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A GEOGRAFIA DO FUTURO E O FUTURO DA GEOGRAFIA
Maria Adélia Aparecida de Souza
Professora Titular de Geografia Humana
Campinas, março 1998
Aos calouros do Curso Ciências da Terra da UNICAMP. 1998.
Estamos aqui para dar início a um ritual. O ritual da aula.
Ritual que, como todos os outros, torna visível um momento importante do processo acadêmico. Ritual pois se trata da celebração de um ofício que há séculos vem sendo realizado por todas as Universidades do mundo - o ofício da primeira aula.
Este é também, para aqueles que estão chegando, um ritual de passagem para o aprendizado do ofício de geógrafo. Ritual que, desde já, é bom que se diga, exige uma postura ética rigorosa que será juramentada por ocasião da colação de grau, daqui há alguns anos. Mas é preciso pensar sobre isto desde logo.
Hoje, os calouros se unem a nós para o percurso de um caminho fundamental desta contemporaneidade: aquele de demonstrar a sociedade a importância do nosso ofício para compreender os dias de hoje, este novo mundo, este novo mapa do mundo mutante, onde a cidadania carente somente ressurgirá à partir também deste conhecimento, fonte inesgotável para o conhecimento da sociedade. Há um fantástico trabalho pela frente.
A Geografia se faz absolutamente necessária. Pelo Atlas, a criança adquire conhecimentos e valores indispensáveis para a sua formação como ser humano e como cidadão: conhecendo o mundo e indagando-se qual o seu papel nele. O ensino da Geografia é um ingrediente básico da educação cívica, da civilidade, da cidadania.
Mas, não se pode negar que neste fim de século as relações entre a geografia e a cartografia, estão bastante ambíguas, embora para muitos de nós, o mapa ainda seja um instrumento analítico de grande importância. Mas, muitas outras disciplinas se servem dele, como também dos gráficos, de imagens, instrumentos corriqueiros do nosso labor, desde sempre. 
Mas, geógrafos e cartógrafos tem tido dificuldades para acompanhar a explosão tecnológica das últimas décadas, mudando a natureza desse labor. 
Mas é importante frisar que esta explosão não foi apenas técnica. Paralelamente ao surgimento dos computadores, que obrigaram a cartógrafos, geógrafos e desenhistas a tornarem-se usuários deles, se produziu uma revolução mental, pois a passagem do ótico ao numérico, exigiu uma mudança na maneira de conceber as superfícies cartográficas e o seu tratamento. (COUCHOT, 1988). 
Apesar da objetividade exigida pelas máquinas, é preciso apontar que selecionar, filtrar, generalizar as formas de uma superfície a ser cartografada é também escolher certas concepções de relações espaciais. E, este processo se dá num mundo caracterizado por aquilo que SANTOS (1992), denomina de aceleração contemporânea. 
Nesta perspectiva, por exemplo, o desenvolvimento de uma cartografia conceitual, de idéias, que supere as correlações simples das cartas temáticas de antigamente, é algo distinto da simples utilização de um instrumento: os cientistas vem nisto a possibilidade de, com a técnica elaborar em duas ou três dimensões, mas os filósofos vão mais longe: percebem aí a existência de um poderoso instrumento comercializável e mediatizável, indispensável para o conhecimento do mundo.
A Cartografia e a Geografia se revolucionam no mundo novo. A primeira absorvendo as abordagens da geografia teórica e os geógrafos aproveitando-se da cartografia para reformulação de muitas de suas questões.
É bom não se esquecer, a título de exemplo, que a Suécia publicou, em 1991, um Atlas apresentado sob forma de CD-Rom, que pode ser consultado num PC e sua consulta se dá em três níveis, bastante diferentes das consultas dos velhos e grandes livros-atlas:
- um primeiro nível documentário: consultam-se pranchas, dados, com um simples comando;
- um segundo nível interativo documental, onde o leitor pode compor regiões, mudar a distribuição das variáveis, selecionar uma particularidade;
- um terceiro nível interativo analítico, onde o leitor pode efetivamente intervir no script , procedendo às suas próprias aplicações, através da proposta de algumas funções, através de uma janela específica para tanto.
