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Provas e Concursos
Volume
21
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7ª EDIÇAO
DE ACORDO COM A LEI N' 12.291/10
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1. ed. 2005; 2. ed. 2006; 3.ed. 2007; 4. ed. 2008;
5. ed. 2009; 6. ed. 2010; 7. ed. 2011
@ 2005 by Editora Atlas S.A.
Composição: Set-up Time Artes Gráficas.. .
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Densa, Roberta
Direito do consumidor / Roberta Densa. -7. ed. - São Paulo: Atlas. 2011. - (Série leituras
jurídicas: provas e concursos; v. 21)
Edição especial da 7. ed. 2011.
Bibliografia.
ISBN978-85-224-6397-8
1. Consumidor - Leis e legislação - Brasil 2. Consumidores - Proteção -
Brasil I. Título. 11.Série.
Índices para catálogo sistemático:
Impresso no BrasiVPrinted in Brazil
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Dedico esta obra à minha filha,
Cecília Dantas, ao meu marido, Paulo
Dantas, aos meus pais, Rosalina e István
Densa, às minhas irmãs Patrícia e Daniela.
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34:381.6(81)
34:381.6(81)
1. Brasil: Consumidores: Direito
2. Direitos: Consumidores: Brasil
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Editora Atlas SoA
Rua Conselheiro Nébias, 1384 (Campos EUsios)
01203-904 São Paulo (SP)
Te!.: (0__ 11) 3357-9144 (PABX)
www.EditoraAtlas.com.br
Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme Decreto n' 1.825, de 20 de dezembro de 1907.
05-1229 CDU-34:381.6(81)
TODOS OS DIREITOSRESERVADOS- É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer
forma ou por qualquer meio. Aviolação dos direitos de autor (Lei n' 9.610/98) é crime
estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.
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I
Sumário
Nota, xiii
Regulamentação das relações de consumo, 1
1.1 O Estado liberal e o Estado social, 1
-1.2 AConstituição e o Código de Defesa do Consumidor, 2
1.3 Direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos, 3
IA Competência para legislar, 5
1.5 Norma de ordem pública, 6
1.6 Súmulas aplicáveis, 6
Questões, 7
2 Relação jurídica de consumo, 9
1
2_1
2.2
2.3
Conceito de consumidor, 10
2.1.1 Doutrina finalista, 10
2.1.2 Doutrina maximalista, 11
2_1.3 Doutrina finalista temperada, 12
2_1.4 Casuística, 12
2.1.5 Breves considerações acerca da aplicação do Código de Defesa do .
Consumidor e do Código Civil, 14
2.1.6 Atividade de consumo intermediária, 14
Consumidor por equiparação, 15
2.2.1 Coletividade de pessoas, 15
2.2.2 Vítima de acidente de consumo, 15
Conceito de fornecedor, 15
2.3.1 Sociedade sem fins lucrativos, 16
2.3.2 Poder Público, 17
2.3.3 Entes despersonalizados, 18
viii Direito do consumidor • Densa Sumário ix
11 Práticas comerciais, 103
12 Oferta, 105
12.1 Princípio da vínculação da oferta, 105
12.2 Princípio da veracidade da oferta, 106
12.3 Reposição de peças, 108
12.4 Responsabilidade solidária, 108
Questões, 108
9 Decadência e prescrição, 87
9.1 Generalidades, 87
9.2 Conceito, 87
9.3 Decadência e prescrição no Código de Defesa do Consumidor, 88
9.3.1 Prazo decadencial- vício do produto ou serviço, 88
9.3.2 Prazo prescricional- fato do produto ou do serviço, 90
9.4 Súmulas aplicáveis, 91
Questões, 91
7.1.1 Responsáveis pela reparação, 60
7.1.2 Produto defeituoso, 61
7.1.3 Causas excludentes de responsabilidade, 64
7.1.4 Caso fortuito e força maior, 66
7.2 Responsabilidade pelo fato do serviço, 67
7.2.1 Responsáveis pela reparação, 68
7.2.2 Serviço defeituoso, 68
7.2.3 Causas excludentes de responsabilidade, 69
7.2.4 Responsabilidade civil do profissional liberal, 69
7.3 Consumidor por equiparação, 71
Questões, 72
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Responsabilidade civil pelo vício do produto ou do serviço, 77
8.1 Vicio do produto, 77
8.1.1 Vicio de qualidade do produto, 78
8.1.2 Vício de quantidade do produto, 82
Vícios do serviço, 83
Pessoa jurídica de direito público, 84
Ignorância do fornecedor sobre os vícios dos produtos e setviços. 85
10 Desconsideração da personalidade jurídica, 95
10.1 Generalidades, 95
10.2 Desconsideração da personalidade jurídica no Código de Defesa do Consumidor, 96
10.3 Requísitos para a desconsideração da personalidade jurídica, 97
10.3.1 Lesão ao patrimônio do consumidor, 97
10.3.2 Patrimônio da pessoa jurídica insuficiente, 98
10.3.3 Prática de atos fraudulentos ou encerramento das atividades 'da
empresa; '98
10.4 Obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados ao'consumidor, 98
10.5 Responsabilidade de grupos socíetários e sociedades controladas, 99
10.6 Responsabilidade das sociedades consorciadas, 99
10.7 Responsabilidade das sociedades coligadas, 99
Questões, 100
8
8.2
8.3
8.4
Questões, 85
1'.....'o' .
6 Responsabilidade civil, 53
6.1 Noção geral, 53
6.2 Responsabilidade civil no Código de Defesa'do Consumidor, 54
6.3 Defeito ou vício?, 55 .
6.4 Reparaçãode danos materiais e morais, 57
6.5 Responsabilidade solidária, 57 •..
6.6 Súmulas aplicáveis, 58
7 Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço, 59
7.1 Responsabilidade pelo fato do produto, 59
5 Periculosidade dos produtos e serviços, 49
Questões, 51
4 Direitos básicos do consumidor, 35
4.1 Proteção da vida, saúde e segurança, 35
4.2 Educação e informação, 36
4.3 Proteção contra publicidade enganosa.ou abusiva e práticas.,comerciais
condenáveis, 36 ..
4.4 Modificáçao e revisão das cláusulas concraniais, 37
4.5 Prevenção e reparação de danos individuais e coletivos, 38
4.6 Facilitação da defesa de seus direitos, 39
4.7 Adequada e eficaz prestação de serviços públicos, 42
4.8 O serviço de atendimento telefônico aos consumidores (SAC), 43
4.8.1 Cancelamento do serviço, 44
4.8.2 Sanções administrativas, 45
Questões, 45
Questões, 31
3 Política nacional e relações de consumo, 25
3.1 Objetivos e princípios norteadores, 25
3.1.1 Reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor, 26
3.1.2 Ação governamental para proteção do consumidor, 27
3.1.3 Harmonização dos interesses dos participantes das relações de
consumo, 27
3.1.4 Educação e informação dos consumidores, 28
3.1.5 Controle de qualidade e segurança dos produtos e serviços, 29
3.1.6 Coibição e repressão das práticas abusivas, 29
3.1.7 Racionalização e melhoria dos serviços públicos, 29
3.1.8 Estudo das constantes modificações do mercado de consumo, 29
3.2 Da execução da politica nacional de consumo, 30
3.2.1 Assistência jurídica integral e gratuita, 30
3.2.2 Promotorias e associações de defesa do consumidor, 30
3.2.3 Delegacias especializadas, 30
3.2.4 Juizados Especíais e Varas Especializadas de Consumo, 30
2.4 Conceito de produto, 18
2.5 Conceito de serviço, 18
2.5.1 Remunetação, 20
2.6 Súmulas aplicáveis, 20
Questões, 20
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X Direito do consumidor .. Densa
13 Publicidade, 111
13.1 Princípiosaplicáveis à publicidade no Códigode Defesa do Consumidor, III
13.1.1 Principio da identificaçãoda publicidade, 112
13.1.2 Princípio da inversão do ônus da prova, 112
13.1.3 Princípio da veracidade, 113
13.2 Contrapropaganda, 114
13.3 Regulamentação publicitária, 115
13.4 Publicidadede bens e serviçospor telefone, 115'
Questões, 115
14 Práticas abusivas, 119
14.1 Vendacasada, 119
14.2 Vendaquantitativa, 120
14.3 Recusaem atender à demanda, 120
14.4 Fornecimento não solicitado, 121
14.5 Aproveitamento da hipossuficiênciae vulnerabilidadedo consumidor, 121
14.6 Exigirdo consumidor vantagem excessiva, 121
14.7 Serviçossem orçamento, 122
14.8 Intercâmbio de dados e informaçõesdepreciativas, 122
14.9 Inobservânciade normas têcnicas, 122
14.10 Recusade vendas de bens com pagamento a vista, 123
14.11 Elevaçãodo preço de produtos e serviços, 123
14.12 Inexistência de prazo para cumprimento de obrigação, 123
14.13 Índice de reajuste, 124
Questões, 124 ..
15 Cobrança de dívidas, 127
15.1 Forma de'cobrança de dívida, 127
15.1.1 Informações sobre o fornecedor, 128
15.2 Repetição do indébito, 128
15.3 Bancode dados e cadastro de consumidores, 128
15.4 Aviso-prévío,129
15.5 Inscrição indevída, 132
15.6 Prazo para correção das informações, 133
15.7 Dívidasub judiee, 134
15.8 Reparaçãodedano, 134
15.9 Prazo de manutenção das informações negativas, 134
15.10 ~úmula~~p'li£á,!e~s,]35
Questões, 136
16 Proteção contratual, 139
16.1 Generalidades, 139
16.2 Princípios contratuais, 140
16.2.1 Função social do contrato, 14I
16.2.2 Boa-féobjetiva, 141
16.3 Princípios contratuais no Código de Defesado Consumidor, 142
16.3.1 Princípio da transparência, 142
16.3.2 Princípio da interpretação mais favorávelao consumidor, 143
16.3.3 Princípio da vinculação à oferta, 143
16.4 Direito de arrependimento, 143
Questões, 144
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Sumário xi
17 Cláusulas contratuais abusivas, 147
17.1 Generalidades, 147
17.1.1 Cláusula de não indenizar, 148
17.1.2 Renúncia ou disposição de direitos, 149
17.1.3 Limitaçãoda indenização, 149
17.1.4 Reembolso de quantia paga, 150
17.1.5 Transferência de responsabilidade a terceiros, 150
17.1.6 Desvantagem exagerada para o consumidor e cláusula incompatível com
a boa-fé e a equidade, 151
17.1.7 Inversão do ônus da prova, 152
17.1.8 Arbitragem compulsória, 153
17.1.9 Imposiçãode representante, 153
17.1.10 Cláusulas criadoras de vantagens especiais para o fornecedor, 154
17.1.11 Violaçãode normas ambientais, 156
17.2 Controle das cláusulas contratuais, 156
Questões, 156
18 Financiamento de bens, 161
18.1 Moeda corrente nacional, 161
18.2 Juros de mora. 162
18.3 Acréscimos legalmente previstos, 162
18.4 Número e periodicidade das prestações, 162
18.5 Soma total a pagar com e sem financiamento, 162
18.6 Multa de mora, 163 .
18.7 Liquidaçãoantecipada do débito, 163
18.8 Compra e venda de móveis e imóveis, 163
18.9 Consórcio, 164
18.10 Contratos bancários, 165
18.10.1 Juros remuneratórios, 165
18.10.2 Juros moratórios, 166
18.10.3 Mora, 166
18.10.4 Inscrição e manutenção em cadastro de inadimplentes, 166
18.10.5 Aplicaçãodas cláusulas abusivas de oficio, 166
18.11 Súmulas emitidas após o recurso repetitivo (Recurso Especial1.061.530/RSh 167
18.12 Súmulas aplicáveis, 168
Questões, 169
19 Contratos de adesão, 173
19.1 Generalidades, 173
19.2 Definição, 174
19.3 Inserção de cláusula, 174
19.4 Cláusula resolutória, 174
19.5 Redaçãodo contrato de adesão, 175
19.6 Cláusula de limitação de direitos, 176
Questões, 176
20 Sanções administrativas, 179
20.1 Poder de regulamentação, 179
20.2 Poder de fiscalização, 179
20.3 Comissões permanentes, 180
20.4 Notificaçõespara prestação de informações, 180
i
j
xii Direito do consumidor • Densa
20.5 Tipos de sanções administrativas, 180
20.5.1 Do procedimento administrativo, 181
20.6 Da pena de multa, 181
20.7 Sanções impostas por vícios dos produtos é serviços, 18i
20.8 Reincidência de infrações, 182
20.9 Imposição de contrapropaganda, 183
Questões, 183
21 Infrações'penais, 185
Nota
Boas Leituras!
Editora Atlas
A'série Leituras jurídicas foi elaborada com o objetivo de proporcionar ao estudantee ao profissional de direito um estudo completo, atualizado e didático sobre as
diversas áreas jurídicas. Os autores selecionados, com vasta experiência acadêmica e pro-
fissional, oferecem ao leitor visão moderna do tema desenvolvido, conforme sua atuação
profissional e acadêmica. São especialistas, mestres e doutores com atuação na Magis-
tratura, Ministêrio Público, Advocacia, e Frocuradoria, familiarizados com as dúvidas e
anseios dos profissionais da área jurídica, estudantes, candidatos a concursos públicos
e ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil.
Para o desenvolvimento de cada tema, o autor, utilizando-se de linguagem acessível,
sem prejuízo de conteúdo, esteve atento às grades curriculares dos cursos de gradua-
ção, aos programas e questões de concursos públicos e exame de Ordem, observando as
orientações jurisprudenciais dos Tribunais Superiores.
Ao mesmo tempo em que é fonte de consulta para o esclarecimento de dúvidas e
revisão da matéria, a obra poderá, também, orientar e direcionar o leitor que está ini-
ciando seus estudos jurídicos.~"..
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Generalidades, 185
Legislação aplicável, 186
Condutas típicas estabelecidas pelo Código de Defesa do Consumidor, 186
21.3.1 Omitir dizeres ou sinais ostensivos so~rea nocividade ou periculosidade
de produtos e serviços, 187
21.3.2 Omissão de comunicação e retirada do mercado, 188
21.3.3 Execução de serviços altamente perigosos, 190
21.3.4 Fraude em oferta, 191
21.3.5 Publicidade enganosa ou abusiva, 193
21.3.6 Publicidade prejudicial ou perigosa, 194
21.3.7 Omissão na organização de dados, 195
21.3.8 Emprego não autorizado de componentes usados, 196
21.3.9 Cobrança vexatória de dívida, 197
21.3.10 Impedimento de 'acesso às informações cadastrais, 198
21.3.11 Omissão na correção de dado's incorretos, 199 '
21.3.12 Omissão de entrega de termo de garantia, 200
Crimes contra a ordem econômica, 201
Concurso de pessoas, 202
Circunstâncias ~g~a~!i!1tes,202
Aplicação da pena pecuniária, 203
Cumulação das penas, 203
Fiança, 203
Ação penal subsidiária, 204
21.4
21.5
21.6
21.7
21.8
21.9
21.10
21.1
21.2
21.3
Bibliografia, 219
Índice remissivo, 223
Gabarito, 229
22 Defesa do consumidor em juízo, 205 '
22.1 Ações coletivas, 205
22.1.1 Direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos, 206
22.1.2 Legitimidade, 208
22.2 Ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos, 20~
22.2.1 Competência, 209
22.2.2 Litisconsórcio, 210
22.2.3 Sentença favorável, 211
22.2.4 Execução, 211
22.3 Coisa julgada, 212
22.3.1 Suspensão da ação individual, 214 '.<'
22.4 Obrigação de fazer ou de não fazer; 214 '
Questões, 215
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1
Regulamentação das
relações de consumo
1.1 o Estado liberal e o Estado social
o Estado Liberal surgiu no século XVIII em contraposição ao Estado Absolutista.
O modelo constitucional liberal dava prioridade à liberdade do indivíduo e ao direito de
propriedade, princípios fundamentais para que a burguesia pudesse efetivar o desenvol-
vimento do sistema capitalista. A ordem econômica, para o modelo liberal, é deco,ren-
te das leis naturais, cabendo ao homem contribuir com a sua racionalidade, interesse e
motivação no mercado de trocas de bens e serviços sem qualquer intervenção do Estado.
As Constituições preocupavam-se, basicamente, com os direitos fundamentais indi-
viduais e com a organização política do Estado, sendo receptáculos, portanto, da ordem
política. '''0 fuRdamento do liberalismo é o absoluto respeito às liberdades individuais
na atuação do Estado. O liberalismo encarece a necessidade de garantir a liberdade in-
dividual já que a considera como indispensável para que os homens alcancem à sua sa-
tisfação. A principal manifestação econômica da doutrina liberal é o postulado da livre
iniciativa, que consag,a () direito, atribuído a qualquer restrição, condicionamento ou
imposição descabida do Estado" (TAVARES,2003, p. 51).
Pode-se afirmar que os direitos individuais contidos nas constituições liberais não
er:amapenas instrumentos de defesa do indivíduo, mas expressão de uma ü'dem econô-
mica e social liberal. Traduziam-se em garantia constitucional da economia capitalista.
No entanto, como bem assinala André Ramos Tavares (2003, p. 54).- "a concepção
de Estado liberal gerou,
em momentos críticos da humanidade, uma situação insuportá-
vel, de modo que, mesmo em países de imensa tradição liberal e capitalista, passou-se a
admitir a necessidade de intervenção do Pode, Público no mercado e na economia, ainda
que extremamente restrita ou em setores específicos predeterminados".
2 Direito do consumidor. Densa
Desta forma, a partir do século XIX passamos a observar um movimento de maior
intervenção do Estado na economia, razão pela qual os direitos econômicos e sociais
passam a ter abrigo constitucional. É certo que, com o liberalismo exacerbado, o indiví-
duo não poderia usufruir o direito de ir e vir, livre e permanente, se estivesse à margem
da sociedade. Passou-se a ser adotado o sistema denominado modelo social democrata.
Raul Machado Horta (2002, p. 217) esclarece que "a secular sedimentação da con-
cepção ocidental 'dos direitos individuais que se formulou no pensamento filosófico e
político, para projetar-se nas normas constitucionais dos séculos XVIll e XIX, a partir
das matrizes norte-americanas e francesa, passou a sofrer reparos de novas correntes
em ascensão com reflexos na doutrina constitucional. Não se negava a importància dos
direitos individuais, nem se contestava a necessidade de sua incorporação ao texto emi-
nente da Constituição do Estado. A crítica concentrava-se no seu individualismo político
e reclamava a complementação desses direitos, para que, atualizados em função de novas
realidades, pudessem eles oferecer ao homem a proteção concreta que a norma abstrata
e semântica da Constituição nem sempre proporcionava".
Sendo assim, os direitos de segunda geração passam a ter abrigo constitucional, as-
sumindo o Estado um caráter assistencial. Referidos direitos têm por objetivo aniquilar
as barreiras sociais, protegendo o mais fraco, e exigindo uma presença dinâmica do Es-
tado, a fim de garantir os direitos de primeira geração.
1.2 A Constituição e o Código de Defesa do Consumidor
Acompanhando o movimento mundial, a Constituição brasileira, em 1934, inseriu
um capítulo dedicado à ordem econômica e social, com garantia dos princípios de justi-
ça e existência digna. Também previa a intervenção do Estado na economia, a liberdade
sindical e os princípios fundamentais do direito do trabalho.
No mesmo sentido, a Constituição brasileira de 1937 trazia disposição declarando
que a economia seria organizada em corporações "eimpunha a organização de todos os
ramos de produção em sindicatos verticais.
A Constituição em vigor, promulgada em 1988, inseriu um conjunto de diretrizes,
programas e fins que devem ser perseguidos pelo Estado e pela sociedade, conferindo
caráter de plano global normativo.
Vale notar que a Constituição, embora tenha reservado capítulo relativo à ordem
econômica e financeira, incluiu, em outros artigos, preceitos de cunho econômico, tais
como nos arts. Iº, 3º, 7º a li, 201, 202, 218 e 219, além de outros que a ela aderem de
modo específico, entre os quais, v. g., os do art. 5º, LXXI,do art. 24, I, do art. 7º, XIX e
XX, do ~ 2º do art. 103, do art. 149, do art. 225.
O art. 170 da Constituição Federal em vigor assim dispõe: "Aordem econômica, fun-
dada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos
existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
I - soberania nacional;
II - propriedade privada;
~
Regulamentação das relações de consumo 3
III - função social da propriedade;
IV - livre-concorrência;
V - defesa do consumidor;
VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado con-
forme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de
elaboração e prestação;
VII - redução das desigualdades regionais e sociais;
VIII - busca do pleno emprego;
IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob
as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País" (grifo
nosso).
Vê-se que a defesa do consumidor é princípio que deve ser seguido pelo Estado e pela
sociedade para atingir a finalidade de existência digna e justiça social. É possível extrair,
ainda, da leitura deste artigo constitucional que o Brasil adota o modelo de economia
capitalista de produção, já que a livre iniciativa é um princípio basilar da economia de
mercado. No entanto, o legislador constituinte deixou claro que o Estado deverá fazer a
defesa do consumidor contra os possíveis abusos do fornecedor no mercado de consumo.
Ademais, o art. 5º, LXXIll, da Constituição Federal determinou ao Estado a promo-
ção da defesa do consumidor, no sentido de adotar um modelo jurídico e uma política de
consumo que efetivamente protegessem o consumidor, o que se deu com a promulgação
do Código de Defesa do Consumidor, em 11 de setembro de 1990.
Por força dos dois dispositivos citados e, ainda, do princípio da dignidade da pes-
soa humana, expresso no art. 1º, III, da Carta Magna, podemos afirmar que a defesa do
consumidor busca a proteção da pessoa humana, que deve sempre sobrepor-se aos inte-
resses produtivos e patrimoniais, conforme veremos dos princípios estabelecidos pelo
Código de Defesa do Consumidor.
1.3 Direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos
Os denominados direitos de terceira gertlfão ou transindividuais surgiram com o de-
senvolvimento da indústria e a massificação dos contratos. Por direitos transindividuais
devemos entender o direito que também é individual, mas não se limita somente ao in-
divíduo, afetando uma coletividade determinada ou indeterminada de pessoas.
Podemos citar, nesta categoria de direitos coletivos lato sensu, o direito da infância e
juventude, os direitos dos idosos, o direito ambiental, o direito das pessoas portadoras
de necessidades especiais e, sem dúvidas, o direito do consumidor.
Os direitos transindividuais atingem os grupos de pessoas que têm algo em comum.
O que as une é o fato de estarem na mesma situação de fato ou a circunstância de par-
tilharem a mesma relação jurídica.
Estes são classificados em três categorias, a saber:
i
J
4 Direito do consumidor • Densa
• direitos difusos: são os transindividuais, de natureza indivisível, de que se-
jam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstância de fato (art.
81,1, doCDC);
direitos coletivos: são os transindividuais, de natureza indivisível, de que seja
titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte
contrária por uma relação jurídica base (art. 81, lI, do CDC);,
• direitos individuais homogêneos: assim entendidos os decorrentes de ori-
gem comum (art. 81, Ill, do CDC).
Em razão da dicção legal, podemos verificar que os direitos difusos e coletivos
são indivisíveis. Já os direitos individuais homogêneos são divisíveis. Por direito indivisí-
vel devemos entender o direito que é impossível de fracionar e que existe para mais de
um consumidor individualmente considerado, não podendo ser dividido o pedido para
cada consumidor na ação coletiva, já que a todos afeta. Já os direitos divisíveis_são aque-
les suscetíveis de divisão para o consumidor individualmente.
Quanto aos direitos difusos e coletivos, o que os diferencia é exatamente o detentor
da titularidade dos direitos. Nos direitos difusos, a titularidade é indeterminada e, nos
direitos coletivos, a titularidade é determinada ou, ao menos, determinável. Podemos
citar, como exemplo de direito difuso, a veiculação de uma publicidade considerada abu-
siva ou enganosa, que afeta milhões de consumidores sem que possamos identificá-los
no caso concreto.
Disso decorre que os direitos difusos são insuscetíveis de apropriação, posto que
pertencem a toda a coletividade, como, por exemplo, no direito ambiental em que a sadia
qualidade de vida pertence a todos. Já os direitos coletivos são suscetíveis de apropriação,
podendo ser determinados os sujeitos de direito, que, na forma do art.
81 do Código de
Defesa do Consumidor, pode ser categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com
parte contrária por uma relação jurídica base. Por "relação jurídica base" podemos en-
tender a relação jurídica que é comum a uma determinada coletividade de consumidores,
que pode nascer da lei ou do contrato.
O Código de Defesa do Consumidor inseriu mais uma categoria de direitos coleti-
vos denominados direitos individuais homogêneos, que segundo a definição legal são
"os direitos decorrentes de origem comum".
Para a caracterização dos "interesses ou direitos individuais homogêneos", os ti-
tulares deverão ser determinados ou determináveis, o que já os diferencia dos direitos
difusos, além de compartilharem de prejuízos de origem comum.
Demais disso, a reparação do dano será sempre divisível e poderá variar entre os
integrantes dos grupos. Vale notar também que os direitos individuais homogêneos de-
vem possuir conteúdo social relevante para distinguir dos direitos puramente individuais e
justificar seu caráter coletivo.
Hugo Nigro Mazzilli (2002) ilustra de maneira didática a diferença entre os direitos
coletivos e os direitos individuais homogêneos: "como exemplo de interesses individuais
homogêneos, suponhamos os compradores de veículos produzidos com o mesmo defeito
de série. Sem dúvida, há uma relação jurídica comum subjacente entre consumidores,
mas o que os liga no prejuízo sofrido não é a relação jurídica em si (diversamente, pois,
~
Regulamentação das relações de consumo 5
do que ocorreria quando se tratasse de interesses coletivos, como uma ação civil pública
que visasse a combater uma cláusula abusiva em contrato de adesão), mas sim é antes o
fato de que compraram carros do mesmo lote produzido com defeito em série (interesses
individuais homogêneos). Neste caso, cada integrante do grupo terá direito divisível à
reparação devida. Assim, o consumidor que adquiriu dois carros terá reparação dobrada
em relação ao que adquiriu um só. Ao contrário, se ação civil pública versasse interes-
ses coletivos, em sentido estrito (p. ex., a nulidade de cláusula contratual), deveria ser
decidida de maneira indivisível para todo o grupo)".
Assim, os "direitos individuais homogêneos" têm origem em um fato comum (p. ex.:
veículos produzidos com o mesmo defeito de série) enquanto os "interesses coletivos"
têm origem em relllfão jurídica base (p. ex.: cláusula abusiva em contrato de adesão).
Por fim, cabe esclarecer que, se o direito se classificar como difuso, ou se se classi-
ficar como coletivo, ele será, então, essencialmente coletivo. Se individual homogêneo, ele será
acidentalmente coletivo. Assim, a defesa dos direitos difusos e coletivos somente se faz cole-
tivamente, e a dos individuais homogêneos pode ser feita de forma coletiva ou na modali-
dade tradicional, ou seja, na qual o próprio interessado tutela a parcela de seu interesse,
ainda que na hipótese outros tantos titulares detenham situações idênticas (VIGLIAR,
2001, p. 68).
Direitos ou Quanto à Quanto à Quanto à Quanto à
interesses apropriação titularidade divisibilidade essência
Difusos insuscetíveis sujeito indivisível essencialmentede apropriação indeterminado coletivo
Coletivos suscetíveis de sujeito indivisível essencialmenteapropriação determinado coletivo
Individuais suscetíveis de sujeito
divisível
acidentalmente
homogêneos apropriação determinado coletivo
Este assunto será estudado de forma mais aprofundada no Capítulo 20, que trata
dos aspectos processuais da defesa do consumidor em juízo.
IA Competência para legislar
A Constituição Federal, em seu art. 24, determina a competência concorrente da
União, dos Estados e do Distrito Federal, para legislar sobre produção e consumo (inciso
V) e sobre a responsabilidade civil por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e
direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico (inciso VIll).
Assim, cabe à União estabelecer normas gerais sobre a relação de consumo e a res-
ponsabilidade civil por danos ao consumidor, podendo o Estado legislar sobre assuntos
\
~
6 Direitodo consumidor. Densa
específicos, de maneira complementar. Caso não haja lei editada pela União, de caráter
geral, poderão os Estados exercer a competência legislativa plena, para que possam aten-
der às necessidades próprias (DANTAS, 2007, p. 143).
É preciso esclarecer também que o Executivo, na forma do art. 84 da Constituição
Federal, pode expedir decretos e regulamentos para o fiel cumprimento do Código de
Defesa do Consumidor.
Podemos cita; como exemplo deste poder normativo o Decreto nº 2.181/97, que
dispõe sobre o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, bem como as portarias ex-
pedidas pelo Ministério da] ustiça que complementam o rol de cláusulas abusivas do
artigo 51 do CDC (Portarias nº' 3/01; 5/02; 24/04).
Outro exemplo deste poder normativo está no Decreto nº 6.523/2008, que regu-
lamentou o "Cal! Center". Cuidaremos do tema no Capítulo 4, que trata dos direitos
básicos do consumidor.
1.5 Norma de ordem pública
As regras estabelecidas pelo Código de Defesa do Consumidor são normas de ordem
pública e de interesse social. Desta forma, é correto afirmar que referidas normas são de
direito privado, mas com forte interesse público, razão pela qual não pode o fornecedor
ou o consumidor afastar tais regras pela autonomia da vontade. As normas de ordem
pública são aquelas que interessam mais diretamente à sociedade que aos particulares
(MARQUES, 2006, p. 61).
Nas relações de consumo, a autonomia da vontade das partes é mitigada, devendo
as partes integrantes da relação de consumo obedecer às regras e aos princípios estabe-
lecidos pela lei. Ademais, por serem normas de caráter cogente, na forma do art. 1º do
CDC, tais regras podem, em tese, ser aplicadas de oficio pelo magistrado e legitimam o
Ministério Público e as Associações de Defesa do Consumidor a requerer em juízo o fiel
cumprimento dos direitos dos consumidores.
No entanto, a Súmula 381 do ST], ao tratar da aplicação "de oficio" das normas do
CDC traz orientação divergente da doutrina majoritária e determina que "nos contra-
tos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de oficio, da abusividade das cláusulas".
Assim, nas ações que envolvem cláusulas abusivas em contratos bancários não podem
os juízes e tribunais declarar a nulidade sem que haja pedido expresso do consumidor.
Importante notar que tal entendimento já havia sido éxternado, em outubro de 2008,
no REsp 1061530, pelo mesmo tribunal, culminando na publicação da referida súmula
em maio de 2009 (a respeito do tema, vide Capítulo 18).
1.6 Súmulas aplicáveis
Súmula 381 do ST]: Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de
oficio, da abusividade das cláusulas.
Súmula 19 do STJ: A fixação do horário bancário, para atendimento ao público, é
da competência da União.
.....:
Regulamentação das relações de consumo 7
Questões
1. Nos termos da Constituição, a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano
e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da
justiça social, observados os seguintes princípios (Procurador da Fazenda Nacional- 2003):
a) Obediência aos tratados internacionais de que o Brasil seja signatário, propriedade pri-
vada, função social da propriedade, livre-concorrência, defesa do consumidor, defesa do
meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto am-
biental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação, redução
das desigualdades regionais e sociais, busca do pleno emprego, tratamento favorecido
para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham
sua sede e administração no país.
b) Soberania nacional, propriedade privada, função social da propriedade, livre-eoncorrência,
defesa do consumidor, defesa do meio ambiente, inclusive
mediante tratamento dife-
renciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de
elaboração e prestação, redução das desigualdades regionais e sociais, busca do pleno
emprego, tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob
as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no país.
c) Defesa intransigente do patrimônio nacional, propriedade privada, função social da pro-
priedade, livre-concorrência, defesa do consumidor, defesa do meio ambiente, inclusive
mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e servi-
ços e de seus processos de elaboração e prestação, redução das desigualdades regionais
e sociais, busca do pleno emprego, tratamento favorecido para as empresas de pequeno
porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no país.
d) Soberania nacional, propriedade privada, função social da propriedade, livre-concorrên.
cia, direitos humanos, defesa do consumidor, defesa do meio ambiente, inclusive me-
diante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos. e serviços
e de seus processos de elaboração e prestação, redução das desigualdades regionais e
sociais, busca do pleno emprego, tratamento favorecido para as empresas de pequeno
porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no país.
e) Soberanía nacional, propriedade privada, função social da propriedade, livre-eoncorrência,
defesa do consumidor, defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento dife-
renciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de
elaboração e prestação, redução das desigualdades regionais e sociais, busca do pleno
emprego, tratamento favorecido para as empresas de pequeno e médio pane constituí-
das sob as leis brasileiras e que tenham sua administração no país.
2. São fundamentos da ordem econômica (OAB/MG - 2006):
a) Valorização do trabalho humano e livre-iniciativa.
b) Soberania econômica e livre-iniciativa.
c) Dignidade da pessoa humana e justiça social.
d) Nenhuma das alternativas é verdadeira porque a referida lei é rígida e não permite res-
trição à concorrência, de matriz constitucional.
3. Analise as hipóteses a seguir (Analista de Promotoria - MP/SP 2010):
1- Aboa qualidade do fornecimento de serviços essenciais como o ensino de determinada
escola.
11 - Naufrágio de um barco de turismo, vitimando fatalmente vários passageiros.
8 Direito do consumidor • Densa
11I- Publicidade enganosa que induz em erro os consumidores.
É correto afirmarque traz (em) exemplo(s)de direitos difusos
(A) I, apenas.
(B) 11e m, apenas.
(C) 11,apenas.
(D) m, apenas.•
(E) I, 11e m.
4. Relativamente aos interesses transindividuais, de acordo com o disposto no Código de Defesa
do Consumidor,é corretoafirmarque (MinistérioPúblico/SP- 86º):
a) os titulares dos interesses difusos estão ligados por uma origem em comum;
b) os titulares dos interesses individuais homogêneos estão ligados por uma circunstância
de fato;
c) os titulares dos interesses coletivos estão ligados por uma origem em comum ou por
uma circunstância de fato;
d) os titulares de interessesdifusosestão ligadospor uma relaçãojuridicabase;
e) os titulares de interesses colêtivos estão ligados por uma relação jurídica base.
5. O Códigode Defesado Consumidor (LeinO8.078/90) classificouos interesses ou direitos
em interesses ou direitos difusos, interesses ou direitos coletivos e interesses ou direitos in-
dividuaishomogêneos.Combase nesta classificação,pode-seafirmar (MinistérioPúblico/
RN -2002):
I- Os interesses ou direitos difusos e os interesses ou direitos coletivos têm em comum
a circunstância de serem indivisíveis e transindividuais.
II- Nos interesses ou direitos coletivos, a titularidade pertence a grupo, categoria ou classe
de pessoas determinadas ou determináveis, vinculadas entre si por circunstâncias de
fato.
m- Nos interesses ou direitos difusos, os titulares são pessoas indeterminadas e ligadas
entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base.
IV - Os interesses ou direitos coletivos e os interesses ou direitos individuais homogê-
neos têm em comum a circunstância de que os titulares integram grupo, categoria
ou classe de pessoas determinadas ou determináveis.
V - Somente os interesses ou direitos individuais homogêneos são divisíveis.
a) I, 11e IVestão corretas.
b) 11,m e Vestão corretas.
c) m, IVe Vestão corretas.
d) I, IVe Vestão corretas.
e) I, 11em estão corretas.
~
••
Relação jurídica de consumo
Nosso ordenamento jurídico é composto por leis que regem diversas e específicas
matérias, tais como, por exemplo, a Lei de Locações (Lei nº 8.245/91), a Lei do Seguro
(Decreto-lei nº 73/66), a Lei dos Condomínios e Incorporações (Lei nº 4.591/64), en-
tre outras, o que, sem dúvida, gera alguma dificuldade para a aplicação da norma mais
específica ao caso concreto.
A Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, denominada Código de Defesa do Con-
sumidor, somente será aplicada se houver relação jurídica de consumo, O que não impede
a aplicação das demais leis especiais no mesmo caso concreto, sempre respeitando os
princípios de aplicação da norma.
A relação jurídica de consumo possui três elementos, a saber: o subjetivo, o objetivo e o
finalístico. Por elemento subjetivo devemos entender as partes envolvidas na relação jurí-
dica, ou seja, o consumiCIoÍ"..,o-fornecedor. Já por elemento objetivo devemos entender o
objeto sobre o qual recai a relação jurídica, sendo certo que, para a relação de consumo,
este. elemento é denominado produto ou serviço. O elemento finalístico traduz a ideia de
que o consumidor deve adquirir ou utilizar o produto ou serviço como destinatário final.
Estudaremos em apartado cada um destes elementos da relação jurídica de consumo,
mas desde já alertamos para o fato de que o aplicador da norma deve identificar todos
estes elementos para classificar a relação jurídica.
Neste passo, esclarecemos que a relação de consumo pode ser efetiva, o que se dá
com a efetiva transação entre o consumidor e o fornecedor, ou presumida, realizada pela
simples oferta ou pela publicidade inserida no mercado de consumo, conforme veremos
a seguir.
A doutrina esclarece que o Código de Defesa do Consumidor é considerado um mi-
erossistema jurídico, pois insere regras de natureza civil (Título I - Dos direitos do con-
sumidor); administrativa (Título I - Capítulo VII - Das sanções administrativas e Título
10 Direito do consumidor • Densa
IV _ Do sistema nacional de defesa do consumidor); penal (Título Il-Das infrações pe-
nais) e processual civil (Título Ill-Da defesa do consumidor em juízo).
É certo, ainda, que o CDC não traz em seu bojo todos os conceitos jurídicos necessá-
rios para a sua perfeita interpretação e aplicação. Em outras palavras, a lei consumerista
não é completa e se socorre em outras regras do ordenamento jurídico, especialmente
aos conceitos estapelecidos no Código Civil, desde que não contrariem as regras aplicá-
veis às relações de consumo.
2.1 Conceito de consumidor
o Código de Defesa do Consumidor define consumidor como sendo "toda a pessoa
fisica ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". Há
também a figura do consumidor por equiparação, sendo esta a "coletividade de pessoas,
ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo" (art.2º).
Sendo assim, consumidor pode ser:
pessoa fisica;
pessoa jurídica;
coletividade de pessoas (consumidor por equiparação).
Embora o Código tenha trazido o conceito de consumidor, a aplicação ao caso con-
creto tem-se mostrado bastante complexa. Existe discussão doutrinária e jurispruden-
cial com o objetivo de explicar a expressão destinatário final, que caracteriza o elemento
finalístico da relação de consumo. De fato, devemos refletir:
quem é, realmente, o des-
tinatário final de um bem de consumo?
Para responder a esta pergunta ao longo destes 20 anos de aplicação do CDC, a
doutrina desenvolveu três correntes possíveis para identificar quem é o destinatário final
de um bem de consumo (portanto, o consumidor que integrará a relação de consumo),
a saber: a finalista (minimalista ou subjetiva), a maximalista e a finalista temperada (ou fina-
lista aprofUndada).
2.1. I Doutrina finalista
Para a corrente finalista, O consumidor é aquele que retira definitivamente de circu-
lação o produto ou serviço do mercado. Assim, o consumidor adquire produto ou utiliza
serviço para suprir uma necessidade ou satisfação eminentemente pessoal ou privada, e
não para o desenvolvimento de uma outra atividade de cunho empresarial ou profissionaL
Para os seguidores desta doutrina, a intenção do legislador ao outorgar o Código de
Defesa do Consumidor estava em tutelar, de maneira especial, determinado grupo da
sociedade mais vulnerável e, em alguns casos, hipossuficiente.
Relação jurídica de consumo 11
A aquisição ou uso de bem ou serviço para o exercicio de atividade econômica, civil
ou empresária descaracterizam o requisito essencial à formação da relação de consumo,
qual seja, ser o consumidor o destinatário final do bem.
É de notar que, para os defensores desta corrente, pouco importa se o bem ou ser-
viço adquirido será revendido ao consumidor diretamente ou por transformação ou sim-
plesmente agregado ao estabelecimento empresarial.
Assim, por exemplo, os móveis e os utensílios que compõem o estabelecimento ou
os programas de computador utilizados em um escritório não caracterizam a destinação
final do bem, uma vez que, direta ou indiretamente, ingressam na atividade econômica,
caracterizando a sua utilização como instrumento do ciclo produtivo de outros bens ou
serviços.
Logo, os bens ou serviços adquiridos por quem exerce atividade econômica, ain-
da que utilizados para a mera incorporação no estabelecimento empresat:i.a1,afastam a
caracterização da relação de consumo, porquanto estará sempre ausente ~ destinação
final econômica, dado que o bem ou serviço continuará, de alguma forma, inserido no
processo produtivo.
Adota-se, assim, o conceito econômico de consumidor, levando-se em consideração
somente a pessoa que no mercado de consumo adquire bens como destinatária final,
deixando de ser analisada a vulnerabilidade no caso concreto, uma vez que esta já está
presumida.
No que diz respeito àpessoa jurídica, esta poderá ser considerada consumidora desde
que o produto ou serviço adquirido não tenha qualquer conexão, direta ou indireta, com
a atividade econômica por ela desenvolvida, e que esteja demonstrada a sua vulnerabi-
lidade perante o fornecedor.
Destarte, a pessoa jurídica que não tem intuito de lucro será sempre considerada con-
sumidora, tais como as associações, fundações, entidades religiosas e partidos políticos.
2.1.2 Doutrina maximalista
Segundo a doutrina maximalista, para ser considerado consumidor basta que este
utilize ou adquira produto ou serviço na condição de destinatário final, não interessan-
____ d..o-o_u_so particular ou profiss~0l1aldo bem. Dessa forma, somente não será consumiéfõ;:--'
quem adquirir ou utilizar produto ou serviço que participe diretamente do processo de
produção, transformação, montagem, beneficiamento ou revenda.
Assim "a definição do art. 2º deve ser interpretada o mais extensamente possível,
segundo esta corrente, para que as normas do CDC possam ser aplicadas a um número
cada vez maior de relações no mercado. Consideram que a definição do art. 2º é .pura-
mente objetiva, não importando se a pessoa fisica ou jurídica tem, ou não, fim de lucro
quando adquire um produto ou utiliza um serviço. Destinatário final seria o destinatário
fático do produto, aquele que o retira do mercado e o utiliza, o consome, por exemplo, a
fábrica de celulose que compra carros para o transporte dos visitantes, o advogado que
compra uma máquina de escrever para o seu escritório, ou mesmo o Estado quando ad-
-L
12 Direito do consumidor. Densa
quire caneras para uso nas repartições e, é claro, a dona de casa que adquire produtos
alimentícios para a família" (MARQUES, 1998, p. 142).
É necessário analisar, portanto, a simples retirada do bem do mercado de consumo,
ou seja, o ato objetivo, sem se importar com o sujeito que adquiriu o bem, podendo ser
profissional ou não.
Desta feita, se~undo a doutrina maximalista, a pessoa jurídica que exerce atividade
econômica será consumidora sempre que o bem ou serviço for adquirido ou utilizado
para destinação final, mas nunca será consumidora quando da aquisição de matéria-prima
necessária ao desenvolvimento de sua atividade.
2.1.3 Doutrina finalista temperada
A corrente em estudo é um desdobramento da corrente finalista, pois considera
consumidor somente quem adquire produto ou serviço para uso próprio. No entanto,
dependendo do caso concreto, é possível considerar destinatário final de um produto
se, mesmo utilizado para fins profissionais ou econômicos, houver vulnerabilidade do
adquirente naquela relação.
Podemos citar como exemplo de destinatário final, segundo a corrente finalista apro-
fundada, o taxista que compra um veÍCulo com a finalidade de auferir lucro transportando
passageiros. Sem dúvida, há o uso econômico do produto em questão, mas o taxista é tão
vulnerável quanto qualquer outra pessoa que adquire o veÍCulo para passeio e, por esta
razão, deve ser considerado consumidor (veja o conceito de vulnerabilidade no item 3.1.1).
Suponhamos ainda que, neste mesmo exemplo, o taxista tenha adquirido um ve-
ÍCulo que apresente vários defeitos de fabricação. Se adotássemos a corrente finalista
(item 2.1.1), o taxista não seria considerado consumidor e deveria utilizar o sistema do
Código Civil para reclamar indenização perante a montadora.
Adotada a corrente finalista temperada (ou aprofundada), o taxista seria considerado
consumidor nos termos do art. 22 do CDC e, portanto, poderia requerer a indenização
pelos vícios do produto na forma do art. 18 do CDC, que apresenta grandes vantagens
em relação ao Código Civil, conforme veremos no Capítulo 8.
Assim, é possível afirmar que a doutrina finalista temperada "é uma interpretação
finalista mais aprofundada e madura, que deve ser saudada. De um lado, a maioria ma-
ximalista e objetiva restringiu seu ímpeto; de outro, os finalistas aumentaram o seu sub-
jetivismo, mas revitalizaram o finalismo permitindo tratar casos difíceis de forma mais
diferenciada" (MARQUES, 2006, p. 85).
2.1.4 Casuística
No que diz respeito à aplicação do Código de Defesa do Consumidor e à configuração
da relação de consumo, a jurisprudência apresenta soluções que estão em sintonia tanto
com a corrente maximalista, como com a corrente finalista. No entanto, há certa tendên-
cia do Superior Tribunal de justiça (STj) de manter a corrente finalista temperada (ou
aprofundada) com a análise da vulnerabilidade do consumidor para o enquadramento
da relação de consumo. Vejamos: l
Relação jurídica de consumo 13
"Processo civil e Consumidor. Rescisão contratual cumulada com indenização. Fabri-
cante. Adquirente. Freteiro. Hipossuficiência. Relação de consumo. Vulnerabilidade.
Inversão do ônus probatório. Consumidor é a pessoa física ou jurídica que adquire
produto como destinatário final econômico, usufruindo do produto ou do serviço em
beneficio próprio. Excepcionalmente, o profissional freteiro, adquirente de caminhão
zero quilômetro, que assevera conter defeito, também poderá ser considerado consu-
midor, quando a vulnerabilidade estiver caracterizada por alguma hipossuficiência quer
fática, técnica ou econômica. Nesta hipótese está justificada a aplicação das regras de
proteção ao consumidor, notadamente a concessão do beneficio processual da inversão
do ônus da prova. Recurso especial provido" (STj
- 3' Turma - REsp 1080719/MG-
ReI. Min. Nancy Andrighi -Df 17.08.2009) (grifo nosso).
"Competência - Relação de consumo - Utilização de equipamento e serviços de crédito
prestado por .empresa administradora de cartão de crédito - Destinação final inexis-
tente. A aquisição de bens ou a utilização de serviços, por pessoa natural ou jurídica,
com o escopo de implementar ou incrementar a sua atividade negociai, não se reputa
como relação de consumo e, sim, como uma atividade de consumo iJ.1termediária. Re-
curso especial conhecido e provido para reconhecer a incompetência absoluta da Vara
Especializada de Defesa do Consumidor, para decretar a nulidade dos atos praticados e,
por conseguinte, para determinar a remessa do feito para uma das Varas Cíveis da Co-
marca" (STJ- 2' Seção- Resp 541867/BA - ReI.Min. BarrosMonteiro - j. 10.11.2004).
