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2 . CONCEITOS BÁSICOS 
Afirmar que o desenvolvimento humano é um produto da interação entre o orga-
nismo humano em crescimento e seu meio ambiente é afirmar o que é quase um lugar-
comum na ciência comportamental. Esta é uma proposição com a qual todos os que 
estudam o comportamento estão familiarizados, da qual ninguém discorda, e que pou-
cos considerariam extraordinária, para não dizer revolucionária, em suas implicações 
científicas. Eu sou um desses poucos. Eu considero esta afirmação como extraordiná-
ria em virtude do surpreendente contraste entre a dupla ênfase universalmente aprova-
da, determinada por ela e a implementação visivelmente unilateral recebida pelo princí-
pio no desenvolvimento da teoria científica e do trabalho empírico. 
Especificamente, o princípio afirma que o comportamento evolui em função da 
interação entre a pessoa e o meio ambiente, expressa simbolicamente na clássica equa-
ção de Kurt Lewin: C =f(P ME) (Lewin, 1935, página 73). Conseqüentemente, espe-
raríamos que a psicologia, definida como a ciência do comportamento, desse uma ênfa-
se substancial, se não igual, a ambos os elementos do lado independente da equação, 
que investigasse a pessoa e o meio ambiente, com especial atenção à interação entre os 
dois. O que encontramos na prática, entretanto, é uma acentuada assimetria, uma hipertrofia 
da teoria e pesquisa focando as propriedades da pessoa, e somente a mais rudimentar con-
cepção e caracterização do meio ambiente em que a pessoa é encontrada. 
Para apreciar este contraste, só precisamos examinar os textos básicos, livros, 
manuais e jornais de pesquisa na psicologia em gerai e na psicologia do desenvolvi-
mento em particular. Lendo atentamente esses materiais, nós logo descobrimos concei-
tos e dados infindáveis lidando com as qualidades da pessoa. O pesquisador tem acesso 
a uma rica série de tipologias de personalidade, estágios desenvolvimentais e construtos 
disposicionais. cada um com técnicas de mensuração correspondentes, que permitem 
perf is a l tamente di ferenciados das capacidades , temperamentos e tendências 
comportamentais predominantes do indivíduo. Do lado do meio ambiente, entretanto, 
as perspectivas são escassas em comparação, tanto na teoria quanto nos dados. Os 
concei tos exis tentes l imitam-se a algumas categorias pouco desenvolv idas e 
indiferenciadas, que pouco fazem além de localizar as pessoas em termos de seu ende-
reço social - o ambiente do qual elas vêm. Assim, um exame dos estudos sobre as 
influências do meio ambiente aparecendo numa amostra representativa de textos, livros 
A Ecologia do Desenvolvimento Humano 
— 1 5 
e jornais publicados em psicologia infantil e campos relacionados revela as seeuintes 
tipologias modais para descrever os contextos do comportamento e dlsÍnvol vlmento 
tamanho da farmha, posição ordinal, famílias com um ou dois p r o g e n T o Z cmdados 
em casa versus na creche, pais versus amigos e - talvez o m a i s f r e X e n t e a v a r t c ã o 
por classe soca i ou background étnico. Além disso, os dados de ^ L l o s " 
tem, num grau esmagador, em informações não a respeito dos ambientes de onde as 
pessoas vem, mas a respeito das características das próprias pessoas, isto é de como a 
pessoas de diversos contextos diferem uma da outra ' como as 
Em resultado, as interpretações dos efeitos ambientais muitas vezes são exores 
sas no que Lewin chamou de termos teóricos de classe; assim, as diferença o b s e r v a i 
nas crianças de um ou outro ambiente (por exemplo, classe ba.xa v , ^ Í c l a s s e média 
francesas versus americanas, creche lar) são "explicadas" simplesmente como 
atributos do ambiente em questão. Mesmo quando o ambiente é descrito d e é de crko 
em termos de uma estrutura estática que não faz nenhuma concessão aos processos 
desenvo ventes de interação através dos quais o comportamento dos par c i Z t e do 
sistema e instigado, sustentado e desenvolvido. 1 0 
Finalmente, e talvez ironicamente, os dados desses estudos costumam ser obti-
dos removendo-se as sujettos de pesquisa dos ambientes específicos em i n v e s t e e 
colocando-os num laboratório ou numa sala de testagem psicológica'. T o d a v Í o p o s 
Certamente existem duas esferas de investigação em que se obtém um certo 
grau de especificidade na análise do meio ambiente, mas o resultado não Z Z os 
requerimentos de um modelo ecológico de pesquisa. Umas dessas áreas situada prima 
riamente no domínio da psicologia social, é o estudo das relações interpessoais e dos" 
pequenos grupos. Dado que as pessoas com quem interagimos numa s i tuado face a 
face constituem uma parte do nosso me,o ambiente, existe um significativo corpo d e 
teoria e pesquisa lidando com o impacto do meio ambiente, na forma de influência! 
interpessoais, sobre a evolução do comportamento. Na verdade, na extensão ém que 
nos temos teonas sobre £ W H O as mfluências ambienta,s afetam o comportamento e o 
desenvolv imento elas são teonas a respeito dos processos interpessoal - reforço mo 
delagem. identifjcaçao e aprendizagem social. De uma perspectiva ecológica e sas 
formulações possuem duas falhas. Primeiro, elas tendem a ignorar o impacto dos as 
pectos nao-soc,a,s do me,o ambiente, incluindo a natureza importante das a t m des 
na> quais os participantes se envolvem. Segundo, e mais crucial, elas delimitam o 
conceito de me,o ambiente a um único ambiente imediato contendo o sujeito o que 
neste livro e chamado de nncrossmema. Raramente se presta atenção ao comporta-
ímb e n t P £ S r Cmr m a í S d C U m ; i i n b l e n t e 0 U à ^ as relações entr os 
amb entes podem afetar o que acontece dentro deles. Mais raro ainda é o reconheci-
mento de que os eventos e condições ambienta i fora de um ambiente imediato conten-
do uma pessoa podem ter uma profunda influência sobre o comportamento e desenvo 
v,mento dentro daquele ambiente. Essas influências externas podem por exemplo de 
sempenhar um papel crítico na definição do significado da t u a c ã / med ^ t 
pessoa. A menos que esta possibilidade seja levada em conta no modeTot S c o que 
orienta a «nterpre.açao dos resultados, os achados podem levar a conclusões emanado 
•;iS * * t a n t o < ^ " 0 distorcem nosso entendimento científico dos^determnltes" 
processos e potencial do desenvolvimento humano. aetermmantes, 
Existe um segundo corpo de trabalho acadêmico em que os contextos ambientais 
externos sao descritos com detalhes consideráveis, e o seu impacto sobre o curso do 
Urie Bronfenbrenner 
desenvolvimento é traçado graficamente. Essas investigações estão sendo executadas 
principalmente no campo da antropologia e em certa extensão no trabalho social, psi-
quiatria social, psicologia clínica e sociologia. Mas o material descritivo nesses estu-
dos é altamente anedótico, e a interpretação das influências causais, muito subjetiva e 
inferencial Aqui nós encontramos o que eu considero como uma cisma infeliz e desne-
cessária nos estudos contemporâneos sobre o desenvolvimento humano. Especialmente 
nos últimos anos, a pesquisa nesta esfera seguiu um curso dividido, ambos tangenciais 
ao genuíno progresso científico. Corrompendo uma metáfora moderna, corremos o 
risco de ficar presos entre um rochedo e um lugar macio*. O rochedo e o rigor e o 
l u g a r m a ç o , a relevância. A ênfase no rigor conduziu a experimentos que sao excelen-
temente planejados, mas geralmente de alcance limitado. Esta limitaçao denva-se do 
fato de que muitos desses experimentos envolvem situações que são pouco familiares, 
artificiais e temporárias, e requerem comportamentos incomuns que sao difíceis de 
generalizar para outros ambientes. Desta perspectiva, podemos dizer que grande parte 
da p s i c o l o g i a d e s e n v o l v i m e n t o conforme existe atualmente, e a ciência do comporta-
mento desconhecido da criança em situações desconhecidas com adultos desconheci-
dos pelos períodosde tempo mais breves possíveis2. 
Parcialmente em reação a essas falhas, outros estudiosos enfat izaram a necessi-
dade de relevância social na pesquisa, mas freqüentemente com indiferença ou rejeição 
aberta ao rigor. Em suas manifestações mais extremas, essa tendência assumiu a forma 
de excluir os próprios cientistas do processo de pesquisa. U m a importante fundaçao 
adotou a política de doar verbas para pesquisa apenas para aquelas pessoas que sao 
vítimas da injustiça social. Expressões menos radicais dessa tendência envolvem a 
confiança em abordagens existenciais em que a "experiência" toma o lugar da observa-
ção e a análise é abandonada em favor de um "entendimento" mais personalizado e 
direto obtido através de um íntimo envolvimento com a situaçao de campo. Mais co-
mum e mais cientif icamente defensável, é a ênfase na observação naturalística, mas 
com a estipulação de que ela seja "teoricamente neutra" (Barker e Wnght , 1954, pagi-
na 14) e portanto não orientada por qualquer hipótese explícita formulada antecipada-
mente e não-contaminada por planejamentos experimentais altamente estruturados im-
postos antes da coleta dos dados. 
