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PRINCÍPIOS DO DIREITO DOS CONTRATOS
Na visão do Estado Liberal, o contrato é instrumento de intercâmbio econômico entre os indivíduos, onde a vontade reina ampla e livremente. Três são, portanto, os princípios clássicos da teoria liberal do contrato: liberdade contratual (dentro dos limites da ordem pública, as partes podem convencionar o que quiserem e como quiserem); força obrigatória do contrato ( se traduz pela força de lei atribuída às suas cláusulas, pacta sunt servanda); relatividade dos efeitos contratuais (o contrato só vincula as partes, sem beneficiar ou prejudicar terceiros).
O Estado Social impôs-se, progressivamente, a partir dos fins do século XIX e início do século XX, provocando o enfraquecimento das concepções liberais sobre a autonomia da vontade nos contratos, e afastando o neutralismo jurídico diante do mundo da economia. Essa nova postura institucional não poderia deixar de refletir sobre a teoria do contrato, visto que é por meio dele que o mercado implementa suas operações de circulação de riquezas. Por isso, não se abandona os princípios clássicos que vinham informando a teoria dos contratos sobre o domínio das idéias liberais, mas se lhe acrescentam outros, que vieram diminuir a rigidez dos antigos e a enriquecer o direito contratual com apelos e fundamentos éticos e funcionais.
Vieram a somar com os princípios clássicos: a boa-fé objetiva; o equilíbrio econômico; e a função social do contrato.
NOVOS PRINCÍPIOS DO DIREITO DOS CONTRATOS
De maneira sintética, podem estes princípios ser assim delineados:
Princípio da boa-fé objetiva (art. 422, CC/02): não é apenas o acordo de vontades que obriga as partes, mas por força de lei, eles são obrigados a guardar, seja na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé. O que se cria são deveres acessórios (o dever de cooperar, de fazer todo o possível para que o contrato seja cumprido nos termos acordados) aos que foram expressamente pactuados. A boa-fé objetiva desliga-se completamente do elemento vontade, para focalizar sua atenção na comparação entre a atitude tomada e aquela que se poderia esperar de um homem médio, reticente.
Princípio do equilíbrio econômico: o sinalagma contratual leva a ordem jurídica a proteger o contratante contra a lesão e a onerosidade excessiva, tornando o negócio anulável no caso da lesão, e a resolução contratual no caso da onerosidade (arts. 478 e 479).
Princípio da função social do contrato (art. 421, CC/02): esse princípio não se volta para o relacionamento entre as partes contratantes, mas para os reflexos do negócio jurídico perante terceiros (meio social). Assim, nos tempos atuais, a autonomia privada deve orientar-se não só pelo interesse individual, mas também pela utilidade que possa ter na consecução dos interesses gerais da comunidade. 
A nova função social atribuída ao contrato contrapõe-se, principalmente, ao princípio da relatividade – o qual, numa visão hoje questionada, postula o isolamento da relação contratual, circunscrevendo seus efeitos apenas aos contratantes. Em contraposição à concepção individualista, o princípio da função social serve como fundamento para que se dê relevância externa ao crédito, na medida em que propicia uma apreensão do contrato como fato social, a respeito do qual os chamados terceiros não podem manter-se indiferentes. 
O contrato deixa de ser coisa apenas dos contratantes. Sua eficácia, no tocante às obrigações contratuais, é sempre relativa, mas sua oponibilidade é absoluta. 
PRINCÍPIO DA BOA-FÉ COMO DEVER ACESSÓRIO DOS CONTRATANTES
Os deveres e obrigações que os contratantes definem não são os únicos que o contrato provoca, já que, pela lei, devem ser eles complementados por outros que as regras de interpretação e a cláusula geral de boa-fé determinam. Dessa maneira, estabelecem-se, independentemente de convenção das partes, e por força do princípio da boa-fé, obrigações acessórias como as de informação, segurança, confiança, etc., tão exigíveis entre os sujeitos da relação quanto as prestações expressamente pactuadas.