"A relação jurídica qualificada por ser de 'consumo' não se caracteriza pela presença
de uma pessoa física ou jurídica em seus paIos, mas pela presença de uma parte vul-
nerável de um lado (consumidor), e de um fornecedor, de outro. Mesmo nas relações
entre pessoas jurídicas, se da análise da hipótese concreta decorrer inegável vulp
nerabilidade entre pessoa~jurídica consumidora e a fornecedora, deve-se aplicar
o coe na busca do equilíbrio entre as partes. Ao consagrar o critério finalista para
interpretação do conceito de consumidor, a jurisprudência do ST] também reconhece
a necessidade de, em situações específicas, abrandar o rigor do critério subjetivo do
conceito de consumidor, para admitir a aplicabilidade do CDC nas relações entre for-
necedores e consumidores-empresários em que fique evidenciada a relação de consu-
mo. Recurso Especial não conhecido" (STJ - 3' Turma - Resp. 476428/SC - ReI. Min.
Nancy Andrighi - j. 19.04.2005) (grifo nosso).
"Direito do consumidor. Recurso especial. Conceito de consumidor. Pessoa Jurídica.
Excepcionalidade. Não constatação na hipótese dos autos. Foro de eleição. Exceção de
incompetência. Rejeição. A jurisprudência do STJ tem evoluído no sentido de somente
admitir a aplicação do CDC à pessoa jurídica empresária excepcionalmente, quando evi-
denciada a sua vulnerabilidade no caso concreto; ou por equiparação, nas situações pre-
vistas pelos arts. 17 e 29 do CDe. Mesmo nas hipóteses de aplicação imediata do CDC,
a jurisprudência do STJentende que deve prevalecer o foro de eleição quando verificado
o expressivo porte financeiro ou econômico da pessoa tida por consumidora ou do con-
trato celebrado entre as partes. É lícita a cláusula de eleição de foro, seja pela ausência de
vulnerabilidade, seja porque o contrato cumpre a sua função social e não ofende à boa-fé
objetiva das partes, nem tampouco dele resulte inviabilidade ou especial dificuldade de
acesso à Justiça. Recurso especial não conhecido" (STJ,Resp 684613/SP. 3' Turma, ReI.
Min. Nancy Andrighi, Diário dafustiça, 01.07.2005, p. 530).
Veja também: REsp 263229/SP; REsp 258780/ES.
14 Direito do consumidor • Densa
2.1.5 Breves considerações acerca da aplicação do Código de Defesa do
Consumidor e do Código Civil
Com o estudo que fizemos, ainda que brevemente, sobre a aplicação do Código de
Defesa do Consumidor, verifica-se que nem sempre é de simples interpretação a expres-
são destinatário final no caso concreto. Conforme dissemos, há tendência da jurisprudên-
cia majoritária e'1' orientar a aplicação do CDC através da doutrina finalista temperada.
De fato, quando o Código de Defesa do Consumidor foi publicado, em 11 de se-
tembro de 1990, o Código Civil em vigor tinha regras mais rígidas quanto aos contratos
e paradigmas que estavam em consonância com o Estado Liberal. A tendência da juris-
prudência e da doutrina era aplicar a lei consumerista para a grande parte das relações
jurídicas (doutrina maximalista), com o objetivo de garantir equidade e justiça social
no caso concreto.
No entanto, o Código Civil vigente, p,ublicado em 2002, traz regras e princípios
que se aproximam dos princípios e regras estabelecidos na legislação consumerista. De
fato, a "eticidade", a "socialidade" e a "operabilidade", paradigmas do novo Código Ci-
vil, estão em plena consonância com a boa-fé e o interesse social do Código de Defesa
do Consumidor.
Assim, parece-nos que a jurisprudência caminha bem ao aplicar a doutrina finalista
aprofundada para identificar uma relação de consumo. O Código de Defesa do Consu-
midor deve ser aplicado para o vulnerável, aquele que necessita da proteção do Estado
por estar em situação de "desigualdade" com o fornecedor.
Da mesma forma, o Código Civil deve ser aplicado para relações entre iguais, ou seja,
relações entre civis e relações entre empresários. É certo também que a cláusula geral de
função social do contrato, de boa-fé e do a~uso de direito estabelecida no Código Civil
garante aos civis e empresários a justiça no caso concreto.
2.1.6 Atividade de consumo intermediária
É preciso, neste passo, esclarecer que as partes que mantêm relação jurídica para a
compra de matéria-prima e insumo não estão regidas pela relação de consumo. Assim,
por exemplo, um fazendeiro que adquire maquinários para melhorar a sua produção
agrícola não manterá relação de consumo com o produtor das máquinas. Nessa relação,
deverão ser aplicados o Código Civil e outras leis especiais que possam, eventualmente,
ser aplicáveis ao caso.
Nesse sentido, o Ministro Sidnei Benetti afirmou "a aquisição de bens ou a utiliza-
ção de serviços, por pessoa natural ou jurídica, com o objetivo de implementar ou incre-
mentar os negócios não podem ser vistos como relação de consumo, e sim como uma
atividade de consumo intermediária. Se assim .não fosse, o mícrossistema do Código de
Defesa do Consumidor deixaria de ser especial, sua tutela jurídica deixaria de ser dife-
renciada e, portanto, a generalização faria desaparecer o próprio fundamento dessa lei
de proteção especial, passando a ser o conjunto de normas a regular todos os contratos"
(REsp 836823).
_l
Relação jurídica de consumo 15
2.2 Consumidor por equiparação
O conceito de consumidor até agora estudado não é suficiente para abranger todas
as situações em que se faz necessária a aplicação do Código de Defesa do Consumidor,
conforme veremos a seguir.
2.2.1 Coletividade de pessoas
Os interesses e os direitos dos consumidores podem ser violados sem que, neces-
sariamente, estes integrem relação de consumo como destinatário final. Desta feita, o art.
2º, parágrafo único, equipara consumidor "a coletividade de pessoas, ainda que indeter-
mináveis, que haja intervindo nas relações de consumo".
O exemplo mais claro de aplicação deste dispositivo é a hipótese em que o fornece-
dor veicula publicidade enganosa ou abusiva. No caso em espécie, não se faz necessário
que o consumidor adquira o produto ou serviço ou tenha danos efetivos, bastando, tão
somente, que haja a veiculação da publicidade enganosa ou abusiva para a configuração
da relação de consumo e a consequente aplicação das penalidades previstas no Código
de Defesa do Consumidor.
A mesma regra está prevista no art. 29 do mesmo diploma legal: que também prevê
a equiparação de consumidores expostos a práticas comerciais abusivas.
Quanto ao assunto, já decidiu o STJque "não há relação de consumo nos moldes do art.
29 do CDC quando o contratante não traduz a condição de potencial consumidor nem de
parte aderente, firmando negócio jurídico produzido por acordo de vontades, na forma de
contrato-tipo" (REsp 655436/MT - ReI.Min.João Otávio de Noronha - Dj28.04.2008).
2.2.2 Vítima de acidente de consumo
No capítulo referente à responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço, pre-
vê o art. 17 a equiparação a consumidor de todas as vítimas do evento. Assim, o sujei-
to que não fez parte do negócio jurídico entre consumidor e fornecedor, mas foi vítima
de acidente de consumo, oriundo desse negócio jurídico, é equiparado a consumidor,
aplicando-se todas as prerrogativas concedidas pelo Código de Defesa do Consumidor.
Estudaremos melhor o assunto na seção 7.3.
2.3 Conceito de fornecedor
Dissemos que para a configuração da relação de consumo é necessária a identificação
do elemento subjetivo, qual seja: o consumidor e o fornecedor. Já estudamos a figura do
consumidor, restando a identificação do fornecedor, que passaremos a estudar.
O art. 3º do Código de Defesa do Consumidor conceitua fornecedor como sendo toda
pessoa fisica ou jurídica, nacional ou estrangeira, de direito público ou privado, que atua
16 Direito do consumidor • Densa
na cadeia produtiva, exercendo atividade de produção, montagem, criação, construção.
transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou
prestação de serviços.
Tem-se, por conseguinte, que fornecedor é qualquer pessoa jlsica, ou seja, qualquer
pessoa que, a título singular, mediante desempenho de atividade mercantil ou civil e de
forma habitual, ofereça no mercado produtos ou serviços, e a jurídica, da mesma forma
mas em associaÇ'ãomercantil ou civil e de forma habitual (FILOMENO, 2004, p. 43).
Verifica-se que o legislador pretendeu classificar como fornecedor todos aqueles que
desenvolvem atividades tipicamente profissíonais, mediante remuneração, excluindo
da relação de consumo aqueles que eventualmente tenham colocado produto ou serviço
no mercado de consumo sem o caráter profissional.
O requisito fundamental para a caracterização do fornecedor na relação jurídica de
consumo é a habitualidade, ou seja, o exercício contínuo de determinado serviço ou for-
necimento de produto.
Assim, por exemplo, a empresa que tem por objeto social a prestação de serviços
de dedetização e que, para renovar sua frota, vende veÍCulode sua propriedade a parti-
cular, não pode ser considerada fornecedora no que diz respeito a compra e venda deste
veÍCulo,posto que a habitualidade está na prestação de serviços de dedetização e não de
comercialização de automóvel. Na hipótese em questão, não incidem as regras do Códi-
go de Defesa do Consumidor, mas sim as regras do Códígo Civil, por faltar o elemento
subjetivo da relação jurídica de consumo.
2.3.1 Sociedade sem fins lucrativos
No que tange a sociedades civís sem fins lucrativos, de caráter beneficente e filantró-
pico, estas também podem ser consideradas fornecedoras quando, por exemplo, prestam
serviços médicos, hospitalares, odontológicos e jurídicos a seus assocíados.
É certo que, para o fim de aplicação do Código de Defesa do Consumidor, o
enquadramento do fornecedor de serviços atende a critérios objetivos, sendo irrelevan-
tes a sua natureza jurídica, a espécie dos serviços que presta e até mesmo O fato de se
tratar de uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de caráter beneficente e filantrópico,
bastando que desempenhe determinada atividade no mercado de consumo mediante
remuneração. (A respeito do assunto veja Resp 519310/SP.)
Discute-se a possibilidade de as sociedades cooperativas serem incluídas no rol de
fornecedores de produtos e serviços do Código de Defesa do Consumidor. No entanto,
não há que se falar em relação de consumo, já que a sociedade cooperativa caracteriza-
se, principalmente, pela mutualidade e presença do próprio cooperado nas decisões das
cooperativas. Evidentemente, não estamos tratando aqui das cooperativas de fachada,
que vestem esta carapaça jurídica somente para se furtarem das obrigações estabelecidas
no Código de Defesa do Consumidor.
Ressalte-se, contudo, que é preciso saber se, de fato, o cooperado participa efetiva-
mente da cooperativa e se todos os requisitos necessários para a configuração deste tipo
Relação jurídica de consumo 17
de sociedade estão presentes, ou se a empresa se utiliza deste tipo de sociedade apenas
para ludibriar o consumidor e esquivar-se de suas obrigações enquanto fornecedor.
2.3.2 Poder Público
O Poder Público será enquadrado como fornecedor de serviço toda vez que, por si
ou por seus concessionários, atuar no mercado de consumo, prestando serviço mediante
a cobrança de preço.
Assim, por exemplo, o Estado, quando fornecedor de serviço público de tratamento
de água e esgoto, mediante pagamento de preço pelo consumidor, é fornecedor de ser-
viços nos termos do Código de Defesa do Consumidor.
Do mesmo modo, os concessionários de serviços públicos de telefonia, que atuam
no mercado de consumo através de contratos administrativos de concessão de serviços
públicos, são fornecedores de serviços nas relações com os usuários e, consequentemen-
te, devem observar os preceitos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor.
Importante ressaltar que a relação de consumo não guarda semelhança com a rela-
ção tributária. O art. 3º do Código Tributário Nacional define tributo como sendo "toda
prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que
não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade admi-
nistrativa plenamente vinculada".
Ora, o preço pago pelo consumidor na prestação de serviços públicos, conforme
explicitado, não pode ser confundido com prestação pecuniária compulsória. Somente
haverá relação de consumo se houver manifestação de vontade do consumidor em ad-
quirir o serviço prestado pelo Estado ou seus concessionários.
José Geraldo Brito Filomeno (2004, p. 49), ao explicar o conceito de serviço no Có-
digo de Defesa do Consumidor, esclarece:
"Importante salientar-se, desde logo, que aí não se inserem os 'tributos', em geral, ou
'taxas' e 'contribuições de melhoria', especialmente, que se inserem no âmbito das relações
de natureza tributária. Não há que se confundir, por outro lado, referidos tributos com
as ~tarifasJ, estas, sim, inseridas no contexto dos 'serviços' ou, mais particularmente,
'preçopúblico', pelos 'serviços'prestados diretamente peloPoderPúblico,ou entãome-
diante concessão ou permissão pela iniciativa privada:'
No que diz respeito aos impostos, espécie de tributo, estes têm como nota característi-
ca sua desvinculação de qualquer atividade estatal específica em beneficio do contribuin-
te. Consequentemente, o Estado não pode ser coagido à realização de serviços públicos
como contraprestação ao pagamento de impostos. Desvincula-se, desta forma, qualquer
relação de consumo entre o Estado e o contribuinte em razão do pagamento de impostos.
Neste sentido, já decidiu o STJ (Ag 500644/MS) que não há relação de consumo na
prestação de serviço de educação na rede pública estadual. Outrossim, já decidiu o STJ
que o Ministério Público não tem legitimidade para promover ação civil pública com o
objetivo de impedir a cobrança de ttibutos na defesa de contribuinte, já que "contribuintes
não são consumidores, não havendo como se vislumbrar sua equiparação aos portadores
18 Direito do consumidor • Densa
de direitos difusos ou coletivos" (AgRg no REsp 969087/ES - 2ª Turma - Min. Castro
Meira - Dte 09.02.2009).
-Na forma do art. 81 do Código Tributário Nacional, a contribuição demelhoria é ins-
tituída para fazer face ao custo de obras públicas de que decorra valorização imobiliária
ao contribuinte. Destarte, não há que se falar em relação de consumo quando do paga-
mento de contribuição de melhoria, tendo em vista que a obra pública construída pelo
ente público está fundamentada no interesse público e não somente no interesse de
quem paga o referido tributo.
A taxa, como espécie tributária que é, tem sua cobrança inteiramente submetida ao
regime de direito público, mais precisamente ao regime tributário. É uma obrigação ex
lege, só podendo ser exigida dos particulares "em razão do exercício do poder de polí-
cia ou pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públícos específicos e divisíveis,
prestados ao contribuinte ou postos à sua disposição" (art. 77 do CTN). Tanto a taxa
de l'.olíciacomo a taxa de serviços pressupõem atuação
concreta do Estado.
O preço público ou tarifa é a contraprestação paga pelos serviços pedidos pelos con-
sumidores ao Estado. Assim, para haver preço, é necessário haver contrato, que é jus-
tamente a manifestação de vontade das partes em criar, modificar ou extinguir direitos.
2.3.3 Entes despersonalizados
Os entes despersonalizados também podem ser fornecedores de produtos e serviços.
Previu o legislador a possibilidade de entes sem personalidade jurídica exercerem ativi-
dades produtivas no mercado de consumo. Citamos como exemplo de entes despersona-
lizados a massa falida, o espólio de comerciante individual e as pessoas jurídicas defato,
ou-seja, as pessoas jurídicas que não estão devidamente regularizadas na forma da lei.
2.4 Conceito de produto
Estudamos, até agora, as partes envolvidas na relação de consumo, ou seja, o ele-
mento subjetivo da relação jurídica de consumo. Passaremos a estudar o elemento obje-
tivo da relação de consumo, isto é, o objeto sobre o qual recai a relação jurídica, que é
denominado pelo Código de Defesa ao Consumidor produto ou serviço.
O art. 32, ~ 12, define produto como sendo qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou
imaterial. Assim, qualquer bem corpóreo ou incorpóreo suscetível de apropriação, que
tenha valor econômico, destinado a satisfazer uma necessidade do consumidor, é consi-
derado produto nos termos do Código de Defesa do Consumidor.
2.5 Conceito de serviço
O ~ 2º do art. 3º do Código de Defesa do Consumidor define serviço como sendo
"qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive l
Relação jurídica de consumo 19
as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das re-
lações de caráter trabalhista".
Nos termos do Código de Defesa do Consumidor, serviço é toda atividade desenvolvi-
da em favor do consumidor. Preferiu o legislador esclarecer que as atividades bancárias,
financeiras, de crérlito e securitárias estariam também inclusas no rol de serviços, para
que não houvesse dúvida quanto à incidência do microssistema para estas atividades.
A despeito da menção expressa do legislador, a questão do enquadramento da ati-
vidade bancária como relação jurídica de consumo foi objeto de alguma discussão dou-
trinária e jurisprudencial. As instituições financeiras sustentavam que a Lei nº 4.595/64
(que regulamenta as instituições financeiras), por ser lei específica, seria a única legis-
lação aplicável para as suas atividades, deixando de ser observada a lei geral, no caso em
espécie, o Código de Defesa do Consumidor.
No entanto, a jurisprudência majoritária externou entendimento no sentido de que
o Código de Defesa do Consumidor aplica-se aos contratos bancários, uma vez que as
instituições financeiras estão inseridas na definição de prestadoras de serviços, contem-
pladas no art. 3º, ~ 2º, da legislação em comento.
Na tentativa de solucionar definitivamente a controvérsia, o Superior Tribunal de
Justiça emitiu a Súmula 297, com o seguinte teor: "O Código de Defesa doConsumidor é
aplicável às instituições financeiras." Assim, as instituições financeiras devem respeitar o dis-
posto no Código de Defesa do Consumidor e o disposto na Lei nº 4.595/64, prevalecendo,
no que diz respeito às suas relações com os consumidores, a legislação consumerista.
A Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.591-1, promovida pela Confederação
Nacional do Sistema Financeiro, também discutiu a aplicação do Código de Defesa do
Consumidor às instituições financeiras. Em síntese, sustentava a autora que o art. 192
da Constituição Federal exige lei complementar para a regulação de todo o Sistema Fi-
nanceiro Nacional e que, por esta razão, não poderia o Código de Defesa do Consumidor
(lei ordinária) ser aplicável ao sistema financeiro.
O Supremo Tribunal Federal julgou improcedente a ação entendendo que o Código
de Defesa do Consumidor é lei principiológica e que se limita a regular as relações de
consumo, não interferindo na estrutura institucional do sistema financeiro.
Verifica-se, portanto, que a doutrina e a jurisprudência firmaram entendimento claro
no sentido de aplicar as normas do Código de Defesa do Consumidor nas relações dos
consumidores com as instituições financeiras.
Da mesma forma, houve discussão jurisprudencial sobre a aplicação da legislação
consumerista nas relações das entidades de previdência privada e seus consumidores, uma
vez que a Lei Complementar nº 108/01 regulamentou a matéria e, por ser lei especial,
deveria ser a única a tratar da matéria. No entanto a Súmula 321 do Superior Tribunal
de Justiça solucionou a divergência e determinou que o "Código deDefesa doConsumidor é
aplicável à relação jurídica entre entidade deprevidência privada e seus participantes".
Muito se discute também sobre a possibilidade de aplicação da legislação consume-
rista nas relações de locação de imóveis. Neste caso, a jurisprudência majoritária expressa
entendimento de que não se aplicam as regras do Código de Defesa do Consumidor nas
relações locatícias, uma vez que há norma específica que regulamenta a relação locatícia
20 Direito do consumidor • Densa
(Lei nº 8.245/91), além de não haver a caracterização de consumidor e, principalmente,
de fornecedor nos termos acima explicitados.
Já mencionamos que o Poder Público também presta serviços, nos termos do Có-
digo de Defesa do Consumidor, desde que remunerados por tarifas ou preços públicos,
excluindo-se os tributos (taxas, contribuição de melhoria).
2.5.1 Remuneração
No que tange à expressão mediante remuneração, esta deve ser entendida de maneira
abrangente, uma vez que esta remuneração pode ser feita direta ou indiretamente pelo
consumidor. Muitas vezes o produto ou serviço é oferecido gratuitamente ao consu-
midor, mas o custo daí inerente está embutido em outros pagamentos efetuados pelo
consumidor.
É o caso de estacionamentos "gratuitos" em supermercados, da aquisição de rádio
para automóvel com serviço de instalação "gratuito". Sem dúvida, haverá, nestes casos,
a incidência das regras do Código de Defesa do Consumidor, posto que a remuneração
é indireta.
2.6 Súmulas aplicáveis
Súmula 469 do STJ: Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos
de plano de saúde.
Súmula 321 do STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável à relação ju-
rídica entre a entidade de previdência privada e seus participantes.
Súmula 297 do S1J: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às institui-
ções financeiras.
Questões
1. Uma grande plantação de soja transgênica é pulverizada, sistematicamente, com herbicida, à
base de glicofosato, através de aviões pulverizadores. Dispersos no ar, os elementos químicos
do agrotóxico atingem fonte d'água que abastece um vilarejo local, localizado a 5 krn, conta-
minando inúmeras pessoas que ali residem, causando vômitos, convulsões, desmaios, perda
de visão, incapacidade laborativa, mortandade de plantas e animais, dentre outros eventos.
A defensoria pública ajuíza, em prol dos moradores pobres do lugar, ação civil pública, visan-
do indenização pelos danos resultantes, sustentando a demanda em dispositivos encontrados
no sistema tutelar dos direitos dos consumidores. O juiz para o qual a ação fora distribuída,
indefere a inicial, alegando a inaplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor por não
caracterização das vítimas como consumidores (Defensor Público - São Paulo/201O).
a) Incorreta, pois há caracterização das vítimas como consumidores por equiparação.
b) Incorreta, pois há caracterização das vítimas como consumidores por interferência di-
reta na relação de consumo.
L
Relação jurídica de consumo 21
c) Correta, posto que a responsabilidade, no caso, é regida pelo sistema de proteção am-
biental.
d) Correta, posto que a responsabilidade, no caso, é regida pelos dispositivos civilistas que
regem a culpa subjetiva.
e) Incorreta,
pois sejam quais forem os sistemas, a responsabilidade, no caso, é sempre
subjetiva.
2. Não é correto afirmar (Ministério Público/MG - 2008):
a) Consumidor é toda pessoa fisica ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço
como destinatário final.
b) Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
c) Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo mediante temuneração,
salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.
d) Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que
haja intervindo nas relações de consumo.
e) Os serviços públicos, em face do princípio da prevalência do interesse público sobre o
particular, não estão sujeitos ao Código de Defesa do Consumidor, sendo a prestação
dos mesmos regulada por normas específicas de Direito Administrativo.
3. No sistema do Código de Defesa do Consumidor é correto afirmar que (Defensor Público/
MA-2003):
a) fornecedor é a pessoa, física ou jurídica, ou ente despersonalizado, que desenvolve,
habitual e profissionalmente, atividade econômica no mercado de consumo, dentre
outras as de produção, montagem, distribuição ou de comercialização de produtos ou
prestação de serviços;
b) consumidor é toda pessoa fisica ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou seIViço,
como intermediário ou destinatário final;
c) a coletividade de pessoas que haja intervindo nas relações de consumo, se indetermi-
náveis, não se considera no conceito de consumidor;
d) produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, desde que material;
e) seIViço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração
ou não, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito ou trabalhista.
4. No que se refere ao campo de aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC), assinale
a opção correta (OAB/CESPE 2007. 3):
a) O conceito de consumidor restringe-se às pessoas fisicas que adquirem produtos como
destinatárias finais da comercialização de bens no mercado de consumo.
b) O conceito de fornecedor envolve o fabricante, o construtor, o produtor, o importador
e o comerciante, os quais responderão solidariamente sempre que ocorrer dano inde-
nizável ao consumidor.
c) O conceito de produto é definido como o conjunto de bens corpóreos, móveis ou imó-
veis, que sejam oferecidos pelos fornecedores para consumo pelos adquirentes.
d) O conceito de serviço engloba qualquer atividade oferecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.
22 Direito do consumidor • Densa
Na interpretação da Lei nº 8.078 (Código de Defesa do Consumidor), levar-se-á em conta
(Procurador da República - 18Q):
a) as normas gerais e especiais que compõem todo o sistema do direito positivo brasileiro,
ante o disposto no art. 2º, S 2º, da Lei de Introdução ao Código Civil;
b) no conflito entre as normas do sistema, em geral, e os princípios e normas que estão
nela, Lei nº 8.078/90, estabelecidos, a preponderância destes;
c) o sistema próprio nela contido, não tendo incidência, nas relações de consumo, as de-
mais normas, mesmo se houver lacuna no sistema consumista;
d) Nenhuma destas opções é procedente.
Assinale a alternativa que complementa a frase a seguir e que a torna FALSA:A pessoa jurí-
dica sem fins lucrativos (OAB/MT 2006-01):
a) pode assumir nas relações de consumo a condição de consumidora quando adquirir
produtos e serviços como destinatária final;
b) pode assumir nas relações de consumo a condição de fornecedora de produtos ou ser-
viços;
c) não pode assumir nas relações de consumo a condição de fornecedora de produtos ou
serviços;
d) pode assumir nas relações de consumo a condição de consumidora equiparada.
No que se refere ao campo de aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC), assinale
a opção correta (OAB/CESPE 2007. 3):
a) O conceito de consumidor restringe-se às pessoas físicas que adquirem produtos como
destinatárias finais da comercialização de bens no mercado de consumo.
b) O conceito de fornecedor envolve o fabricante, o construtor, o produtor, o importador
e o comerciante, os quais responderão solidariamente sempre que ocorrer dano inde-
nizável ao consumidor.
c) O conceito de produto é definido como o conjunto de bens corpóreos, móveis ou imó-
veis, que sejam oferecidos pelos fornecedores para consumo pelos adquirentes.
d) O conceito de serviço engloba qualquer atividade oferecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.
Relação jurídica de consumo 23
e serviços, ou grupo, classe ou categoria deles, para que seja prevenido, por exemplo,
o consumo de produtos ou serviços perigosos ou nocivos.
A acepção coletiva dos interesses ou direitos do consumidor comporta apenas a cate-
goria dos chamados direitos difusos ou coletivos.
O conceito de consumidor constante do CDC apresenta-se insuficiente à indicação dos
destinatários de sua proteção, sendo necessário integrar esse conceito ao de fornecedor.
Daí a razão da existência de duas correntes doutrinárias definindo o âmbito de apli-
cação do CDC, quais sejam: maximalista, segundo a qual o art. 2º do Código deve ser
interpretado o mais restritivamente possível; e a finalista do consumo, que envereda
por uma interpretação teleológica do art. 2º.
c)
d)
9.
lO.
11.
o art. 2º da Lei nº 8.078/90 Código de Defesa do Consumidor - estabelece: Art. 2º "Consu-
midor é toda pessoa fisica ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como desti-
natário final." Parágrafo único. "Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda
que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo." Com base neste dispo-
sitivo, é correto afirmar (Procurador da República - 23º):
a) A pessoa jurídica consumidora é aquela que adquire produtos ou serviços destinados
ao bom desempenho de sua atividade lucrativa, desde que exista entre ela e seu forne-
cedor um desequilíbrio que lhe favoreça.
b) O parágrafo único do art. 2º do CDC visa à proteção e tutela dos interesses coletivos,
considerando as categorias de consumidores ou potenciais consunúdores de produtos
Assinale a alternativa correta (Ministério Público/PI- 2002).
a) Consumidor é exclusivamente a pessoa física que adquire ou utiliza produtos ou serviço
como destinatário final.
b) Não está equiparada a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indeterminá-
veis, que haja intervindo nas relaçÕes de consumo.
c) Produto não é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial, mas somente os
assim definidos pelo Código Comercial.
d) Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mesmo sem remune-
ração.
e) Consumidor é toda pessoa fisica ou jurídica que adquire ou utiliza produtos ou serviço
como destinatário final.
Assinale a alternativa onde aparece uma atividade que não se encontra entre aquelas praticadas
por alguém que é considerado fornecedor pelo Código de Defesa do Consumidor (Ministério
Público/PR - 2008):
a) Produção, criação e transformação.
b) Importação e exportação.
c) Prestação de serviços bancários, securitários e de crédito.
d) Montagem, relações trabalhistas e construção.
e) Comercialização e prestação de serviços.
Considerando que a entrada em vigor do novo Código Civil é posterior à promulgação do
Código de Defesa do Consumidor, é correto afirmar que (Procurador do Estado/SP - 2005):
a) o novo Código Civil revogou o Código de Defesa do Consumidor no que diz respeito à
responsabilidade civil; ,
b) não existe qualquer relação entre esses dois diplomas legais, uma vez que o Código
Civil regula as relações cíveis e o Código de Defesa do Consumidor regula as relações
de consumo;
c) as novas regras do Código Civil revogam a aplicação de todas as regras em contrário do
Código do Consumidor;
d) as novas regras do Código Civil
passam a reger as relações de consumo, devendo o Có-
digo de Defesa do Consumidor ser aplicado complementarmente e subsidiariamente;
e) as novas regras do Código Civil se aplicam às relações de consumo, desde que seja para
ampliar a proteção do consumidor.
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Política nacional e relações de consumo
3.1 Objetivos e princípios norteadores
Os objetivos da Política Nacional de Relações de Consumo propostos pela legislação
consumerista estampados no art, 4'1 do Código de Defesa do Consumidor são ,osseguintes:
<:>. atendimento das necessidades dos consumidores;
o respeito à dignidade, à saúde e à segurança dos consumidores;
a proteção dos interesses econômicos dos consumidores;
a melhoria da qualidade de vida dos consumidores; e
a transparência e harmonia das relações de consumo,
Para atingir os objetivos propostos, o mesmo artigo estabelece princípios norteadores
da Política Nacional de Relações de Consumo a serem observados por toda a sociedade
de consumo, quais sejam:
reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor (art, 4'1, I);
ação governamental para proteção do consumidor (art, 4'1,,11);
harmonização dos interesses dos participantes das relaçõés de consumo (art.
4'1, III);
educação e informação dos consumidores (art. 4'1, IV);
controle de qualidade e segurança dos produtos e serviços (art, 4'1, V);
coibição e repressão das práticas abusivas (art, 4'1, VI);
racionalização e melhoria dos serviços públicos (art, 4'1, VII);
estudo das constantes modificações do mercado de consumo (art, 4'1, VIII).
'"'
26 Direito do consumidor . Densa
Passaremos a estudar cada um dos princípios elencados.
3.1.1 Reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor
O reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo re-
flete, sem dúvidj, a principal razão de toda a proteção e defesa do consumidor, que é a
parte vulnerável de qualquer relação de consumo. Diz-se que o consumidor é vulnerável
porque é facilmente manipulado pelo fornecedor nas relações de consumo, sendo, sem
dúvida, a parte mais frágil da relação.
Tendo em vista haver desequilíbrio nas relações entre consumidor e fornecedor,
pretende o legislador igualar esta equação, deixando claro que a parte mais fraca é o con-
sumidor e que este deve ser protegido. A presunção de vulnerabilidade do consumidor
é decorrente de lei e não admite prova em contrário.
A doutrina aponta quatro tipos de vulnerabilidade do consumidor, quais sejam:
técnica: o consumidor não possui conhecimentos específicos sobre o objeto
que está adquirindo, tanto no que diz respeito às características do produto
quanto no que diz respeito à-utilidade do produto ou serviço;
jurídica: reconhece o legislador que o consumidor não possui conhecimentos
jurídicos, de contabilidade ou de economia para esclarecimento, por exemplo,
do contrato que está assinando ou se os juros cobrados estão em consonância
com o combinado;
fática (ou socioeconômica): baseia-se no reconhecimento de que o consumidor é
o elo fraco da corrente, e que o fornecedor encontra-se em posição de supre-
macia, sendo o detentor do poder econômico.
informacional: considera o consumidor pessoa carente de informações sobre
os diferentes tipos de produtos e serviços inseridos no mercado de consumo,
~azãopela qual ficará mais exposto, portanto vulnerável, frente ao fornecedor.
E certo que quanto mais informado e educado estiver o consumidor, melhor
será sua condição para exercer suas escolhas e estará menos vulnerável na re-
lação de consumo.
Assim, a qualificação técnica ou jurídica do consumidor não retira a q~alidade de
vulnerável do consumidor, uma vez que fica mantida a vulnerabilidade fática. E certo que
os consumidores bem informados e com qualificação técnica e jurídica continuam vul-
neráveis aos apelos do mercado de consumo, considerando o fato de que o fornecedor é
o detentor do poder econômico.
A hipossuficiência é outra característica do consumidor, mas não se confunde com
a vulnerabilidade. Para o Código de Defesa do Consumidor, todos os consumidores são
vulneráveis, mas nem todos são hipossuficientes.
Vejamos, a respeito, a definição dada pelo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa
"hipossuficiente (hipo + suficiente) diz-se de, ou pessoa que é pobre na acepção legal do
termo e que faz jus ao beneficio da assistência gratuita, ou daquele que, por razões eco-
nômicas ou técnicas, não tem como fazer prova dos fatos constitutivos do seu direito". I
L
Política nacional e relações de consumo 27
Já a expressão vulnerabilidade, no mesmo dicionário, é definida como a qualidade ou
estado de vulnerável, e do vulnerável "diz-se do lado fraco de um assunto ou de uma
questão, ou do ponto pelo qual pode ser atacado ou ferido".
Sendo assim, a hipossuficiência deve ser analisada como um critério processual que
demonstra a dificuldade do consumidor em fazer a prova em juízo. Esta condição de
hipossuficiente deve ser verificada no caso concreto, e é caracterizada quando o consu-
midor apresenta traços de inferioridade cultural, técnica ou financeira. Perceba também
que a expressão hipossuficiente é citada pelo legislador no art. 6, VIII, justamente quando
trata da facilitação da defesa do consumidor em juízo e da possibilidade de inversão do
ônus da prova.
3.1.2 Ação governamental para proteção do consumidor
Dissemos que o Código de Defesa do Consumidor é fruto do Estado Social, que,
em tese, preocupa-se com o bem-estar social e atua mediante a intervenção na atividade
econômica, ainda que timida.
A atuação do Estado para a proteção do consumidor, segundo o art. 4", 11,do Código
de Defesa do Consumidor, deve ser:
"a) por iniciariva direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualida-
de, segurança, durabilidade e desempenho."
Sem dúvida, a atuação estatal deve observar os preceitos determinados pelo art. 170
da Constituição Federal, ou seja, o respeito à livre-iniciativa e a garantia de existência
digna, conforme os ditames da justiça social. Na perspectiva jurídico-constitucional, o
Estado social identifica-se pela regulação ou intervenção na ordem econômica, através
da limitação do poder econômico e pela definição dos direitos sociais.
Na prática, verificamos esta atuação estatal através da Secretaria de Direito Eco-
nômico (SDE), dos PROCONs, do Ministério Público, bem como do incentivo para a
criação de entidades civis de defesa do consumidor, tais como o IDEC e a ADECON.
Não podemos deixar de mencionar o Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial (SINMETRO), constituído pelo Instituto Nacional de Metrologia,
Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO) e pelo Conselho Nacional de Metro-
logia (CONMETRO), que homologa as normas de segurança e qualidade, atualmente a
cargo da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
3.1.3 Harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo
Outro princípio a ser observado na Política Nacíonal de Relações de Consumo
é o da harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e a
28 Direito do consumidor • Densa
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico, de modo a viabilizaros princípios nos quais se funda a ordem eco-
nômica (art. 170 da CF), sempre com base na boa-fé e no equilíbrio nas relações entre
consumidores e fornecedores (art. 4", m).
Lembramos que os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170 da
CF) são: a valorização do trabalho humano e a livre-iniciativa, com a finalidade de as-
segurar a todos'
existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os
seguintes princípios: (a) soberania nacional; (b) propriedade privada; (c) função social
da propriedade; (d) livre-concorrência; (e) defesa do consumidor; (f) defesa do meio am-
biente; (g) redução das desigualdades regionais e sociais; (h) busca do pleno emprego;
(i) tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis
brasileiras e que tenham sua sede e administração no país.
O princípio da boa-fé está expressamente previsto no inciso I1Ido art. 4" do Código
de Defesa do Consumidor. O legislador impõe às partes o dever de manter o mínimo
de confiança e lealdade antes, durante e após cumprimento da obrigação. O comporta-
mento das partes deve ser coerente com a vontade manifestada, evitando-se o elemento
surpresa, tanto na fase de informação, quanto na de execução, e até mesmo na fase pos-
terior, que se pode chamar de fase de garantia e reposição. Evidente que este princípio
é fundamental para a harmonização de interesses e equilíbrio nas relações entre forne-
cedores e consumidores.
José Geraldo Brito Filomento (2004, p. 70) aponta para três instrumentos que de-
vem ser utilizados na harmonização das relações de consumo, a saber: (a) o marketing
de defesa do consumidor, consubstanciado nos serviços de atendimento ao consumidor, já
presente em várias empresas; (b) a convenção coletiva de consumo, assim definidos os pactos
estabelecidos entre as entidades civis de consumidores e as associações de fornecedores
ou sindicatos de categorias; (c)as práticas de recall, ou seja, a convocação de consumido-
res para reparo de algum vício ou defeito apresentado pelo produto ou serviço adquirido
pelo consumidor.
3.1.4 Educação e informação dos consumidores
Sem dúvida, a educação e a informação dos consumidores são fundamentais para
uma sociedade mais justa e equilibrada. Por esta razão, o legislador inseriu no art. 4",
IV, a necessidade de formação de cidadãos aptos a exercer a livre manifestação de von-
tade, conscientes de seus direitos e deveres perante a sociedade. O dever de educação e
informação cabe não somente ao Estado, mas também aos fornecedores de produtos e
serviços e às entidades privadas de defesa e proteção do consumidor.
Em consonância com o disposto no art. 4º, o art. 6º, lI, do Código de Defesa do
Consumidor garante ao consumidor o direito de educação e divulgação sobre o consu-
mo adequado de produtos e serviços, para que o consumidor possa, efetivamente, exer-
cer seu direito de escolha e manter pé de igualdade com o fornecedor nas contratações.
Ademais, o direito à informação, descrito no art. 6º, m, determina que o contrato
de consumo deve ser firmado em ambiente de absoluta transparência entre as partes,
sob pena de macular a manifestação de vontade do consumidor.
Política nacional e relações de consumo 29
3.1.5 Controle de qualidade e segurança dos produtos e serviços
O legislador determinou ao fornecedor de produtos e serviços que incentive a cria-
ção de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços,
assim como de mecanismos alternativos de solução de conflito de consumo (art. 4", V).
3.1.6 Coibição e repressão das práticas abusivas
Outro princípio, de grande relevância, estabelecido pelo art. 4", VI, determina:
"Coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo,
inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais
das marcas e nomes comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos
consumidores. "
Nos Capítulos lI, 12 e 13, estudaremos as práticas consideradas abusivas, bem
como a oferta e a proibição de publicidade enganosa ou abusiva no mercado de consumo.
No que diz respeito ao tratamento da concorrência desleal e da propriedade indus-
trial, pretendeu o legislador consumerista a proibição de tais práticas para que de ne-
nhuma maneira cause prejuízos ao consumidor, direta ou indiretamente.
Assim, não pode o fornecedor utilizar-se de marca idêntica ou parecida com outra
famosa para enganar o consumidor e, consequentemente, alavancar vendas. Deve-se
entender que o objetivo deste princípio é a condenação de práticas que tragam prejuízo
ao consumidor.
3.1. 7 Racionalização e melhoria dos serviços públicos
O art. 4" do Código de Defesa do Consumidor obriga o fornecedor à melhoria e à
racionalização dos serviços públicos, com a finalidade de que todos possam ter acesso
aos serviços públicos de água, luz elétrica, telefonia, gás, entre outros.
Demais disso, o art. 6", X, garante ao consumidor o direito ao serviço público ade-
quado e eficaz, e o art. 22, por sua vez, impõe deveres ao prestador do serviço público,
conforme veremos na seção 4.7.
3.1.8 Estudo das constantes modificações do mercado de consumo
A determinação de estudo constante sobre as modificações do mercado de consu-
mo abrange as questões das reações e oscilações do mercado, principalmente no que
concerne a invenções de novos produtos e serviços inseridos no mercado de consumo,
que careçam de regulamentação. É exemplo claro desta necessidade a crescente venda
de produtos e serviços através da Internet que ainda necessita de regulamentação legal
para a devida proteção do consumidor.
30 Direito do consumidor • Densa
3.2 Da execução da política nacional de consumo
\3.2.2 Promotorias e associações de defesa do consumidor
Política nacional e relações de consumo 31
2. As formasdeexecuçãoda PolíticaNacionaldasRelaçõesdeConsumoprevistaspelogoverno
não incluema hipótesede (MP- SE- 2010):
a) criação de juizado especial para causas consumeristas;
b) criação de delegacias especializadas em matéria consumerista;
c) criação de promotorias de justiça especializadas em matéria de consumidor;
d) criação de associações de consumidores para defesa destes nas relações de consumo;
e) garantia de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente.
3. Paraaexecuçãoda PolíticaNacionaldas RelaçõesdeConsumo,contaráo PoderPúblicocom
os seguintesinstrumentos (MinistérioPúblíco/Pi- 2002):
a) A instituiçãode PromotoriasdeJustiçadeDefesado Consumidor,no âmbitodo Poder
Judiciário; criação de Delegacias de Polícia especializadas no atendimento de consumi-
doresvítimasde infraçõespenaisde consumo;criaçãodeJuizadosEspeciaisde Peque-
nas Causas e Varas Especializadas para a solução de litígios de consumo; concessão de
estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do Consumidor.
b) Manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente; ins-
tituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito do Ministério
Público;criaçãode Delegaciasde Políciaespecializadasno atendimentodeconsumido-
res vítimas de infrações administrativas de consumo; criação de Juizados Especiais de
Pequenas Causas e Varas Especializadas para a solução de litígios de consumo.
Questões
1. As açõesgovernamentaisdestinadas a protegero direitodo consumidorincluem(MP- SE-
2010):
I- fazer propaganda de alerta sobre tema de interesse do consumidor;
II- apoiar, por meio de incentivos, a criação de associação representativa dos consumido-
res;
III- indenizaro consumidorpor defeitosdos produtos que tenham provocadogravedano
à saúde.
Assinale a opção correta.
a) Apenas o item I está certo.
b) Apenaso item 11está certo.
c) Apenas os itens I e II estão certos.
d) Apenasos itens 11e IIIestão certos.
e) Todos os itens estão certos.
Outrossim, muitas são as demandas que envolvem relações de consumo, o que justifica,
sem dúvida, a criação de varas especiais.
Os Juizados Especiais Cíveis (Lei nº 9.099/95) têm-se mostrado excelente maneira
de solução de conflitos de menor complexidade advindos das relações de consumo (até
40 salários-mínimos). Ademais, o consumidor, pessoa fisica, poderá demandar no jui-
zado especial,
sem a presença de advogado, nas causas com valor até 20 (vinte) salários-
mínimos, o que facilita o acesso à justiça e eficácia dos direitos atribuídos ao consumidor.
Delegacias especializadas
Assistência jurídica integral e gratuita
A instituição de promotorias especializadas na defesa do consumidor é outro instru-
mento de que o Poder Público deve se valer para efetivar os princípios instituídos no art.
42. Sem dúvida, a atuação do Ministério Público é essencíal para o efetivo cumprimento
dos direitos inseridos no Código de Defesa do Consumidor, posto que lhe é atribuída
a tarefa, entre outras, de defesa do consumidor em juízo quando se tratar de direitos
difusos e coletivos, além da defesa dos direitos individuais homogêneos, na forma dos
arts. 81 e 82 do CDe.
A concessão de estímulo, por parte do Poder Público, para a criação e o desenvolvi-
mento de associações de defesa do consumidor, é outra forma de dar eficácia aos direitos
concedidos aos consumidores.
A instituição de delegacias de polícia especializadas nos atendimentos dos consumi-
dores vitimas de infrações penais de consumo está prevista no art. 5º do Código de Defe-
sa do Consumidor e busca a efetiva punição daqueles que cometem crimes de consumo.
A criação de Juizados Especiais e Varas Especializadas no julgamento de causas rela-
tivas às relações de consumo é instrumento para a efetivação dos direitos do consumidor.
No que tange à criação de Varas Especializadas, é importante ter em mente que o
Código de Defesa do Consumidor é um microssistema jurídico, composto de verdadei-
ros princípios que lhe são próprios, relacionando-se, ainda, com vários ramos do Direito.
A manutenção de assistência jurídica integral é fundamental para a educação do
consumidor, quando se trata de orientação jurídica, bem como para o efetivo acesso ao
Poder Judiciário do consumidor hipossuficiente que comprove a insuficiência de recur-
sos para demanda judicial. A assistência jurídica gratuita é tratada pela Lei nº 1.060/50
e também pelo art. 5º, inciso LXXIV,da Constituição Federal.
Estudamos os princípios norteadores da política nacional de consumo. Passaremos
à análise dos instrumentos que o Poder Público deve utilizar para o cumprimento de
tais princípios.
'\.3.2.4 Juizados Especiais e Varas Especializadas de Consumo
\3.2.3
\3.2.1
~
11;t.
I"r'~
Ui
\~
, :[,
(I:'
~t.
;(
32 Direito do consumidor • Densa
c) Manutenção de assistência jurídica parcialmente gratuita para o consumidor carente;
instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no ãmbito do Ministério
Público; criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especializadas para
a solução de litígios de consumo; concessão de estímulos à criação e desenvolvimento
das Associações de Defesa do Consumidor.
d) Manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente; ins-
tituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no ãmbito do Poder Judi-
ciário; ~oncessãode estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa
do Fornecedor.
e) Manutenção de assistência jurídica. integral e gratuita para o consumidor carente; ins-
tituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no ãmbito do Ministério
Público; criação de Delegacias de Polícia especializadas no atendimento de consumi-
dores vítimas de infrações penais de consumo; criação de Juizados Especiais de Peque-
nas Causas e Varas Especializadas para a solução de litígios de consumo; concessão de
estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do Consumidor.
4. Assinale a alternativa incorreta (Ministério Público/PR - 2002):
a) A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das ne-
cessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção
dos interesses econômicos dos fornecedores, a melhoria de sua qualidade de vida, bem
como a transparência e harmonia das relações de consumo.
b) É princípio a ser observado pela Política Nacional das Relações de Consumo o reconhe-
cimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo.
c) Para a execução da Politica Nacional das Relações de Consumo, contará o Poder Público,
dentre outras providências, com a instituição. d.e Promotorias de Justiça de Defesa do
Consumidor.
d) O consumidor tem direito à modificação de cláusulas CÕI1trãtijãis~que estabeleçam
. prestações desproporcionais.
e) O consumidor tem direito à revisão de cláusulas contratuais que tenham se tornado.
em razão de fatos supervenientes. excessivamente onerosas.
