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A DINåMICA DA
TRANSFERæNCIA (1912)
TêTULO ORIGINAL: ÒZUR DYNAMIK DER
BERTRAGUNGÓ. PUBLICADO PRIMEIRAMENTE
EM ZENTRALBLATT FR PSYCHOANALYSE
[FOLHA CENTRAL DE PSICANçLISE], V. 2, N. 4,
PP. 167-73. TRADUZIDO DE GESAMMELTE
WERKE VIII, PP. 364-74; TAMBM SE ACHA
EM STUDIENAUSGABE, ERGNZUNGSBAND
[VOLUME COMPLEMENTAR], PP. 157-68.
ESTA TRADUÌO FOI PUBLICADA
ORIGINALMENTE EM JORNAL DE PSICANçLISE,
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANçLISE
DE SÌO PAULO, V. 31, N. 57, PP. 251-8,
SETEMBRO DE 1998; ALGUMAS DAS
NOTAS DO TRADUTOR FORAM OMITIDAS
NA PRESENTE EDIÌO.
A ÒtransfernciaÓ, um tema quase inesgotvel, foi recentemente abordado de
modo descritivo por W. Stekel nesta Zentralblatt. Desejo agora acrescentar al-
gumas observaes que levem a entender como surge necessariamente a trans-
ferncia numa terapia analtica e como ela chega a desempenhar seu conhecido
papel no tratamento.
Tenhamos presente que todo ser humano, pela ao conjunta de sua dis-
posio inata e de influncias experimentadas na infncia, adquire um certo
modo caracterstico de conduzir sua vida amorosa, isto , as condies que es-
tabelece para o amor, os instintos que satisfaz ento, os objetivos que se
coloca.1 Isso resulta, por assim dizer, num clich (ou vrios), que no curso da
vida regularmente repetido, novamente impresso, na medida em que as cir-
cunstncias externas e a natureza dos objetos amorosos acessveis o permitem,
e que sem dvida no inteiramente imutvel diante de impresses recentes.
Nossas observaes mostraram que somente uma parte desses impulsos que
determinam a vida amorosa perfaz o desenvolvimento psquico; essa parte est
dirigida para a realidade, fica disposio da personalidade consciente e con-
stitui uma poro desta. Outra parte desses impulsos libidinais foi detida em
seu desenvolvimento, est separada tanto da personalidade consciente como da
realidade, pde expandir-se apenas na fantasia ou permaneceu de todo no in-
consciente, de forma que desconhecida para a conscincia da personalidade.
Aquele cuja necessidade de amor no completamente satisfeita pela realidade
se voltar para toda pessoa nova com expectativas libidinais,* e bem provvel
que as duas pores de sua libido, tanto a capaz de conscincia quanto a incon-
sciente, tenham participao nessa atitude.
perfeitamente normal e compreensvel, portanto, que o investimento li-
bidinal de uma pessoa em parte insatisfeita, mantido esperanosamente em
prontido, tambm se volte para a pessoa do mdico. Conforme nossa
premissa, tal investimento se apegar a modelos, se ligar a um dos clichs
presentes no indivduo em questo ou, como podemos tambm dizer, ele in-
cluir o mdico numa das ÒsriesÓ que o doente formou at ento. Combina
com os laos reais com o mdico o fato de nessa incluso ser decisiva a Òimago
paternaÓ (para usar a feliz expresso de Jung).2Mas a transferncia no se acha
presa a esse modelo, pode tambm suceder conforme a imago da me, do
irmo etc. As peculiaridades da transferncia para o mdico, em virtude das
quais ela excede em gnero e medida o que se justificaria em termos sensatos e
racionais, tornam-se inteligveis pela considerao de que no s as expect-
ativas conscientes, mas tambm as retidas ou inconscientes produziram essa
transferncia.