O argumento mais sof is t icado em defesa da super ior idades dos métodos 
naturalísticos em relação aos experimentais no estudo do desenvolvimento humano 
enfatiza a impossibilidade prática e ética de manipular e controlar as vanaveis mais 
significativas para o crescimento psicológico. Por exemplo, numa penetrante critica a 
pesquisa contemporânea na psicologia de senvo lv imen to McCall (1977) parte de uma 
posição idêntica à minha: "Foi sugerido que, atualmente, nós essencialmente nao pos-
suímos uma ciência dos processos desenvolvimentais naturais, porque poucos estudos 
se p reocupam com o desenvo lv imen to c o n f o r m e ele acon tece nos ambien te s 
naturalísticos e porque nós raramente coletamos ou analisamos dados verdadeiramen-
te desenvolvimentais. Acredita-se que este problema se deriva da veneração aos méto-
dos experimentais manipulativos, que passaram a ditar as perguntas da pesquisa, em 
vez de estar a serviço delas" (página 333). 
*N de T. A metáfora à qual o autor se refere é "Entre Cila e Caribde", algo equivalente a "Entre a 
cruz e a espada ser ameaçado por dois perigos, a evitação de um aumentando a probabilidade de 
dano advindo do outro (metáfora oriunda de um mito grego sobre uma estreita passagem no mar entre 
um rochedo e um redemoinho, cada um habitado por um monstro). 
A Ecologia do Desenvolvimento Humano 17 
McCall então argumenta que os métodos experimentais, embora idealmente ade-
quados à pesquisa em ambientes de laboratório, estão mal-adaptados ao estudo do 
"comportamento, conforme ele t ipicamente se desenvolve nas circunstâncias naturais 
de vida" (página 334), uma vez que, por razões práticas e éticas, é impossível manipu-
lar e controlar todos os fatores relevantes. Nas palavras de McCall , 
Não existe nada de inerentemente errado nos estudos experimentais manipulativos da 
psicologia desenvolvimental, mas essa metodologia... geralmente é impossível de executar... 
Por exemplo, é necessária uma exposição a um padrão visual para o desenvolvimento de uma 
variedade de funções visuais, mas todas as crianças recebem uma luz padronizada, adequa-
da. Certas atividades sensório-motoras podem ser preparatórias para a aquisição da constru-
ções da linguagem envolvendo agente-ação-objeto, mas quase todas as crianças obtêm quan-
tidades adequadas dessas experiências... Para determinar as causas necessárias do desenvol-
vimento, precisaríamos privar o organismo da circunstância hipotética. Entretanto, quando o 
foco de estudo são as crianças, as considerações éticas impedem a privação experimental na 
maioria dos casos. 
Nós simplesmente precisamos aceitar o fato, de um ponto de vista lógico e prático, de 
que provavelmente nunca conseguiremos comprovar a causa suficiente ou necessária para o 
desenvolvimento naturalístico de uma série de comportamentos importantes, alguns dos quais 
representam a essência da nossa disciplina (páginas 335-336). 
O persuasivo argumento de McCall supõe que a única função do experimento na 
ciência é estabelecer condições necessárias e suficientes. C o m o argumentarei mais tar-
de, fazer esta suposição é subestimar seriamente o poder científico do método experi-
mental: o método experimental não só é inestimável para a verificação de hipóteses; ele 
é igualmente e talvez ainda mais aplicável à sua descoberta. Em resumo, para a ciência 
em geral e especialmente para a pesquisa rigorosa sobre o desenvolvimento-no-contex-
to, o experimento é um instrumento heurístico poderoso e essencial. 
Por essas razões, a orientação proposta aqui rejeita tanto a dicotomia implícita 
entre o rigor e a relevância quanto a suposta incompatibil idade entre os requerimentos 
da pesquisa nas situações naturais e a aplicabilidade dos experimentos estruturados 
num estágio inicial do processo científico. Ela rejeita como espúrio o argumento de que, 
uma vez que a observação naturalística precedeu a experimentação tanto nas ciências físi-
cas quanto nas biológicas, esta progressão é necessariamente a estratégia de escolha no 
estudo do comportamento e desenvolvimento humanos. Tal interpretação confunde uma 
seqüência histórica com uma seqüência causal, e representa mais ura exemplo das armadi-
lhas lógicas inerentes à inferência post hoç portanto propter hoç sempre sedutora. Na mi-
nha opinião, a ciência do século vinte possui estratégias de pesquisa que. se tivessem estado 
disponíveis para os naturalistas do século dezenove, teriam permitido que eles pulassem 
anos de descrições trabalhosas e exaustivas para chegar a uma formulação dos princípios e 
leis biológicas. Isso não significa que a taxonomianão é uma tarefa científica essencial, mas 
simplesmente quer dizer que uma fase de observação, registro e classificação puramente 
descritivos talvez não fosse uma condição necessária para progredirmos no entendi-
mento do processo, e que a aplicação inicial dos paradigmas experimentais poderia de 
fato levar a taxonomias mais apropriadas para chegarmos ao trabalho necessário da 
ordenação sistemática dos fenômenos naturais. 
Mas uma outra restrição é desnecessariamente imposta à estratégia da observa-
ção naturalística, part icularmente conforme aplicada ao caso humano por seus princi-
pais defensores - os etnologistas (Jones, 1972; McGrew, 1972) e os ecologistas psico-
Urie Bronfenbrenner 
lógicos da escola de Kansas (Barker e Schoggen, 1973; Barker e Wnght , 954). Am-
bos os grupos adaptaram ao estudo do comportamento humano um modelo original-
mente desenvolvido para a observação de espécies sub-humanas. Implícito nesse mo-
de loes tá um conceito^do me,o ambiente que pode ser muito adequado para o estudo do 
comportamento nos animais, mas que dificilmente é suficiente para o ser humano, ele e 
l imitado ao ambiente imediato, concreto, que contém a criatura viva e foca a observa-
ção do comportamento de um ou, no máximo, dois seres ao mesmo tempo num umco 
ambiente Como argumentarei abaixo, o entendimento do desenvolvimento humano 
e x i g e mais do que a observação d,reta do comportamento por parte de uma ou duas 
pessoas no mesmo local; ele requer o exame de sistemas de interaçao de múltiplas 
não limitado a um único ambiente, e deve levar em conta aspectos do meio 
ambiente além da situação imediata que contém o sujeito. Na ausência dessa perspec-
üva ampliada, grande parte da pesquisa contemporânea pode ser caracterizada como o 
estudo do desenvolvimento-fora-do-contexto. 
O presente trabalho oferece um fundamento para construir o contexto no modelo 
de pesquisa tanto no nível da teoria quanto do trabalho empírico. Eu proponho primeiro 
uma expansão, e depois uma convergência das abordagens naturalística e experimental 
mais precisamente uma expansão e convergência das concepçoesteóricas do ambien-
te subjacentes a ambas. Eu me refiro a esta perspectiva científica evolutiva como a 
ecologia do desenvolvimento humano. 
Eu começo com algumas definições de foco substantivo. 
DEFINIÇÃO 1 , . , , 
A ecologia do desenvolvimento humano envolve o estudo cientifico da acomoda-
ção progressiva, mútua, entre um ser humano ativo, em desenvolvimento, e as 
propriedades mutantes dos ambientes imediatos em que a pessoa em desenvolvi-
mento vive conforme esse processo é afetado pelas relações entre esses ambien-
tes, e pelos contextos mais amplos em que os ambientes estão inseridos. 
Três aspectos desta definição merecem uma atenção especial. Primeiro a pessoa 
em desenvolvimento não é cons.derada meramente como uma tabula rasa sobre a qual 
o meio ambiente provoca seu impacto, mas como uma entidade em crescimento, dina-
niica que progressivamente penetra no meio em que res.de e o reestrutura. Segundo, 
uma vez que o meio ambiente também exerce sua influência, exigindo um processo de 
acomodação mútua, a interação entre a pessoa e o meio ambiente e considerada como 
bidirecionaL isto é, caracterizada por reciprocidade. Terce.ro. o me,o ambiente defini-
do como relevante para os processos d e s e n v o l v i m e n t o não se limita a um ambiente 
único imediato, mas inclui as interconexões entre esses ambientes, assim como as 
influências externas oriundas de meios mais amplos. Esta concepção ampliada do meio 
ambiente é consideravelmente mais ampla e mais diferenciada do que aquela encontra-
da na psicologia em geral e na psicologia desenvol vi mental em particular. Orneio 
ambiente ecológico é concebido topologicamente como uma organizaçao de encaixe de 
estruturas concêntricas, cada uma contida na seguinte. Essas estruturas sao chamadas 
de micro-, meso-, exo- e macrossistema, definidos conforme segue. 