5. Os princípios fundamentais da Política Nacional das Relações de Consumo são (Procurador
da República - 232):
a)' princípio da vulnerabilidade do consumidor, princípio da garantia de adequação, prin-
cípio d~ boa-fé nas relações de consumo. princípio da informação e princípio do acesso
à Justiça;
b) princípio da vulnerabilidade do consumidor, princípio da reserva legal, princípio da boa-
fé nas relações de consumo, princípio da informação e princípio do acesso à Justiça;
c) princípio da vulnerabilidade do consumidor, princípio da boa-fé nas relações de consu-
.' .~ mO,princípio da:informação,princípioda~publicidade não abusiva e principio da ante-
. ,c I; 'rioridade;
. 'd) 'prinsípio'da vlÍlnérabilidadedo consumidor, princípio da reserva legal, princípio da boa-
\1.:' 'fé'riâs telaçõeS:'-de-'con'sumo,--princípio"-dã>p'ublicidadenão'~bU:sivae prinCípio do acesso
:J'~ .àJustiça ..
I:
.6... Na análise criteriosa da principiologia do Código de Defesa do Consumidor, quanto aos prin-
.cípios da Vulnerabilidade e da hipossuficiência do consumidor, podemos afirmar que (Minis-
tério Público/AC -10º):
;r ..
.;,.q.,
r"
Política nacional e relações de consumo 33
a) o princípio da vulnerabilidade é de Direito Material e o da hipossuficiência é de Direito
Processual;
b) ambos os princípios são de Direito Material;
c) o princípio da vulnerabilidade é de Direito Processual e o da hipossuficiência é de Di-
reito Material;
d) ambos os principios são de Direito Processual.
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Direitos básicos do consumidor
Os direitos básicos do consumidor estão apresentados no art. 6º do Código de Defesa
do Consumidor. O rol nele inserido constitui o patamar mínimo de direitos atribuídos ao
consumidor que devem ser observados em qualquer relação jurídica deconsumo. Sãoeles:
proteção da vida, saúde e segurança (art. 6º, I);
educação e U;f~rmação (art. 6º, 11e III);
proteção contra publicidade enganosa ou abusiva e práticas comerciais con-
denáveis(art. 6º, IV); .
modificação e revisão das cláusulas contratuais (art. 6º, V);
prevenção e reparação de danos individuais e coletivos (art. 6º, VI e VII);
facilitação da defesa de seus direitos (art. 6º, VIII);
adequada e eficaz prestação de serviços públicos (art. 60, X).
4.1' Proteção da vida, saúde e segurança
A regra contida no art. 6º, inciso I, garante ao consumidor a proteção da vida, saú-
de e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e
serviços considerados perigosos ou "nocivos".
Trata-se de direito indisponível e assegurado pelo art. 5º da Constituição Federal.
Ademais, quis o legislador deixar claro que os produtos e serviços colocados no mercado
de consumo não devem expor o consumidor a riscos e consequentes prejuízos à saúde,
segurança e patrimônio. A respeito da periculosidade dos produtos e serviços e sua co-
mercialização, vide Capítulo 5.
1IIi
36 Direito do consumidor • Densa
4.2 Educação e informação
O art 6º, 11,insere como direito básico do consumidor "a educação e divulgação so-
bre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e
a igualdade nas contratações".
Vimos que a'política Nacional das Relações de Consumo invoca
o princípio da edu-
cação e informação dos consumidores para o desenvolvimento de uma sociedade mais
justa e equilibrada.
A formação de cidadãos aptos a exercer a livre manifestação de vontade, conscien-
tes de seus direitos e deveres perante a sociedade, é imprescindível para a harmonização
das relações de consumo.
"Referidotrabalho educativonão tem apenas a finalidadede alertar os consumidores
com relação a eventuais perigos representados à sua saúde, por exemplo, na aquisi-
ção de alimentos com certas características que podem indicar sua deterioração, mas
tambémpara que se garanta ao consumidor a liberdade de escolha e a almejadaigualda-
de de contratação, informando-o previamente das condições contratuais, e para que ele
não seja surpreendido posteriormente com alguma cláusula potestativa ou abusiva"
(FILOMENO, 2004, p. 138).
Em complemento ao art. 6º do CDC, a Lei nº 12.291/10 passou a obrigar que todos
os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços mantenham, em local visível
e de fácil acesso ao público, um exemplar do Código de Defesa do Consumidor. Referi-
da norma pretende educar o consumidor e dar a ele a possibilidade de conhecer e exigir
seus direitos no momento da compra. A multa pelo descumprimento desta regra pode
chegar a R$ 1.064,10 (mil e sessenta e quatro reais e dez centavos).
A doutrina aponta para dois tipos de educação para o consumidor: a educaçãofor-
mal, a ser dada nos diversos cursos desde o ensino fundamental nas escolas públicas e
privadas, e a educação informal, de responsabilidade dos fornecedores, no sentido de bem
informar o consumidor sobre as características dos produtos e serviços já colocados no
mercado de consumo.
Quanto ao direito à informação, estabelecido no inciso 1lI do mesmo artigo, está
intimamente ligado ao direito à educação, traduz o direito do consumidor a todas as in-
formações relativas ao produto ou serviço, devendo o fornecedor especificar a qualidade,
a quantidade, as características, a composição, os preços e os riscos que ele apresenta.
A falha na informação ou na comunicação é considerada defeito do produto ou servi-
ço, ensejando a responsabilização civil, se produzir dano, conforme se verá na seção 7.1.2.
4.3 Proteção contra publicidade enganosa ou abusiva e práticas comerciais
condenáveis
O Código de Defesa do Consumidor, no art. 6º, inciso IV, preceitua como direi-
to básico do consumidor a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos
Direitos básicos do consumidor 37
comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou
impostas no fornecimento de produtos e serviços.
O Capítulo V do Código de Defesa do Consumidor trata especificamente das práti-
cas comerciais e dedica três seções para cuidar das regras que o fornecedor deve cumprir
para a oferta e publicidade de seus produtos no mercado de consumo.
Publicidade corresponde a qualquer meio de difusão e informação, cuja finalidade
seja a promoção da aquisição de produtos e serviços inseridos no mercado de consumo.
Publicidade enganosa é a que induz o consumidor a erro, informando de modo contrário
à realidade. Publicidade abusiva, por sua vez, é a que explora o preconceito, a discrimi-
nação e a superstição (ver seção 13.1.3).
A informação sobre produtos ou serviços também está inclusa no conceito de publi-
cidade. A oferta do produto ou serviço integra o contrato, e a apresentação tem caráter
vinculativo (a respeito do assunto e sobre a distinção entre publicidade e propaganda,
ver seções 12.1 e 12.2).
Outro direito básico do consumidor é a proteção contra as cláusulas abusivas ou
impostas no fornecimento de produtos ou serviços. Isso ocorre em razão da massifica-
ção dos contratos, em que os consumidores simplesmente aderem sem poder discutir
suas cláusulas.
Sem dúvida, este tema é de grande relevância para a proteção do consumidor, tanto
assim que o Código de Defesa do Consumidor dedica todo o Capítulo VI para a proteção
contratual do consumidor, assunto que estudaremos no Capítulo 17 desta obra.
4.4 Modificação e revisão das cláusulas contratuais
Constitui direito básico do consumidor "a modificação das cláusulas contratuais que
estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenien-
tes que as tornem excessivamente onerosas" (art. 6º, V).
Em razão deste princípio básico, tem o consumidor o direito de requerer em juízo
a alteração das cláusulas que estabeleçam contraprestações desproporcionais, o que im-
plica a relatividade da aplicação da regra do pacta sunt servanda, no caso concreto. Assim,
o contrato é passível de alteração sempre que a cláusula não se revelar justa.
A cláusula injusta ou desproporcional é aquela que deixa de estabelecer direitos ou
obrigações com reciprocidade. O consumidor pode pleitear, a qualquer tempo, a nulidade
da cláusula injusta ou desproporcional sem que se leve à anulação do contrato.
Neste passo, vale informar que o Código de Defesa do Consumidor introduziu no
ordenamento jurídico a teoria da imprevisão, ainda que de forma mitigada, que, até en-
tão, era sustentada apenas doutrinariamente. Pela teoria da imprevisão, o consumidor
tem direito de requerer revisão de cláusula contratual por superveniência de fato novo,
a fim de adequar o contrato à nova realidade.
Há doutrinadores que sustentam que a teoria da imprevisão não foi abarcada pelo
Código de Defesa do Consumidor uma vez que o elemento principal para a sua confi-
guração, a imprevisão, não é essencial para o consumidor requerer a revisão contratual.
38 Direito do consumidor • Densa
De fato, o preceito insculpido no inciso V do art. 6º do Código de Defesa do Con-
sumidor dispensa a prova do caráter imprevisível do fato superveniente, bastando a de-
monstração objetiva da excessiva onerosidade para o consumidor. Outrossim, não se faz
necessária a prova do enriquecimento ilícito do fornecedor.
O Código Civil em vigor prevê, no art. 478:
"Nos corltratos de execuçãocontinuada ou diferida, se a prestação de uma das partes
se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de
acontecimentos extraordinários e imprevisíveis. poderá o devedor pedir a resolução do
contrato. Os efeitosda sentença que a decretar retroagirão à data da citação."
Verifica-se, de plano, que para o Código Civil é necessário, para a modificação
contratual, a presença de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, sendo certo que,
para as relações de consumo, estes elementos não são essenciais, bastando a comprova-
ção da onerosidade excessiva por fato superveniente, que não precisa ser extraordinário
e imprevisto, posto que se presume a boa-fé e a vulnerabilidade do consumidor.
Cite-se.como exemplo a cláusula utilizada em contrato de arrendamento mercantil
que prevê o reajuste das prestações com base na variação da cotação de moeda estran-
geira. Sabemos que a modificação súbita da política cambial em janeiro de 1999 foi fato
superveniente que tornou as prestações excessivamente onerosas aos consumidores. A
jurisprudência majoritária externa entendimento de que é possível a utilização do re-
ajuste através de moeda estrangeira para os contratos leasing, mas, conforme o art. 6º,
inciso V, do Código de Defesa do Consumidor, a cláusula deve ser revista, determinando
a distribuição equitativa (metade) dos ônus entre arrendante e arrendatário (veja mals
sobre o assunto na seção 17.1.6).
Revisão judicial do contrato
Código Civil
Código de Defesa do
Consumidor
. onerosidade excessiva; . onerosidade excessiva;
. extrema vantagem para a outra; . fato superveniente.
. fato superveniente;
. acontecimento extraordinário e imprevisível. .
4.5 Prevenção e reparação de danos individuals e coletivos
A prevenção e a reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e
difusos, bem como o acesso aos órgãos judiciários e administrativos,
assegurada a pro-
teção jurídica, administrativa e técnica aos necessitados, são direitos básicos dos consu-
midores, garantidos pelo art. 6º, incisos VI e VIL
Direitos básicos do consumidor 39
O fornecedor deve respeitar as regras estabelecidas pelo Código de Defesa do Con-
sumidor, sobretudo no que diz respeito à boa-fé, direito à informação e proteção à saú-
de e segurança dos consumidores, para que haja a prevenção de danos aos consumidores.
Assim, a informação correta sobre a utilização do produto e a não inserção no mercado
de consumo de produtos perigosos são exemplos de prevenção que devem ser obedeci-
dos pelos fornecedores.
Já a reparação das perdas e danos dos consumidores deve ser efetiva, não havendo
que se falar em indenização tarifada. Destarte, as cláusulas contratuais que estabe-
lecetem valores limitados de indenização por prejuízo moral ou material advindo de
relação contratual entre consumidor e fornecedor são consideradas nulas, tanto em
razão do art. 6º, VI, como em razão do disposto no art. 51, I, do Código de Defesa do
Consumidor (veja seção 17.1.1).
O dano moral do consumidor também deve ser prevenido e reparado pelo fornecedor.
Ademais, os danos material e moral são plenamente cumuláveis, conforme esclarece a
Súmula 37 do Superior Tribunal de Justiça: "São cumuláveis as indenizações por dano
material e dano moral oriundos do mesmo fato." Além disso, "é lícita a cumulação das
indenizações de dano estético e dano moral" (Súmula 387 do STJ).
Interessa ressaltar o fato de o legislador ter inserido a prevenção e a reparação dos
direitos coletivos e difusos, o que pode ser requerido através do Ministério Público, das
Associações de Defesa do Consumidor, das entidades e órgãos da Administração Pública
da União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
4.6 Facilitação da defesa de seus direitos
Em razão da vulnerabilidade presumida do consumidor, o legislador conferiu ao juiz
o poder para decretar, a seu critério, a inversão do ônus da prova, se presente a verossi-
milhança das alegações do consumidor ou se presente a hipossuficiência.
É certo que o consumidor teria, em alguns casos, grandes dificuldades para fazer
prova em juízo de seu direito, uma vez que este não dispõe de controle sobre os bens de
produção. Por esta razão, a regra insculpida no art. 6º, VIII, em muito facilita a defesa
do consumidor.
É preciso esclarecer que a inversão do ônus da prova não é automática, e deve ser
examinada no caso concreto. Os requisitos são analisados objetivamente pelo juiz e de-
vem ser apurados segundo as regras ordinárias de experiência.
Entendemos por verossimilhança a plausibilidade, a provável procedência das ale-
gações do consumidor, ou seja, a alegação exposta pelo consumidor aparenta ser a ex-
pressão real da verdade, não podendo ser confundida com o fumus bani iuris ou indício
de que a alegação é verossímil.
De qualquer modo, dependerá das circunstâncias concretas que serão apuradas pelo
juiz para a decretação da inversão do ônus da prova, sempre com vistas à facilitação da
defesa do consumidor em juízo. Ademais, a inversão do ônus da prova não deverá afron-
tar o princípio do devido processo legal e da segurança jurídica.
40 Direito do consumidor • Densa
A hipossuficiência do consumidor pode ser econômica, técnica e jurídica. O consu-
midor pode ser considerado hipossuficiente do ponto de vista técnico em razão do desco-
nhecimento da questão em si ou em razão da dificuldade na obtenção dos dados periciais.
Neste sentido, esclarecedora a lição de Humberto Theodoro Júnior (2001, p. 140):
"A inversão do ônus da prova do Código de Defesa do Consumidor pressupõe dificulda-
de ou impossibilidade da prova apenas da parte do consumidor, não a impossibilidade
absoluta da prova em si. A prova para ser transferida de uma parte para a outra te'm
de ser, objetivamente, possível. O que justifica a transferência do encargo respectivo é
apenas a insuficiência pessoal do consumidor a promovê-la. Se este, portanto, aciona o
fornecedor. arguindo fatos absolutamente impossíveis de prova, não ocorrerá a inver-
são do onus probandi, mas a sucumbência inevitável da pretensão deduzida em juízo."
São exemplos de inversão de ônus da prova já apresentados pela jurísprudência:
"Direíto Processual Civil. Recurso especial. Ação de indenização por danos morais e
materiais. Ocorrência de saques indevidos de numerário depositado em conta poupan-
ça. Inversão do ônus da prova. Art. 6º, VlIl, do COe. Possibilidade. Hipossuficiência
técnica reconhecida. O art. 60, VllI, do CDC, com vistas a garantir o pleno exercício
do direito de defesa do consumido~, estabelece que a inversão do ônus da prova será
deferida quando a alegação por ele apresentada seja verossímil, ou quando constatada
a sua hipossuficiência. Na hipótese, reconhecida a hipossuficiência técnica do consu-
midor, em ação que versa sobre a realização de saques não autorizados em contas ban-
cárias, mostra-se imperiosa a inversão do ônus probatório. - Diante da necessidade de
permitir ao recorrido a indenizatória do consumidor, deverão ser remetidos os autos
à instância inicial, a fim de que oportunamente seja prolatada uma nova sentença. Re-
curso especial provido para determinar a inversão do ônus da prova na espécie" (REsp
915599/SP, ReI. Min. Nancy Andrighi, 3" TURMA, Dl' 05,09.2008).
"Processo civil e consumidor. Recurso especial. Ação de indenização por danos mate-
riais e morais. Violação de cofre durante furto ocorrido em agência bancária. Inversão
do ônus da prova. Possibilidade. Aplicação do direito à espécie. Procedência do pedido
de indenização pelos danos materiais apontados na inicial. Pedido de indenização for-
mulado por consumidor-locatário de cofre alugado em instituição financeira, que per-
deu seus bens nele depositados por ocasião de furto ocorrido no interior de instituição
bancária. Foi reconhecido nas instâncias ordinárias que a consumidora habitualmen-
te guardava bens valiosos (joias) no cofre alugado pela locadora-instituição bancária,
portanto, verossímeis as afirmações. Hipótese de aplicação do art. 60, VlIl, do CDC,
invertendo-se o ônus da prova em favor do consumidor, no que concerne ao valor dos
bens depositados no cofre locado. Reconhecido o dever de inversão do ônus probatório
em favor da consumidora hipossuficiente e com alegações verossímeis que exsurgem do
contexto das provas que produziu, aplica-se o disposto no art. 257 do RI5Tj e a Súmula
456 do STF, ressaltando-se que a instituição financeira-recorrida nunca impugnou o
valor pleiteado a título de danos materiais (STj - REsp 974994/SP - 3" Turma - ReI.
Min. Nancy Andrighi, Dl' 03.11.2008).
Outrossim, caso o magistrado tenha determinado a inversão do ônus da prova, o
réu (fornecedor) não está obrigado a antecipar o pagamento das custas referentes aos
honorários periciais. No entanto, se não houver a antecipação do pagamento das referi-
das custas, presumem-se verdadeiras as alegações do consumidor.
Direitos básicos do cOnsumidor 41
Neste sentido, já julgou o STl: "PROCESSUAL CIVIL - INVERSÃO DO ÔNUS
DA PROVA - EXTENSÃO - HONORÁRIOS PERICIAIS - PAGAMENTO _ PERÍCIA
DETERMINADA DE OFÍCIO - AUTOR BENEFICIÁRIO DA JUSTIÇA GRATUITA. 1.
Cinge-se a controvérsia em saber se a questão de inversão do ônus da prova acarreta a
transferência ao réu do dever de antecipar as despesas que o autor não pôde suportar.
2. A inversão do ônus da prova, nos termos de precedentes desta Corte, não implica
impor à parte contrária a responsabilidade de arcar com os custos da perícia solicita-
da pelo consumidor, mas meramente estabelecer que, do ponto de vista processual, o
consumidor não tem o ônus de produzir essa prova. 3. No entanto, o posicionamento
assente nesta Corte é no sentido de que a parte ré, neste caso, a concessionária, não
está obrigada a antecipar os honorários do perito, mas se não o fizer, presumir-se-ão
verdadeiros os fatos afirmados
pelo autor (REsp 466.604/RJ, ReI. Min. Ari Pargend-
ler e REsp 433.208/RJ, Min. José Delgado). (STj - AgRg no REsp 10429l9/SP - ReI.
Min. Humberto Martins, Dfe 31.03.2009). Veja também a respeito do assunto REsp
647544/SP e 729026/SP.
Muito se discute a respeito do momento da inversão do ônus da prova. Para alguns
doutrinadores, tal inversão pode ser decretada a qualquer momento, inclusive na sentença
de primeiro grau ou no acórdão em segunda instância. Tal entendimento fundamenta-se
no fato de que o legislador prevê a inversão do ônus como um direito básico do consu-
midor. É neste sentido o entendimento de Cláudia Lima Marques: "note-se que se trata
de um direito básico do consumidor, sendo assim, se requerido e não concedido pelo ma-
gistrado de primeiro grau, discussão de mérito, e não um problema processual, daí pode
ser invertido a qualquer tempo pelo magistrado das instâncias superiores" (2009, p. 64).
Vejamos recente julgado sobre o tema:
"RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR, INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. ART.
6º, VlIl, DO COe. REGRA DE JULGAMENTO, A inversão do ônus da prova, prevista
no Art. 6º, VlIl, do Código de Defesa do Consumidor, é regra de julgamenro. Ressalva
do enrendimento do Relator, no sentido de que tal solução não se compatibiliza com
o devido processo legal" (STj, REsp 9490001ES, ReI. Min. Humberto Gomes de Bar-
ros, Dl' 23.06,2008).
De outra banda, encontramos, na doutrina e na jurisprudência, posicionamento
contrário, asseverando que a inversão deve ser decretada, se possível, antes do término
da instrução processual:
"PROCESSO CIVIL - RECURSO ESPECIAL - CONSUMIDOR - INVERSÃO DO
ÔNUS DA PROVA - MOMENTO OPORTUNO - INSTÂNCIA DE ORIGEM QUE
CONCRETIZOU A INVERSÃO, NO MOMENTO DA SENTENÇA - PRETENDIDA
REFORMA - ACOLHIMENTO - RECURSO ESPECIAL CONHECIDO EM PARTE E,
NESSA EXTENSÃO, PROVIDO. A inversão do ônus da prova, prevista no artigo 6º,
inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor, como exceção à regra do artigo 333
do Código de Processo Civil, sempre deve vir acompanhada de decisão devidamente
fundamentada, e o momento apropriado para tal reconhecimento se dá antes do tér-
mino da instrução processual, inadmitida a aplicação da regra só quando da sentença
proferida. O recurso deve ser parcialmente acolhido, anulando-se o processo desde o
julgado de primeiro grau, a fim de que retornem os autos à origem, para retomada da
r-
42 Direito do consumidor • Densa
fase probatória, com o magistrado. se reconhecer que é o caso de inversão do ônus,
avaliea necessidadede novasprovas e, se for o caso, defiraas provas requeridas pelas
partes" (STj - REsp88165l/BA - 4ª Turma - ReI.Min. HélioQuagliaBarbosa - Df
21.05.2007 p. 592).
Entendemos que o juiz deve decretar a inversão do ônus da prova antes da senten-
ça, para que o forllecedor tenha a oportunidade de fazer a prova em juízo, em absoluto
respeito ao princípio do devido processo legal consagrado na Constituição Federal.
Ressalte-se que, no que diz respeito à matéria publicitária, não se faz necessário
atender a qualquer requisito de verossimilhança ou hipossuficiência, uma vez que o ônus
da prova já é invertido como regra (veja seção 13.1.3). Temos, portanto, que a inversão
do ônus da prova em matéria publicitária é ape legis, já que a lei é quem determina a
inversão por regra, nas demais matérias ligadas ao CDC a inversão será ape judice, pois
dependerá de determinação judicial.
4.7 Adequada e eficaz prestação de serviços públicos
O serviço público, prestado diretamente pelo Poder Público, por seu permissionário
ou concessionário, deve satisfazer às condições de regularidade, continuidade, eficiên-
cia, segurança e modicidade das tarifas. Este direito do consumidor é estabelecido pelo
art. 6", X, do Código de Defesa do Consumidor, bem como pela Lei nO8.987/95, que
regula o regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos.
Em complemento ao disposto no Código de Defesa do Consumidor, o art. 7º da Lei
nº 8.987/95 determina:
"Art. 7º Semprejuízodo disposto na Lei8.078, de 11de setembro de 1990, são direi-
tos e obrigaçõesdos usuários:
I - receber serviçoadequado;
11_ receber do poder concedente e da concessionáriainformaçõespara a defesade in-
teresses individuais ou coletivos;
III _ obter e utilizar o serviço,com liberdade de escolha,observadasas normas do po-
der concedentej
IV - levar ao conhecimento do Poder Público e da concessionáriaas irregularidades
que tenham conhecimento, referentes ao serviçoprestado;
V _ comunicar às autoridades competentes os atos ilícitos praticados pela concessio-
nária na prestação do serviço;
VI _ contribuir para a permanência das boas condiçõesdos bens públicos através dos
quais lhes são prestados os serviços."
Vimos também que o art. 42 do Código de Defesa do Consumidor obriga o forne-
cedor a melhorar e racionalizar os serviços públicos, com a finalidade de que todos pos-
sam ter acesso aos serviços públicos de água, luz elétrica, telefonia, gás, entre outros.
Direitos básicos do Consumidor 43
Os deveres dos órgãos públicos das empresas, concessionárias e permissionárias ou
sob qualquer outra forma de empreendimento estão estipulados no art. 22 do Código de
Defesa do Consumidor; eles devem fornecer serviços adequados, eficientes e seguros e,
quanto aos essenciais, contínuos. Destarte, caso o fornecedor não cumpra o estabelecido
em lei, deve arcar com as perdas e danos daí advindos.
Há quem sustente que, em razão da obrigatoriedade da continuidade do serviço pú-
blico, o consumidor não pode ter o serviço interrompido na hipótese de inadimplemento.
No entanto, a jurisprudência majoritária expressa entendimento de que, caso o consumi-
dor deixe de efetuar o pagamento das faturas mensais pelo fornecimento, o Poder Público
ou as empresas que prestam o serviço público podem efetuar o corte do fornecimento do
serviço público, sem que isso acarrete direito de indenização para o consumidor.
Vale ressaltar que, mesmo sendo possível o corte no fornecimento de serviço pú-
blico pelo não pagamento das faturas pelo consumidor, deve o fornecedor notificar o
consumidor sobre o inadimplemento, bem como sobre a interrupç~o dos serviços, sob
pena de responder por perdas e danos.
4.8 O serviço de atendimento telefônico aos consumidores (SAC)
O Decreto nº 6.523/08 regulamentou o Código de Defesa do Consumidor, especial-
mente os direitos básicos do consumidor, e estabeleceu regras para o Serviço de Aten-
dimento aos Consumidores. Cumpre ressaltar que a regulamentação, através de decreto,
está fundamentada no art. 24 da Constituição Federal, tudo conforme já mencionamos
no item 1.3 desta obra.
O mencionado decreto é destinado somente aos fornecedores ele serviços regulados
pelo Poder Público Federal. Desta forma, podemos afirmar que não são todos os for-
necedores que estão sujeitos às regras estabelecidas pelo decreto. Somente os serviços
regulados pelo poder público, através de agências (Anatel, Aneel, Ancine, ANS) ou au-
tarquias (Susep, Banco Central, CVM) é que estarão sujeitos às regras.
Assim, por exemplo, o serviço de telefonia, que está sujeito à regulamentação da
Anatel, e os serviços bancários, que estão sujeitos à regulamentação do Banco Central,
deverão cumprir, fielmente, as regras mencionadas.
O objetivo do decreto é a "observância dos direitos básicos do consumidor de obter
informação adequada e clara sobre os serviços que contratar e de manter-se protegido
contra práticas abusivas ou ilegais impostas no fornecimento desses serviços" (art. 12).
As principais regras estabelecidas pelo decreto no atendimento aos consumidores
são as seguintes:
As ligações para a solução dos problemas dos consumidores devem ser gra-
tuitas e o atendimento das solicitações e demandas não deverá resultar em
qualquer ônus para o consumidor (art. 3Q);
O serviço deverá garantir ao consumidor, no primeiro menu eletrônico, as op-
ções de contato com o atendente,
de reclamação e de cancelamento de con-
tratos e serviços (art. 40);
44 Direito do consumidor. Densa
A opção de contatar o atendimento pessoal constará de todas as subdivisões
do menu eletrônico (art. 42);
O consumidor não terá a sua ligação finalizáda pelo fornecedor antes da con-
clusão do atendimento (art. 42);
O acesso inicial ao atendente não será condicionado ao prévio fornecimento de
dados pelo consumidor (art. 42);,
O serviço deverá ficar disponível, ininterruptamente, durante 24 horas por dia
e sete dias por semana, ressalvado o disposto em normas específicas (art. 5º);
O acesso das pessoas com deficiência auditiva ou de fala será garantido pelo
SAC, em caráter preferencíal, facultado à empresa atribuir número telefônico
específico para este fim (art. 6º);
O número de telefone do serviço de atendimento ao consumidor deverá constar
de forma clara e objetiva em todos os documentos e materiais impressos en-
tregues ao consumidor no momento da contratação do serviço e durante o seu
fornecimento, bem como na página eletrônica da empresa na rede mundial de
computadores (art. 7º).
É obrigatória a manutenção da gravação das chamadas efetuadas para o SAC, pelo
prazo mínimo de 90 dias, durante o qual o consumidor poderá requerer acesso ao seu
conteúdo.
O registro eletrônico do atendimento será mantido à disposição do consumidor e
do órgão ou entidade fiscalizadora por um período mínimo de dois anos após a solução
da demanda.
O consumidor terá direito de acesso ao conteúdo do histórico de suas demandas,
que lhe será enviado, quando solicitado, no prazo máximo de 72 horas, por correspon-
dência ou por meio eletrônico, a seu critério.
4.8.1 Cancelamento do serviço
O decreto dispõe ainda que, nos casos de reclamação e de cancelamento de serviço,
o atendente deverá transferir imediatamente a ligação em, no máximo 60 (sessenta) se-
gundos, para o setor competente para o atendimento definitivo do consumidor.
Ainda quanto ao pedido de cancelamento do serviço pelo consumidor, o atendente
deverá receber e processar imediatamente o pedido feito pelo consumidor. É de se res-
saltar também que o consumidor poderá cancelar o serviço "por todos os meios dispo-
níveis para a contratação do serviço". Assim, por exemplo, se o consumidor pode con-
tratar o serviço por telefone ou internet, ele também poderá escolher cancelar o serviço
das duas formas mencionadas.
Outrossim, o cancelamento terá efeito imediatamente após o pedido do consumidor
e o comprovante do pedido de cancelamento será expedido por correspondência ou por
meio eletrônico, a critério do consumidor.
Direitos básicos do consumidor 45
4.8.2 Sanções administrativas
A inobservância das condutas estabelecidas pelo Decreto poderá ensejar aplicação
das sanções administrativas estabelecidas pelo Código de Defesa do Consumidor, sem
prejuízo das constantes dos regulamentos específicos dos órgãos e entidades reguladoras.
Questões
1. O boletim Brasil- Transgênicos, nº 477, de 12.02.2010, da AS-PTA (Associação pela Agricul-
tura Familiar e Agroecologia) e o portal www.fetecsp.org.br. em 11.02.2010, publicaram a
seguinte nota: "O Ministro Sérgio Rezende referendou o nome de Edilson Paiva para presidir
a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CNTBio durante os próximos dois anos.
Paiva é tão defensor dos alimentos transgênicos que tempos atrás disse aos jornais que uma
das vantagens da soja da Monsanto é que as pessoas .podem até beber o veneno nela aplicado
que não irão morrer. Ele também é contra a rotulagem de transgênicos nas embalagens dos
produtos e considera que o princípio da prevenção é na verdade um princípio da obstrução."
No âmbito do sistema tutelar do consumidor, as declarações do novo presidente da CTNBio
ferem qual direito básico dos consumidores (Defensoria Pública - São Paulo/20 lO)?
a) Direito à segurança e ampla defesa.
b) Presunção de vulnerabilidade do consumidor.
c) Proteção contra os riscos e informações claras sobre os produtos.
d) Direito de acesso aos órgãos administrativos e judiciários.
e) Proteção contra publicidade enganosa.
2. No sistema protetivo do consumidor (Defensor Público/MA - 2003):
a) a reparação dos danos materiais e morais é limitada de acordo com leis especiais regu-
ladoras de setores das relações de consumo;
b) haverá, sempre, a inversão do ônus probatório em seu beneficio, em face de sua presu-
mida hipossuficiência;
c) os serviços públicos são excluídos, já que objeto de leis próprias;
d) o acesso ao judiciário é sempre gratuito aos consumidores;
e) é garantido o direito de modificação ou de revisão das cláusulas contratuais.
3. Contempla o Código de Defesa do Consumidor (CDe), como norma de natureza processual,
a inversão do ônus da prova. Esta pode ser determinada (MagistraturalSP - 1730):
a) a critério do juiz, segundo as regras ordinárias de experiência, situando-se no campo
de sua prudente discricionariedade;
b) pelo juiz, só na hipótese de estar o consumidor no polo ativo da demanda;
c) a critério do juiz, para aferição da veracidade e correção de informação ou comunicação
publicitária;
d) a critério do juiz, desde que fundada no principio da vulnerabilidade e da plausibilidade
da alegação do consumidor.
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46 Direito do consumidor • - Densa
4. (Ministério Público/MT - 2002) Tendo-se em conta a forma pela qual o Código de Defesa
do Consumidor disciplina a execução do contrato de consumo, pode afirmar que a conhecida
teoria d~ imprevisão:
a) incide comandando a resolução do contrato tornado excessivamente oneroso;
b) comanda a resolução do contrato na hipótese de a onerosidade excessiva provir de Jatos
demonstradamente extraordinários e imprevistos;.
c) limita-se 'a comandar a revisão do contrato diante de onerosidade excessiva decorrente
de fato superveniente, porém independentemente de sua extraordinariedade e impre-
visibilidade;
d) Nenhuma.
5. Assinale a opção que não está de acordo com o Código de Defesa do Consumidor (OAB/
CESPE 2009. 1):
a) É direito do consumidor a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e
serviços, o que inclui a especificação correta de quantidade, caracteristicas, composição,
qualidade e preço e a explicitação dos riscos relacionados a produtos e serviços.
b) O consumidor tem direito à efetiva reparação de danos patrimoniais e morais, indivi-
duais, coletivos e difusos.
c) É direito do consumidor a facilitação da defesa de seus direitos, incluindo-se a inversão
do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz. for verossÍ-
mil a alegação ou quando ele for hipossuficiente.
d) O consumidor tem direito à modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam
prestações desproporcionais, mas não ~ revisão delas em razão de fatos superve~ientes
que as tornem excessivamente 'onerosas'.
6. No tocante às relações de consumo, é correto afirmar que (OAB/CESPE 2008. 3):
a) A pessoa jurídica não sofre dano moral indenizável.
b) É isento de responsabilidade o fornecedor que não tenha conhecimento dos vícios de
qualidade por inadequação de produtos e serviços de consumo.
c) A reparação do dano moral coletivo está prevista no Código de Defesa do Consumidor.
d) A interpretação das cláusulas contratuais deve ocorrer de forma a não favorecer nem
prejudicar o consumidor.
7. Assinale a alternativa incorreta. Em matéria.de relações de consumo, a inversão do ônus da
prova ~m favor do, consumidor (Ministério Público/SP - 85°):
a) visa à facilitação dos direitos do consumidor;
.';."b) ";'cabe quando, a critério do juiz da causa; a alegação do consumidor for verossímil;
c) 'deve seraplicada>quando o consumidor é hipossuficiente;
" d),' quando a'ação se'tefere à publicidade enganosa, é automática;
e) não pode ser aplicada quando o prestador de serviço é '0 Poder Público. '
, I .,.'."
8, ,.Quanto.à inversi\o do ôl'us,da.prova
no âmbito do Código deDefe~a d().Cqnsumidor (Lei
8.078/90), assinale a alternativa correta (OABlRj - 2003):
" ... a) .0 CpC.prevê apenas a inversão ope legis.
b) O COC prevê apenas a inversão ope judiee.
Direitos básicos do consumidor 47
c) O CDC não prevê a inversão do ônus da prova.
d) O CDC prevê a inversão ope legis e a inversão ope judiee.
9. A inversão do ônus da prova de que trata o Código de Defesa do Consumidor (Procurador
da República - 21°):
a) poderá ser determinada ranto a requerimento da parre, como ex o[fieio;
b) é automática se ao consumidor, quando parre de um processo judicial, interessa somen-
te a prova de certos fatos constitutivos do seu alegado direito;
c) é admitida, em juízo, sob critérios do juiz, adotados livremente;
d) não é automática, depende da iniciativa da parte.
~~.<-, ...
ti
1
j•
7-" -
Periculosidade dos produtos e serviços
o art. 6º, I, do Código de Defesa do Consumidor, garante ao consumidor a proteção
da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de
produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos.
Em complemento a esta regra, o Capítulo IV do Código de Defesa do Consumidor
_..•Jratada qualidade,.da prevenção.e_dax.eparação_de_danos_causados.por _produtos.e -ser-
viços inseridos no mercado de consumo.
O art. 8º do Código de Defesa do Consumidor determina que "os produtos e ser-
viços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança
dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua
natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as infor-
mações necessárias e adequadas a seu respeito".
A lei não exige que o produto ofereça segurança absoluta, mas a segurança mínima
que o consumidor pode esperar. Ademais, não podem ser considerados defeituosos os
produtos tão somente por trazerem risco intrínseco; no entanto, a periculosidade deve
ser previsível para o consumidor. .
Há produtos que são colocados no mercado de consumo que, por si sós, poderiam
causar prejuízos à saúde do consumidor, tais como os agrotóxicos, remédios, fogos de
artifício, entre.outros. O fornecedor pode comercializar estes produtos desde que cUm'
pra o dever de informar o consumidor sobre os riscos ou perigos inerentes ao produto
ou serviço, bem como cumpra as normas técnicas de segurança e armazenagem.
As informações a respeito da correta utilização do produto ou serviço devem estar
no próprio produto ou impresso que o acompanha. Assim, por exemplo, um liquidifica-
dor deverá ser comercializado juntamente com manual de instrução, demonstrando ao
consumidor a correta utilização do produto, deixando bem claros os riscos que a utili-
zação indevida pode ocasionar à segurança do consumidor.
50 DireitO do consumidor • Densa
Produtos ou serviços cujo risco venha a ser conhecido posteriormente à colocação
no mercado de consumo obrigam o fornecedor a comunicar pela imprensa aos consumi-
dores e ao Poder Público sobre o ocorrido. Deve ainda o fornecedor, se for o caso, reti-
rar o produto do mercado de consumo a fim de que não cause maiores prejuízos, além
de ressarcir as perdas e danos pelos prejuízos já causados. Da mesma forma, o Poder
Público exerce fiscalização e tem poder de retirar do mercado o produto que se tornar
nocivo ou perigbso.
Ademais, não pode o fornecedor colocar no mercado de consumo produto ou ser-
viço que apresente alto grau de periculosidade ou nocividade à saúde e à segurança dos
consumidores.
Os conceitos de nocividade e de periculosidade são abertos, devendo o juiz, no caso
concreto, examinar o patamar aceitável de risco para os consumidores, levando em con-
sideração a utilidade do produto ou serviço, bem como a possibilidade de manter-se ou
não no mercado de consumo.
Cumpre ressaltar também que, nestas hipóteses, se o fornecedor não cumpre seu de-
ver de informação a respeito da periculosidade do produto ou serviço, esta omissão deverá
ser suprida por comunicação promoviqa pelo Poder Público, na forma do art. 10, ~ 3º.
Vejamos a seguinte classificação quanto à periculosidade dos produtos:
periculosidade latente ou inerente: diz respeito aos produtos que trazem con-
sigo uma periculosidade que lhes é própria; no entanto, esta periculosidade
deve ser informada e prevista pelo consumidor;
periculosidade adquírida: diferentemente da periculosidade inerente, os pro-
dutos ou serviços apresentam defeitos de fabricação que põem em risco a in-
columidade física do consumidor. Destarte, a periculosidade é sempre impre-
vista pelo consumidor;
periculosidade exagerada: trata-se de produto ou serviço em que, mesmo o
fornecedor tomando os devidos cuidados no que tange à informação dos con-
sumidores, não são diminuídos os riscos apresentados, não podendo ser in-
serido no mercado de consumo.
Assim, o fornecedor tem o dever de indenizar o consumidor nas hipóteses de danos
experimentados por este quando ocasionados por produto ou serviço que apresente peri-
culosidade exagerada, uma vez que não poderia tê-los inserido no mercado de consumo,
bem como quando apresenta periculosidade adquirida, por apresentar defeito não previ-
sível ao consumidor, sendo adotada, aqui, a teoria do risco do negócio.
É necessário atentar para o fato de que, se o produto ou serviço perigoso não apre-
senta nenhuma impropriedade, o acidente de consumo pode ter sido causado em razão
de sua utilização indevida pelo próprio consumidor. No entanto, a utilização indevida
pode ter sido originada pelo desconhecimento do consumidor, acerca dos riscos ofere-
cidos pelo produto ou serviço. Neste caso, o fornecedor será responsabilizado se deixou
de prestar informações suficientes e adequadas.
Periculosidade dos produtos e serviços 51
Questões
L Considerando as disposições do Código de Defesa do Consumidor no que se refere à quali-
dade dos produtos e serviços, bem como à preservação da saúde e segurança do consumidor,
é correto afirmar que (Magistratura - MS/2010):
a) Observadas as normas administrativas correspondentes, é permitida a venda de produtos
e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde dos consumidores, desde que
a potencial nocividade ou periculosidade seja clara e adequadamente informada pelo
fomecedor.
b) Se o conhecimento da periculosidade de um produto for descoberta apenas após sua
introdução no mercado de consumo, cabe à União, aos Estados e Municípios, e não ao
fornecedor do produto, a veiculação de anúncios publicitários informando sobre a pe-
riculosidade.
c) O lançamento de um produto tecnologicamente mais avançado e mais seguro implica
a obrigação de recolhimento do produto similar anteriormente colocado no mercado e
que não tenha o mesmo grau de segurança.
d) A comercialização de produtos industriais que envolvam riscos normais e previsíveis
à saúde e segurança dos consumidores depende de autorização da autorídade sanitária
estadual.
e) As regras de proteção da saúde e segurança são aplicáveis apenas aos consumidores
adquirentes dos produtos ou serviços nocivos.
2. "O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto de risco, que sabe ou de-
veria saber apresentar grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança". Tem-se,
então, à vista deste texto (Procurador da República - 18º):
a) Responsabilidade advinda de culpa lato sensu, ante a cláusula "sabe" ou "deveria saber".
b) Exceção ao princípio geral da atividade econômica do risco.
c) Adoção da teoria do risco do negócio.
d) Não se incluem os danos daí advindos nos chamados acidentes de consumo.
3. Relativamente à proteção da saúde e segurança nas relaçôes de consumo, assinale a alterna-
tiva correta (Ministério Público/PI - 2002):
a) Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à
saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e
previsíveis
em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer
hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito.
b) Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à
saúde ou segurança dos consumidores, inclusive os considerados normais e previsíveis
em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer
hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito.
c) O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou
segurança, .contanto que de uso restrito, não precisa informar, de maneira ostensiva e
adequada, a respeito da sua nocividade ou periculosidade.
d) Em se tratando de produto industrial, ao fornecedor cabe prestar as informações rela-
tivas à saúde e à segurança nas relações de consumo, através de impressos que devam
acompanhar o produto.
52 Direito do consumidor • Densa
Responsabilidade civil
1 Para o estudo da Teoria Geral da Responsabilidade Civil, recomendamos o estudo do volume fi
}. desta coleção.
6.1 Noção geral 1
Podemos definir responsabilidade civil como sendo a obrigação que pode'incumbir
uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas
ou coisas que dela dependam (RODRIGUES, 1998, p. 6). Forma-se o vocábulo respon-
sável de responder, do latim respondere, tomado na significação de responsabilizar-se, vir
garantindo, assegurar, assumir o pagamento do que se obrigou ou do ato que praticou.
Em sentido geral, pois, responsabilidade exprime a obrigação de responder por alguma
coisa (SILVA, 2000, p. 713).
Neste passo, cumpre fazer breve distinção entre obrigação e responsabilidade civil. Para
Cavalieri Filho, obrigação é sempre um dever jurídico originário e responsabilidade é dever
", jurídico sucessivo, consequente violação do primeiro (2005, p. 24). Assim, se há uma
violação do dever jurídico originário previsto em lei ou no contrato (ato ilícito) nasce o de-
ver jurídico sucessivo de indenizar o prejuízo.
A responsabilidade civil nasce a' partir do ato ilícito, gerando a obrigação de indeni-
zar, que tem por finalidade colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência
do fato danoso.
O art. 927 do Código Civil assim dispõe: "aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187),
causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo". O art. 186 do mesmo diploma legal de-
termina: "aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, vio-
lar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito".
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o fornecedor poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou
deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segu-
rança, desde que haja a concordância do consumidor, através de convenção coletiva de
consumo.
'~.i.~
e)
Assinale a alternativa incorreta (Ministério Público/PR - 2002):
,a) 'Os prodptos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saú-
de ou segurança dos consumidores.
b) Os riscos normais e previsíveis em decorrência da natureza e fruição dos produtos e
serviços colocados no mercado de consumo são admitidos sem restrições e sendo de
dominio público fica o fornecedor exonerado de quaisquer õnus ou responsabilidade.
c) O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou
segurança deverá informar ,de maneira ostensiva e adequada, a respeito da nocividade
ou periculosidade.
d) O fornecedor não poderá. colocar nó mercado de ~onsumo produto ou serviço que sabe
ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segu-
rança.
e) O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se es-
pera.
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54 Direito do consumidor • Densa
Dos dispositivos legais citados verifica-se que os requisitos essenciais para que o
prejuízo causado seja indenizado são:
ação ou omissão voluntária (culpa);
nexo de causalidade;
dano. ,
Assim, a vítima de um evento danoso somente será indenizada se provar a ação ou
omissão culposa do agente, o nexo de causalidade e a extensão dos danos sofridos. Esta
é a regra geral fundamentada na teoria clássica do Direito Civil.
Importante notar que a culpa civil em sentido amplo abrange não somente o ato
ou a conduta intencional (dolo), mas também a negligência, imprudência ou imperícia,
qual seja, a culpa em sentido estrito.
No entanto, há hipóteses previstas na lei em que a vítima será indenizada mesmo
que não comprove a culpa do agente. Exemplo disso está no parágrafo único do mencio-
nado art. 927 do Código Civil: "haverá obrigação de reparar o dano, independentemente
de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvol-
vida pelo autor do dano implicar, por sOa natureza, risco para os direitos de outrem".
Verificam-se, portanto, duas teorias distintas para a análise da responsabilidade ci-
vil, quais sejam, a responsabilidade civil subjetiva e a responsabilidade civil objetiva. A respon-
sabilidade civil subjetiva repousa na culpa que, pela teoria clássica, é o seu fundamento,
sendo necessários todos os requisitos acima elencados para gerar o dever de indenizar,
quais sejam, ação ou omissão, nexo de causalidade e dano.
A responsabilidade civil objetiva dispensa o elemento culpa, bastando apenas que
haja um nexo de causalidade entre a ação e/ou a omissão e o resultado. Caberá ao autor
a prova tão somente da ação ou omissão do agente e o resultado danoso para que haja o
respectivo ressarcimento. É fruto da evolução das relações sociais, voltada a possibilitar
àquele que, prejudicado em razão de determinado comportamento humano, possa ver
seu dano reparado.
6.2 Responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor
Antes mesmo do advento do Código de Defesa do Consumidor, algumas leis já pre-
viam a responsabilidade civil objetiva como forma de proteção da vitima e garantia da
indenização em razão da dificuldade de se fazer a prova da culpa em juízo.
Responsabilidade civil 55
Não podemos olvidar que nas relações de consumo as dificuldades do consumidor
em provar a culpa do fornecedor são inúmeras. Podemos citar aqui a explosão de um
botijão de gás, falha no sistema de freio do veiculo por montagem inadequada, entre
outros fatos tão comuns em uma sociedade consumista. De fato, mesmo com toda a
evolução tecnológica, muitos são os casos de defeitos nos produtos e serviços inseridos
no mercado de consumo.