Sobre essa conduta da transferncia no haveria mais o que dizer ou cismar,
se dois pontos de especial interesse para o analista no permanecessem inex-
plicados. Em primeiro lugar, no entendemos por que a transferncia, nos in-
divduos neurticos em anlise, ocorre muito mais intensamente do que em
outros, que no fazem psicanlise; em segundo lugar, continua sendo um en-
igma que a transferncia nos aparea como a mais forte resistncia ao trata-
mento, enquanto fora da anlise temos que admiti-la como portadora da cura,
como condio do bom sucesso. Pois observamos Ñ e uma observao que
pode ser repetida vontade Ñ que, quando as associaes livres de um pa-
ciente falham,3 a interrupo pode ser eliminada com a garantia de que no mo-
mento ele se acha sob o domnio de um pensamento ligado pessoa do mdico
ou a algo que lhe diz respeito. To logo feito esse esclarecimento, a inter-
rupo acaba, ou a situao muda: a cessao d lugar ao silenciamento do que
ocorre ao paciente.
Ë primeira vista parece uma imensa desvantagem metodolgica da psic-
anlise o fato de nela a transferncia, ordinariamente a mais forte alavanca do
sucesso, tornar-se o mais poderoso meio de resistncia. Olhando mais atenta-
mente, porm, ao menos o primeiro dos dois problemas afastado. No cor-
reto que durante a psicanlise a transferncia surja de modo mais intenso e
desenfreado que fora dela. Em instituies onde os doentes de nervos so
tratados no analiticamente, observam-se as maiores intensidades e as mais in-
dignas formas de uma transferncia que beira a servido, e tambm o seu
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inequvoco matiz ertico. Uma observadora sutil como Gabriele Reuter
mostrou isso quando ainda no se falava em psicanlise, num livro notvel que
deixa transparecer as melhores percepes da natureza e da origem das neur-
oses.4 Essas caractersticas da transferncia no devem, portanto, ser lanadas
conta da psicanlise, mas atribudas neurose mesma. O segundo problema
continua de p.
Esse problema Ñ a questo de por que a transferncia nos surge como res-
istncia na psicanlise Ñ devemos agora abordar. Vejamos a situao psicol-
gica do tratamento. Uma precondio regular e indispensvel de todo adoeci-
mento neurtico o processo que Jung designou adequadamente como intro-
verso da libido.5Ou seja: diminui a poro da libido capaz de conscincia,
voltada para a realidade, e aumenta no mesmo grau a poro afastada da real-
idade, inconsciente, que ainda pode alimentar as fantasias da pessoa, mas que
pertence ao inconsciente. A libido (no todo ou em parte) tomou a via da re-
gresso e reanimou as imagos infantis.6 A terapia analtica segue-a ento,
procurando ach-la, torn-la novamente acessvel conscincia, p-la a ser-
vio da realidade. Ali onde a investigao psicanaltica depara com a libido re-
colhida em seus esconderijos, uma luta tem de irromper; todas as foras que
causaram a regresso da libido se levantaro como ÒresistnciasÓ ao trabalho,
para conservar esse novo estado de coisas. Pois se a introverso ou regresso
da libido no fosse justificada por uma determinada relao com o mundo ex-
terior (nos termos mais gerais: pela frustrao da satisfao) e no fosse ad-
equada para o momento, no poderia em absoluto efetuar-se. Mas as resistn-
cias que tm essa origem no so as nicas, nem mesmo as mais fortes. A li-
bido disposio da personalidade sempre estivera sob a atrao dos com-
plexos inconscientes (mais corretamente, das partes desses complexos que per-
tencem ao inconsciente), e caiu na regresso porque a atrao da realidade
havia relaxado. Para libert-la, essa atrao do inconsciente tem que ser super-
ada, isto , a represso dos instintos inconscientes e de suas produes, desde
ento constituda no indivduo, tem que ser eliminada. Disso vem a parte
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maior, bem maior da resistncia, que frequentemente faz a doena persistir,
mesmo quando o afastamento da realidade perdeu sua justificativa mo-
mentnea. A psicanlise tem de lidar com as resistncias das duas fontes. A res-
istncia acompanha o tratamento passo a passo; cada pensamento, cada ato do
analisando precisa levar em conta a resistncia, representa um compromisso
entre as foras que visam a cura e as aqui descritas, que a ela se opem.
