança na rotina de casa. Constatou-se que a escola lócus de pesquisa tem desempenhado um papel completo na atuação com os estudantes com deficiência. 5 Considerações finais Investigar a temática que envolve a educação inclusiva e a pessoa com deficiência é algo de grande importância, pois muitas foram as conquistas provenientes dos esforços de homens e mulheres, para que os direitos das pessoas com desenvolvimento atípico fossem reconhecidos. É na escola pública, o lugar aonde a prática da inclusão deve acontecer quando se refere à aprendizagem, pois é no referido ambiente onde a diversidade deve ser vista e respeitada, de forma que o acesso a uma educação de qualidade possa ser uma realidade para todos. Ao se compreender o processo de inclusão em uma escola pública, é preciso ter em mente que os desafios são fatos reais e diários, pois a falta de compreensão acerca do referido assunto ainda é um problema que impede o engajamento de mais pessoas na causa da inclusão. É diante disso que se afirma a necessidade de parceria e união entre toda a comunidade escolar. O mesmo se pode afirmar em relação à conscientização das famílias, que são as responsáveis por acreditar no trabalho desempenhado pelo AEE; e direcionar suas crianças e adolescentes aos atendimentos oferecidos na escola. O presente estudo proporcionou um novo olhar em relação aos desafios que regem a temática da inclusão, além disso, mostrou a possibilidade de se ter uma educação inclusiva de qualidade na instituição pública. Ressalta-se, sobre a referida pesquisa, que a mesma ampliou o leque de perspectivas na atuação com o estudante com deficiência ou transtorno, visto outrora como limitado e inserido a uma situação de segregação. Pode-se afirmar a realidade das evoluções decorrentes dos atendimentos, visíveis na vida de cada estudante, como também uma relação facilitadora entre a criança e sua família. Foi possível compreender ainda, que a Educação Inclusiva não se trata de uma opção, mas é uma obrigatoriedade, um direito pautado nos princípios dos Direitos Humanos, que deve mudar o olhar de todos em relação as pessoas com deficiência. REFERÊNCIAS BEZERRA, T. M. C.; COSTA, M. S. O.; HOLANDA, T. R. P.; RIBEIRO, R. R. R. P. C.; SOUZA, M. A. P. Inclusão: saberes e possibilidades de uma prática em construção. Fortaleza: Edições UECE, 2015. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica/ Secretaria da Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP, 2001. CUNHA, Eugênio. Autismo e inclusão: psicopedagogia e práticas educativas na escola e na família. 7. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2017. MAGALHÃES, R. C. P.; LAGE, A. M. V. Reflexões sobre a diferença: uma introdução à educação especial. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002. ROMERO, Priscila. O aluno autista: avaliação, inclusão e mediação. Prefácio Eugênio Cunha. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018. COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA: uma ponte para a inclusão de pessoas com autismo Amanda de Sousa Alves Rodrigues Sales Débora Lucia Lima Leite Mendes 1 Considerações iniciais A comunicação faz parte do ser humano e é essencial para a realização de seus desejos, necessidades e acesso ao mundo que nos rodeia. Por diversas razões, um sujeito pode não desenvolver suas habilidades linguísticas normalmente. A Comunicação Aumentativa e Alternativa, surge como uma das áreas da Tecnologia Assistiva que atende a esses indivíduos que precisam de algum tipo de suporte que os auxilie na comunicação. Uma das características marcantes do autismo é o desenvolvimento prejudicado na área da comunicação. Pessoas com autismo e estas dificuldades, enfrentam desafios que iniciam muito cedo dentro de suas casas e se estendem para os demais espaços, muitas vezes, nem frequentados por estas pessoas. A escola se torna, então, outro problema a ser enfrentado ao invés de ser um espaço que ofereça soluções. Por esta razão, quanto maior for a produção acadêmica em torno desse tema, maiores as chances de ultrapassarmos barreiras e avançarmos. O presente artigo de revisão traz um compilado de informações sobre os prejuízos na área da comunicação no Transtorno do Espectro Autista (TEA), sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) como benefício para a pessoa com autismo, e sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa na escola. Desse modo, buscamos nos amparar nas informações fornecidas por teóricos que pesquisam a temática e, dentre eles, estão algumas referências no tema e também na educação. São eles: Bercht (2015), Araújo (2014), Bez (2014), Bersh (2005), Carnevale (2013), Cortes (2015) e Vygotsky (2001). Desse modo, objetivamos, refletir à luz das ideias aqui apresentadas, sobre as possibilidades que podem beneficiar pessoas com autismo, de modo a interagirem socialmente e se comunicarem de maneira mais eficaz, principalmente na escola. 2 Os prejuízos na área da comunicação no Transtorno do Espectro Autista (TEA) Antes de qualquer coisa, é necessário esboçar, mesmo que brevemente, sobre o que é o autismo com base no que os estudiosos do tema afirmam. De origem grega, a palavra autismo (autós) tem por significado o termo “orientar se” e “se caracteriza pela presença de um desenvolvimento acentuadamente- prejudicado na interação social e comunicação”, bem como pela presença de outras marcantes características, como um repertório restrito de atividades e de interesses, mas com inúmeras variações em suas manifestações (BEZ, 2010; FERREIRA; FILHO, 2010). Após a publicação do DSM-5, em 2013, o autismo passou a ser inserido na categoria diagnóstica dos transtornos de neurodesenvolvimento, mais especificamente com a designação de Transtorno do Espectro Autista – TEA. Incluindo, além do autismo, o transtorno Asperger, o transtorno desintegrativo da infância, além de outros transtornos invasivos do desenvolvimento sem outra especificação (BEZ, 2014; ARAÚJO, 2014). Os primeiros trabalhos publicados sobre autismo, foram dos autores Leo Kanner e Hans Asperger, em 1943 e 1944, respectivamente. Foram eles os primeiros a atribuir características e sintomas que nortearam os diagnóstivos da época. Mas, segundo Bercht et al. (2015), foi somente em 1988 que Lorna Wing desenvolveu a noção de espectro do autismo identificando que o comportamento, a interação social e a comunicação eram os três principais déficits no autismo, ficando inicialmente conhecidos como a Tríade Wing. O que mais tarde serviu de “critérios de diagnóstico da síndrome utilizados pela Classificação Internacional das Doenças (CID) e para a DSM-IV-TR (Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders, Fourth Edition)” (ARAÚJO, 2014; BEZ, 2010). Cumpre mencionar que, acordo com a definição de Kanner (1943), “crianças com autismo têm uma dificuldade inata de estabelecer o contato afetivo, são incapazes de relacionar-se e apresentam atraso da fala com obsessão à rotina [...]”, enquanto que Hans Asperger (1944) observou nasíndrome uma perturbação da personalidade denominada ‘autistischen Ppsychopathen’. É importante ressaltar que a ausência nas habilidades de compartilhar suas ações de forma intencional (atenção compartilhada) e atrasos significativos da fala estão entre os sinais iniciais para identificar crianças com TEA, destacando que esta costuma ser a causa das famílias buscarem ajuda. 3 A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e seus benefícios Os estudos em torno da Comunicação Alternativa (CA) começaram a surgir de forma mais sistematizada no início da década de 1970, tendo como precursores estudiosos do Canadá. Na década seguinte, a CA se expandiu para a Inglaterra, Austrália e Estados Unidos, porém, chegou ao Brasil em 1978, mais especificamente em São Paulo-SP. Bez (2014) nos conta que nas últimas décadas, o interesse acadêmico por estudos na área de CA vem crescendo no Brasil e ocasionando novos caminhos de pesquisa. Como resultado desse interesse, Passerino e Bez (2015, p. 31) dizem que “um dos primeiros trabalhos foi a adaptação e a padronização do sistema PECs por Walter (1998, 2000)”. É importante frisar que a nomenclatura dessa área de estudo é diversificada e podemos encontrar nas obras acadêmicas alguns dos seguintes nomes: Comunicação Aumentativa e Alternativa; Comunicação Alternativa e Suplementar e Comunicação Alternativa e Ampliada. A comunicação é dita aumentativa, quando o sujeito a utiliza como complemente, sem substituir a fala totalmente. E é dita alternativa quando o sujeito utiliza outro meio de comunicação no lugar da fala (BEZ, ٢٠١٤; SCHIRMER et al. ٢٠٠٧). Independente do termo, fato é que a CA tem seu propósito em conferir maior autonomia às pessoas com algum déficit nesse âmbito e tornar essas pessoas protagonistas de uma comunicação mais independente e eficaz. E assim, ampliar suas relações com seus pares, na escola, na comunidade e em geral (BEZ, 2014; SCHIRMER, 2004). Segundo Miranda e Gomes (2004 apud CORTES, 2015, p 26), “a Comunicação Aumentativa e Alternativa, refere-se a qualquer meio de comunicação que suplemente ou substitua os modos habituais de fala e escrita, ou seja, as habilidades de comunicação quando comprometidos”. Cumpre mencionar que a CA se destina a qualquer pessoa, de qualquer idade, que por fatores como: paralisia cerebral, deficiência mental, autismo, acidente vascular cerebral, traumatismo cranioencefálico, traumatismo raquiomedular, doenças neuromotoras (como, por exemplo, à esclerose lateral amiotrófica), apraxia oral, dentre outros, estejam impossibilitadas de se comunicar eficazmente (TETZCHNER; MARTINSEN, 1992 apud SCHIRMER, 2007). No que diz respeito a utilização prática da CA, “existem diversos sistemas de comunicação alternativos que apresentam um vasto repertório quanto aos elementos representativos, como fotografias, desenhos e pictogramas” (PASSERINO; BEZ, 2015, p. 30-31). Esses elementos podem ser de alta tecnologia (softwares de computadores) ou de baixa tecnologia (material concreto), mas o importante são as técnicas e estratégias empregadas na adoção desses sistemas. Diante dessas informações, Passerino e Bez (2015) alertam para os benefícios que a CA pode promover para as pessoas com TEA, sendo assim, “o aluno com deficiência, passa de uma situação de passividade para outra, a de ator ou de sujeito do seu processo de desenvolvimento” (BERSCH; SCHIRMER, 2005, p. 89). Importante salientar as observações de Bez (2010), quando fala que o desenvolvimento da linguagem não ocorre em contextos de isolamento, e sim, na interação social. Por isso é tão importante para a criança com autismo relacionar-se com seus pares na escola, “já que a linguagem não é apenas comunicação ou suporte de pensamento, é, principalmente, interação entre sujeitos” (CORTES, 2015, p. 20). 