Pelo princípio da boa-fé exige-se das partes do contrato uma conduta correta, baseada nos padrões éticos do meio social. A lei não define quais sejam esses padrões, mesmo porque eles são variáveis, no espaço e no tempo. A regra aqui corresponde ao tipo de norma que a doutrina denomina “cláusula geral” para indicar preceitos genéricos ou abertos, cujo conteúdo haverá de ser completado e definido em cada caso pelo juiz. 
Boa-fé: fonte de obrigações acessórias entre as partes do contrato.
A BOA-FÉ COMO PRINCÍPIO GERAL DO DIREITO DOS CONTRATOS
O CC/02, fiel ao projeto de seus arquitetos de assentá-lo sobre o princípio da eticidade, invoca a conduta ética dos contratantes, em três circunstâncias diferentes:
No art. 422, estabelece-se a obrigação acessória de agir segundo os princípios de probidade e boa-fé, independente da previsão dessa conduta nas cláusulas dos contratos.
No art. 113, estatui-se que os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração (função interpretativa da boa-fé objetiva).
No art. 187, reprimem-se, como ato ilícito, a conduta do titular de um direito, que, no exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes. Sendo ato ilícito o abuso de direito, quando este se configurar, o princípio da boa-fé incidirá, podendo levar à anulação do contrato, sem prejuízo da reparação do dano sofrido pela vítima. 
O que se pode afirmar é apenas que as partes, tanto nas tratativas como na consumação e execução, bem como na fase posterior de rescaldo do contrato já cumprido, sujeitam-se aos ditames da boa-fé objetiva como fator basilar da interpretação do negócio e da conduta negocial. 
INFLUÊNCIA DA ETICIDADE SOBRE O DESTINO DO CONTRATO
A boa-fé objetiva teve como inspiração a busca de interpretar a convenção de modo a compatibilizá-la com os anseios éticos do meio social, com a finalidade de afastar de vez a frieza das noções positivistas e egoísticas da autonomia da vontade no domínio do contrato. 
O campo propício para aplicar-se a boa-fé objetiva é o das declarações imprecisas ou lacunosas. Nestes casos, o juiz terá de interpretar a declaração de vontade das partes como a entenderiam as pessoas corretas e como estas procederiam em relação a ela. 
Como o juiz não tem o poder de substituir ou modificar o acordo de vontades formador dos contratos, o que lhe cabe, ao aplicar o princípio da boa-fé objetiva, é:
 interpretar o contrato para preencher suas lacunas ou superar suas imprecisões, reconhecendo obrigações e direitos que seriam usuais nos negócios da espécie.
negar efeito, no todo ou em parte, ao contrato, quando a boa-fé tiver sido evidentemente superada pela má-fé.
O fato é que não cabe ao juiz recriar o conteúdo do contrato, em moldes diferentes daqueles fixados pelo acordo bilateral de vontades que lhe deu origem.
FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO
A função social do contrato consiste em abordar a liberdade contratual em seus relfexos sobre a sociedade e não apenas no campo das relações entre as partes que o estipulam. Já o princípio da boa-fé fica restrito ao relacionamento travado entre os próprios sujeitos do negócio jurídico.
Sob o domínio do Estado Liberal, o contrato pode ser visto como fonte criadora de direito. O Estado social, porém, não se alheia aos problemas que o abuso da iniciativa contratual pode gerar no meio social em que os efeitos da convenção privada irão repercutir. 
A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO SEGUNDO A REGULAMENTAÇAO DO NOVO CÓDIGO CIVIL
A inovação operada pelo CC/02, no campo dos princípios contratuais concentrou-se, fundamentalmente, em dois dispositivos: os arts. 421 e 422. No art. 421, proclamou-se, em termos genéricos, o compromisso de todo o direito dos contratos com a ideologia constitucional de submeter a ordem econômica aos critérios sociais,
mediante harmonização da liberdade individual com os interesses da coletividade (princípio da socialidade). No art. 422, proclamou-se o princípio ético, a nortear a conduta interna do negócio jurídico.
Assim, ambos os princípios se instalam em terreno próprio e bem limitado, não sendo correto generalizar tudo como sendo função social do contrato, pois esta não deve abranger o comportamento interno dos contratantes entre si, ficando a cargo do princípio da eticidade. 