Seguindo um complexo patognico desde sua representao no consciente
(seja evidente, na forma de sintoma, seja bastante discreto) at sua raiz no in-
consciente, logo se chega a uma regio em que a resistncia vigora to clara-
mente que a associao seguinte tem de
lev-la em conta e aparecer como
compromisso entre as suas exigncias e as do trabalho de investigao. en-
to, segundo nossa experincia, que surge a transferncia. Quando algo do
material do complexo (do contedo do complexo) se presta para ser trans-
ferido para a pessoa do mdico, ocorre essa transferncia; ela produz a asso-
ciao seguinte e se anuncia mediante sinais de resistncia como uma inter-
rupo, por exemplo. Dessa experincia inferimos que essa ideia transferencial
irrompeu at conscincia antes de todas as outras associaes possveis porque
satisfaz tambm a resistncia. Algo assim se repete inmeras vezes no curso de
uma anlise. Sempre que nos avizinhamos de um complexo patognico, a parte
desse complexo capaz de transferncia empurrada para a conscincia e defen-
dida com enorme tenacidade.7
Aps sua superao, a dos outros componentes do complexo no traz maior
dificuldade. Quanto mais tempo dura uma terapia analtica, e quanto mais
claramente o analisando reconhecer que apenas distores do material pato-
gnico no o protegem de ser revelado, mais consequentemente ele se serve do
tipo de distoro que claramente lhe oferece as maiores vantagens, a distoro
pela transferncia. Essas circunstncias tendem para uma situao em que afi-
nal todos os conflitos tm que ser decididos no mbito da transferncia.
Assim, a transferncia na anlise sempre nos aparece, de imediato, apenas
como a mais poderosa arma da resistncia, e podemos concluir que a
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intensidade e a durao da transferncia so efeito e expresso da resistncia.
O mecanismo da transferncia explicado* se o referimos prontido da li-
bido, que permaneceu de posse de imagos infantis; mas s chegamos ao es-
clarecimento de seu papel na terapia se abordamos os seus vnculos com a
resistncia.
Por que a transferncia se presta assim admiravelmente a servir como meio
de resistncia? Seria de crer que a resposta a essa pergunta deve ser fcil. Pois
claro que a confisso de todo desejo proibido especialmente dificultada,
quando deve ser feita prpria pessoa qual ele diz respeito. Tal imposio
leva a situaes que parecem quase inviveis no mundo real. precisamente
isso o que pretende alcanar o analisando, quando faz coincidir o objeto de
seus impulsos afetivos com o mdico. Uma reflexo mais atenta mostra,
porm, que esse aparente ganho no pode trazer a soluo do problema. Uma
relao de terno e dedicado afeto pode, pelo contrrio, ajudar a vencer todas as
dificuldades da admisso. Em condies reais anlogas costuma-se dizer: ÒNa
sua frente no me envergonho, a voc posso falar tudoÓ. A transferncia para
o mdico poderia igualmente facilitar a confisso, no se compreendendo por
que a dificulta.
A resposta a essa questo, que repetidamente colocamos aqui, no ser ob-
tida mediante mais reflexo, mas pelo que se aprende na investigao das res-
istncias transferenciais da terapia. Nota-se, por fim, que no possvel en-
tender o uso da transferncia para a resistncia, se pensamos to s em Òtrans-
fernciaÓ. preciso resolver-se a distinguir uma transferncia ÒpositivaÓ de
uma ÒnegativaÓ, a transferncia de sentimentos ternos daquela hostil, e tratar
diferentemente os dois tipos de transferncia para o mdico. A transferncia
positiva decompe-se ainda na dos sentimentos amigveis ou ternos que so
capazes de conscincia, e na dos prolongamentos destes no inconsciente.