DEFINIÇÃO 2 
Um microssistema é um padrão de atividades, papéis e relações interpessoais 
experenciados pela pessoa em desenvolvimento num dado ambiente com carac-
terísticas físicas e materiais específicas. 
A Ecologia do Desenvolvimento Humano 
' — l_9 
Um ambiente é um local onde as pessoas podem fac. lmente interagir face a face 
- casa, creche, playground e assim por diante. Os fatores dc atividade, papele relação 
interpessoal const i tuem os elementos, ou blocos construtores, do microssistema 
Um termo crít .co na definição do microssistema é experenciado. O termo é usa-
do para mdicar que as características cientificamente relevantes de qualquer meio am-
biente incluem não apenas suas propriedades objetivas, como também a maneira pela 
qual essas propriedades são percebidas pela pessoas naquele meio ambiente Esta ênfa-
se numa visão f e n o m e n o l o g i a não decorre de nenhuma antipatia pelos conceitos 
comportamental ,s tas nem de uma predileção por fundamentos fi losóficos existenciais 
Ela e ditada s implesmente por um fato sólido. Muito poucas das influências externas 
que afetam significativamente o comportamento e o desenvolvimento humanos podem 
ser descritas unicamente em termos de condições físicas e eventos objetivos- os aspec-
tos do meio ambiente mais importantes na formação do curso do crescimento psicoló-
gico sao, de forma esmagadora, aqueles que têm significado para a pessoa numa dada 
situação. 
Naturalmente, não existe nada de novo nesta formulação. Ela se vale do trabalho 
de teoncos de uma variedade de disciplinas. Da fi losofia e da psicologia, ela aproveita 
os conceitos fenomenológicos de Husserl (1950), Kohler (1938) e Katz (1930) Na 
sociologia, uma formulação análoga tem raízes na teoria do papel de George Herbert 
Mead (1934), e é resumida no conceito dos Thomas de "definição da situação' ' (Thomas 
e l homas , 1928). Na psiquiatria, a visão foi brilhantemente aplicada por Sullivan 
(1947) ao estudo das relações interpessoais e da psicopatologia. Na educação a orien-
tação e encontrada na ênfase de Dewey no planejamento de currículos que refletem a 
expenenc ia cotidiana da criança (1913, 1916, 1931). Na antropologia, a abordagem 
ô 3 f á l l S e d C S Í S t e m a S S O C Í a í S m a í S a m P I o s - m a i s notavelmente por Linton 
(1936) e Benedict (1934). Sua significação para o estudo geral do comportamento 
humano e resum.do no que talvez seja a única proposição na ciência social que aborda 
o statusúc uma lei «mutável - o inexorável ditado dos Thomas: "Se os homens def inem 
as situações como reais, eias são reais em suas conseqüências" (Thomas e Thomas 
1928, pagina 372). 
Essencialmente, no entanto, a concepção fenomenoiógica do meio ambiente que 
esta na base da teoria deriva sua estrutura e princípios lógicos das idéias de Kurt 
n < o - f - e C l í m e n £ e d ° 8 e U c o n s t r u t o d o ' - «Paço d e vida" ou "campo psicológico" 
(1 y 3 I . í M X 195 1). Lewin assume a posição de que o meio ambiente de maior relevân-
cia para o entendimento científico do comportamento e desenvolvimento não é a reali-
dade conforme ela existe no assim chamado mundo objetivo, mas conforme ela aparece 
na mente da pessoa; em outras palavras, ele se centra na maneira pela qual o meio 
ambiente e percebido pelos seres humanos que interagem denf.ro dele e com ele Um 
aspecto especialmente significativo desse meio ambiente percebido é o mundo da ima-
gmaçao. fantasia e irrealidade. Mas, apesar dessa aparente riqueza, o mapa teórico do 
campo psicologico e curiosamente deficiente em conteúdo. Utilizando um termo dele 
mesmo, a sua psicologia é uma "psicologia topológica", uma descricão sistemática de 
um espaço sem substância, repleto de regiões vazias e estruturas encaixadas, separa-
das por fronteiras, unidas por interconexões e caminhos, e cercada por barreiras e 
desvios que levam a objetivos não-especificados. O aspecto menos ortodoxo do esque-
ma de Lewin e o tratamento que dá às forças motivacionais como emanando não de 
dentro da pessoa, mas do próprio meio ambiente. Objetos, atividades, e especialmente 
outras pessoas, emitem linhas de força, valências e vetores que atraem e repelem, ori-
entando desse modo o comportamento e o desenvolvimento. 
Urie Bronfenbrenner 
O que isso tudo poderia significar em ^ m ^ mais 
e m aplicação, P O — ° o q u e a motivação q U e 
importante do que o real.oireaim a t i v l d a d e s externas e outras pessoas; e 
orienta o comportamento e inerente aos o^e tos^a c e n ã o _ e s p e c l f i c a d o ? 
em que o conteúdo de todas essas e * . t r u t a r a ^ p h ^ P ^ ^ a m b i e n t e s 
Mais incisivamente, como poderíamos ^ ^ desejara, fazer isso? 
d a v ida cotidiana, ou, por falar no a s ^ n t o P ^ ^ ^ s u g e n d a no pri-
U m a base para uma resposta plausível j a s p d e G u e r T a " ) , publica-
n d o artigo escrito por L e w i n , ' ^ ^ ^ ^ ^ T e f p . s s a d o vários anos no 
d o no final da Primeira foi f e r i em combate. O artigo, 
exército, a maioria dos quais nas linhas a e m m e , o u m m a r a v i l h o s o 
que apareceu na Zeitschnft fur A n S ^ t e P s y c h o l o ^ N e s ^ artigo extraordiná-
^ l i n e a m e n t o de todos os seus ^ ^ ^ ^ ^ f j n a m e d i d a e m 
rio, Lewin descreve como a realidade percebida da paisagem s & ^ 
q u ; a pessoa se aproxima da frente de ^ t ransformado. O 
cena bucólica de casas de f a z e n d a can^pos e bo ^ s e ^ dua ) a d o e g ) d o 
topo da colina arborizada se como uma provável 
o lugar em que estarao as armas Uma clareira abnga m n a d e l í . 
estação de socorro para o batalhao. Aspecto da pa.sagemmatu q 0 
cia a apenas alguns quilômetros de d i s t anc agora - o P ^ b () i m m i g o 
desfi ladeiro assustador, a camuflagem das r ^ r e , a cohn q d i s d a 
oculto, o objetivo invisível a ser atingido, o lugar e — ^ ^ d a 
explícita e sistemát.ea de Lewin. a pr m a z . « d o meio a impossibilidade de 
relação ao meio amb.ente real na onentaçao do compor « m e m o p ^ 
compreender M e comportamento ; P ; propr J £ 
„m m e i o ambiente, sem refere.,c, a a o s e a promessa 
' 0 2 s uma aotte. O , u e poderta ser mats reabsta * J « ^ • 
percebidas pelas pessoas que d e i : ^ ^ ^ ^ ^ v a v l ! m e n t e vão captu-
do, Lewin distingue do.s aspectos de toda a , sUui^oesqi P 
A A S S S = = Í = 
dimentos comuns, complementares ou relativaí^ente md^p^riden^es^ 
Além destes dois aspectos da situaçao destacados por u e w n i ^ 
padrão de papel nas ciências soca i s : uma séne de c o m p o . lamentos e expec tamos 
ff^* ^ Ecologia do Desenvolvimento Humano 23 
associadas a uma posição na sociedade, tal como a de mãe, bebê, professora, amigo e 
assim por diante, 
A perspectiva fenomenológica também é relevante no próximo nível de estrutura ecoló-
gica e nos níveis sucessivos. 
D E F I N I Ç Ã O 3 
Um mesossistema inclui as inter-relações entre dois ou mais ambientes nos quais 
a pessoa em desenvolvimento participa at ivamente (tais como, para uma crian-
ça, as relações em casa, na escola e com amigos da vizinhança; para um adulto, 
as relações na família, no trabalho e na vida social). 
Um mesossis tema é portanto um sistema de microssistemas. Ele é formado ou 
ampliado sempre que a pessoa em desenvolvimento entra num novo ambiente. Além 
deste vínculo primário, as interconexões podem assumir várias outras formas: outras 
pessoas que participam ativamente de ambos os ambientes, vínculos intermediários 
numa rede social, comunicações formais e informais entre os ambientes, e, mais uma 
vez claramente no domínio fenomenológico, a extensão e natureza do conhecimento e 
das atitudes existentes num dos ambientes em relação ao outro. 
D E F I N I Ç Ã O 4 
Um exossistema se refere a um ou mais ambientes que não envolvem a pessoa 
em desenvolvimento como um participante ativo, mas no qual ocorrem eventos 
que afetam, ou são afetados, por aquilo que acontece no ambiente contendo a 
pessoa em desenvolvimento. 
