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A intervenção do psicólogo no pré e pós-operatório do programa de implante coclear
Midori Otake YamadaPsicóloga do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do Hospital de Anomalias Craniofaciais da
Universidade de São Paulo (HRACF-USP). Mestranda do Programa em Pós-graduação em Distúrbios
da Comunicação Humana do HRACF-USP, Bauru – SP
Maria Cecília BevilacquaFonoaudióloga do CPA do HRACF-USP, docente do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de
Odontologia de Bauru (FOB-USP)
Docente do Curso de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação Humana do HRACF-USP, Bauru – SP
Orozimbo Alves Costa FilhoMédico otologista do CPA do HRACF-USP e docente do Curso de Fonoaudiologia da FOB-USP.
Docente do Curso de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação Humana do HRACF-USP, Bauru - SP
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O programa de implante coclear do Hospital de Reabilitação das Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRACF-USP), em Bauru - SP, carinhosamente conhecido como "Centrinho", é desenvolvido no Centro de Pesquisas Audiológicas e tem características próprias. Oferece uma estrutura de trabalho em equipe interdisciplinar (médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiras e outros), com o objetivo comum que é a (re)habilitação de pessoas com deficiência auditiva caracterizada por perdas profundas.
A proposta da equipe é ver o paciente na sua totalidade, enquanto ser no mundo. Cada pessoa e cada família vivencia a surdez de modo singular e particular. Assim, o benefício do implante depende também dos objetivos e das possibilidades físicas, emocionais e sociais de cada pessoa como também das expectativas familiares.
O implante coclear (IC) é um dispositivo eletrônico designado para prover audição e melhorar a comunicação de pessoas com deficiência auditiva profunda e incapazes de compreender a fala através dos aparelhos de amplificação sonora individual. O IC é composto por uma parte interna, implantada através de intervenção cirúrgica, em que os eletrodos são inseridos na cóclea. A parte externa capta o som, por um microfone instalado junto à orelha, que é transmitido por um fio ao processador de fala. O processador envia a informação codificada para uma antena transmissora colocada junto ao receptor-estimulador. O ciclo da audição se completa quando o estímulo elétrico e os sinais codificados são transmitidos por radio frequência para o receptor transmissor. Este aparelho estimula os eletrodos que estão implantados na cóclea(1).
Para muitas famílias que são atendidas no Centro de Pesquisas Audiológicas do HRACF-USP, o implante coclear significa a "cura" da surdez de seu filho. As expectativas são altas e, às vezes, permeadas por mitos e fantasias. O que acontece, também, no caso de crianças maiores, adolescentes e adultos que perderam a audição.
Através das entrevistas pré-operatórias, a equipe informa a respeito do implante, cirurgia, benefícios e possíveis prejuízos, esclarece dúvidas e assegura o atendimento para elaboração das informações. O psicólogo acompanha o paciente e/ou a família nesta elaboração. O trabalho se processa em duas etapas: processo de decisão e internação.
a) 1ª etapa - Processo de decisão
A tomada de decisão em relação a realizar ou não o implante coclear se torna complexa para o paciente e/ou para a família, sendo fundamental a intervenção que o psicólogo faz. 
A escolha se torna difícil e gera conflito interno, principalmente quando as expectativas são altas, não condizentes com as informações reais e permeadas por idéias fantasiosas.
No caso da pessoa que perdeu a audição, ela quer voltar a ouvir e esse "querer" está relacionado ao desejo de ouvir como antes. Ao mesmo tempo em que deseja realizar o implante coclear, que possibilita mudanças no seu ser, de "não ouvinte" para "ouvinte", existe a possibilidade de permanecer como está, sem correr riscos. Considerando que no desejo o emocional predomina sobre o racional, o papel do psicólogo é ajudar o paciente e/ou a família a lidarem com a realidade. Ajudá-los numa decisão consciente implica responsabilidade, o que consiste, também, em ajudá-los a assumir a responsabilidade da decisão.
Existe a questão dos riscos de uma cirurgia, como também a questão da imagem corporal, modificada através da unidade externa do implante. Sentimentos de ansiedade, medo, insegurança, aceitação e negação estão presentes e necessitam ser elaborados.
Cabe ainda ao psicólogo refletir, nesse processo, sobre interferências outras que possam surgir, desde a interferência familiar até a própria relação do psicólogo com o paciente e da equipe com o mesmo. Em alguns casos pode haver necessidade de trabalhar a frustração, a raiva, a tristeza do paciente e/ou família, caso a cirurgia não seja realizada.
Sendo assim, fica claro que este tipo de cirurgia provoca ansiedade ou estresse nos pacientes e familiares, o que vem corroborar estudos sobre ansiedade no processo cirúrgico(4,5).
O preparo pré-operatório com crianças tem características próprias. Uma cirurgia traz para a criança situações que ela não está acostumada a vivenciar. Pessoas estranhas, injeções, ambiente desconhecido e procedimentos dolorosos contribuem para provocar reações de insegurança e medo do desconhecido. Sendo assim, é importante que a criança seja preparada, a fim de que os processos psicológicos desencadeados pela situação não comprometam a recuperação(2).