A magia do real/virtual. A aceleração no conhecimento do mundo.
Por tudo isto, a vida no mundo de hoje, não pode prescindir dos conhecimentos geográficos. Compete a nós, geógrafos, disseminá-los, com competência e rigor.
Portanto, meus caros novos alunos, sejam benvindos!
Novos tempos, novos desafios, novas rotinas, novas formas de trabalho.
Foi, por este momento da minha vida e por entender a importância da geografia nesta contemporaneidade, que decidi trazer para vocês esta reflexão sobre a Geografia do futuro e o futuro da Geografia.
Vivemos num mundo mutante onde a Geografia e seus profissionais tem um papel fundamental, insisto nisto.
É preciso estar atento para as transformações do mundo e adequar os conhecimentos geográficos a ele. Vale dizer é preciso estar atento ao método.
A Geografia do futuro poderá ser realizada com competência, neste mundo mutante, se estiver atenta a algumas questões fundamentais. 
Não é mais possível produzir uma geografia medíocre, que será imediatamente superada, por exemplo, pelos instrumentos produtores de imagens, que num atmo de segundo, retratam paisagens, lugares, regiões, que no passado tomavam anos ou décadas para serem apreendidos. 
A Geografia precisa se renovar teórica e tecnicamente. O Geógrafo, para competir no mundo novo, precisa ter uma formação rigorosa e criteriosa e mais do que nunca estar atendo á questão da totalidade. Esta é uma velha discussão que vem sendo retomada aqui neste Departamento tanto por Milton Santos, quanto por Armando Corrêa da Silva. Escarafunchar em detalhes e preciosismos é fugir da Geografia, é perder a dimensão do mundo.
Dimensão não é propriamente a palavra que devemos utilizar. Para garantir a totalidade ( atributo do mundo e da Geografia ), poderemos fazê-lo em diferentes escalas. Esta é uma palavra fundamental para o rigoroso labor do Geógrafo e que não pode ficar relegada a segundo plano. 
Num mundo global, total, acelerado, a idéia lugar/mundo é explicitada pela rigorosa utilização da escala.
Mas, a geografia do futuro não pode prescindir dos conhecimentos aprofundados do processos do mundo, que são dados pela filosofia. Querendo ou não, os geógrafos precisarão fazer este esforço para produzir conhecimentos que reflitam o mundo nesta contemporaneidade. Insisto que, as descrições enfadonhas, longas, que já se constituíram em novidades para a Geografia, hoje não conseguem competir com o implacável desenvolvimento da técnica, que de longe, supera os clássicos trabalhos do geógrafo. 
Só não supera a criatividade do geógrafo filósofo. Este, prescisa estar impregnado da exata noção da complexidade do mundo, da instantaneidade dos processos que alteram a vida do mundo e, sobretudo, pelo sentimento do mundo, que os aproxima de todos os homens, que estão cada vez mais perplexos e segregados diante da vida.
Com isto, quero dizer que a Geografia precisa enfrentar o desafio de auxiliar na compreensão desta comtemporaneidade, com cara nova.
Este Departamento já nasce com estas preocupações.
A Geografia Brasileira, em muitos momentos se pautou pela novidade e não pelo novo. O Novo não se inventa, descobre-se. Neste mundo da globalização, temos de descobrir esta Geografia Nova. E, este é o esforço e o nosso desafio atual.
Uma Geografia que não pode mais ser apenas o relato do viajante, a descrição monótona e enfadonha que é sempre superada pelo tempo do mundo. A Geografia Nova se supera com a boa teoria e não mais apenas com a exacerbação da interpretação do empírico. Por mais paradoxal que possa parecer, neste mundo mutante, complexo, global, cada disciplina necessita rever a sua própria epistemologia, a sua própria prática, para que dentro da complexidade da realidade social, cada disciplina cuide do seu quinhão sem ignorar os
demais aspectos que competem às demais disciplinas.