Exemplos de um exossistema no caso de uma criança pequena poderiam incluir 
o local de trabalho dos pais, uma sala de aula de um irmão mais velho, a rede de amigos 
dos pais, as atividades da diretoria da escola local e assim por diante. 
D E F I N I Ç Ã O 5 
O macrossistema se refere a consistências, na forma e conteúdo de sistemas de 
ordem inferior (micro-, meso- e exo-) que existem, ou poderiam existir, no nível 
da subcultura ou da cultura como um todo, juntamente com qualquer sistema de 
crença ou ideologia subjacente a essas consistências. 
Por èxemplo, dentro de uma dada sociedade - digamos, a França - uma creche, 
saia de aula, playgrowul do parque, café ou agência de correio são muito parecidos e 
funcionam de modo muito semelhante, mas todos diferem de seus equivalentes dos 
Estados Unidos. É como se em cada país os vários ambientes t ivessem sido construídos 
a partir do mesmo conjunto de plantas ou esquemas. Uma diferença análoga na forma 
aparece em níveis além do microssistema. Assim, as relações entre o lar e a escola são 
bastante diferentes na França das relações que existem em nosso próprio país. Mas 
também existem padrões consistentes de diferenciação dentro de cada uma dessas socie-
dades. Em ambos os mundos, as casas, creches, bairros, ambientes de trabalho e as 
relações entre eles não são as mesmas para as famílias abastadas e para as famílias 
pobres. Esses contrastes intra-societais também representam fenômenos de macros-
sistema. Os planejamentos dos sistemas diferem para os vários grupos socioeconómicos, 
étnicos, religiosos e outros grupos subcuiturais, refletindo sistemas de crenças e estilos 
Urie Bronfenbrenncr 
de vida contrastantes, que por sua vez a judam a perpetuar os meio ambientes ecológi-
cos específ icos de cada grupo. 
Na definição de macrossistema, eu menciono deliberadamente padrões que po-
deriam existir", de modo a expandir o conceito de macrossistema além da limitação ao 
status quo abrangendo possíveis planejamentos para o futuro conforme refletidos na 
visão dos líderes políticos, planejadores sociais, f i lósofos e cientistas sociais de uma 
sociedade engajados na análise crítica e alteração experimental dos sistemas sociais 
prevalentes. . 
Tendo sido apresentados à estrutura do meio ambiente ecologico, nos agora 
estamos numa posição que nos permite identificar um fenômeno geral de movimento 
através do espaço ecológico - um fenômeno que é ao mesmo tempo um produto e um 
produtor da mudança desenvol vimental. 
D E F I N I Ç Ã O 6 
Ocorre uma transição ecológica sempre que a posição da pessoa no meio ambi-
ente ecológico é alterada em resultado de uma mudança de papel, ambiente, ou 
ambos. 
Exemplos de transição ecológica conforme definida aqui ocorrem durante todo o 
período de vida. Citando apenas algumas: uma mãe entra em contato com o seu bebê 
recém-nascido pela primeira vez; a mãe e o bebê voltam para casa do hospital; existe 
uma sucessão de babás; a criança entra na creche; Johnny, ou Mary, vai para a escola, 
passa de ano, se forma, ou talvez abandona a escola. Depois existe a busca de um 
emprego, a troca de empregos, a perda de empregos; o casamento, a decisão de ter um 
filho; parentes ou amigos vêm morar junto (e depois se mudam novamente): a compra 
do primeiro carro, televisão ou casa da família; férias, viagens; mudança de casa; 
divórcio, recasamento; mudança de profissão; emigração; ou, passando para temas 
ainda mais universais: doenças, ida para o hospital, ficar bem novamente; voltar ao 
trabalho, aposentar-se; e a transição final, para a qual não existe exceção - morrer. 
Eu argumentarei que cada transição ecológica é tanto uma conseqüência quanto 
uma instigação de processos desenvolvimentais. Conforme os exemplos indicam, as 
transições são uma função con junta de mudanças biológicas e circunstâncias alteradas 
no meio ambiente; assim, elas são exemplos por excelência do processo de mútua aco-
modação entre o organismo e seus arredores, que é o foco primário do que chamei de 
ecologia do desenvolvimento humano. Além disso, as alterações no meio podem ocor-
rer em qualquer um dos quatro níveis do meio ambiente ecológico. O aparecimento de 
um irmão mais jovem é um fenômeno de microssistema, a entrada na escola transforma 
o exo- num mesossistema. e emigrar para um outro país (ou talvez só visitar a casa de 
um amigo de um background socioeconómico ou cultural diferente) envolve atravessar 
fronteiras de macrossistema. Finalmente, do ponto de vista da pesquisa, toda transição 
ecológica constitui, com efeito, um experimento natural conveniente, com um planeja-
mento integrante antes-depois, em que cada sujeito pode servir como seu próprio con-
trole. Em resumo, uma transição ecológica monta o cenário tanto para a ocorrência 
quanto para o estudo sistemático dos fenômenos desenvolvimentais. 
Nós somos levados de volta à pergunta fundamental de como o desenvolvimento 
deve ser concebido na estrutura de uma teoria ecológica. A formulação apresentada 
aqui parte da proposição de que o desenvolvimento jamais ocorre no vácuo; ele está 
sempre inserido e expresso num comportamento em um determinado contexto ambiental. 
í 
ff^* ^ Ecologia do Desenvolvimento Humano 23 
Sgi- DEFINIÇÃO 7 
O desenvolvimento humano é o processo através do qual a pessoa desenvolvente 
adquire uma concepção mais ampliada, diferenciada e válida do meio ambiente 
ecológico, e se torna mais motivada e mais capaz de se envolver em atividades 
que revelam suas propriedades, sustentam ou reestruturam aquele ambiente em 
níveis de complexidade semelhante ou maior de forma e conteúdo. 
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Três aspectos desta definição merecem ser especialmente observados. Primeiro, 
o desenvolvimento envolve uma mudança nas características da pessoa, uma mudança 
que não é nem efêmera nem ligada à situação; ela implica uma reorganização que tem 
certa continuidade ao longo do tempo e do espaço. Segundo,a mudança desenvolvimental 
ocorre concorrentemente em dois domínios, o da percepção e o da ação. Terceiro, de 
um ponto de vista teórico, cada um destes domínios tem uma estrutura que é isomórfica 
em relação aos quatro níveis do meio ambiente ecológico. Assim, na esfera perceptual, 
a pergunta passa a ser: em que extensão a visão de mundo da pessoa em desenvolvi-
mento vai além da situação imediata, abrangendo um quadro de outros ambientes dos 
quais ela participou ativamente, as relações entre esses ambientes, a natureza e influên-
cia dos contextos externos com os quais ela não teve nenhum contato face a face,e, 
finalmente, os padrões consistentes de organização social, sistemas de crenças, e esti-
los de vida específicos de sua própria e de outras culturas e subculturas? Analogamente, 
no nível da ação, está em questão a capacidade da pessoa de empregar estratégias que 
sejam efetivas; primeiro, para proporcionar um feedback exato sobre a natureza dos 
sistemas existentes em níveis sucessivamente mais remotos; segundo, para permitir que 
esses sistemas continuem funcionando e, terceiro, para reorganizar sistemas existentes 
ou criar novos sistemas de ordem comparável ou mais elevada, que estejam mais de 
acordo com seus desejos. Mais tarde, eu mostrarei como esta concepção ecológica 
bilateral de desenvolvimento pode ser provei tosamente aplicada tanto para obtermos 
resultados científicos mais ricos do que os achados de pesquisa existentes, quanto para 
planejarmos novas investigações que esclarecerão ainda mais a natureza, o curso e as 
condições do desenvolvimento humano. 
