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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 107 Pres identePres identePres identePres identePres idente Delmar Stahnke Vice-PresidenteVice-PresidenteVice-PresidenteVice-PresidenteVice-Presidente João Rosado Maldonado COMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIAL Prof. MS. Carlos Santos Gottschall Profa. Dra. Norma Centeno Rodrigues Prof. Dr. Sérgio José De Oliveira CONSELHO EDITORIALCONSELHO EDITORIALCONSELHO EDITORIALCONSELHO EDITORIALCONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. Adil K. Vaz (Univ Estadual de Lages) Prof. Dr. Angelo Berchieri Jr. (UNSSP- Jaboticabal) Prof. Dr. Antonio Bento Mancio (UFMG) Prof. Dr. Carlos Tadeu Pippi Salle (UFRGS) Prof. Dr. Emerson Contesini (UFRGS) Prof. Dr. Francisco Gil Cano (Univ. Murcia/ Espanha) Prof. Dr. Franklin Riet-Correa (UFPEL) Prof. Dr. Joaquim José Ceron (Univ. Murcia/Espanha) Prof. Dr. Julio Otávio Jardim Barcellos (UFRGS) Prof. Dr. Luiz Alberto Oliveira Ribeiro (UFRGS) Prof. Dr. Luiz Cesar Fallavena (ULBRA) Profa. MSC Maria Helena Amaral (CRMV/RS) Prof. Paulo Ricardo Centeno Rodrigues (ULBRA) Dra. Sandra Borowski (FEPAGRO) Prof. Dr. Victor Cubillo (Univ. Austral do Chile) Prof. Dr. Waldyr Stumpf Junior (EMBRAPA) Re i to rRe i to rRe i to rRe i to rRe i to r Ruben Eugen Becker Vice-Rei torVice-Rei torVice-Rei torVice-Rei torVice-Rei tor Leandro Eugênio Becker Pró-Reitor de AdministraçãoPró-Reitor de AdministraçãoPró-Reitor de AdministraçãoPró-Reitor de AdministraçãoPró-Reitor de Administração Pedro Menegat Pró-Reitor de Graduação da Unidade CanoasPró-Reitor de Graduação da Unidade CanoasPró-Reitor de Graduação da Unidade CanoasPró-Reitor de Graduação da Unidade CanoasPró-Reitor de Graduação da Unidade Canoas Nestor Luiz João Beck Pró-Reitor de Graduação das UnidadesPró-Reitor de Graduação das UnidadesPró-Reitor de Graduação das UnidadesPró-Reitor de Graduação das UnidadesPró-Reitor de Graduação das Unidades Ex te rnasEx te rnasEx te rnasEx te rnasEx te rnas Osmar Rufatto Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-GraduaçãoPró-Reitor de Pesquisa e Pós-GraduaçãoPró-Reitor de Pesquisa e Pós-GraduaçãoPró-Reitor de Pesquisa e Pós-GraduaçãoPró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Edmundo Kanan Marques Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional ePró-Reitor de Desenvolvimento Institucional ePró-Reitor de Desenvolvimento Institucional ePró-Reitor de Desenvolvimento Institucional ePró-Reitor de Desenvolvimento Institucional e Comuni tár ioComuni tár ioComuni tár ioComuni tár ioComuni tár io Jairo Jorge da Silva Diretora da Assessoria de Comunicação SocialDiretora da Assessoria de Comunicação SocialDiretora da Assessoria de Comunicação SocialDiretora da Assessoria de Comunicação SocialDiretora da Assessoria de Comunicação Social Sirlei Dias Gomes Capelão GeralCapelão GeralCapelão GeralCapelão GeralCapelão Geral Gerhard Grasel Ouvidor GeralOuvidor GeralOuvidor GeralOuvidor GeralOuvidor Geral Eurilda Dias Roman EDITORA DA ULBRAEDITORA DA ULBRAEDITORA DA ULBRAEDITORA DA ULBRAEDITORA DA ULBRA Diretor Valter Kuchenbecker Coordenador de periódicos Roger Kessler Gomes Capa Juliano Dall’Agnol Projeto Gráfico Isabel Kubaski Editoração Roseli Menzen E-mail: editora@ulbra.br Secretaria do Curso de Medicina VeterináriaSecretaria do Curso de Medicina VeterináriaSecretaria do Curso de Medicina VeterináriaSecretaria do Curso de Medicina VeterináriaSecretaria do Curso de Medicina Veterinária ULBRA - Av. Farroupilha, 8001 - Canoas - Prédio 14 - Sala 125 Fone/fax: 3477.9284 CEP: 92425-900 E-mail: secagrarias@ulbra.br Carlos Gottschall: carlosgott@cpovo.net Sergio Oliveira: serjol@terra.com.br Endereço para permutaEndereço para permutaEndereço para permutaEndereço para permutaEndereço para permuta Universidade Luterana do Brasil Biblioteca Central - Setor Aquisição Av. Farroupilha, 8001 - Prédio 05 CEP: 92425-900 - Canoas/RS, Brasil E-mail: bibpermuta@ulbra.br I ndexadoresIndexadoresIndexadoresIndexadoresIndexadores AGROBASE - Base de Dados da Pesquisa Agropecuária (BDPA), CAB Abstracts, LATINDEX Disponível eletronicamente no site www.editoradaulbra.com.br ou www.ulbra.br/veterinaria Solicita-se permuta. We request exchange. On demande l’échange. Wir erbitten Austausch. O conteúdo e estilo lingüístico são de responsabili- dade exclusiva dos autores. Direitos autorais reservados. Citação parcial permitida, com referência à fonte. COMUNIDADE EVANGÉLICA LUTERANA “SÃO PAULO” V586 Veterinária em foco / Universidade Luterana do Brasil. – Vol. 1, n. 1 (maio/out. 2003)- . – Canoas : Ed. ULBRA, 2003- . v. ; 27 cm. Semestral. ISSN 1679-5237 1. Medicina veterinária – periódicos. I. Universidade Luterana do Brasil. CDU 619(05) Revista Veterinária em Foco ISSN 1679-5237 Vol.4, n.2, jan./jun. 2007 Sumár ioSumár ioSumár ioSumár ioSumár io 109 Editorial 111 O ensino da cirurgia veterinária com ética e bem-estar animal Beatriz Guilhembernard Kosachenco, Virgínia Bocorny Lunardi, Paulo Ricardo Centeno Rodrigues, Maria Inês Witz, Jussara Zani Maia, Karine Gehlen Baja, Norma Centeno Rodrigues, Renato Silvano Pulz 119 Resposta reprodutiva de novilhas acasaladas aos 14, 18 ou 26 meses de idade submetidas a um protocolo de sincronização de estro Carlos S. Gottschall, Leonardo C. Canellas, Eduardo T. Ferreira, Pedro R. Marques, Hélio R. Bittencourt 131 Patologia clínica: colheita, conservação e remessa de amostras Caroline Ferreira Simon, Cristine Bastos Dossin Fischer, Fabiana Silveira, Mariangela da Costa Allgayer 143 O uso das cefalosporinas na clínica de pequenos animais: breve revisão Paulo Ricardo Centeno Rodrigues, Beatriz Guilhembernard Kosachenco, Jussara Zani Maia, Renato Silvano Pulz, João Roberto Braga de Mello 159 Associação de ultra-sonografia, urografia excretora e vaginocistografia no diagnóstico de ectopia ureteral em fêmea canina Ricardo Luis Grün, Márcio Aurélio da Costa Teixeira, Luis Cardoso Alves, Maria Inês Witz, Karine Gehlen, Gabriela Klein Silva, Maria Eugênia Menezes Oliveira, Diego M. Norte 169 Ventriculite parasitária por Libyostrongylus sp em avestruz (Struthio camelus) e identificação de ovos do parasita em amostras de fezes de ratitas de diferentes criatórios do Estado do Rio Grande do Sul Pierre do Valle Moreira, Cláudio Chiminazzo, Maria Teresa Queirolo, Mariane Feser, Victor Hermes Cereser, Anamaria Telles Esmeraldino, Renata Difini, Luiz Cesar Bello Fallavena 177 Diarréia em leitões da maternidade e creche em uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) no Rio Grande do Sul, Brasil Manuela Lapenta da Cunha, Carolini F. Coelho, Fernanda S. Abileira, Luís G. Goulart do Nascimento, Eloi G. Hinnah, Sérgio J. de Oliveira 185 Eimeriose ovina no Município de Major Vieira, Santa Catarina: relato de caso Cristiane R. Cantelli, Daniela Pedrassani, Walter Surkamp, Sandra M. T. Marques, Celso Pilati 191 Urolitíase obstrutiva em ovinos: revisão de literatura Hélio Martins de Aquino Neto, Elias Jorge Facury Filho, Antônio Último Carvalho, Fernando Andrade Souza, Lilian de Rezende Jordão 203 Scrapie (paraplexia enzoótica) em ovinos no Brasil Luiz Alberto Oliveira Ribeiro, Daniel Thompsen Passos, Norma Centeno Rodrigues, Tania de Azevedo Weimer 209 Normas Editoriais Editorial Seguindo o exemplo de periódicos de excelente conceito em nosso país, a revista Veterinária em Foco adota o sistema de análise e seleção dos artigos a serem publicados. Exige assim, em primeiro lugar, que os mesmos estejam redigidos conforme as normas da revista. Isso sendo atendido, duas cópias impressas são enviadas para consultores ad hoc cujas atividades profissionais estejam relacionas ao tema a ser analisado. Esses consultores analisam, preenchem um formulário, apresentam as alterações a serem feitas ou não recomendam para publicação. As duas cópias sujeitas a alterações são devolvidas aos autores dos artigos, para as correções, com os pareceres e críticas. Caso seja proposto publicação com correções e estas sejam realizadas, deve ser enviado disquete ou CD com a redação final, acompanhado de uma cópia impressa. Esta metodologia de trabalho exige disciplina no envio e recebimento das correspondências para que sejam cumpridos os prazos, visto que a revista é de tiragem semestral. Até o momento, os prazos estão sendo rigorosamente cumpridos, o que exige atenção da Comissão Editorial, uma vez que tem sido intensificado o recebimento de trabalhos de universidades e centros de pesquisa procedentes de outros Estados do país. Para uma revista com poucos anos de existência, como a Veterinária em Foco, o fato de sobrarem artigos para novas edições, aguardando “na fila” para divulgação, é uma ocorrência promissora para o futuro de nosso periódico. A compreensão dos autores é fundamental no aguardo da publicação de seus artigos, ao mesmo tempo em que tal fato serve como um indicativo de confiança e credibilidade da comunidade científica em nosso periódico. Comissão Editorial 110 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 111 O ensino da cirurgia veterinária com ética e bem-estar animal The teaching of veterinary surgery with ethics and animal welfare KKKKKOSOSOSOSOSACHENCOACHENCOACHENCOACHENCOACHENCO, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard – Médica Veterinária, MSc, Professora de Cirurgia Veterinária, ULBRA/RS LLLLLUNARDI, VUNARDI, VUNARDI, VUNARDI, VUNARDI, Virgínia Bocorny –irgínia Bocorny –irgínia Bocorny –irgínia Bocorny –irgínia Bocorny – Médica Veterinária, MSc, Professora de Cirurgia Veterinária, ULBRA/RS RODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, Paulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno – Médico Veterinário, Esp., Professor de Anestesiologia Veterinária, ULBRA/RS WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês – Médica Veterinária, MSc, Professora de Cirurgia Veterinária ULBRA/RS MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani – Médica Veterinária, MSc, Professora de Anestesiologia Veterinária, ULBRA/RS BAJBAJBAJBAJBAJA, KA, KA, KA, KA, Karine Gehlen –arine Gehlen –arine Gehlen –arine Gehlen –arine Gehlen – Médica Veterinária, MSc, Professora de Cirurgia Veterinária ULBRA/RS RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno – Médica Veterinária, Dra., Professora de Ética e Bem-Estar Animal, ULBRA/RS – Instituto de Pesquisas Veterinárias “ Desidério Finamor”/FEPAGRO PPPPPULZ, RULZ, RULZ, RULZ, RULZ, Renato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – Médico Veterinário, Dr., Professor de Anestesiologia Veterinária, ULBRA/RS Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007 Endereço para correspondênciaEndereço para correspondênciaEndereço para correspondênciaEndereço para correspondênciaEndereço para correspondência: Av. Farroupilha 8001, Canoas, RS. E-mail: kosachencobg@yahoo.com.br RESUMO Modificações no programa prático das disciplinas de Cirurgia do Curso de Medicina Veterinária da ULBRA foram realizadas objetivando diminuir a utilização de animais sadios para as aulas práticas. Em substituição aos 30 cães sadios provenientes de Centros de Controle de Zoonoses, foram utilizadas alternativas como cadáveres e peças anatômicas oriundas de frigoríficos, além de pacientes com patologias diversas cujos proprietários Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.111-117 112 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco eram carentes, proporcionando um perfeito desenvolvimento das habilidades cirúrgicas iniciais que o aluno de medicina veterinária necessita. Um programa de castração de cães e gatos foi disponibilizado aos alunos possibilitando um treinamento mais efetivo na técnica cirúrgica e anestésica, o que permitiu o aprimoramento da técnica operatória, o desenvolvimento da consciência e do raciocínio cirúrgico e alertá-los quanto às responsabilidades frente ao animal. PPPPPalavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chave: ética, bem-estar animal, ensino, cirurgia. ABSTRACT Changes in the surgery practical classes at the Veterinary Medicine Faculty – ULBRA, Brazil were introduced aiming to reduce the use of healthy animals in such practices. The previous 30 dogs from the Zoonosis Control Centers used were gradually substituted by carcass or viscera from