4 A Comunicação Aumentativa e Alternativa na escola Na maior parte das relações sociais e nos mais distintos ambientes, incluindo a escola, a fala é a principal modalidade de comunicação. Quando a fala dos alunos está ausente, isso implica em algum grau de prejuízo na aprendizagem desses alunos (CARNEVALE; BERBERIAN; MORAES; KRÜGER, 2013). Segundo Carnevale, Berberian, Moraes e Krüger (2013, p. 244): É É pressuposto que a fala, enquanto “instrumento de comunicação”, permite a “transmissão/construção” de conhecimentos num processo interativo, desde os primeiros anos da educação básica. Além disso, é ainda pela via da “comunicação oral” que se pretende verificar em que medida tais conhecimentos são adquiridos pelos alunos. A fala é vista, nessa perspectiva, como um meio de retorno, mais ou menos, imediato dessa aquisição e permanece a serviço do próprio processo de ensino-aprendizagem. Todavia, sabemos que a fala não é o único meio de se comunicar, por isso existe a Comunicação Alternativa. Como explanou Araújo (2014, p. 24) em seu texto acadêmico, “pessoas que apresentam déficits na comunicação e consequente falha no desenvolvimento da linguagem, necessitam de mediações eficazes que potencializem o uso dessas tecnologias”. É por isso que a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, ٢٠٠٨) diz que os sistemas de ensino devem garantir, de modo a tornar efetiva a inclusão escolar de alunos público alvo da Educação Especial, a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a formação continuada de professores para o AEE. Além de formação dos profissionais da educação e comunidade escolar (ARAÚJO, 2014). De acordo com o documento citado anteriormente, o AEE deve ser, preferencialmente, ofertado na mesma escola em que o aluno estuda e no contra turno. Essa medida visa, entre outras questões, aproximar o a educação especial do ensino comum, havendo trocas de saberes entre os profissionais e entre os alunos (RAPOLI et al., 2010). De acordo com Araújo (2014, p. 22), “no contexto escolar muitos alunos com TEA deixam de participar das atividades, porque seus professores não conhecem e consequentemente não utilizam formas alternativas de comunicação”. Isso priva os alunos com TEA de desfrutarem das mais significativas interações sociais. Por estas razões é que no material de Rapoli et al. (2010), encontramos a orientação de que os profissionais dessas duas áreas devem se envolver e partilhar seus conhecimentos, exercendo um trabalho colaborativo. Rapoli et al. (2010, p. 19) traz o seguinte: Ao professor da sala de aula comum é atribuído o ensino das áreas do conhecimento, e ao professor do AEE cabe complementar/suplementar a formação do aluno com conhecimentos e recursos específicos que eliminam as barreiras as quais impedem ou limitam sua participação com autonomia e independência nas turmas comuns do ensino regular. As funções do professor de Educação Especial são abertas à articulação com as atividades desenvolvidas por professores, coordenadores pedagógicos, supervisores e gestores das escolas comuns, tendo em vista o benefício dos alunos e a melhoria da qualidade de ensino. Importante mencionar aqui, brevemente, as Salas de Recursos Multifuncionais (SMRs), que são espaços essenciais quando se fala de AEE nas escolas de educação básica. As SMRs possuem mobiliário próprio, bem como materiais pedagógicos e didáticos dos mais variados tipos. A sala ainda conta com recursos de acessibilidade e tecnologia aplicada à educação, incluindo alguns recursos de CA (RAPOLI et al., 2010, p. 31). A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) garante todos esses benefícios para as escolas da rede pública, e ainda estamos distantes de ver esses recursos chegando a todas as escolas. Quanto às escolas da rede privada, por enquanto, estas precisam fazer seus próprios investimentos em conhecimento e capacitação de profissionais. No que diz respeito ao uso propriamente dito da CA, há autores que defendem que seu uso é prejudicial, pois priva os alunos das oralidades, e há autores que defendem que algo assim somente aconteceria com o uso isolado da CA, o que não é para acontecer (BEZ,2014). Na realidade, o posicionamento mais coerente é o do equilíbrio, pois a CA deve ser utilizada incentivando a oralidade. Sendo assim, a CAA pode ser uma ferramenta de auxílio no processo de inclusão escolar de alunos com TEA, promovendo a interação e participação. E conforme a CAA se torne parte do cotidiano dessas crianças, “esses dispositivos tendem a desenvolver sua cognição e linguagem, configurando-se recursos importantes na inserção de sujeitos com déficits cognitivos e comunicativos na escola e sociedade” (BEZ, 2010, p. 52-53). 5 Considerações finais Diante do que foi discutido e apresentado, é pertinente salientar que as produções acadêmicas em torno do tema da CAA, precisam aumentar em número e em novas perspectivas, de modo a influenciar as instituições escolares, famílias e a própria sociedade a voltarem um olhar mais atento a essa parcela da população que tem muito a nos dizer, mas nem sempre acessam alguma forma de fazê-lo. Outro importante apontamento é a necessidade e importância de aumentar o número de formações para professores e demais profissionais da área da educação, para que conheçam e trabalhem com a CAA (BEZ, 2010). E diante disso, intensificar divulgações sobre os vários sistemas e recursos que já existem e podem ser amplamente utilizados por famílias e escolas. Não podemos esquecer de mencionar a importância de redirecionarmos pesquisas, formações e intervenções também na rede privada de ensino, de modo que os estudantes com autismo que fazem parte desse público também sejam assistidos pela CAA apesar de não contarem com AEE e Salas de Recursos. Assim, podermos apoiar esses alunos e de forma mais efetiva promover a inclusão de sujeitos com autismo em sala de aula comum e lhes proporcionar oportunidades de ter vez e voz. REFERÊNCIAS ARAUJO, Marisa Ribeiro de. Desafios e perspectivas na inclusão de alunos com autismo na rede pública municipal de Fortaleza: estudo de caso. 2014. p. 67. Monografia (Especialização Lato Sensu Formação Continuada de Professores para o Atendimento Educacional Especializado) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2014. ARAUJO, Marisa Ribeiro de. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Inclusão: Revista da Educação Especial, Brasília. v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008a. BERCHT, Magda et al. Comunicação Alternativa através da Tecnologia Assistiva:: mentes e máquinas na formação de professores para autistas. In: ALMADA, Jhonatan (org.). Cadernos Maria Aragão de Tecnologias Sociais. São Luís: Engenho, 2015. p. 7-27. BERSCH, Rita; SCHIRMER, Carolina. Tecnologia Assistiva no Processo Educacional. In: Ensaios Pedagógicos: Construindo Escolas Inclusivas. Brasília: MEC/SEESP, 2005. BEZ, Maria Rosangela. Comunicação Aumentativa e Alternativa para sujeitos com Transtornos Globais do Desenvolvimento na promoção da expressão e intencionalidade por meio de ações mediadoras. 2010. p. 164. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010. BEZ, Maria Rosangela. SCALA – Sistema de comunicação alternativa para processos de inclusão em autismo: uma proposta integrada de desenvolvimento em contextos para aplicações móveis e web. 2014. p. 82. Tese (Doutorado em Informática na Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014. CARNEVALE, Luciana Branco; BERBERIAN, Ana Paula; MORAES, Paola Dias de; KRÜGER, Simone. Comunicação Alternativa no Contexto Educacional: conhecimento de professores. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 19, n. 2, p. 243-256, jun. 2013. CORTES, Clarice das Chagas. Comunicação Alternativa: um outro olhar para se comunicar. 2015. 44 f. TCC (Graduação em Pedagogia) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2015. FERREIRA, José; FILHO, Belisário. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: transtornos globais do desenvolvimento. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial; Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2010. v. 9 (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). MANZINI, José. Portal de ajudas técnicas para educação: equipamento e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa com deficiência física: recursos para comunicação alternativa. 2. ed. Brasília: MEC/SEESP, 2006. p. 52. PASSERINO, Lilian Maria; BEZ, Maria Rosangela (org.). Comunicação alternativa: mediação para uma inclusão social a partir do Scala. Passo Fundo: Ed. Universidade de Passo Fundo, 2015. RAPOLI, Edilene Aparecida. et al. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: a escola comum inclusiva. Brasília: Ministério da Educação: Secretaria de Educação Especial: Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2010. v. 1. 