Uma concepção ecológica de dese.nvolvimento-no-contexto tem implicações para o 
método e o planejamento de pesquisa. Para começar, ela atribui uma importância crucial, 
oferecendo a base teórica, para uma definição sistemática de um construto freqüentemente 
mencionado nas discussões recentes acerca da pesquisa desenvolvimento! - validade 
ecológica. Embora o termo ainda não tenha uma definição aceita, podemos inferir 
dessas discussões uma concepção subjacente comum: uma investigação é considerada 
ecologicamente válida se é executada num ambiente natural e envolve objetos e ativida-
des da vida cotidiana. Embora originalmente atraído por esta noção, depois de refletir 
eu passei a considerá-la não só excessivamente simplista, como também cientificamen-
te insensata em vários aspectos. Primeiro, embora concorde entusiasticamente com a 
desejabilidade de estender as atividades de pesquisa além do laboratório, eu questiono 
a concessão aparentemente automática de legitimidade científica a um esforço de pes-
quisa simplesmente porque ele é realizado num ambiente de vida real. Ainda mais 
arbitrária é a implicação inversa de que qualquer investigação executada num ambiente 
nao-natural necessariamente é ecologicamente inválida e, portanto, cientificamente sus-
peita por motivos puramente a priori. Isso cer tamente é pré-julgar a questão. Além do 
mais, o termo validade ecológica, conforme é empregado atualmente, não tem nenhu-
ma relação lógica com a clássica definição de validade - a saber, a extensão em que um 
Urie Bronfenbrenner 
procedimento de pesquisa mede aquilo que pretende medir. Na verdade, exite um confli-
t a b á ^ c o e n t r e as suposições teóricas subjacentes às duas concepçoes. Na definição 
c l á s s i c a a validade / f u n d a m e n t a l m e n t e determinada pela natureza do problema que 
está sendo investigado. E m contraste, a validade ecológica conforme definida ate agora 
parece" er definitivamente determinada pelo ambiente em que o estudo esta sendo reah-
zado sem relação com a questão sob investigação. Em q u a l q u e r empreendimento de 
pesquisa esta última consideração deve ser a mais decisiva para ju lgar qualquer tipo de 
validade^ n a ^ p r e o c u p a ç ã o com a validade ecológica está implícito 
um o u t r o princípio, que não pode mais ser ignorado diante das evidencias disponíveis E 
a proposição de que as propriedades dos contextos ambientais em que uma investigação 
é S z a d a ou dos quais se originam os sujeitos experimentais podem influenciar os 
processos que acontecem no ambiente de pesquisa e, portanto, afetar a interpretação e 
generaUzabü^dade d^s a c h ^ o s ^ ^ ^ f o r m u i a r u m a definição de validade ecológica que 
leva e m T o n t a ambos os princípios. Uma vez que a tarefa foi iniciada nao foi difícil 
e l L T l a Era necessária apenas uma extensão lógica da definição tradicional de vah-
S d e E sa definição tem um foco limitado, aplicando-se apenas aos procedimentos de 
mensuração empregados nas operações de pesquisa. A definição de validade ecologica 
proposta aqui amplia o alcance do conceito original, que passa a mclmr o contexto 
ambiental em que a pesquisa é conduzida. 
D E F I N I Ç Ã O 8 . , 
A validade ecológica se refere à extensão em que o meio ambiente experenciado 
pelos sujeitos numa investigação científica tem as propnedades supostas ou pre-
sumidas pelo investigador. 
Novamente , o uso do termo experenciado na definição destaca a importância do 
campo fenomenológico na pesquisa ecológica. A validade ecológica de qualquer esfor-
ço científico é questionada sempre que existe uma discrepância ente a percepção que o 
sujeito tem da situação de pesquisa e as condições ambientais pretendidas ou supostas 
pelo investigador. Isso significa que se torna não só desejável como essencial levar em 
conta a maneira pela qual a situação de pesquisa foi percebida e interpretada pelos 
sujeitos do estudo, em qualquer investigação científica sobre o comportamento e o de-
senvolvimento humanos. A importância desta injunção ficará aparente quando, posteri-
ormente neste livro, nós examinarmos investigações específicas da perspectiva da vali-
dade ecológica e nos descobrirmos chegando a interpretações alternativas plausíveis 
que não podem ser solucionadas sem que tenhamos pelo menos algum conhecimento da 
definição que o sujeito deu para a situação. 
Numa das poucas análises sistemáticas do conceito de validade ecologica, Michael 
Cole e seus colegas (1978) salientam que a tarefa de determinar como o sujeito percebe 
a situação é uma tarefa extremamente difícil, que o pesquisador psicológico ainda nao 
sabe como realizar. Eles dizem que a ênfase de Lewin nessa exigência como central para 
a validade ecológica (1943) é difícil de reconciliar com as exigências cientificas de uma 
formulação alternativa do conceito proposto pelo contemporâneo de Lewin, Egon 
Brunswik (1943, 1956, 1957). Bmnswik empregou o termo num sentido bem mais 
limitado aplicando-o a um problema mais tradicional na psicologia da percepção - a 
relação entre uma sugestão proximal e o objeto distai no meio ambiente ao qual ele esta 
relacionado. O elemento ecológico nesta concepção deriva-se da insistência de Bn.nsw.k 
ff^* ^ Ecologia do Desenvolvimento Humano 23 
no "planejamento representativo". Na sua opinião, para estabelecer a existência de um 
dado processo psicológico, era necessário demonstrar a sua ocorrência através de uma 
amostra não só de sujeitos, como também de situações. O propósito dessa amostragem 
ambiental era demonstrar que o fenômeno "possui general idade com relação às condi-
ções da vida normal" (1943, página 265). 
Embora aplaudindo a ênfase de Brunswik na importância das condições da vida 
cotidiana como referentes adequados para a pesquisa básica, eu mais tarde (capítulo 6) 
discutirei as suposições fundamentais subjacentes ao argumento de Brunswik e tam-
bém à grande parte da ciência psicológica contemporânea, de que os únicos processos 
merecedores de status científico no estudo do comportamento humano são aqueles que 
permanecem invariantes através dos contextos. Todavia, a nossa preocupação por en-
quanto é com a asserção de Cole e companhia, de que na prática, se não na teoria, as 
exigências ecológicas de Lewin e Brunswik são mutuamenteincompatíveis. Eles afir-
m a m que insistir em que a pesquisa seja executada numa variedade de situações e, ao 
mesmo tempo, exigir que cada situação seja examinada em termos de seu significado 
psicológico para os participantes coloca "uma carga enorme" sobre o investigador, 
uma carga que "talvez seja maior do que a psicologia possa, ou os psicólogos queiram, 
assumir" (Cole, Hodd e McDermott , 1978, página 36). 
Essa colocação é séria e merece uma resposta séria. Uma primeira resposta não 
resolve o dilema, mas só reafirma que ele é inevitável. Desconsiderar o significado da 
situação para o sujeito de pesquisa é arriscar conclusões inválidas tanto para a pesqui-
sa quanto, particularmente no estudo do desenvolvimento humano, para a política pú-
blica. Fechar os olhos para esta possibilidade, conseqüentemente, é ser cientifica e 
socialmente irresponsável. Mas como devemos lidar com o dilema colocado por Cole e 
seus colegas? Ironicamente, uma via de acesso à resolução é encontrada no próprio 
trabalho de Cole. Em dois volumes importantes (Cole e Scribner, 1974; Cole e colabo-
radores, 1971), ele e seus associados desenvolvem a posição de que o significado de 
grande parte do comportamento ocorrendo num dado ambiente soc ia lpode ser compre-
endido, desde que o observador tenha participado do ambiente dado em papéis seme-
lhantes àqueles assumidos pelos participantes e seja um membro da ou tenha extensiva 
experiência na subeultura em que o ambiente ocorre e do qual vêm os partícipes. Esta 
condição ainda deixa muito espaço para concepções errôneas, mas reduz consideravel-
mente a probabil idade de erros grosseiros de interpretação. A situação é análoga àque-
la enfrentada por uma pessoa que está fazendo tradução simultânea em um encontro 
internacional. Para realizar a tarefa, é útil - mas não essencial - que aquele seja o 
idioma nativo da pessoa; entretanto, é uma.vme qua nau ter experiência em conferênci-
as internacionais, possuir um bom conhecimento do assunto e domínio completo de 
ambos os idiomas. 
A natureza e necessidade dessas exigências é algo suficientemente óbvio no caso 
da tradução simultânea. Além disso, elas são seguidas escrupulosamente, principal-
mente porque os participantes no procedimento têm acesso aos registros e o poder de 
pressionar pela sua correção. A situação é um pouco diferente para o pesquisador do 
comportamento humano. Neste caso, as exigências são mais unilaterais: a ênfase é no 
domínio do conhecimento, da tecnologia e da linguagem da ciência, e não nos ambien-
tes ou pessoas sob estudo. Na verdade, os últimos raramente são informados sobre o 
conteúdo dos registros científicos e não têm nenhum poder de alterá-lo. Na ausência de 
pessoas capazes de reconhecer interpretações injustificadas baseadas em percepções 
errôneas dos fatos, o investigador pode, com toda a boa fé, chegar involuntariamente a 
falsas conclusões. Quando essas pessoas são envolvidas no empreendimento científico. 
Urie Bronfenbrenner 
como possuindo e se espera que 
aceitar a srtuaçao conforme estruturaoa e a s d i t 5 o 
^ - S S S F E S ^ 
De fo rma a lguma «ao « c l u i d a s ins i u ^ s e m P V v exemplo, 
cológico. Eias i n c i u e . e r e v , s u u os « 
= « - « - r ( p o , r e x T o e m p , ° ' a c a s a e 0 
C S I S A A A A S - " " 6 .' • I • : I G - G « " 
i > iim i noMcãc) determinada, mas cuidadosamente qualificada. em relaçao a 
parágrafopinai de sua análise, eles oferecem esta conclusão moderadora: 
Nós precisamos saber o máximo possível sobre as respostas do suje.to à J ^ n f -
me-proposta porque estas são mformações cruc.a,s para as noçoes de vahdade ecologica de 
Bi unswik e de Bronfenbrenner. Atualmente não existem métodos acenos para a tmgnmos 
e te ob et vo Embora vários i n v e s t i g a d o r mclusive nos mesmos, estejam ocupados com 
os métodos necessários, as afirmações de validade ecológica das tarefas cognitivas devem s 
r i s como esperanças programáticas para o futuro. N6s fizemos p o u c o s ^ r e s s o s nesta 
questão desde a discussão de Brunswik e Lewin ha nma geraçao (1978. pag.na 37). 