Para o legislador, o fornecedor que exerce atividade lucrativa no mercado de consu-
mo deve responder por eventuais vícios ou defeitos dos bens e serviços. Este dever está
ligado à obediência a normas técnicas e de segurança (dever de segurança), bem como
os critérios de lealdade perante os consumidores.
De fato, "o desenvolvimento tecnológico e dentífico, a par dos incontáveis benefícios
que trouxe a todos nós e à sociedade em geral, aumentou ao infinito os riscos do consu-
midor, por mais paradoxal que isso possa parecer" (CAVALIERI FILHO, 2005, p.496).
É por esta razão que o legi~lador adotou a regra da responsabilidade civil objetiva
para a reparação dos danos aos consumidores. Diga-se ainda que esta regra está em con-
sonância com a regra estabelecida no art. 6º, incisos VI e VII, que prevê o direito básiço
do consumidor de prevenção e reparação dos danos individuais e coletivos.
A responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços é tratada nos arts. 12
a 25 do Código de Defesa do Consumidor. Preferiu o legislador distinguir a responsabi-
lidade pelo fato do produto ou serviço (arts. 12 a 17) e a responsabilidade por vicio do
produto ou serviço (arts. 18 a 21),
conforme estudaremos a seguir.
6.3 Defeito ou vício?
Antes de adentrarmos o estudo da responsabilidade civil do fornecedor, cabe me-
lhor definição dos termos vício e defeito em consonância com o que dispõe o Código de
Defesa do Consumidor.
Podemos considerar defeito (ou fato) o problema apresentado pelo produto que atin-
ge a segurança do consumidor e, ainda que potencialmente, a sua incolumidade física
e moral. A definição de produto defeituoso está estampada no ~ Iº do art. 12 do Código
de Defesa do Consumidor. Pela dicção legaI, o produto deve ser considerado defeituoso
quando não oferece a segurança que dele legitimamente é esperada, levando-se em con-
sideração as circunstâncias relevantes, entre as quais sua apresentação, uso e riscos que
razoavelmente dele se esperam e a época em que foi colocado em circulação.
O produto também será considerado defeituoso por informações insuficientes ou
inadequadas. É certo que o direito à informação é direito básico do consumidor garan-
tido pelo art. 6º, !lI, lembrando que o fornecedor, ao inserir o produto no mercado de
consumo, deve apresentá-lo com todas as informações sobre os riscos e cuidados que
o consumidor deve tomar ao utilizá-lo. Destarte, o modo de apresentação do produto
inclui a comercialização, a publicidade anunciada pelo fornecedor, a rotulagem, as bulas
e os manuais de instrução.
Devemos lembrar que alguns produtos colocados no mercado de consumo, por si
só, poderiam causar prejuízos à saúde do consumidor. O fornecedor pode comercializar
tais produtos desde que cumpra o dever de informar o consumidor sobre os riscos ou
1"
I.
\
56 Direito do consumidor • Densa
perigos inerentes ao produto ou serviço, bem como cumpra as normas técnicas de se-
gurança e armazenagem.
Frise-se que, mesmo tomando todos os cuidados necessários, o fornecedor continua
responsável pelos prejuízos que causar aos consumidores, salvo as hipóteses de exclusão
de responsabilidade, conforme veremos.
O vício do produto o torna impróprio ao consumo, produz a desvalia, a diminuição
do valor e frustr~ a expectativa do consumidor, mas sem colocá-lo em risco. Cumpre no-
tar que o vício apresentado pelo produto durável ou não durável pode ser aparente (de
fácil constatação) ou oculto, sendo certo que o legislador fez distinção somente quanto
ao prazo para reclamar perante o fornecedor, conforme veremos. Conceito de vício no
Código de Defesa do Consumidor é inovador e difere do conceito de vício dos arts. 441
e 446 do Código Civil.
A doutrina aponta também a existência do vício de informação, que seria caracteri-
zado pela ausência de informação necessária ao consumidor para que este possa utilizar
adequadamente o produto. Devemos lembrar que, além do direito à informação, o con-
sumidor tem o direito básico à educação (art. 6º, inciso lI), determinando a necessidade
de os fornecedores ensinarem os consumidores a utilizar adequadamente o produto de
forma a aumentar sua vida útiL
Na lição de Bruno Miragem: "O vício de informação caracteriza-se como sendo o ori-
ginário do direito de informação do consumidor que termina atingindo a finalidade legiti-
mamente esperada por um determinado produto ou serviço. Assim o é, por exemplo, no
caso de um aparelho elétrico cuja voltagem, não informada adequadamente na embalagem
ou por qualquer outro meio, é diferente daquela onde o consumidor pretende fazer uso
do equipamento, assim como de produtos ou serviços que façam constar em seus rótu-
los, apresentações ou ofertas que possuem qualidades ou propriedades que_de fato não
detêm, assim como determinadas restrições de uso, informações complementares para
se atingir a finalidade pretendida, dentre outras informações relevantes" (2008, p. 311).
Caso o produto inserido no mercado de consumo apresente vícios, deve o fornecedor
ressarcir o consumidor pelos prejuízos causados, lembrando que o Código de Defesa do
Consumidor adotou a teoria da responsabilidade objetiva, razão pela qual o consumidor
não precisa provar a culpa do fornecedor para o recebimento da indenização.
Vimos, no item anterior, que o defeito coloca em risco a segurança do consumidor
e, agora, que o vício atinge somente a qualidade do produto. Logo, podemos notar que
o defeíto do produto sempre pressupõe a existência de um vício e expõe o consumidor a
risco de dano a sua saúde ou segurança, e dele decorre o acidente de consumo.
"Assim,podemos afirmar com relaçãoaos vícios,sob a égide do Códigode Defesado
Consumidor, os efeitos seriam no âmbito interno da coisa, diferentemente dos defei-
tos, cujos efeitos extrapolam este ãmbito, porquanto ponham em risco a incolumida-
de físicae psíquica do consumidor. Quando trata dos vícios, o Código de Defesado
Consumidor pretende proteger exclusivamente a esfera econômica do consumidor,
evitandoou reparando-lhe um prejuízo.Ao tratado do defeito (sob a rubrica 'fato'), o
Códigode Defesado Consumidor preocupa-secompossíveisdanos à integridadefísi-
ca e moral do consumidor e com formas de repará-los em caso de lesão a esses bens"
(SIMÃO, 2003, p. 132).
Responsabilidade civil 57
Há casos em que, aparentemente, o produto apresenta, ao mesmo tempo, um defeito
e um vício. Tomemos como exemplo o seguinte caso concreto: a montadora de um deter-
minado veículo utiliza, de forma inadequada, peça que une as rodas traseiras produzida
com material considerado pouco resistente, podendo provocar o desprendimento das
rodas traseiras do veículo. O Ministério da Justiça, após procedimento administrativo,
determina que a montadora faça o recall dos consumidores para estes troquem a peça a
fim de evitar acidente. Caso ainda não tenha ocorrido um acidente com o consumidor,
entendemos que há um vício do produto, razão pela qual deve o consumidor utilizar
pela solução estabelecida no art. 18 do CDe. Caso tenha ocorrido o acidente, aí, sim,
estamos diante de um defeito do produto, devendo ser utilizada a solução estabelecida
no art. 12 do mesmo diploma legaL
6.4 Reparação de danos materiais e morais
O Código de Defesa do Consumidor garante a efetiva reparação de danos patrimoniais
e morais, individuais, coletivos e difusos, em razão dos prejuízos causados nas relações
de consumo, tudo em conformidade com o disposto no art. 6º, inciso VI.
A reparação dos prejuízos experimentados pelos consumidores deve ser efetiva, sen-
do proibida qualquer indenização tarifada. Ademais, o art. 25 proíbe a inserção de cláu-
sulas contratuais que impossibilitem, exonerem ou atenuem a obrigação de indenizar
estabelecida pelos arts. 12 a 21 do Código de Defesa do Consumidor.
O dano moral do consumidor também deve ser devidamente reparado pelo for-
necedor. O dano material e o moral são plenamente cumuláveis, conforme esclarece a
Súmula 37 do Superior Tribunal de Justiça: "São cumuláveis as indenizações por dano
material e dano moral oriundos do mesmo fato." Além disso, "é lícita a cumulação das
indenizações de dano estético e dano moral" (Súmula 387 do STJ).
Requisitos essenciais para a configuração do dano moral são o abalo à honra, a dor
íntima, o sofrimento ou humilhação do consumidor. É certo que os fatos ocorridos que
estão incluídos nos percalços da vida, tratando-se de mero dissabor e aborrecimento,
não geram dano moral.
A jurisprudência e a doutrina apontam para a dificuldade em fixar o valor da inde-
nização por danos morais, uma vez que não há tarifação possível de ser aplicada no caso
concreto. Destarte, a indenização por dano moral deve ser fixada em termos razoáveis,
não se justificando a reparação que venha a constituir enriquecimento indevido ao con-
sumidor, devendo sempre ser evitados os abusos e exageros.
O arbitramento deve operar-se com moderação, proporcionalmente ao grau de culpa,
à gravidade da lesão, e deve servir também como medida educativa e desestimuladora de
reincidências, obedecendo sempre aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade.
6.5 Responsabilidade solidária
Sabemos que a responsabilidade solidária é decorrente de lei ou de vontade das partes
(art. 896 do Código Civil). O Código de Defesa do Consumidor determina a solidariedade
58 Direito do consumidor • Densa
entre os fornecedores, na forma do art. 25, ~ 1º: "havendo mais de um responsável pela
causação do dano, todos responderão solidariamente pela reparação".
Estabelece ainda o ~ 2º do mesmo artigo que, "sendo o dano causado por compo-
nente ou peça incorporada ao produto ou serviço, são responsáveis solidários seu fa-
bricante, construtor ou importador e o que realizou a incorporação". Importante notar
também que a responsabilidade do comerciante será solidária somente na hipótese de
defeito do produt'o, na forma do art. 13 do Código de Defesa do Consumidor, conforme
veremos a seguir.
É certo que a vontade do legislador em estabelecer a responsabilidade solidária en-
tre os causadores do dano nas relações de consumo está em plena consonância com o
princípio básico da reparação dos danos aos consumidores, estabelecida no art. 6º, VI,
bem como em consonância com o reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor na
forma do art. 4", I, do Código de Defesa do Consumidor.
Lembre-se de que a responsabilidade solidária gera a unidade da prestação, ou seja,
qualquer que seja o número de devedores, o débito é sempre único, podendo o consumi-
dor exigir a reparação dos danos de qualquer dos fornecedores de produtos ou serviços,
ou, até mesmo, de somente um dos causadores do dano.
6.6 Súmulas aplicáveis
Súmula 388 do SlJ: A simples devolução indevida de cheque caracteriza dano moral.
Súmula 387 do STJ: É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano
moral.
Súmula 385 do STJ: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não
cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o
direito ao cancelamento.
Súmula 370 do STJ: Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque
pré-datado.
Súmula 326 do STJ: Na ação de indenização por dano moral, a condenação em
montante inferior ao postulado na inicial não implica sucumbência recíproca.
Súmula 281 do STJ: A indenização por dano moral não está sujeita à tarifação pre-
vista na Lei de Imprensa.
Súmula 227 do STJ: A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.
Súmula 130 do SlJ: A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano
ou furto de veículo ocorrido em seu estacionamento.
Súmula 37 do STJ: São cumuláveis as indenizações por dano material e dano mo-
ral oriundos do mesmo fato.
•
Responsabilidade civil pelo fato
do produto e do serviço
7.1 Responsabilidade pelo fato do produto
A responsabilidade pelo fato ou defeito do produto está disciplinada no art. 12 do
Código de Defesa do Consumidor, que assim determina:
"Art. 12.O fabricante,oprodutor, o construtor, nacionalou estrangeiro,eo importador
respondem, independentementedaexistênciade culpa,pela reparaçãodosdanos causa-
dos aos consumidorespor defeitosdecorrentesde projeto, fabricação,construção,mon-
tagem, fórmulas,manipulação,apresentação ou acondicionamentode seus produtos,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
~ 1Q O produto é defeituoso quando não oferecea segurançaque dele legitimamente
se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes. entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmentedele se esperam;
III- a época em que foi colocadoem circulação.
~2º O produto não é consideradodefeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade
ter sido colocado no mercado.
~3º O fabricante,o construtor, o produtor ou importador só não será responsabiliza-
do quando provar:
I - que não colocouo produto no mercado;
II - que, embora haja colocadoo produto no mercado, o defeito inexiste;
UI - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro."
rr-
I
60 Direito do consumidor • Densa
o Código de Defesa do Consumidor adota a responsabilidade civil objetiva, o que
pode ser observado através da expressão independentemente da existência de culpa, utilizada
no caput do art. 12.
Sendo assim, para que o consumidor tenha seus prejuízos ressarcidos face a um
acidente de consumo, ele deverá provar o nexo de causalidade entre a ação ou omissão
do fornecedor e o dano, bem como a extensão dos danos. O consumidor fica, portanto,
dispensado de provar a culpa do fornecedor no evento danoso.
Sem dúvida que a adoção da responsabilidade objetiva pelo Código de Defesa do
Consumidor facilita a defesa do consumidor em juízo, e a efetiva reparação dos danos,
estando em plena consonância com os princípios que norteiam a legislação consumeris-
ta, na forma do art. 6º, incisos VI, VII e VIII.
7.1.1 Responsáveis pela reparação
O caput do art. 12 explicita quem são os responsáveis pela reparação dos danos.
Ao invés de utilizar o vocábulo fornecedor, preferiu o legislador inserir rol taxativo dos
responsáveis, quais sejam fabricante, eonstrutor, importador e produtor, alcançando a
todos da cadeia produtiva.
Há, segundo a doutrina, três tipos de fornecedores (DENARI, 2004, p. 181):
Responsabilidade civil pelo fato do produlO e do serviço 61
res e leveduras acima dos níveis tolerados pela divisão nacional de vigilância sanitária
de alimentos (TJRS,Apel. Cível 59844108).
Diga-se que esta ressalva quanto a responsabilidade do comerciante somente deve
ser aplicada ao defeito do produto, podendo ser classificada como subsidiária para estas hi-
póteses. Lembre-se que o art. 25 do CDC estabelece reponsabilidade solidária entre todos
os fornecedores, razão pela qual o comerciante responderá solidariamente nas hipóteses
de defeito do serviço e vício do produto e do serviço.
O direito de regresso é garantido ao comerciante que foi condenado ao pagamento
de indenização. É evidente que, mesmo nas hipóteses trazidas pelo legislador, o comer-
ciante pode não ser o causador do dano, ficando clara a possibilidade de o comerciante
requerer ressarcimento perante o causador direto do dano.
7.1.2 Produto defeituoso
O Código garante a reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apre-
sentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações sobre a
utilização e riscos.
É possível classificar o defeito do produto do seguinte modo:
\
fornecedor real: compreendidos o fabricante, produtor e construtor;
fornecedor presumido: assim entendido o importador de produto industrializado
~\l in natura;
fornecedor aparente: aquele que apõe seu nome ou marca no produto final.
7.1.1.1 Responsabilidade civil do comerciante
O comerciante também pode ser responsabilizado pelo fato do produto, na forma
do art. 13 da legislação consumerista, ressaltando-se que este deverá indenizar o con-
sumidor sempre que não puder ser identificado ou quando não houver identificação do
fornecedor (fabricante, construtor, produtor ou importador), ou, ainda, na hipótese de o
comerciante não conservar adequadamente o produto. O comerciante também responde
em razão da medição, da pesagem, ou se a balança não estiver aferida oficialmente pelo
órgão responsável.
Logo, somente o fornecedor mediato é quem deve responder pelos danos causados
ao consumidor por defeito do produto. O fornecedor imediato (comerciante) somente
responderá por defeito do produto nas hipóteses estabelecidas pelo art. 13 do Código
de Defesa do Consumidor, conforme veremos a seguir.
Cite-se, como exemplo de aplicação deste dispositivo, acórdão que reconhece a res-
ponsabilidade do comerciante pela contaminação dos consumidores de torta que estava
impregnada de salmonela, além de apresentar contagem de coliformes fecais e de bolo-
defeito de criação ou concepção: o defeito está na fórmula do produto, sendo re-
sultado tanto da
escolha inadequada do material utilizado pelo fornecedor
quanto do projeto tecnológico;
defeito de produção: é o defeito decorrente de falha instalada no processo pro-
dutivo e está presente na fabricação, montagem, construção ou acondiciona-
mento do produto;
defeito de informação ou comercialização: é o defeito que decorre da apresentação
ao consumidor, presente na rotulagem e na publicidade. A apresentação do
produto inclui todo o processo de informação ao consumidor, incluindo ins-
truções constantes de manuais de instrução para utilização do produto, rótu-
los e embalagens.
Vimos no Capítulo 5, a respeito da periculosidade dos produtos e serviços inseridos
no mercado de consumo, que o legislador proíbe a comercialização dos produtos nocivos
à saúde e segurança dos consumidores, devendo o fornecedor ser responsabilizado toda
vez que infringir esta regra.
Já a definição de produto defeituoso está estampada no ~ 12 do art. 12 do Código de
Defesa do Consumidor. Pela dicção legal, o produto deve ser considerado defeituoso
quando não oferece a segurança que dele legitimamente é esperada, levando-se em con-
sideração as circunstâncias relevantes, entre as quais sua apresentação, uso e riscos que
razoavelmente dele se esperam e a época em que foi colocado em circulação.
O direito à informação é direito básico do consumidor garantido pelo art. 6º, m,
lembrando que o fornecedor, ao inserir no mercado de consumo produto ou serviço,
!,
62 Direito do consumidor • Densa
deve apresentá-lo com todas as informações sobre os riscos e cuidados que o consumi-
dor deve tomar ao utilizar o produto ou serviço. Destarte, o modo de apresentação do
produto inclui a comercialização, a publicidade anunciada pelo fornecedor, a rotulagem,
as bulas e os manuais de instrução.
Já dissemos também que alguns produtos colocados no mercado de consumo, por
si só, poderiam causar prejuízos à saúde do consumidor. O fornecedor pode comercia-
lizar tais produtos desde que cumpra o dever de informar o consumidor sobre os riscos
ou perigos inerentes ao produto ou serviço, bem como cumpra as normas técnicas de
segurança e armazenagem.
Frise-se que, mesmo tomando todos os cuidados necessários, o fornecedor continua
responsável pelos prejuízos que causar aos consumidores, salvo as hipóteses de exclusão
de responsabilidade, conforme veremos a seguir.
7.1.2.1 Época em que o produto foi colocado em circulação
A época em que foi colocado no mercado de consumo também é fator determinan-
te para que o produto seja ou não con~derado defeituoso. O critério aqui utilizado está
ligado à expectativa do consumidor em relação ao produto no que tange à segurança
que dele se espera.
Interessa saber se o fornecedor ofereceu ao consumidor toda a segurança possível
na época em que o produto foi colocado em circulação. Se o produto já apresentava de-
feito e foi aperfeiçoado pelo fornecedor com o fito de sanar tais defeitos, não há que se
falar em incidência do disposto no art. 12, ~ 2º, em razão de inovação tecnológica, mas
adequação de produto defeituoso.
Neste diapasão, é importante notar que o ~ 2º do art. 12 dispõe que o produto não
pode ser considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colo-
cado no mercado.
Ora, se o fornecedor, em razão dos avanços tecnológicos, melhora a qualidade de seu
produto, não pode ser penalizado, já que não era defeituoso o produto que foi substituído.
Neste sentido é esclarecedor o julgado da 5' Turma Cível do Tribunal de Justiça do DF:
"Segundo o artigo 12, S2º, do Código de Defesa do Consumidor, 'o produto não é
considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado no
mercado.'Assim,o fato de ter sido feitoo lançamento de doismodelos de automóveis
em um mesmo ano é plenamente aceitável, sendo essa uma prática usual,para atrair
novos consumidores e para adaptar o novo veículo aos avanços tecnológicos. Desse
modo, a não comunicaçãoda revendedora, no momento da venda do veículo, de que
será feitoo lançamentode novaversão do veículo,ainda no mesmo ano, não significa
propagandaenganosanemqualquer ofensaao Código,deDefesadoConsumidor, mor-
mente quando o novo lançaniento vem sendo anunciado por revistas especializadas.
Por consequência, o consumidor que adquire um veículo em um ano e no mesmo ano
vê o lançamento de sua nova versão, não tem o direito de exigir da revendedora a subs-
tituição do veículo, pelo mais moderno, e muito menos indenização por danos morais
ou patrimoniais. sobretudo quando o automóvel adquirido não apresenta qualquer
Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço 63
defeito que o torne impróprio ou inadequado para o uso a que se destina" (Acórdão
nº 186372- ReI.Min.RobervalCasemiro Belinati).
7.1.2.2 Risco de desenvolvimento
O risco de desenvolvimento é aquele que não pode ser identificado quando da co-
locação do produto no mercado em função de uma impossibilidade científica e técnica,
somente sendo descoberto depois de algum tempo de uso do produto. Refere-se, pois,
a um defeito de criação ou concepçãodo produto, conforme definição já estabelecida na se-
ção 7.1.2.1.
Para que se caracterize o risco de desenvolvimento, o defeito do produto não pode
ser perceptível na época de seu lançamento. Deve corresponder a uma impossibilidade
absoluta da ciência em perceber o defeito, e não à impossibilidade subjetiva do fornecedor.
O Código de Defesa do Consumidor não prevê expressamente os riscos de desen-
volvimento em seu texto quando trata da exclusão de responsabilidade do fornecedor,
abrindo espaço para a discussão doutrinária, havendo dúvida a respeito da responsabi-
lidade do fornecedor.
Alguns juristas sustentam que são causa excludente de responsabilidade os ris-
cos de desenvolvimento, posto que, na época em que foi colocado em circulação, era
absolutamente impossível prever os riscos dele decorrentes, com fundamento no art.
12, ~ 1º, IlI.
No entanto, para a doutrina majoritária, os danos advindos dos riscos de desenvolvi-
mento devem ser indenizados pelo fornecedor, posto que o art. 12, ~ 3º, não exclui expres-
samente a responsabilidade do fornecedor. Assim, considerando que já existia o defeito
no momento da colocação do produto no mercado e inexistindo apenas o conhecimento
científico por parte do fornecedor, não há que se falar em exclusão de responsabilidade.
Sérgio Cavalieri Filho (2005, p. 515), admitindo que se trata de defeitos de concepção,
decorrentes de carência de informações científicas na época da concepção, pondera que
"os riscos de desenvolvimento devem ser enquadrados como fortuito interno - risco inte-
grante da atividade do fornecedor - pelo que não exonerativo da sua responsabilidade".
É correto afirmar também, em razão de toda a sistemática de defesa do consumidor,
que não pode o consumidor arcar com os prejuízos decorrentes dos riscos de desenvol-
vimento, já que o Código de Defesa do Consumidor objetiva a proteção integral do con-
sumidor, garantindo no art. 6º, I, a proteção da vida, saúde e segurança dos consumido-
res contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos perigosos ou
nocivos no mercado.
É neste sentido o entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
DIREITODOCONSUMIDOR.CONSUMODESURVECTOR,MEDICAMENTOINI-
CIALMENTEVENDIDODEFORMALIVREEMFARMÁCIAS.POSTERIORALTE-
RAÇÃODE SUAPRESCRIÇÃOE IMPOSIÇÃODE RESTRIÇÃOÀ COMERCIALI-
ZAÇÃO.RISCODO PRODUTOAVALIADOPOSTERIORMENTE,CULMINANDO
COMA SUAPROIBIÇÃOEMDIVERSOSPAÍSES.RECORRENTEQUEINICIOU
1
\
64 Direito do consumidor • Densa
o CONSUMODOMEDICAMENTOÀ ÉPOCAEMQUESUAVENDAERALIVRE.
DEPENDÊNCIACONTRAÍDA,COMDIVERSASRESTRIÇÕESEXPERIMENTADAS
PELOPACIENTE.DANOMORALRECONHECIDO.- Édeverdo fornecedora ampla
publicidade ao mercado de consumo a respeito dos riscos inerentes a seus produtos
e serviços.A comercializaçãolivre do medicamentoSURVECTOR,com indicaçãona
bula de mero ativadorde memória,
sem efeitos colaterais,por ocasiãode sua disponi-
biliz-Wãoaomercado,gerouo riscode dependênciaparausuários.Aposterior alteração
da bula do medicamento, que passou a ser indicadopara o tratamento de transtornos
depressivos,comalto riscode dependência,não é suficientepara retirar do fornecedora
responsabilidadepelosdanos causadosaos consumidores.O aumento da periculosidade
domedicamentodeveriaser amplamente divulgadonosmeiosde comunicação.Amera
alteraçãoda bula e do controle de receitas na sua comercialização,não são suficientes
para prestar a adequada informação ao consumidor. A circunstância de o paciente ter
consumidoo produto sem prescriçãomédica não retira do fornecedor a obrigaçãode
indenizar.Pelo sistema do CDC, o fornecedorsomente se desobriganas hipóteses de
culpaexclusivado consumidor (art. 12,S3º, doCDC),o que não ocorrena hipótese,já
que a própria bula do medicamento não indicava os riscos associados à sua administra-
ção,caracterizandoculpaconcorrentedo laboratório.Acaracterizaçãoda negligênciado
fornecedorem colocaro medicamento no mercadode consumo ganha relevoà medida
que, conformese nota pela manifestaçãode diversasautoridades de saúde, inclusive
a OMC,o c1oridratode amineptina, principioativodo SURVECTOR,foi considerado
um produto com alto potencial de dependênciae baixa eficáciaterapêutica em diver-
sas partes do mundo, circunstâncias que inclusive levaram a seu banimento em muitos
países. Deveser mantida a indenizaçãofixada,a título de dano moral, para o paciente
que adquiriudependênciada droga. Recursoespecialconhecidoe provido. (ST),REsp
971845/DF, 3' Turma, ReI.Min. Humberto Gomesde Barros,Dl 01.12.2008).
Podemos citar outro exemplo de risco do desenvolvimento o recente caso de me-
dicamento que fora desenvolvido para a cura de artrite, mas que, quando colocado no
mercado de consumo, causou problemas cardíacos em muitos pacientes. Estes efeitos
colaterais não foram previstos pelos farmacêuticos e, por esta razão, o medicamento foi
retirado do mercado de consumo. No entanto, ainda não temos notícias de pacientes
que ingressaram com ação contra a indústria farmacêutica requerendo indenização em
razão dos efeitos colaterais provocados pelo medicamento.
7.1.3 Causas excludentes de responsabilidade
Vimos que o Código de Defesa do Consumidor adotou a responsabilidade objetiva,
respondendo o fornecedor pelos danos causados ao consumidor, independentemente
da existência de culpa.
No entanto, assim como na doutrina civilista, o legislador entendeu que o fornece-
dor, em algumas hipóteses, será exonerado do dever de reparar o dano. Assim sendo, o
fornecedor apenas será exonerado do dever de reparar o dano quando se provar, em sínte-
se, a ausência de nexo de causalidade ou a culpa exclusiva da vítima ou de terceiro.
Lembre-se que, em todas as hipóteses de exclusão de responsabilidade aqui previs-
tas, cabe ao fornecedor a prova da ausência do nexo de causalidade e da culpa exclusiva
da vítima ou de terceiro.
Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço 65
A primeira hipótese de exclusão prevista no art. 12, ~ 32, I, do Código de Defesa
do Consumidor é a prova de que o fornecedor não colocou o produto no mercado.
Ora, se o fornecedor não colocou o produto no mercado de consumo não há que se falar
em responsabilidade civil. Esta exclusão prevista pelo legislador é importante para os
fornecedores que têm suas marcas ilegalmente copiadas e inseridas em produtos falsifi-
cados causando grandes prejuízos aos consumidores em razão da péssima qualidade do
produto. É evidente, neste exemplo, que o fornecedor detentor da marca não poderá ser
responsabilizado por um produto que não colocou no mercado de consumo.
A colocação do produto no mercado deve ser feita de maneira consciente e volun-
tária pelo fornecedor. Importante notar ainda que o fato de ter colocado o produto no
mercado, ainda que de maneira gratuita, não exime a responsabilidade do fornecedor.
Outra hipótese de exclusão de responsabilidade é a ausência de defeito do produ-
to. Sem dúvida, o defeito do produto é pressuposto da responsabilidade por danos; se
não houver defeito no produto, não haverá nexo de causalidade entre o prejuízo sofrido
pelo consumidor e a ação do fornecedor, ressaltando que a prova de ausência de defeito
deve ser feita pelo fornecedor.
Outra hipótese de exclusão de responsabilidade do fornecedor é a culpa exclusiva
do consumidor ou de terceiro. Neste diapasão, cabe ao fornecedor provar que o con-
sumidor ou terceiro agiu com culpa no evento danoso, considerando aqui o "terceiro"
qualquer pessoa estranha à relação de consumo.
Fala-se em culpa exclusiva da vítima quando a sua conduta se erige em causa dire-
ta e determinante do evento, de modo a não ser possível apontar qualquer defeito no
produto ou no serviço como fato ensejador da sua ocorrência. Se o comportamento do
consumidor é a única causa do acidente de consumo, não há como responsabilizar o pro-
dutor ou fornecedor por ausência de nexo de causalidade entre a sua atividade e o dano
(CAVALIERI FILHO, 2005, p. 509).
7.1.3.1 Culpa concorrente
Há discussão doutrinária a respeito da exclusão da responsabilidade do fornecedor
em razão de culpa concorrente do consumidor. Há autores que admitem a concorrência de
culpa nas relações de consumo como causa que minimiza a responsabilidade do forne-
cedor e outros que não admitem a culpa concorrente como causa excludente de respon-
sabilidade ou que possa ser analisada para fins de minorar a indenização.
A doutrina e a jurisprudência majoritárias caminham no sentido de admitir a culpa
concorrente como causa de redução da indenização, mas não como forma de exclusão de
responsabilidade. Nesse sentido, é a decisão do STJ no Resp 287.849-SP: "a culpa con-
corrente da vítima permite a redução da condenação imposta ao fornecedor".
No entanto, concordamos com a doutrina de Sérgio Cavalieri Filho que afirma: "de
nossa parte, temos sustentado que a concorrência de culpas pode ter lugar na responsa-
bilidade objetiva disciplinada pelo Código de Defesa do Consumidor desde que o defei-
to do produto ou serviço não tenha sido causa preponderante do acidente de consumo.
Se, embora culposo, o fato da vítima é inócuo para a produção do resultado, não pode
ela atuar como minorante da responsabilidade do fornecedor. A culpa do consumidor
nI
'i.i
66 Direito do consumidor • Densa
perde toda a expressão desde que demonstrado que sem o defeito do produto ou serviço
o dano não teria ocorrido" (2005, p. 511).
Entendemos que a solução mais adequada para a questão está na análise da causa
do dano e do defeito do produto no caso concreto. Assim, se o defeito do produto foi
causa preponderante do acidente, a culpa do consumidor no acidente de consumo deixa
de ser relevante para o concreto.
•
7.1.3.2 Atos dos prepostos e representontes
o art. 34 da legislação consumerista prevê ainda a solidariedade entre os atos dos
prepostos e representantes do fornecedor. Assim, não poderá o fornecedor alegar a ex-
clusão de responsabilidade por ato de seus prepostos ou representantes, posto que estes
não são considerados terceiros na relação de consumo.
"i'dáded~ forn~c~or'sãó! "
~~!~i~::~~;;~t~~~lj~
ha,colocadoo pródut6no '.é'-
;~"j~J.i,l;;~,\!í,4í\lWit,;rl~jl.?'
.':.~;,f.,t_,~7:i_rj\;:i-.,~~::{ia~k\~~
');.s; ,'':t:!f::;'-~;:;\)_~j!'t~:'.•2'Jê1t,~tt,;
iarôir 'Compãitedos -"ui
7.1.4 Caso fortuito e força maior
A teoria clássica da responsabilidade civil insere como excludentes de responsabili-
dade o caso fortuito e a força maior. O art. 393 do Código Civil em vigor assim dispõe:
"Art. 393.O devedornão respondepelosprejuízosresultantes de casofortuito ou força
maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado.
Parágrafoúnico. Ocaso fortuito ou de forçamaior verifica-seno fato necessário,cujos
efeitos não era possívelevitar ou impedir."
. P~la leitura do dispositivo
legal, podemos deduzir que, para a configuração do caso
fortuito ou força maior, é necessária a presença dos seguintes requisitos: (a) fato inevi-
tável e superveniente; (b) ausência de culpa de qualquer das partes; (c) fato irresistível,
que escapa do controle do homem.
Fazendo breve distinção entre caso fortuito e força maior, poderíamos dizer que o
caso fortuito decorre de fato ou ato inevitável que, portanto, independe da vontade das
Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço 67
partes; a força maior, também inevitável, decorre de forças fisicas da natureza (vendaval,
enchente, terremoto). Também é neste sentido a lição de Cavalieri Filho: "estaremos
_ em face do caso fortuito quando se tratar de evento imprevisível e, por isso, inevitável;
se o evento for inevitável, ainda que previsível, por se tratar de fato superior às forças
do agente, como normalmente são os fatos da natureza, como as tempestades, enchen-
tes etc., estaremos em face da força maior, como o próprio nome o diz" (2005, p. 91).
Em razão de o Código de Defesa do Consumidor não ter elencado o caso fortuito e
a força maior entre as causas de exclusão de responsabilidade, houve dúvida quanto à
aplicação destes institutos nas relações de consumo.
Parte da doutrina, em razão disso, entende que, nestas hipóteses, não há exclusão
da responsabilidade (minoritária). A posição majoritária, contudo, entende que se aplica
tal exclusão quando não decorre de ato do fornecedor (fortuito externo, sem qualquer
relação com a atividade desenvolvida pelo fornecedor).
Neste sentido, importante a lição de Sílvio de Salvo Venosa (2004, p. 163):
"O fato de o caso fortuito ou a força maior não terem sido expressamente coloc'ados
comoexcludentesda responsabilidade,no roldo S3º aqui transcriro.pode levarà apres-
sada conclusão de que não exoneram a indenização.A questão não pode, porém, ser
levadaa este extremo sob pena de admitirmos o risco integral do fornecedor,que não
foi intençãodo legislador.Os farosimprevisíveisobstam que se concluapela existência
de nexo causal.Essamatérianãoapenasé de Lógica.masdecorredo sistemade respon-
sabilidade civil.Impõe-se,pois, que o juiz avalíeno caso concreto se os danos ocorre-
ram, ainda que parcialmente,em razão de defeiroou víciodo produto ou do serviço."
7.2 Responsabilidade pelo fato do serviço
Estudamos a responsabilidade civil pelo fato do produto. Passaremos a analisar a res-
ponsabilidade civil do fornecedor ern razão da prestação de serviços defeituosos (fato do
serviço), disciplinado no art. 14 do Código de Defesa do Consumidor. Vejamos.
"Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de
culpa, pela reparaçãodos danos causados aos consumidores por defeitos relatívos à
prestação dos serviços,bem comopor informaçõesinsuficientesou inadequadas sobre
sua fruição e riscos.
S 1º O serviço é defeituoso quando não fornece a segurançaque o consumidor dele
pode esperar, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I- o modo de seu fornecimento;
11- o resultadoe os riscosque razoavelmentedele se esperam;
III - a época em que foí fornecido.
S 2º O serviçonão é consideradodefeituoso pela adoçãode novas técnícas.
S 3º O fornecedor de seIViços só não será responsabilizado quando provar:
[ - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
\
I
.i
68 Direito do consumidor • Densa
II _ a culpa exclusivado consumidor ou de rerceira.
~42A responsabilidadepessoal dos profissionaisliberais será apurada mediante a ve-
rificaçãode culpa."
Pela dicção legal, é possível verificar que as mesmas considerações feitas na seção
7.1 em que tratamos da responsabilidade civil pelo fato do produto são aplicáveis para a
responsabilidade p'elofato do serviço.
O caput do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor consagra a responsabilidade
objetiva do fornecedor de serviço, bem como estabelece responsabilidade em razão de
informações insuficientes ou inadequadas sobre a fruição e riscos a respeito dos servi-
ços e produtos.
7.2.1 Responsáveis pela reparação
O art. 14 do Código de Defesa ao Consumidor utiliza somente o vocábulo fornecedor
para indicar o responsável pela reparação de danos aos consumidores pelo fato do servi-
ço. Lembre-se de que o art. 3º do Código de Defesa do Consumidor conceitua fornece-
dor como sendo toda pessoa física ou juríaica, nacional ou estrangeira, de direito público
ou privado, que atua na cadeia produtiva, exercendo atividade de produção, montagem,
criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercializa-
ção de produtos ou prestação de serviços. Destarte, as pessoas elencadas no art. 3º serão
responsáveis pela reparação dos danos causados quando inserirem serviço defeituoSO no
mercado de consumo.
Vale lembrar que, nos termos da legislação consumerista, serviço é toda atividade
desenvolvida em favor do consumidor, inclusive as atividades bancárias, financeiras, de
crédito e securitárias.
7.2.2 Serviço defeituoso
A responsabilidade do fornecedor de serviços também tem por fundamento o de-
ver de segurança. Os defeitos do serviço podem ser de concepção, de prestação ou de
comercialização.
Assim, o serviço será considerado defeituoso sempre que não apresentar a segurança
esperada pelo consumidor, levando-se em consideração:
o modo de fornecimento;
o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
a época em que foi colocado em circulação.
A jurisprudência tem considerado defeito na prestação de serviço, entre outras, as
seguintes hipóteses: (1) erro de resultado em exame laboratorial, gerando dever de in-
denização pelos danos morais e materiais (T]Rj, Apelação Cível nº 8.505/97); (2) furto
ou roubo de veículo em estacionamento (STj - Resp 73.243/PR; STj - Resp 227.014/
Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço 69
GO);(3) ausência de manutenção de rodovia, causando acidente ao consumidor em ra-
zão de animais mortos na estrada (ST] - Resp 467.883).
É de se notar também que toda vez que o fornecedor de serviços infringir o dever
de prestar as informações necessárias e adequadas sobre o serviço inserido no merca-
do de consumo, deverá ressarcir o consumidor pelos prejuízos por este experimentados.
Ressalte-se que o serviço não será considerado defeituoso em razão de adoção de
novas técnicas. Destarte, se o serviço já era prestado de forma satisfatória, de modo a não
expor o consumidor a riscos, não há que se falar em defeito do serviço simplesmente em
razão de adoção de nova tecnologia que faz parte do processo evolutivo.
7.2.3 Causas excludentes de responsabilidade
As excludentes de responsabilidade pelo fato do produto também se aplicam ao fato
do serviço. Na forma do S 3º do art. 14, o fornecedor de serviços só não será responsa-
bilizado quando provar:
a inexistência de defeito no serviço;
a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro no evento danoso.
É importante salientar que a prova da excludente de responsabilidade é do fornecedor
de serviços. Assim, para que o fornecedor fique isento de responsabilidade, deve provar
a inexistência de defeito no serviço ou a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
A este respeito o ST] já manifestou entendimento no sentido de que: "a deficiência
do fornecimento de energia elétrica pode justificar a paralisação do serviço de telefonia,
em prejuízo da obrigação de continuidade, porém é indispensável a demonstração ine-
quívoca da culpa exclusiva do terceiro, o que não se verifica na espécie. O mero dissa-
bor não pode ser alçado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que
exacerba a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias no
espírito de quem ela se dirige" (Resp 599.538/MA).
Se houver culpa coru;orrente do fornecedor e da vítima deverá o magistrado perquirir se
o defeito do serviço foi ou não a causa preponderante
do acidente de consumo para que
haja a meação dos prejuízos (veja o que dissemos sobre este assunto no item 7.1.3.1).
O caso fortuito e a força maior também são considerados, pela doutrina majoritária,
excludentes da responsabilidade civil do fornecedor de serviços, aplicando-se os mesmos
argumentos expostos na seção 7.1. 4.
7.2.4 Responsabilidade civil do profissional liberal
O legislador faz diferenciação com relação à responsabilidade do profissional libe-
ral. Conforme a regra do S4º do art. 14, a prestação de serviços do profissional liberal é
orientada pela teoria da responsabilidade subjetiva .
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70 Direito do consumidor • Densa
Destarte, na hipótese em que o fornecedor de serviço for profissional liberal, inse-
ridos aqui os serviços prestados por médicos, engenheiros, dentistas e advogados, deve
o consumidor provar a culpa do fornecedor para que haja o dever de indenizar, além do
nexo de causalidade e da extensão dos danos.
O legislador preferiu tratamento diferenciado para os profissionais liberais em ra-
zão do caráter dos serviços prestados por estes, já que assumem obrigação de meio e não
de resultado. '
A respeito da distinção entre obrigação de meio e de resultado, o jurista Álvaro
Villaça Azevedo (2004, p. 54) assim se manifesta:
"Veremos,agora, as obrigações demeio ederesultado. Pelaprimeira,o devedorobriga-sea
fornecer meios necessários para a realização de um fim, sem responsabilizar-se por ele,
pelo resultado. O devedordevedesenvolver,neste tipo obrigacional,todos os esfOtços,
todos os cuidados necessários à consecução do resultado, sem, contudo, obrigar-se por
ele. Sehouver obrigaçãode resultado, o devedor há que realizardeterminada finalida-
de para cumprir sua obrigação.Realmente, por esta forma, enquanto o resultado não
sobrevier, o devedor não tem por cumprida a obrigação, esta não se exaure."
Desta forma, sendo uma obrigaçi/l) de meio a do profissional liberal, sua responsa-
bilidade é subjetiva, devendo provar o consumidor que o fornecedor foi negligente, im-
prudente ou imperito, ou tenha agido com dolo.
Cumpre notar que o legislador adotou a teoria da responsabilidade civil subjetiva
para os profissionais liberais, importando em exceção a regra geral assumida pelo Código.
Quanto aos demais princípios insertos na legislação consumerista, todos são plenamente
aplicáveis na relação do consumidor com o profissiônalliberal, tal como a possibilidade
de inversão do ônus da prova em favor do consumidor, a proteção contra a inserção de
cláusulas abusivas nos contratos de prestação de serviços e a aplicação dos direitos bá-
sicos insertos no art. 6º do Código de Defesa do Consumidor.
7.2.4.1 Responsabilidade civil do méduo
Já dissemos que, para a apuração da responsabilidade civil do médico deve o consu-
midor provar a culpa do profissional no evento danoso, incidindo as normas do Código de
Defesa do Consumidor toda vez que houver relação de consumo entre médico e paciente.
É certo que a prova da culpa do médico é complicada de se fazer em juízo, especial-
mente porque os laudos periciais nunca ou quase nunca são conclusivos. Em muitos
casos, a responsabilidade pela reparação dos danos sofridos pelo paciente deve ser apu-
rada pela comparação entre a situação física anterior a uma cirurgia e a dela decorrente.
Miguel Kfouri Neto (2003, p. 61) assevera:
"Evidentemente, a ninguém ocorrerá atribuir aos profissionais da área da saúde o
exercício de atividade que, normalmente, por sua própria natureza, implica risco aos
direitos do paciente - hipótese que, caso admitida, descartatia a verificaçãoda culpa,
na atribuiçãoda responsabilidade,acarretando a adoçãoda responsabilidadeobjetiva,
fulcrada na teoria do risco criado. Isto porque a atividade curativa, em regra, não gera
Responsabilidade civil pelo falO do produto e do serviço 71
risco ao paciente. Antes, muito pelo contrário, visa a afastar o risco de agravamento
do seu estado de saúde, ptopiciandomelhOtaou a cura total. Mesmoque se utilizem
equipamentos em ptocedimentos cirúrgicos (cirutgias videolapatoscópicas,vatiadas
aplicaçõesde laser, p. ex.). aindaassimserá imperativoptovat-sea imperícia,imprudên-
ciaou negligênciado ptofissional.Isto porque o adventoda novacodificaçãocivil,neste
aspecto, nada inovou: a responsabilidade médica, em regra, continua a ser subjetiva."
Cumpre notar também que, embora ainda tormentosa a questão, para parte expres-
siva da doutrina e jurisprudência, o médico assume obrigação de resultado nos casos de
cirurgia plástica, já que o profissional obriga-se a atingir determinado fim, e o que inte-
ressa é o resultado de sua atividade.
Já Sérgio Cavalieri Filho (2005, p. 518) sustenta que "o código não criou para os
profissionais liberais nenhum regime especial, privilegiado, limitando-se a afirmar que
a apuração de suas responsabilidades continuaria a ser feita de acordo com O sistema
baseado na culpa".
Ademais, o médico deve sempre cumprir o disposto no art. 6º, inciso m, do Códi-
go de Defesa do Consumidor, informando o paciente sobre os procedimentos viáveis,
as consequências e opções de tratamento, bem como as vantagens e desvantagens dos
possíveis tratamentos e medicamentos que lhe serão ministrados.
Por derradeiro, vale mencionar que a responsabilidade civil do hospital ou clínica
médica deve ser apurada na forma do caput do art. 14. Assim sendo, na hipótese de danos
causados a consumidores em razão de, por exemplo, infecção hospitalar, não há que se
falar em responsabilidade do profissional liberal, mas do fornecedor de serviços hospi-
talares, que deverá ser apurada na forma da responsabilidade civil objetiva.
7.3 Consumidor por equiparação
O art. 17 do Código de Defesa do Consumidor prevê a figura do "consumidor por
equiparação", estendendo a proteção do Código a qualquer pessoa eventualmente atin-
gida por acidente de consumo.
Cuida-se da proteção do denominado bystander, ou seja, as pessoas, naturais ou ju-
rídicas, que, mesmo sem serem participantes diretas da relação de consumo, foram atin-
gidas em sua saúde ou segurança em virtude do fato do produto ou do serviço. A exten-
são justifica-se pela potencial gravidade que pode assumir a difusão de um produto ou
serviço no mercado. Protege-se, assim, o consumidor direto e o indireto por equiparação
(VENOSA, 2004, p. 167).
A sistemática de proteção inserida na sociedade pelo Código de Defesa do Consu-
midor tem por escopo não apenas a defesa de interesses meramente individuais, mas
também a proteção de interesses coletivos e difusos, que antes de sua vigência restavam
dispersos e não encontravam abrigo na legislação.
Esse alargamento do âmbito de abrangência do Código do Consumidor para todos
aqueles que venham a sofrer os efeitos danosos dos defeitos do produto ou do serviço
decorre da relevância social que atinge a prevenção e a reparação de eventuais danos.
~' -
72 Direito do consumidor. Densa
E a equiparação de todas as vítimas do evento aos consumidores, na forma do citado
arL 17, justifica-se em função da potencial gravidade que pode atingir o fato do produto
ou do serviço, Vale dizer, o dispositivo legal protege aquelas pessoas estranhas à relação
de consumo que vêm a sofrer prejuízos em razão do evento danoso causado pelo forne-
cedor em autêntica relação de consumo.