52 p. SCHIRMER, Carolina R. et al. Atendimento Educacional Especializado: deficiêcia física. São Paulo: MEC/SEESP, ٢٠٠٧. ١٣٠ p. VYGOTSKY, L. S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001a. SOBRE OS AUTORES Amanda de Sousa Alves Rodrigues Sales Pedagoga pela Universidade Federal do Ceará. Pós-Graduanda em Psicopedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Membro do Grupo de Estudos Analíticos e Psicopedagógicos em Transtorno do Espectro do Autismo – GeapTEA/DFE/UFC. amandaalvesrodriggues@gmail.com Ana Karla Gomes Barbosa Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade Estadual do Ceará. Graduada em Pedagogia – UECE. Membro do Grupo de Estudos Analíticos e Psicopedagógicos em Transtorno do Espectro do Autismo – GeapTEA/DFE/UFC. karla.barbosa@aluno.uece.br Brena Stefani de Brito Pinheiro de Sousa Pedagoga pela Universidade Federal do Ceará. Pós-Graduanda em Psicopedagogia Clínica e Institucional – Faculdade PLUS. Membro do Grupo de Estudos Analíticos e Psicopedagógicos em Transtorno do Espectro do Autismo – GeapTEA/DFE/UFC. brenna.stefani.bp@gmail.com Débora Lucia Lima Leite Mendes (org.) Doutora e Mestra em Educação pela Universidade Federal do Ceará. Psicopedagoga Cetrede/UFC. Pedagoga e Acadêmica de Psicologia. Professora Adjunta da UFC/DFE/Faced. Líder do Grupo de Estudos Analíticos e Psicopedagógicos em Transtorno do Espectro do Autismo – GeapTEA/DFE/UFC. deboraleite@ufc.br Dulcimar Lopes Carvalho Mestra em Educação pela Universidade da Região de Joinville – Univille. Pedagoga, Psicóloga e Especialista em gestão de pessoas. Atua como analista educacional na Faculdade Senac/Florianópolis-SC e como professora de PósGraduação em Educação Especial (Univille/EAD) de Joinville-Santa Catarina. dulcimarcarvalho@gmail.com Dulcinea Bandeira Soares Timbó Mestra em Ensino em Saúde – C.U. /Unichristus. Doutoranda em Psicologia na Universidade de Fortaleza – Unifor. Licenciada em Pedagogia pela UVA/Sobral-CE. Especialista em: Psicopedagogia Institucional e Clínica; Educação Comunitária em Saúde; Psicanálise; Neuroeducação e Autismo. dulcineabandeira@gmail.com Elenise Tenório de Medeiros Machado Mestra em Ciências da Educação – Inovação Pedagógica (UMa – Portugal) e Uniube. Especialista em Instrumentos Psicológicos; Terapia Cognitiva Comportamental-TCC e Neuropsicologia. Pedagoga e Psicóloga pela Unifor-CE. Doutoranda em Psicologia – Unifor-CE. elenisetmmachado@gmail.com Francisca Anice Bezerra Bióloga pela Universidade Estadual do Ceará. Bacharel em Economia Doméstica pela Universidade Federal do Ceará; Especialista em Gerontologia – UVA. Pedagoga. Pesquisa na área de Educação, com ênfase em educação inclusiva, Alfabetização no Ensino Fundamental e na Educação de Jovens e Adultos. anicebezerra@gmail.com Heloisa Fonseca Barbosa Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pós- Graduanda em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Participante do grupo de estudo Educação Inclusiva e Especial da UFC/Faced. heloisa.fonseeca@hotmail.com Jefferson Falcão Sales Doutor em Educação Brasileira pela Faced/UFC. Mestre em Educação pela UECE. Especialistaem Formação de Formadores em Educação de Jovens e Adultos; Psicopedagogia; Gestão Escolar e em Orientação e Mobilidade. Licenciado em Filosofia pela UECE e em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional Uninter. salesjf.professor@gmail.com Lilianne Moreira Dantas Mestra e Doutoranda em Educação Brasileira pela UFC; Especialista em Educação de Jovens e Adultos no Sistema Prisional – UFC e Pedagoga graduada pela UFC. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em educação inclusiva e educação em sistemas socioeducativos para adolescente em conflito com a lei. lilladantas@hotmail.com Lindolfo Ramalho Farias Júnior Mestre em Linguística Aplicada e Doutorando em Educação – UECE; Especialista em Semiótica Aplicada à Literatura e áreas afins; Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e Gestão Pedagógica na Educação Básica. Graduado em Letras-Português e em Pedagogia. Pós- Graduando em Autismo – C. U. Unichristus-CE. professorlindolfojnr@gmail.com Maiara Fonseca de Alencar Barbosa Graduanda em Letras-Português pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Palestrante em eventos sobre Autismo e mulheres na história. Pesquisadora independente com foco em estudos sobre mulheres na história. maiarafbarbosa@gmail.com Maria José Barbosa Doutora e Mestra em Educação pela Universidade Federal do Ceará. Graduada em Estudos Sociais pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e em Pedagogia pela UFC. Professora Adjunta do Departamento de Estudos Especializados da Faculdade de Educação – UFC. mazebarbosa@ufc.br Marisa Ribeiro de Araújo Doutora e Mestra em Educação Brasileira pela UFC. Especialista em Psicopedagogia Clínica e institucional (UECE); Educação Especial e Atendimento Educacional Especializado – UFC e Neuroeducação – Unichristus. Licenciada em Pedagogia – UFC. Professora do AEE na Prefeitura Municipal de Fortaleza, atuando na Educação Especial e Avaliação Educacional. marisa.rdearaujo@gmail.com Patrícia Maria Valente Trigo Especialista em Psicopedagogia e em Educação Inclusiva. Concluiu curso de Especialização Autism and Behavioural Science pelo Seneca College, Canadá (2007). Graduada em Comunicação Social. Palestrante na área de Autismo e Inclusão. Professora de Inglês para níveis infantis, básicos, intermediários e avançados. pmvtrigo@gmail.com Robéria Vieira Barreto Gomes Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná; Mestra em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), com Especialização em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia. Professora Adjunta da Universidade Federal do Acre, em exercício profissional na Universidade Federal do Ceará. aee.roberia@gmail.com Sabrina Soares Timbó Acadêmica de Medicina pela Unichristus, Campus Parque Ecológico em Fortaleza. Foi membro da International Federation of Medical Students Association (IFMSA) tendo participado de vários projetos sociais pelo Comitê Permanente em Saúde Pública (SCOPH). sabrinatimbo3@gmail.com Saulo Edson Soares Timbó Acadêmico de Medicina pela Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Campus Ministro Reis Velloso em Parnaíba-PI. É membro da Liga Acadêmica de Pediatria e Neonatologia da UFPI. É integrante do Programa de Monitoria na área de Pediatria. saulotimbo1@gmail.com Sumara Frota do Nascimento Mestra em Educação Brasileira na linha de Avaliação Educacional – Faced/UFC. Membro do Grupo de Pesquisa em Avaliação e Gestão Educacional (GPage) – UFC/CNPq. Graduada em Serviço Social. Especialista em Orientação e Mobilidade pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – IFCE. sumara.frota@gmail.com 1 O presente artigo originou-se da dissertação de mestrado intitulada: “A trajetória de inclusão de um estudante com autismo, da educação básica à educação superior: Desa�os e possibilidades” Agência de fomento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível superior (Capes). 2 Nome �ctício para preservar a identidade da criança. 3 Para atender a demanda por pro�ssionais de apoio, o município de Horizonte – CE contrata, em parceria com o programa de estágios, graduandos de diferentes cursos superiores para atuarem em um período em escolas nas quais haja a demanda (DANTAS, 2014). 4 Esse Centro dispõe de equipe multipro�ssional para atendimentos aos alunos PAEE e alunos com di�culdade na aprendizagem que são regularmente matriculados na rede de ensino de Horizonte-CE (DANTAS, 2014). 5 Período em que o professor está fora de sala de aula, mas na escola, para realizar planejamento (DANTAS, 2014). 6 Professores regentes são aqueles professores responsáveis por ministrar aulas para sua turma. 7 Segundo o DSM-V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), o Transtorno do Espectro Autista pode ser classi�cado em: Grau leve (Nível 1), Grau moderado (Nível 2) e Grau severo (Nível 3). Nível 1 – Necessidade de pouco apoio; Nível 2 – Necessidade de apoio substancial; Nível 3 – Necessidade de apoio muito substancial. 8 Em uma perspectiva psicanalítica, o psicanalista não descarta a hipótese biológica, mas recusa a discussão posta em termos de uma dicotomia biológico/psíquico. A origem não está nem em um, nem em outro domínio, como diz Zenoni (1991). 9 Transtorno psicológico caracterizado pela recusa em falar em determinadas situações. Geralmente envolve pessoas tímidas, introvertidas e ansiosas. Esse transtorno começa quando a pessoa ainda é criança; geralmente ela fala apenas com algum dos pais, ou com ambos, e também com animais e com outras pessoas da família. Essas pessoas se recusam a falar com a maioria dos demais (professores, médicos, dentistas, outros familiares e desconhecidos). A frequência não varia muito com o gênero, mas é mais comum em meninas. Em adultos, é mais comum que sejam diagnosticados com fobia social. 10 Pulsão: conceito psicanalítico criado por Freud. 11 O DSM-V um manual diagnóstico e estatístico feito pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) para de�nir os critérios para o diagnóstico de transtornos. 12 Ecolalia é uma manifestação de afasia em que a pessoa repete de forma mecânica palavras ou frases que ouve. 13 Neurotípico é uma abreviação de neurologicamente típico. É um neologismo amplamente utilizado na Psicologia, Psiquiatria, Neurologia, bem como nos aspectos sociológicos e culturais do autismo para se referir a pessoas que não estão no espectro autista. ÍNDICE REMISSIVO A Acessibilidade 26, 27, 75, 126, 127, 137 Aprendizagem 7, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 24, 26, 27, 28, 32, 40, 41, 43, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 58, 59, 76, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 86, 87, 88, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 102, 104, 121, 122, 124, 126, 129, 130, 136 Atendimento educacional especializado 23, 26, 27, 36, 39, 40, 48, 75, 89, 124, 125, 126, 127, 129, 136, 139, 140, 142 C Comportamento 30, 32, 34, 35, 38, 58, 59, 63, 64, 72, 78, 80, 81, 94, 95, 101, 106, 113, 116, 117, 118, 120, 134 Crianças com autismo 30, 56, 61, 75, 78, 112, 115, 118, 119, 120, 134 Cuidadores 30, 31, 36, 37, 38, 40, 41, 63, 70, 72 D Dificuldades 14, 16, 17, 18, 24, 31, 32, 54, 56, 58, 59, 60, 67, 69, 77, 78, 81, 84, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 102, 103, 105, 106, 118, 119, 120, 125, 127, 129, 133 Dificuldades sociais 119, 120 E Educação 7, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 34, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 46, 47, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 63, 73, 75, 76, 77, 80, 81, 83, 85, 88, 89, 90, 91, 92, 96, 100, 109, 111, 115, 122, 123, 124, 125, 126, 128, 129, 130, 131, 132, 133, 136, 137, 138, 139, 140, 141, 142 Educação especial 17, 18, 24, 25, 26, 27, 37, 39, 40, 41, 51, 53, 75, 76, 80, 81, 88, 89, 90, 115, 129, 132, 136, 137, 139, 140, 141 Educação Inclusiva 