Mas toda a dificuldade de refletir sobre a Geografia do Futuro reside no fato da própria dificuldade de se pensar o mundo do futuro.
Não há dúvidas de que tudo está posto para que este mundo seja melhor. Em bibliografias recentes, européias obviamente, já se fala na civilização do ócio !
Como a Geografia pode participar desta discussão? Inicialmente, é preciso que os geógrafos acompanhem e se sintonizem com a evolução do mundo. Só assim, a Geografia Nova continuará a emergir.
E, que mundo é este, no qual a Geografia poderá se fundamentar e desvendar seu campo de trabalho?
A Geografia e os geógrafos não podem ignorar que vivemos em um fantástico momento de ruptura no mundo.
Sobre o mundo hoje, pode-se ter uma dupla interpretação: uma mais conservadora que pensa que a decadência do Ocidente é devida a rebelião das massas: em contato com as estruturas avançadas da sociedade industrial, as massas, isto é, o homem médio, o assalariado, a maioria da população, abandona sua passividade original, se dinamiza e reclama sua participação plena nos benefícios da civilização industrial. 
Porém, do ponto de vista revolucionário ( dos rebeldes, no dizer de TOYNBEE) , a reivindicação dos direitos aos benefícios plenos da civilização supõe uma ruptura dos velhos hábitos, de mudança de valores e a construção de um modelo de sociedade que corresponda a tecnologia disponível na sociedade pos-industrial. É nesta perspectiva que autores defendem que, esta civilização, herdeira da ocidental, poderá ser a civilização do ócio.
Não parece mais haver dúvida de que este período técnico, científico e informacional gerou condições para a emergência de uma civilização baseada em condições objetivas de abundância e automatização.
A Geografia vem sistematizando estes conhecimentos sobre o mundo novo?
Hoje o mundo vive prenhe de contradições insolúveis: se persegue o pleno emprego quando as máquinas podem fazer o trabalho humano; se defende a livre iniciativa quando os monopólios se concentram até se transformarem em multinacionais que controlam não apenas a produção, mas até o gosto do consumidor; se mantém um puritanismo repressivo, o trabalhismo e militarismo sobre uma juventude que cresce em meio a abundância e o hedonismo da sociedade de consumo.
De qualquer maneira, todos estão de acordo que há uma hierarquia de necessidades humanas, que a sociedade necessita suprir:
- primeiro a sobrevivência: necessidades corporais, proteção, segurança, tranqüilidade;
- segundo, o nível de autorealização, o sentido de pertencer a família, a tribo, a comunidade, a necessidade da amizade, de afeto, de amor e o sentido de respeito, estima, dignidade humana.
- e, terceiro, a transcendência, o nível criativo, poético, a liberdade para desenvolver os talentos e capacidades impregnadas na personalidade de cada um.
Tudo indica que estamos chegando ao fim da convivência por interesse. Há que se plantar algo novo no mundo novo. 
Existem muitas conjecturas sobre esse mundo novo: no econômico, por um desenvolvimento sem crescimento, que autolimite a agresssividade competitiva e a avareza acumulativa; no ecológico por uma escala humana que converta as cidades em habitáveis e descentralize as populações pelos lugares, lá onde se possa recuperar o sentido do indivíduo universal.
Existe inclusive uma proposta de DIREITOS HUMANOS, elaborada por Richard Farson, que me permito resumir aqui, nesta reflexão sobre os fundamentos para uma Geografia do Futuro, da sociedade pos-industrial:
1. Direito ao ócio ( tempo livre de trabalho )
2. Direito a Beleza;
3. Direito a Saúde
4. Direito a Intimidade
5. Direito a Verdade
6. Direito ao Estudo
7. Direito de Viajar ( o cidadão do mundo )
8. Direito a Satisfação Sexual
9. Direito a Paz
10. Direito de Ser Único
Esta declaração revela um autor ingênuo, otimista, norte americano, mas com um sentido muito aguçado sobre as possibilidades do mundo futuro. Quem não assinaria esta lista de direitos humanos?