Podemos citar como exemplo de indenização ao consumidor por equiparação o trá-
gico e conhecidó acidente aéreo ocorrido em São Paulo em 2007. Naquela ocasião, os
passageiros foram, de fato, consumidores, uma vez que adquiriram as passagens aéreas
e foram destinatários finais de uma prestação de serviço (art. 2º do COC). No entan-
to, o mesmo acidente atingiu um veículo e um posto de gasolina de terceiros, que não
mantinham qualquer ligação com a empresa aérea. Neste caso, o dono do veículo e do
posto de gasolina podem ser considerados consumidores por
equiparação, já que foram
vítimas de um acidente de consumo.
Podemos, ainda, citar outro exemplo oferecido pela jurisprudência: "Serviço defei-
tuoso. Indenização. Direito do consumidor. Obra realizada em condomínio edilício vi-
sando à instalação de gás residencial. Serviço defeituoso. Consumidores por equiparação
(art. 17 do COC)o Perfuração e rompimento de tubulação de esgoto, com contaminação
da água que abastecia o bloco em que r~sidem os autores. Situação que perdurou, sem
qualquer tentativa de solução, por quatro meses. Danos morais nitidamente delineados.
Excludentes de responsabilidade não comprovadas" (TJRJ - 12ª CC - Apelação Cível nº
2007.001.62803 - ReI. Min. Werson Rêgo).
Questões
1. As assertivas abaixo se referem ao profissional Hberal.Assinale a alternativa corretaconforme
regência do direito do consumidor (Ministério Público - Goiás/201O):
a) O profissional liberal é, recnicamente, considerado fornecedor, razão por que o legisla-
dor não admite nenhuma discussão acerca da culpa nos casos de responsabilidade desse
profissional pelo fato do serviço.
b) Somente aqueles prestadores de serviço que tenham profissão regulamentada por lei, a
exemplo de médicos e engenheiros, são os profissionais liberais de que trata o 5 4º do
art. 14 do CDC.
c) O profissional liberal que constitui uma pessoa jurídica prestadora de seus serviços per-
de a condição de liberal e, por conseguinte, a excludente da ausência de culpa, apontada
no 5 4º do art. 14 do CDC.
d) Podem ocorrer situações em que o hospital, indiretamente, beneficiar-se-á do regra-
mento jurídico previsto para o profissional liberal quanto à responsabilidade pelo fato
do serviço.
2. Considere os seguintes enunciados (Defensor Público - São Paulo/2009):
I _ Quem eventualmente pratica atos envolvendo um bem, por exemplo a venda de uma
casa de seu patrimônio pessoal, não se sujeita à responsabilidade prevista no Código
de Defesa do Consumidor.
II- As pessoas que não participam do negócio de transmissão e aquisição de um produto
e venham a sofrer lesão pelo uso deste devem buscar reparação em face do adquirente.
3.
4.
Responsabilidade civil pelo fato do produ[o e do serviço 73
111- Os danos causados aos consumidores no caso de contratos que contenham cláusula
com tarifação para lesões devem ser ressarcidos conforme os modos e valores esti-
pulados.
IV - Tanto a responsabilidade pelo fato do produto quanto a por vícios do produto prescin-
dem da perquirição de culpa. A reparação cabe, principalmente, ao fabricante, produ-
tor ou importador, salvo se não puderem ser identificados e quando o comerciante não
houver conservado adequadamente o produto.
V - Eximem-se de responsabilidade fabricantes, produtores ou importadores quando de-
monstram não ter colocado o produto no mercado, a inexistência de defeitos ou a culpa
do comerciante ou do consumidor.
Estão corretos SOMENTE
(A) IV e V.
(B) I, li e V.
(C) I, IV e V.
(D) li e m.
(E) me V.
Com base no Código de Defesa do Consumidor, assinale a opção correta acerca da responsa-
bilidade na prestação de serviços (OAB/CESPE 2009. 2):
a) O serviço é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
b) O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar culpa exclusiva do
consumidor ou de terceiro, ou quando provar que, tendo prestado o serviço, o defeito
inexiste.
c) O fornecedor de serviço responderá pela reparação dos danos causados aos consumi-
dores por defeitos relativos à prestação dos serviços ou decorrentes de informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos somente se comprovadaa sua
culpa.
d) A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais deve ser apurada independente-
mente da verificação de culpa.
Segundo a disciplina da responsabilidade objetiva pelo fato do produto, prevista no art. 12
da Lei nº 8.078/90 (Magistratura/SP - 170º):
a) o fabricante, o produtor, o construtor nacional e o estrangeiro e importador respon-
dem, em qualquer hipótese, pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos decorrentes de seus produtos;
b) somente o construtor nacional responde pela reparação dos danos causados aos consu-
midores por defeitos decorrentes do projeto;
c) o co'merciante, o fabricante, o produtor, o construtor nacional e o estrangeiro e o im-
portador respondem, em qualquer hipótese, pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos decorrentes de seus produtos;
d) o fabricante, o produtor, o construtor nacional e o estrangeiro e o importador respon-
dem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados
aos consumidores por defeitos de seus produtos.
e)
d)
74 Direito do consumidor • Densa
5. Sobre a responsabilidade pelo fato do produto e do serviço, assinale a alternativa correta (Ma-
gisttatura/SP - 17SQ):
a) O fabricante, o produtor, o construtor e o comerciante respondem solidariamente e
objetivamente pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos de-
correntes de fabricação.
b) No que toca à responsabilidade pelo fato do produto e do serviço, consideram-se con-
sumidores todas as vítimas do evento, mesmo que não tenham adquirido o produto ou
serviço.
c) A responsabilidade dos profissíonais liberais é objetiva, na medida em que estão carac-
terizados como fornecedores de serviço.
d) O serviço será considerado defeituoso, levando-se em conta apenas o modo de seu for-
necimento, e nunca a época em que foi fornecido.
9.
Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço 75
mesmo diante das circunstâncias mencionadas, não cabe indenização cumulativamente
por danos morais e estéticos por parte de quem quer que seja, porque o segundo está
englobado no primeiro e a dupla condenação acabaria por acarretar um bis in idem;
não cabe responsabilizar solidariamente o shopping cente, pelo ocorrido, porquanto, exis-
tindo relação de preposição entre este e a empresa contratada para cuidar da segurança
do edifício, esta exclusivamente tem o dever de ressarcir.
Com base no Código de Defesa do Consumidor, assinale a opção Correta acerca da responsa-
bilidade na prestação de serviços (OAB/CESPE 2009. 2):
a) O serviço é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
b) O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar culpa exclusiva do
consumidor ou de terceiro, ou quando provar que, tendo prestado o serviço, o defeito
inexiste.
6. Sobre o Direito do Consumidor, assinale a alternativa FALSA (OAB/MT 2006-03):
a) A execução da sentença nas ações coletivas que visem a defesa de interesses individuais
homogêneos poderá ser promovida pelo Ministério Público.
b) Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas que haja intervindo nas relações
de consumo.
c) O produto é considerado defeituoso pelo fato de outro ser fabricado com melhor técnica
e ter sido colocado no mercado.
d) A competência para legislar nessa matéria não é exclusiva da União.
c)
d)
O fornecedor de serviço responderá pela reparação dos danos causados aos consumi-
dores por defeitos relativos à prestação dos serviços ou decorrentes de informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos somente se comprovada a sua
culpa.
A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais deve ser apurada independente-
mente da verificação de culpa.
7. Cidadão cuiabano sofre grave lesão comprometedora da vida ao servir-se de õnibus munici-
pal, em tazão da negligência do motorista. Nesse caso, a responsabilidade em questão é de-
nominada (OAB/MT 2005-01):
a) pelo vício do serviço;
b) pelo fato do produto;
c) pelo vício do produto;
d) pelo fato do serviço.
8. Ocorrido o desabamento de um shopping cente, em decorrência de explosão, que causou pre-
juízos a terceiros, é possível o ressarcimento com fundamento no Código de Defesa do Con-
sumidor e no Código
Civil. Indique dentre as hipóteses abaixo elencadas a solução correta,
cabendo (Ministério Público/SP - 83º):
a) a responsabilidade solidária passiva ad causam da empresa encarregada da segurança do
edificio neste caso não se faz presente, por ser ela meramente contratada pelo shopping
cente, para executar ordens, por ser ele o proprietário do prédio, não tendo, portanto,
função de comando, não lhe cabendo indenizar as vítimas, mesmo ante a circunstância
de ter construído o edifIcioj
b) não se mostra presente o nexo de causalidade entre o dano ocorrido e a atuação da firma
construtora encarregada da segurança do edificio, porque, sendo ela mera mantenedora,
eventual culpa in eligendo será do shopping center por não ter tido o cuidado necessário ao
contratar a empresa;
c) indenização por danos patrimoniais, morais e estéticos, por parte do shopping e da em-
presa construtora encarregada da segurança, porque neste caso ambos assumem os ris-
cos de suas atividades, e a eles incumbe o dever de resguardar a segurança dos clientes,
porque a falha no serviço é sinal indicativo de cristalização de culpa;
p'H'-~';\~,r
"
"
•
Responsabilidade civil pelo vício
do produto ou do serviço
Divide o Código de Defesa do Consumidor a responsabilidade pelo víciodo produto
e a responsabilidade pelo víciodo serviço. Os vícios do produto por qualidade estão dis-
ciplinados nos art. 18 e os vícios do produto por quantidade estão disciplinados no art.
19 do Código de Defesa do Consumidor. Já a responsabilidade por vício do serviço está .
disposta nos arts. 20 e 21 do mesmo diploma legal.
Vício 1
8.1 Vício do produto
Produto (ares,18 e 19)
Serviço(arts. 20 e 21)
qualidade (art, 18)
quantidade (art. 19)
O vício do produto o torna imprÓprio ao consumo, produz a desvalia, a diminui-
ção do valor e frustra a expectativa do consumidor, mas sem colocá-lo em risco. Caso o
produto inserido no mercado de consumo apresente vícios, deve o fornecedor ressarcir
o consumidor pelos prejuízos causados, lembrando que o Código, de Defesa do Consu-
midor adotou a teoria da responsabilidade objetiva, razão pela qual o consumidor não
precisa provar a culpa do fornecedor para o recebimento da indenização.
Cabe esclarecer que não se trata aqui do vício redibitório previsto nos arts. 441 a 446
do Código Civil em vigor. Aliás, para esclarecimento deste tema vejamos a manifestação
de Sérgio Cavalieri Filho (2005, p. 520):
i"
78 Direito do consumidor • Densa
"Grande foi a inovação introduzida pelo Códigodo Consumidor nesta matéria.A ga-
rantia assegurada por essa lei é bem mais ampla que aquela prevista no CódigoCivil
de 1916,o que ficouminorado coma disciplinados víciosredibitóriosno novoCódigo
Civil (arts. 441-446). Enquanto os vícios redibitórios pelo CódigoCivildizem respeito
aos defeitos ocultos da coisa (art. 441), os vícios de qualidade ou de quantidade de bens e
serviços podem ser ocultos ou aparentes."
Importante nótar que o art. 24 do Código de Defesa do Consumidor estabelece que a
garantia legal de adequação do produto ou serviço não depende de termo expresso. Além
disso, fica proibida qualquer forma de exoneração do fornecedor a respeito deste dever.
Deve o fornecedor cuidar para que seus produtos ou serviços sejam de qualidade sem ví-
cios ou defeitos, sob pena de responder pelos prejuízos experimentados pelo consumidor.
8.1.1 Vício de qualidade do produto
O vício de qualidade é definido pelo do art. 18 do Código de Defesa do Consumidor;
"Art. 18. Os fornecedoresde produtos de consumo duráveis ou não duráveis respon-
dem solidariamentepelosvíciosde-qualidadeou quantidade queos tornem impróprios
ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como
por aqueles decorrentes da disparidade,comas indicaçõesconstantesdo recipiente,da
embalagem, rotulagem ou mensagempublicitária, respeitadas as variaçõesdecorren-
tes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
S 12Não sendo o vicio sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor
exigir, alternativamente e à sua escolha:
I_ a substituiçãodoprodutoporoutro damesmaespécie,emperfeitascondiçõesde uso;
II_a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo
de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcionaldo preço.
S2º Poderão as partes convencionara redução ou ampliaçãodo prazo previsto no pa-
rágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias.
Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser convencionada em separado,
por meio de manifestaçãoexpressado consumidor.
S 32O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do S 12deste artigo
sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadaspuder
comprometer a qualidade ou características do produto, díminuir-lhe o valor ou se
tratar de produto essencial.
S4º Tendo o consumidoroptadopela alternativa do incisoI do S12deste artigo, e não
sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição por outro de espé-
cie, marca ou modelo diversos, mediante complementação ou restituição de eventual
diferença de preço, sem prejuízodo disposto nos incisos II e IIIdo S 12deste artigo.
S 52 No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o con-
sumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente seu produtor.
S 6º São impróprios ao uso e consumo:
Responsabilidade civil pelo vício do produto ou do serviço 79
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II- os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados,falsificados,corrompi-
dos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo
com as normas regulamentares de fabricação,distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelam inadequados ao fim a que se
destinam."
8.1.1.1 Vício aparente ou oculto
o vício de qualidade pode ser aparente ou oculto. Vício aparente pode ser definido
como aquele de fácil constatação pelo consumidor como, por exemplo, uma roupa que
apresenta um defeito na costura ou uma diferença de coloração. já o vício oculto é aquele
de difícil constatação, razão pela qual somente será conhecido pelo consumidor quan-
do este passar a utilizar efetivamente o produto. Podemos citar como exemplo de vício
oculto a hipótese de um defeito no sistema de descongelamento de um refrigerador.
É certo que, dependendo do produto e do vício que apresente, estes podem ser co-
mercializados, desde que o consumidor seja adequadamente informado sobre o respec-
tivo vício do produto e haja o correspondente abatimento do preço.
É importante observar que todos os produtos inseridos no mercado de consumo
que não estejam de acordo com as normas técnicas (produtos impróprios) poderão ser
considerados defeituosos, na hipótese de atingir a incolumidade física do consumidor,
aplicando-se o disposto no art. 12 do Código de Defesa do Consumidor (responsabili-
dade civil pelo fato do produto).
8.1.1.2 Responsáveis pela reparação
O art. 18 do Código de Defesa do Consumidor determina que os responsáveis pela
reparação dos vícios dos produtos são todos os fornecedores, coobrigados e solidariamen-
te responsáveis. Sendo assim, todos os partícipes da cadeia produtiva são considerados
responsáveis diretos pelo vício do produto, razão pela qual pode o consumidor escolher
qualquer destes para a reparação do vício do produto.
Prevê ainda o mencionado dispositivo a solidariedade entre os fornecedores, poden-
do o consumidor exercitar ação de reparação de danos contra um fornecedor ou contra
todos os envolvidos na cadeia produtiva.
Questão a ser discutida é se o comerciante responde pelos vícios de qualidade do
produto. Parte expressiva da doutrina e da jurisprudência externa entendimento de que
há responsabilidade do comerciante, tendo
em vista a responsabilidade solidária entre
todos os fornecedores, não havendo qualquer ressalva quanto ao comerciante (Veja: STj,
REsp 142042/RS; STj, REsp 414986/SC; STj, Resp 402356/MA).
Ademais, na cadeia dos coobrigados, o comerciante eventualmente responsabiliza-
do pelos danos causados por vício no produto terá ação de regresso contra o fabricante
ou o causador direto do dano.
80 Direito do consumidor • Densa
8.1.1.3 Sanções
Sendo constatado o vício do produto, tem o fornecedor o-direito de reparar o de-
feito no prazo máximo de 30 dias. Caso o vício não seja sanado no prazo legal, pode o
consumidor exigir, alternativamente, à sua escolha:
substituição total ou de parte do produto;
restituição da quantia paga;
abatimento proporcional do preço.
O Código de Defesa do Consumidor exige do fornecedor, inicialmente, apenas a re-
paraçãodos defeitos ou a substituição das peças viciadas. As obrigações de substituir,
restituir a quantia paga ou abater o preço somente poderão ser exigidas do fornecedor
após os 30 dias de comunicação do defeito persistente.
Vencido o prazo da garantia e persistindo o vício, o consumidor pode:
exigir a substituição por outr5' produto;
exigir a devolução imediata da quantia paga;
pleitear o abatimento do preço.
A escolha da sanção é do consumidor, que pode optar por qualquer dessas hipóteses
sem dar qualquer satisfação ao fornecedor.
Cumpre esclarecer que, diante da impossibilidade de substituição do bem, poderá
haver substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante a comple-
mentação ou restituição de eventuais diferenças de preço.
8.1.1.4 Prazo para sanar o vício
O prazo oferecido ao fornecedor para que seja sanado o vício é de até 30 (trinta)
dias, independentemente de previsão contratual. As partes, todavia, podem convencio-
nar outro prazo, desde que não seja superior a 180 (cento e oitenta) dias e inferior a 7
(sete) dias, sendo certo que esta ampliação ou redução de prazo deve ser convencionada
e não imposta ao consumidor.
Perceba que o vício deve ser sanado pelo fornecedor "no prazo máximo de trinta
dias" (art. 18, ~ 1º), ou outro prazo combinado entre as partes. Entendemos que o for-
necedor deve consertar o produto em até trinta dias, donde resulta dizer que, se o forne-
cedor consertou dentro deste prazo ou em prazo menor e, ainda sim, o produto continua
a apresentar vício, o consumidor poderá exercer o direito de escolha imediatamente, sem
que se dê outro prazo ao fornecedor.
Prevê, ainda, o ~ 3º do art. 18 que o consumidor pode exigir a substituição imediata
do produto, ou a devolução imediata da quantia paga, ou, ainda, o abatimento do preço,
"sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder
Responsabilidade civil pelo vicio do produto ou do serviço 81
comprometer a qualidade ou características do produto, diminuir-lhe o valor ou se tra-
tar de produto essencial".
Destarte, se o produto for essencial ao consumidor, ou se o vício for extenso, o con-
sumidor pode optar diretamente por uma das soluções apontadas no ~ 1º do art. 18, sem
a necessidade de aguardar o fornecedor sanar o vício.
O legislador não conceitua as expressões produto essencial e vício extenso. Entende-
mos por produto essencial aquele imprescindível para a sobrevivência e bem-estar do
consumidor razão pela qual não poderia o consumidor aguardar o prazo de 30 dias para
conserto. Atualmente, muitos produtos podem ser considerados essenciais ao nosso
bem-estar como, por exemplo, uma geladeira, um fogão ou um chuveiro.
É evidente que alguns produtos podem gerar discussão quanto a ser ou não pres-
cindível ao consumidor. É o caso, por exemplo, do computador, televisão ou aparelho
celular. O Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), órgão ligado
ao Ministério da Justiça, através da Nota Técnica nº 62/2010, externou entendimento
de que o aparelho móvel celular é produto essencial, razão pela qual o consumidor não
precisa aguardar o prazo para conserto".
Este também foi o entendimento externado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Fede-
ral: "Direito do Consumidor. Aparelho de telefonia móvel. Defeito. Rescisão contratual.
Retorno ao status quo ante. Comerciante de produtos. Responsabilidade solidária com
o fabricante. 1. A responsabilidade do fornecedor de produto defeituoso é solidária e
decorre diretamente da lei. 2. Não se mostra razoável que o consumidor aguarde por
trinta dias o conserto de aparelho de telefonia móvel, quando o objeto apresenta defeito
no mesmo dia da compra. 3. A resilição do contrato de compra e venda impõe o retorno
das partes ao status quo ante, sendo consequência lógica a restituição da integralidade do
valor pago pelo adquirente (1' TRJEDF; ACJ 2007.07.1007534-7, ReI. Min. Sandoval
Oliveira, Dju 08.10.2008).
Em outras situações será impossível para o fornecedor sanar o vício e se enquadra
perfeitamente no que denominamos de vício extenso. É o exemplo de uma roupa cos-
turada de forma inadequada ou com diferença de coloração. Sendo assim, o consumidor
também poderá escolher, nestas hipóteses, qualquer das opções oferecidas pela lei ime-
diatamente, sem ter que aguardar o prazo para conserto.
8.1.1.5 Produto in natura
Em se tratando de produto in natura, ou seja, aquele que não sofre processo de in-
dustrialização, prevê o Código, no art. 18, ~ 5º, que seàí responsável perante o consumi-
dor o fornecedor imediato, exceto quando puder ser claramente identificado o produtor.
Entendemos que esta é a única hipótese em que legislador prevê a exclusão de res-
ponsabilidade de todos os fornecedores para manter unicamente a responsabilidade do
comerciante. Haverá responsabilidade solidária entre o comerciante e o produtor quando
este estiver devidamente identificado.
É nesse sentido a lição de José Fernando Simão "o fornecedor imediato será o único
responsável pelo vício, inexistindo solidariedade passiva. A ocorrência desse vício se dá
82 Direito do consumidor • Densa
quando da compra pelo consumidor de produtos a granel, ou seja, feiras livres, mercea-
rias e supermercados nos quais o produto será pesado ou medido na hora da aquisição
pelo consumidor ou preposto do fornecedor" (2003, p. 134).
8.1.2 Vício de quantidade do produto
•
o vício de quantidade do produto está disciplinado no art. 19 do Código de Defesa
do Consumidor, que assim determina:
"Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de quantidade do
produto sempre que, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, seu conte-
údo líquido for inferior às indicaçõesconstantes do recipiente, da embalagem,rotu-
lagemou de mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente
e à sua escolha:
I - o abatimento proporcionaldo preço;
II - complementaçãodo peso ou medida;
III _ a substituição do produto p;r outro da mesma espécie, marca ou modelo, sem
os aludidos vícios;
IV_ a restituição imediata da quantia paga,monetariamente atualizada, sem prejuízo
de eventuais perdas e danos.
~ IQ Aplica-sea este artigo o disposto no ~ 4º do artigo anterior.
~ 20 O fornecedor imediato será responsávelquando fizera pesagemou a mediçãoe o
instrumento utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais."
Destarte, sempre que houver divergência de peso, tamanho ou volume do produto
em relação às indicações constantes no recipiente, embalagem, rotulagem ou mensagem
publicitária, isso gera a obrigação de o fornecedor ressarcir os prejuízos experimentados
pelo consumidor.
É possível, contudo, que ocorram variações inerentes à natureza do produto, sem
que se configure vício de quantidade do produto. Ademais, sempre que o produto apre-
sentar quantidade menor do que aquela adquirida pelo consumidor, os fornecedores
respondem solidariamente pelos prejuízos causados ao consumidor.
Prevê ainda o ~ 2º do art. 19 a responsabilização do fornecedor imediato,
qual seja,
o comerciante, se a divergência resultar de medição ou pesagem por ele realizadas ou se
o instrumento utilizado para medição ou pesagem não tiver sido aferido oficialmente.
8.1.2.1 Sanções
As sanções para o vício de quantidade estão previstas nos incisos I a IV e ~ 1º do
art. 19 do Código de Defesa do Consumidor, cabendo exclusivamente ao consumidor
exigir alternativamente:
Responsabilidade civil pelo vício do produto ou do serviço 83
o abatimento proporcional do preço;
a complementação do peso ou medida;
a substituição do produto por outro da mesma espécie;
a restituição da quantia paga (atualizada e acrescida de perdas e danos);
a substituição do produto por outro de espécie, marca ou modelos diversos,
mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço .
Ressalte-se que não há prazo assinalado para o fornecedor sanar os vícios do produ-
to, sendo certo que ele deve, imediatamente,cumprir a decisão do consumidor, de acordo
com as alternativas oferecidas pelo legislador.
8.2 Vícios do serviço
Os vícios do serviço estão previstos no art. 20 do Código de Defesa do Consumidor:
"Art. 20. O fornecedorde serviços responde pelos víciosde qualidade que os tornem
impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorren-
tes da disparidade com as indicaçõesconstantes da oferta ou mensagempublicitária,
podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a reexecuçãodos serviços,sem custo adicionale quando cabível;
11 - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo
de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcionaldo preço.
~ lº A reexecuçãodos serviçospoderá ser confiada a terceiros devidamentecapacita-
dos, por conta e risco do fornecedor.
~ 2º São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que razo-
avelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regula-
mentares de prestabilidade."
Os serviços serão considerados viciados sempre que se apresentarem inadequados
para os fins que deles se esperam ou não atenderem às normas regulamentares para a
prestação dos serviços.
Diante do vício de qualidade do serviço, pode o consumidor, alternativamente e à
sua escolha, exigir:
a sua reexecução, sem custo adicional;
a imeditata restituição da quantia paga;
abatimento do preço.
Permite o Código que a reexecução do serviço seja feita por terceiro, sempre por conta
e risco do fornecedor. Em se tratando de serviços de reparo, de revisão ou de manutenção,
r
84 Direito do consumidor • Densa
Responsabilidade civil pelo vício do produto ou do serviço 85
o fornecedor é obrigado a empregar peças novas ou originais, salvo com autorização do
consumidor. O emprego de peças não originais sem autorização do consumidor constitui
crime, previsto no art. 70 do Código de Defesa do Consumidor.
ausência de um serviço público essencial sem ter o conhecimento e a chance de efetuar
o pagamento.
Já analisamos na seção 2.2.2 a relação jurídica de consumo em que o Código de
Defesa do Consumidor enquadra, expressamente, a pessoa jurídica de direito público
como fornecedora. Esse dispositivo é completado pelo art. 22, que engloba, além dos
órgãos públicos, as empresas concessionárias e permissionárias de serviço público com
fornecedores de serviço.
Em outras palavras, as pessoas jurídicas de direito público (centralizadas ou des-
centralizadas) podem figurar no polo passivo da relação de consumo, como fornecedo-
ras de serviço. Desta forma, o Estado, assim como o particular, responde pelos serviços
que presta ao consumidor e está sujeito a todas as determinações do Código de Defesa
do Consumidor.
Assim preceitua o art. 22 do Código de Defesa do Consumidor:
8.4
8.3 Pessoa jurídica de direito público•
Ignorância do fornecedor sobre os vícios dos produtos e serviços
Prevê o art. 23 do Código de Defesa do Consumidor que "a ignorância do fornece-
dor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos e serviços não o exime
de responsabilidade".
Sem dúvida, o legislador baseou-se no principio da boa-fé objetiva para a inserção
deste dispositivo legal, em consonância com o disposto no inciso III do art. 4º do mes-
mo diploma legal.
O legislador impõe às partes o dever de manter o mínimo de confiança e lealdade,
antes, durante e após o cumprimento da obrigação. Os fornecedores devem tomar todos
os cuidados necessários ao inserir seus produtos no mercado de consumo, evitando o
elemento surpresa, tanto na fase de informação, quanto na de execução, e até mesmo na
fase posterior, gerando o dever de indenizar mesmo que não tenha conhecimento dos
vícios intrínsecos do produto.
"Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias
ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços
adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos."
Questões
É permitida a estipulaçãocontratual de cláusulaque impossibilite, exonereou atenue
a obrigaçãode indenizar.
Casoo víciodo produto ou do serviçonão sejasanadono prazo legal,podeo consumi-
dor exigir o abatimento proporcionaldo preço.
No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o consumidor
o fornecedor imediato, mesmo se identificado claramente o produtor.
A ignorânciado fornecedorsobre os víciosde qualidadepor inadequaçãodos produtos
e serviços o exime de responsabilidade.
b)
c)
d)
Ao consumidor adquirente de produto de consumo durável ou não durável que apresente
viciode qualidadeou quantidade que o torne impróprioou inadequadoao consumoa que se
destina, não sendo o víciosanado no prazo de 30 dias, assegura-se (OAB/CESPE2008. 3):
a) a substituição imediata do produto por ou'trode qualquer espécie,em perfeitascondi-
ções de uso;
b) a imediata restituição do valor pago, atualizadomonetariamente, não cabendo indeni-
zação;
c) o abatimento de até 50% do valor pago, em razão do vícioapresentado e do inconve-
niente causadopela aquisição de produto defeituoso;
d) convencionarcomo fornecedorum prazomaiorque 30diaspara que oVÍciosejasanado.
Acercada responsabilidadeno Código de Defesa do Consumidor, assinale a opção correta
(OAB/CESPE2009. I):
a)
I.
2.
Atualmente, muito se discute na doutrina e jurisprudência a respeito da possibilidade
de efetuar o corte dos serviços públicos em razão do inadimplemento do consumidor,
como, por exemplo, corte no fornecimento de água e luz.
A jurisprudência majoritária externa entendimento no sentido de que o direito à con-
tinuidade do serviço público, na forma assegurada ao consumidor no art. 22 e no ~ 1º do
art. 6º do Código de Defesa do Consumidor, é garantido aos consumidores que efetuam
os respectivos pagamentos mensais em razão do fornecimento. Destarte, pode haver cor-
te do fornecimento na hipótese de inadimplência das faturas mensais pelo consumidor.
A continuidade dos serviços públicos traduz o entendimento de que, se já há a re-
gular prestação de serviços ou se já há possibilidade e necessidade de prestá-los, a Ad-
ministração ou seu agente delegado (concessionário ou permissionário) não pode in-
terromper sua prestação, sem um motivo justo, exceto nas hipóteses de caso fortuito e
força maior. Mais ainda, tem o dever de ampliar o fornecimento destes serviços a todos
que deles necessitam.
Neste contexto, o art. 6º, ~ 3º, inciso li, da Lei nº 8.987/95 preceitua que "não se
caracteriza descontinuidade do serviço a sua interrupção, em situação de emergência
ou após prévio aviso, quando motivada por razões de ordem técnica ou de segurança
das instalações, ou, ainda, por inadimplemento do usuário, considerado o interesse
público", reforçando o entendimento exposto.
Cumpre notar que o consumidor deve ser devidamente notificado antes de se efe-
tivar o corte da prestação de serviços públicos, para que não seja
surpreendido com a
"
.'
86 Direito do consumidor • Densa
3. Uma consumidora adquire, em um shopping, aparelho importado para massagens e após qua-
tro meses de uso é obrigada a submeter-se a intervenção cirúrgica para tratamento de varizes,
moléstia agravada, segundo o médico, pela utilização do referido aparelho. Servindo-se da
ajuda de um tradutor, tomou conhecimento das instruções veiculadas em língua estrangeira
proibindo o seu uso a portadores de varizes. Nesta hipótese (Magistratura! AL - 2007):
a) somente o shopping responde pelos vícios do produto;
b) somen,te o importador responde pelos danos causados à saúde da consumidora;
c) o shopping e o importador respondem pelos vícios do produto e pelos danos causados à
saúde da consumidora, em caráter solidário;
d) a responsabilidade é exclusiva do shopping por não ter traduzido a advertência constante
na instrução de uso;
e) a responsabilidade é exclusiva do importador por não ter traduzido a advertência cons-
tante da instrução de uso.
4. Um consumidor adquiriu um celular e tendo constatado, na primeira semana da aquisição,
que o aparelho não "segurava" a carga, foi encaminhado ao serviço de assistência, que pro-
põs a substituição da placa, para saneamento do vício. Nesta hipótese, tratando-se de defeito
essencial, o consumidor (Magistratura! AL - 2007):
a) deve aceitar o saneamento do vício de qualidade;
b) pode recusar a proposta e exigira substituição do produto por outro da mesma quali-
dade, complementando ou resrituindo eventual diferença de preço;
c) pode recusar o saneamento do vício e exigir substituição do produto por outro de qual-
quer marca, não respondendo por eventual diferença de preço;
d) não pode desfazer o negócio, nem exigir restituição da quantia paga;
e) pode aceitar a proposta, mas deve exigir abatimento proporcional do preço.
5. Acerca da responsabilidade no Código de Defesa do Consumidor, assinale a opção correta
(OAB/CESPE 2009. 1).
a) É permitida a estipulação contratual de cláusula que impossibilite, exonere ou atenue
a obrigação de indenizar.
b) Caso o vício do produto ou do serviço não seja sanado no prazo legal, pode o consumi-
dor exigir o abatimento proporcional do preço.
c) No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o consumidor
o fornecedor imediato, mesmo se identificado claramente o produtor.
d) A ignorãncia do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos
e serviços o exime de responsabilidade.
riI
Decadência e prescrição
9.1 Generalidades
o direito deve ser exercido dentro de um determinado prazo para que não cause
instabilidade social. A prescrição e a decadência estão fundamentadas na paz social, na
tranquilidade da ordem jurídica, isso porque o credor não deve ficar inerte; ao contrá-
rio, deve buscar a satisfação de seu direito junto ao devedor, utilizando-se dos meios em
direito admitidos para tanto.
Há que se esclarecer que alguns direitos não estão sujeitos a extinção pela prescri-
ção ou decadência, uma vez que, por sua própria natureza, são incompatíveis com estes
dois institutos. É o caso do direito à vida, ao nome e à liberdade, que não prescrevem
nem caducam com o passar do tempo. Ao contrário, são direitos inerentes aos homens
que não se perdem com o tempo.
9.2 Conceito
A prescrição, na definição de Clóvís Beviláqua, Ué a perda da ação atribuída a um
direito; e de toda a sua capacidade defensiva, em consequência do não uso delas, duran-
te um determinado espaço de tempo" (VENOSA, 2004. p. 615). A prescrição não fere o
direito em si mesmo, mas a pretensão à reparação.
Os requisitos para decretação da prescrição são: (a) existência de direito de ação; (b)
não exercício do direito de ação pelo titular; (c) ausência de fato impeditivo, suspensivo
ou interruptivo do curso da prescrição. O Código Civil trata das hipóteses de suspensão
e interrupção da prescrição nos arts. 197 a 204, as quais são plenamente aplicáveis nas
relações de consumo.
f
I 88 Direito do consumidor • Densa
A decadência pode ser definida como "a extinção do direito pela inércia do titular,
quando a eficácia desse direito estava originalmente subordinada ao exercício dentro de
determinado prazo, que se esgotou, sem o respectivo exercício" (VENOSA, 2004, p. 620).
Assim, na decadência, não se fala na perda do próprio direito de ação, mas na extinção
do direito antes que ele se torne efetivo pelo exercício.
Para o direito civil, não há que se falar em suspensão ou interrupção do prazo deca-
dencial, sendo ésta a diferença principal entre os efeitos da prescrição e da decadência.
No entanto, veremos a seguir que o Código de Defesa do Consumidor estabeleceu duas
hipóteses de suspensão de prazo decadencial.
9.3 Decadência e prescrição no Código de Defesa do Consumidor
A decadência e a prescrição são tratadas no Código del)efesa do Consumidor nos
arts. 26 e 27. O prazo para reclamar por vício do serviço ou do produto é decadencial; já
o prazo para reclamar pelo fato do produto ou do serviço é prescricional, conforme ve-
remos nas seções 9.3.1 e 9.3.2.
Saliente-se que os prazos prescriciõnais e decadenciais no Código de Defesa do Con-
sumidor são de ordem pública, por força do art. 1º do mesmo diploma legal, razão pela
qual não podem ser alterados pela vontade das partes.
9.3.1 Prazo decadencial- vício do produto ou serviço
O art. 26 do Código de Defesa do Consumidor determina que o direito do consumi-
dor para reclamar dos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em:
30 (trinta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não
duráveis;
90 (noventa) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos
duráveis.
Cumpre fazer distinção entre vício aparente e vício oculto. O primeiro é o vicio de fácil
constatação; já o segundo é aquele que não se visualiza de pronto, de diflcil constatação,
ocorrendo, geralmente, em fase mais avançada do consumo. Não se trata de vício oriundo
de desgaste natural pela utilização do produto, mas problemas de fabricação ou produção.
Para ambos os casos, o prazo é decadencial; o que diferencia é o termo inicial para
contagem. Os prazos iniciam-se a partir da entrega efetiva do produto ou do término da
execução dos serviços. A tradição se opera no momento em que o consumidor tenha re-
cebido o produto e tenha condições de verificar a ocorrência de possível vício.
Na hipótese de vícioaparente, o prazo decadencial é contado a partir da data do re-
cebimento do produto ou do término do serviço. Já na hipótese de víciooculto, o prazo é
contado a partir da data em que ele se evidencia.
Decadência e prescrição 89
Caso o consumidor não exerça, dentro do prazo mencionado, o seu direito de re-
clamar pelos vícios aparentes ou ocultos, poderá ingressar com ação de indenização por
perdas e danos materiais e morais dentro do prazo prescricional de 5 (cinco) anos esta-
belecido no art. 27 do COe.
Veja, a respeito desse assunto, acórdão proferido pelo Superior Tribunal de]ustiça:
DIREITODOCONSUMIDOR.AÇÃODEINDENIZAÇÃOPORDANOSMATERIAIS
EMORAISDECORRENTESDEVíCIOSNOSERVIÇO.PRESCRIÇÃO.CINCOANOS.
INCIDÊNCIADOART. 27 DO COe. Escoadoo prazo decadencial de 90 (noventa)
dias previsto no art. 26, 11,do CDC, não poderá o consumidor exigir do fornecedordo
serviço as providências previstas no art. 20 do mesmo Diploma - reexecução do ser-
viço, restituição da quantia paga ou o abatimenro proporcional do preço -, porém, a
pretensão de indenizaçãodos danos por ele experimentadospode ser ajuizadadurante
o prazo prescricionalde 5 (cinco) anos, porquanro rege a hipótese o art. 27 do COe.
Recursoespecialconhecidoe provido (REsp683809/RS, 4-'Turma, ReI.Min.LuísFe-
lipe Salomão,Dfe 03.05.2010).
Dissemos que os prazos decadenciais, no Direito Civil, não são suspensos nem in-
terrompidos. Já o legislador consumerista estabeleceu, no ~ 2º, do art. 26, duas hipóteses
de suspensão de prazo decadencial, constituindo exceção à regra. São elas:
a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o forne-
cedor, contando a suspensão do prazo da data da reclamação ao fornecedor
até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma
inequívoca (art. 26, ~ 2º, I);
a instauração de inquérito civil, até seu encerramento (art. 26, ~ 2º, 11).
Na hipótese de reclamação do consumidor perante o fornecedor, o prazo decaden-
cial é suspenso, desde a entrega da reclamação, comprovada mediante recibo ou através
de notificação judicial ou extrajudicial.
Suponha que o consumidor compre um automóvel, bem de consumo durável, que
apresente vício oculto somente 10 (dez) meses após a compra. Nesse caso, tem o con-
sumidor o prazo de 90 (noventa) dias, a partir da revelação do defeito oculto, para fazer
reclamação por escrito ao fornecedor. Se o consumidor faz notificação extrajudicial de
5 (cinco) dias após a descoberta do vício, o prazo fica suspenso até que a montadora
informe ao consumidor a respeito do conserto do véículo. Se a resposta da montadora
for negativa, o consumidor terá mais 85 (oitenta e cinco) dias para ingressar com ação
em juízo, requerendo o conserto do veículo, bem como as perdas e danos, se for o caso.
No mesmo exemplo, caso o fornecedor ofereça resposta afirmativa no sentido de
consertar o veículo, o prazo continuaria suspenso, até o efetivo conserto e entrega ao
consumidor.
Há alguma discussão doutrinária sobre se a reclamação do consumidor perante o
PROCON obsta a decadência. Para a doutrina majoritária, quando o consumidor faz re-
•
90 Direito do consumidor • Densa
clamação perante o PROCON, fica obstada a fluência do prazo decadencial; no entanto,
se houver encaminhamento de ofício por aquele órgão não suspende o prazo decadencial.
No que diz respeito à suspensão do prazo decadencial em razão da instauração de
inquérito civil, seu fundamento está baseado no fato de que o objetivo do inquérito é
de servir como instrumento para obtenção de dados para esclarecimento dos fatos, bem
como se estes mesmos fatos infringem ou não norma estabelecida no Código de Defesa
do Consumidor. 'Sendo assim, é evidente que a suspensão do prazo decadencial é im-
prescindível, para que o consumidor não seja lesado.
9.3.2 Prazo prescricional - fato do produto ou do serviço
o prazo prescricional para reclamar o fato do produto ou do serviço é de 5 (cinco)
anos, na forma do art. 27 do Código de Defesa do Consumidor. Este mesmo diploma
legal não estabelece nenhuma hipótese de interrupção ou suspensão dos prazos pres-
cricionais, valendo, portanto, as regras previstas nos arts. 197 a 204 do Código Civil.
A contagem do prazo prescricional somente terá início se o consumidor tem o co-
nhecimento do dano e de sua autoria. No que diz respeito ao conhecimento do dano, a
ressalva do legislador foi deveras importante, uma vez que pode o consumidor ter sido
lesado e não ter-se dado conta do ocorrido. Exemplo disso está na utilização de medi-
camentos, cujos efeitos danosos somente poderão aparecer após algum tempo de uso.
Ademais, para início da contagem do prazo, o consumidor deve ter conhecimento
do autor do ato danoso. Assim, por exemplo, nas hipóteses de responsabilidade civil em
que não se sabe ao certo quem foi o autor do dano causado ao consumidor, não há que
se falar em contagem de prazo.
Com a entrada em vigor do novo Código Civil houve certa discussão a respeito dos
prazos prescricionais. É certo que o art. 206, ~ 3º, V, do Código Civil, prevê o prazo de
três anos para prescrição da pretensão da reparação civil. No entanto, pelos critérios de
interpretação, a lei especial prevalece sobre a lei geral, razão pela qual o prazo de pres-
crição para a reparação de danos na relação de consumo continua sendo de cinco anos,
prevalecendo prazo estipulado no COe.
A respeito do assunto, vejamos a interpretação do Superior Tribunal de Justiça:
Decadência e prescrição 91
de modo que ocorrências que afetem o bem-estar do viajante devem ser classificadas
de defeito na prestação de serviçode transporte de pessoas. Comodecorrêncialógica,
os contr:atos de transporte de pessoas ficam sujeitos ao prazo prescricional específico
do art. 27 do CDe. Deixade incidir,por ser genérico, o prazo prescricionaldo Código
Civil (STJ,REsp, 958.833/RS, 3' Turma, ReI.Min.NancyAndrighi,Dfe 25.02.2008).
No entanto, a questão ora abordada está longe de pacificação doutrinária e juris-
prudencial (Veja: STJ, REsp616.069/MA, Df 14.4.2008 e ADIn RE 297.901-5, ReI. Min.
Ellen Gracie, Df 31.03.2006).
Há outras hipóteses em que os prazos prescricionais estabelecidos no Código Civil
deverão ser aplicados justamente por se tratar de norma mais especifica. É o caso, por
exemplo, da prescrição decorrente do contrato de seguro, na forma do art. 206, ~ 1º, do
Código Civil. Embora estejamos diante de uma relação jurídica de consumo, devemos
aplicar o prazo prescricional do Código Civil.
Por esta interpretação, o consumidor (segurado) terá prazo de um ano para reque-
rer em juízo o recebimento de indenização perante o fornecedor (segurador), prazo este
que deverá ser contado a partir do fato gerador da pretensão (negativa da seguradora
em pagar a indenização) ou, no caso de responsabilidade civil, da data que é citado para
responder a ação de indenização proposta por terceiro prejudicado. Já a pretensão do
beneficiário contra o segurador, sobretudo nos seguros de vida, prescreve em três anos,
tudo conforme o art. 206, ~ 3º, do Código Civil.
Encontramos outra discussão quanto ao prazo prescricional nas hipóteses de repe-
tição de indébito. O art. 42, ~ único do CDC garante aos consumidores o direito a devo-
lução em dobro da quantia paga, direito esse que poderia ser exercido, em tese, no prazo
de 5 (anos). No entanto, o prazo para pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem
causa, na forma da lei civil é de 3 (três) anos e este é o prazo que vem sendo aplicado
jurisprudência majoritária gerando, inclusive, a publicação da súmula 412 do Superior
Tribunal de Justiça: "A ação de repetição de indébito de tarifas de água e esgoto sujeita-
se ao prazo prescricional estabelecido no Código CiviL"
9.4 Súmulas aplicáveis
Questões
Súmula 412 do STJ: A ação de repetição de indébito de tarifas de água e esgoto
sujeita-se ao prazo prescricional estabelecido no Código Civil.
Súmula 291 do STJ: A ação de cobrança de parcelas de complementação de apo-
sentadoria pela previdência privada prescreve em cinco anos.
"TRANSPORTERODOVIÁRIODEPESSOAS.ACIDENTEDETRÂNSITO.DEFEITO
NA PRESTAÇÃODO SERVIÇO.PRESCRIÇÃO.PRAZOART.27 DOCOe. NOVA
INTERPRETAÇÃO.VÁLIDAA PARTIRDAVIGÊNCIADO NOVOCÓDIGOCI-
VIL.O CC/16 não disciplinadaespecificamenteo transporte de pessoas e coisas.Até
então, a regulamentaçãodesta arividadeera feita por leis esparsas e pelo CCom,que
não traziamdispositivoalgumrelativoà responsabilidadepelo defeitona prestaçãodo
serviçode transporte de passageiros.Nesse esforço interpretativo, esta Corte firmou
o entendimento de que danos causados ao viajante. em decorrência de acidente de
trânsito, não importavam em defeito na prestação de serviço e, portanto, o prazo pres-
cricionalpara ajuizamento da respectivaação devia respeitar o CC/16, e não o COe.
Como advento do CC/02, não há mais espaçopara discussão.O art. 734 fixaexpres-
samente a responsabilidade objetiva do transportador pelos danos causados às pessoas
por ele transportadadas, o que englobao dever de garantir a segurançado passageiro,
I. Segundoo Códigode Defesado Consumidor (Magistratura- MS/2010):
a) o prazo prescricional para o exercício da pretensão de reparação por danos resultantes
de fato do produto ou serviço é de 5 (cinco) anos, contados a partir da ocorrência do
dano, independente do conhecimento da autoria;
n
92 Direito do consumidor. Densa Decadência e prescrição 93
Essa comunicação
está (Procurador do Estado/SP - 2002):
Um fabricante de motocicletas faz, por decisão própria, um informe na TV - recall -, comu-
nicando aos consumidores que determinada série de seu produto apresenta um defeito no
sistema de freios. Informa, ainda, que o consumidor tem um prazo de 30 dias para levar a
moto à concessionária que vendeu o produto. findo o qual não se responsabilizará civilmente.
Joana adquiriu um aparelho de telefone em loja áe eletrodomésticos e, juntamente com o
manual de instruções, foi-lhe entregue o termo de garantia do produto, que assegurava ao
consumidor um ano de garantia, a contar da efetiva entrega do produto. Cerca de um ano
e um mês após a data da compra, o aparelho de telefone apresentou comprovadamente um
defeito de fabricação. Em face dessa situação hipotétíca, assinale a opção correta acerca dos
direitos do consumidor (OAB/CESPE 2009. 2):
a) O prazo para Joana reclamar dos vícios do produto é de apenas noventa dias, a partir
da entrega efetiva do produto, independentemente de prazo de garantia.
b) A lei garante a Joana a possibilidade de reclamar de eventuais defeitos de fabricação a
qualquer tempo, desde que devidamente comprovados.
c) Após o prazo de um ano de garantia conferida pelo fornecedor, Joana não poderá alegar
a existência de qualquer defeito de fabrícação.
d) Joana poderá reclamar eventuais defeitos de fabricação até o prazo de noventa dias após
o final da garantia contratual conferida pelo fornecedor.