16, 17, 19, 23, 25, 26, 28, 37, 38, 39, 47, 51, 61, 75, 89, 123, 124, 128, 130, 131, 136, 137, 139 Ensino Fundamental 20, 35, 44, 76, 80, 104, 128 Escola comum inclusiva 24, 41, 90, 140 Estudantes com deficiência 75, 126, 127, 128, 129, 130 F Família 30, 31, 34, 35, 56, 57, 59, 60, 61, 63, 64,65, 66, 67, 69, 70, 71, 72, 77, 79, 80, 81, 82, 84, 85, 86, 89, 92, 96, 97, 98, 100, 103, 105, 116, 125, 128, 130, 131, 132 clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml clbr://internal.invalid/book/OEBPS/D_bora_Leite_-_23805.xhtml Formação continuada de professores 38, 136, 139 I Inclusão escolar 7, 26, 39, 40, 41, 44, 47, 48, 51, 53, 75, 84, 88, 89, 90, 103, 121, 127, 136, 137, 140 Interação social 30, 32, 56, 80, 85, 95, 96, 98, 100, 101, 113, 134, 136 L Literatura Infantil 8, 111, 112, 119 N Necessidades educacionais especiais 18, 21, 46, 51 Neurodesenvolvimento 95, 96, 101, 112, 134 P Pluralidade de práticas 51, 52, 122 Política nacional de educação 25, 26, 39, 51, 75, 89, 124, 136, 137, 139 Práticas pedagógicas inclusivas 7, 23, 24, 25 Professor 13, 14, 16, 18, 19, 23, 26, 27, 81, 82, 84, 86, 87, 88, 103, 125, 126, 127, 137 Psicoeducação 24, 25, 31, 34, 35, 36, 37, 40 Público-alvo 24, 26, 27, 35, 36, 75, 76, 115, 118, 120 Público infantil 112, 114 R Recursos pedagógicos 27, 75, 87, 98, 125, 126, 127, 128, 130 S Sala de aula 20, 27, 43, 75, 81, 82, 83, 84, 86, 87, 95, 103, 105, 125, 126, 127, 129, 137, 138 Serviços terapêuticos 31, 37 Sociedade 11, 16, 20, 23, 46, 54, 59, 69, 88, 89, 91, 92, 94, 95, 99, 111, 112, 114, 117, 119, 123, 124, 137, 138 T Transtorno do Espectro do Autismo 3, 7, 8, 11, 29, 32, 39, 43, 53, 90, 91, 94, 95, 96, 98, 99, 101, 109 Transtornos globais do desenvolvimento 75, 89, 139, 140 SOBRE O LIVRO Tiragem: 1000 Formato: 16 x 23 cm Mancha: 12,3 X 19,3 cm Tipologia: Times New Roman 11,5/12/16/18 Arial 7,5/8/9 Papel: Pólen 80 g (miolo) Royal Supremo 250 g (capa) sumário APRESENTAÇÃO Débora Lucia Lima Leite Mendes REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA Débora Lucia Lima Leite Mendes NEUROEDUCAÇÃO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS: reflexões acerca da educação de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) Marisa Ribeiro de Araújo Elenise Tenório de Medeiros Machado Lindolfo Ramalho Farias Júnior AVALIAÇÕES EXTERNAS E A PARTICIPAÇÃO DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO (TEA): uma inclusão excludente? Brena Stefani de Brito Pinheiro de Sousa Débora Lucia Lima Leite Mendes A INCLUSÃO DE PESSOAS COM AUTISMO NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: desafios e possibilidades Dulcimar Lopes Carvalho FAMÍLIAS DE PESSOAS COM AUTISMO: onde está realmente localizado tanto estresse? Patricia Trigo Sumara Frota do Nascimento Jefferson Falcão Sales CONTRIBUIÇÕES DO AEE NO PROCESSO DE INCLUSÃO ESCOLAR DE UM ESTUDANTE COM TEA Francisca Anice Bezerra Lilianne Moreira Dantas A PRÁTICA PSICOPEDAGÓGICA E O TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA: história, contribuições e intervenções Ana Karla Gomes Barbosa Débora Lucia Lima Leite Mendes TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO – TEA: diagnóstico tardio e insucesso escolar Dulcinea Bandeira Soares Timbó Sabrina Soares Timbó Saulo Edson Soares Timbó REPRESENTAÇÃO DA IMAGEM DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) NA LITERATURA INFANTIL Maiara Fonseca de Alencar Barbosa Heloisa Fonseca Barbosa Robéria Vieira Barreto Gomes Maria José Barbosa DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A INCLUSÃO DO ESTUDANTE COM DEFICIÊNCIA: a experiência de uma escola municipal de Fortaleza Ana Karla Gomes Barbosa Débora Lucia Lima Leite Mendes COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA: uma ponte para a inclusão de pessoas com autismo Amanda de Sousa Alves Rodrigues Sales Débora Lucia Lima Leite Mendes SOBRE OS AUTORES índice remissivoum caminho quando afirma que, [...] sobretudo, Vygotsky expressou de que com a ajuda da avaliação da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) se poderia melhor escolher entre as crianças autenticamente deficientes mentais e as crianças apenas com dificuldades intelectual provisória, decorrente de privações ambientais. Fica subentendido assim, que crianças com transtorno global necessitam de formas avaliativas diferentes, devendo-se atentar primeiramente para a necessidade da avaliação cognitiva das crianças, sempre tomando muito cuidado, para se evitar uma avaliação enganosa. Eggert (1997), membro da universidade alemã de Hannover, enfatiza a avaliação sob o ponto de vista das mudanças paradigmáticas na educação especial, nas últimas três décadas, mudança estas que aguçam para a concepção de educação inclusiva como tendência crescente. Esse movimento tem como principal função a “deflagração de um processo de desestigmatização e de inclusão social do aluno com necessidades especiais”, assim aponta (BEYER, 2010, p. 95). Considerando esse contexto paradigmático, pode-se tecer considerações a respeito da identificação das necessidades especiais dos alunos com vistas aos objetivos da avaliação de educandos que necessitam de atendimento específico. É importante salientar que Beyer (2010) defende a inclusão do aluno com deficiência na escola regular. Porém, alerta para a necessidade da avaliação ultrapassar as barreiras das limitações funcionais do aluno, indo ao encontro das potencialidades intelectuais e socioafetivas. Nesse sentido, admite-se que algumas crianças possuidoras de limitações que lhes imponha uma fraca condição de desenvolvimento intelectual precisam de uma avaliação que não se preocupe apenas com o “déficit operacional” do educando, visto que esta poderá induzi-lo a um diagnóstico negativo, pois, com base nos pressupostos da teoria vygotskiana, a avaliação deve sempre buscar a superação (BEYER, 2010, p. 96). Conforme Bibas e Valente (2008), o professor para avaliar o aluno com necessidades educacionais especiais, é imprescindível que ele realize uma avaliação inicial, com o objetivo de delinear o perfil de desenvolvimento desse estudante. Para tanto, é necessário contar com a colaboração de familiares e de outras profissionais que estão envolvidos com a criança. A avaliação inicial é composta por elementos investigativos que determina os objetivos, conteúdos, estratégias de conduta para cada aluno. É importante esclarecer que essa determinação precisa ser dinâmica, uma vez que o professor pode e deve rever e modificar sempre que for necessário. A partir dessa avaliação inicial o professor, tem uma visão real e individualizada, bem como terá parâmetros para constatar os avanços dos alunos. Seguem algumas estratégias adaptativas para avaliação de alunos com necessidade educacionais especiais: i) mudança da temporalidade dos objetivos, conteúdos e critérios de avaliação, ou seja, o professor precisa considerar que o aluno com necessidades educacionais especiais tem capacidade para alcançar os objetivos do grupo, porém pode requerer um tampo maior; ii) enfatizar os objetivos, conteúdos e critérios de avaliação levando em conta suas habilidades, suas condutas típicas e dificuldades. Isso não significa negligenciar os objetivos definidos para o grupo, porém precisam acrescentar outros que contemplem a suas necessidades; iii) tendência a promover a aprendizagem do aluno. Desse modo, é indispensável que se der mais valor às suas potencialidades que as suas dificuldades (BIBAS; VALENTE, 2008). Para avaliar a aprendizagem dos alunos da Educação Especial no decorre do ano letivo, há recomendações explícitas do MEC, que se utilize a avaliação formativa, visto que esta possibilita ao professor a utilização de instrumentos variados, aproximando a relação professor-aluno de forma individualizada fazendo as adaptações necessárias utilizando recursos que atendam necessidade de todos. Os rumos da avaliação também se delineiam para uma avaliação diagnostica que consiste em realizar um diagnóstico da real situação de aprendizagem do aluno, servindo de subsídios para a tomada de decisão por parte do professor em favor do desenvolvimento e da aprendizagem do aluno (BRASIL, 2005; FERNANDES; VIANA, 2009). Nesse sentido, a avaliação dos educandos com algum tipo de necessidade educativa específica, que antes era realizada a partir da seleção dos alunos deficientes para as escolas especiais passa a priorizar a identificação das necessidades especiais dos mesmos para que sejam atendidos no âmbito da escola regular; com a devida orientação e acompanhamento pedagógicos, utilizando-se de métodos quantitativos e normativos para a descrição qualitativa e a consideração do contexto e suas peculiaridades, sempre em busca de uma educação de qualidade, que de fato seja para todos e com todos. 