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INDÚSTRIA DE CLICKBAIT E O ESTÍMULO ECONÔMICO Clickbait é um termo pejorativo utilizado para se referir à chamada de um artigo que é propositalmente escrito de maneira sensacionalista para atrair a atenção dos demais usuários. Na era da Internet, em que cada vez mais pessoas utilizam a ferramenta como uma fonte alternativa de renda, a indústria do clickbait vem crescendo cada vez mais. Essa indústria se baseia principalmente na monetização da quantidade de acessos que os anúncios de uma página são capazes de atrair, conceito fortemente vinculado à publicidade. Quando acessamos um determinado site, o proprietário é remunerado por cada clique nos banners espalhados pelo layout de sua página. Uma das ferramentas mais famosas que permite essa remuneração é o AdSense do próprio Google que permite que o dono do anúncio pague um valor fixo pela publicidade que, por sua vez, é fracionado em relação à quantidade de cliques. Através do AdSense, o Google paga pela quantidade de acessos ou impressões que a publicidade de um site é capaz de gerar, dividindo até 68% da receita gerada por ela com os editores. Redes sociais como o Facebook, por exemplo, também possuem mecanismos que auxiliam na divulgação de conteúdos, tanto pela ferramenta de post patrocinado como pelo uso de algoritmos que permite o sistema filtrar e mostrar aquilo que acredita ser mais relevante para o usuário de acordo com o seu histórico de engajamento, formando uma espécie de bolha. O uso de ferramentas desse tipo auxilia e incentiva cada vez mais a disseminação das fake news, que são muitas vezes criadas com o intuito de gerar receita por meio da propaganda veiculada em suas páginas. As fake news costumam ser adaptações de caráter mais extremista de notícias reais que circulam nos portais de notícias. Dessa forma, quanto mais sensacionalista é uma notícia, maiores as chances que ela possui de se tornar viral e aumentar o seu número de acessos. Além disso, os sites de fake news costumam utilizar domínio parecido com o de portais de notícias na tentativa de ganhar credibilidade e poder passar despercebido diante do leitor distraído. Durante as eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos, boa parte das páginas de fake news associadas ao Donald Trump possuíam domínios registrados na cidade de Veles, em Macedônia. Em um artigo da CNN, algumas dessas pessoas por trás destes sites alegaram conseguir até 2500 dólares por dia – em um país onde a média salarial é de 426 dólares – graças à publicidade em seus sites. A indústria de clickbait tem crescido tanto entre os jovens macedônios que existem até mesmo técnicos que auxiliam na criação e no aperfeiçoamento dos sites de seus alunos, além de ajudarem na elaboração do conteúdo falso. Com o uso cada vez maior das redes sociais como fonte de acesso a informações, os donos dos portais de fake news viram o Twitter e o Facebook como um instrumento para divulgação de seus sites. Essas pessoas costumam criar inúmeras páginas no Facebook e perfis falsos para compartilhamento de seu conteúdo. Também é usual a utilização de bots(softwares programados) no Twitter para automatização desse processo e para participação de discussões relacionadas ao tema em uma tentativa de aumentar a relevância e o alcance do assunto. Um estudo realizado pela FGV/DAPP em 2017 indica que cerca de 20% das interações que ocorreram no Twitter em abril do mesmo ano por conta da greve geral foram iniciadas por estes softwares. O Twitter proporciona uma proliferação maior desses robôs devido ao limite de caracteres por publicação, facilitando a simulação de ações humanas, e pela facilidade de interações com desconhecidos. Outro estudo realizado por pesquisadores do MIT e publicado na revista Science descobriu que as notícias falsas são muito mais propensas e rápidas de serem compartilhadas no Twitter do que as reais, independente do assunto. Essas fake news costumam ter abordagem mais dramática, apelando para emoções humanas como forma de atrair o interesse do público. Após a análise de aproximadamente 126 mil notícias que circularam no Twitter entre 2006 e 2017, os autores do artigo perceberam que as mais propagadas eram as de conteúdo político, espalhando cerca de três vezes mais rápido que os demais assuntos. Eleições (escrito por Bernardo) https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/ceticismo-politico-fake-news-marielle.html Como um exemplo recente e próximo de como fake news afetam a política, podemos