Sobre a responsabilidade por fato e por vício dos produtos e serviços prevista no Código de
Defesa do Consumidor, é INCORRETO afirmar que (Magistratura - MS/20!0):
a) para fins de responsabilidade decorrente de fato do produto, equiparam-se a consumido-
res todas as vítimas do evento danoso, ainda que não integrantes da relação contratual
de consumo;
b) o comerciante é igualmente responsável pelo fato do produto quando o fabricante, o
construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados;
c) a ignorância do fornecedor não o <:J(imede responsabilidade por vício de qualidade por
inadequação do produto vendido;
d) constatado pelo consumidor vício de qualidade do produto, o fornecedor terá um prazo
máximo de 45 dias para saná-lo;
e) não sendo sanado o vício de qualidade no prazo legal, o consumidor pode exigir do
fornecedor, a substituição do produto, a restituição da quantia paga ou o abatimento
proporcional do preço.
No caso dos transportes aéreos, quando há atraso de voos ou questões que envolvem o des-
cumprimento da programação de pacote turístico, o Superior Tribunal de Justiça não tem apli-
cado o art. 26, inciso I, do CDC, que dispõe caducar em 30 (trinta) dias o direito de reclamar
pelos vícios aparentes ou de fácil constatação nos fornecimentos de serviços e de produtos
não duráveis. A opção pela prevalência da regra do art. 205 do Código Civil (prescrição) para
ação de reparação de danos materiais e morais decorrentes de atraso de voo harmoniza-se
com o seguinte fundamento teórico (Ministério Público - Goiás/20! O):
a) Ab-rogação da lei velha pela nova.
b) Diálogo de coordenação e adaptação sistemática.
c) Diálogo sistemático de complementariedade e subsidiariedade.
d) Diálogo sistemático de coerência.
a) incorreta, pois a ocorrência de responsabilidade solidária entre a montadora e a conces-
sionária determina que os prazos devam ser contados em dobro, ou seja, o prazo seria
de 180 dias;
b) incorreta, pois o prazo de garantia no caso de defeito nos produtos duráveis é de 90
dias;
c) incorreta, pois a responsabilidade civil do fabricante das motos persiste mesmo após o
vencimento do prazo fixado;
d) correta, pois, uma vez feito o aviso do recall e passado o prazo fixado, eventual respon-
sabilidade será exclusiva do consumidor;
e) correta, pois, não havendo determinação expressa governamental mandando recolher
os produtos, o recal! é uma liberalidade do fabricante, podendo então fixar suas condi-
ções.
Em 1983, a General Motors do Brasil constatou defeito no sistema de freios dos carros Che-
vette fabricados entre 10 e 12 de março de 1982, promovendo a reparação do dano emergente
através da chamada dos consumidores para substituição gratuita do produto (cf. reportagem
de Quatro Rodas, ano XXlII, nº 275) (Procurador do Estado/PR - 2007).
a) Esta prática, conhecida como recall, está disciplinada pelo Código de Defesa do Con-
sumidor, que impõe ao fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua
introdução no mercado do consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apre-
senta, o dever de comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes. e aos
consumidores, mediante anúncios publicitários.
b) Esta prática tem por fundamento normas de Direito do Consumidor do país onde está
sediada a fornecedora, não constituindo até hoje, no Direito pátrio, norma positivada,
por haver sido objeto de veto presidencial.
c) O episódio constituiu mera liberalidade ou extrema precaução da empresa, já que ha-
via sido suscitada apenas a possibilidade de um dano hipotético e não real, própria da
sociedade de risco em que vivemos.
d) Trata-se de obrigação legal imposta pelo Código de Defesa do Consumidor a todos os
eventuais responsáveis por lesão a interesse difuso por excelência, de que a hipótese
descrita é exemplo.
e) Trata-se de hipótese de publicidade enganosa, nos termos do art. 37, ~ 10, do Código
de Defesa do Consumidor, pois constituiu informação de caráter publicitário inteira
ou parcialmente falsa que induziu em erro os consumidores a respeito da qualidade do
produto que se revelou defeituoso.
6.
5.
a contagem do prazo para reclamar por vícios aparentes ou de fácil constatação se inicia
com o conhecimento do dano pelo consumidor e não com a efetiva entrega do produto
ou término da execução dos serviços;
os prazos de 30 (trinta) e 90 (noventa) dias para reclamar de vícios aparentes e de fácil
constatação em produtos e serviços. duráveis e não duráveis, têm natureza decadencial;
tratando-se de vício oculto, o prazo para reclamar por vício do produto ou serviço inicia-
se com a,entrega da mercadoria, independente da data em que o defeito se exteriorizar
e ficar evidenciado;
apenas a instauração de inquérito civil obsta o decurso da decadência para reclamar vÍ-
cios aparentes em produtos e serviços.
e)
c)
d)
b)
4.
3.
2.
.~t";,.,r"''''
li
Desconsideração da
personalidade jurídica
10.1 Generalidades
A pessoa jurídica é um ente incorpóreo, criado pela lei, podendo ser entendida como
a associação de pessoas com a finalidade de alcançar determinadas tarefas previstas no
contrato social. Percebemos assim que pessoa jurídica tem origem, exatamente, da ne-
cessidade do homem em conjugar esforços, de forma organizada, para a execução de
tarefas mais complexas.
Ensina Venosa (2004, p. 257) que o século XX "foi o século da pessoa jurídica. Des-
de então, pouquíssimas atividades da sociedade são desempenhadas pelo homem como
pessoa natural. A pessoa jurídica, da mais singela à mais complexa, infere e imiscui-se
na vida de cada um, até mesmo na vida privada. Sentimos um crescimento exacerbado
da importância da pessoa jurídica".
Assim, dada a importância da pessoa jurídica em nosso direito, principalmente para
as relações de consumo, o legislador passou a regular de maneira mais intensa a atividade
das empresas, bem como a impor requisitos a serem cumpridos para a sua constituição.
Demais disso, cabe lembrar que a pessoa jurídica possui personalidade jurídica própria
e existência distinta da dos seus membros. Assim, a pessoa jurídica é capaz de assumir
direitos e obrigações na ordem civil, sem atingir diretamente as pessoas que formam a
sociedade.
De fato, exatamente em razão de a personalidade jurídica da sociedade não se con-
fundir com a pessoa dos sócios, muitas são as possibilidades de fraudes e abusos, já que
este "ente abstrato",
muitas vezes, possui capacidade financeira limitada para assumir
responsabilidades perante terceiros.
..,
96 Direito do consumidor • Densa
A teoria da desconsideração da personalidade jurídica (disregard doctrine) consiste
na possibilidade de afastamento da autonomia da sociedade, passando os sócios e admi-
nistradores a responderem pelos prejuízos causados pela pessoa jurídica. Tem origem
no direito inglês e americano, no século XIX, com o caso Salomon & Salomon, em que o
Sr. Salomon instituiu uma sociedade em que ele era o sócio majoritário, cabendo a sua
esposa uma cota mínima, e se valia da sociedade para se eximir de débitos pessoais con-
traídos perante terceiros.
Assim, em princípio, a empresa é responsável perante terceiros pelas consequências
das atividades de seus sócios e administradores, mas pode ser a personalidade desconsi-
derada para atingir o patrimônio dos sócios se houver desvio de finalidade ou confusão
patrimonial.
A teoria subjetiva da desconsideração da personalidade jurídica, também conhecida
por teoria maior, foi criada por Rolf Serick e trazida para o Brasil por Rubens Requião.
Utiliza como critério para a desconsideração da personalidade jurídica o desvio da-fina-
lidade da pessoa jurídica através de abuso de direito ou fraude à lei.
Já a teoria objetiva da desconsideração da personalidade jurídica, ou teoria me-
nor, trazida para o Brasil por Fábio Konder Comparato, adota o critério da confusão
patrimonial para a desconsideração da personalidade jurídica. Por esta teoria, em razão
do risco envolvido nas atividades da empresa, a desconsideração da personalidade jurí-
dica deve ser decretada quando houver prova da insolvência da pessoa jurídica, indepen-
dentemente do elemento subjetivo.
O Código de Defesa do Consumidor foi o primeiro diploma legal nacional a prever
a desconsideração da personalidade jurídica no ordenamento pátrio.
Importante notar que a desconsideração da personalidade jurídica é ato excepcio-
nal e pode ser decretada pelo juiz somente nos casos expressos em lei. Ourross-im, a
maioria expressiva da doutrina e da jurisprudência entende que os sócios não precisam
figurar no polo passivo da ação, desde o início do processo de conhecimento, bastando
o requerimento na petição inicial ou no curso do processo para que se desconsidere a
personalidade jurídica.
Veremos a seguir as condições para a desconsideração da personalidade jurídica no
Código de Defesa do Consumidor.
10.2 Desconsideração da personalidade jurídica no Código de Defesa do
Consumidor
O Código de Defesa do Consumidor acolheu direta e expressamente a disregard
doctrine, protegendo o consumidor, parte vulnerável da relação jurídica. O art. 28 desse
diploma legal assim determina:
"Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando,
em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da
lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração
Desconsideração da personalidade jurídica 97
também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento
ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
~ jQ (Vetado.)
~ 2Q As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são
subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código.
~ 3Q As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações de-
correntes deste Código.
~ 4º As sociedades coligadas só responderão por culpa.
~ 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua persona-
lidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos
consumidores ...
Verifica-se, destarte, que a desconsideração da pessoa jurídica está prevista expres-
samente no caput e no ~ 50 do art. 28. Já os ~~ 2º a 4º do mesmo artigo, embora inseridos
na seção referente à desconsideração da personalidade jurídica, versam sobre a responsa-
bilidade subsidiária ou solidária das sociedades.
Importante notar ainda que a decisão judicial que desconsidera a personalidade ju-
rídica não implica a dissolução da sociedade, mas o seu afastamento momentâneo, para
aquele caso concreto, para que haja a reparação do dano causado ao consumidor. Ade-
mais, caso o juiz decrete a desconsideração da personalidade, o patrimônio atingido será
o do proprietário, do acionista controlador e do sócio majoritário.
Outrossim, nas situações em que a personificação da empresa não implicar óbice ao
ressarcimento do consumidor, não há que se falar na disregard doctrine, uma vez que os
prejuízos devem ser ressarcidos pela pessoa jurídica e não diretamente pelos seus sócios.
10.3 Requisitos para a desconsideração da personalidade jurídica
A desconsideração da personalidade jurídica será decretada de acordo com a facul-
dade dojuiz, e depende da análise dos seguintes requisitos:
lesão ao patrimônio do consumidor;
patrimônio da pessoa jurídica insuficiente;
prática de atos fraudulentos ou encerramento das atividades da empresa.
10.3.1 Lesão ao patrimônio do consumidor
A lesão ao patrimônio do consumidor é requisito essencial para a desconsideração
da sociedade, uma vez que toda a prática abusiva ou ilícita que cause prejuízo ao con-
sumidor deve ser reparada. Consequentemente, não é possível a desconsideração da
personalidade com fundamento no Código de Defesa do Consumidor na aplicação em
.1 ." ti
98 Direito do consumidor • Oensa
defesa de outros interesses, como os dos demais sócios, ou de responsabilidade civil não
fundada em relação de consumo.
10.3.2 Patrimônio da pessoa jurídica insuficiente
A incapacidade da pessoa jurídica para reparar o dano também é requisito essencial,
uma vez que, se a sociedade possui capacidade financeira para ressarcir o consumidor,
não há razão para aplicar a desconsideração da personalidade jurídica.
10.3.3 Prática de atos fraudulentos ou encerramento das atividades da empresa
Por atos fraudulentos, devemos entender o excesso de poder, abuso de direito, in-
fração à lei, infração ao contrato social, falência em razão da má gestão.
A expressão abuso de direito designa um ato jurídico de objeto lícito, mas cujo exer-
cício, levado a efeito sem a devida regularidade, acarreta um resultado que se considera
ilícito.
Como vimos, ao atribuir personalidade a entes abstratos formados por grupos de
pessoas, o Direito não só assegura que seus atos praticados sejam isolados dos entes
que compõem a pessoa jurídica, como também impede que esses se desviem de seu re-
gular exercício.
Ao praticar ato contrário a sua função social, a pessoa jurídica deve sujeitar-se à
obrigação de reparar as consequências de seu ato abusivo. Assim, cumpre ao Judiciário
aplicar a teoria da desconsideração sempre que a pessoa jurídica usar abusivamente seu
direito à personificação, de modo a causar dano ao consumidor.
10.4 Obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados ao consumidor
o ~5º do art. 28 prevê a desconsideração da personalidade jurídica nas hipóteses
em que ocorre obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados ao consumidor. No
entanto, este dispositivo deve ser interpretado à luz do disposto no caput do art. 28.
Explica Fábio Ulhoa Coelho (1999, p. 51):
"Essa interpretação literal, no entanto, não pode prevalecer por três razõcs. Em primeiro
lugar, porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. Como mencionado,
a disregard doetrine representa um aperfeiçoamento do instituto da pessoa jurídica, e não
a sua negação. Assim, ela só pode ter a sua autonomia patrimonial desprezada para a
coibição de fraudes ou abuso de direito. A simples insatisfação do credor não autoriza,
por si só, a desconsideração, conforme assenta a doutrina na formulação maior da teo-
ria. Em segundo lugar, porque tal exegese literal tornaria letra morta o caput do mesmo
art. 28 do CDC,
que circunscreve algumas hipóteses autorizadoras do superamento
da personalidade jurídica. Em terceiro lugar, porque essa interpretação equivaleria à
eliminação do instituto da pessoa jurídica no campo do direito do consumidor, c, se
Desconsideração da personalidade jurídica 99
tivesse sido esta a intenção da lei, a norma para operacionalizá-Ia poderia ser direta,
sem apelo à teoria da desconsideração."
Destarte, a desconsideração da personalidade jurídica será decretada, a critério do
juiz, quando houver obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados ao consumi-
dor, além dos requisitos já estudados na seções 10.3.1, 10.3.2 e 10.3.3, a saber: lesão ao
patrimônio do consumidor, patrimônio da pessoa jurídica insuficiente, prática de atos
fraudulentos ou encerramento das atividades da empresa.
10.5 Responsabilidade de grupos societários e sociedades controladas
o ~2º do art. 28 do Código de Defesa do Consumidor prevê responsabilidade sub-
sidiária das sociedades integrantes de grupos societários e sociedades controladas. Não
se trata propriamente de desconsideração, mas de hipótese legal de responsabilização
de terceiro.
Tal dispositivo prevê que as obrigações perante o consumidor sejam quitadas pela
sociedade que tenha maior respaldo patrimonial, ainda que tenha sido firmada com
a sociedade de menor respaldo financeiro, bastando ligação societária para ocorrer a
responsabilização.
Parte da doutrina entende que o consumidor não pode ajuizar ação diretamente
contra as demais empresas que compõem o grupo societário. Para outros doutrinadores,
no entanto, basta a prova da impossibilidade de ressarcimento pela empresa principal
obrigada, para, já inicialmente, demandar a sociedade com responsabilidade subsidiária.
10.6 Responsabilidade das sociedades consorciadas
Embora a Lei n9 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas), no ~ lº do art. 278, não
estabeleça a responsabilidade solidária entre as empresas consorciadas, o Código de De-
fesa do Consumidor institui regra diversa no art. 28, ~ 3º, de maneira que existe a soli-
dariedade entre as empresas consorciadas nas relações de consumo no que diz respeito
às obrigações que são objeto do consórcio face ao consumidor.
10.7 Responsabilidade das sociedades coligadas
o ~4~ do art. 28 do Código de Defesa do Consumidor estabelece a responsabilida-
de das sociedades coligadas. As sociedades coligadas são regidas pelo art. 243, ~ 1º, da
Lei das Sociedades Anônimas e conservam sua autonomia, respondendo pelos prejuízos
causados aos consumidores mediante a comprovação da culpa no evento danoso.
Há sociedades coligadas sempre que uma sociedade participa do capital social da
outra, com 10% (dez por cento) ou mais, sem assumir o controle. Assim, sendo a so-
..'
IDO Direito do consumidor. Densa
ciedade coligada não poderá ser responsabilizada pelos atos da outra empresa a não ser
que tenha participado do ato, caso em que será solidariamente responsável.
Questões
I, Nas ações judiciais que tenham por objeto controvérsia regida pelo Código de Defesa do
Consumidor (Magistratura - MS/2010):
a) as sociedades integrantes do mesmo grupo societário e as sociedades controladas pelo
fornecedor respondem, subsidiariamente, em relação ao fornecedor;
b) as sociedades consorciadas respondem solidariamente com o fornecedor, pois, de acor-
do com a Lei das Sociedades por Ações. o consórcio não tem personalidade jurídica e
as consorciadas assumem obrigações apenas em nome próprio;
c) a desconsideração da personalidade jurídica pode ser determinada pelo juiz apenas a
pedido do Ministério Público;
d) a desconsideração da personalidade jurídica de sociedade falida, se decretada, não po-
derá atingir os administradores da sociedade fornecedora;
e) a desconsideração da personalidade jurídica exige, em todos os casos, a prova da ocor-
rência de fraude e abuso de poder de controle,
2, Nas ações de responsabilidade do fornecedor de produtos e serviços (Magistratura - MS/20 IO):
a) não é permitido ao réu requerer o chamamento ao processo de sua seguradora, cabendo
a este apenas a posterior ação de regresso no juízo cível visto não tratar-se de relação
de consumo sujeita às regras do COC;
b) o foro do local do dano é o único competente para o conhecimento da ação;
c) a inversão do ônus da prova depende da demonstração cabal da hipossuficiência do
consumidor no caso concreto, não podendo o juiz fundamentar a sua decisão em regras
ordinárias de experiência;
d) se o réu for declarado falido e o síndico confirmar a existência de seguro de responsabi-
lidade, é facultado aos consumidores o ajuizamento de ação de indenização diretamente
contra o segurador, cuja responsabilidade ficará limitada ao valor do seguro contratado;
e) o valor da causa deve ser limitado a 40 (quarenta) salários-mínimos.
3. (Magistratura/AL - 2007) "Mesmo nos países em que se reconhece a personalidade
jurídica apenas às sociedades de capitais surgiu, há muito, uma doutrina que visa, em
certos casos, a desconsiderar a personalidade jurídica, isto é, não considerar os efeitos da
personalidade, para atingir a responsabilidade dos sócios. Por isso também é conhecida
por doutrina da penetração. Esboçadas nas jurisprudências inglesa e norte-americana,
é conhecida no Direito Comercial como a doutrina do Disregard of Legal Entity. Na Ale-
manha surgiu uma tese apresentada pelo prof. Rolf Serick, da Faculdade de DireilO da
Universidade de Heidelberg, que estuda profundamente a doutrina, tese essa que ad-
quiriu notoriedade causando forte influência na Itália e na Espanha. Seu título, tradu-
zido pelo prof. Antonio Pólo, de Barcelona, é bem significativo: 'Aparencia y Realidad
em las Sociedades Mercantiles - EI abuso de derecho por médio de la persona jurídica'.
Pretende a doutrina penetrar no âmago da sociedade, superando ou desconsiderando
a personalidade jurídica, para atingir e vincular a responsabilidade do sócio." (Rubens
Requião. Curso de direito comercial. 26. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. v. I, p. 390). Pode-se
afirmar que a doutrina acima referida, nas relações de consumo:
Desconsideração da personalidade jurídica 101
a) foi agasalhada pelo Direito brasileiro e permite que o juiz desconsidere a pessoa jurídi-
ca sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de
prejuízos causados aos consumidores;
b) foi agasalhada pelo Direito brasileiro. mas a desconsideração não será efetivada quando
houver falência ou estado de insolvência, porque todos os credores devem ser tratados
com igualdade neste caso;
c) não foi agasalhada pelo Direito brasileiro que, expressamente, distingue a personalidade
jurídica dos sócios da personalidade jurídica da sociedade;
d) foi parcialmente adotada pelo Direito brasileiro e permite ao juiz dissolver a sociedade,
determinando sua liquidação, quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de
direito, excesso de poder, infração da lei. fato ou alO ilícito ou violação dos estatutos ou
contrato social;
e) está incorporada ao Direito brasileiro e permite às autoridades administrativas e aoJuiz
determinar que os efeitos de certas relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica, se verificado abuso da
personalidade jurídica desta pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial.
4. Segundo o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de 1990), é errado afirmar que
(Magistratura/SP - 174Q):
a) a inversão do ônus da prova, a favor do consumidor, se dará quando, a critério do juiz,
for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordiná-
rias de experiência;
b) as sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são soli-
dariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes do Código de Defesa do Consu-
midor;
c) poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica quando, de alguma
forma, a sua personali-
dade representar obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores;
d) as sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorren-
tes do Código de Defesa do Consumidor.
...
Práticas comerciais
As práticas comerciais abrangem as técnicas e os métodos utilizados pelos fornece-
dores para fomentar a comercialização dos produtos e serviços destinados ao consumidor,
bem como os mecanismos de cobrança e serviço de proteção de crédito.
Em uma sociedade capitalista, tais práticas acabam por alimentar a sociedade de
consumo, sendo imprescindíveis para a manutenção do modelo econômico adotado pelo
Estado.
Por tal razão, o Código de Defesa do Consumidor procurou inserir regulamentação
nesta área, reconhecendo a sua importância na sociedade de consumo. Ademais, tornou-
se imperiosa a intervenção do Estado nestas relações de modo a compatibilizar o direito
à utilização do marketing pelo fornecedor com a defesa do consumidor.
As práticas comerciais estão previstas no Capítulo V, dividindo-se em seis seções, a
saber: Disposições Gerais (art. 29); Oferta (arts. 30 a 35); Publicidade (arts. 36 a 38);
Práticas Abusivas (arts. 39 a 41); da Cobrança de Dívidas (art. 42); e Bancos de Dados
e Cadastro de Consumidores (arts. 43 a 45).
Importante notar que, no que diz respeito às práticas comerciais, o art. 29 amplia
o conceito de consumidor, considerando como tal qualquer pessoa exposta às práticas
comerciais. Assim, a mera exposição às práticas comerciais, em razão da condição de
vulnerabilidade do consumidor, já merece tratamento especial na forma do Código de
Defesa do Consumidor (vide Capítulo 2).
lO'
Oferta
12.1 Princípio da vinculação da oferta
A oferta é conceituada pelo Código de Defesa do Consumidor: "toda informação ou
publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunica-
ção com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que
a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado" (art. 30).
Nos termos do Código de Defesa do Consumidor, a oferta é declaração unilateral
de vontade e caracteriza obrigação pré-contratual, gerando vínculo com o fornecedor e
automaticamente proporcionando ao consumidor a possibilidade de exigência daquilo
que foi ofertado.
Da leitura do dispositivo legal verificamos a necessidade de dois requisitos básicos
que devem estar presentes para que a oferta vincule o fornecedor: a veiculação e a preci-
são da informação.
A oferta não terá força obrigatória se não houver veiculação da obrigação. Uma pro-
posta que deixe de chegar ao conhecimento do consumidor não vincula o fornecedor.
Em segundo lugar, a oferta (informação ou publicidade) deve ser suficientemente pre-
cisa, isto é, o simples exagero (puffing) não obriga o fornecedor. É o caso de expressões
exageradas, que não permitem verificação objetiva, como "o melhor sabor", "o mais bo-
nito", "o maravilhoso" (BENJAMIN, 2004, p. 259).
Verifica-se, portanto, que o art. 30 do Código de Defesa do Consumidor modifica e
amplia consideravelmente a noção de oferta ao afirmar que as informações dadas inte-
gram o contrato, revolucionam a ideia de initatio ad offerendum. Agora, qualquer informa-
ção ou publicidade veiculada que tornar precisos, por exemplo, os elementos essenciais
da compra e venda, o objeto e o preço, será considerada uma oferta vinculante, faltando
apenas a aceitação do consumidor (MARQUES, 1998, p. 291).
.. .,
106 Direi(Q do consumidor • Densa
A Lei nº 10.962/04, em complemento ao Código de Defesa do Consumidor, dis-
põe sobre a oferta e as formas de afixação de preços de produtos e serviços para o con-
sumidor. Em seu art. 2º define quais são as formas de afixação de preços admitidas em
vendas a varejo:
por meio de etiquetas ou similares afixados diretamente nos bens expostos
à venda, e, em vitrinas, mediante a divulgação do preço à vista em caracteres
legítimos;
em autosserviços, supermercados, hipermercados, mercearias ou estabeleci-
mentos comerciais onde o consumidor tenha acesso direto ao produto, sem
intervenção do comerciante, mediante a impressão ou afixação do preço do
produto na embalagem, ou a afixação de código referencial, ou, ainda, com a
afixação do código de barras.
A afixação de preço mediante o uso de código de barras ou código referencial deverá
ser utilizada de maneira que o consumidor identifique, de forma clara e precisa, o valor
da mercadoria, juntamente com os outros itens expostos, para que não haja confusão de
preços e consequente prejuízo do consumidor.
A mesma lei determina que o supermercado, ao utilizar-se do código de barras para
a afixação de preços, deverá manter à disposição dos consumidores equipamentos de
leitura ótica para consulta do valor da mercadoria localizados nas áreas de venda e de
fácil acesso.
Ademais, é permitida a utilização de relações de preços dos produtos expostos, bem
como dos serviços oferecidos, de forma escrita, acessível e clara ao consumidor. Lembre-
se de que, havendo divergência de preços para o mesmo produto, o consumidor pagará
o menor dentre eles.
Outrossim, é de se ressaltar que o fornecedor, quando da divulgação de oferta ati-
nente aos produtos ou serviços que comercializa, deve agir com prudência, de modo a
clarificar para o consumidor em que condições reais o negócio realizar-se-á, principal-
mente no que tange ao preço e formas de pagamento.
A veiculação ou informe publicitário é parte integrante do contrato e impõe ao for-
necedor a obrigação de honrar a oferta. Ademais, as condições da oferta estão presumi-
velmente contempladas no contrato.
12.2 Princípio da veracidade da oferta
Exige o art. 31 do Código de Defesa do Consumidor que a oferta contenha informa-
ções corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre as características,
qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre
outros dados, bem corno sobre os riscos que os produtos e serviços apresentem à saúde
e à segurança dos consumidores.
A Lei nº 11.989/09 incluiu o parágrafo único ao art. 31 determinando que a ofer-
ta (rotulagem) de produtos refrigerados deverá ser grafada de forma indelével. É certo
Oferta 107
que a rotulagem dos produtos refrigerados pode sofrer danos e dificultar a leitura, pelo
consumidor, das informações a respeito de sua composição e prazo de validade. A grafia
indelével garantirá ao consumidor o direito a informação sobre o produto.
Verifica-se aqui outro princípio que rege a oferta, que é o da veracidade. As informa-
ções devem ser verdadeiras, corretas e claras para o consumidor. Os anúncios, no rádio,
na televisão, nos outdoors, nas revistas, nos jornais e em outros meios de comunicação,
têm por objeto alcançar o público-alvo e estimulá-lo ao consumo de produtos e serviços,
que devem corresponder às legítimas e normais expectativas dos consumidores, tal como
veiculados. Fica reconhecida, mais uma vez, a situação de vulnerabilidade do consumidor
(art. 4º, IIl) e respeito ao princípio da boa-fé.
Neste sentido, é esclarecedor o acórdão a seguir colacionado:
"REPARAÇÃO DE DANOS - CÓDIGO DE DEFESADO CONSUMIDOR .. PLANO DE
SAÚDE - PROPAGANDA ENGANOSA - VINCULAÇÃO DA PROPONENTE - 'RE-
MOÇÃO EM AMBULÃNCIA' E 'ATENDIMENTO DOMICILIAR' - INDENIZAÇÃO
POR DANOS MATERIAIS E MORAIS - AFASTADAS RESTRiÇÕES CONTRATU-
AIS - REDUÇÃO DO QUANTUM DA INDENIZAÇÃO POR DANOS EXTRAPATRI.
MONIAIS PARA VALOR CORRESPONDENTE A 100 (CEM) SALÁRIOS-MÍNIMOS
- APELO CONHECIDO E PROVIDO EM PARTE. O art. 31, do CDC, e sua interpre-
tação doutrinária não deixam dúvida de que se o fornecedor de serviços lança mão de
propaganda abrangente e irrestrita, deixando para delimitar sua responsabilidade em
posterior contrato de adesão, cujo inteiro teor somente é levado ao conhecimento do
consumidor depois
que ele já adquiriu o serviço, responde pelo que ofertou, ou seja,
por não prestar ao segurado 'atendimento domiciliar' e 'remoção em ambulância'. Es-
correi ta a decisão singular quando concluiu que a cláusula contratual que dispõe acerca
da 'remoção inter-hospitalar' deve ser compreendida como 'remoção em ambulânCia'
genericamente ofertada na publicidade, desconsiderando-se as limitações previstas no
regulamento do plano de saúde. O arbitramento da indenização por danos morais deve
ser feito com moderação, proporcionalmente ao grau da culpa, ao nível socioeconômi-
co do autor e, ainda, ao porte econômico do réu, orientando-se o juiz pelos critérios
da razoabilidade, valendo-se de sua experiência e bom senso, atento à realidade da
vida e às peculiaridades de cada caso" (Tribunal de Alçada do Paraná - Apelação Cível
236717-7 - Curitiba - Juiz Anny Mary Kuss - 6"Câmara Cível- Julg.: 16.12.2003 - Ac.
189730 - Public. 06.02.2004).
Em caso de recusa do fornecedor em cumprir a oferta, o consumidor pode, alterna-
tivamente e à sua livre escolha:
reivindicar o cumprimento forçado da obrigação;
optar pela substituição por outro produto ou pela prestação de serviço
equivalente;
ou rescindir o contrato com a restituição de quantia eventualmente antecipa-
da, monetariamente atualizada, além de perdas e danos.
Estas regras inseridas no art. 35 do Código de Defesa do Consumidor têm o con-
dão de garantir o princípio da vinculação, assegurando o cumprimento da oferta pelo
proponente.
.. ..
108 Direito do consumidor. Densa
12.3 Reposição de peças
_Determina o art. 32 que os fabricantes e importadores devem assegurar a oferta de
componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação ou importação do
produto.
Trata-se de regra de fundamental importância, uma vez que o fornecedor de produ-
to ou serviço continua responsável pelo produto ou serviço ofertado mesmo no período
pós-contratual. Ademais, também determina o legislador que o fornecedor, na hipótese
de cessação da produção ou importação do produto, mantenha por período de tempo
razoável a reposição de componentes.
A regra é bastante utilizada para o reparo de veículos, que, por ser um bem de consu-
mo durável, não raras vezes o consumidor necessita efetuar troca de peças que não estão
mais disponíveis no mercado em razão de o fabricante ou montador deixar de oferecer
det~rminado tipo de veículo e não mais produzir as peças necessárias para conserto dos
veículos em circulação. Nesta hipótese, pode o consumidor exigir a peça de reposição e
as perdas e danos decorrentes da inobservância da norma contida no art. 32 do Código
de Defesa do Consumidor.
12.4 Responsabilidade solidária
o fornecedor é solidariamente responsável pelos atos praticados por seus prepostos
ou representantes autônomos na hipótese em que comercializa seus produtos ou servi-
ços através da prestação de serviços de terceiros (art. 34). Esta regra é de fundamental
importância, uma vez que o fornecedor não pode se eximir da responsabilidade perante
o consumidor em razão do descumprimento das regras estabelecidas pelo Código de De-
fesa do Consumidor, principalmente no que diz respeito à oferta de produtos.
Questões
1. Acerca do direito de proteção ao consumidor, assinale a opção correta (OAB/CESPE 2006.2):
a) Na execução dos contratos de consumo, o juiz pode adotar toda e qualquer medida para
que seja obtido o efeito concreto pretendido pelas partes em caso de não cumprimento
da ofena ou do contrato pelo fornecedor, salvo quando expressamente constar do con-
trato cláusula que disponha de maneira diversa.
b) Nos contratos regidos pelo Código de Defesa do Consumidor, as cláusulas contratuais
desproporcionais, abusivas ou ilegais podem ser objeto de revisão, desde que o contrato
seja de adesão e cause lesão a direitos individuais ou coletivos.
c) Em todo contrato de consumo consta, implicitamente. a cláusula de arrependimento,
segundo a qual o consumidor pode arrepender-se do negócio e. dentro do prazo de re-
flexão, independentemente de qualquer justificativa, rescindir unilateralmente o acordo
celebrado.
d) Segundo o princípio da vinculação da oferta, toda informação ou publicidade sobre pre-
ços e condições de produtos ou serviços, como a marca do produto e as condições de
pagamento, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação, obriga o fornecedor
que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
Oferta 109
2. Sobre oferta e publicidade analise as assertivas abaixo e responda (Ministério Público/PR -
2008).
I - Toda informação ou publicidade suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma
ou meio de comunicação, com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados,
obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier
a ser celebrado.
,,- A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas caracterís-
ticas, qualidades, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre
outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos
consumidores.
111 - Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação
ou publicidade, o consumidor poderá exigir o cumprimento forçado da obrigação,
nos termos da oferta, apresentação ou publicidade.
IV - É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter pu-
blicitário, inteira ou totalmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por
omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, caracte-
rísticas, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) Apenas a Iª e a 2ª estão corretas.
d) Apenas a 3ª e a 4ª estão corretas.
e) Apenas a I~,a 3ª e a ¥ estão corretas.
3. O Código de Defesa do Consumidor modificou a noção da oferta relativa a produtos e serviços
no Direito brasileiro. A este respeito, são corretas as afirmativas abaixo, exceto (Ministério
Público/MG - 39º):
a) A oferta partirá sempre do fornecedor.
b) A oferta vincula e obriga o fornecedor que a fizer veicular.
c) A oferta integra o contrato que vier a ser celebrado.
d) O consumidor pode exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta.
e) A oferta publicitária pode ser revogada antes da aceitação.
4. Tendo-se em conta a forma pela qual o Código de Defesa do Consumidor disciplina a forma-
ção do contrato de consumo, é permitido afirmar que (Ministério Público/MT - 2002):
a) no Direito do Consumidor, o instituto da oferta é menos amplo que no Código Civil,
dado ser especificamente voltado às relações de consumo;
b) ao contrário, no Direito do Consumidor. o instituto da oferta é mais amplo que no Di-
reito Civil;
c) a diferença quanto ao tratamento da oferta no Direito do Consumidor e no Direito Civil
é singela, nada havendo a destacar;
d) no Direito do Consumidor, a discussão do conceito de oferta só despena interesse em
relação ao contrato de serviço na modalidade "adesão".
.', .. .
Publicidade
A publicidade é o principal meio pelo qual os fornecedores seduzem os consumidores
e alcançam o lucro esperado com a venda de produtos e serviços colocados no mercado
de consumo. Consequentemente, preocupou-se o legislador com a regulamentação da
publicidade com o fito de evitar e reprimir abusos frequentemente ocorridos neste tipo
de atividade.
Inicialmente, cabe fazer rápida distinção entre publicidade e propaganda. O termo pu-
blicidade expressa o ato de vulgarizar, de tornar público um fato, uma ideia, sempre com
intuito comercial, de gerar lucro. A propaganda pode ser definida como a propagação de
princípios e teorias, visando a um fim ideológico.
Então, "a publicidade seria o conjunto de técnicas de ação coletiva utilizadas
no
sentido de promover o lucro de uma atividade comercial, conquistando, aumentando
ou mantendo cliente. Já a propaganda é definida como o conjunto de técnicas de ação
individual utilizadas no sentido de promover a adesão a um dado sistema ideológico
(político, social e econômico)" (BENJAMIN, 2004, p. 308).
A intenção da obtenção do lucro é o fator mais importante que diferencia a publicida-
de da propaganda, razão pela qual não podem os dois conceitos ser utilizados como sinô-
nimos. Assim, por exemplo, a expressão propaganda eleitoral é corretamente utilizada para
denotar o espaço utilizado pelos partidos políticos para a divulgação de suas ideologias.
13.1 Princípios aplicáveis à publicidade no Código de Defesa do Consumidor
Os princípios da vinculação e da veracidade norteadores da oferta estudados no
Capítulo 12 são plenamente aplicáveis à publicidade. Acrescente-se que o princípio da
veracidade na publicidade está igualmente disposto no art. 37 do Código de Defesa do
..
112 Dirciw do consumidor • Densa
Consumidor, que trata da publicidade enganosa e abusiva. Há outros dois princípios
que se aplicam à publicidade: o princípio da identificação da publicidade e o princípio
da inversão do ônus da prova.
13.1.1 Princípio da identificação da publicidade
Com efeito, determina o art. 36 do Código de Defesa do Consumidor que "a publi-
cidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a iden-
tifique como tal". O princípio da identificação aqui presente visa impelir o anunciante a
fazer anúncios publicitários de modo que o consumidor identifique, de plano, que aquilo
que está vendo ou ouvindo tem como objetivo convencê-lo a adquirir produto ou serviço
disponível no mercado de consumo.
Insere-se aqui a publicidade simulada, cujo caráter publicitário do anúncio é dis-
farçado para que o seu destinatário não perceba a intenção promocional da mensagem
veiculada. É a hipótese de publicidade com roupagem de reportagem, infelizmente ain-
da muito comum na nossa sociedade de consumo, mas proibida pelo Código de Defesa
do Consumidor.
Por força do parágrafo único do art. 36, o fornecedor tem o dever de manter em seu
poder os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem, para o fim
de esclarecer a qualquer interessado sobre a veracidade e transparência da publicidade,
podendo o consumidor lesado requerer indenização perante o anunciante, sendo esta
a finalidade prática deste dispositivo. O ônus de comprovar a veracidade da campanha
publicitária é sempre do fornecedor.
Estudaremos nas seções seguintes a classificação da propaganda enganosa ou abu-
siva. Por ora cumpre esclarecer que a responsabilidade do anunciante é sempre objeti-
va, ainda que o anunciante alegue não ter intenção de enganar, podendo o consumidor
lesado requerer indenização por perdas e danos por prejuízos experimentados em razão
de anúncio falso ou abusivo. Ademais, o caráter enganoso da publicidade compreende
a potencialidade lesiva e a capacidade de induzir ao erro em razão do poder de sugestão
publicitária.
13.1.2 Princípio da inversão do ônus da prova
O ônus da prova da veracidade da informação ou comunicação publicitária cabe
sempre a quem a patrocina (art. 38 do Código de Defesa do Consumidor). Vimos que o
princípio da inversão do ônus da prova é consagrado como direito básico do consumi-
dor (art. 6º, VIII), sendo declarada a inversão do ônus da prova pelo juiz sempre que for
constatada a verossimilhança das alegações, ou quando for o consumidor hipossuficiente.
No que diz respeito à veracidade da mensagem publicitária, o ônus da prova é sem-
pre do patrocinador, sem necessidade da declaração de inversão do ônus da prova pelo
juiz. Portamo, além de a responsabilidade do anunciante ser objetiva, este sempre terá o
ônus de provar que o anúncio é verídico, facilitando a defesa do consumidor em juízo.
Publicidade 113
Outrossim, a publicidade enganosa ou abusiva deve ser colacionada aos autos pelo
consumidor, para que se faça a prova do conteúdo da publicidade, não bastando simples
alegações do consumidor sobre a existência da publicidade. _
13.1.3 Princípio da veracidade
O art. 37 do Código de Defesa do Consumidor proíbe qualquer tipo de publicida-
de enganosa ou abusiva, o que reforça o princípio da veracidade expresso no art. 31 do
mesmo diploma legal.
Assim, o fornecedor deve fazer publicidade com informações corretas, claras, pre-
cisas e ostensivas sobre o produto ou serviço anunciado, abstendo-se de utilizar da pu-
blicidade enganosa ou abusiva.
O ~ 1º do are 37 define propaganda enganosa como sendo "qualquer modalidade
de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou
por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a
respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço
e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços".
A publicidade abusiva é toda "publicidade discriminatória de qualquer natureza, a
que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de
julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz
de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde
ou segurança" (art. 3 7, ~ 2Q).
13.1.3.1 Publicidade enganosa por comissão
A publicidade enganosa por comissão ocorre por uma afirmação do anunciante in-
teira ou parcialmente falsa sobre produto ou serviço. As informações inverídicas levam
o consumidor a erro, e consequentemente a adquirir produtos e serviços fundamentado
em informação equivocada sobre características, preço, quantidade, qualidade e outros
dados sobre o bem de consumo.
As expectativas geradas no consumidor são inverídicas, razão pela qual é possível
que ele não adquirisse o produto ou o serviço se tivesse as informações claras e precisas,
conforme determina o Código de Defesa do Consumidor; consequentemente, a manifes-
tação de vontade do consumidor é viciada.
Destarte, por exemplo, é enganosa a publicidade de água mineral que utiliza no ró-
tulo o slogan "diet por natureza". Para ser considerado dietético, o alimento deve ter sido
modificado em relação ao produto natural; a qualificação diet significa que o produto é
destinado não apenas a dieta para emagrecimento, mas também a dietas determinadas
por prescrição médica. Se a água mineral é comercializada naturalmente, sem alterações
em sua substância, não pode ser assim qualificada, sob pena de induzir a erro o consu-
midor (ST] - Resp 447303/RS).
OI
114 Direito do consumidor • Densa
13.1.3.2 Publicidade enganosa por omissão
o~3º do art. 37 explica que a publicidade é enganosa por omissão quando o anun-
ciante deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço. A omissão rele-
vante é aquela que, ciente dos dados sonegados, levaria o consumidor a não celebrar o
contrato com o fornecedor.
Assim, por exemplo, foi reconhecida pelo antigo 1º Tribunal de Alçada Civil de São
Paulo como publicidade enganosa por omissão a hipótese em que o consumidor contra-
tou prestação de serviço de ensino para curso de especialização, que havia sido registra-
do no Ministério da Educação e Cultura (MEC), mas não tinha o necessário registro no
órgão de Classe, o que impediria o consumidor de ostentar a condição de especialista
(Processo nº 1053574-3).
13.1.3.3 Publicidade abusiva
o legislador, sabedor de que a publicidade é meio de influenciar pensamentos, va-
lores, comportamentos, e modificar condutas na sociedade de consumo, entendeu por
bem intervir e controlar toda vez que aquela se demonstrar abusiva, para que não haja
ameaça à sociedade e aos valores morais, que são o alicerce dela, os quais os anunciantes
devem respeitar, em nome da própria estabilidade jurídico-social vigente.
Ficam vedadas as mensagens publicitárias ofensivas
aos valores éticos e sociais da
pessoa e da família. Daí a proibição da publicidade abusiva, que é aquela que incita a
violência, a discriminação, a exploração do medo, que corrompe a integridade infantil
ou os valores ambientais, ou que ameaça a saúde e a segurança. Sem dúvida, o anun-
ciante que deixar de obedecer ao preceito determinado no art. 37 do Código de Defesa
do Consumidor estará violando, também, o princípio da dignidade da pessoa humana,
estabelecido no art. IQ da Constituição Federal.
O elenco das cláusulas abusivas é exemplificativo e não taxativo, posto que o legis-
lador utilizou a expressão entre outras ao exemplificar a propaganda abusiva. Assim, o
juiz pode, no caso concreto, identificar outras hipóteses de propaganda abusiva, mesmo
que não esteja enquadrada nos termos do artigo em comento.
13.2 Contrapropaganda
A imposição de contrapropaganda é penalidade administrativa estabelecida pelo
art. 56, XII, do Código de Defesa do Consumidor, sempre que o anunciante infringir os
preceitos determinados nos arts. 36 e 37.
A penalidade administrativa de contrapropaganda é imposta ao fornecedor pela au-
toridade competente da União, do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios, após
processo administrativo com observância das garantias do contraditório e da ampla de-
fesa, quando o anunciante incorre em publicidade enganosa ou abusiva.
Publicidade 115
A contrapropaganda tem como objetivo desfazer os efeitos perniciosos causados por
publicidade abusiva ou enganosa e consiste no esclarecimento do engano ou do abuso
cometido pelo anunciante. Esclareça-se que os custos advindos da contrapropaganda são
de responsabilidade do infrator e esta pode ser feita em jornais, revistas, mídia eletrônica
ou televisiva, sempre objetivando o esclarecimento dos consumidores.
13.3 Regulamentação publicitária
o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) é órgão de
iniciativa privada, composto por empresas publicitárias, com o objetivo de Autorregu-
lamentar o trabalho publicitário. Este conselho elaborou, em 1978, o Código Brasileiro
de Autorregulamentação Publicitária, que inclui os seus conselhos de ética e autorregu-
lamentação para a publicidade.
Assim, todo consumidor que se sentir lesado em razão de publicidade abusiva ou
enganosa tem a faculdade de apresentar reclamação ao conselho, podendo o fornecedor
responsável pela publicidade ser punido com advertência, recomendação de alteração
ou correção do anúncio ou recomendação de sustação da veiculação. Evidentemente, o
CONAR não tem o poder coativo do Poder Público, e o cumprimento de suas decisões
e recomendações tem caráter espontâneo.
13.4 Publicidade de bens e serviços por telefone
A Lei nq 11.800/08 alterou o art. 33 do Código de Defesa do Consumidor, incluindo
o parágrafo único ao referido artigo e proíbe, expressamente, "a publicidade de bens e
serviços quando a chamada for onerosa ao consumidor que a origina".
Assim, os fornecedores somente poderão fazer publicidade de seus produtos quando
a ligação for gratuita para o consumidor.
A regra é bem simples mas extremamente útil aos consumidores. Não é justo que
o consumidor pague a conta da publicidade do fornecedor.
É certo, ainda, que o Decreto nº 6.523/08, que regulamentou o serviço de atendi-
mento ao consumidor, estabeleceu, em seu art. 14, a proibição da veiculação de mensa-
gem publicitária durante o tempo de espera para o atendimento, salvo se houver prévio
consentimento do consumidor.
Assim, para os serviços regulamentados pelo mencionado decreto, os fornecedo-
res não poderão veicular mensagem publicitária, ainda que a ligação seja gratuita para
o consumidor.
Questões
1. Sobre oferta e publicidade analise as assertivas abaixo e responda (Ministério Público/PR -
2008):
.J
116 Direito do consumidor • Densa
I - Toda informação ou publicidade suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma
ou meio de comunicação, com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados,
obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier
a ser celebrado.
II - A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas caracterís-
ticas, qualidades, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre
outros dados, hem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos
consumidores.
I1I- Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação
ou publicidade, o consumidor poderá exigir o cumprimento forçado da obrigação,
nos termos da oferta, apresentação ou publicidade.
IV - É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter pu-
blicitário, inteira ou totalmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por
omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, caracte-
rísticas, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) Apenas ai' e a 2' estão corretas.
d) Apenas a 3' e a 4' estão corretas.
e) Apenas a 1', a 3" e a 4' estão corretas.