Quanto aos ltimos, a psicanlise mostra que via de regra remontam a fontes
erticas, de maneira que temos de chegar compreenso de que todos os nos-
sos afetos de simpatia, amizade, confiana etc., to proveitosos na vida, ligam-
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se geneticamente sexualidade e se desenvolveram, por enfraquecimento da
meta sexual, a partir de anseios puramente sexuais, por mais puros e no sen-
suais que se apresentem nossa autopercepo consciente. Originalmente s
conhecemos objetos sexuais; a psicanlise nos faz ver que as pessoas que em
nossa vida so apenas estimadas ou respeitadas podem ser ainda objetos
sexuais para o inconsciente dentro de ns.
A soluo do enigma , portanto, que a transferncia para o mdico presta-
se para resistncia na terapia somente na medida em que transferncia negat-
iva, ou transferncia positiva de impulsos erticos reprimidos. Se ÒabolimosÓ a
transferncia tornando-a consciente, apenas desligamos da pessoa do mdico
esses dois componentes do ato afetivo; o outro componente, capaz de con-
scincia e no repulsivo, subsiste e o veculo do sucesso na psicanlise, exata-
mente como em outros mtodos de tratamento. At ento admitimos de bom
grado que os resultados da psicanlise se basearam na sugesto; mas deve-se
entender por sugesto aquilo que, juntamente com Ferenczi,8 nela encon-
tramos: a influncia sobre um indivduo por meio dos fenmenos de transfer-
ncia nele possveis. Ns cuidamos da independncia final do paciente ao util-
izar a sugesto para faz-lo realizar um trabalho psquico que ter por con-
sequncia necessria uma duradoura melhora da sua situao psquica.
Pode-se ainda perguntar por que os fenmenos de resistncia da transfern-
cia surgem somente na psicanlise, e no num tratamento indiferenciado, por
exemplo, em instituies. A resposta : eles se mostram tambm ali, mas tm
de ser apreciados como tais. A irrupo da transferncia negativa at mesmo
frequente nas instituies. To logo o doente cai sob o domnio da transfern-
cia negativa, ele deixa a instituio sem ter mudado ou tendo piorado. A trans-
ferncia ertica no age to inibidoramente em instituies, pois ali, como na
vida, atenuada, em vez de revelada. Manifesta-se bem nitidamente como res-
istncia cura, porm; no ao tirar o doente da instituio Ñ pelo contrrio,
ela o retm l Ñ, mas ao mant-lo afastado da vida. Pois para a cura no
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importa se o doente internado supera essa ou aquela angstia ou inibio; in-
teressa que tambm na realidade de sua vida ele se livre delas.
A transferncia negativa merece uma apreciao mais detalhada, que no
pode ser feita nos limites deste trabalho. Nas formas curveis de psiconeuroses
ela se acha ao lado da transferncia afetuosa, com frequncia dirigida simul-
taneamente mesma pessoa Ñ para esse fato* Bleuler cunhou a feliz expresso
ÒambivalnciaÓ.9 Tal ambivalncia de sentimentos parece normal at uma
certa medida, mas um alto grau de ambivalncia dos sentimentos sem dvida
uma peculiaridade dos neurticos. Na neurose obsessiva, uma precoce Òsep-
arao dos pares de opostosÓ parece ser caracterstica da vida instintual e rep-
resentar uma de suas precondies constitucionais. A ambivalncia nas inclin-
aes afetivas o que melhor explica a capacidade de os neurticos porem suas
transferncias a servio da resistncia. Quando a capacidade de transferncia
torna-se essencialmente negativa, como nos paranoicos, acaba a possibilidade
de influncia e de cura.