Durante essa etapa é oferecido um espaço para que a criança possa familiarizar e dramatizar situações que irá vivenciar no processo cirúrgico, tais como: contato com materiais hospitalares, dramatização do corte do cabelo, que é necessário nesse tipo de cirurgia, curativos e vivência da situação hospitalar através do play mobil-hospital. A intervenção psicológica se dá de acordo com a faixa etária do paciente e a necessidade de cada caso. É importante enfatizar que a vivência se torna fundamental para a população atendida, pois a criança com deficiência auditiva perde as informações do meio ambiente e os acontecimentos para ela são repentinos e abruptos, contribuindo para provocar reações de susto e medo do desconhecido.
b) 2ª etapa - Internação
No período de internação, novamente podem surgir necessidades de se trabalhar com a pessoa e/ou família no que se refere à ansiedade, ao medo e à angústia, sentimentos comuns diante da um processo cirúrgico. Ouve-se, discute-se sobre os sentimentos, desmistificam-se as fantasias e se convive a ansiedade e angústia juntamente com eles.
Para a criança, a situação de hospitalização pode ser totalmente nova e desconhecida, em que o temor ao desconhecido é maior, vai desde a enfermaria, o seu leito, as roupas que deve usar, os horários que segue, os alimentos, remédios, curativos até as pessoas à sua volta. Com medo, ela vai explorando e descobrindo a nova situação e a equipe do hospital deve agir minimizando esse fator.
Há aquelas crianças que já estiveram internadas em outras situações. O processo pode ser mais ameno ou não, dependendo das experiências anteriores de hospitalização.
No caso da criança, o brinquedo é utilizado para proporcionar um clima mais tranquilo e menos ameaçador, além do próprio valor terapêutico(6).
O uso do brinquedo auxilia as crianças na compreensão e adaptação ao procedimento, como também a ensinar os pais a brincarem com as crianças neste ambiente, ajudando-os a se descontrairem e serem mais espontâneos(3).
Na internação, o acompanhante permanece com o paciente até a sua alta, o que é um fator saudável, pois favorece o sentimento de segurança, amparo e proteção, tão necessário nesta situação e mais ainda, considerando-se a sua deficiência auditiva.
No período de recuperação, livros de história, desenho e brinquedos lhe são oferecidos. Trabalha-se novamente com objetos lúdicos do preparo pré-operatório (boneca(o), curativos, seringa de injeção e outros), para que a criança possa vivenciar e elaborar a sua situação e seu contexto. Posteriormente, pode participar da recreação de acordo com
seu estado de recuperação. 
Em alguns casos o psicólogo trabalha as colocações e sentimentos do paciente, tais como: a vergonha que sente por estar com a cabeça rapada, o alívio e a tranquilidade por haver concluído a cirurgia e a ansiedade das expectativas, favorecendo, assim, sua recuperação do ponto de vista psicológico. Ouvem-se e discutem-se também com a família as expectativas, as inseguranças e os receios que ela sente. Expressando seus sentimentos, a família poderá ser ajudada e a criança sentir-se-á segura junto aos pais.
Considerações finais
A intervenção psicológica no pré-operatório, no que se refere ao processo de decisão em relação à realização ou não da cirurgia, tanto nos pacientes quanto nos pais, proporciona conscientização, responsabilidade e liberdade na tomada de decisão.
Sentimentos e emoções, tais como ansiedade, angústia, medo, tristeza, aceitação, negação, vergonha, alívio e tranquilidade, podem ser manifestados e elaborados.
As crianças podem vivenciar situações hospitalares, proporcionando a familiarização do contexto e facilitando sua compreensão e adaptação. Possibilita brincar e expressar-se o que é saudável do ponto de vista emocional. No pós-operatório, observa-se que algumas permanecem mais envolvidas com os objetos lúdicos relacionados ao hospital e/ou à sua situação, mostrando claramente o que acontece com elas.
Os pais se sentem mais tranquilos ao conhecerem o hospital, contarem com o apoio da equipe, a liberação das visitas e a possibilidade de permanência com a criança internada.
Conclui-se que o psicólogo é parte integrante de uma equipe interdisciplinar, de uma contextualização mais ampla, de uma filosofia que permeia o hospital "Centrinho". Quando tomamos o homem por inteiro, é possível haver a integração na equipe.
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Bibliografia1. Costa, O. A.; Beviláqua, M. C.; Moreti, A. L. M. Critérios de seleção de crianças candidatas ao implante coclear do Hospital de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio Palatais USP. Rev. Bras. Otorrinolaring., 62: 306-13, 1996.
2. Ferrari, B. Preparação psicológica do paciente cirúrgico. Doutora 2: 47-50, 1985.
3. Garcia, I. Crianças submetidas a procedimentos invasivos e/ou dolorosos: intervenções psicossociais. Pediat. Mod. 32: 656-58, 1996.
4. Grabow, L.; Buse, R. Preoperative anxiety - anxiety about the operation, anxiety about anesthesia, anxiety about pain? Psychother. Psychosom. Med. Psychol. 40: 255-63, 1990.
5. Johnston, M. Anxiety in surgical patiens. Psychol. Med. 10:145-52, 1980.
6. Ribeiro, C. A. O efeito da utilização do brinquedo terapêutico, pela enfermeira pediatra, sobre o comportamento de crianças recém-hospitalizadas. Rev. Esc. Enf. USP. 25: 41-60, 1991.
http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?id_materia=927&fase=imprime

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