2. Em matéria de publicidade é correto afirmar, com fundamento no Código de Defesa do Con-
sumidor, que (Procurador do Estado/RN - 2002):
a) a critério do Juiz, poderá ser invertido o ônus da prova;
b) é abusiva a publicidade que dá ao produto finalidade diversa daquela a que se destina;
c) o ônus da prova é sempre do fornecedor quanto à veracidade da informação;
d) a contrapropaganda não se destina à publicidade abusiva; somente à enganosa;
e) é enganosa a publicidade que induz a criança a se comportar de maneira desaconselhá-
vel à sua saúde e segurança.
3. (Ministério Público/MG - 39Q) A respeito do regime da "publicidade" no Código de Defesa
do Consumidor, pode-se afirmar, exceto:
a) O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária
sempre cabe a quem as patrocina.
b) A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente,
a identifique como tal, segundo o princípio da identificação da mensagem publicitária,
que proíbe a publicidade clandestina, a dissimulada, bem como a subliminar.
c) A lei não previu a figura da publicidade enganosa por omissão.
d) O descumprimento do dever de fundamentação da mensagem publicitária com base em
elementos fáticos e científicos é tipificado como ilícito penal.
e) O conceito de publicidade abusiva por desrespeito aos valores ambientais é previsto na
lei.
4. Quanto à publicidade prevista no Código de Defesa do Consumidor, é errado afirmar que
(Magistratura/SP - 1789):
Puhlicidade 117
a) é proibido qualquer tipo de publicidade enganosa ou abusiva;
b) é abusiva a publicidade discriminatória de qualquer natureza e que incite à violência;
c) somente é considerada enganosa a modalidade de informação ou comunicação inteira-
mente falsa, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza do produto;
d) a veiculação publicitária, se aceita a proposta pelo consumidor, impõe ao fornecedor a
obrigação de honrar o que dispõe o anúncio veiculado.
S. Sobre o tema da publicidade, tal como tratado no âmbito da Lei nQ 8.078, de 1990, tem-se
que (Defensor Público/BA - 2006):
1- é abusiva qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário,
inteira ou parcialmente falsa, ou por qualquer outro modo, mesmo por omissão, ca-
paz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade,
quamidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e
serviços.
II - é enganosa, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que
incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de jul-
gamento e experiência da criança, desrespeite valores ambientais, ou que seja capaz de
induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou
segurança.
III - o ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária
cabe a quem as patrocina.
Analisando as assertivas acima, verifica-se que:
a) Todas estão corretas.
b) Apenas a I está correta.
c) Apenas a II está correta.
d) Apenas a 1Ilestá correta.
e) Todas estão incorretas.
6. Acerca do direito de proteção ao consumidor, assinale a opção correta (OAB/CESPE 2006.2):
a) Na execução dos contratos de consumo, o juiz pode adotar toda e qualquer medida para
que seja obtido o efeito concreto pretendido pelas partes em caso de não cumprimento
da oferta ou do contrato pelo fornecedor, salvo quando expressamente constar do con-
trato cláusula que disponha de maneira diversa.
b) Nos contratos regidos pelo Código de Defesa do Consumidor, as cláusulas contratuais
desproporcionais, abusivas ou ilegais podem ser objeto de revisão, desde que o contrato
seja de adesão e cause lesão a direitos individuais ou coletivos.
c) Em todo contrato de consumo consta, implicitamente, a cláusula de arrependimento,
segundo a qual o consumidor pode arrepender-se do negócio e, dentro do prazo de re-
flexão, independentemente de qualquer justificativa, rescindir unilateralmente o acordo
celebrado.
d) Segundo o princípio da vinculação da oferta, toda informação ou publicidade sobre pre-
ços e condições de produtos ou serviços, como a marca do produto e as condições de
pagamento, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação, obriga o fornecedor
que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
.•.• 1 ••
Práticas abusivas
Prática abusiva é a "desconformidade com os padrões mercadológicos de boa conduta
em relação ao consumidor" (BENJAMIN, 2004, p. 361). As práticas abusivas estão pre-
vistas no art. 39 do Código de Defesa do Consumidor, cujo rol é apenas exemplificativo
e manifesta reprovação apenas às hipóteses em que o consumidor é exposto a situações
indesejadas. Destarte, outras hipóteses podem ser consideradas pelo magistrado como
prática abusiva. Vejamos agora o rol estabelecido pelo art. 39.
14.1 Venda casada
A chamada "venda casada" consiste no fornecimento de produto ou serviço sempre
condicionado à venda de outro produto ou serviço. Esta prática está vedada pelo art. 39,
I, do Código de Defesa do Consumidor, de maneira que o consumidor não está obriga-
do a adquirir um produto ou serviço imposto pelo fornecedor para que possa receber o
que realmente deseja.
Infelizmente, sabemos que, embora proibida pelo Código de Defesa do Consumi-
dor, esta prática ainda é muito comum no mercado de consumo. Não raras vezes as
instituições financeiras exigem, para conceder cheque especial para o consumidor, que
este contrate um seguro de vida ou adquira um plano de previdência privada, que não
era de seu interesse.
Citamos aqui o exemplo das instituições financeiras, mas há várias outras hipóteses
em que o consumidor é compelido a adquirir produto ou serviço que não desejava em
razão de imposição do fornecedor.
...
120 Direito do consumidor. Densa
14.2 Venda quantitativa
Outra hipótese de prática abusiva condenada pelo Código de Defesa do Consumidor
é a da "venda quantitativa", que consiste na exigência imposta ao consumidor em adqui-
rir produto ou serviço em quantidade maior ou menor do que aquela de que necessita.
Desta feita, não pode o fornecedor, por exemplo, exigir que o consumidor adquira
uma embalagem promocional com duas latas de leite em pó se ele deseja adquirir ape-
nas uma unidade. Nesta hipótese, pode o consumidor, com fundamento no art. 39 do
Código de Defesa do Consumidor, exigir a venda de uma lata de leite em pó desde que
pague o preço pelo produto sem o desconto oferecido.
É admissível, no entanto, a limitação de produto à quantidade inferior à desejada
pelo consumidor, para que haja manutenção do estoque e se garanta o atendimento aos
demais consumidores.
Em razão disso, é legal a prática dos supermercados que promovem ofertas e limitam
em quantidade razoável a compra dos produtos ofertados para cada consumidor, desde
que o fornecedor tenha como objetivo o interesse dos demais consumidores.
14.3 Recusa em atender à demanda
O fornecedor não pode, imotivadamente, recusar demanda dos consumidores, na
medida de suas disponibilidades de estoque, e, ainda, em conformidade com os usos e
costumes (art. 39, 11).É o caso, por exemplo. de o taxista recusar uma corrida; ou do
cliente que quer pagar o produto a vista e recebe recusa do fornecedor.
O legislador impôs ao fornecedor o dever de contratar e atender indistintamen-
te a qualquer consumidor, não sendo lícito selecionar os seus clientes, nem proibir o
acesso de quem procura os serviços que oferece, salvo motivo excepcional devidamente
comprovado.
O vocábulo estoque deve ser interpretado de maneira extensiva, abrangendo a defi-
nição do artigo não somente o produto que está na vitrina ou prateleira, aos olhos do
consumidor, mas também todo produto que está no interior da loja. Alguns fornecedores
cuidam para que seus anúncios mencionem a quantidade de peças que têm em estoque
com o fito de cumprir o disposto no artigo em comento.
Acrescente-se que o art. 21, inciso XIII, da Lei nº 8.884/94 caracteriza infração à
ordem econômica "recusar a venda de bens ou a prestação de serviços dentro das con-
dições de pagamento normais aos usos e costumes comerciais".
Já o art. 29 da mesma lei dispõe que "os prejudicados, por si ou pelos legitimados
do art. 82 da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1900, poderão ingressar em Juízo para,
em defesa de seus interesses individuais ou individuais homogêneos, obter a cessação
de práticas que constituam infração da ordem econômica, bem como o recebimento de
indenização por perdas e danos sofridos independentemente do processo administrativo,
que não será suspenso em virtude do ajuizamento de ação".
Práricas abusivas 121
14.4 Fornecimento não solicitado
O consumidor tem o direito de receber somente os produtos ou serviços que tenha
expressamente solicitado. Assim, constitui prática abusiva, na forma do art. 39, 111,o
envio ou entrega de produto ou serviço sem solicitação prévia do consumidor. A remes-
sa espontânea não obriga o consumidor, que pode recusar o produto ou recebê-lo como
amostra grátis, inexistindo qualquer obrigação de pagamento.
A jurisprudência já considerou abusiva, por exemplo, a remessa de carnês de cobrança
de prestações de plano de saúde, incorporando-o a serviço não contratado pelo consu-
midor (TJRJ - Apelação Cível nº 11.419/98), ou, ainda, a remessa de cartão de crédito a
consumidor sem requerimento expresso (TJDF - Apelação Cível nº 1998.1.1.072900-0).
14.5 Aproveitamento da hipossuficiência e vulnerabilidade do consumidor
Estabelece o art. 39, IV, que constitui prática abusiva "prevalecer-se da fraqueza ou
ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição
social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços".
A vulnerabilidade do consumidor é presumida (art. 4º), razão pela qual deve o for-
necedor utilizar-se de práticas comerciais que respeitem esta condição do consumidor,
deixando de utilizar-se de práticas comerciais que manipulam o consumidor.
Com fundamento neste dispositivo legal é que os hospitais não podem exigir do
consumidor cheque caução para uma internação até que a empresa responsável pelo
plano de saúde faça liberação de senha. Ora, estando o consumidor em estado de saú-
de delicado, este ou seus familiares certamente vão entregar-se a qualquer exigência do
fornecedor para que tenha tratamento adequado, o que certamente não o fariam se não
fosse um estado de emergência.
Ademais, com fundamento neste dispositivo legal combinado com o art. 51, XV,
pode o consumidor requerer a nulidade do negócio jurídico, bem como as perdas
e da-
nos cabíveis.
14.6 Exigir do consumidor vantagem excessiva
Também constitui prática abusiva a exigência do fornecedor de vantagem excessiva
do consumidor (art. 39, V). Ressalte-se que o legislador não exige que a vantagem ex-
cessiva seja concretizada; basta que seja exigida para configurar a prática abusiva.
Podemos utilizar aqui, analogicamente, o mesmo critério do ~ Iº do art. 51 para
interpretação da expressão vantagem excessiva, em que se presume exagerada a vantagem
que ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence; restringe di-
reitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a ame-
açar seu objeto ou o equilíbrio contratual, ou se mostra excessivamente onerosa para o
consumidor, considerando-se a natureza e o conteúdo do contrato, o interesse das partes
e outras circunstâncias peculiares ao caso.
J t •••••• .J
122 Direito do consumidor. Densa
14.7 Serviços sem orçamento
É proibido pelo art. 39, VI, que o fornecedor execute serviços sem a prévia e ex-
pressa elaboração de orçamento e autorização do consumidor, ressalvadas as práticas
anteriores entre as partes.
Desta feita, constitui direito do consumidor receber prévio orçamento de serviços
a serem efetuados pelo fornecedor, não cabendo o mero acerto verbal, tanto no que diz
respeito ao orçamento quanto à autorização para execução dos serviços. Assim, na hi-
pótese de o fornecedor descumprir este dever, pode o consumidor recusar o pagamento.
O orçamento terá validade por 10 (dez) dias, salvo estipulação em contrário, e dele
devem constar, além do preço, a discriminação dos componentes, equipamentos e ma-
teriais que serão utilizados, bem como, em apartado, o valor da mão de obra e a data de
início e término da execução do serviço (art. 40).
Importante notar que o orçamento, uma vez aprovado pelo consumidor, obriga os
contraentes, e somente pode ser alterado mediante negociação entre as partes, sendo
certo que o consumidor não responderá por quaisquer acréscimos não previstos no or-
çamento prévio.
Tomemos o exemplo do consumidor que deixa seu veículo para revisão em oficina
mecânica. O fornecedor deve, inicialmente, passar o orçamento do valor que será cobrado
a título de mão de obra tão somente para fazer a revisão e detectar eventuais problemas
no veículo. Feito isso e havendo peças a serem trocadas, deve o fornecedor fazer novo
orçamento, informando as partes a serem reparadas, indicando, em apartado, o valor da
mão de obra e o valor das peças a serem trocadas. O orçamento terá prazo de 10 (dez)
dias e deve ser expressamente autorizado pelo consumidor.
14.8 Intercâmbio de dados e informações depreciativas
Outra prática abusiva prevista no Código de Defesa do Consumidor é a transmis-
são de informação depreciativa relativa a ato praticado pelo consumidor, no exercício
regular de seu direito.
Explica Antonio Herman de Vasconcelos e Benjamin (2004, p. 372) que "nenhum
fornecedor pode divulgar informações depreciativas sobre o consumidor quando tal se
referir ao exercício de direito seu. Por exemplo, não é lícito ao fornecedor informar seus
companheiros de categoria que o consumidor sustou o protesto de um título, ou que o
consumidor gosta de reclamar da qualidade de produtos ou serviços, que o consumidor
é membro de uma associação de consumidores ou que já representou ao Ministério PÚ-
blico ou propôs ação".
14.9 Inobservância de normas técnicas
O art. 39, VIII, classifica como prática abusiva a colocação no mercado de consumo
de qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos
oficiais competentes ou pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade
Práticas abusivas 123
credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Indus-
trial (CONMETRO).
Há produtos e serviços que devem obedecer a padrões técnicos de qualidade para
garantir ao consumidor a plenitude dos direitos básicos inseridos no rol do art. 6º, como,
por exemplo, o direito à proteção da vida, saúde e segurança e o direito à informação ade-
quada e clara sobre os diferentes produtos e serviços colocados no mercado de consumo.
Destarte, não pode o fornecedor, por exemplo, colocar no mercado de consumo
brinquedos em desacordo com as normas técnicas da ABRINQ, ou comercializar medi-
camentos sem o devido registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
14.10 Recusa de vendas de bens com pagamento a vista
Outra prática considerada abusiva pelo Código de Defesa do Consumidor, descrita
no art. 39, IX, é a recusa de venda de produtos ou serviços diretamente a quem se dis-
ponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação
regulados em leis especiais.
Este dispositivo guarda semelhança com a proibição de recusa no atendimento às
demandas dos consumidores. No entanto, o que ele protege aqui é o direito que tem o
consumidor de adquirir diretamente o produto ou serviço de quem coloca o produto no
mercado, sem intermediários. Caso haja recusa do fornecedor, pode ser compelido a
cumprir a oferta nos termos do art. 84 do mesmo diploma legal.
14.11 Elevação do preço de produtos e serviços
A elevação de preço de produto ou serviço, sem justa causa, também constitui prá-
tica abusiva (art. 39, X). Ainda que nossa Constituição adote um sistema de liberdade
de preços, há a possibilidade de intervenção do Estado, com o fito de manter o Estado
Social e a democracia.
Não se trata de cumprimento de tabelamento de preço, mas de aumento abusivo de
preços e consequente aumento arbitrário dos lucros. Ademais, a norma em comento está
em consonância com o disposto no art. I73, ~ 4º, da Constituição Federal, ao reprimir
o abuso de poder econômico e o aumento arbitrário dos lucros.
Cumpre ressaltar também que no art. 21, XXIV, da Lei nº 8.884/94 fica caracteri-
zada como infração à ordem econômica a imposição de preços excessivos ou aumentar
sem justa causa o preço de bem ou serviço.
14.12 Inexistência de prazo para cumprimento de obrigação
Vimos que o fornecedor não pode executar serviços ou entregar produtos sem au-
torização expressa do consumidor e que do orçamento deve constar o valor da mão de
•
124 Direito do consumidor. Densa
obra e das peças necessárias ao conserto do bem. Mas não é só: constitui prática abusiva
deixar o fornecedor de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação, ou deixar
a fixação de seu termo inicial a seu exclusivo critério.
Caso deixe o fornecedor de cumprir esta regra, pode o consumidor exigir o imediato
cumprimento da obrigação, com fundamento no art. 331 do Código Civil.
14.13 Índice de reajuste
o fornecedor tem o dever de aplicar fórmula ou Índice de reajuste previsto legal ou
contratualmente, sob pena de incidir em prática abusiva. Fica proibida, portanto, a prá-
tica de modificação unilateral de Índice de reajuste tão somente para que o fornecedor
lucre mais com este ou aquele Índice.
Questões
I. Para melhor disciplinar o exercício da profissão de empresário no que se refere ao respeito
pelos direitos dos consumidores, o Código de Defesa e Proteção do Consumidor regulou as-
pectos relevantes das práticas comerciais, particularmellle quanto à oferta e à publicidade de
produtos e serviços. Acerca dessa disciplina, assinale a opção correta (Ministério Público/
AM - 2007):
a) O fabricante ou o importador assegurarão a oferta de componentes e peças de reposição
do produto enquanto eles estiverem sendo vendidos no mercado.
b) É vedado ao fornecedor condicionar os limites quantitativos do fornecimento de pro-
dutos, de modo a estabelecer que a aquisição versará sobre limite mínimo ou máx'imo
de unidades.
c) A publicidade será enganadora por omissão quando deixar de informar sobre dado es-
sencial do produto ou do serviço.
d) O fornecedor poderá enviar, sem solicitação prévia, qualquer propaganda ou produto
ao consumidor, desde que isso não acarrete nenhum prejuízo ao destinatário.
e) Aprovado o orçamento prévio de fornecimento de serviço, o consumidor terá até 7 dias
para, unilateralmente, desistir do negócio.
2. A respeito do sistema jurídico de proteção do consumidor contra as práticas comerciais abu-
sivas, as seguintes assertivas são verdadeiras, exceto (Ministério Público/MG - 40º):
a) As práticas comerciais abusivas podem ser pré-contratuais ou contratuais, mas não po-
dem ser pós-contratuais.
b) A aplicação de fórmula ou Índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente esta-
belecido constitui prática abusiva.
c) As práticas comerciais abusivas se sujeitam à ação cominatória de cessação e ensejam
a aplicação de sanções administratÍvas e penais, além de ocasionarem a obrigação de
reparar pelos danos causados, inclusive os morais.
d) É considerada prática abusiva a elevação do preço dos produtos e dos serviços sem justa
causa.
Práticas abusivas 125
e) É considerada prática abusiva a colocação, no mercado de consumo, de produ lO ou ser-
viço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes.
3. É sempre vedado ao fornecedor (Defensor Público/RO - 2007):
a) elevar o preço de produtos ou serviços;
b) recusar a venda de bens com pagamento imediato;
c) enviar ao consumidor produto não solicitado por ele;
d) executar serviços sem a prévia elaboração de orçamelllo;
e) condicionar o fornecimento de produto ou de serviços a limites quantitativos.
4. Determinada empresa que envia cartão de vantagens com proposta de relacionamento a con-
sumidores, sem prévia solicitação, desenvolve prática comercial (Defensor Público/SP- 2006):
a) tolerada, desde que a proposta de relacionamento seja de evidente vantagem para o
consumidor;
b) tolerada, desde que o não consumidor manifeste seu desinteresse no prazo estabelecido
na proposta;
c) tolerada, desde que admitido pela autoridade competente;
d) proibida, eis que abusiva, porquanto imponha ao conhecimento do consumidor uma
oferta de produto ou serviço não procurado;
e) tolerada, podendo, no entanto, ser abusiva, bastando que o consumidor manifeste seu
desinteresse.
5. O fornecedor que envia um produto ao consumidor sem solicitação prévia comete (Magis-
tratura/ AL - 2007):
a) prática abusiva vedada pelo Código de Defesa do Consumidor e o produto remetido
considera-se amostra grátis;
b) prática abusiva vedada pelo Código de Defesa do Consumidor, condicionada à devolu-
ção do produto;
c) infração consumerista sancionada com multa ou, na hipótese de reincidência, com proi-
bição da fabricação do produto;
d) infração consumerista, sujeita à apreensão do produto;
e) crime previsto e punido pelo Código de Defesa do Consumidor.
6. A técnica de inserção de propaganda de produto (merchandising) perante o Código de
Defesa do Consumidor (Procurador da República - 22º):
a) é expressamente vedada;
b) nem sempre se reveste de clandestinidade;
c) é ignorada;
d) é remetida à disciplina especial do Código Brasileiro de Autorregulamentação.
lo
15
Cobrança de dívidas
15.1 Forma de cobrança de dívida
A lei de defesa do consumidor prevê restrições aos fornecedores no que diz respei-
to à forma de cohrança de débitos junto aos consumidores. Determina o art. 42 que, na
cobrança de débit~s, o consumidor inadimplente não poderá ser exposto ao ridículo ou
a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.
Várias são as formas utilizadas pelo fornecedor para expor o consumidor ao ridícu-
lo e constrangê-lo a efetuar o pagamento dos débitos, gerando o dever de indenização
por danos morais ao consumidor. É o caso, por exemplo, do credor que divulga lista dos
devedores em murais, ou efetua o bloqueio do cartão de entrada no estabelecimento,
prática muito comum nas escolas particulares.
No entanto, não são todas as hipóteses que geram o dever de indenizar o consumi-
dor por dano moral. Destarte, no envio de carta pelo fornecedor informando da possível
inscrição do nome do consumidor nos cadastros de inadimplentes, sem dizeres ofensi-
vos, cobrando dívida já paga ou prescrita, não há que se falar em indenização por danos
morais, tratando-se a correspondência somente de um aviso.
Não há dúvida de que o credor pode lançar mão dos meios legais para exigir o cum-
primento da obrigação assumida pelo consumidor, pretendendo o legislador somente
que o fornecedor não abuse deste direito face à hipossuficiência e vulnerabilidade do
consumidor.
Dessa forma, ocorrendo a hipótese de o fornecedor ingressar com ação de cobrança
em face do consumidor e de esta ser julgada improcedente, não há que se falar em ex-
posição do consumidor ao ridículo, constrangimento ou ameaça, mas exercício regular
de direito.
••
128 Direito do consumidor o Dcns;1
15.1.1 Informações sobre o fornecedor
Cumpre notar que a Lei nQ 12.039/09 determina que dos documentos de cobrança
de débitos apresentados ao consumidor devem constar as seguintes informações:
o nome do fornecedor (credor);
o endereço do fornecedor;
o cadastro de pessoa física ou jurídica do fornecedor(CPf Oll CNPJ).
Primeiramente, é preciso esclarecer que esta regra pretende garantir ao consumidor
a clareza da informação quanto ao fornecedor e credor da dívida, hem como quanto ao
endereço para localização e negociação ou pagamento do déhito. Demais disso, é comum
que o fornecedor transfira os valores a receber do consumidor com terceiros, em nego-
ciação (factoring) podendo gerar dúvida quanto ao credor da obrigação.
Ressaltamos que quaisquer documentos de cohrança devem conter tais informações,
inclusive os boletos bancários emitidos em nome do consumidor para quitação de suas
dívidas e eventuais cartas de cobrança.
15.2 Repetição do indébito
O consumidor cobrado em quamia indevida tem direito à repetição do indébito, por
igual valor ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros
legais, salvo hipóteses de engano justific;ível (art. 42, parágrafo único).
Da dicção legal percebemos que a repetição do indébito é condicionada ao efetivo
pagamento da cobrança pelo consumidor. Assim, a simples carta de cobrança não preen-
che a exigência do artigo citado, não gera direito de indenização ao consumidor.
De qualquer sorte, o consumidor que paga em razão de cobrança excessiva tem di-
reito a receber o dobro do que pagou a mais. Não haverá repetição se o erro na cobrança
for justificável.
O fornecedor que deixa de cumprir o disposto no art. 42 do Código de Defesa do
Consumidor comete, em tese, o crime descrito no an. 71 do mesmo diploma, sujeito à
pena de 3 (três) meses a I (um) ano de detenção.
15.3 Banco de dados e cadastro de consumidores
O art. 43 da legislação consumeirista trata do direito inequívoco do consumidor de
acesso às informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de
consumo arquivados sobre ele, hem como das suas respectivas fontes. Este direito coa-
duna-se com o direito hásico à informação estahelecido no art. 6°, inciso lI!.
Cobrança de dívidas 129
É tamhém garantido pelo mesmo dispositivo que os cadastros de consumidores
devem ser objetivos, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo
conter informações negativas referentes a período superior a cinco anos.
Destarte, o banco de dados de consumidores tem caráter público, deve abrigar in-
formações em linguagem precisa, de fácil compreensão, além de procedentes ou verda-
deiras. O direito de solicitar informações pode ser exercido através do habeas data, nos
termos da Lei nQ 9.507/97. No entanto, cabe esclarecer que, segundo a Súmula 2 do STJ,
não cabe habeas data (Cf, art. 5", LXXII, alínea a) se não houve recusa de informações
por parte da autoridade administrativa.
Vê-se que o Código de Defesa do Consumidor não obsta a inscrição do nome do
devedor em órgãos de proteção ao crédito, dispondo, inclusive,
expressamente no art.
43, acerca do acesso aos dados, da sua alteração, do prazo de permanência das informa-
ções negativas. Pretende-se, com isso, o amparo ao vulnerável, não servindo, contudo,
de escudo para a perpetuação de dívidas.
Ao consumidor é assegurado o direito de acesso e de correção ao hanco de dados,
cometendo crime aquele que impede o acesso ou deixa de corrigir a informação (arts.
72 e 73 do Código de Defesa do Consumidor).
Registre-se, por fim, que é direito de qualquer interessado fazer anotação nos re-
gistros, neles consignando que o débito inscrito está sub judice, conforme prevê o ~ 2º do
art. 4º da Lei nº 9.507/97, verbis:
"An. 4° Constatada a inexatidão de qualquer dado a seu respeito. o interessado, em
petição acompanhada de documentos comprobatórios, poderá requerer sua retificação.
[ ... ]
5 2° Ainda que não se constate a inexatidão do dado, se o interessado apresentar ex-
plicação Oll contestação sobre o mesmo, justificando possível pendência sobre o fato
objeto do dado. tal explicação será anotada no cadastro do interessado."
15.4 Aviso-prévio
O direito ao aviso-prévio está disposto no ~ 2'! do art. 43 "a abertura de cadastro,
ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada por escrito ao con-
sumidor, quando não solicitada por ele".
Assim, qualquer inclusão de informações, seja de caráter "positivo" (a simples in-
formação quanto a alteração de endereço do consumidor) ou negativo, a entidade de
cadastro deverá informar previamente e por escrito o consumidor. O Superior Tribunal
de Justiça entende que se a origem das informações for pública (como, por exemplo,
a distrihuição de um processo de execução contra o consumidor ou o protesto de um
cheque) o banco de dados não terá a obrigatoriedade de efetuar o aviso-prévio, dada
a puhlicidade das informações (Veja: 511, REsp. 992. I 68/RS, Df 25.02.2008 e AgRg
no AI1.023.919/SP).
Por outro lado, cadastro de emitentes de cheques sem fundo mantido pelo Ban-
co Central do Brasil é considerado de consulta restrita, não podendo ser equiparado a
..
130 Direito do consumidor • f)~nsa
banco de dados públicos, razão pela qual o consumidor terá o direito de aviso-prévio
para inclusão do seu nome em cadastro de inadimplentes (Veja: STJ, REsp 1.032.090/
RS, Df 12.8.2008).
Para que a comunicação seja válida e atinja o objetivo a que se destina, deverá ocor-
rer dias antes do registro de débito em atraso, mas o Código não estabelece prazo para
tanto. Entendemos que os arquivistas devem enviar tais correspondências com um pra-
zo médio de 5 (cinco) dias úteis antes da efetivação do registro, para que o consumidor
possa tomar as providências que emender cabíveis. Esse prazo pode ser utilizado por
analogia ao ~ 3° do mesmo art. 43 que determina aos arquivistas o prazo de cinco dias
úteis para informar a todos o pagamento do débito pelo consumidor.
Cumpre assinalar que o legislador pretendeu, com o ~ 2° do art. 43 do Código de
Defesa do Consumidor, não somente a notificação da mora do consumidor, mas tam-
bém a oportunidade de acesso e possível retificação das informações que estão sendo
registradas.
Este procedimemo objetiva prevenir o consumidor de futuros danos, a fim de que
não passe pelo constrangimento de ser surpreendido com a impossibilidade de contra-
tações a crédito ou de sofrer danos morais e patrimoniais que as informações incorretas
possam lhe provocar.
A Súmula 358 do Superior Tribunal de Justiça determina que "cabe ao órgão man-
tenedor do cadastro de proteção ao crédito a notificação do devedor antes de proceder à
inscrição". Não há dúvidas de que o consumidor tem direito ao aviso-prévio quanto ao
registro ou à inscrição, mas houve, em nossos tribunais, sérias discussões a respeito da
solidariedade entre os fornecedores para o cumprimento desta obrigação.
Perceba que não há relação direta de consumo entre o consumidor e a instituição
que mantém o banco de dados, posto que a aquisição de bens se deu com o fornece-
dor que colocou o produto ou serviço no mercado de consumo. No entanto, sempre
defendemos a opinião de que tanto o fornecedor direto quanto a instituição que man-
tém o cadastro negativo de consumidores deveriam avisar previamente o consumidores
quando da inclusão.
Nossa interpretação estava calcada no conceito de fornecedor do art. 3°, no art. 7"-
e no art. 25 do Código de Defesa do Consumidor que, em seu parágrafo primeiro traz,
claramente, a responsabilidade solidária entre os causadores do dano: "havendo mais
de um responsável pela causação do dano, todos responderão solidariamente pela repa-
ração prevista nesta e nas seções anteriores" (art. 25, )0.). Ora, se a ausência de notifi-
cação sobre a inscrição causou dano ao consumidor, todos os envolvidos deveriam ser
responsáveis pela reparação.
No enfrentamento desta questão o Ministro Ruy Rosado Aguiar, em seu voto no Re-
curso Especial nO285.401 (Df 11/6/2001) deixou clara a obrigação da administradora
do cadastro e do credor (fornecedor direto) de avisar ao consumidor sobre a inscrição.
No entanto, no Agravo de Instrumento nO661.963/MG (2005/0032172-2), que ori-
ginou a súmula em comento, a Relatora, Ministra Nancy Andrighi, entendeu que o único
responsável pelo aviso-prévio ao consumidor deve ser da entidade que mantém o cadastro.
Temos, então, com a emissão da Súmula 359 do STJ que: (a) o fornecedor direto
(credor) não tem qualquer responsabilidade sobre o prévio aviso ao consumidor, em
Cobrança rle divicLlS 131
outras palavras, a súmula exclui a responsabilidade do credor e mantém somente a
responsabilidade da entidade que mantém o cadastro de inadimplentes a obrigação de
avisar previamente o consumidor e (b) o direito ao aviso-prévio foi reforçado pela emis-
são da súmula, garantindo ao consumidor o direito à informação sobre suas informações
cadastrais.
Importante notar que este direito de prévio aviso deve ser observado mesmo
que o devedor seja avalista, fiador, até mesmo se já constar seu nome no cadastro de
inadimplentes.
rica evidente, portanto, que, na hipótese de as entidades de proteção ao crédito
deixarem de cumprir com o dever de prévio aviso quanto à inscrição do nome do consu-
midor no cadastro de inadimplentes, é possível a condcnação por danos morais (REsp
955.473/RS, Df 29.11.2007; AI 959.364/DF).
Devemos ainda notar que alguns acórdãos do STJ têm externado o entendimento
de que a ausência de aviso-prévio deve gerar tão somente o cancelamento do registro
negando o pagamento por danos morais. Sendo assim, "é ilegal a inscrição de nome de
devedor nos serviços de proteção ao crédito sem a nOlificação prévia exigida pelo art.
43, ~ 2º, do cnc, sendo incabível, entretanto, o pagamento de indenização a título de
dano moral quando o devedor, ciente da dívida, tem o seu nome inscrito em órgãos de
proteção de crédito" (REsp 1.01O.881/RS, Df 8.9.2008).
Outro entendimcnto externado pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça que é
dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre
a negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros (Súmula 404 do STJ).
A Súmula 404 complementa a Súmula 359 do STJ e dispensa o aviso de recebi-
mento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome
em bancos de dados e cadastros. É importante ressaltar que não há dispensa do aviso-
prévio, mas o protocolo que pode ser utilizado corno prova do envio do aviso (Veja, a
respeito do tema (STJ, AgRg no 1181732/RS, Df 9.12.2009).
Caso o consumidor neguc o recebimento de notificação pelo arquivista e este ale-
gue que enviou carta avisando sobre a inclusão do nome do consumidor nos cadastros
ncgativos, deverá fazer a prova do envio por outros mcios, ainda quc sc dispense o aviso
de recebimento da correspondência.
Na forma do art. 333 do Código de Processo Civil, o ônus da prova incumbe ao autor,
quanto ao fato constitutivo do seu
direito e ao réu quanto a existência de fato impedi-
tivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Este é o entendimento quc pode ser
o observado através do Recurso Especial nº 893.069 - RS (2006/0222664-4), relatado
pelo ministro Humberto Gomes de Barros (Veja também: STJ, Agravo de Instrumento
nº 727.440 - RJ (2005/0204087-0).
Sendo assim, o fornecedor deve enviar ao arquivista todas as informações a respei-
to do consumidor incluindo o nome, endereço, valor da dívida, e outros dados que pos-
sam identificar corretamente o inadimplente para que a inclusão no cadastro seja feita
de forma correta. O arquivista, por seu turno, deverá enviar correspondência para aviso
ao consumidor, dispensando-se o protocolo deste aviso para fins probatórios em juízo.
o.
132 Direiw do consumidor" Densa
15.5 Inscrição indevida
Com mais razão, é cabível indenização por danos morais se houver inscrição indevida
do consumidor no cadastro de inadimplentes. Sem dúvida, o caráter vexatório desta ins-
crição para o consumidor que preza pelo adimplemento de seus compromissos, por si
só, já se constitui fato lesivo.
Nesta hipótese, o dano moral é presumido, não havendo necessidade de se fazer pro-
va quanto ao prejuízo sofrido pelo consumidor, desde que comprovado o evento danoso,
posto que a situação afeta sua honra, sua credibilidade, seu bom nome, sua reputação,
sem falar na restrição de crédito.
No entanto, caso o consumidor já tenha dívida regulamente inscrita no cadastro de
proteção de crédiLO, a segunda inscrição, ainda que indevida, n<lo gera dano moral. Este
é o entendimento emitido pelo Superior Tribunal de Justiça na Súmula 385: "da anota-
ção irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral,
quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento".
O dano moral pode ser conceituado como aquele que atinge o âmago do indivíduo
causando dor íntima, sofrimento, humilhação e angústia (MELO, 2008, p. 58). O direi-
to à indenização por dano moral está garantido pelo art. 6", VI, do Código de Defesa do
Consumidor e art. 5º, X, da Constituição [-:ederal.
Para consumidor que quita seus compromissos peralHe os fornecedores, a inclusão
de seu nome no cadastro de inadimplentes causa humilhação e sofrimento, atingindo
sua honra, credibilidade, bom nome, reputação, sem falar na restrição de crédito. É por
esta razão que, toda a vez que a inscrição for indevida, o fornecedor deverá arcar com
a indenização. Nesta hipótese, o dano moral é presumido, não havendo necessidade de
se fazer prova quanto ao prejuízo sofrido pelo consumidor, desde que comprovado o
evento danoso.
Na mesma esteira, a doutrina e a jurisprudência majoritária afirmavam ser cabível a
indenização por dano moral quando o consumidor apresentava uma inscrição indevida,
ainda que as outras fossem devidas. Nestes casos, o valor da indenização era diminuído
em razão dos cadastros regulares.
No entanto, com a nova imerpretação dada pela Súmula 358, o consumidor não terá
direito à indenização por dano moral por inscrição indevida caso já tenha dívida regula-
mente inscrita no cadastro de proteção de crédito.
Da análise dos acórdãos que geraram a súmula em comento extraímos a seguin-
te afirmação: "quem já é registrado como mau pagador não pode se sentir moralmente
ofendido pela inscrição do seu nome como inadimplente em cadastros de protcção ao
crédito" (Veja: STJ, REsp 1.002.985/RS, Df 27.8.2008).
Estamos, portanto, diante da polêmica sobre a caracterização do dano moral e sua
função. Podemos dizer, grosso modo, que caracteriza o dano moral a ação ou omissão
capaz de gerar dor Íntima a outrem. É evidente que não são todas as situações do coti-
diano que podem configurar o dano moral, mas somente aquelas que fogem ao padrão
de conduta da sociedade. Por outro lado, a função do dano moral é trazer conforto à ví-
tima e punir aquele que agiu de forma inadequada.
C:ObLtnÇ,1 til' dividas 133
Quanto à caracterização do dano moral, precisas são as palavras de Nehemias Do-
mingos de Melo "muitos doutrinadores consideram árdua a tarefa de separar o joio do
trigo, isto é, delimitar, diante do caso concreto, o que vem a ser dissabores normais da
vida em sociedade ou danos morais. Essa questão é das mais tormentosas exatamente
por não existirem critérios objetivos definidos em lei, de modo que o julgador acaba por
buscar supedâneo na doutrina e na jurisprudência para aferir a configuração ou não do
dano moral. O que precisa haver na avaliação do dano moral é prudência e bom-senso,
para que possa, considerando o homem médio da sociedade, ver configurada ou não a
lesão a um daqueles bcns inerentes à dignidade humana de que a Constituição nos fala"
(2008, p. 58).
Alguns consumidores são, de falO, maus pagadores, o que pode gerar a anotação
regular no cadastro de inadimplentes e ação judicial para a cobrança desses valores.
Entendemos que essa conduta é absolutamente adequada e em conformidade com o
ordenamento jurídico.
No entanto, por outro lado, estamos diante de uma conduta ilícita do fornecedor,
qual seja, dizer publicamente que o consumidor é devedor de uma quantia quando, de
faLO,não é, podendo causar, sem dúvidas, danos aos consumidores.
Parece-nos que a aplicação da Súmula 358 sem qualquer preocupação com a análise
do caso concreto pode causar distorções e injustiças e proteger o fornecedor ao invés de
dar a devida proteção ao consumidor.
Endentemos, ainda, que a súmula viola o art. 5º, X, da Constituição Federal, que
garante a indenização por danos morais como um direito fundamental. Sendo assim, a
questão pode ser objeto de discussão perante o Supremo Tribunal Federal.
Por ora, restacnos urna opção para o problema: caso o consumidor tenha, de fato,
uma inscrição indevida no cadastro de inadimplentes e queira requerer indenização por
dano moral deverá, antes de ingressar com ação judicial, quitar suas dívidas para excluir
do cadastro as anotações que de faLOrepreselllavam seus débitos e, após a quitação,
sem qualquer inscrição devida, poderá mover ação judicial pela manutenção da anota-
ção indevida.
15.6 Prazo para correção das informações
Outra hipótese corriqueira geradora do dever de indenizar é aquela em que há a ma-
nutenção dos dados do consumidor nos cadastros de proteção ao crédito, mesmo tendo
este quitado a dívida perante o fornecedor.
Dissemos que o consumidor tem o direito de exigir a imediata correção dos seus
dados todas as vezes que enCOlHrar inexatidão das informações. O prazo assinalado pelo
Código de Defesa do Consumidor para que o arquivista comunique a informação aos
destinatários é de 5 (cinco) dias úteis (art. 43, ~ 3º).
Cabe às entidades credoras que fazem uso dos serviços de cadastro de proteção ao
crédito mantê-los alUalizados, de sorte que, uma vez recebido o pagamento da dívida,
devem providenciar, imediatamente, o cancelamento do registro negativo do devedor,
sob pena de gerarem, por omissão, lesão moral, passível de indenização.
134 Direito do consumidor. Densa
Caso o fornecedor não cumpra o dever de corrigir a informação constante do cadas-
tro, incorrerá no tipo penal estabelecido no arr. 73 do mesmo diploma legal, com pena
de detenção de um a seis meses e multa.
No que diz respeito aos critérios para a fixação do dano moral, a jurisprudência ma-
joritária caminha no sentido de que a reparação do dano não pode vir a constituir-se em
enriquecimento indevido, mas, de outro lado, há de ser fixada em montante que deses-
timule o ofensor a repetir o cometimento de outro ilícito (veja seção 6.4).
15.7 Dívida sub judice
Muito se discute a respeito da manutenção da inscrição do consumidor no cadastro
de proteção ao crédito na hipótese em que a dívida, total ou parcialmente, esteja sendo
objeto de discussão judicial.
Neste caso, pode o consumidor requerer a retirada de seus dados, comprovando a
propositura de ação que
contesta a existência integral ou parcial do débito, bem como
deve demonstrar o fumlls bonis jllris. Há entendimelllo jurisprudencial no sentido de que
é necessário, em sendo a contestação apenas de pane do débito, que o consumidor de-
posite o valor referente à parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea (Resp nº
S27.618/RS, ReI. Min. Cesar Asfor Rocha).
Para os contratos bancários o STj decidiu (REsp 1.061.S30/RS) que a manutenção
ou inscrição do consumidor em cadastro de inadimplentes somente poderá ser deferida
em antecipação de tutela ou em ação se cumulativamente (a) a ação for fundada em ques-
tionamento integral ou parcial do débito; (b) houver demonstração de que a cobrança
indevida se funda na aparência do bom direito e em jurisprudência consolidada do STj
ou STF; (c) houver depósito do valor incontroverso ou se prestada caução conforme ar-
bítrio do juiz. (A respeito do tema veja item 18.10.4.)
15.8 Reparação de dano
No que diz respeito aos critérios para a fixação do dano moral, a jurisprudência ma-
joritária caminha no sentido de que a reparação do dano não pode vir a constituir-se em
enriquecimento indevido, mas, de outro lado, há de ser fixada em montante que deses-
timule o ofensor a repetir o cometimento de outro ilícito (veja seção 6.4).
15.9 Prazo de manutenção das informações negativas
É perfeitamente permitida a inscrição do nome do consumidor em cadastro de inadim-
plentes toda a vez que este deixa de quitar seus débitos perante o fornecedor. O Código
de Defesa do Consumidor determina, em seu art. 43, ~ I", que as informações negativas
sobre os consumidores podem ser mantidas nestes cadastros por, no máximo, 5 (cinco)
anos. Ademais, o ~ Sº do art. 43 determina que os Sistemas de Proteção ao Crédito não
devem manter ou disponibilizar dados que digam respeito a débitos prescritos.
Cobrança de dívidas 135
Houve discussão doutrinária e jurisprudencial a respeito de a qual prazo de pres-
crição o ~ Sº do art. 43 se referia. A dúvida estava em decidir se o prazo de prescrição
era o da ação de cobrança ou do título extrajudicial. O STj colocou fim a essa discussão
proferindo a Súmula 323 com o seguinte teor: "A inscrição de inadimplente pode ser
mantida nos serviços de proteção ao crédito por, no máximo, cinco anos."
Conforme entendimento do SlJ, o teor do ~ Sº do art. 43 refere-se à prescrição da
ação de cobrança, não devendo ser confundida com a prescrição do título executivo.
Nesse sentido, ressaltou a Ministra Nancy Andrighi: "o nome do devedor só pode ser
retirado dos cadastros de inadimplentes quando decorrido o prazo de 5 anos previsto no
arr. 43, ~ 1°, do CDe. Todavia, admite-se a retirada em prazo inferior quando verificada
a prescrição do direito de propositura de ação de conhecimento para cobrança de dívida,
conforme consta do ~ 5° ao mesmo artigo, e não simplesmente do direito de ação para
execução do título que ensejou a negativação" (REsp 61S.908/RS).
Parece evidente que, se o fornecedor deixou de exercer o seu direito de ação na for-
ma e prazo legal, não terá o direito de manter o nome do consumidor no cadastro de
inadimplente. Nesse sentido, vale lembrar a máxima romana dormientibus non SllCUlTit (o
direito não ajuda a quem dorme).
Queremos dizer, com isso, que o arquivista surgiu com a finalidade de proteger o
crédito, mas não está assegurado a ele o direito de cobrar dívidas. Somente ao Estado-
juiz é conferido o direito de, na forma da lei, exigir o cumprimento da obrigação. Ora,
se o judiciário não pode mais determinar o pagamento da dívida porque prescrita, não
será permitido ao banco de dados fazer o papel de cobrador.
Temos, portanto, dois limites temporais estabelecidos pela lei: (a) a dívida prescrita
não pode ser mantida no cadastro de proteção ao crédito e (b) prazo máximo de cinco
anos para manutenção do nome do consumidor no arquivo de inadimplentes.
Há, ainda, outra questão fundamental a ser discutida: qual é o termo inicial pãra a
contagem do prazo de cinco anos para a manutenção do cadastro? A doutrina sempre
respondeu a esta questão afirmando que o prazo deve ser contato a partir do dia seguin-
te ao vencimento da dívida.
No entanto, o Superior Tribunal de justiça tem firmado o entendimento de que o
termo inicial para a contagem do prazo prescricional é a data efetiva da inscrição do nome
do consumidor no cadastro de inadimplentes (Veja: STj, AgRg no Ag 1.271.123/RS, Dfe
30.8.20 IO e AgRg no Ag nº 713.629/ES, Df de 4.8.2009).
De todo o modo, ainda que se conte o prazo a partir da inscrição da dívida no
cadastro de inadimplentes, não poderá ultrapassar o limite de 5 anos, sob pena de
descumprimento da lei e da súmula em comento, podendo causar danos moral ao
consumidor. O arquivista não é o Estado-juiz e pode servir de instrumento de coação
ao consumidor, podendo configurar o abuso de direito se deixar de observar limites
estabelecidos pela lei.
15.10 Súmulas aplicáveis
Súmula 404 do STJ: É dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de comu-
nicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros.
136 Direito do consumidor ., Deus;1
Súmula 385 do ST): Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não
cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o
direito ao cancelamento.
Súmula 380 do ST): A simples propositura da ação de revisão de contrato não inibe
a caracterização da mora do autor.
Súmula 369 do ST): No contrato de arrendamento mercantil (/easing), ainda que
haja cláusula resolutiva expressa, é necessária a notificação prévia do arrendatário para
constituí-lo em mora.
Súmula 359 do ST): Cabe ao órgão mantenedor do Cadastro de Proteção ao Cré-
di(() a notificação do devedor antes e proceder à inscrição.
Súmula 323 do ST): A inscrição de inadimplente pode ser mantida nos serviços de
proteção ao crédito por, no máximo, cinco anos.
Súmula 322 do ST): Para a repetição de indébito, nos contratos de abertura de cré-
dito em conta-corrente, não se exige a prova do erro.
Súmula 284 do ST): A purga da mora, nos contratos de alienação fiduciária, só é
permitida quando já pagos pelo menos 40% (quarenta por cenLO) do valor financiado.
Súmula 245 do ST): A notificação destinada a comprovar a mora nas dívidas ga-
rantidas por alienação fiduciária dispensa a indicação do valor do débito.
Súmula 76 do ST): A falta de registro do compromisso de compra e venda de imo-
vel não dispensa a prévia interpelação para constituir em mora o devedor.
Súmula 72 do ST): A comprovação da mora e imprescindível a busca e apreensão
do bem alienado fiduciariamente.