Juntamente com o trabalho de Cole e seus associados, o p o e n t e l i v r o ^ m m 
tentativa de levar o campo um passo adiante das .déias pioneiras de Brunsw.k e Lewin, 
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iner  Ecologia do Desenvolvimento Humano 
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oferecendo uma estrutura conceituai para a análise do espaço de vida psicológica em 
termos dos tres elementos do microssistema: atividade, papel e relação Esta tentativa 
talvez nao nos leve mu,to longe, mas qualquer informação acrescentada sobre a nature-
z a d o m e i ° a m b i e n t e percebido é um ganho científ ico no estudo do desenvolvimento-
n o " c o n t e x t o - A (?U 1 e s t á a b a s e P a r a " m a interpretação um pouco mais otimista do dile-
ma operacional corretamente colocado por Cole e seus associados, pois não é necessá 
n o e nem mesmo possível obter um quadro completo da situação de pesquisa conforme 
percebida pelos participantes. Como o movimento sem atrito, a validade ecológica é 
um objetivo a ser buscado, vislumbrado, mas nunca atingido. Todavia quanto mais 
nos aproximarmos dela mais claro será o entendimento científico da complexa interação 
entre o organismo humano em desenvolvimento e os aspectos funcionalmente relevan-
tes de seu meio ambiente físico e social. 
O alcance desta interação serve como um lembrete de que a correspondência 
entre a visão que o sujeito tem e a visão que o investigador tem da situação de pesquisa 
ou o que poderíamos apropriadamente chamar de validade fenomenológica é somente 
um aspecto da validade ecológica. Erros de interpretação também podem acontecer 
quando o investigador deixa de levar em conta a total variedade das forças ambientais 
que sao operativas numa dada situação, incluindo aquelas emanando de contextos além 
do ambiente imediato que contém os sujeitos da pesquisa - influências do meso- exo- e 
macrossistema. 
A noção de validade ecológica apresentada por mim pode ser considerada como 
implícita na clássica definição de validade científica, uma vez que o fracasso em reco-
nhecer discrepâncias entre a definição dada pelo sujei to e aquela dada pelo investiga-
dor sobre a situaçao de pesquisa, ou sobre a operação das influências externas "ao 
ambiente de pesquisa, questiona fundamentalmente se um dado procedimento científi-
co esta medindo aquilo que pretende medir. O argumento é bastante lógico A. questão 
e se suas rigorosas implicações serão de fato reconhecidas e observadas na ausência de 
uma exigencia explícita de se levarem conta as influências ambientais reais ou perce-
bidas, que podem afetar a validade das operações de pesquisa. É esta consideração que 
dita a necessidade de especificarmos um critério de validade ecológica. 
Finalmente, esta definição não designa nenhum tipo específico de pesquisa local 
como valida ou inválida em t e rmos« priori. Assim, dependendo do problema o labo-
ratório pode ser um ambiente totalmente apropriado para uma investigação e certos 
ambientes da vida real podem ser altamente inadequados. Suponha que alguém está 
interessado em estudar a interação entre a mãe e a criança quando a criança é colocada 
numa situaçao estranha e desconhecida. Está claro que o laboratório preenche melhor 
esta condição do que a casa. Inversamente, se o foco da investigação é o padrão modal 
da atividade mae-cnança prevalente na família, as observações confinadas ao labora-
tório podem ser enganadoras. Conforme eu indico no capítulo ó. achados de vários 
estudos demonstram que os padrões de interação mãe-criança em casa podem ser subs-
tancial e sistematicamente diferentes daqueles observados no laboratório Mais uma 
vez. entretanto, o íato de os resultados de pesquisa obtidos em laboratórios serem dife-
rentes daqueles observados em casa não podeser interpretado como evidência da supe-
r ior idade de um ambiente em relação ao outro, exceto no que se refere a uma 
questão de pesquisa específica. No mínimo, essas diferenças servem para esclarecer as 
propriedades especiais do laboratório como um contexto ecológico. Mais importante, 
elas ilustram o poder ainda inexplorado do laboratório como um contraste ecológico 
que pode destacar as características distintivas de outros tipos de ambiente conforme 
eles afetam o comportamento e o desenvolvimento. Deste ponto de vista, uma orienta-
Urie Bronfenbrenner 
ção ecológica aumenta, em vez de reduzir, as oportunidades da pesquisa de laboratório, 
ao indicar u m novo conhecimento que pode ser obtido através de u m a interaçao estreita 
e continuada entre o laboratório e a pesquisa de campo. 
N u m nível mais geral, a comparação dos resultados obtidos em ambientes de 
laboratório e da vida real oferece uma ilustração da estratégia básica através da qual a 
validade ecológica pode ser demonstrada ou considerada insuficiente. Como vale para 
a definição desse conceito, o método representa uma extensão dos procedimentos em-
pregados para investigar a validade em sua forma clássica. O processo é essencialmen-
te o de estabelecer a validade do construto (Cronbach e Meehl, 1955), neste caso tes-
tando a teoria ecológica por trás das operações de pesquisa - as suposiçoes que estão 
sendo feitas a respeito da natureza e generalidade do meio ambiente em que a pesquisa 
está sendo realizada. Quando um estudo de laboratório é considerado como representa-
tivo de comportamentos em outros lugares, precisamos conseguir evidências de uma 
relação empírica com atividades semelhantes nos outros ambientes; em outras pala-
vras, a validação deve deve acontecer em comparação com um critério ecológico exter-
no, com a possibilidade de divergências sistemáticas explicitamente levada em conta. 
Além disso, também deve ser reconhecido que esta divergência pode assumir a forma 
de diferenças, não apenas na resposta média, mas no padrão total de relacionamentos e 
nos processos subjacentes que elas supostamente refletem. 
Na pesquisa sobre a ecologia do desenvolvimento humano, a capacidade de ge-
neralizar entre os ambientes é importante por uma outra razao também. M e s m o depois 
de ter sido estabelecida arvalidade ecológica, outro critério precisa ser satisfeito: sem-
pre que a hipótese sob investigação implica, como ocorre freqüentemente, que o desen-
volvimento realmente ocorreu, é necessário o f e r e c e r evidências desse resultado antes 
que a hipótese possa ser considerada como recebendo apoio empírico. Como enfatizei 
anteriormente, o desenvolvimento implica uma mudança que não é meramente momen-
tânea ou específica para uma situação. Portanto, não é suficiente mostrar apenas que 
uma variação no meio ambiente produziu uma alteração no comportamento; também é 
necessário demonstrar que essa mudança apresenta certa invariância através do tempo, 
lugar, ou ambos. Nós nos referimos a esta demonstração como o estabelecimento da 
validade desenvolvimental, definida conforme segue. 
D E F I N I Ç Ã O 9 
Para demonstrar que o desenvolvimento humano ocorreu, é necessário estabele-
cer que uma mudança produzida nas concepções e/ou atividades da pessoa foi 
transferida para outros ambientes e outros momentos. Esta demonstração é co-
nhecida como validade desenvolvimental. 
Mesmo o exame mais superficial da pesquisa publicada sobre o desenvolvimen-
to humano revela que este princípio é mais conhecido pelas violações do que pelo 
cumprimento. Particularmente nos estudos de laboratório, as investigações que preten-
dem demonstrar um efeito desenvolvimental freqüentemente oferecem como evidência 
apenas dados limitados a um único ambiente e a um período de tempo relativamente 
breve. 
Como deve acontecer em todos os empreendimentos científicos, as decisões relativas 
ao planejamento da pesquisa são ditadas por considerações teóricas. Dado o complexo 
conceito da interação pessoa-meio-ambiente no contexto de sistemas interdependentes, 
encaixados um no outro, surge a pergunta de como essas interdependências podem ser 
Ecologia do Desenvolvimento Humano 2 9 
investigadas emp,ricamente. Eu argumentarei que u m a estratégia especialmente ade-
quada para este propósito, desde os primeiros estágios da pesquisa, é um experimento 
ecoLogico, definido conforme segue. 
DEFINIÇÃO 10 
Um experimento ecológico é uma tentativa de investigar a progressiva acomoda-
çao entre o organismo humano em crescimento e seu meio ambiente, através de 
uma comparação sistemática entre dois ou mais sistemas ambientais ou seus 
componentes estruturais, com uma cuidadosa tentativa de controlar outras fon-
tes de influência, quer por designação aleatória (experimento planejado), quer 
por comparação (experimento natural). 