Quando o art. 421 do CC/02 fala em função social para o contrato está justamente cogitando dos seus efeitos externos, isto é, daqueles que podem repercutir na esfera de terceiros. 
BASES CONCEITUAIS DA FUNÇAO SOCIAL DO CONTRATO
Para Paulo Nalin, a função social manifestar-se-ia em dois níveis: no extrínseco e no intrínseco. Ou seja: seu perfil extrínseco (o contrato em face da coletividade) rompe com o princípio clássico da relatividade dos contratos. Passa a teoria contratual a preocupar-se, também, com as repercussões do negócio jurídico bilateral no largo campo das relações sociais. Já no aspecto intrínseco (o contrato visto como relação jurídica entre as partes negociantes), a função social estaria ligada à observância dos princípios da igualdade material, equidade e boa-fé objetiva, por parte dos contratantes.
Fazer, porém, incidir a função social do contrato no terreno da promoção da igualdade das partes leva o problema para um dilema insuperável. O único objetivo do contrato é o de promover a circulação da riqueza, de modo que pressupõe sempre partes diferentes com interesses diversos e opostos. Como lembra Gustavo Tepedino, em nome dos princípios éticos, é, por exemplo, absolutamente irreal e desnecessário exigir do locatário e do locador que tenham a mesma postura acerca da majoração ou redução do aluguel.
Nesse enfoque, o terreno próprio para cogitar-se da função social do contrato é o da modernização do antigo e inflexível princípio da relatividade dos contratos. 
Em suma, podemos concluir que para delimitar o campo de atuação dos dois novos princípios consagrados pelo CC/02, a boa-fé e a função social, impõe-se acentuar o seguinte:
Ofende-se o princípio da boa-fé quando o contrato, ou a maneira de interpretá-lo ou de executá-lo redundam em prejuízo injusto para uma das partes.
Ofende-se a função social quando os efeitos externos do contrato prejudicam injustamente os interesses da comunidade ou de estranhos ao vínculo negocial. 
EXEMPLOS DE FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO PREJUDICADA POR ABUSO DA LIBERDADE DE CONTRATAR
Induzir a massa de consumidores a contratar a prestação ou aquisição de certo serviço ou produto sob influência de propaganda enganosa;
Alugar imóvel em zona residencial para fins comerciais incompatíveis com o zoneamento da cidade
Alugar quartos de apartamento de prédio residencial, transformando-o em pensão;
Ajustar contrato simulado para prejudicar terceiros. 
Em contrapartida, não se pode falar em desvio da função social, quando um contratante, deslealmente, provoca prejuízos ao outro, empregando meios reprováveis ética e juridicamente, ou prevalecendo da inexperiência ou da necessidade em que o contratante se encontra. Nesse plano, que é o típico da boa-fé objetiva, quem pode reagir é apenas o contratante lesado, pois o fenômeno se passa no plano interno do relacionamento negocial.
A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO NAS RELAÇÕES DE CONSUMO
Há, em síntese, na atual legislação de consumo dois aspectos fundamentais:
A proteção do consumidor contra os atos contratuais de má-fé, para evitar a lesão, o desequilíbrio econômico e toda espécie de cláusulas abusivas. Nesse terreno, porém, a legislação tutelar não inovou, visto que os princípios da boa-fé e da lealdade contratual, a repressão à usura e demais formas de lesão, assim como a teoria da imprevisão já haviam sido incorporadas pelo direito privado muito antes do direito do consumidor;
A eliminação do mercador de praxes abusivas, pela atuação de órgãos públicos ou de instituições privadas a que se confiou, por meio de ações singulares e coletivas. Aqui, sim, a legislação consumerista inovou muito e profundamente, rumo à função social dos negócios de mercado.
De fato, a boa-fé objetiva que exige a correção de conduta dos contratantes é a mesma tanto no microsistema das relações de consumo como no macrossistema regulado genericamente pelo Código Civil. Uma coisa, porém, é muito diferente. O CDC parte do pressuposto de que o consumidor é sempre a parte fraca e vulnerável do contrato, de sorte que basta ser desvantajoso para ele para que o ajuste se considere abusivo e conduza à invalidade da avença. Nos contratos civis, a situação não se apresenta com nenhum vestígio apriorístico de desequilíbrio implícito entre os contratantes. Assim, a invalidação do negócio não ocorrerá simplesmente em face da desproporção entre as partes contrapostas. 