Isto tudo me leva a pensar de que maneira os conhecimentos da geografia do mundo já nos permite ao menos, participar desta discussão. O que vimos estudando, ensinando e produzindo, nos conduz a que mundo?
Lamentavelmente, penso que muito da Geografia brasileira, como aliás, muitas das demais ciências humanas, ainda vivem no século XIX, com lampejos de novidade, como postura e como método.
Há que se descobrir o novo !
Nesta perspectiva é preciso refletir sobre o futuro da Geografia.
O Departamento de Ciências da Terra, pioneiro no Brasil, precisa continuar a encarar de frente este tempo de mudança e insistir no processo de promoção e renovação do conhecimento que produz.
Assumimos diante da comunidade internacional uma liderança incontestável. É preciso que o Departamento reflita sobre isto, promovendo um sério debate sobre o que ele é hoje, o que ensina e o que produz.
O mundo vem atropelando a geografia. É preciso estar atento: o que temos ensinado corresponde ao aprofundamento da formação do geógrafo e a sua conpreensão do mundo ? Os instrumentais de que dispõem estão adequados a esta contemporaneidade ? 
Formamos geógrafos brasileiros para que: para o magistério, para a ciência, formamos profissionais liberais?
O que é cada professor neste coletivo? O que ele ensina tem a ver com que ? Com sua visão da Geografia, ou do mundo ? 
O que temos produzido? Qual a qualidade desse conhecimento? Não apenas de alguns, mas de todos.
E os alunos, qual seu compromisso ético com o aprendizado ? Qual seu rigor na exigência de cursos competentes e que conduzam a esta Geografia do Futuro ?
Há muito o que discutir sobre o futuro da Geografia.
Professores abdicam da sua condição de intelectual e se tornam gerentes de ordens emanadas de onde quer que venham: das empresas, dos organismos internacionais e até mesmo dos partidos. A miopia toma conta e o intelectual fenece. 
Mas atenção: a Geografia, pelas suas características como manipuladora de vários instrumentos, é presa fácil dessa esparrela, da busca permanente da novidade e não do novo.
Compete a todos nós refletirmos sobre tudo isto e descobrir o novo que está por vir. Oxalá já não seja tarde demais !
Há muito por fazer. A Geografia é fundamental no debate sobre a globalização, pois, ao insistir na idéia de aldeia global, os analistas desse processo parecem dar a impressão da tendência a uma homogeneização geral e um desaparecimento dos territórios, dos lugares.
Não há dúvidas sobre a mundialização de certos bens e que as distâncias neste período histórico são percorridas mais rapidamente e o espaço geográfico não é mais o grande obstáculo, como foi no passado e que as informações são transmitidas no tempo real, rapidamente, dando a impressão de que o mundo é minúsculo.
Mas, não se pode negar que a Geografia é a ciência do espaço geográfico, dos territórios humanos e que em função disso ela pode auxiliar na relativisação desse processo de globalização, aliás perverso para aqueles que vivem ao Sul do Equador, pois cada lugar se insere de maneira diferenciada na sua participação aos chamados fenômenos globais. Os lugares são extremamente diferenciados entre si, não dispondo por conseguinte das mesmas disponibilidades, das mesmas potencialidades para participar desse processo. Essa aparente homogeneidade pretendida pela globalização escamoteia enormes desigualdades espaciais e consequentemente sociais, reveladas pela diversidade na distribuição dos objetos, dos fluxos e na definição das normas que lhes mediatizam, definindo modos distintos de produção e de consumo.
É, sem dúvida nenhuma, a capacidade de gerar solidariedades locais, a partir do saber-fazer específico de cada um deles que se gestam as capacidades não apenas para se adaptar a esse mundo novo, como também para transformá-los.
O conhecimento dos lugares e do mundo, esta é a enorme tarefa que temos que realizar a partir das novas condições
dadas por esta contemporaneidade.
Sejam benvindos.

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