5 Como deve ser as práticas diárias de avaliação na educação inclusiva de crianças com TEA Na perspectiva da educação inclusiva, o educando com TEA, por apresentar características específicas precisa de práticas de ensino e de avaliação da aprendizagem com vistas a atender suas demandas e suscitar o desenvolvimento de suas competências. Pois, para que haja um devido atendimento pedagógico aos alunos com deficiência é imprescindível que os docentes consigam distinguir suas características de suas necessidades de aprendizagem. Esse grupo carece de ações educacionais especializadas com uma pedagogia diferenciada com capacidade de atender as peculiaridades apresentadas por cada um deles. Segundo Beyer (2010), [..] não há como considerar que uma criança com Autismo, deficiência mental, com paralisia cerebral ou mesmo com uma deficiência sensorial (visual ou auditiva) possa ter o devido atendimento pedagógico sem uma suficiente distinção de suas características cognitivas e de aprendizagem. É importante destacar que Eggert apud Beyer (2010), focaliza a avaliação respeitando o conceito de Educação Inclusiva, que tem como propósito desestigmatizar e incluir socialmente esses alunos. Em consonância com esse autor, “A avaliação deve pautar-se não apenas pelas limitações funcionais que o aluno apresenta, porém principalmente através da sondagem das suas potencialidades intelectuais e socioafetivas”. Refletir sobre a avaliação da aprendizagem provocando mudanças nas práticas docentes, especialmente no tocante ao ensino e a avaliação são essenciais para garantir a entrada e permanência dos educandos com TEA no ensino regular com perspectiva de continuidade de seus estudos, visto que essas mudanças relacionam-se de forma direta com acesso do aluno ao conhecimento. A escola necessita urgentemente acolher a diversidade, abandonando práticas homogêneas e padronizadas em favor das necessidades apresentadas, diversificando as metodologias, instrumentais e recursos de ensino e avaliação, colaborando para que todos tenham a mesma oportunidade (BEYER, 2010; FERNANDES, 2009). Assim, em se tratando da prática de ensino e de avaliação, para o professor que trabalha com aluno com TEA, dentre outras deficiências, o MEC sugere que: I. respeitem o ritmo e o estilo de aprendizagem de cada educando; II. os instrumentos avaliativos não devem ser desprezados, porém se necessário; III. precisam ser adaptados; IV. precisa-se considerar o uso da Tecnologia Assertiva (TA); V. usar material do Braille para alunos com deficiência visual; VI. importante ponderar o uso da avaliação digital e da autoavaliação (BRASIL, 2005; 2007). Os instrumentos de avaliação propostos são: i) registros e anotações diárias; ii) observações e suas devidas anotações; iii) diários de classe, relatórios, fichas ou equivalentes; iv) mapas conceituais; v) apresentações orais; vi) pesquisas realizadas pelos alunos; vii) portfólios, desenhos e outras produções realizadas pelos educandos; viii) autoavaliação, que possibilita ao educando a reflexão do que estão realizando em sala de aula e como vem aprimorando seus conhecimentos, pois diferentes modalidades requerem diferentesinstrumentos de avaliação (BIBAS; VALENTE, 2008; SANMARTÍ, 2009). A prática avaliativa nos moldes tradicionais como vem sendo empregada nas escolas do ensino fundamental, e que tem fins meramente classificatórios, e que analisa de forma descontínua aprendizagem do aluno, tem-se mostrado ineficiente para uma análise criteriosa como requer o aluno com deficiência. Essa prática avaliativa só vem cristalizar o processo de exclusão existente em nossa sociedade, pois para alcançar sua nova finalidade, a avaliação terá necessariamente, de ser dinâmica e contínua, delineando o processo de aprendizagem dos alunos em seus avanços e retrocessos (BIBAS, VALENTE, 2008). Pois, a escola de qualidade, que todos almejam, é aquela que exerce cidadania e contempla as diferenças; nesse sentido, somente quando a inclusão se der, de fato, é que a escola regular será realmente a Escola de Todos (MANTOAN, 2011). REFERÊNCIAS BEYER, H. O. Inclusão e avaliação na escola de alunos com necessidades educacionais especiais. Porto Alegre: Mediação, 2010. BIBAS, J. M.; VALENTE, M. I. Avaliação na Inclusão. Inclusive: inclusão e cidadania. [S.l.], 2008. BRASIL. Avaliação para identificação das necessidades educacionais especiais: saberes e práticas da inclusão. Brasília-DF: MEC/SEESP, 2006. DEMO, P. Educação: gestão do conhecimento e da aprendizagem. Belo Horizonte: UNA Editorial, 2002. ESCUDERO, T. Desde los tests hasta la investigacion actual: Um siglo, el XX, de intenso desarollo de la evaluación em educación. Revista Eletrônica de Investigación y Evaluación Educativa, v. 9, n. 1, 2003. ESTEBAN, M. T. O que Sabe Quem Erra? Reflexões Sobre Avaliação e Fracasso Escolar. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. FERNANDES, T. L. G.; VIANA, T. V. Alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NEEs): avaliar para o desenvolvimento pleno de suas capacidades. Estudos em Avaliação Educacional, São Paulo, v. 20, n. 43, p. 201-213, maio/ago. 2009. FURLANETTO, Cláudia Regina; HOLANDA, Patrícia Helena Carvalho. Teoria e prática da avaliação de aprendizagem: um desafio. In: CONGRESSO INTERNACIONAL EM AVALIAÇÃO EDUCACIONAL, 3., Fortaleza, 16-18 nov. 2006. Anais [...]. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2006. p. 86-92. GUTHKE, J.; WINGENFEL, S. The Learning Test concept: origins, state of the art, and trends. In: HAYWOOD, H.C.; TZURIEL, D. (ed.). 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NEUROEDUCAÇÃO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS: reflexões acerca da educação de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) Marisa Ribeiro de Araújo Elenise Tenório de Medeiros Machado Lindolfo Ramalho Farias Júnior 1 Considerações iniciais Nos últimos anos, presenciou-se impactos positivos na implementação dos direitos relativos à Educação Inclusiva, decorrentes, sobretudo, do crescente aumento de pesquisas científicas e das reivindicações advindas da participação da sociedade civil organizada para consolidação de diversas leis em vigor. Contudo, no que se refere especificamente à inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista – TEA, apesar do número crescente da presença desse público nas escolas, ainda persiste a falta de formação adequada para os profissionais envolvidos, o que tem repercutido negativamente na qualidade do ensino oferecido. É o que advertem os estudos de Nunes, Azevedo e Schmidt (٢٠١٣) ao destacarem, em uma revisão da literatura, os efeitos negativos da carência de estratégias pedagógicas específicas destinadas à consolidação das aprendizagens desses estudantes. As instituições de ensino que buscam a concretização de práticas pedagógicas inclusivas necessitam nortear suas propostas baseadas em alguns princípios, dentre eles o de que todos podem aprender, conforme seus ritmos e potencialidades. Conforme defende Mantoan (2006, p. 38): Para ensinar a turma toda, parte-se do fato de que os alunos sempre sabem alguma coisa, de que todo educando pode aprender, mas no tempo e do jeito que lhe é próprio. Além do mais, é fundamental que o professor nutra uma elevada expectativa em relação à capacidade de progredir dos alunos e que não desista nunca de buscar meios para ajudá-los a vencer os obstáculos escolares. O sucesso da aprendizagem está em explorar talentos, atualizar possibilidades, desenvolver predisposições naturais de cada aluno. As dificuldades e limitações são reconhecidas, mas não conduzem nem restringem o processo de ensino, como comumente se deixa que aconteça (MANTOAN, 2006, p. 38). Percebe-se essa concepção ao analisar os estudos de Orrú (2016) quando propõe que as intervenções pedagógicas destinadas aos alunos com TEA sejam construídas a partir dos eixos de interesse desses aprendizes, evidenciando essa condição como indispensável para um trabalho educacional na perspectiva inclusiva. As Neurociências têm fornecido diversas informações que progressivamente desvelam os percursos de aprendizagens dos sujeitos, tornando esses conhecimentos cada vez mais necessários no campo da Educação. A literatura especializada evidencia os benefícios da adoção de abordagens multidisciplinares envolvendo conhecimentos das Neurociências, aliados às diversas áreas das Ciências da Educação, demonstrando as influências de fatores intrínsecos e extrínsecos no processo de ensino-aprendizagem. Os estudos de Cunha (2016) nos confirmam essa perspectiva, ao enfatizar a importância de conhecermos as particularidades nas formas de aprender desses alunos, instigando os profissionais da educação a buscarem alternativas para compreenderem melhor essas especificidades. Os estudos acerca da educação das pessoas com TEA evidenciam inúmeras barreiras para sua efetivação. Considera-se, assim, primordial a necessidade da discussão desses achados científicos, com o intuito de fomentar a elaboração de intervenções psicoeducacionais no contexto da escola comum inclusiva, envolvendo profissionais da educação e familiares desses sujeitos, uma vez que sido frequente a queixa da inexistência ou precariedade de formação continuada acerca das especificidades desse público-alvo da Educação Especial, quer por parte dos familiares, quer pelos próprios profissionais da educação. O presente artigo objetivou explicitar algumas reflexões acerca da educação das pessoas com TEA, suas interseções com a Neuroeducação e práticas pedagógicas inclusivas. Nesse cenário, dentre os estudos analisados na literatura especializada, percebe-se a Psicoeducação como uma abordagem promissora para auxiliar familiares e profissionais da educação na tarefa de construir instituições escolares verdadeiramente inclusivas. Para tanto realizou-se uma breve revisão da literatura especializada, aliada às nossas percepções advindas das experiências como docente da Educação Básica, notadamente da Educação Especial. 2 Metodologia Neste trabalho, realizou-se um estudo qualitativo do tipo pesquisa bibliográfica, com uma breve revisão de literatura, a fim de construirmos a contextualização de nosso problema de pesquisa. Conforme elucida Noronha e Ferreira (2000), esse tipo de pesquisa torna-se fundamental na aquisição e atualização do conhecimento acerca dotema em estudo, demonstrando novas ideias, métodos, bem como a frequência com que determinados subtemas têm sido enfatizados na literatura especializada. Ao analisarmos algumas possibilidades localizadas na literatura consultada, situamos nossas concepções com referencial teórico pesquisado. Para tanto, o material coletado pelo levantamento bibliográfico foi organizado por fontes científicas com artigos, teses, dissertações, livros e, ainda, documentos legais sobre a temática. Na seleção de estudos realizou- se buscas em alguns sites de pesquisa acadêmica: portal de periódicos Capes/MEC, Lilacs, Scielo e Google acadêmico. Utilizou-se como estratégia a busca por meio das palavras ou termos a seguir: psicoeducação, inclusão autismo, formação continuada, transtorno do espectro autista, neuroeducação e neurociências. Após a leitura dos resumos dos trabalhos que se aproximavam do nosso objetivo proposto, selecionou-se os trabalhos de que faríamos a leitura completa. Ao final dessas buscas, utilizou-se diretamente em nosso trabalho 15 artigos científicos, duas teses, uma dissertação, uma monografia, 14 livros e oito documentos legais. Esse trabalho objetivou explicitar algumas reflexões acerca da educação das pessoas com TEA, suas interseções com a Neuroeducação e práticas pedagógicas inclusivas. Especificamente, buscou reunir brevemente alguns aportes teóricos que fundamentassem a importância e a viabilidade de propostas psicoeducacionais no contexto escolar. 