Mas em toda essa discusso apreciamos, at aqui, apenas um lado do prob-
lema da transferncia; necessrio voltar nossa ateno para outro aspecto do
mesmo tema. Quem teve a impresso correta de como o analisando lanado
para fora de suas reais relaes com o mdico assim que cai sob o domnio de
uma formidvel resistncia de transferncia, como ele ento se permite a liber-
dade de ignorar a regra psicanaltica bsica, a de que se deve informar de
maneira acrtica tudo o que vier mente, como esquece os propsitos com que
iniciou o tratamento, e como nexos e concluses lgicas que pouco antes lhe
haviam feito enorme impresso se lhe tornam indiferentes Ñ esse ter ne-
cessidade de explicar tal impresso a partir de outros fatores que no os men-
cionados aqui, e eles no se acham distantes, afinal: resultam novamente da
situao psicolgica em que a terapia colocou o paciente.
Na busca da libido que se extraviou do consciente
penetramos no mbito
do inconsciente. As reaes que obtemos trazem ento luz algumas das cara-
ctersticas dos processos inconscientes que chegamos a conhecer pelo estudo
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dos sonhos. Os impulsos inconscientes no querem ser lembrados como a ter-
apia o deseja, procurando, isto sim, reproduzir-se, de acordo com a atemporal-
idade e a capacidade de alucinao do inconsciente. Tal como nos sonhos, o
doente atribui realidade e atualidade aos produtos do despertar de seus im-
pulsos inconscientes; ele quer dar corpo* a suas paixes, sem considerar a situ-
ao real. O mdico quer lev-lo a inserir esses impulsos afetivos no contexto
do tratamento e no da sua histria, a submet-los considerao intelectual e
conhec-los** segundo o seu valor psquico. Essa luta entre mdico e paciente,
entre intelecto e vida instintual, entre conhecer e querer Òdar corpoÓ,
desenrola-se quase exclusivamente nos fenmenos da transferncia. nesse
campo que deve ser conquistada a vitria, cuja expresso a permanente cura
da neurose. inegvel que o controle dos fenmenos da transferncia oferece
as maiores dificuldades ao psicanalista, mas no se deve esquecer que justa-
mente eles nos prestam o inestimvel servio de tornar atuais e manifestos os
impulsos amorosos ocultos e esquecidos dos pacientes, pois afinal impossvel
liquidar algum in absentia ou in effigie.
1 Este o momento de nos defendermos da injusta objeo de que teramos negado a im-
portncia dos fatores inatos (constitucionais), por ressaltarmos as impresses infantis. Uma tal
objeo deriva da estreiteza da necessidade causal das pessoas, que, contrariamente configur-
ao habitual da realidade, quer se satisfazer com um nico fator causador. A psicanlise
manifestou-se bastante acerca dos fatores acidentais da etiologia e pouco a respeito dos con-
stitucionais, mas somente porque pde contribuir com algo novo para aqueles, enquanto sobre
estes no sabia mais do que o que geralmente se sabe. Ns nos recusamos a estabelecer em
princpio uma oposio entre as duas sries de fatores etiolgicos; supomos, isto sim, uma reg-
ular colaborao de ambas para produzir o efeito observado. �����������
���
[Dis-
posio e Acaso] determinam o destino de um ser humano; raramente, talvez nunca, apenas um
desses poderes. S individualmente ser possvel avaliar como se divide entre os dois a eficcia
etiolgica. A srie na qual se arranjam as magnitudes variveis dos dois fatores tambm ter
seus casos extremos. Segundo o estgio de nosso conhecimento, estimaremos de modo diverso
a parte da constituio ou da experincia em cada caso individual, mantendo o direito de
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modificar nosso juzo conforme a mudana em nossa compreenso. Alis, pode-se ousar ver a
constituio mesma como o precipitado das influncias acidentais sobre a infinita srie dos
antepassados.