Eu evito deliberadamente o termo quase-experimento, t ipicamente empregado 
na literatura sobre a pesquisa , po rque ele sugere u m nível mais ba ixo de ri^or 
metodológico, uma implicação que considero injustif icada por motivos estritamente 
científicas. Há casos em que um planejamento explorando um experimento da natureza 
proporciona uma comparação mais critica, garante maior objet ividade e permite 
inferências mais exatas e teoricamente significativas - e m resumo, é melhor e constitui 
uma ciência "mais sólida" - do que qualquer possível experimento arquitetado dirigido 
à mesma questão de pesquisa. 
Em outros aspectos, a definição soa familiar. Mantendo o comprometimento 
com o rigor declarado no início, o corpo principal da definição é uma reafirmação da 
lógica básica do método experimental . O que é novo, e talvez discutível, nesta formu-
lação não é o procedimento defendido, mas o timing e o alvo de sua aplicação. Eu estou 
propondo que os experimentos sejam empregados nas primeiras fases da investigação 
científica, não com objetivo usual de testar hipóteses (embora este artifício seja usado 
como um meio para se chegar a um fim), mas por propósitos heurísticos - isto é, para 
analisar sistematicamente a natureza da acomodação existente entre a pessoa e o meio. 
A necessidade de experimentação inicial se deriva da natureza do problema sob 
investigação. A "acomodação" ou o "ajuste" entre a pessoa e o meio ambiente não é um 
fenomeno fácil de reconhecer. Aqui, em geral não é suficiente apenas olhar. Conforme 
Goethe escreveu com sua presciência de poeta: "Was ist das Schwerste von aliem? Was 
dir das Leichste dünket, mit den Augen zu sehen, was vor den Augen dir lieçt" (O que 
é o mais difícil de tudo? Aquilo que lhe parece o mais fácil, ver com seus olhos o que 
esta diante deles.) (Xenien aus dem Nachlass # 45.) 
Se olhar não é suficiente, o que devemos fazer? Como o observador pode estimu-
lar sua sensibilidade aos aspectos críticos do observado? A resposta a esta pergunta me 
foi dada ha quarenta anos, muito antes de eu estar pronto para apreciar isso, 'por meu 
primeiro mentor na escola de graduação, Walter Fenno Dearborn. Em seu tranqüilo e 
claro sotaque da Nova Inglaterra, ele certa vez comentou: "Bronfenbrenner se você 
quiser compreender alguma coisa, tente modificá-la". E quer a pessoa estude a mudan-
ça alterando deliberadamente as condições num experimento planejado, quer exploran-
do sistematicamente um "experimento da natureza", o propósito e efeito científicos são 
os mesmos; maximizar nossa sensibilidade ao fenômeno, através da justaposição do 
semelhante mas diferente, constitui o núcleo do método experimental e cria seu poder 
magnificador. 
O caso apresentado aqui para a aplicação inicial e continuada dos paradigmas 
experimentais não deve ser mal-interpretado c o m o um argumento contra o uso de ou-
tros métodos, tais como descrição etnográfica, observação naturalística, estudos de 
Urie Bronfenbrenner 
caso levantamentos de campo e assim por diante. Estasestrateg,as podem p oporcio-
nar informações e insigkts científicos inestimáveis. O aspecto que estamos destacando e 
um a s p e c t o positivo - que o experimento desempenha um papel crítico na investigaçao 
e ra ló^ca não só para o propósito de testar as hipóteses, mas. em estágios - t e n o r e s para 
d e i t a r e a n a l i s a f propriedades dos s.stemas dentro do ambiente imediato e alem dele A 
adequabüidade especial do experimento para este propósito é destacada por uma adaptaçao 
do ditado de Dearborn à esfera ecológica: Se você deseja compreender a relaçao entre a 
n e s s o a e m desenvolvimento e algum aspecto de seu me,o ambiente, tente mexer num deles e 
o ^ com o o u t r o . Implícito na m,nha injunção está o reconhecimento de que 
a relação entre a pessoa e o meio ambiente tem as propriedades de um s.stema com um 
memento^quaiUidade de movimento) próprio; a única mane.ra de descobrir a natureza 
desta inércia é tentar perturbar o equilíbrio existente. 
desta .nercia e P o propósUo primário do experimento ecolog.co se torna 
não a testagertfda hipótese mas a descoberta - a identificação daquelas propriedades e 
nroce sos doTsistemas que afetam e são afetados pelo comportamento e desenvolvi-
S e n t o do ser humano. Além disso, se o objetivo é a identificação das P - P n e d a d e s dos 
sistemas então é essencial que essas propriedades dos sistemas nao sejam exclmdasdo 
planejamento de pesqmsa antes do fato, restringindo a observaçao a apenas um ambi-
e n t e T r v a r i á v e l ou um sujeito por vez. Os me,o ambientes humanos e, mais a i n d a as 
capacidades dos seres humanos de se adaptarem a, e reestruturarem, esses me,o amb,en-
tes" são tão complexos em sua organização básica que provavelmente nao serao capm-
ados através de modelos de pesquisa simplistas, unidimensionais que nao incluem a 
avartfação da estrutura e var.açãolcológicas. Diferentemente do class.co experimento 
de laboratório em que focamos uma única variável por vez e tentamos cont .o ar por 
excíusão todas a outras, na pesquisa ecológica o investigador busca controlar por 
m d S ' o máximo possível de contrastes ecológicos teoricamente relevantes . nos 
limites da exequibilidade e planejamento experimental rigoroso. Somente desta manei-
a podemoTavabar a generalidade de um fenômeno além de uma s.tuaçao ecológica 
específica e igualmente significativo de uma perspectiva desenvolvimental. identificar 
os processos de mútua acomodação entre um organismo em crescimento e seu entorno 
em modificação. Por exemplo, ao estudar as estratégias de sociahzaçao talvez fosse 
bom estral,ficarmos a a m o s L não somente por Casse soca i , como ^ ^ ^ 
mas também por estrutura familiar e/ou ambiente em que a criança e cuidada (casa 
f r e c h e ) Esta estratificação em termos de duas ou mais dimensões ecolog.cas 
, opor "ona u na Brade sistematicamente diferençada e portanto potencialmente sens,-
vel qTe torna possível a detecção e descrição de padrões de interação orgamsmo-ambi-
ente a ravés de uma variedade de contextos ecológicos. Além disso, dada a extraordi-
nária capacidade da espécie Homo sapiens de se adaptar ao seu me.o e mais provave 
que esses padrões sejam complexos do que simples. Corrompendo, de certa forma, a 
clássica terminologia do planejamento experimental, na pesquisa ecologica, os princi-
pais efeitos provavelmente serão interações. 
Uma linha de argumentação que insiste na execução da pesquisa em mais de um 
ambiente assim como na classificação múltipla por categorias ecológicas tanto dentro 
do ambiente quanto entre os ambientes, provoca a contra-argumentaçao de que isso 
não é prático em termos da magnitude do empreendimento e do numero de sujeitos 
necessário. Assim, um crítico poderia dizer que, nessas circunstâncias, a pesquisa so-
bre a ecologia do desenvolvimento humano só poderia ser realizada em projetos em 
arande escala, mu,to além dos recursos humanos e materiais normalmente disponíveis 
para a maioria dos cientistas estabelecidos, sem falar nos investigadores ma.s jovens e 
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ff^* ^ Ecologia do Desenvolvimento Humano 23 
alunos de graduação. Embora alguns estudos em grande escala realmente sejam desejá-
veis, e es nao tem nenhuma relação necessária com o modelo de pesquisa defendido 
aqui. Nao e o tamanho, e sim a estrutura do planejamento, o que é crítico Por exemplo 
a pesquisa sobre as transições ecológicas - tais como o efeito da chegada de um irmão 
sobre a cnança, as mudanças no comportamento em casa em função da entrada da 
criança e de seu progresso na escola, a adaptação de um adolescente a um novo pai ou 
o impacto do desemprego parental sobre a família - de forma alguma requer um grande 
numero de sujeitos e poderia faci lmente ser executada por alunos de graduação ou 
inclusive por alunos mais inexperientes, especialmente se eles trabalhassem em colabo-
raçao. Alem disso, a estratificação não exige necessariamente a adição de mais sujei-
tos, mas apenas um reconhecimento sistemático dos diferentes contextos ecológicos 
dos quais vêm os sujeitos da pesquisa, e uma seleção deliberada para garantir que pelo 
menos os contrastes mais críticos e inevitáveis estejam representados sistematicamente em 
vez de serem deixados ao acaso. Negligenciar este último aspecto não só aumenta o erro 
experimental, como também poderia privar o investigador de informações relativas à interação 
de diferentes condiçoes ecológicas na formação do curso do desenvolvimento A perda de 
liberdade associada à estratificação é, sugiro eu, mais do que compensada pelo ganho em 
conhecimento sobre os efeitos contextuais combinatórios. A ocorrência dessas interações e 
seu significado para a ciência e para a política social são ilustrados pelos resultados de 
estudos específicos revisados nos capítulos seguintes. Alguns deles são investigações em 
pequena escala realizados por um único pesquisador. 