3 Fundamentação teórica 3.1 Considerações acerca da atual Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva A atual Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008a), no ano de 2018 completa uma década de publicação. Nesse período, desde a sua implantação, o paradigma da Educação Inclusiva tem sido discutido mais frequentemente em nosso cenário educacional. A adesão aos seus princípios basilares – a compreensão de que a Educação configura um direito de todos – tem impulsionado as propostas presentes nas atuais políticas públicas no Brasil. Embora no cotidiano das instituições de ensino, quer públicas, quer privadas, ainda presencia-se um distanciamento entre o discurso e a prática pedagógica – dado o destaque, entre outros fatores, das condições insuficientes de formação continuada aos docentes. Conforme a Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL, 1988), artigo 206, inciso I, o ensino deverá ser ministrado tendo por fundamento os princípios de igualdade de condições para o acesso e a permanência do aluno na escola. Dessa maneira, os princípios da Educação Inclusiva preconizam que as intervenções educativas sejam adequadas a todos os alunos, independentemente de suas condições pessoais e socioculturais (CARVALHO, 2005). Corrobora-se com a afirmativa de Virgolim (2007), ao ressaltar a necessidade de construirmos um ambiente educacional flexível e responsivo, que corresponda aos diferentes níveis e ritmos de aprendizagem, considerando os interesses de todos os alunos. Com a ampliação dos direitos das pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista e Altas Habilidades/Superdotação, expostos nas propostas da Educação Inclusiva – presentes na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº ٩٣٩٤/٩٦ (BRASIL, ١٩٩٦), nas resoluções advindas do Conselho Nacional de Educação, nos Marcos Político-Legais da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2010a), nas orientações da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008a), no Decreto Presidencial nº 6.571, de 17 de setembro de 2008 (BRASIL, 2008b), no Decreto presidencial nº 7.611, de 17 de novembro de 2011(BRASIL, 2011), e na Lei nº 13.146, Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015), progressivamente tem se ampliado, conforme preconizam diversos autores, a compreensão da inclusão escolar como impulsionadora de mudanças educacionais, considerando a necessidade de construirmos um ensino de atenção às diferenças (ARAUJO, 2013; DUTRA; GRIBOSKI, 2006; FIGUEIREDO; BONETI; POULIN, 2010; MANTOAN, 2006, 2010; ROPOLI et al., 2010). Nesse cenário, cumpre mencionar o importante papel do professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE) como articulador da inclusão escolar. No documento do Ministério da Educação (MEC) intitulado “As Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica” (BRASIL, 2009), especificam-se que o AEE transcorre nas denominadas Salas de Recursos Multifuncionais, ambientes disponibilizados, preferencialmente, na escola regular, podendo ser ofertado também em instituições especializadas. Ropoli et al. (2010, p. 31) explicitam que “[...] essas salas são organizadas com mobiliários, materiais didáticos e pedagógicos, recursos de acessibilidade e equipamentos específicos para o atendimento aos alunos público-alvo da educação especial, em turno contrário à escolarização”. Estes serviços de avaliação e intervenção pedagógica são disponibilizados por professores habilitados para o exercício da docência, que possuem formação específica na área da Educação Especial. Dentre as atribuições do professor do AEE, pode-se destacar: I – identificar, elaborar, produzir e organizar serviços, recursos pedagógicos, de acessibilidade e estratégias considerando as necessidades específicas dos alunos público-alvo da Educação Especial; II – elaborar e executar plano de Atendimento Educacional Especializado, avaliando a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagógicos e de acessibilidade; [...] VI – orientar professores e famílias sobre os recursos pedagógicos e de acessibilidade utilizados pelo aluno; [...] VIII – estabelecer articulação com os professores da sala de aula comum, visando à disponibilização dos serviços, dos recursos pedagógicos e de acessibilidade e das estratégias que promovem a participação dos alunos nas atividades escolares (BRASIL, 2009, p. 3). O documento supracitado expõe que o Projeto Pedagógico (PP) da escola de ensino regular deverá institucionalizar a oferta do AEE prevendo sua organização. Corrobora-se, nesse contexto, com Figueiredo, Boneti e Poulin (2010) ao afirmarem que a qualidade nessas ações educativas necessita da colaboração entre todos os atores da instituição escolar para serem bem- sucedidas, possibilitando, assim, a construção de práticas pedagógicas que reconheçam e valorizem as diferenças de seus alunos. 3.2 Neurociências e Educação: um caminho promissor O cenário atual e futuro aponta para a necessidade da imersão nas pesquisas e Fischer (2009) propõe que cientistas e educadores unam investigação e prática, com o objetivo de produzir investigações que relacionem ensino e aprendizagem em ambientes educacionais. Oliveira (2014, p. 15) confirma essa importância ao declarar que Entender os aspectos biológicos relacionados com a aprendizagem, as habilidades e deficiências de cada indivíduo ajuda educadores e pais na tarefa de educar. Elaborar ações educativas com base no conhecimento da neurociência é dispor de ferramentas capazes de analisar o percurso da aprendizagem para que se alcance o potencial individual de desenvolvimento e aprendizagem (OLIVEIRA, 2014, p. 15). O pesquisador neurocientista Lent (2013) discorre acerca dos primeiros conceitos da Neurociência esclarecendo que há várias maneiras de ver o cérebro dessa forma os pesquisadores das diversas áreas que compõem esse campo focarão seu olhar a partir de sua atuação profissional, privilegiando sua abordagem: “Há muitas maneiras de ver o cérebro, como há muitas maneiras de ver o mundo [...]. Também o sistema nervoso, e o cérebro em particular, podem ser estudados de várias maneiras, todas verdadeiras e igualmente importantes” (LENT, 2013, p. 5). Segundo Lent (2013), o que denomina-se de Neurociência, na verdade trata-se das Neurociências, no plural, explicitando que existem diferentes modos de classificá-las, considerando de modo esquemático cinco grandesdisciplinas neurocientíficas: a Neurociência molecular (Neuroquiraica ou Neurobiologia molecular); a Neurociência celular (Neurocitologia ou Neurobiologia celular); a Neurociência sistêmica, onde a Neuro-histologia ou Neuroanatomia ocupa-se de uma abordagem mais morfológica enquanto os aspectos funcionais são estudados especificamente na Neurofisiologia; A Neurociência comportamental, conhecida como Psicofisiologia ou Psicobiologia; e a quinta, a Neurociência cognitiva, também chamada de Neuropsicologia. Dada a multiplicidade de saberes envolvidos, é notória a natureza multidisciplinar desse campo, como enfatiza Lent (2013, p. 6): Tanto na pesquisa científica como nas profissões da saúde, o trabalho se beneficia muito da interação multidisciplinar, envolvendo várias das disciplinas citadas. Na verdade, a multidisciplinaridade torna-se cada vez mais indispensável, pois o sistema nervoso tem vários níveis de existência, como já vimos, e compreendê-lo exige múltiplas abordagens (LENT, 2013, p. 6). Na área da Educação, por exemplo, destaca-se o interesse desses profissionais em compreender como o sistema nervoso seleciona e armazena informações, a fim de elucidar os processos de aprendizagem. Conforme explica, em sua tese, a pesquisadora Tokuhama-Espinosa (2008), a Neuroeducação pode ser caracterizada como uma subdisciplina da Neurociência. Esclarecendo que este campo se preocupa em analisar o processo de ensino-aprendizagem, por meio de pesquisas com variadas metodologias, em múltiplos contextos, onde educadores têm buscado conhecimentos neurocientíficos com o objetivo de melhorarem suas práticas. Arcanjo (2013), ao realizar uma pesquisa relacionando as temáticas da Educação Inclusiva e Neuroeducação, ressalta a importância da formação dos profissionais da educação para a utilização desses saberes no contexto escolar, [...] além de um discurso efetivo entre as áreas, a formação dos profissionais é de fundamental importância para a atuação nos processos práticos e funcionais do ato de ensinar e aprender. Procurar por programas que propiciem o conhecimento acerca da dinâmica do cérebro e da aprendizagem é função do profissional, mas, cabe às políticas educacionais fornecer capacitação e atualização em seus programas de graduação e formação continuada (ARCANJO, 2013, p. 51). Nas Neurociências pode-se citar alguns conhecimentos importantes a serem compreendidos por educadores. Dentre eles, as evidências científicas de que os neurônios podem se modificar. É o que revelam os estudos das bases Biológicas da Neuroplasticidade: Toda vez que alguma forma de energia proveniente do ambiente de algum modo incide sobre o sistema nervoso, deixa nele alguma marca, isto é, modifica-o de alguma maneira. E como isso ocorre em todos os momentos da vida, a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural (LENT, 2013, p. 148). Reconhecer que o ambiente pode ocasionar alterações morfológicas e funcionais no sistema nervoso e que essas modificações podem promover uma plasticidade comportamental nos leva a refletir o quanto pode ser impactante para os educandos com TEA um ambiente enriquecedor de estímulos adequados às suas necessidades específicas. Os neurocientistas destacam, ainda, a existência de um período crítico, onde ocorre uma maior plasticidade. Lent (2013, p. 160) cita como exemplo os casos de “meninos selvagens”, crianças que foram encontradas na selva e que não falavam. Em diversas descrições do tipo, perceberam que tinham em comum o fato de que, o quanto mais tardia fossem as intervenções de ensino da língua e habilidades cognitivas, mais negativo seriam os resultados, levando-os a considerar que a possibilidade dessas aprendizagens se extenuasse durante a infância. 