* "Expectativas libidinais": libidinse ErwartungsvorstellungenÑ nas verses estrangeiras con-
sultadas durante a elaborao desta encontramos: representaciones libidinosas (trad. L. Lopez-
Ballesteros y de Torres. Obras completas ii. Madri: Biblioteca Nueva, 3a ed., 1973, p. 1648),
representaciones-expectativa libidinosas (trad. Jos L. Etcheverry. Obras completas xii. Buenos
Aires: Amorrortu, 4a reimpresso da 2a ed., 1993, p. 98), un certain espoir libidinal (trad. Anne
Berman. La technique psychanalytique. Paris: puf, 5a ed., 1975, p. 51), libidinal anticipatory ideas
(James Strachey. Standard edition, v. xii. Londres: Hogarth Press, 1958, p. 100), libidineuze
verwachtingsvoorstellingen (Wilfred Oranje. Nederlandse Editie, Klinische Beschouwingen 4. Am-
sterd: Boom, 1992, p. 74). Optamos por usar apenas "expectativa" para traduzir Erwartungs-
vorstellung, por entender que a palavra j compreende "ideia" ou "representao"; seria es-
tranho falar de "representaes ou ideias expectantes".
2Wandlungen und Symbole der Libido Transformaes e smbolos da libido], 1911, p. 164.
3Quero dizer, quando realmente cessam, e no, por exemplo, quando ele silencia em virtude
de um banal sentimento de desprazer.
4Aus guter Familie [De boa famlia], Berlim, 1895.
5 Embora vrias manifestaes de Jung levem a pensar que ele v nessa introverso algo carac-
terstico da dementia praecox, que no tem a mesma importncia em outras neuroses.
6 Seria cmodo dizer que ela reinvestiu os "complexos" infantis; mas no seria justo. Justi-
ficvel seria apenas "as partes inconscientes desses complexos". A natureza intrincada do as-
sunto deste trabalho torna tentador o exame de vrios problemas vizinhos, cujo esclarecimento
seria de fato necessrio, para que pudssemos falar inequivocamente dos processos psquicos
que aqui se descreve. Tais problemas so: a delimitao recproca da introverso e da re-
gresso, o ajustamento da teoria dos complexos teoria da libido, as relaes do fantasiar com
o consciente e o inconsciente, assim como com a realidade etc. No preciso desculpar-me por
haver resistido a essas tentaes neste momento.
7Do que no lcito concluir, porm, que em geral o elemento escolhido para a resistncia
transferencial tem uma importncia patognica particular. Se, numa batalha pela posse de uma
pequena igreja ou de uma propriedade, os soldados lutam com particular empenho, no precis-
amos supor que a igrejinha seja um santurio nacional, ou que a casa abrigue o tesouro do ex-
rcito. O valor dos objetos pode ser puramente ttico, existindo talvez durante uma batalha
somente.
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* " explicado": ist erledigt. O verbo erledigen se traduz, em princpio, por "resolver, dar conta
de, liquidar"; nas verses consultadas: queda explicado, se averigua, on explique, is dealt with, is
geliquideerd.
8 S. Ferenczi, "Introjektion und bertragung" [Introjeo e transferncia], Jahrbuch fr Psy-
choanalyse, v. 1, 1909.
* "Fato": SachverhaltÑ nas verses consultadas: situacin, estado de cosas, tat de choses, phe-
nomenon, stand van saken.
9 E. Bleuler, "Dementia praecox oder Gruppe der Schizophrenien", Aschaffenburgs Handbuch
der Psychiatrie, 1911; palestra sobre a ambivalncia em Berna, 1910, referida em Zentralblatt fr
Psychoanalyse, v. 1, p. 266. Para os mesmos fenmenos Stekel havia sugerido a designao de
"bipolaridade".
* "Dar corpo": agierenÑ nas verses estrangeiras consultadas: dar alimento, actuar, mettre en
actes, put into action, ageren.
** ErkennenÑ um verbo que admite vrios sentidos ou nuances de sentido, como se v pelas
diferentes escolhas dos cinco tradutores a que recorremos: estimar, discernir, apprcier, under-
stand, onderkennen ("reconhecer").
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