sloughter house origin. It was used also dogs and cats, holding some pathology, that the owners could not match the treatment costs. Using those alternative the veterinary student did develop surgical skills in an appropriate way. Furthermore, a castration’s program of cats and dogs was also available to the students in which they can practice surgery and anesthesia skills. Such activity helps not only improve their surgical skills but also their consciousness and responsibility with the animals. Key words: Key words: Key words: Key words: Key words: Ethics, animal welfare, veterinary surgery education. INTRODUÇÃO A discussão quanto à condição moral dos animais e o direito dos homens em utilizá-los em seu benefício, provocando seu sofrimento, atravessou séculos de história e permanece latente. René Descartes, em seu ensaio “O discurso do método”, de 1637, declarou que os animais eram como máquinas, mecanismos sem alma e sem dor. A partir de então, as vivissecções tornaram- se uma prática deliberada, embora mais tarde alguns estudiosos tenham observado reações que poderiam sugerir dor (NETA, 2004). Ferreira (1986) definia o bem-estar animal como “estado de perfeita satisfação física ou moral”. Para Molento (2003), a definição comumente aceita para bem-estar animal é a de um completo estado de saúde física e mental em que o animal encontra-se em harmonia com seu meio ambiente. Na década de 90, a Associação Mundial de Veterinária reconheceu em seu estatuto como sendo papel do médico veterinário a promoção do bem- Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 113 estar animal (WVA, 1993). O estabelecimento de uma política em bem- estar animal criada por esta associação teve como resultado diversas recomendações, como a necessidade de incorporar a disciplina de bem- estar animal nos currículos de Medicina Veterinária. Apesar de, filosoficamente e como ciência, existirem diferentes posicionamentos sobre bem-estar animal, o compromisso com o tema tem crescido na Medicina Veterinária. Mesmo assim, no Brasil são raras as iniciativas deste tipo de abordagem no ensino (PAIXÃO, 2001). Na Inglaterra, estatísticas anuais demonstram um decréscimo de dois terços no uso de animais para educação nos últimos dez anos (JUKES et al., 2003). De acordo com Molento (2003), a utilização de animais para pesquisa e ensino no Brasil deve ser mais criteriosa, inclusive com maior vigilância e transparência para a sociedade. Segundo Buyukmihci (1996), a morte de animais no ensino de Medicina Veterinária continua mais por conveniência ou hábito, e não porque é pedagogicamente necessário, existindo, no momento, muito mais alternativas do que matar animais sadios para o treinamento cirúrgico. O mesmo autor observa que o treinamento cirúrgico oferecido aos estudantes pelas Universidades, nas aulas de cirurgia, para a obtenção do título de médico veterinário, não faz deles cirurgiões, e que é necessário a prática dentro do bloco cirúrgico para promover a confiança e a destreza que capacita o profissional. A pressão social e dos estudantes contra o uso de animais sadios na técnica cirúrgica tem auxiliado nas pesquisas e no estudo de alternativas efetivas para o treinamento cirúrgico (SMEAK et al., 1991; GREEFIELD et al., 1993). Em estudo realizado por Bauer (1993) onde foram questionadas 31 escolas de veterinária dos Estados Unidos e Canadá sobre a utilização de animais vivos, cadáveres, modelos inanimados e outros métodos inovadores no ensino cirúrgico, foi demonstrado que o número de aulas de cirurgia que utilizam animais vivos está decrescendo e que as Escolas estão interagindo com as sociedades protetoras de animais, de maneira que seus estudantes realizem cirurgias e os animais submetidos sejam então encaminhados para programas de adoção. Nesse mesmo estudo, o autor citou que 59% das escolas questionadas possuíam programas conjuntos com sociedades protetoras de animais. No Brasil, a Faculdade de Veterinária da USP, em São Paulo, desenvolveu um programa inovador no ensino da técnica cirúrgica, abolindo totalmente a utilização de animais vivos em suas aulas práticas (SILVA et al., 2003). Objetivando diminuir o número de animais utilizados pelas disciplinas de Cirurgia do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil/ULBRA, no ano de 1999 foram propostas modificações no programa prático das referidas disciplinas onde era utilizada uma média de 30 animais sadios provenientes principalmente de Centros de Controle de Zoonoses. 114 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco RELATO DO CASO Em substituição aos 30 cães sadios provenientes de Centros de Controle de Zoonoses para as disciplinas de Cirurgia Veterinária I e Cirurgia Veterinária II foram utilizadas, nas aulas práticas das respectivas disciplinas, alternativas como cadáveres e peças anatômicas oriundas de frigoríficos, além de pacientes com patologias diversas cujos proprietários eram carentes e não podiam arcar com os custos normais de uma cirurgia. Na disciplina de Cirurgia Veterinária I o número de animais que era utilizado, em média de 15 por semestre, foi reduzido à metade. Para levar a cabo o programa prático da disciplina, passaram a ser utilizados cadáveres frescos de cães que vinham a óbito no Hospital Veterinário da ULBRA ou provenientes de clínicas particulares conveniadas com o Curso de Medicina Veterinária. Estes cadáveres eram refrigerados para posterior utilização. Do mesmo modo, peças de suínos provenientes de abatedouros também foram agregadas às aulas práticas, sendo as mesmas mantidas em refrigeração para pronta utilização. Após a utilização, os cadáveres e peças eram descartados. No final do semestre, foram disponibilizados animais vivos para cirurgias eletivas. Na disciplina de Cirurgia Veterinária II o número de animais sadios utilizado foi totalmente suprimido. Para procedimentos do trato respiratório foram realizadas técnicas em cadáveres. Para o desenvolvimento das demais técnicas operatórias, abriu-se a possibilidade de tratamento cirúrgico em animais de proprietários de baixa renda, agendando-se pacientes que apresentassem patologias específicas de interesse ao programa da disciplina. Estes animais eram avaliados clinicamente através da rotina do Hospital Veterinário da ULBRA, ou pelos alunos e professores da disciplina de Clínica Veterinária II, em seu programa de aulas práticas. Esse agendamento se processava sempre após avaliação dos exames complementares de diagnóstico. Os procedimentos anestésicos e cirúrgicos foram desenvolvidos em aula prática, pelos alunos da disciplina, com a supervisão dos professores. Um programa de castração de cães e gatos de proprietários carentes foi disponibilizado aos alunos que foram aprovados pela disciplina de Cirurgia Veterinária I. A participação dos alunos no programa era voluntária. Os denominados “proprietários de baixa renda” foram escolhidos mediante critérios que envolviam a comprovação de renda e consentimento para participar dos programas de esterilização e dos procedimentos cirúrgicos desenvolvidos nas disciplinas. RESULTADOS As modificações no programa das disciplinas de Cirurgia do Curso de Medicina Veterinária da ULBRA levaram aos seguintes resultados: Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 115 • Disciplina de Cirurgia Veterinária I: redução de aproximadamente 90% na utilização de animais vivos para desenvolvimento das técnicas operatórias. Nas cirurgias não eletivas, a utilização de cadáveres frescos de cães que foram a óbito no Hospital Veterinário/ULBRA ou de clínicas conveniadas proporcionou a realização do procedimento de celiotomia com treinamento das técnicas de diérese, e síntese de fáscias musculares, tecido subcutâneo e pele, e cirurgias oftálmicas como confecção de flapes de terceira pálpebra e exenteração de globo ocular. Estômago, intestino, rins e bexiga de suínos trazidos de abatedouros foram utilizados para os procedimentos de gastrotomia, piloromiotomia, piloroplastia, enterotomia, ressecção e anastomose intestinal, nefrotomia, nefrectomia e cistotomia. Animais vivos foram utilizados para cirurgias eletivas, como ovário-histerectomia em cadelas e gatas, descorna cosmética em bovinos, caudectomia e rumenotomia em ovinos e orquiectomia, que podia ser em eqüinos, bovinos, caninos, felinos e suínos. A utilização dos cadáveres e peças anatômicas no primeiro bimestre da disciplina proporcionou aos alunos maior segurança e preparo no tratamento das técnicas cirúrgicas eletivas frente ao animal vivo, bem como maior preparo psicológico para interagirem com os proprietários de animais, preparando-os para o programa de esterilização e para a disciplina subseqüente, de Cirurgia Veterinária II. • Disciplina de Cirurgia Veterinária II: supressão total de utilização de animais sadios, sendo os pacientes selecionados através de um agendamento prévio de proprietários de baixa renda, cadastrados para serem atendidos pela disciplina. Entre os procedimentos cirúrgicos deste grupo de pacientes estavam as cirurgias de nodulectomia, mastectomia regional e total, herniorrafia, exérese de tumorações externas, ovário-histerectomia, orquiectomia, blefaroplastia, sialoadenectomia, cistotomia, osteossíntese em membros, correções de luxação patelar, artroplastia de cabeça e colo femorais, amputação de dígitos, amputação de membro. Cadáveres refrigerados foram utilizados para os procedimentos de traqueostomia, toracotomia, lobectomia pulmonar e colocação de dreno torácico. DISCUSSÃO A opção de criar alternativas efetivas para o treinamento cirúrgico, sem o uso de animais sadios, foi o motivador das mudanças nos programas práticos das disciplinas de Cirurgia Veterinária da ULBRA, reforçada pela afirmação de Greefield et al. (1993) que salientaram que a elaboração de alternativas eficientes para o desenvolvimento das habilidades cirúrgicas passa pela necessidade de responder à pressão da sociedade sobre o tema. A conscientização do aluno sobre a questão ética que envolve o uso de animais para fins didáticos foi uma conseqüência destas mudanças efetuadas, o que concorda com Paixão (2001) que mencionou a necessidade do compromisso com o bem-estar no ensino da Medicina Veterinária. Para Buyukmihci (1996), o treinamento cirúrgico oferecido aos estudantes 116 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco de Medicina Veterinária durante os cursos não faz deles cirurgiões, e que é necessário a prática dentro do bloco cirúrgico para promover a confiança e a destreza que capacita o profissional. Corroborando com esta afirmação, os programas de esterilização para cães e gatos desenvolvidos pelos professores do Curso e disponibilizados aos alunos, proporcionou alternativas para que o aprimoramento de sua habilidade cirúrgica e anestésica. Entre o ano de 2000 e o primeiro semestre de 2006, 309 alunos cursaram as disciplinas de Cirurgia. Desses, 216 realizaram treinamento voluntário, operando no programa de esterilização de cães e gatos, ou seja, 69,9% dos acadêmicos exercitaram o raciocínio clínico-cirúrgico aprendido nas disciplinas de cirurgia. Mesmo sendo uma atividade de livre escolha do acadêmico, o percentual elevado de alunos que aprimoraram suas habilidades cirúrgicas e anestésicas mostra a conscientização dos alunos sobre o tema. Ainda que seja este um bom indicativo, deverá ser incluído, na segunda fase do projeto, um questionário com a opinião dos alunos sobre o programa, semelhante ao desenvolvido por Silva et al. (2003). CONCLUSÃO A utilização de peças frescas provenientes de frigoríficos e cadáveres frescos são alternativas ao uso de animais sadios para a prática de técnicas cirúrgicas variadas e proporciona perfeito desenvolvimento das habilidades cirúrgicas iniciais que o aluno de Medicina Veterinária necessita. A prática em pacientes vivos pertencentes a um proprietário permite o aprimoramento da técnica operatória, desenvolve a consciência e o raciocínio cirúrgico e a responsabilidade para com o animal. REFERÊNCIAS BAUER, M. S. A survey of the use of live animals, cadavers, inanimate models and computers in teaching veterinary surgery. Journal of Veterinary Medical Association, v.203, n.7, p.1047-1051, 1993. BUYUKMIHCI, N. Alternatives in veterinary surgical training. Humane innovations and alternatives in animal experimentation. v.6, p.96-97, 1996. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. GREENFIELD, C. L.; JOHNSON, A. L.; ARENDS, M. W.; MARK, W.; WROBLEWSKI, A. Development of parenchimal abdominal organ models for use in teaching veterinary soft tissue surgery. Veterinary Surgery v.22, p.357-362, 1993. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 117 JUKES, N.; CHIUIA, M. From guinea pig to computer mouse: alternative methods for a progressive, human education. 2.ed., Leicester: Interniche, 2003. 520p. MOLENTO, C. F. M. Medicina Veterinária e Bem-estar Animal. Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária. v.9, n.28/29, p.15-20, 2003. NETA, J. H. Consciência Animal. Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária. v.10, n.31, p.59-65, 2004. PAIXÃO, R. L. Bioética e Medicina Veterinária: um encontro necessário. Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária. v.7, n.23, p.20-26, 2001. SILVA, R. M. G.; MATERA, J. M.; RIBEIRO, A. A. C. A avaliação do método de ensino da técnica cirúrgica utilizando cadáveres quimicamente preservados. Revista Educação Continuada CRMV-SP, v.7, n.23, p.59-65, 2004. SMEAK, D. D.; BECK, M. L.; SHAFFER, C. A.; GREGG, C. G. Evaluation of videotape and a simulator for instruction of basic surgical skills. Veterinary Surgery. v.20, p.30-36, 1991. WORLD VETERINARY ASSOCIATION. Policy on animal welfare, well-being and ethology. World Veterinary Association Bulletin, v.10, p.9-10, 1993. Resposta reprodutiva de novilhas acasaladas aos 14, 18 ou 26 meses de idade submetidas a um protocolo de sincronização de estro Reproductive Performance of Beef Heifers Mated at 14, 18 and 26 Months of Age Submitted to Estrus Synchronization GOTGOTGOTGOTGOTTSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S. – Médico Veterinário, MSc, Professor Adjunto da Faculdade de Medicina Veterinária da ULBRA CANELLCANELLCANELLCANELLCANELLAAAAAS, Leonardo C.S, Leonardo C.S, Leonardo C.S, Leonardo C.S, Leonardo C. – Acadêmico em Medicina Veterinária, ULBRA/RS. Bolsista de Iniciação Científica PROICT/ULBRA FERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo T..... – Médico Veterinário, Mestrando em Zootecnia, UFRGS. Bolsista do CNPq MARQUES, PMARQUES, PMARQUES, PMARQUES, PMARQUES, Pedro Redro Redro Redro Redro R. – . – . – . – . – Acadêmico em Medicina Veterinária, ULBRA/RS. BITBITBITBITBITTENCOURTENCOURTENCOURTENCOURTENCOURTTTTT, Hélio R, Hélio R, Hélio R, Hélio R, Hélio R..... – Estatístico MSc. Faculdade de Matemática – PUCRS. Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: maio 2007 Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Av. Farroupilha, 8001. Canoas, RS. Bairro São José. Prédio 14, Sala 127. CEP: 92425-900. Carlos Gottschall. E-mail: carlosgott@cpovo.net RESUMO O trabalho teve como objetivo avaliar o desempenho reprodutivo de novilhas acasaladas com diferentes idades submetidas a um protocolo de sincronização de estro. Foram coletados, no período compreendido entre 2003 e 2005, dados de 270 novilhas de corte, com base racial britânica, acasaladas aos 14 (A14, n = 70), 18 (A18, n = 36) ou 26 meses de idade (A26, n = 164). O protocolo constituiu-se, primeiramente, da identificação de novilhas em estro, seguida pela inseminação artificial convencional (sem utilização de hormônios) após 12 horas durante 7 dias. No sétimo dia, todos os animais não inseminados receberam uma aplicação de Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.119-129 120 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco prostaglandina F2 α e foram inseminados por mais 5 dias com acompanhamento de cio, formando o tratamento IA. Após os 12 dias de inseminação, essas novilhas foram submetidas ao repasse com touros, enquanto que as que não foram inseminadas (por não terem manifestado estro) foram apenas entouradas (tratamento ENT). As variáveis analisadas para cada grupo foram peso ao início do acasalamento (PIA), taxa de novilhas inseminadas (TIA), taxa de novilhas entouradas (TENT), taxa de prenhez (TP) conforme a idade ao acasalamento e o tratamento. A TP foi de 84,3 % para A14, 94,4% para A18 e 90,9 % para A26 (p>0,05). Novilhas submetidas ao tratamento IA apresentaram maiores (p<0,01) TP (93,80%) quando comparadas às do tratamento ENT (81,70%), independentemente da idade ao acasalamento. A idade ao acasalamento não interferiu na taxa de prenhez das novilhas. Animais mais velhos apresentaram maior taxa de inseminação do que animais mais novos. Novilhas inseminadas apresentaram maiores taxas de prenhez em relação às entouradas. PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: novilhas de corte, sincronização de estro, acasalamento. ABSTRACT The objective of this study was to evaluate the reproductive performance of heifers mated at different ages and submitted to estrus sincronization. The study was based on data from 270 heifers (British breeds and cross-breeds) collected through the period from 2003 to 2005 and mated at 14 months old (A14, n = 70), 18 months old (A18, n = 36) and 26 months old (A26, n = 164). The hormonal program was based initially on the animals estrus identification following by conventional artificial insemination (without hormonal utilization) after 12 hours during 7 days. At the seventh day, whole animals that were not inseminated got one application of prostaglandin F2a and were inseminated for more 5 days with estrus identification, making a AI group. After 12 days of insemination, the animals were submitted to cleanup bulls. The heifers that were not inseminated because they didn’t show estrus, were served only by bulls, forming the BU groups. The parameters analyzed were weight at beginning of mating (BW), rate of inseminated heifers (RIH), percentage of heifers mated only with bulls (HMB), pregnancy rates (PR) according to the reproductive technique and age at mating. The PR was 84.3 % for the A14 group, 94.4 % for the A18 and 90.9 % for the A26 animals group. The AI group reached higher (p<0.01) PR (93.80%) than those heifers served by using just bulls (81.70%), in spite of the age at mating. Age at mating did not interfere in the pregnancy rate. Oldest heifers reached higher rate of inseminated heifers than younger ones. Inseminated group reached higher pregnancy rate than heifers served only by bulls. Key words: Key words: Key words: Key words: Key words: Beef heifers, estrus synchronization, mating. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 121 INTRODUÇÃO Atualmente, com o avanço da biotecnologia, existem diversas técnicas disponíveis para a sincronização de estros de fêmeas bovinas. Dentre as vantagens da sincronização de estros destacam-se a racionalização da técnica de inseminação artificial, a concentração e redução do período de parição, a praticidade para o desenvolvimento de testes de avaliação zootécnica devido a padronização da idade dos animais, a racionalização do manejo e comercialização dos animais (GREGORY, 2002). Segundo Azeredo et al. (2007) a sincronização e a indução de estros na primeira estação reprodutiva é uma metodologia capaz de auxiliar na repetição de crias das primíparas, principalmente por resultar na concentração das parições ao início da temporada. Em contrapartida, Bó et al. (2004) afirmam que muitas vezes a falta de conhecimento dos mecanismos de funcionamento dos sistemas endócrino e fisiológico da reprodução na fêmea e os altos custos para a implantação de programas hormonais limitam a utilização de protocolos de sincronização de estros e/ou ovulação. A prostaglandina e seus análogos sintéticos são amplamente utilizados para a sincronização de estros em rebanhos de gado de corte. Quando os animais estão ciclando a prostaglandina é o método mais econômico para a sincronização de estros (GOTTSCHALL, 1996). Entretanto, o uso de prostaglandina isoladamente só deverá ser feito em fêmeas cíclicas e com a presença de corpo lúteo, tendo em vista que sua ação é luteolítica. A maior limitação das prostaglandinas reside na ineficácia sobre fêmeas que não possuam corpo lúteo, como novilhas pré-puberes e vacas em anestro pós-parto (GAINES, 1994; GOTTSCHALL, 1996). Gottschall et al. (2005) demonstra claramente que tecnologias jamais devem ser aplicadas de forma indiscriminada sem antes considerar que fatores nutricionais, sanitários e de manejo interferem sobre a resposta reprodutiva. Segundo Bastos et al. (2003) a pesquisa de alternativas viáveis, que sejam capazes de incrementar as taxas de prenhez em condições extensivas de criação, associando a utilização de programas hormonais e uso de inseminação artificial, merecem ser mais pesquisadas. O objetivo deste trabalho foi avaliar os efeitos da utilização de um protocolo de sincronização de estro com o uso de prostaglandina sobre o desempenho reprodutivo de novilhas acasaladas aos 14, 18 ou 26 meses de idade. MATERIAL E MÉTODOS O trabalho foi realizado a partir de informações obtidas de uma propriedade particular situada no município de Cristal, no estado do Rio Grande do Sul, entre os anos de 2003 e 2005. Foram analisados dados de 270 novilhas 122 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco de corte acasaladas entre novembro de 2004 e janeiro de 2005, aos 14 (A14), 18 (A18) ou 26 (A26) meses de idade. Desse total, 70 animais compunham o grupo A14, 36 animais o grupo A18 e 164 animais o grupo A26. Os animais utilizados eram de base racial britânica (Aberdeen Angus e Devon) e suas respectivas cruzas com diferentes proporções de sangue zebuíno. As novilhas do grupo A14 nasceram na primavera de 2003, as novilhas do grupo A18 nasceram no outono de 2003 e as novilhas do grupo A26 nasceram na primavera de 2002. Cada grupo foi manejado objetivando atingir o peso mínimo de 300 kg por ocasião da primeira estação de acasalamento. Os grupos A14 e A18 receberam pastagem de azevém (Lolium multiflorum) no inverno-primavera de 2004. O grupo A26 foi recriado em campo nativo, com ajuste de carga variável conforme a disponibilidade de forragem. A estação de acasalamento teve duração de 62 dias, iniciando no dia 19 de novembro de 2004 e terminando no dia 20 de janeiro de 2005. O diagnóstico de prenhez, através de palpação retal, foi realizado em março de 2005 após 60 dias do término da estação de acasalamento. O protocolo utilizado para a sincronização de estros constituiu-se, primeiramente, da identificação de novilhas em estro, seguida pela inseminação artificial convencional das mesmas (sem utilização de hormônios) após 12 horas durante 7 dias. No sétimo dia, todos os animais não inseminados receberam uma aplicação de prostaglandina F2 α (agente luteolítico) e foram inseminados por mais 5 dias com acompanhamento de cio, formando o grupo inseminadas (IA). A observação de estros foi realizada pela manhã e ao entardecer por pelo menos uma hora e meia em cada período. Após os 12 dias de inseminação essas novilhas foram submetidas ao repasse com touros, enquanto que as que não foram inseminadas (por não terem manifestado estro – nos primeiros doze dias) formaram o grupo entouradas (ENT). Os touros utilizados entraram no lote de novilhas no dia 04/12/2004 sendo retirados no dia 20/01/2005. Os touros foram usados na proporção touro: novilha de 1:30, apresentavam entre 3 e 4 anos de idade e tiveram aptidão comprovada previamente por exame andrológico. O protocolo utilizado, de baixo custo, objetivou reduzir o período de inseminação artificial, concentrar a manifestação de cio, ovulação e parição, produzir terneiros mais uniformes e aumentar o número de fêmeas parindo mais cedo. As variáveis analisadas para cada grupo (inseminadas IA x entouradas ENT) foram peso ao início do acasalamento (PIA), taxa de novilhas inseminadas (TIA), taxa de novilhas entouradas (TENT), taxa de prenhez (TP) conforme a técnica reprodutiva e idade do animal. A análise estatística foi feita pelo Modelo Linear Generalizado (GLM) a partir do software SPSS, sendo a taxa de prenhez testada pelo Qui-quadrado. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 123 RESULTADOS E DISCUSSÃO A Tabela 1 apresenta o percentual de fêmeas inseminadas e entouradas de acordo com a idade ao início do acasalamento. Tabela 1 – Taxa de novilhas inseminadas e repassadas com touro (TIA) e taxa de novilhas apenas entouradas (TENT) conforme a idade ao acasalamento. Idade ao acasalamento n TIA (%) TENT (%) 14 meses (A14) 70 35,7 a 64,3 a 18 meses (A18) 36 66,7 b 33,3 b 26 meses (A26) 164 78,0 c 22,0 c Total/Média 270 65,6 34,4 a,b,c na coluna, diferem entre si (p<0,01). Os resultados indicam maior taxa de manifestação de estros, expressa pelo maior número de animais inseminados, à medida que aumenta a idade ao acasalamento. Segundo Schillo et al. (1992) a puberdade (coincidente com a primeira ovulação e estro) em novilhas é o resultado de uma série de eventos complexos que ocorrem no eixo endócrino- reprodutivo. A idade do animal é um fator relacionado à puberdade (SCHILLO et al, 1992; DI MARCO et. al, 2006), sendo que animais mais velhos na mesma faixa de peso e grupo genético, como no caso do trabalho em questão, tendem a apresentar maior maturidade fisiológica e reprodutiva, o que possibilita que o sistema nervoso detecte relações neuro- endócrinas favoráveis à produção de gonadotrofinas, conduzindo a um desenvolvimento folicular mais intenso e promovendo a ocorrência da ovulação e manifestação do estro (SIROIS e FORTUNE, 1988). Dessa forma, sugere-se que os animais mais novos demonstraram, no presente experimento, menor manifestação de estros no início da estação de acasalamento. O grupo A26 apresentou 42,3 e 11,3 pontos percentuais a mais de novilhas sendo inseminadas em relação aos grupos A14 e A18, respectivamente. A Tabela 2 mostra o peso ao início do acasalamento geral (PIAG), o peso ao início do acasalamento das vacas que emprenharam (PIAP) e das vacas que não emprenharam (PIAV) e a taxa de prenhez (TP), conforme a idade ao acasalamento e o tratamento. Tabela 2 – Peso ao início do acasalamento geral (PIAG), peso ao início do acasalamento de vacas que emprenharam (PIAP) e não emprenharam (PIAV) e taxa de prenhez (TP), conforme a idade ao acasalamento. Idade ao acasalamentoIdade ao acasalamentoIdade ao acasalamentoIdade ao acasalamentoIdade ao acasalamento NNNNN PIAG (kg)PIAG (kg)PIAG (kg)PIAG (kg)PIAG (kg) PIAP (kg)PIAP (kg)PIAP (kg)PIAP (kg)PIAP (kg) PIAPIAPIAPIAPIAV (kg)V (kg)V (kg)V (kg)V (kg) TP (%)TP (%)TP (%)TP (%)TP (%) 14 meses (A14) 70 311,96 a 314,53 298,18 84,3 18 meses (A18) 36 333,00 b 334,56 306,50 94,4 26 meses (A26) 164 301,46 a 301,05 305,33 90,9 Total/Média 270 308,39 309,04 302,71 89,6 a,b na coluna, diferem entre si (p<0,01). 124 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco O PIAG foi maior (p<0,01) para as novilhas A18 em relação às A14 e A26, que não diferiram entre si (p>0,05). Na análise dos pesos ao acasalamento de novilhas prenhes (PIAP) e vazias (PIAV) não houve diferença significativa para nenhum dos grupos analisados (p>0,05), assim como não houve diferença na taxa de prenhez. Esses resultados concordam com os relatos de Rovira (1996), que indica uma relação linear entre peso e fertilidade de novilhas de corte até os 65-68% do peso vivo adulto (cerca de 300 kg para novilhas com base racial britânica). Segundo Rovira (1996), acima desse peso, a fertilidade e a velocidade de concepção não apresentam incremento significativo, o que explica o fato das novilhas A18 não terem obtido uma taxa de prenhez superior às demais, mesmo sendo mais pesadas ao início do acasalamento. Azambuja (2003) trabalhando com novilhas acasaladas aos 14 meses, reporta taxas de prenhez inferiores às obtidas no presente trabalho, de 35,4% e 66,7% para pesos médios ao início do acasalamento também inferiores, de 233,4 e 252,0 kg, respectivamente. Funston e Deutscher (2004), utilizando novilhas acasaladas aos 14 meses, relataram taxas de prenhez similares aos deste trabalho, respectivamente, de 93 e 88% em novilhas pesando 330 kg e 319 kg ao início da estação de acasalamento, não havendo diferença estatística significativa entre as novilhas de diferentes pesos. Em experimento utilizando novilhas acasaladas aos 18 meses, Barcellos et al. (2000) relatam taxas de prenhez de 35,9 e 57,1% para pesos ao início do acasalamento de 261 e 283 kg, respectivamente, taxas e pesos inferiores às obtidas pelas novilhas de mesma idade neste trabalho. Esses resultados demonstram a relação positiva entre peso e taxa de prenhez até um determinado limite de peso, conhecido como peso mínimo crítico. Elevados pesos ao início do acasalamento tendem a proporcionar elevados índices de prenhez (AZAMBUJA, 2003; GOTTSCHALL et al., 2005). Entretanto, à medida que aumenta o peso ao acasalamento, a probabilidade de prenhez fica semelhante para novilhas de diferentes idades, evidenciando que a partir de determinadas faixas de peso não há incremento significativo nas taxas de prenhez (GOTTSCHALL e CANELLAS, 2007). Tabela 3 – Taxa de prenhez (TP) e peso ao início do acasalamento (PIA) de novilhas submetidas à inseminação artificial e repassadas com touros (IA) e de novilhas exclusivamente entouradas (ENT), conforme a idade ao acasalamento. GrupoGrupoGrupoGrupoGrupo TTTTTratamentoratamentoratamentoratamentoratamento NNNNN PIA (kg)PIA (kg)PIA (kg)PIA (kg)PIA (kg) TP (%)TP (%)TP (%)TP (%)TP (%) A14 IA 25 (35,7%) 316,52 96,0a ENT 45 (64,3%) 309,42 77,8b A18 IA 24 (66,7%) 340,92 95,8 ENT 12 (33,3%) 319,69 91,7 A26 IA 128 (78,0%) 304,02a 93,0 ENT 36 (22,0%) 292,33b 83,3 Total IA 177 (65,6%) 310,79 93,8A ENT 93 (34,4%) 304,30 81,7B a,b na coluna, diferem entre si (p<0,05). A,B na coluna, diferem entre si (p<0,01). Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 125 As novilhas inseminadas nos doze primeiros dias da estação de acasalamento e repassadas com touros (tratamento IA), independentemente da idade, apresentaram 93,8% de prenhez, expressando melhor desempenho reprodutivo em relação às novilhas somente entouradas (tratamento ENT), que obtiveram uma taxa de prenhez de 81,7% (p<0,01). Seguramente as novilhas inseminadas nos primeiros doze dias, já haviam atingido a puberdade, pois demonstraram estro ao início da estação de acasalamento e/ou responderam à ação da prostaglandina. Essa ciclicidade se traduz por maior chance de concepção dentro da estação de reprodutiva. Na análise da idade ao primeiro acasalamento, novilhas dos grupos A18 e A26 não demonstraram diferenças nas taxas de prenhez entre ou grupos IA x ENT, enquanto novilhas mais jovens do grupo A14 apresentaram diferenças nas taxas de prenhez entre ou grupos IA x ENT (P<0,05). Para os dois grupos de animais mais velhos A18 e A24 a quantidade de novilhas inseminadas foi percentualmente superior, o que indica um maior grau de ciclicidade desses animais ao início da estação. No grupo ENT encontravam- se novilhas não cíclicas, ou simplesmente não identificadas em estro. Para o grupo A14 foi identificada superioridade na taxa de prenhez para o tratamento IA (96,0%) em relação ao tratamento ENT (77,8%). Segundo Byerley et al. (1987), novilhas acasaladas no terceiro estro apresentam maior probabilidade de prenhez em relação a novilhas acasaladas no primeiro estro, respectivamente de 78% e 57%. Esses dados podem explicar as diferenças entre as taxas de prenhez dos grupos IA e ENT em função da idade ao primeiro acasalamento. No grupo A14 o percentual de novilhas IA e ENT foi respectivamente de 35,7% e 64,3 %, indicando um maior percentual de novilhas acíclicas no início do trabalho. Mesmo ciclando durante a estação de acasalamento a probabilidade de concepção no primeiro estro é inferior a probabilidade de concepção no terceiro estro (BYERLEY et al, 1987). Os dados indicam que um maior percentual de novilhas do grupo A14 manifestou estro após o período de inseminação artificial (tratamento ENT), dispondo de um menor período de tempo para conceber, além de apresentar um maior percentual de animais manifestando o primeiro estro durante a estação de monta, o que resultou em uma menor taxa de prenhez para esse grupo e dentro dessa idade (A14 ENT). Nesse contexto, Di Marco et al. (2006) relatam que em sistemas intensivos de produção, com uso de acasalamento precoce (A14), ocorre uma sintonia entre a idade da novilha, ocorrência de puberdade e o período de acasalamento. Esses autores também destacam as diferenças em fertilidade entre novilhas inseminadas no terceiro estro comparadas ao primeiro estro, sendo menor em animais inseminados no primeiro estro pós-puberdade. Nos grupos A18 e A26 o percentual de novilhas IA, em relação às ENT foi maior, fato esse que explica a ausência de diferença estatística nas TP desses animais e permite inferir que, nas condições de manejo utilizadas, um maior percentual de novilhas de 18 e 26 meses já apresentavam ciclicidade, favorecendo a concepção mais precoce dentro da estação de acasalamento em relação àquelas acasaladas aos 14 meses. 126 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Dados das Tabelas 2 e 3 mostram que não ocorreram diferenças entre pesos ao início do acasalamento entre novilhas prenhes e vazias e novilhas IA e ENT. Segundo Fox et al. (1988), o peso ótimo à cobertura de novilhas de reposição varia de acordo com o tamanho corporal, sendo este peso em torno de 60% do peso adulto da vaca. Segundo Rovira (1996), Gottschall et al. (2005) e Gottschall e Canellas (2007), é fundamental um peso adequado ao início da estação para uma ótima concepção. Esses autores relacionam o peso mínimo a ser atingido a um percentual do peso vivo de animais adultos gordos, sendo cerca de 65% do peso vivo adulto. Na propriedade em questão as vacas gordas são vendidas com aproximadamente 480 kg, o que representa cerca de 312 kg ao início da estação de acasalamento, peso muito próximo ao obtido por animais de todos os grupos. A importância do peso e suas relações é descrita por Harwin et al. (1967), citado por Morris (1980), onde os autores relatam influências do peso sobre a velocidade de concepção em novilhas. Novilhas com mais de 318 kg tiveram 100% de parição e um período médio de acasalamento de 42 dias. Novilhas com peso entre 220 e 318 kg tiveram 83% de parição e um período médio de acasalamento de 62 dias. Novilhas com peso inferior a 220 kg tiveram 60% de parição e um período médio de acasalamento de 126 dias. Entretanto, Cunningham et al. (1981) não encontraram diferenças na taxa de concepção de novilhas acasaladas aos 24 meses com mais de 310 kg quando comparada ao grupo de novilhas com menos de 310 kg. Os dois trabalhos supracitados apresentam faixas de comparação diferentes, e possivelmente no trabalho de Cunningham et al. (1981) os animais apresentaram o peso mínimo crítico necessário nos dois grupos. Gottschall (1999), em um estudo onde foi utilizado o mesmo protocolo de sincronização de estro deste experimento, com novilhas acasaladas aos 26 meses, encontrou pesos semelhantes para o grupo IA e ENT, respectivamente de 307,9 kg e 300,9 kg (P>0,05), entretanto a taxa de prenhez do grupo IA foi de 90,5%, superior a taxa de prenhez do grupo de novilhas apenas entouradas (ENT), que foi de 68,9% (P<0,01), indicando que outros fatores além do peso ao início do acasalamento afetam a resposta reprodutiva, inclusive a ciclicidade. Para as novilhas iniciarem a época de monta ciclando, de forma a conceber o mais rápido possível, recomenda-se que estes animais alcancem 60-65% do seu peso corporal adulto, denominado peso-alvo ou peso mínimo crítico (BOLZE e CORAH, 1993; LYNCH et al., 1997). Lamb (2006) relata que novilhas Angus atingem 50 e 90% de ciclicidade com 250 e 295 kg de peso vivo, respectivamente. Kasari e Gleason (1996) afirmam que o peso-alvo deve ser atingido cerca de 60 dias antes do início da estação de monta, considerando que a fertilidade das novilhas aumenta depois do 3º e 4º cio, como relatado anteriormente. Conforme dados reportados por Byerley et al. (1987) a fertilidade em novilhas cobertas no primeiro cio puberal é em torno de 21% menor que a de fêmeas cobertas no terceiro cio. Gottschall e Canellas (2007), afirmam que a precocidade sexual, com ocorrência da puberdade antes do início da estação de acasalamento, independentemente da idade, será um fator de extrema importância para o desempenho reprodutivo subseqüente. Fêmeas concebendo e parindo ao início das Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 127 respectivas estações terão mais tempo para a nova concepção ainda dentro da estação de acasalamento (LESMEISTER et al., 1973). CONCLUSÕES A idade ao acasalamento não interferiu na taxa de prenhez das novilhas. Animais mais velhos apresentaram maior taxa de inseminação do que animais mais novos, sugerindo a hipótese de que novilhas mais velhas tendem a apresentar maior percentual de ciclicidade ao início da estação reprodutiva em relação a novilhas mais jovens. Novilhas sincronizadas e inseminadas nos primeiros doze dias da estação de acasalamento apresentaram maiores taxas de prenhez em relação àquelas apenas entouradas. REFERÊNCIAS AZAMBUJA, P. S. 