3.3 Interfaces do Transtorno do Espectro do Autismo nas Neurociências e Educação No que se refere especificadamente às pessoas com TEA, encontrou-se na literatura especializada certo consenso (CORREIA, 2011; BOSA, 2006; BORBA, 2014; ZANON; BACKES; BOSA, 2014) quanto à importância do diagnóstico e intervenção precoce e suas consequências positivas para o desenvolvimento dessas crianças. “[...] Devido à plasticidade cerebral, a precocidade do início da intervenção desempenha papel importante, potencializando os efeitos positivos da mesma” (ZANON; BACKES; BOSA, 2014, p. 26). Embora haja consenso entre estudiosos quanto à importância do diagnóstico precoce de pessoas com TEA, na realidade ocorre o inverso, conforme explicitam Zanon, Backes e Bosa (2014, p. 26): “[...] De fato, alguns estudos têm demonstrado que crianças com TEA dificilmente recebem esse diagnóstico antes dos 5 anos” (DALEY, 2004; HOWLIN; ASGHARIAN, 1999; MANDELL; LISTERUD; LEVY; PINTO-MARTIN, 2002). Quanto aos sinais precoces para identificação do TEA, destacou-se a ausência nas habilidades de compartilhar suas ações de forma intencional (atenção compartilhada) e déficits significativos no desenvolvimento da fala, tendo sido, a ausência ou atraso na fala dos filhos, a principal responsável pela busca de intervenções na área da saúde pelos pais: De fato, estudos demonstram que o comprometimento e o atraso no desenvolvimento da habilidade de atenção compartilhada é um dos sinais mais precocemente observados em crianças com TEA (Bosa, 2009, 2002a; Naber et al., 2008; Shumway & Wetherby, 2009), sendo capaz de discriminar de 80 a 90% de crianças com o transtorno de outras com outros problemas ou atrasos no desenvolvimento (Charman et al., 1997) (ZANON; BACKES; BOSA, 2014, p. 27). No que se refere ao contexto familiar das pessoas com TEA, Bosa (2006) destaca um fator que considera-se crucial, para melhoria das intervenções propostas, tanto na área da saúde, quanto nas intervenções de natureza pedagógica. Trata-se da importância de identificarmos as necessidades das famílias e não somente da pessoa com TEA (ARAUJO, 2014). Concorda- se, nesse contexto, com Bosa (2006, p. 50-51), ao destacar os resultados de um estudo comparativo entre os perfis de estresse de mães e pais de crianças com TEA, evidenciando “[...] que as mães das crianças com autismo apresentaram mais estresse do que os pais e sugeriram que isso foi consequência das diferentes responsabilidades atribuídas a cada genitor na criação da criança”. Esses estudos descritos por Bosa (2006) ressaltam que os genitores sofrem, sobretudo, com relação à demora dos profissionais da saúde em diagnosticar seus filhos. E, ainda, devido às alterações qualitativas associadas ao autismo nas áreas da comunicação (ausência da fala), comportamento (hiperatividade e crises de birra) e interação social. Miele e Amato (2016), ao realizarem uma revisão da literatura acerca da qualidade de vida e estresse em cuidadores e/ou familiares de pessoas com TEA, evidenciaram a necessidade de se ampliarem as redes de apoio psicoterapêutico a esses sujeitos, dado suas influências no desenvolvimento dos próprios pacientes com TEA. Dessa forma, além dos cuidados necessários voltados a criança com TEA, se faz necessário que a família e cuidadores sejam englobados nesse processo. O entendimento do transtorno, a mobilização familiar, a readequação de hábitos e rotina e o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento são fundamentais para o bom encaminhamento terapêutico e envolvimento da família no processo (MIELE; AMATO, 2016, p. 100). Estudos demonstram ainda que cuidadores, com a supervisão de um profissional especializado, podem ser capacitados e contribuir significativamente nos processos terapêuticos destinados a pessoas com TEA. Em sua tese de doutorado, Borba (2014) desenvolveu um programa de intervenção para ensino de habilidades básicas para pessoas com TEA via cuidadores. A pesquisa evidenciou resultados promissores, destacando a importância de ações de capacitação de cuidadores para ampliação do tempo de intervenções necessárias, uma vez que é notória a escassez de serviços terapêuticos utilizando a abordagem analítico-comportamental aplicada para pessoas com autismo. Nesse cenário, destaca-se a importânciada elaboração de políticas públicas que visem ao apoio a essas famílias, uma vez que “[...] A identificação das preocupações parentais e o fornecimento de suporte são cruciais, pois o stress parental pode afetar o desenvolvimento da criança” (BOSA, 2006, p. 51). Considera-se que a abordagem Psicoeducativa pode ser útil nesse campo, sobretudo nos contextos escolares inclusivos. Mais adiante será descrito brevemente acerca do uso das técnicas da Psicoeducação. Voltando-se aos estudos na área das Neurociências, explicita-se que pesquisas realizadas no campo da Neuropsicologia assinalam a presença de disfunções executivas no TEA. Contudo, os estudiosos divergem quanto à identificação de quais componentes executivos estariam mais afetados, o que se explica, em parte, devido à heterogeneidade das características das pessoas com TEA (CHAN et al., 2009; GEURTS et al, 2004; HILL; BIRD, 2006; CZERMAINSKI, BOSA; SALLES, 2013): [...] parece inegável a presença de dificuldades em vários aspectos do controle executivo no TEA, conforme relato de profissionais, clínicos, educadores e familiares de crianças e adolescentes com essa condição (Kenworthy, Yerys, Anthony e Wallace, 2008). A questão fundamental a ser investigada diz respeito a quais subprocessos executivos apresentam prejuízos no TEA, considerando-se os aspectos relacionados às amostras clínicas e à metodologia adotados pelos estudos que avaliaram o construto FE nessa condição clínica (CZERMAINSKI, BOSA; SALLES, 2013, p. 519-520). Percebe-se que pessoas com TEA demonstram dificuldades na função executiva, ao evidenciarem resistência à mudança de rotinas, pois tendem a utilizar a memória de ações já realizadas anteriormente em detrimento do planejamento de novas ações, uma vez que a função executiva (FE) é constituída por um conjunto de processos neurológicos responsáveis, por exemplo, pelo planejamento de ações pelo sujeito, possibilitando que inicie, controle e conclua determinado problema (SILVA; GAIATO; REVELES, 2012). É pertinente concordar com esses autores, ao afirmarem que a maioria dessas crianças fica aflita quando há mais de uma opção para escolher e ansiosa com mudanças, apresenta grandes problemas com transições pela dificuldade de generalizar regras ou informações, e, por isso, prende-se, excessivamente, a uma regra escolhida. Os padrões restritos e repetitivos de comportamento dominam, frequentemente, as atividades cotidianas dessas crianças, impactando negativamente suas habilidades de aprendizagem e desenvolvimentos de comportamentos adaptativos. Estudiosos confirmam que as crianças com TEA, por apresentarem dificuldades em planejar tarefas, inibir respostas irrelevantes e controlar suas ações, tendem a permanecer com os mesmos recursos, ainda que ineficazes, que indicam alterações nas funções executivas. Nesse contexto, presencia- se: “[...] inflexibilidade para mudanças de rotina, atividades ritualizadas e repetitivas, perseverança, foco no detalhe em detrimento de um todo, [...] problemas nos relacionamentos interpessoais” (SILVA; GAIATO; REVELES, 2012, p. 26-27). Essas autoras destacam que o apego à rotina está relacionado a um sentimento de segurança, por não precisarem planejar novas estratégias constantemente. “Se fizerem sempre as mesmas coisas e do mesmo jeito, não precisarão ser flexíveis ou usar outros recursos de suas funções executivas para se adaptarem a situações diferentes” (SILVA; GAIATO; REVELES, 2012, p. 131). Em uma revisão comparativa de artigos publicados no período de 2001 a 2011, os pesquisadores Czermainski, Bosa e Salles (2013) avaliaram estudos com o tema “avaliação neuropsicológica das funções executivas em crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)”. Esses autores identificaram nove estudos cuja análise indicou a presença de “[...] disfunções executivas nos TEA, envolvendo os componentes da inibição, do planejamento, da flexibilidade mental, da fluência verbal e da memória de trabalho” (CZERMAINSKI; BOSA; SALLES, 2013, p. 1). Ressaltaram, a partir desses achados, que na abordagem neuropsicológica do TEA se mostra preponderante a hipótese de disfunção executiva, onde os prejuízos no controle executivo podem estar associados a alguns dos comprometimentos cognitivos e comportamentais em sujeitos com TEA, influenciando os domínios diagnósticos do TEA: dificuldades na interação social, na comunicação e o comportamento repetitivo e estereotipado. O quadro 1 demonstra os achados nos nove estudos analisados, evidenciando como principais prejuízos executivos localizados nas amostras de sujeitos com TEA, os seguintes componentes: controle inibitório, planejamento, flexibilidade cognitiva, fluência verbal, memória de trabalho e funções executivas associadas a atividades cotidianas (ARAUJO, 2014). Quadro 1 – Relação de estudos selecionados sobre TEA e funções executivas, suas respectivas amostras, instrumentos utilizados e principais resultados Autores Amostra Idades Testes/Tarefas/Instrumentos Resultados (Déficits em) Chan et al. (2009) 16 TEA 8-14 Test of Non-verbal Intelligence – TONI III, Figuras Complexas de Rey, Hong Kong Inibição e funções 38 controles List Learning Test, Teste de Reconhecimento de Objeto, Continuous Performance Test II – CPT, Behavioral Rating Inventory of Executive Functions – BRIEF (pais) executivas do dia a dia (BRIEF). Christ et al. (2007) 18 TEA 25 controles 6-12 7-18 Teste de Stroop (cartão e computadorizado), Flanker Test e Tarefa Go/No go Inibição Christ et al. (2011) 28 TEA 49 controles 8-18 Prepotent Response Inhibition Task, Flanker visual filtering Task, tarefa de memória de interferência pró-ativa (Proactive interference memory task) Inibição: resistência à interferência de distratores Geurts et al. (2004) 41 TEA 54 TDAH 41 controles 6-12 Change Task, Torre de