Em suma: é possível atacar o contrato civil por transgressão aos princípios da boa-fé objetiva e do equilíbrio econômico; mas não de forma direta e automática prevista no Código do Consumidor. O contratante prejudicado terá então de provar o vício do negócio, como a quebra in concreto da ética negocial praticada por uma parte contra a outra. 
A FUNÇÃO SOCIAL E FUNÇÃO ECONÔMICA DO CONTRATO
O contrato é antes de tudo um fenômeno econômico. Não é uma criação do direito. O contrato nada mais é do que o instrumento de jurisdicização dos comportamentos e das relações humanas no campo das atividades econômicas, isto é, das atividades de circulação de riqueza. 
A função social que se atribui ao contrato não pode ignorar sua função primária e natural, que é a econômica. Não pode esta ser anulada, a pretexto de cumprir-se, por exemplo, uma atividade assistencial ou caritativa. Um contrato oneroso e comutativo não pode, por exemplo, ser transformado por revisão judicial, em negócio gratuito e benéfico. Por mais que o indivíduo mereça assistência social, não será no contrato que se encontrará remédio para tal carência. 
Em suma: função social e função econômica são coisas distintas. Uma não substitui nem anula a outra. Devem coexistir harmonicamente. A função social, num estado democrático, como o nosso, não pode eliminar do contrato a sua essência de veículo de direitos e interesses individuais. Cabe-lhe apenas conciliar os interesses das partes com os da sociedade. 
Portanto, equivale também concluir: ainda que o contrato seja lesivo e usurário, o caso não é de reestruturação de seu objeto ou de seu preço, o que ordinariamente poderá acontecer será a invalidação do contrato, nunca sua autoritária modificação à revelia do consenso das partes, se nenhum dispositivo expresso de lei franquear ao juiz a revisão dos termos do ajuste.
A FUNÇÃO SOCIAL COMO “CLÁUSULA GERAL”
São normas que não prescrevem uma certa conduta, mas, simplesmente, definem valores e parâmetros hermenêuticos. Servem assim como ponto de referência interpretativo e oferecem ao intérprete os critérios axiológicos e os limites para a aplicação das demais disposições normativas. 
IMPORTANTE: não existe supremacia do interesse público sobre o interesse individual. O que justifica um direito público impor restrição a um direito individual é a realização pelo primeiro de algum direito fundamental, que, em última análise, tutela também direito ou direitos individuais. A supremacia, então, é do direito fundamental e não apenas da natureza da norma de interesse público. 
O que de fato, e em regra, está em jogo no terreno do direito dos contratos são os direitos e interesses individuais, singulares, e não os públicos ou coletivos. A função social procura evitar que o círculo jurídico de atuação dos efeitos do contrato fique restritamente adstrito às partes contratantes.
Quando o CC/02 adota a linha da socialidade – e nela se insere a função social do contrato – não está colocando a sociedade em patamar superior ao indivíduo. Está cumprindo a programação constitucional que prevê, no
relacionamento público ou privado, a implantação de um modus vivendi inspirado no valor da solidariedade social.
VANTAGENS E RISCOS DA CODIFICAÇÃO CONSAGRADORA DAS “CLÁUSULAS GERAIS”
Como ressalta a doutrina recentíssima, a moderna técnica de cláusulas gerais de que se valeu o Código de 2002, possui aptidão para recolher os casos que a experiência social contínua e inovadoramente propõe a uma adequada regulação, com vistas a ensejar a formação de modelos jurídicos inovadores, abertos e flexíveis. 
CONCLUSÃO
O sistema do novo Código Civil, para valorizar os princípios da eticidade e socialidade, adotou o critério normativo das chamadas cláusulas gerais, que põe nos ombros dos juízes uma pesada tarefa integrativa no que diz respeito à interpretação e concretização da voluntas legis.

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