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Vet., Residente em Patologia Clínica do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil – RS FISCHERFISCHERFISCHERFISCHERFISCHER, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin – Med. Vet., MSc. Professora do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil – RS SILSILSILSILSILVEIRA, FVEIRA, FVEIRA, FVEIRA, FVEIRA, Fabianaabianaabianaabianaabiana – Aluna do Curso de Biomedicina da Universidade Luterana do Brasil – RS ALLGAALLGAALLGAALLGAALLGAYERYERYERYERYER, Mariangela da Costa , Mariangela da Costa , Mariangela da Costa , Mariangela da Costa , Mariangela da Costa – Bióloga, Med. Vet., MSc. Professora do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil – RS Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: fevereiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: maio 2007 Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência: Mariangela da Costa Allgayer. Av. Farroupilha, nº 8001, Bairro São Luiz. CEP 92450-900. Prédio 25. ULBRA, Canoas/RS. E-mail: bioclinica@ulbra.br RESUMO O resultado de um exame laboratorial confiável e de qualidade depende do preparo do animal, da colheita do material e do manuseio e armazenamento da amostra colhida. Fatores como hemólise, medo, excitação, lipemia, armazenamento inadequado, demora no processamento da amostra e a falta de informações sobre os sinais clínicos e medicamentos utilizados no paciente podem interferir no diagnóstico e tratamento de diversas patologias. Este trabalho tem o objetivo de fazer uma revisão bibliográfica sobre os cuidados que devem ser tomados ao colher e enviar amostras para realização de exames complementares no laboratório de Patologia Clínica. PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: colheita, hemólise, lipemia, patologia clínica. Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.131-141 132 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco ABSTRACT The result of a reliable and of quality laboratory procedure depends on the preparation of the animal, collection of the material, handle and storagethe sample collected. Factors such as hemolysis, fear, excitement, lipemia, inadequate stock, delay on the sample processing and the lack of information of the clinical signs and the drugs used in the patient may interfere in the diagnostic and treatment of several pathologies. This essay aims to make a bibliography review about the cares that must be taken when collecting and sending samples for complementary exams to the clinic pathology laboratory. KKKKKey words: ey words: ey words: ey words: ey words: collection, hemolysis, lipemia, clinic pathology. INTRODUÇÃO A acurácia dos testes laboratoriais e a interpretação dos resultados dependem, primariamente, da qualidade da amostra recebida. Respeitar as técnicas de colheita prepará-las e realizá-las com cuidado, buscando artifícios para minimizar as alterações que possam ocorrer antes (ex. estresse), durante (ex. garroteamento prolongado a anti-sepsia inadequada), e após colheita (ex. contaminação) colabora para que haja uma correta interpretação dos exames. A confiabilidade no uso do laboratório como apoio diagnóstico depende da qualidade do material utilizado para análise, ou seja, colheita e conservação adequada da amostra. Adicionalmente, para o aproveitamento ótimo das análises em patologia clínica deve existir uma relação estreita entre o médico veterinário clínico e o laboratório de diagnóstico. Os autores Gonzáles e Silva (2003); Kerr (2003) e Rebar et al. (2003) relatam que envio de amostras inadequadas implica em perda de tempo, de recursos e, em ocasiões, complicações na saúde do animal devido a uma interpretação incompleta ou incorreta de resultados. ENVIO DE AMOSTRAS Amostras enviadas a qualquer laboratório de diagnóstico, devem possuir uma identificação adequada, utilizando material que resista ao manejo, isto é, tintas permanentes resistentes à água, fitas com cola ou etiquetas com adesivo apropriado. Devem ser enviadas logo após a colheita e de preferência refrigeradas. Gonzáles e Silva (2003), Kerr (2003) e Rebar et al. (2003) comentam que as amostras devem ser acompanhadas com um protocolo que inclua: Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 133 • Identificação do proprietário, médico veterinário ou pessoa responsável, telefone e endereço; • Dados de identificação do animal ou animais amostrado(s); • Anamnese completa do paciente e/ou do rebanho, sem omitir dados relevantes da história clínica, nutrição, reprodução, produção e manejo; • A suspeita de doenças infecciosas, especialmente se elas forem zoonóticas; • O uso de qualquer tratamento medicamentoso, dieta diferente, excitação/ agitação durante a colheita da amostra, ou a utilização de um anestésico geral que possa ser relevante na interpretação subseqüente dos resultados. Segundo os autores citados acima, conservantes físicos ou químicos devem ser utilizados com muita cautela, pois o uso inadequado pode fazer com que a amostra seja inviabilizada. A embalagem a ser usada deve ser segura para a amostra e principalmente aos que a manusearão. A padronização da colheita por parte do médico veterinário através de um manual contendo todos os procedimentos de colheita, é uma forma de garantir a qualidade do resultado final do exame. Bush (2004) relata que se vários exames forem realizados, é desejável colher todas as amostras no mesmo momento, pois isso permite a correlação dos achados e evita a possibilidade de que, entre as colheitas, o quadro clínico tenha mudado, produzindo inconsistências nos resultados obtidos. AMOSTRAS PARA HEMOGRAMA Para o hemograma não importa o vaso sangüíneo selecionado para realizar a obtenção da amostra, uma vez que não existem diferenças significativas nas concentrações dos componentes sangüíneos que são mensurados (GONZALES e SILVA, 2003). Porém, a veia jugular é grande o suficiente, até mesmo em gatos para que sejam aspirados até 5 mL de sangue em poucos segundos. Isso minimiza a estase venosa e a hemólise e permite que a amostra seja transferida para um tubo com anticoagulante antes de começar a coagular. O período de contenção é muito mais curto e, muitos animais parecem rejeitar menos o posicionamento (KERR, 2003). O ácido etilenodiamino tetra-acético (EDTA) é o anticoagulante de escolha para a realização do hemograma nas espécies domésticas com exceção das ratitas (avestruz) onde é preconizado o uso da heparina, pois nesta espécie aviária, o contato dos eritrócitos com o EDTA causa hemólise intensa da amostra. A heparina não é capaz de impedir a agregação plaquetária e causa alterações morfológicas nos leucócitos, e por isso não deve ser utilizada para a colheita de sangue para fins de realização e interpretação 134 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco do hemograma nas espécies veterinárias. O citrato de sódio é recomendado para os estudos das plaquetas e testes de coagulação (REBAR et al., 2003; SINK e FELDMAN, 2006). A amostra de sangue pode ser obtida diretamente de um tubo de colheita contendo anticoagulante (tubos a vácuo) ou com uma seringa e rapidamente transferido para um tubo de colheita com EDTA. O uso de tubos a vácuo não é preconizado em pequenos animais devido à ocorrência de hemólise na amostra, sendo preconizado a colheita em seringa. Após a colheita com seringa deve ser realizada a transferência do sangue para o tubo com EDTA, este tubo deve estar inclinado de forma que o sangue desça pela parede, minimizando a hemólise. Imediatamente o tubo deve ser fechado e homogeneizado por inversão delicadamente, propiciando que o anticoagulante entre em contato com toda a amostra. É essencial que os tubos com EDTA sejam preenchidos com o volume especificado no rótulo. Se for colhida uma quantidade muito pequena de sangue, a concentração resultante de EDTA danificará as células, se ao contrário, o tubo for por preenchido em demasia, o sangue provavelmente coagulará (KERR, 2003). Tempo de armazenamento Segundo Gonzáles e Silva (2003) as hemácias apresentam aumento da suscetibilidade à lise após 24 horas em contato com EDTA. Este fato permite que uma amostra possa ser processada até 24 horas após a colheita, desde que a mesma permaneça sob refrigeração, esperando pelo menos 15 minutos depois da colheita em temperatura ambiente antes de ser refrigerada, para evitar que ocorra hemólise. Se o sangue colhido permanecer a temperatura ambiente, deve ser processado o mais rápido possível após a colheita, pois as mostras sangüíneas armazenadas no EDTA podem produzir alterações leucocitárias e artefatos morfológicos nas lâminas de esfregaço se o sangue for deixado em temperatura ambiente por mais de 3 horas (WEISS e TVEDTEN, 2004). Efeito da hemólise no hemograma Segundo Gonzáles e Silva (2003); Rebar et al. (2003); Sink e Feldman (2006), as principais causas de hemólise são: • Aspirar sangue rapidamente para dentro da seringa, usando uma agulha com calibre pequeno; • Tubos com fluoreto, que alteram o metabolismo das hemácias e a deterioração celular começa imediatamente. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 135 • Seringas ou agulhas úmidas, ou água entrando nos tubos de colheita; • Perder o vaso no meio da colheita e aplicar pressão negativa no sangue já presente na seringa, ao procurar pelo vaso “perdido”; • Colocar o sangue no tubo de colheita sem tirar a agulha da seringa, a qual sempre deve ser removida; • Homogeneização violenta, pois a inversão repetida é suficiente para homogeneizar adequadamente; • Amostras lipêmicas; • Tempo decorrido até o processamento, especialmente se a amostra não for refrigerada; • Congelamento da amostra. As alterações no hemograma e proteína plasmática total decorrentes de amostras hemolisadas encontram-se listadas na Tabela 1. Cabe salientar que o grau de alterações está relacionado com a hemólise evidenciada na amostra. Tabela 1 – Efeitos da hemólise nos parâmetros eritrocitários do hemograma e na proteína plasmática total (PPT). E X A M EE X A M EE X A M EE X A M EE X A M E EFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISE Eritrograma Contagem de eritrócitos Diminuição Hematócrito Diminuição Hemoglobina Aumento CHCM* Aumento VCM** Diminuição PPT Aumento * Concentração de hemoglobina corpuscular média; **volume corpuscular médio Fonte: Meyer et al. (1995). Efeito da lipemia no hemograma A lipemia ocorre com freqüência em amostras colhidas exatamente após alimentação de um paciente (animais monogástricos), não sendo um problema da amostra ou do manuseio desta, e sim uma característica do paciente, podendo ser evitada pelo jejum no mínimo de 6 a 12 horas (MEYER et al., 1995; KERR, 2003). No eritrograma a concentração de hemoglobina falsamente elevada, também pode ser causada pela lipemia, devido ao efeito do aumento de turbidez na membrana fotométrica. Isto resultará em um valor falsamente elevado de CHCM (KERR, 2003). 