apontar as calúnias divulgadas pelo MBL sobre Marielle Franco. Uma notícia falsa divulgada pelo site Ceticismo político ligava a vereadora ao traficante Marcinho VP e à facção Comando Vermelho. A página foi compartilhada mais de 400 mil vezes. O link para a notícia falsa foi compartilhada no Facebook pelo MBL, o que teve um importante papel na https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/ceticismo-politico-fake-news-marielle.html disseminação das acusações falsas à vereadora assassinada. A difamação pode ser ligada ao fato de que o posicionamento político de Marielle eram opostas ao das páginas que compartilharam a notícia, cujo título era “Desembargadora quebra narrativa do Psol e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’”. O Facebook retirou do ar as páginas do Ceticismo Político e de Luciano Ayan (pseudônimo do autor das calúnias). A Polícia Civil abriu um inquérito para identificar os responsáveis por produzir e disseminar as notícias falsas. Tal investigação se relaciona com o fato de sites propagadores de fake news frequentemente não terem artigos assinados ou com autor facilmente identificável. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/12/12/quem-divulga-noticia-falsa-co mete-crime-de-difamacao-diz-senador-sobre-fake-news.htm Em dezembro de 2017, o congresso realizou um seminário sobre Fake News e Democracia. O senador João Alberto de Souza apontou que regimes totalitários de governo tem, muitas vezes, como característica a produção de notícias e dados falsos. Atualmente, o governo passa a ser o alvo e não mais o produtor de tais notícias. Para o senador, a responsabilidade das fake news precisa ser estendida às empresas de mídias virtuais que permitem tal compartilhamento. Neste seminário, Marco Aurélio Ruediger, diretor de análise de políticas públicas da FGV, apontou que nas eleições de 2018 há de se esperar um “tsunami” de robôs para compartilhar notícias falsas na internet. Se essa prática já foi observada nas eleições de 2016 nos Estados Unidos, é natural que seja replicada este ano, como o Brasil tem grande participação nas plataformas Twitter e Facebook. https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-web-12-milhoes-difundem-fake-news-politica s,70002004235 Para Eugênio Bucci, o professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, o compartilhamento de notícias faltas está conectado com o preconceito. Quando uma notícia imprime uma qualidade negativa em um candidato a qual a pessoa se opõe, ela tende a compartilhar por prazer, como um sentimento de satisfação por ter seus preconceitos reforçados. https://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/10/fake-news-viraram-um-grande-negocio.html Ao contrário do esperado, há indícios que uma maior popularidade nas mídias digitais não necessariamente se significa uma vitória nas urnas. A agência de comunicação Medialogue, a partir de uma análise de dados da eleição de 2014, concluiu que um candidato com mais menções positivas no Facebook nem sempre ganharia de seus concorrentes. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/o-tratamento-juridico-das-fake-news-0803201 8 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/12/12/quem-divulga-noticia-falsa-comete-crime-de-difamacao-diz-senador-sobre-fake-news.htm https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/12/12/quem-divulga-noticia-falsa-comete-crime-de-difamacao-diz-senador-sobre-fake-news.htmhttps://politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-web-12-milhoes-difundem-fake-news-politicas,70002004235 https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-web-12-milhoes-difundem-fake-news-politicas,70002004235 https://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/10/fake-news-viraram-um-grande-negocio.html https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/o-tratamento-juridico-das-fake-news-08032018 https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/o-tratamento-juridico-das-fake-news-08032018 Nessa eleição os fake news já se mostravam como um problema. Um empresário forjou uma pesquisa eleitoral para dar a entender que certo candidato estava mais próximo do primeiro colocado do que realmente estava, no intuito de estimular eleitores a votarem nele por acreditarem que a eleição ainda não estaria com resultado determinado. Tal empresário foi indiciado por divulgação de pesquisa fraudulenta (artigo 33, §4.º, da Lei 9.504/1997) e por embaraçar o exercício do sufrágio (artigo 297 do Código Eleitoral). REFERÊNCIAS