Súmula 2 do ST): Não cabe o habeas data (cf, art. 5., LXXII, letra "a") se não houve
recusa de informações por pane da autoridade administrativa.
Questões
l. Com base nas disposições comidas no COe:. (; correto afirmar (Magistratura - MS/20 lO):
a) É permitida aos fornecedores a manutenção de banco de dados e cadastros de imdim-
plemes, sem necessidade de informaçiio prévia do consumidor.
b) As informações negativas a respeito do consumidor podem permanecer no banco de
dados por um período de até 10 anos.
c) Os órgãos públicos de defesa do consumidor, na divulgaçiio anual das reclamações re-
alizadas COlllrafornecedores, são proibidos de divulgar aquelas formuladas por consu-
midores que se encontrem inadimplentes.
d) O fornecedor. ainda que demonstre ausência de culpa ou erro escusável, fica obrigado
a indenizar o consumidor pelo valor correspondente ao dobro daquele que lhe tenha
sido cobrado indevidamellle.
e) Os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores, incluindo os serviços de pro-
teção ao crédito, são considerados entidades de caráter público.
Cohraoça de di\'id.s 137
2. Com o crescente desenvolvimento das relações comerciais e hancárias, complexas e dinâmi-
cas, criaram-se os chamados registros de proteção ao crédito, neles
figurando informações
negativas de inadimplentes colllumazes. O prazo prescricional para a manutenção desses
registros de consumidtlres em déhiro, segundo o Superior Tribunal de Justiça, é (Procurador
da República - 24"):
a) de 5 (cinco) anos;
b) trienal (Código Civil, art. 206, 5 3", inc. VIl!);
c) de 10 (dez) anos, dependendo da natureza da dívida (Código Civil. an. 205);
d) é o mesmo do prazo previsro para a ação de execução.
:>. Assinale 'I opçiio correta a respeito dos bancos de dados e cadastros de consumidores (OAB/
CESPE 2009.3):
a) Somente poderiio constar nos bancos de dados as informações negativas sobre consu-
midores relativas aos últimos dois anos. .
b) Os serviços de proteção ao cr(~dito e congêneres sáo considerados entidades que pres-
tam serviços de caráter privado.
c) O consumidor, sempre que enconrrar inexatidáo nos seus dados e cadastros, poderá
exigir imediata correção.
d) O consumidor deverá ser informado verbalmente toda vez que ocorrer alteraçiio de ca-
dastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo, relativos a seu nome. desde que
não a tenha solicitado.
4. Considere este trecho (Analista de Promotoria - MP/SP 2010):
Os cadastros dos consumidores não podem conter inl<lfInações negativas referentes a período
superior a . . . Caso o consumidor encontre inexatidiio no seus dados, poderá
exigir que scjam corrigidas tais informações .. --o Depois de corrigidas tais infor-
rnaçôes errôneas. o arquivista informará a alteração aos evenlllais destinatários
A alwrnativa cujos termos completam, correta e respecti\'amente, as lacunas da frase, é:
a) :; anos em 5 dias ... imediatamente
b) 5 anos imediatamente em 5 dias úteis
c) 5 anos imediatamente em 5 dias corridos
d) 3 anos em 5 dias úteis illlediatamemc
c) 5 anos imediatamente em 7 dias úteis
5. (Magistratura/SP .. 170°) Na disciplina da Lei nQ 8.078, de 1990, a abertura de cadastro COI1-
tendo informações sobre o consumidor:
a) é sempre vedada;
b) é permitida, podendo conter informações negativas caso referentes a um período supe-
rior a 10 (dez) anos;
c) someme é permitida se solicitada pelo consumidor;
d) é permitida, caso solicitada pelo consumidor ou a este comunicada por escrito.
6. Acerca elas práticas comerciais dispostas no Código de Defesa do Consumidor, assinale a op-
ção correta (OAB/CESPE 2009.3):
138 Direito do consumidor • Densa
a) O consumidor tem o direito de receber o dobro do que tenha pago em excesso, acrescido
de juros e correção monetária. no caso de cobrança indevida, salvo hipótese de engano
justificável.
b) Considera-se publicidade abusiva a comunicação de caráter publicitário inteiramente
falsa que induza a erro.
c) O consumidor que receber produto em sua residência, mesmo sem solicitação, e não
devolvê-lo, deve efetuar o pagamento do respectivo preço.
d) É lícito que o fabricante de produtos duráveis condicione o fornecimento de seus pro-
dutos à prestação de determinados serviços.
7. Assinale a alternativa incorreta (Ministério Público/PI - 2002):
a) O fornecedor de serviço será obrigado a entregar ao consumidor orçamento prévio dis-
criminando o valor da mão de obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados,
as condições de pagamento, bem como as datas de início e término dos serviços.
b) No caso de forne.cimento de produtos ou de serviços sujeitos ao regime de controle ou
de tabelamento de preços, os fornecedores deverão respeitar os limites oficiais sob pena
de, não o fazendo, responderem pela restituição da quantia recebida em excesso, mo-
netariamente atualizada. podendo o consumidor exigir, à sua escolha, o desfazimento
do negócio, sem prejuízo de outras sanções cabíveis.
c) O consumidor terá acesso às informações existentes em cadastros, fichas, registros e
dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respecti-
vas fontes, ressalvadas as hipóteses em que colocar em risco a segurança comercial do
fornecedor.
d) Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem
será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.
e) Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão cadastros atualizados de recla-
mações fundamentais contra fornecedores de produtos e serviços, devendo divulgá-los
pública e anualmente. A divulgação indicará se a reclamação foi atendida ou não pelo
fornecedor.
iIi
Proteção contratual
16.1 Generalidades
Vimos que o Estado Liberal oferecia prioridade à liberdade do indivíduo e ao direi-
to de propriedade, princípios fundamentais para a burguesia e para a manutenção do
sistema capitalista. A ordem econômica, para o modelo liberal, é decorrente das leis na-
turais, cabendo ao homem contribuir com a sua racionalidade, interesse e motivação no
mercado de trocas de bens e serviços para obter o máximo de benefício.
Os direitos individuais contidos no ordenamento jurídico não eram apenas instru-
mentos de defesa do indivíduo, mas fundamentalmente expressão de uma ordem eco-
nômica e social liberal. Traduziam garantia constitucional da economia capitalista. As-
sim, a regra geral dominante nos contratos era do laissez-faire, laissez-passer (deixar fazer,
deixar passar).
A teoria geral dos contratos tem passado por grande transformação desde o início
do século XIX, sendo certo que a excessiva rigidez então orientadora dos contratos tem
sido paulatinamente substituída por novos paradigmas voltados para a construção de
relação contratual mais justa, mesmo que isso importe em flexibilização dos parâmetros
contratuais até então adotados.
O liberalismo contratual até então predominante passa a dar espaço para a interven-
ção estatal. No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor foi importante marco para a
alteração dos paradigmas contratuais liberais, introduzindo normas de ordem pública
que mitigaram o princípio da autonomia privada e do pacta sunt servanda, conforme estuda-
remos a seguir.
O Código Civil, que entrou em vigor no início do ano de 2003, seguindo os parâmetros
constitucionais de estado social democrata, trouxe para as relações civis imponantes alte-
rações para a teoria geral do contrato, incluindo o princípio da boa-fé objetiva e o princí-
pio da função social do contrato como regras a serem cumpridas em todos os contratos.
140 Direito do consumidor • Densa
No entanto, não há que se falar em morte do contrato ou insegurança das relações
jurídicas em razão da mitigação do princípio da autonomia privada e da consequente
possibilidade de revisão pelo juiz.
Neste sentido, importante a lição do Prof. Nelson Nery Júnior (2004, p. 503):
"O contrato não morreu nem tende a desaparecer. A sociedade é que mudou, tanto
do ponto de vista social como econômico e, consequememente, do jurídico. É preciso
que o Direito não fique alheio a essa mudança, aguardando estático que a realidade
social e econômica de hoje se adapte aos vetustos institutos com perfil que herdamos
dos romanos, atualizado na fase das codificaçõcs do século XIX."
O Capítulo VI do Código de Defesa do Consumidor cuida da Proteção Contratual
do consumidor. As disposições gerais estão inseridas nos arts. 46 a 50, as cláusulas abu-
sivas estão previstas nos arts. 51 a 53 e os contratos de adesão no art. 54.
Os contratos de consumo, assim entendidos aqueles em que figuram como parte
consumidor e fornecedor (vide Capítulo 2), devem estar em consonância com o disposto
no Código de Defesa do Consumidor, sob pena de nulidadc. As regras gerais a respeito
dos contratos estabelecidas no Código Civil também são aplicáveis às relações de con-
sumo, desde que não contrariem o disposto na regra especial, qual seja, o Código de
Defesa do Consumidor.
Neste passo, cumpre esclarecer que a proteção contratual é aplicável a qualquer
tipo de contrato de consumo, seja ele escrito ou oral, comutativo ou aleatório, típico ou
atípico e, principalmente, nos contratos de adesão.
16.2 Princípios contratuais
Os princípios gerais que regem os contratos são estudados com profundidade pelo
Direito Civil. Em razão disso, nesta obra, temos por objetivo rápida explanação a res-
peito dos princípios gerais contratuais apenas para orientação do leitor. A respeito do
assunto, recomendamos leitura do volume 5 desta série, relativo aos contratos.
O princípio da autonomia da vontade garante aos contratantes a possibilidade de livre
manifestação de vontade, a fim de que possam criar, extinguir ou modificar direitos e obri-
gações. No entanto, vimos que esta autonomia da vontade sofre limitações impostas pelo
Estado Social. Posto isto, devem as partes respeitar as normas de ordem pública que miti-
gam a autonomia da vontade sob pena de nulidade do contrato ou da cláusula contratual.
Não obstante isso, este princípio continua sendo sustentáculo do direito contratual, po-
dendo as partes decidir quanto à conveniência da contratação e seu conteúdo.
Aforça obrigatória dos contratos ou pacta sunt servanda é também dos mais importantes
princípios contratuais, posto que garante às partes contratantes e a terceiros interessa-
dos a eficácia e exigibilidade daquilo que foi pactuado, desde que, obviamente, as cláu-
sulas contratuais estejam em consonância com o ordenamento jurídico. "Decorre deste
princípio a intangibilidade do contrato. Ninguém pode alterar unilateralmente o conteúdo
do contrato, nem pode o juiz intervir nesse conteúdo. Essa é a regra geral" (VENOSA,
2004, p. 390).
Proteção contratual 141
Outro princípio que norteia o direito contratual é o da supremaáa da ordem pública,
que reflete exatamente o dever das partes em respeitar as limitações à autonomia da
vontade impostas pela lei. Assim, veremos a seguir que há várias restrições impostas
pelo Código de Defesa do Consumidor com o objetivo de resguardar a parte mais fraca
da relação jurídica, ou seja, o consumidor.
A eficácia dos contratos em relação às partes e a terceiros é orientada pelo princípio
da relatividade dos efeitos do contrato. A regra geral determina que o contrato tem validade
somente entre as partes contratantes, já que seus efeitos não podem atingir terceiros,
uma vez que estes não tiveram a oportunidade de manifestar sua vontade.
16.2.1 Função social do contrato
O Código Civil em vigor elevou à categoria de lei o princípio da função social do con-
trato, hoje estampado no art. 421 daquele diploma legal. Este princípio, também funda-
mentado no art. 170, caput, da Constituição Federal e no art. 5º da Lei de Introdução ao
Código Civil, evidencia a intervenção do Estado no âmbito particular e tem como foco
a proteção social e a manutenção da justiça contratual, devendo o juiz, ao interpretar
cláusula contratual, ater-se aos fins sociais, sendo, portanto, plenamente aplicável às
relações de consumo.
16.2.2 Boa-fé objetiva
O ordenamento jurídico pátrio erigiu como um dos pilares de qualquer relação
contratual o princípio da boa-fé objetiva. Este princípio está estampado nos arts. 4º, m, e
51, IV, do Código de Defesa do Consumidor e, mais recentemente, no Código Civil, nos
arts. 113 e 422.
Tereza Negreiros (2002, p. 116), discorrendo sobre o tema, assevera que, "o princípio
da boa-fé representa, no modelo atual de contrato, o valor da ética: lealdade, correção e
veracidade compõcm seu substrato, o que explica a sua irradiação difusa, o seu sentido
e alcance alargados, conformando todo o fenômeno contratual e, assim, repercutindo
sobre os demais princípios, na medida em que a todos eles assoma o repúdio ao abuso
da liberdade contratual a que tem dado lugar a ênfase excessiva no individualismo e no
voluntarismo jurídicos. A fundamentação constitucional do princípio da boa-fé assenta
na cláusula geral de tutela da pessoa humana - em que esta se presume parte integrante
da comunidade, e não um ser isolado, cuja vontade em si mesma fosse absolutamente
soberana, embora sujeita a limites externos".
A adoção deste preceito implica, para ambas as partes, o surgimento de deveres
anexos ao contrato que devem ser aplicados durante toda a relação contratual, e até
mesmo após o término desta. Ademais, a boa-fé objetiva implica dever de cooperação
que se traduz em obrigação das partes contratantes em agir sempre no sentido de não
impedir o efetivo cumprimento das obrigações contratuais. Neste sentido é o Enunciado
nº 24 da IJornada de Direito Civil do STJ: "Em virtude do princípio da boa-fé, positiva-
do no art. 422 do novo Código Civil, a violação dos deveres anexos constitui espécie de
inadimplemento, independentemente de culpa."
••
142 Direito do consumidor. Densa
16.3 Princípios contratuais no Código de Defesa do Consumidor
Além dos princípios ora mencionados que norteiam a teoria geral dos contratos, há
nas relações de consumo mais três princípios, a saber: princípio da transparência (art.
46); princípio da interpretação mais favorável ao consumidor (are 47); princípio da
vinculação à oferta (art. 48).
16.3.1 Princípio da transparência
o art. 46 do Código de Defesa do Consumidor determina que "os contratos que
regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não lhes for dada a
oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos ins-
trumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance".
Desta feita, pelo princípio da transparência, é nula a cláusula que não tenha sido
conhecida ou que não seja compreendida pelo consumidor.
À luz do Código de Defesa do Consumidor, já estudamos na seção 4.2 que as in-
formações prestadas ao consumidor devem ser claras e precisas, de mocio a possibilitar
a liberdade de escolha na contratação de produtos e serviços. Mais ainda, deve o forne-
cedor cuidar para que o consumidor tenha conhecimento, prévia e expressamente, das
cláusulas contratuais, posto que este só se vincula às disposições contratuais em que,
previamente, lhe é dada a oportunidade de conhecimento.
Sobre o dever de informação do fornecedor nas relações de consumo, Cláudia Lima
~arques (1998, p. 366) esclarece:
"Em outras palavras,a possibilidade de conhecimento prévio do texto do contrato e
das obrigaçõesnele contidas, em português, é considerada condição essencial para a
formaçãode umavontade realmente livre,consciente, 'racional', única legitimadorado
. reconhecimentojurídico do vínculo aceito pelo consumidor. O objetivoda norma do
CDCé o de assegurarao consumidor uma decisãofundada no conhecimentode todos
L. os elementosdo contrato, em particulardo preço,das taxas extras, das condiçõese as
c' garantiasexigidas,das cláusulas limitativase penais inseridas, dos verdadeirosdireitos
asseguradospelocontrato. É nesta óticaque o art. 46.doCDC prevêa possibilidadede
" ,requerer ao juiz,.em detrimento do fornecedor,a liberaçãodo consumidor do vínculo
..'.contratual,isto é, a inoperabilidadedo contrato ao consumidor in concreto por falhados
deveresde informaçãoimpostos ao fornecedor."
'Não"târas 'vei~s,as empresas se utilizam 'de expedie~tes de formaa' nãb observar
~ste dev~!'d~tr~nsparênda, inserindo em seus contratos propóst~sou outros docurren-
toscorriJetras'miúdas, cláusulas afirmando que o consumidor tem inteiro conhecimento
do cóntr~to ~,está' ci~ntede quais são aS limitaçÕes impostas pelo fornecedor.'Esta prá-
tica tem sido, reiteradall1ente, condenada pelos nossos tribunais; eivando de nulidade o
contrato ,ou parte dele e gerando o direito de indenização ao consumidor (ver REsp nº
268.642/SP - ReI. Min. Menezes Direito).
Proteção contratual 143
16.3.2 Princípio da interpretação mais favorável ao consumidor
o princípio da interpretação favorável ao consumidor está expresso no art. 47 do
Código de Defesa do Consumidor. Com fundamento neste princípio, deve o aplicador do
direito interpretar a cláusula contratual de maneira mais favorável ao consumidor toda
vez que deparar com cláusulas contratuais
incompatíveis entre si, ou que haja dúvida
quanto à sua interpretação.
Tamanha a importância deste dispositivo legal que o Código Civil em vigor consagra
regra universalmente aceita pela doutrina e pela jurisprudência no seu are 423: "Quando
houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar a
interpretação mais favorável ao aderente."
Embora o Código de Defesa do Consumidor tenha inserido o princípio da inter-
pretação mais favorável ao consumidor, as cláusulas limitativas dos direitos dos consu-
midores continuam válidas, desde que redigidas pelo fornecedor de maneira clara e em
destaque (seção 19.6).
Destarte, as regras particulares prevalecem sobre as cláusulas gerais, desde que es-
tejam de acordo com todo o sistema de proteção do consumidor. Neste sentido, o STJ
externou entendimento de que, ainda que se deva, em princípio, dar interpretação favo-
rável ao adquirente de plano de saúde, não há como impor ao fomecedorresponsabili-
dade por cobertura que, por cláusula expressa e de fácil verificação, tenha sido excluída
do contrato (REsp 3l9.707/SP).
16.3.3 Princípio da vinculação à oferta
o princípio da vinculação à oferta está estampado no art. 48 do Código de Defesa
do Consumidor e determina que "as declarações de vontade constantes de escritos par-
ticulares, recibos e pré-eontratos relativos às relações de consumo vinculam o fornece-
dor, ensejando inclusive execução específica, nos termos do art. 84 e parágrafos". Assim,
toda e qualquer oferta e orçamento obrigam o fornecedor, sendo nula de pleno direito
qualquer cláusula contratual que retire este direito do consumidor.
No Capítulo 13 estudamos que o Código de Defesa do Consumidor dispõe que toda
informação ou publicidade, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com
relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados no mercado de consumo, obri-
ga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar, bem como integra o contrato que
vier a ser celebrado. Desta feita, o art. 48 apenas reforça este dever do fornecedor no que
diz respeito aos (ontratós que firmar com seus consumidores. '
16.4 Direito de arrependimento
A venda feita através de catálogos, revistas, correio, telefone e televisão sempre
representou importante fatia do comércio varejista. Atualmente, tornou-se comum a
comercialização através da Internet de inúmeros produtos, inclusive eletrodomésticos,
livros e automóveis.
144 Direito do consumidor' Densa
Ocorre que o consumidor, ao adquirir o produto através do telefone, Internet, cor-
reio ou catálogo, não tem oportunidade de análise adequada do produto, ficando impos-
sibilitado de saber se o que está adquirindo é realmente o que deseja ou necessita. Além
disso, o legislador pretende resguardar o consumidor, posto que este é seduzido pelo for-
necedor em suas residências para adquirir algo que, em princípio, não desejava adquirir.
Assim, para proteger o consumidor de uma prática comercial na qual ele não des-
fruta das melhores condições para decidir sobre a conveniência do negócio, o art. 49 do
Código de Defesa do Consumidor prevê a hipótese de arrependimento do consumidor
toda vez que ocorrer a contratação fora do estabelecimento comercial.
O prazo de reflexão do consumidor é de 7 (sete) dias a contar da data da assinatura
do contrato ou da data do recebimento do produto ou serviço. Ressalte-se que as partes
podem convencionar prazo superior ao oferecido pela lei, mas nunca inferior.
Demais disso, é nula a cláusula que diminua o prazo estabelecido pela lei ou mesmo
a que retire este direito do consumidor. Trata-se, portanto, de norma de ordem pública,
não comportando renúncia ao prazo estabelecido pelo art. 49.
Deve o consumidor, ao exercer o direito de arrependimento, fazê-lo de maneira ine-
quívoca, podendo ser através de carta com aviso de recebimento (AR) ou de manifestação
oral presenciada por testemunhas.
Cumpre notar que se trata de um direito potestativo do consumidor, razão pela qual
não se faz necessária qualquer explicação a respeito da devolução do bem. Além disso,
o consumidor não deverá arcar com custos adicionais ou multa contratual, devendo o
fornecedor devolver imediatamente quaisquer valores eventualmente pagos pelo consu-
midor monetariamente atualizados.
Questões
1. Considerando que um indivíduo tenha contratado, por telefone, determinado serviço, assinale
a opção que apresenta direito previsto para esse indivíduo no COC (MP - SE - 2010):
a) devolução parcial dos valores pagos por arrependimento;
b) desistência da assinatura em até sete dias;
c) indenização, caso não goste do produto;
d) ação para ressarcimento dos danos, se o produto for perigoso, desde que ostensivamente
alertado sobre o risco de danos;
e) redução do preço, caso entenda que o produto não vale o preço cobrado
2. Um consumidor adquire uma roupa dentro da loja de um shopping e, ao chegar em casa,
não gosta da cor. A vendedora. no ato da compra, havia avisado que, por se tratar de peça de
promoção, não haveria direito a troca do produto, a não ser por vício. Ainda assim, o consu-
midor terá direito a devolver o bem em 7 dias, exercitando o direito de arrependimento.
Esta afirmativa está (Analista de Promotoria - MP/SP 2010):
a) correta, tendo em vista que por se tratar de direito de arrependimento, não há que ex-
por os motivos de sua devolução;
Proteção contralUal 145
b) está errada, tendo em vista que, por se tratar de produto durável, o prazo para exercício
do direito de arrependimento será de 90 dias;
c) está errada, pois o direito de arrependimento só pode ser exercido para compras reali-
zadas fora do estabelecimento comercial;
d) está correta, tendo em vista que o consumidor pode desistir do contrato a qualquer
tempo;
e) está errada, tendo em vista que a compra fora feita dentro do estabelecimento comercial
e, no caso, a loja deve sanar o vício em 30 dias.
3. No regime da Lei nº 8.078/90, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e ser-
viços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou em domicílio
(MagistraturalSP - 170°);
a) poderá o consumidor desistir do contrato somente se não recebido o produto ou serviço;
b) desistindo do produto ou serviço, terá o consumidor direito ao valor nominal pago, em
até 30 (trinta) dias da desistência ou arrependimento;
c) poderá o consumidor desistir do contrato, no prazo de 7 (sete) dias a contar de sua as-
sinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço;
d) não poderá o consumidor desistir do contrato se recebeu precisas, claras, amplas e exa-
tas informações sobre o produto ou serviço.
4. O consumidor Numa Pompílio adquire no mercado de consumo um automóvel novo, via
Internet. A garantia contratual fornecida pelo fabricante do automóvel é de 2 (dois) anos.
Nesse caso. é correto afirmar que (Ministério Público/AC - IOº):
a) o fabricante do automóvel deve assegurar a oferta de componentes e peças de reposição
somente enquanto não cessar a fabricação do automóvel;
b) a garantia contratual deve ser fornecida em todos os casos, pois é obrigatória;
c) o consumidor pode exercitar o seu direito de arrependimento, no prazo de 7 (sete) dias;
d) a comercialização do automóvel via Internet configura uma prática comercial abusiva
vedada pelo Código do Consumidor.
.'
I
Cláusulas contratuais abusivas
17.1 Generalidades
A seção II do capítulo referente à Proteção Contratual no Código de Defesa do Con-
sumidor trata especificamente das cláusulas abusivas. O art. 51 estabelece a nulidade
"de pleno direito" das cláusulas contratuais que contrariam as normas de ordem pública
e interesse social estabelecidas em favor da defesa do consumidor, inserindo rol exem-
plificativo de cláusulas nulas.
Por consequência, a nulidade da cláusula contratual pode ser arguida em qualquer
fase processual.
"Sendo matéria de ordem
pública (art. 1º, CDC), a nulidade de pleno direito das
cláusulas abusivas nos contratos de consumo não é atingida pela preclusão, de modo
que pode ser alegada no processo a qualquer tempo e grau de jurisdição, impondo-se ao
juiz o dever de pronunciá-las de ofício. Aplicam-se, por extensão, o ~ 3º do art. 267, o
~ 4º do art. 301 e o art. 303, todos do CPC" (NERY, 2004, p. 561).
Assim, as cláusulas contratuais podem ser declaradas nulas de ofício pelo magistra-
do, não havendo necessidade de pedido expresso na peça exordial ou menção expressa na
resposta do réu (consumidor). Na hipótese de ação de execução movida pelo fornecedor,
pode o consumidor alegar a nulidade de cláusula contratual nos embargos à execução.
Cumpre notar que oSTJ, em recurso que tratou dos contratos bancários, entendeu
que "é vedado aos juízes de primeiro e segundo graus de jurisdição julgar, com funda-
mento no art. 51 d~ CDC, sem pedido expresso, a abusividade de cláusulas nos contratos
bancários" (Sobre o tema veja o item 18.10.5).
Saliente-se, portanto, que embora o Código permita a aplicação de ofício pelo ma-
gistrado, o ST] limitou esta interpretação, por ora, somente para os contratos bancários,
sob o argumento de que a instituição financeira tem o seu direito de defesa cerceado.
148 Direito do consumidor • Densa
o rol de cláusulas contratuais nulas inseridas no art. 51 do Código de Defesa do
Consumidor são as seguintes:
cláusula de não indenizar;
renúncia ou disposição de direitos pelo consumidor;
limitação da indenização ao consumidor;
reembolso de quantia paga;
transferência de responsabilidade a terceiros;
desvantagem exagerada para o consumidor e cláusula incompatível com a boa-
fé e a equidade;
cláusulas que estabeleçam a inversão do ônus da prova;
arbitragem compulsória;
imposição de representante;
cláusulas criadoras de vantagens especiais para o fornecedor;
cláusulas que possibilitam a violação de normas ambientais.
Cumpre esclarecer que o rol mencionado é apenas exemplificativo, razão pela qual
poderá o juiz decretar a nulidade de cláusulas contratuais que não estejam descritas no
referido artigo, desde que não estejam em consonância com todo o sistema de proteção
ao consumidor. Tanto assim que a Portaria nº 4/98 e a Portaria nº 3/99 da Secretaria
de Direito Econômico (SDE) elencam outras hipóteses de nulidade de cláusulas contra-
tuais, com a finalidade de nortear as relações de consumo.
Ressalte-se, ainda, que é possível o afastamento de cláusula tida por abusiva sem
comprometer o contrato, sendo certo que o contrato somente não será mantido se a
cláusula for essencial, ocorrendo, portanto, alteração contratual. De qualquer sorte, ao
interpretar a cláusula contratual, deve o juiz perquirir a real intenção das partes em de-
trimento da literalidade.
Vejamos a seguir o elenco exemplificativo de cláusulas contratuais abusivas.
17.1.1 Cláusula de não indenizar
Estudamos no Capítulo 6 a responsabilidade civil do fornecedor de serviços e produ-
tos e vimos que é vedada a estipulação de cláusula contratual que impossibilite, exonere
ou atenue a obrigação de indenizar do fornecedor (art. 25).
Reforçando o disposto no art. 25 do Código de Defesa do Consumidor, o legislador
determina a nulidade de cláusula contratual que "impossibilite, exonere ou atenue a
responsabilidade do fornecedor por vicios de qualquer natureza dos produtos e serviços
ou impliquem renúncia ou disposição de direitos" (art. 51, 1).
São, portanto, nulas as disposições que retiram do consumidor o direito inequí-
voco de ser indenizado pelos prejuízos advindos de relação de consumo. Lembre-se de
que a plena reparação dos danos patrimoniais e morais é direito básico do consumidor
Cláusulas contratuais abusivas 149
(art. 6º, VI), ensejando a declaração de nulidade de cláusula contratual que impeça o
exercício desse direito.
Assim, por exemplo, as placas inseridas nos estacionamentos informando que o
fornecedor não se responsabiliza por furto, roubo ou danos causados aos veículos são
nulas de pleno direito, ainda que não haja pagamento direto pelo consumidor, como é
o caso dos shoppings e supermercados que não efetuam cobrança direta pelo serviço do
estacionamento.
17.1.2 Renúncia ou disposição de direitos
Outra proibição estabelecida pelo art. SI, inciso I, é a de renúncia ou disposição
de direitos pelo consumidor em cláusula contratual. Assim, não pode o fornecedor,
por exemplo, inserir cláusula contratual que impeça o consumidor de requerer rescisão
contratual por inadimplemento do fornecedor, ou indenização por benfeitorias úteis e
necessárias, ainda que tenham sido expressamente renunciadas no contrato firmado
entre as partes.
Lembra ainda Nelson Nery Júnior (2004, p. 568) que "a renúncia ao benefício de
ordem, derivado do contrato de fiança (art. 827, caput, do Código Civil), será nula de
constar de contrato de consumo, pois implica disposição daquele direito".
17.1.3 Limitação da indenização
Da mesma forma que a exoneração da responsabilidade do fornecedor, é inválida
também a cláusula que limita o valor da indenização a ser paga ao consumidor. Eviden-
temente, não pode o fornecedor inserir cláusula contratual estabelecendo um teto má-
ximo para indenização, posto que retira do consumidor o direito a indenização integral
ao prejuízo causado. Lembre-se, ainda, de que a indenização por dano moral deve aten-
der ao critério estudado na seção 6.4 e também não pode ser limitada pelo fornecedor.
A única hipótese permitida pelo legislador de limitação de indenização é na relação
de consumo em que o consumidor é pessoa jurídica. Assim, não será considerada nula a cláu-
sula contratual que, em situações justificáveis, limite a responsabilidade do fornecedor.
Neste diapasão, muito se discute a respeito da responsabilidade civil do transpor-
tador aéreo pelo atraso de voa e pelo extravio de bagagem ou de carga. As empresas de
transporte aéreo sustentam, com fundamento no art. 1º do Código Brasileiro de Aero-
náutica e nos arts. 8º e 22, item 2, alínea a, da Convenção de Varsóvia, que é possível a
limitação da indenização tarifada, caso o consumidor não tenha feito a declaração espe-
cial de valor no conhecimento aéreo.
No entanto, o Superior Tribunal de Justiça externou entendimento de que a refe-
rida relação jurídica rege-se pelo Código de Defesa do Consumidor, não havendo que
se falar em indenização tarifada prevista na Convenção de Varsóvia. Sendo as normas
previstas no Código de Defesa do Consumidor de ordem pública e interesse social,
revoga-se a legislação que prevê indenização restritiva, considerando, assim, abusiva
a cláusula que eventualmente limite a responsabilidade do transportador pelos danos
.,
150 Direito do consumidor. Densa
causados. Veja: EREsp 269353/SP; REsp 488087/R]; REsp 401363/ AM; REsp 329520/
SP; ADREsp 224554/SP; AGA 334559/R]; REsp 538685/RO; REsp 494046/SP; REsp
316280/SP; REsp 345687/CE.
17.1.4 Reembolso de quantia paga
O Código de Defesa do Consumidor proíbe a inserção de cláusula contratual que
subtraia do consumidor a opção de reembolso da quantia já paga advinda de obrigação
assumida com o fornecedor (are 51, 11).A rescisão ou resilição contratual pode ocorrer
a requerimento do consumidor ou por inadimplemento, tanto do fornecedor quanto do
consumidor, mas sempre haverá o direito do consumidor de obter a devolução dos va-
lores pagos.
Em relação à nulidade da cláusula negativa de opção de reembolso, deve-se notar
que, em diversas hipóteses, o legislador garante ao consumidor a alternativa da resci-
são do vínculo contratual conjugada com a devolução das importâncias por ele pagas,
devidamente atualizadas. Trata-se das situações abrangidas pelos arts. 18 a 20 (vício de
qualidade ou quantidade no fornecimento), 35 (recusa de cumprimento de oferta) e 49
do Código de Defesa do Consumidor (desistência do consumidor nas vendas feitas com
técnicas
de marketing agressivo). É nula a cláusula contratual restritiva dessa garantia
legal liberada em favor dos consumidores (COELHO, 2000, p. 186).
Posto isto, caso o fornecedor deixe de sanar o vício do produto ou serviço no prazo
de 30 dias (veja seção 8.1.1.4), deve o consumidor ser reembolsado de todos os valores
já pagos, ainda que exista cláusula contratual estipulando o contrário.
Outro exemplo advém da rescisão de compra e venda de imóvel requerida pelo con-
sumidor. O Código de Defesa do Consumidor garante o direito à restituição das parcelas
pagas, mesmo quando ocorra inadimplemento do consumidor. Porém, esta restituição
não ocorre em sua integralidade, face ao desgaste do imóvel e das despesas realizadas
pela vendedora com corretagem, propaganda, administrativas e assemelhadas (veja se-
ção 18.8).
17.1.5 Transferência de responsabilidade a terceiros
São nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que permitem aos fornecedores
de produtos ou serviços a transferência de responsabilidade a terceiros, visando à exo-
neração de sua responsabilidade.
Ora, se a relação jurídica de consumo é firmad<ientre o consu!!1idor e o fornecedor,
este não pode simplesmente transferir a respon~abilid<lde que assumiu perante o con-
sumidor, sob pena de dificultar e até mesmo impossibilitar a indenização garantida pelo
ordenamento jurídico. É o caso, por exemplo, das cláusulas "que propiciam às agências
de turismo, fornecedores diretos de pacotes turísticos, transferirem responsabilidade às
operadoras, às transportadoras e aos hotéis" (SILVA, 2001, p. 176).
Cláusulas contratuais abusivas 151
17.1.6 Desvantagem exagerada para o consumidor e cláusula incompatível com
a boa-fé e a equidade
Prevê o art. 51, inciso IV, que são nulas as cláusulas contratuais que "estabeleçam
obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem
exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade".
Utiliza-se aqui o legislador da técnica das "cláusulas gerais", que permitem ao juiz
margem razoável para melhor aplicação da norma ao fato concreto, posto que os concei-
tos de iniquidade, abusividade e desvantagem exagerada são indeterminados.
Os conceitos de "abusividade" e "iniquidade", embora bastante amplos, devem ser
interpretados de acordo com todo o sistema de proteção ao consumidor. Assim, por
exemplo, os princípios gerais estabelecidos pelo art. 6º podem servir de fundamento
para a decretação de nulidade de cláusula contratual.
A expressão vantagem exagerada encontra, no S 1º do art. 51, algumas hipóteses de
interpretação como sendo a que:
"a) ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
b) restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do
contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou o equilíbrio contratual;
c) se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a
natureza e conteúdo do contrato, o interesse das parte's e outras circuns-
tâncias peculiares ao caso".
Estudamos no Capítulo 4, relativo aos direitos básicos do consumidor, que este pode
requerer a modificação da cláusula contratual que estabeleça prestação desproporcional
ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas.
Temos assim que o Código de Defesa do Consumidor prevê duas formas de onero-
sidade excessiva: a que ocorre após a assinatura do contrato e a que surge no momento
da sua celebração. Assim, "a onerosidade excessiva pode ensejar: (a) o direito do consu-
midor à modificação da cláusula contratual, a fim de que se preserve o equilíbrio do con-
trato (art. 6º, nº V, CDC); (b) a revisão do contrato em virtude de fatos supervenientes
não previstos pelas partes quando da conclusão do negócio (art. 6º, nº V, segunda parte,
CDC); (c) a nulidade da cláusula por trazer desvantagem exagerada ao consumidor (art.
51, IV, e S 1º, nº m, CDC)" (NERY, 2004, p. 591).
Cláusulas incompatíveis com a boa-fé e a equidade também estão sujeitas à decla-
ração de nulidade. Assim, deve o magistrado perquirir sobre a intenção das partes ao
firmarem o contrato, observando a conduta das partes e o padrão de conduta do homem
médio, levando em consideração os aspectos sociais envolvidos.
A jurisprudência traz interessantes casos de aplicação do dispositivo em comento.
É o caso, por exemplo, da declaração de nulidade de cláusula inserida nos contratos de
seguro-saúde que limita o tempo de internação do segurado em Unidade de Terapia
Intensiva. O entendimento majoritário da jurisprudência sempre caminhou no sentido
de que referida cláusula causa desvantagem exagerada do consumidor e é incompatível
com a boa-fé e a equidade.
..
152 Direito do consumidor • Densa
A respeito do assunto, o Superior Tribunal de Justiça emitiu Súmula 302 com o se-
guinte teor: "É abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que limita no tempo a
internação hospitalar do segurado."
Destarte, caso a enfermidade esteja coberta pelo contrato de seguro-saúde, não é
possível impor ao consumidor, por exemplo, que se retire da unidade de tratamento in-
tensivo, com o risco de morte, porque está fora do limite temporal estabelecido em uma
determinada cláusula.
Da mesma forma, a cláusula de eleição de foro inserida nos contratos de adesão
tem sido considerada abusiva, 'na medida em que demonstra desvantagem excessiva e
por estar em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor, dificultando-lhe o
acesso à Justiça e à ampla defesa (art. 5º, XXXV e LV, da CF). Assim, pode o juiz, de
ofício ou a requerimento da parte, determinar a remessa dos autos ao foro do domicílio
do consumidor.
Outra questão bastante debatida na doutrina e na jurisprudência foi a aplicação da
cláusula nos contratos de ieasing que determinava o reajuste das prestações pela variação
cambial. Neste tipo de contrato é permitido o reajuste das prestações de acordo com a
moeda estrangeira, e, desde meados de 1996 até janeiro de 1999, era bastante comum
a sua utilização, posto que a moeda norte-americana era relativamente estável, e com
promessa do governo brasileiro no sentido de não modificar referida estabilidade, que,
aliás, era a âncora do Plano Real. ' .
No entanto, em janeiro de 1999 houve alteração no programa de governo e elevação
acentuada da cotação da moeda norre-americana, passando a ser cotada a R$ 3,00 (três
reais). Esta elevação foi de quase 300%, já que o dólar, na época, era cotado a R$ 1,00
(um real). Assim, os consumidores que haviam comprado seus veículos através de con-
trato de ieasing, e pagavam suas prestações com a variação cambial, também tiveram al-
teração na ordem de 300% (trezentos por cento) no valor de sua dívida.
Sem dúvida, trata-se de um caso de excessiva onerosidade para o consumidór, já
que tal situação não era prevista quando da celebração do contrato. A jurisprudência re-
cente do Superior Tribunal de Justiça caminha para o entendimento de que, "em tema
de variação cambial no contrato de ieasing, os encargos decorrentes da abrupta mudança
ocorrida na cotação do dólar americano dividem-se entre arrendante e arrendatário, me-
tade para cada um, a partir de janeiro de 1999" (Veja: AGRESP 299467/PR, ReI. Min.
Humberto Gomes de Barros, j. 27.04.2004, e REsp 618841/SP - ReI. Min. Castro Filho,
Df,01.07.2004).
'Esteassunto é atual e de extrema importância, tendo em vista a flutuação da moeda
americana em relação ao real: A atual crise econômica poderá gerar demandas judiciais,
discutindo noVaménte a revisão judicial dos contratos pelos mesmos motivos expostos
anteriormente.
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17.1.7, Inversão do ônus da prova
Vimos que o art. 6º, inciso VIII, garante, como direito básico do consumidor, a facili-
tação da defesa de seus direitos em juízo, inclusive prevendo a possibilidade de inversão
..,
Cláusulas conuatuais abusivas 153
do ônus da prova a seu favor, quando preenchidos
os requisitos de verossimilhança das
alegações, ou quando for o consumidor manifestamente hipossuficiente.
Com mais razão, o inciso VI do art. 5 I determina a nulidade da cláusula contratual
que prevê a inversão do ônus da prova em desfavor do consumidor. Assim, toda e qual-
quer cláusula contratual que contrarie o disposto no art. 333 do Código de Processo Civil
não terá validade perante o Judiciário.
Para melhor elucidação da questão, trazemos os seguintes exemplos oferecidos por
Nelson Nery Júnior (2004, p. 576), obra coletiva:
«A declaração contida em contrato de adesão de que o consumidor recebeu produto en-
viado, sem oferecer reclamações; declaração do consumidor que afirme estar correto o
projeto e os valores da escala de 'croquis' de móveis encomendados à fábrica; declaração
do vendedor de imóveis ou construtor de que é conhecido nas relações negociais locais."
17.1.8 Arbitragem compulsória
Pelo compromisso arbitral, as pessoas capazes de contratar poderão valer-se da arbi-
tragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis, furta'ndo-se, as-
sim, de recorrer diretamente ao Poder Judiciário para a solução da controvérsia. A decisão
proferida pelo árbitro não fica sujeita a recurso ou a homologação do Poder Judiciário.
O Compromisso Arbitral é regido pela Lei nº 9.307/96 e não afasta a possibilidade
de sua aplicação nas relações de consumo. No entanto, cuidou a lei consumerista, no art.
51, inciso VII, de decretar a nulidade de cláusula contratual que imponha ao consumidor
a utilização compulsória de arbitragem.
O referido dispositivo tem nítido caráter protetivo em relação ao consumidor, pre-
sumivelmente a parte mais fraca da relação jurídica, evitando-se, com isso, que o for-
necedor de bens e serviços possa impor solução arbitral nos contratos em geral. Assim,
surgida a controvérsia, pode o consumidor, em conjunto com o fornecedor, estabelecer a
solução arbitral consensualmente, sendo plenamente válida na forma da Lei nº 9.307/96.
17.1.9 Imposição de representante
O art. 51, inciso VIII, proíbe expressamente a utilização de cláusula contratual que
imponha representante para concluir ou realizar outro negócio pelo consumidor. Trata-
se da denominada "cláusula-mandato".
Tal cláusula é bastante comum nos contratos bancários. Nela o consumidor nomeia
como procurador o próprio banco (fornecedor.) para que em nome do devedor (consu-
midor) firme outro negócio jurídico, como, por exemplo, a emissão de letra de câmbio e
assinatura de nota promissória, ou dê poderes para contrair empréstimos, entre outros.
Evidentemente, a instituição financeira age visando à lucratividade, em detrimento do
consumidor, sendo esta a raz,ão da proibição legal.
Os cartões de crédito também se utilizam da cláusula-mandato em seus contra-
tos, sendo, aliás, âncora do Contrato que firma com seus consumidores. As empresas
..
154 DireilO do consumidor • Densa
administradoras de cartões tomam empréstimos em nome do consumidor quando este
não consegue arcar com o pagamento de sua fatura mensal. Via de regra, as adminis-
tradoras fazem parte de grupo econômico de instituições financeiras, e tomam o referi-
do empréstimo nestas instituições, independentemente de ser ou não mais benéfico ao
consumidor (taxa, prazo para pagamento, entre outros itens).
Muita polêmica girou em torno da juridicidade desta prática das administradoras de
cartão, mas o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a legalidade da cláusula-manda-
to, que permite à administradora buscar recursos no mercado para financiar o usuário
inadimplente das empresas administradoras de cartão de crédito.
Além disso, aquela corte entende que as administradoras de cartões se enquadram
como instituições integrantes do sistema financeiro nacional, não se aplicando a limita-
ção dos juros prevista no Decreto nº 22.626/33. Para solucionar a controvérsia, emitiu
a Súmula 283, que explica: "As empresas administradoras de cartão de crédito são ins-
tituições financeiras e, por isso, os juros remuneratórios por elas cobrados não sofrem
as limitações da Lei de Usura."
É certo que o consumidor titular do cartão de crédito que celebra contratos com ad-
ministradora para que ela providencie financiamentos para cobertura de suas despesas
tem o direito de obter da mandatária a prestação de contas a respeito dos encargo~ que lhe
são cobrados, independentemente das faturas mensais que são enviadas ao consumidor.
De fato, sendo a administradora de cartões de crédito procuradora do consumidor,
na forma da lei civil, está obrigada a prestar contas do exercício do referido mandato,
devendo demonstrar, com os documentos justificativos dos lançamentos, a exigência de
co'mprovação dos contratos firmados por conta e ordem da administradora.
17.1.10 Cláusulas criadoras de vantagens especiais para o fornecedor
As cláusulas criadoras de vantagens especiais para o fornecedor (MARQUES, 1998,
p. 416) estão expostas no art. 51, incisos IX, X, XI, XII e XIII. São elas:
17.1.10.1 As cláusulas que deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato,
embora obrigando o consumidor, e cláusulas que autorizem o forneCedor a
cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direuo seja conferido ao
consumidor
',"
Em função do disposto no art. 30 do Código de Defesa dó Consumidor,o foinec~dor
é obrigado a cumprir integralmente a oferta anunciada. É possível que as partes estabe-
leçam, mutuamente, as hipóteses de resilição contratual ou de rescisão contratual por
inadimplemento (vide art; 54, ~ 2º).
Noentânto, olegislador proíbe a inserção, nos contratos de consumo, de cláusula
contratual que permita tão somente a resilição contratual em favor do fornecedor. Ora,
o fornecedor é quem primeiro se obriga perante o consumidor, através da oferta e pu-
blicidade, não podendo simplesmente resilir o contrato a qualquer momento, devendo
cumprir o que foi ofertado.
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ti
Cláusulas contratuais abusivas 155
Outrossim, é proibida a inserção de cláusula contratual que permita a opção do for-
necedor em concluir ou não o contrato. A intenção do legislador é a de manter o equilí-
brio contratual entre as partes.
17.1.102 As cláusulas que permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do
preço de maneira unilateral
I Não raras vezes o consumidor depara com cláusulas contratuais que, ainda que in-
diretamente, preveem a alteração do preço por imposição do fornecedor. Estas cláusulas
devem ser consideradas nulas por estabelecerem vantagem especial para o fornecedor.
É o caso, por exemplo, de cláusula contratual que prevê a escolha do índice de cor-
reção monetária pelo fornecedor. Sem dúvida que o fornecedor, neste caso, escolherá o
maior índice entre os indicados no contrato e, com isso, terá maior lucratividade, arcan-
do o consumidor com estes custos.
Outra hipótese é a de alteração na taxa de juros nos contratos de cheque especial
ou cartões de crédito. O ~onsumidor deve ter ciência, antes de utilizar o crédito conce-
dido, da taxa que será aplicada, bem como ela deve ser consentida pelo consumidor, sob
pena de nulidade. .
17.1.103 As cláusulas que obriguem o consumidor ao ressarcimento dos custos de
cobrança de obrigação do fornecedor
É abusiva a cláusula contratual que obrigue o consumidor a ressarcir custos de
cobrança de obrigação do fornecedor. Assim, por exemplo, a cobrança de honorários
de advogado, em cobrança extrajudicial, é prática comum e, muitas vezes, prevista no
contrato firmado com o consumidor. No entanto, o consumidor inadimplente, que
paga dívida independentemente do ajuizamento da respectiva ação judicial, não deve
arcar com os honorários advocatícios, uma vez que tais custos são de responsabilida-
de do fornecedor.
17.1.10.4 As cláusulas que autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o contrato
Já estudamos a força obrigatória dos contratos ou paeta sunt servanda,

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