Londres, Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (WCST), Fluência verbal semântica e ortográfica, Teste de Retenção Visual de Benton, Circle Drawing Task, Opposite Worlds of the Test of Everyday Attention for Children, Blocos de Corsi Planejamento, flexibilidade cognitiva, fluência verbal semântica e ortográfica, velocidade de processamento Kilinçaslan et al. (2010) 21 TEA 21 controles 8-16 Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (WCST), Teste de Stroop, Fluência verbal semântica e ortográfica, Continuous Performance Test – CPT Inibição, planejamento e fluência verbal ortográfica Landa e Goldberg (2005) 19 TEA 19 controles 7-17 Subtestes da bateria CANTAB (stockings of Cambridge, set-shifting, spatial working memory) Planejamento e memória de trabalho espacial Luppi et al. (2005) 10 TEA 6-15 Torre de Hanói, Tarefa de resolução de problemas Planejamento Robinson et al. (2009) 54 TEA 54 controles 8-17 Teste de Stroop, Teste de Hayling Junior, Torre de Londres, Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (WCST), Fluência verbal semântica Inibição, erros perseverativos e planejamento Van Eylen et al. (2011) 40 TEA 40 controles 8-18 Teste Wisconsin de Classificação de Cartas Adaptado (Wisconsin Card Sorting Task with controlled task switching), WCST-WCTS Erros perseverativos e de alternância Fonte: Czermainski, Bosa e Salles (2013, p. 521). Os resultados dessa breve revisão de artigos confirmam a relevância dos estudos das Neurociências para compreensão dos comportamentos das pessoas com TEA, norteando de forma mais assertiva as avaliações e intervenções de todos os profissionais que trabalham com esse público. 3.4 A Psicoeducação como abordagem de intervenção psicopedagógica no contexto escolar Destaca-se a seguir algumas referências de estudos que apontam a Psicoeducação como uma abordagem eficaz para o planejamento de estratégias de intervenções psicoterápicas não somente em contextos clínicos, como também em contextos escolares. A literatura especializada tem evidenciado os benefícios da psicoterapia, em especial da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) para melhoria da qualidade de vida de pacientes e familiares com os mais variadostipos de transtornos, tais como Transtorno de Ansiedade, Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtorno Bipolar (TB), Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), dentre outros (PETERSON, 2011; FRIEDBERG; MCCLURE; GARCIA, 2011; WRIGHT; SUDAK; TURKINGTON; THASE, 2012; OLIVEIRA; DIAS, 2018; STALLARD; 2009). A Psicoeducação tem papel de destaque na terapia cognitiva, objetivando a orientação de todos os envolvidos. “Seu propósito inclui dar informações à família a fim de que ela tenha clareza em relação a sintomas, tratamento e diagnósticos, facilitando, assim, o processo de mudança” (FRIEDBERG; MCCLURE; GARCIA, 2011, p. 65). Stallard (2009) resume alguns dos aspectos essências da TCC: Um componente básico de todos os programas cognitivo-comportamentais envolve a educação sobre a ligação entre pensamentos, sentimentos e comportamento. O processo implica desenvolver um entendimento claro e compartilhado do relacionamento entre como as pessoas pensam, como sentem e o que fazem (STALLARD, 2009, p. 20). Lebon (1997), ao discorrer acerca dos objetivos da Psicoeducação no seu artigo intitulado “Psico-educação”, diz que a ciência do “viver com educativo e terapêutico” expõe o papel colaborativo e transformador do uso dessas técnicas, destacando que atua no acompanhamento do vivido compartilhado, onde situações reais e práticas do dia a dia são discutidas. O trabalho educativo ocorre por meio de trocas verbais e atividades, [...] assim como, o engajamento do profissional em um “aqui e agora” com um ou mais sujeitos. O psico-educador é um terapeuta no e pelo acontecimento cotidiano. O trabalho do educador favorece o aprendizado de algumas novas condutas. Modificar as interações entre o sujeito e seu meio e modificar o modo de adaptação do sujeito fazem parte do trabalho de educador (LEBON, 1997, p. 16). Oliveira e Dias (2018) realizaram um estudo que buscou caracterizar as publicações científicas acerca da Psicoeducação destinada ao tema Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Após realizarem pesquisas em oito bases de dados nacionais e internacionais encontraram 504 trabalhos completos, contudo somente 29 apresentaram os critérios de inclusão definidos pelos pesquisadores. As informações foram categorizadas e dentre elas destacou-se a afirmativa de que a “[...] psicoeducação do TDAH contribui para maior conhecimento sobre o transtorno, adesão ao tratamento, qualidade de vida e menor intensidade dos sintomas do TDAH” (OLIVEIRA; DIAS, 2018, p. 243). A seguir, no quadro 2, agrupou-se alguns dos dados categorizados nesse estudo: Quadro 2 – Características da Psicoeducação do TDAH nos Estudos Analisados Autores (ano) Público-alvo Conceito de psicoeducação Foco da psicoeducação Aguiar et al. (2014) Professores do Ensino Fundamental Não há TDAH (sintomas, etiologia, vinhetas clínicas, estratégias para lidar com os transtornos Altin et al. (2016) Adultos com TDAH Parte do tratamento que ajuda pacientes e familiares a dar sentido aos sintomas, transtorno e seus prejuízos. Não há Bai et al. (2015) Famílias de crianças (6-16 anos) com TDAH Programa terapêutico focado na comunicação didática de informações e estratégias de enfrentamento para pacientes, familiares ou escola. TDAH (sintomas, causas, prejuízos ao longo da vida), medicação (efeitos colaterais, eficácia e segurança), opções de tratamento (eficácia). Conhecimento sobre TDAH e medicação Ferrin et al. (2014) Famílias de crianças/adolescentes com TDAH Abordagem sistemática e didática, adequada para informar pacientes e familiares sobre o transtorno e tratamento, facilitando a compreensão e a forma de enfrentamento do transtorno TDAH e estratégias comportamentais para manejo dos sintomas e de comportamento desafiante. Hernández & Pacientes, familiares e educadores Estratégia para transmitir informações sobre o transtorno Corrigir crenças distorcidas sobre Gutiérrez (2014) a pacientes, pais e educadores baseados na utilidade e veracidade científica. etiologia, sintomas, diagnóstico, tratamento e estratégias de manejo dos sintomas. Hogue et al. (2014) Adolescentes com TDAH e familiares Intervenções educacionais interativas que fornecem informações estruturadas sobre o TDAH. Essas informações são oferecidas em formato de fácil compreensão e possibilita o desenvolvimento de um perfil único dos sintomas do TDAH relacionado às características de cada paciente. Sintomas, curso do TDAH, funções executivas, efeitos em diversos domínios de funcionamento (família, escola, pares), e diferenças individuais associadas ao TDAH em adolescentes. Fonte: Oliveira e Dias (2018, p. 247-250). Conforme Oliveira e Dias (2018), o termo Psicoeducação diz respeito ao oferecimento de informações que sejam relevantes aos pacientes, familiares, educadores e profissionais da área da saúde, acerca do transtorno, discorrendo de forma didática e em linguagem adequada ao seu público-alvo, podendo abordar assuntos pertinentes ao diagnóstico, tratamento, prognóstico, com o objetivo de promover esclarecimentos que visam à ampliação do conhecimento do problema. Os autores esclarecem que [...] a fim de aumentar a compreensão da sua condição, auxiliar na tomada de decisões com base em informações confiáveis e promover maior adesão ao tratamento (Bégin, Bluteau, Arseneault, & Pronovost, 2012; Bonsack et al., 2015; Swaminath, 2009). [...] A transmissão desses conhecimentos assume diferentes formatos: individual ou grupal, palestras, rodas de conversas, manuais, vídeos ou biblioterapia (Bai, Wang, Yang, & Niu, 2015) (OLIVEIRA; DIAS, 2018, p. 245). Silva e Sousa (2018, p. 57), ao realizarem uma revisão integrativa da literatura acerca da eficácia de programas psicoeducacionais para melhoria da qualidade de vida dos participantes, constataram que “a maioria dos programas avaliados apresentam resultados positivos relativamente à diminuição da sobrecarga dos cuidadores de pessoas com demência após a intervenção psicoeducacional”. Acredita-se que projetos pilotos poderiam ser iniciados com o objetivo de avaliar sua eficácia. Parcerias com as universidades públicas e privadas e secretarias municipais de educação buscariam estratégias que viabilizassem, por exemplo, encontros quinzenais com as famílias, cuidadores e professores de pessoas com TEA. Esses encontros poderiam ser organizados por professores do Atendimento Educacional Especializado, preferencialmente, especialistas em Psicopedagogia e que possuíssem conhecimentos acerca das contribuições das Neurociências, em parceria com Psicólogos especializados em TCC. A literatura especializada demonstra que encontros com duração média de 50 minutos, dentro de sessões que abordem de forma sistematizada e com linguagem adequadas ao público a que se destina, têm efeitos terapêuticos positivos e refletem na qualidade de vida de todos os envolvidos (WRIGHT; SUDAK; TURKINGTON; THASE, 2012). As temáticas específicas poderiam advir das demandas de cada contexto escolar, podendo ser subdivididas, por exemplo, em dez encontros. Compreende-se que atividades dessa natureza podem ser inseridas como pesquisas de extensão e, posteriormente, após serem replicadas em diferentes contextos educacionais inclusivos, poderão constituir-se alternativas eficazes para o enfrentamento às barreiras para efetiva inclusão de alunos com TEA. 4 Considerações finais Ao analisarmos, nos estudos supracitados, as características da Psicoeducação destinadas aos familiares, cuidadores e pacientes com diferentes transtornos, pode-se inferir que essa abordagem poderia ser implementada nas instituições de ensino com alunos com TEA incluídos, uma vez que constatou-se em nossa prática pedagógica, e demais relatos de profissionais que atuam nesse campo, depoimentos que confirmam a escassez de serviços terapêuticos oferecidos a essa clientela, o que repercute negativamente, pois fomentam visões reducionistas por parte dos profissionais da educação, de que os familiares são negligentes e despreparados para lidarem de forma assertiva