Eu enfatizei a importância científ ica de realizar experimentos ecológicos sobre 
as influencias ambientais que vão além do ambiente imediato que contém a pessoa em 
desenvolvimento. Com relação a isso, são extremamente importantes as investigações 
que tratam das propriedades do macrossistema. Existem duas estratégias principais 
para a mvestigaçao dos padrões consistentes do desenvol vimento-no-contexto que ca-
ractenzam determinadas culturas e subculturas. A primeira é a comparacão de «rupos 
existentes, conforme exemplif icado por um grande número de estudos sobre diferenças 
soc.o_econom.cas e étnicas nas práticas de educação dos fi lhos e no comportamento « n 
relaçao a eles. Mas já que a maioria dessas pesquisas foca as características dos indi-
víduos a ponto de quase excluir as propriedades dos contextos sociais em que esses 
indivíduos sao encontrados, elas pouca luz podem lançar sobre o processo de acomo-
dação entre a pessoa e o meio ambiente, o que constitui o núcleo de uma ecologia do 
desenvolvimento humano. Há a lgumas exceções notáveis a essa perspectiva restrita 
mas mesmo essas investigações mais amplamente concebidas comparti lham com todos 
os estudos estritamente naturalistas a desvantagem de estarem limitados a variações 
nos maerossisíemas que existem presentemente ou ocorreram no passado As possibi-
lidades futuras ainda são desconhecidas, a não ser através de extrapolações arriscadas 
bsta restrição do interesse ao status quo representa uma característica distintiva 
de grande pane da pesquisa norte-americana sobre o desenvolvimento humano Quem 
me chamou a atençao para esta perspectiva teórica limitada foi o Professor A N Leontiev 
da Universidade de Moscou. Na época, há mais de uma década, eu era um cientista 
engajado num programa de intercâmbio cultural no Instituto de Psicologia de Moscou 
Nos estivéramos discutindo as diferenças nas suposições subjacentes à pesquisa sobre 
o desenvolvimento humano na União Soviéticae nos Estados Unidos. Resumindo suas 
opiniões, o Professor Leontiev ofereceu o seguinte julgamento: "Parece-me que os pes-
quisadores americanos estão sempre tentando explicar como a cnança veio a ser o que 
e, nos, na URSS., es tamos tentando descobrir não como a criança veio a ser o que é. 
mas como ela pode se tornar aquilo que ainda não é". 
Urie Bronfenbrenner 
A declaração de Leontiev naturalmente lembra a injunção de Dearborn ("Se você 
quiser compreender a lguma coisa, tente modificá-la."), rnas vai muito além; na verda-
de, na visão de Leontiev, ela é revolucionária em suas implicações. Os psicólogos sovi-
éticos falam freqüentemente sobre o que chamam de "experimento transformador". 
Com isso, eles estão se referindo a um experimento que reestrutura radicalmente o meio 
ambiente, produzindo uma nova configuração que ativa potenciais comportamentais do 
sujeito previamente irrealizados. Os psicólogos desenvolvimentais russos realmente con-
seguiram planejar experimentos brilhantes que provocam novos padrões de resposta, 
principalmente na esfera do desenvolvimento psicomotor e perceptual (Cole e Maltzman, 
1969). Mas quando a pesquisa soviética sai do laboratório, o grupo de controle desapa-
rece, os dados sistemáticos se t ransformam em relatos anedóticos, e o experimento 
t ransformador geralmente acaba degenerando numa demonstração obediente de pro-
cessos e resultados ideologicamente prescritos. 
Por razões muito diferentes, os experimentos transformadores no mundo real são 
igualmente raros na pesquisa norte-americana sobre o desenvolvimento humano. Como 
Leontiev quis dizer, a maioria das nossas aventuras científicas na realidade social per-
petua o status quo; na extensão em que nós incluímos contextos ecológicos em nossas 
pesquisas, selecionamos e tratamos esses contextos como dados sociológicos, e não 
como sistemas sociais evolutivos suscetíveis de transformação significativa. Assim, 
nós estudamos as diferenças de classe social no desenvolvimento, as diferenças étnicas, 
as diferenças rural-urbanas - ou, no próximo nível inferior, as crianças de famílias de 
progenitor solteiro versus de dois progenitores, famílias grandes versus famílias peque-
nas - como se a natureza dessas estruturas, e suas conseqüências desenvolvimentais, 
fossem eternamente fixas e inalteráveis, exceto talvez por uma violenta revolução. Nós 
f icamos relutantes em fazer experimentos com novas formas sociais como contextos 
para a realização do potencial humano. "Afinal de contas", dizemos, "não podemos 
mudar a natureza humana" . Esta máxima fundamenta nossa posição nacional na polí-
tica social e também grande parte da nossa ciência do desenvolvimento humano. 
A pesquisa sobre a mudança no macrossistema requer uma alteração na natureza 
das comparações a serem empregadas nos experimentos. Uma coisa é comparar os 
efeitos que os sistemas ou elementos do sistema já presentes na cultura têm sobre o 
desenvolvimento; outra bem diferente é introduzir modificações experimentais que re-
presentam uma reestruturação de formas e valores institucionais estabelecidos. 
A última, e a mais exigente, das definições que delineiam a natureza e o alcance 
da pesquisa sobre a ecologia do desenvolvimento humano identifica uma estratégia de 
escolha para o trabalho científico nesta esfera. 
D E F I N I Ç Ã O 11 
Um experimento transformador envolve a alteração e reestruturação sistemáti-
cas de sistemas ecológicos existentes, de maneiras que desafiam as formas da 
organização social, sistemas de crença e estilos de vida dominantes numa deter-
minada cultura ou subcultura. 
Um experimento transformador altera sistematicamente algum aspecto de um 
macrossistema. A alteração pode ser efetuada em qualquer nível do meio ambiente 
ecológico, do micro- ao exossistema, ao eliminar, modificar ou acrescentar elementos e 
interconexões. 
Um princípio geral está presente em todos os conceitos básicos de uma ecologia 
experimental do desenvolvimento humano. O princípio é formulado como a primeira de 
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uma série de proposições descrevendo as características distintivas dos modelos de 
pesquisa apropriados para a investigação do desenvolvimento-no-contexto. 
PROPOSIÇÃO A 
Na pesquisa ecológica, as propriedades da pessoa e do meio ambiente, a estrutu-
ra dos cenários ambientais e os processos ocorrendo dentro e entre eles devem 
ser considerados como interdependentes e analisados em termos de sistemas. 
A especificação destas interdependências constitui uma tarefa importante na abor-
dagem proposta. O restante deste livro representa um esforço inicial nesta direção. Nos 
capítulos seguintes, eu descrevo com maiores detalhes as propriedades distintivas de 
um modelo ecológico, em termos da teoria e do planejamento de pesquisa, que são 
apropriadas para a análise de contextos e processos desen volvimentais em cada um dos 
quatro níveis ambientais. Em cada nível, eu ofereço um ou mais exemplos concretos de 
investigação - concretos quando disponíveis, hipotéticos quando inexistentes - para 
ilustrar essas propriedades distintivas, ou por demonstração ou por omissão. 
Pelas razões j á indicadas, experimentos ecológicos bem planejados não são mui-
to fáceis de encontrar, por enquanto. Conseqüentemente, eu tive de inventar alguns 
exemplos quando eles não existiam. Além disso, em muitos casos havia carência não só 
de pesquisas relevantes, mas também de idéias de pesquisa relevantes. Assim, os capí-
tulos que se seguem contêm mais hipóteses propostas do que investigações propostas. 
Uma vez que as hipóteses propostas jamais foram testadas, pelo menos na forma 
e no contexto em que são apresentadas, não existe nenhuma evidência empírica direta-
mente referente à sua validade. Não obstante, ao selecionar exemplos de pesquisa para 
apresentação, eu tentei escolher aqueles que ilustram pelo menos a promessa dos rela-
cionamentos propostos. Estas evidências, no entanto, serão principalmente circunstan-
ciais e nunca compelidoras ou completas. Por enquanto, as hipóteses só podem ser 
julgadas e just if icadas em bases teóricas. O teste fundamental da investigação empírica 
ainda está por vir. 
Quando e se este teste chegar, as hipóteses podem se revelar inválidas, mas este 
é um resultado que, na ciência, não é nem incomum nem indigno dte consideração. As 
investigações propostas, todavia, podem ter um dest ino menos honroso. Uma vez que 
elas são idéias de pesquisa que jamais foram experimentadas, o que os psicólogos 
alemães chamaram de experimentos Gedcmken. a tentativa de implementá-las prova-
velmente revelará falhas na concepção, no planejamento ou na exeqüibilidade. Mas eu 
espero que elas, pelo menos, apontem o caminho para descobertas científicas produti-
vas por futuros investigadores.