136 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Efeito do medo e excitação no hemograma Esses efeitos são principalmente os da adrenalina, e tendem a ser mais pronunciados no gato que no cão, além de serem transitórios. Particularmente no gato, estes efeitos podem estar associados com o medo e a contenção na colheita e também são evidentes em amostras sangüíneas colhidas sob anestesia geral, se tiver ocorrido excitação durante a indução (BUSH, 2004). Para Gonzáles e Silva (2003), Rebar et al. (2003), Bush (2004) e Sink e Feldman (2006) os principais efeitos do medo e excitação no hemograma são descritos como: • Aumento transitório no hematócrito, CHCM e contagem de eritrócitos, resultante da contração do baço, liberando mais eritrócitos para a circulação; •Aumento na contagem de neutrófilos segmentados que migram do compartimento marginal e são temporariamente redistribuídos para o compartimento circulante, causando um discreto aumento no seu número, um efeito que dura cerca de 30 minutos. Isto não é muito comum em cães, mas ocorre freqüentemente em gatos, especialmente naqueles mais jovens e saudáveis (é menos freqüente em animais doentes), sendo que neste caso não haverá desvio à esquerda; • Aumento temporário do número de linfócitos na circulação (geralmente maior que o aumento de neutrófilos) ocorre em gatos, mas não em cães; • Alteração na contagem de eosinófilos, primeiramente ocorre uma discreta eosinofilia (pico após 1 hora), seguida de uma eosinopenia moderada com menores valores após, aproximadamente, 4 horas; • Aumento no número de plaquetas, pois elas são mobilizadas do baço após a excitação, sendo que no gato pode ser de apenas 3 minutos. AMOSTRAS PARA PROCEDIMENTOS BIOQUÍMICOS A maior parte das análises bioquímicas requer sangue total, plasma ou soro. As instruções acompanham os analisadores bioquímicos e devem ser consultadas para o tipo de amostra exigido (HENDRIX, 2006). A principal fonte de deterioração, no que se refere aos exames bioquímicos, são as hemácias, as quais devem ser separadas o mais rápido possível. A melhor maneira de tratar uma amostra para bioquímica é fazer a separação do plasma ou soro imediatamente depois da colheita. Se houver atraso na separação das hemácias da amostra, isso fará toda a diferença Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 137 entre uma amostra útil e uma massa hemolisada que não deverá ser analisada (KERR, 2003). Efeito da hemólise sobre a bioquímica sangüínea As alterações nos exames bioquímicos decorrentes da análise de uma amostra hemolisada estão listadas na Tabela 2. Tabela 2 – Efeito da hemólise sobre os resultados dos exames bioquímicos. E X A M EE X A M EE X A M EE X A M EE X A M E EFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISE Aspartato aminotransferase – AST Aumento Alanina aminotransferase – ALT Aumento Lactato desidrogenase – LDH Aumento Creatina quinase – CK Aumento Amilase Diminuição Lipase Aumento Fosfatase Alcalina Aumento ou diminuição (dependendo do método utilizado) Proteína total Aumento Albumina Aumento Cálcio Aumento Fósforo Aumento Creatinina Diminuição (dependendo do método utilizado) Potássio Aumento (eqüino, bovino, cão da raça Akita) Bilirrubina Leve aumento Fonte: Meyer et al. (1995). Efeito da lipemia na bioquímica sangüínea A lipemia altera a análise da amostra devido ao fato de que a opacidade interfere com análise fotométrica e, nos casos graves, fica impossível obter os valores bioquímicos (MEYER et al., 1995). Bush (2004) relata como principais efeitos da lipemia na bioquímica sangüínea, as seguintes alterações: • Atividade da amilase falsamente elevada, sendo uma consideração importante no diagnóstico de pancreatite aguda porque a presença de lipemia é bastante provável; • Níveis de sódio e potássio falsamente diminuídos. Os níveis de sódio e potássio aparecem menores porque os eletrólitos estão presentes apenas na fração aquosa do plasma/soro. Quando houver um grande aumento na fração lipídica (não aquosa), há o efeito de “diluição” de sódio e potássio presentes no volume da amostra em questão; 138 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco • A hemólise também é uma conseqüência, pois a lipemia aumenta a tendência à hemólise após colheita e manipulação. Kerr (2003) descreve como efeitos da lipemia o aumento dos valores de PPT, obtidos com um refratômetro. Estes valores podem estar falsamente elevados pela turbidez e, dependendo da acurácia ou da determinação de albumina, produzem uma relação albumina/globulina imprecisa. Efeito do medo e da excitação na bioquímica sangüínea Para Hendrix (2006) o medo e a excitação podem causar uma elevação nos valores de glicose, porém nos cães a concentração de glicose raramente excede 150 mg/dL pela excitação e, portanto, é pouco comum haver glicosúria. Já nos gatos, a concentração de glicose no sangue pode atingir 300 a 400 mg/dL ou até mais, com a excitação e medo podendo ocorrer glicosúria. AMOSTRA PARA URINÁLISE A primeira etapa na realização de uma urinálise é a colheita apropriada de uma amostra urinária, que deve ser obtida cuidadosamente para garantir resultados significativos. Há quatro métodos básicos para colheita de uma amostra urinária: cistocentese, cateterização, compressão vesical e micção espontânea (KERR, 2003). Os métodos preferidos são cistocentese e cateterização, pois proporcionam amostras ideais para todos os aspectos da urinálise ao manter a amostra livre da contaminação a partir do trato genital distal e das áreas externas (HENDRIX, 2006). Idealmente devem-se analisar amostras dentro de 30 minutos após a colheita para evitar artefatos pós-colheita e alterações degenerativas. Se uma análise imediata não for possível, a refrigeração preserva a maior parte dos constituintes urinários por 6 a 12 horas adicionais. Em amostras que são deixadas repousar por longos períodos em temperatura ambiente, pode ocorrer redução de concentrações de glicose e bilirrubina, aumento de pH resultante de degradação bacteriana da uréia em amônia, formação de cristais com aumento da turvação da amostra, desintegração de cilindros e eritrócitos (especialmente em urina diluída ou alcalina) e proliferação bacteriana. Podem se formar muitos cristais em amostras refrigeradas. As amostras devem ser aquecidas em temperatura ambiente antes da avaliação e, ocasionalmente, cristais que são formados durante o resfriamento podem não dissolver quando a amostra é aquecida. As células tendem a se deteriorar rapidamente na urina e, assim, caso se tenha de realizar uma avaliação citológica, deve-se centrifugar a urina logo após a colheita e acrescentar 1 a 3 gotas de soro do paciente ou Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 139 albumina bovina ao sedimento para preservar a morfologia celular (KERR, 2003; HENDRIX, 2006 ). Efeito do medo e excitação na urinálise Segundo Navarro (1996) e Bush (2004), as alterações causadas na urinálise pelo medo e a excitação são as seguintes: • Glicosúria, a chamada glicosúria emocional, causada pela liberação súbita de adrenalina, que leva a um aumento da mobilização da glicose. • pH aumentado que pode ser resultado de ansiedade, causando palpitação (hiperventilação) e perda de dióxido de carbono. AMOSTRAS PARA ANÁLISE DE EFUSÕES A colheita dos líquidos cavitários se faz através da punção com seringa e agulha. Deve-se fazer sempre uma tricotomia no local de introdução da agulha e proceder a uma anti-sepsia rigorosa, não esquecendo nunca o risco de contaminação dos tecidos adjacentes que o procedimento oferece. Deve-se utilizar uma agulha fina, pois as agulhas mais grossas apresentam o inconveniente de produzir um orifício muito grande que pode levar ao extravazamento de líquido. Se a quantidade de líquido for pequena, deve- se transferi-lo imediatamente a um frasco contendo EDTA. Se a quantidade for maior, deve-se encher também um tubo de ensaio sem anticoagulante. O fluido acondicionado no tubo com EDTA serve para prevenir a coagulação uma vez que é comum a punção de pequenos vasos no momento da colheita. Este fluido deve ser utilizado para a determinação de contagem celular. O frasco sem anticoagulante, serve para avaliar parâmetros bioquímicos (COWELL e TYLER, 1993; SHELLY, 2003; NAVARRO, 2005). A toracocentese é comumente realizada no sexto, sétimo ou oitavo espaço intercostal, imediatamente abaixo da articulação costocondral. Este procedimento pode ser realizado com uma agulha borboleta de pequeno calibre (nº 19 a 23). O ponto selecionado deve ser tricotomizado e, se necessário, deve ser realizado o bloqueio anestésico local. O local é preparado assepticamente e a agulha é introduzida no meio do espaço intercostal selecionado. A agulha deve ser introduzida no espaço pleural até que a pleura seja puncionada. O líquido deve ser aspirado delicadamente e as amostras devem ser colocadas em frascos com e sem EDTA (FOSSUM, 2004). Na abdominocentese o paciente deve ter a bexiga e os intestinos vazios previamente, devido ao risco de perfurar esses órgãos durante a colheita. 140 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco O melhor local para punção é na linha média do abdome, 1 a 2 cm posteriormente ao umbigo, com o animal também em pé ou em decúbito lateral. Não há necessidade de anestesia ou tranquilização, mas o animal deve ser bem contido. Se o líquido aparecer posteriormente a uma cirurgia, deve-se tomar cuidado para não introduzir a agulha na ferida cirúrgica, pelo risco que isso traz de traumatizar vísceras que eventualmente estejam aderidas à sutura. Para colheita pode ser utilizado um cateter, o paciente deve ser colocado em decúbito lateral e, procedida de uma anti-sepsia local. Uma vez introduzido o cateter, fixa-se uma seringa à extremidade do mesmo e puxa-se delicadamente o êmbolo. Se o líquido não vier, pode- se introduzir uma pequena quantidade de solução salina estéril e morna, massageando delicadamente o abdome para espalhar o líquido. Este deve ser retirado por pressão negativa (NAVARRO, 2005). CONSIDERAÇÕES FINAIS Os exames laboratoriais são úteis no direcionamento do diagnóstico e na evolução de diversas patologias sendo que a obtenção de resultados confiáveis depende principalmente da qualidade da amostra enviada. Portanto, o laboratório de Patologia Clínica poderá ser de grande auxílio na investigação e tratamento de afecções, desde que o clínico forneça uma amostra adequada para processamento e dados suficientes para uma melhor interpretação dos exames. REFERÊNCIAS BUSH, B. M. Interpretação de Resultados Laboratoriais para Clínicos de Pequenos Animais. São Paulo: Roca, 2004. COWELL, R.; TYLER, R. Diagnostic cytology of the dog and cat. California: American Vetetinary Publications, 1993. FOSSUM, T. W. Doenças pleurais e extrapleurais. In: ETTINGER, S. 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O uso das cefalosporinas na clínica de pequenos animais: breve revisão The use of cephalosporins in small animals clinics: short review RODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, Paulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centeno – Médico Veterinário, Especialista, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS KKKKKOSOSOSOSOSACHENCOACHENCOACHENCOACHENCOACHENCO, Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard – Médica Veterinária, Mestre, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – Médica Veterinária, Mestre, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS PPPPPULZ, RULZ, RULZ, RULZ, RULZ, Renato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – Médico Veterinário, Doutor, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS MELLOMELLOMELLOMELLOMELLO, João R, João R, João R, João R, João Roberto Braga de –oberto Braga de –oberto Braga de –oberto Braga de –oberto Braga de – Médico Veterinário, Doutor, Curso de Medicina Veterinária – UFRGS Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007 Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Curso de Medicina Veterinária, ULBRA/RS. Av. Farroupilha, 8001. Canoas/RS. Bairro São José. Prédio 14, sala 125. CEP: 92.425- 900. E-mail: priccenteno@hotmail.com RESUMO As cefalosporinas são um grupo de antibióticos de grande relevância na área da clínica médica e cirúrgica, não só pela sua utilização como também pela sua constante evolução, proporcionada pela Indústria Farmacêutica, que está sempre pesquisando e trazendo ao mercado novos compostos com grande eficácia contra bactérias gram-positivas e gram-negativas e, acima de tudo, com elevada estabilidade frente às beta-lactamases. Este grupo de antibióticos possui grande utilização em medicina humana e veterinária, sendo especialmente utilizado na clínica de pequenos animais. Esta revisão pretende abordar de modo sintético aspectos da história, da estrutura química, do modo de ação, da resistência bacteriana, da classificação, dos usos e efeitos adversos das cefalosporinas em cães e gatos. PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: cefalosporinas, cães e gatos, usos clínicos. Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.143-158 144 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco ABSTRACT The cephalosporins are an antibiotic group with a great relevance in medical and surgical clinics because of their widely use and their constant development by pharmaceutic industry that is ever offer new composts of high efficacy against Gram-positive and negative bacteria, including with great stability against beta-lactamases. This short review intend to explain history aspects, chemical structure, action, antibacterial resistance, classification, uses and adverse effects of cephalosporins. Key words:Key words:Key words:Key words:Key words: cephalosporins, dogs and cats, clinical uses. INTRODUÇÃO O uso de drogas antimicrobianas, antibióticos e quimioterápicos, no tratamento de diversas enfermidades do homem e dos animais, requer um profundo conhecimento sobre as indicações de uso, o mecanismo de ação, doses e dosagens, os possíveis efeitos adversos e resistência bacteriana a esses fármacos. O objetivo deste artigo é revisar os aspectos mais importantes sobre o uso das cefalosporinas na clínica de pequenos animais, salientando, entretanto, que para obter-se sucesso na quimioterapia das doenças infecciosas é imprescindível o conhecimento dos agentes bacterianos envolvidos e sua sensibilidade aos antimicrobianos. Outra preocupação importante é a resistência bacteriana aos antimicrobianos, que muitas vezes é induzida pelo mau uso que se faz dessas drogas, ressaltando-se a escolha da droga, a dose, a via de administração, a freqüência e a duração da terapia, que por serem erroneamente determinadas, acabam trazendo prejuízos ao paciente e à sociedade. DEFINIÇÃO As cefalosporinas são antibióticos beta-lactâmicos com amplo espectro de ação, relativamente pouco tóxicas. O núcleo básico das cefalosporinas é muito semelhante àquele das penicilinas, o isolamento deste núcleo foi fundamental para a obtenção dos derivados semi-sintéticos atualmente disponíveis no mercado (SPINOSA et al., 1999). Os antibióticos beta-lactâmicos constituem uma família de substâncias caracterizadas pela presença de um grupamento químico heterocíclico azetidinona denominado anel beta-lactâmico. Deste grupo fazem parte as Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 145 penicilinas, as cefalosporinas, as cefamicinas e oxacefamicinas (oxacefemas), as amidinopenicilinas, as carbapenemas, o ácido clavulânico, o sulbactam e os antibióticos monobactâmicos (TAVARES, 2001). HISTÓRICO As primeiras descrições sobre o uso de antimicrobianos datam de 3000 anos, quando médicos chineses usavam bolores para tratar tumores inflamatórios e feridas infeccionadas; e os sumérios recomendavam emplastros com uma mistura de vinho, cerveja, zimbro e ameixas. Há mais de 1500 anos os médicos indianos recomendavam a ingestão de certos mofos para a cura de disenterias, os índios norte-americanos e os maias utilizavam fungos para o tratamento de feridas, úlceras e infecções intestinais (TAVARES, 2001). As propriedades terapêuticas dos fungos existentes nos mofos e bolores, para tratamento de infecções, é conhecida dos homens muito tempo antes da descoberta dos micróbios e sua importância na gênese de muitas enfermidades que atacam seres humanos e animais. No século XIX demonstrou-se a origem infecciosa de várias doenças, abrindo uma nova área para pesquisa de substâncias com ação deletéria específica sobre agentes patogênicos. No início do século XX, os trabalhos de Paul Ehrlich permitiram um avanço notável na pesquisa de substâncias quimioterápicas com ação antimicrobiana. A demonstração da atividade antimicrobiana das sulfas e da penicilina, nas décadas de 30 e 40, na terapia das doenças infecciosas do homem e dos animais foi o grande passo para o estabelecimento de uma nova era na moderna quimioterapia. Segundo Tavares (2001) e Gilman (1991) a descoberta das cefalosporinas teve início durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Professor Giuseppe Brotzu, da Universidade de Cagliari, Itália, desenvolvia uma pesquisa à procura de fungos que, à semelhança do Penicillium notatum (fungo do qual originou-se a penicilina), fossem dotados da capacidade de produzir substâncias antibacterianas. Em 1945, após experimentar centenas de microrganismos, Brotzu isolou do mar da Sardenha, próximo a desembocadura de um cano de esgoto, um fungo identificado depois como o Cephalosporium acremonium. Foi constatado que o líquido de cultura em que era cultivado o fungo da Sardenha continha 6 substâncias com propriedades antibacterianas, das quais foram isoladas três: cefalosporina P, cefalosporina N e cefalosporina C. As cefalosporinas P e N demonstraram um espectro de ação muito limitado, enquanto que a cefalosporina C revelou-se um antibiótico de amplo 146 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco espectro mas com fraca ação antibacteriana. Entretanto, chamou a atenção dos pesquisadores o fato de que essa substância não era afetada pela ação da penicilinase estafilocócica (MARÍN et al., 1998; TAVARES, 2001). Em 1961, Loder e colaboradores descobriram o núcleo central da cefalosporina C, o ácido 7-aminocefalosporânico (7-ACA). A partir daí, as modificações nas cadeias laterais do 7-ACA possibilitaram a descoberta de milhares de derivados semi-sintéticos, fixando-se os laboratórios de pesquisa e farmacêuticos naqueles que apresentavam amplo espectro de ação, resistência às beta-lactamases, absorção por via oral e parenteral e menor toxicidade para o homem (TAVARES, 2001). ESTRUTURA QUÍMICA As cefalosporinas são antibióticos semi-sintéticos derivados do 7-ACA, distinguindo-se entre si pelas cadeias laterais da molécula básica. Em geral, modificações na cadeia lateral ligada ao carbono 3 do 7-ACA afetam as características farmacológicas do antibiótico, ao passo que substituições no anel beta-lactâmico, ou próximo dele, levam a uma maior ou menor resistência às beta-lactamases bacterianas; modificações mais distantes do núcleo, na cadeia lateral ligada ao carbono 7, tendem a alterar tanto as características farmacológicas quanto as antibacterianas (GILMAN, 1991; TAVARES, 2001). Segundo Gilman (1991) as cefamicinas e as oxacefemas são antibióticos semi-sintéticos, que embora sejam quimicamente diferentes das cefalosporinas, são estudados conjuntamente com estas, devido a semelhança estrutural e características farmacológicas e antimicrobianas. MECANISMO DE AÇÃO Os antibióticos beta-lactâmicos têm ação bactericida, no entanto somente produzem a lise das bactérias em fase de crescimento. As cefalosporinas, assim como todos os beta-lactâmicos, inibem a síntese dos peptidoglicanos formadores da parede celular e dos septos das bactérias sensíveis, originando protoplastos osmoticamente instáveis e formas alongadas que vêm a sofrer lise osmótica (PRESCOTT; BAGGOT, 1988; TAVARES, 2001). O peptidoglicano é um componente heteropolimérico da parede celular bacteriana, que lhe dá estabilidade mecânica rígida em virtude de sua estrutura em treliça altamente cruzada. A parede celular é essencial para o crescimento e desenvolvimento normal das bactérias. A espessura da parede celular das bactérias gram-positivas é constituída de 50 a 100 moléculas, enquanto que é de 1 a 2 moléculas nas bactérias gram-negativas (GILMAN, 1991; MARÍN et al., 1998). Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 147 A biossíntese do peptidoglicano ocorre em três etapas e envolve cerca de 30 enzimas bacterianas. As cefalosporinas atuam na última etapa da síntese do peptidoglicano, inibindo a atividade das transpeptidases, que são enzimas que promovem a união das cadeias peptídicas que formam os polímeros mucocomplexos (também chamados de mureína) dos peptidoglicanos. Conforme Gilman (1991) e Ramos (2002), os antibióticos beta-lactâmicos possuem outros alvos de atuação além da inibição das transpeptidases. Esses alvos são coletivamente denominados de proteínas de ligação das penicilinas (PBP – Penicillin Binding Proteins), que existem na face externa da membrana citoplasmática e estão envolvidas na síntese do peptidoglicano. A semelhança estrutural entre o substrato nativo das PBP e o anel beta- lactâmico permite a ligação covalente deste às PBP, inativando-as e, consequentemente, induzindo a lise bacteriana. As PBP 1, 2 e 3 são transpeptidases e transglicosidases, enquanto as PBP 4, 5 e 6 têm a atividade de D,D-carboxipeptidases. Apenas a inativação das PBP 1, 2 ou 3 induz morte celular (RAMOS, 2002). RESISTÊNCIA BACTERIANA ÀS CEFALOSPORINAS O conhecimento do fenômeno de resistência bacteriana a agentes físicos e químicos data de 1905, ou seja, do início da era microbiana, quando Paul Ehrlich e seus colaboradores descobriram e relataram o fenômeno. Em 1940, Abraham e Chain demonstraram em extratos de E. coli uma enzima capaz de destruir a ação da penicilina, à qual denominaram penicilinase. Foi comprovado que as características genéticas codificadoras de resistência aos antimicrobianos existiam nas bactérias muito tempo antes do primeiro uso da penicilina, no entanto, a expansão do problema coincide com a introdução e ampla utilização de inúmeros antimicrobianos na década de 1950/60 (TAVARES, 2001). Atualmente, o uso clínico dos antimicrobianos em medicina humana, veterinária e na agricultura, têm multiplicado o fenômeno da resistência, já que esses fármacos acabam exercendo o papel de selecionadores de estirpes resistentes. A resistência aos antimicrobianos é um fenômeno genético, relacionado à existência de genes contidos no microrganismo, os quais codificam diferentes mecanismos bioquímicos que impedem a ação das drogas. A resistência às cefalosporinas pode estar relacionada à incapacidade do antibiótico em atingir os locais de ação, a alterações nas proteínas de ligação do antibiótico, de tal modo que não haja interação, ou a enzimas 148 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco bacterianas (beta-lactamases) que são capazes de hidrolisar o anel beta- lactâmico e inativar as cefalosporinas (GILMAN, 1991). CLASSIFICAÇÃO A primeira cefalosporina de uso clínico foi a cefalotina, introduzida em 1962 pelo Laboratório Lilly. Logo se seguiram a cefaloridina, cefaloglicina, cefalexina, cefapirina, cefazolina, cefacetrila e cefradina, apresentando características antimicrobianas comuns e com algumas diferenças farmacocinéticas entre si. Esse grupo, à princípio, mostrava-se ativo contra bactérias gram-positivas e gram-negativas, incluindo Escherichia coli, Salmonella, Shigella, Klebsiella e Staphylococcus aureus produtor de penicilinase. Com o tempo, esse grupo inicial de cefalosporinas, perdeu sua atividade contra algumas bactérias gram-negativas como Klebsiella e Proteus, que passaram a produzir beta-lactamases, que são enzimas bacterianas que hidrolisam penicilinas e cefalosporinas, causando sua inativação (TAVARES, 2001). Mais tarde, novas modificações introduzidas nas cadeias laterais do 7- ACA, conduziram à produção de cefalosporinas com propriedades antimicrobianas diferentes das primitivas, constituindo novas gerações deste grupo de antibióticos. As diferentes gerações de cefalosporinas se diferenciam pela sua resistência progressiva às beta-lactamases produzidas por bactérias gram-negativas (PRESCOTT; BAGGOT, 1988). Conforme Gilman (1991), embora as cefalosporinas possam ser classificadas de acordo com sua estrutura química, farmacologia clínica, resistência à beta-lactamase ou espectro antimicrobiano, o sistema mais aceito é a classificação por “gerações”, que se baseia nas características antimicrobianas gerais desses fármacos. CEFALOSPORINAS DE PRIMEIRA GERAÇÃO Este grupo de cefalosporinas caracteriza-se por sua atividade bactericida sobre bactérias gram-positivas e gram-negativas, por sua resistência às beta-lactamases estafilocócicas e por sua sensibilidade frente às beta- lactamases produzidas por germes gram-negativos. Em termos práticos, a sensibilidade das cefalosporinas de primeira geração é aferida através da cefalotina ou da cefalexina. Possuem excelente eficácia contra Staphylococcus intermedius, Pasteurella multocida, Bordetella bronchiseptica e Streptococcus β-hemolíticos, uma boa eficácia contra Escherichia coli, Proteus mirabilis, Klebsiella pneumoniae, Listeria, Bacillus, Actinomyces, Treponema, Leptospira, Erysipelothrix e Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 149 anaeróbios obrigatórios com exceção do Bacteroides fragilis. Não são efetivos contra Enterococcus faecalis, Pseudomonas aeruginosa e Chlamydia psittaci. A resistência dos microrganismos às cefalosporinas de primeira geração é cruzada entre os antibióticos do grupo (AUCOIN, 1993; TAVARES, 2001). As cefalosporinas de primeira geração são divididas em dois grandes subgrupos, de acordo com sua propriedade de serem ou não absorvidas por via oral. A cefalotina e a cefazolina não são absorvidas por via oral e quando utilizadas por via IM, provocam dor intensa no local da injeção, devendo ser utilizadas por via IV ou associadas a anestésicos locais para uso IM. A cefalotina, como as demais cefalosporinas, não penetra adequadamente no meio intracelular, não sendo, portanto ativa contra bactérias que se localizam no interior de células. Tampouco atravessa a barreira hematoencefálica, não apresentando concentração no liquor e mantendo níveis baixos no cérebro. Possui meia-vida curta (30 a 40 minutos), cerca de 20 a 40% da cefalotina administrada é metabolizada no fígado. A cefalotina e seu metabólito são eliminados em maior parte pelos rins, principalmente por secreção tubular. Cerca de 75% da dose administrada por via IV é eliminada pela urina em seis a oito horas. Pequena parte é eliminada por via biliar. A cefalotina, a cefazolina e as cefalosporinas de primeira geração absorvidas por via oral sofrem acúmulo nos pacientes com insuficiência renal, proporcional ao grau de insuficiência, devendo, nesses casos, sofrer ajuste no intervalo entre as doses. A cefalotina atravessa a barreira placentária atingindo concentrações elevadas, eficazes e duradouras no sangue fetal e no líquido amniótico. A cefalotina é uma droga utilizada com segurança durante a gravidez, tanto no homem como nos animais. A cefaloridina não é dolorosa por via IM, entretanto sua nefrotoxicidade é maior que as demais cefalosporinas, por esse motivo seu uso não é recomendado durante a gestação e nem em pacientes com insuficiência renal. A cefapirina apresenta características antimicrobianas e farmacológicas semelhantes às da cefalotina. A cefalexina, o cefadroxil, e a cefradina são cefalosporinas absorvíveis por via oral, possuem espectro, potência de ação e farmacodinâmica semelhantes. Caracterizam-se por sua excelente absorção por via oral, ligando-se pouco às proteínas plasmáticas, em torno de 10 a 15%; são eliminadas por via renal, tanto por filtração glomerular como por secreção tubular. O cefadroxil apresenta níveis sangüíneos mais prolongados que a cefalexina, devido a uma absorção intestinal mais demorada e uma excreção urinária mais lenta. Do mesmo modo que as cefalosporinas de primeira geração de uso parenteral, as de uso oral não dão concentrações 150 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco terapêuticas no liquor, mesmo em pacientes com meningites. A cefalexina não é metabolizada, e mais de 90% da droga é eliminada na urina (ADAMS, 2003; TAVARES, 2001). Na Figura 1, estão relacionadas as principais cefalosporinas de primeira geração utilizadas em cães e gatos. D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos Cefalexina VO 20-30 mg/kg 8-12h. Idem Cefadroxil VO 20-30 mg/kg 8-12h. 20-22 mg/kg 8-12h. Cefradina VO 10-25 mg/kg 6-8h. Idem Cefazolina IV/IM/SC 15-30 mg/kg 8h. Idem Cefalotina IV/IM/SC 10-30 mg/kg 4-8h. Idem Cefaloridina IM 25 mg/kg 12h. Idem Cefapirina IV/IM/SC 10-30 mg/kg 6-8h. Idem Figura 1 – Cefalosporinas de primeira geração. Fonte: Adams, 2003; Andrade, 1997; Spinosa et al., 1999; Viana, 2003. CEFALOSPORINAS DE SEGUNDA GERAÇÃO A busca por cefalosporinas com um espectro de ação mais amplo e maior resistência à hidrólise enzimática pelas cefalosporinases, levou à descoberta das cefalosporinas de segunda geração. As cefalosporinas deste grupo têm ação contra bactérias gram-positivas, cocos gram-negativos, hemófilos e enterobactérias, mas não são ativos contra a Pseudomonas aeruginosa. Alguns representantes mostram-se ativos contra o Bacteroides fragilis. As cefalosporinas da segunda geração, de uso parenteral, são compostas pelo cefamandol, cefuroxima, ceforanida, cefonicida e cefotiano, verdadeiras cefalosporinas, e pela cefoxitina e cefmetazol, antibióticos da família das cefamicinas. As de uso oral são representadas pelo cefaclor, cefprozila, axetil cefuroxima e o hexetil cefotiano, sendo que os dois últimos são ésteres das respectivas cefalosporinas. As primeiras cefalosporinas de segunda geração, o cefamandol e a cefoxitina, foram descobertas em 1972 e lançadas no mercado americano em 1978. Embora de espectro mais amplo sobre os bacilos gram-negativos, as cefalosporinas de segunda geração não são totalmente resistentes à inativação por beta-lactamases. Os testes de sensibilidade in vitro são realizados empregando-se a cefuroxima e a cefoxitina. A primeira é a mais ativa representante do grupo contra bacilos gram-negativos e a segunda é o padrão das cefamicinas, especialmente contra anaeróbios. A cefuroxima e o seu éster, a axetil cefuroxima, é mais estável que o Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 151 cefamandol frente às beta-lactamases, e se mostra ativa contra diversas cepas de Enterobacter, o qual produz cefalosporinases que inativam o cefamandol e as cefalosporinas de primeira geração. A cefoxitina pertence ao grupo das cefamicinas, antibióticos extraídos de culturas de amostras de diversas espécies de Streptomyces, é um derivado da cefamicina C e apresenta estrutura química semelhante à cefalotina, diferenciando-se pela presença de um radical metoxílico no carbono 7, o que caracteriza as cefamicinas. A cefoxitina, assim como as cefalosporinas de segunda geração, possui amplo espectro de ação, devido à resistência à inativação por beta- lactamases produzidas por germes gram-positivos e gram-negativos. Sua atividade antimicrobiana diferencia-se do cefamandol e da cefuroxima por englobar as bactérias do gênero Serratia e o Bacteroides fragilis. Possui uma ação excelente contra Staphylococcus intermedius, Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Pasteurella multocida, anaeróbios obrigatórios e Streptococcus b-hemolíticos, sua atividade contra Proteus mirabilis é entre boa a excelente, e a eficácia contra Bordetella bronchiseptica é razoável. Não possui atividade contra Enterococcus faecalis, Pseudomonas aeruginosa e Chlamydia psittaci (AUCOIN, 1993; TAVARES, 2001). A cefoxitina apresenta uma meia-vida de aproximadamente 60 minutos, liga-se a proteínas plasmáticas em cerca de 65%, não sofre metabolização e é eliminada por via renal de modo inalterado dentro de 6 a 12 horas. Nos pacientes com insuficiência renal moderada o intervalo recomendado é de 12 horas, enquanto que nos pacientes com insuficiência renal grave o intervalo entre as doses deve ser de 24 horas. A cefuroxima apresenta baixa ligação às proteínas plasmáticas, cerca de 33%, a meia-vida é de aproximadamente 1 hora e 30 minutos, não sofre metabolização e elimina-se de forma ativa na urina. Em torno de 90% de uma dose administrada por via IV é recuperada na urina dentro de 8 horas. Uma pequena quantidade é eliminada por via biliar. O cefaclor é uma cefalosporina clorada semi-sintética derivada da cefalexina, é bem absorvido por via oral, atingindo o pico sangüíneo máximo após 1 hora da administração de uma dose oral. Sua absorção sofre interferência importante dos alimentos, tornando-se mais lenta e ocorrendo diminuição da concentração sangüínea da droga em 25 a 50% quando tomada junto com alimentos. Sua biodisponibilidade por via oral situa-se entre 50 a 70%. Liga-se às proteínas séricas em cerca de 25%. Tem meia-vida de aproximadamente 40 minutos, sendo totalmente eliminada por via urinária dentro de 6 a 8 horas. O cefaclor não atravessa a barreira hematoencefálica em concentração adequada à terapia das meningites. Em pacientes com insuficiência renal não há necessidade de realizar ajustes na dose. A principal vantagem do cefaclor em relação às cefalosporinas orais de 152 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco primeira geração consiste na atividade que possui contra Haemophilus, e Moraxella, incluindo as cepas produtoras de beta-lactamases (ADAMS, 2003; TAVARES, 2001). Na Figura 2, estão relacionadas as principais cefalosporinas de segunda geração utilizadas em cães e gatos. D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos Cefaclor VO 10-20 mg/kg 8h. Idem Cefamandol IV 15 mg/kg 4-6h. Idem Cefuroxima IV 10-20 mg/kg 8-12h. ———- Cefoxitina IV/IM/SC 10-30 mg/kg 8h. Idem Cefmetazol IV/IM/SC 15 mg/kg 8h. Idem Figura 2 – Cefalosporinas de segunda geração. Fonte: Adams, 2003; Andrade, 1997; Spinosa et al., 1999; Viana, 2003. CEFALOSPORINAS DE TERCEIRA GERAÇÃO Os antibióticos pertencentes a este grupo caracterizam-se por apresentar elevada atividade contra bactérias gram-negativas, inclusive as resistentes às cefalosporinas da primeira e da segunda gerações. Apresentam grande estabilidade frente às beta-lactamases, não sendo inativadas por grande número destas enzimas produzidas por bactérias gram-negativas. As cefalosporinas da terceira geração são menos ativas contra bactérias gram-positivas e anaeróbios, ou seja, as cefalosporinas de primeira e segunda gerações mostram-se mais efetivas contra cocos gram-positivos. Alguns representantes deste grupo mostram-se ativos contra Pseudomonas aeruginosa, porém são menos efetivos contra estafilococos (BARROS et al., 1996; PRESCOTT; BAGGOT, 1988; TAVARES, 2001). As cefalosporinas de terceira geração não devem ser empregadas de maneira empírica no tratamento ambulatorial de infecções do trato respiratório ou do trato urinário, nem como profilaxia pré-operatória, pois além do seu custo elevado, existem evidências de que antibióticos deste grupo possam induzir a produção de beta-lactamases cromossômicas em bactérias gram-negativas, estimulando a resistência destes agentes principalmente em ambiente hospitalar (TAVARES, 2001). As cefalosporinas de terceira geração absorvidas por via parenteral com pequena ação antipseudomonas são: cefotaxima, ceftriaxona, cefodizima, cefmenoxima, ceftizoxima, ceftiofur, cefbuperazona, cefotetano e moxalactama. A cefbuperazona e o cefotetano pertencem ao grupo das cefamicinas, enquanto que a moxalactama pertence ao grupo das oxacefamicinas. O ceftiofur foi desenvolvido exclusivamente para uso veterinário (HORNISH; KOTARSKI, 2002). Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 153 As cefalosporinas de terceira geração absorvidas por via parenteral com potente atividade antipseudomonas são: ceftazidima, cefoperazona e cefsulodina. As cefalosporinas de terceira geração absorvidas por via oral como a cefixima, o cefetamet pivoxil e a cefpodoxima proxetil não são efetivas contra Pseudomonas aeruginosa. A cefotaxima possui uma meia-vida plasmática de aproximadamente 90 minutos, liga-se a proteínas plasmáticas em torno de 50%, sendo metabolizada no fígado e eliminada por via renal. Em pacientes com insuficiência renal moderada a grave o intervalo entre as doses deve ser aumentado para 12 e 24 horas respectivamente. Conforme Hornish e Kotarski (2002), o ceftiofur é uma cefalosporina de terceira geração absorvida por via parenteral, desenvolvida exclusivamente para uso em animais. Demonstra elevada atividade contra bactérias associadas com doenças respiratórias, incluindo Pasteurella spp., Mannheimia spp., Actinobacillus spp., Streptococcus spp., Haemophilus spp. e Salmonella cholerasuis. Também é ativo contra cepas de E. coli e Salmonella. Não é efetivo contra Enterococcus e Pseudomonas. O ceftiofur é extensamente metabolizado e seus metabólitos são excretados inativos na urina e nas fezes, causando mínimo impacto sobre o ecossistema microbiano, ou seja, o risco de exposição da microflora intestinal e da microflora externa ao animal, à droga, é mínimo. Características importantes para um antimicrobiano que foi originalmente lançado para animais de produção, como vacas, suínos, ovelhas e eqüinos. A ceftazidima apresenta uma meia-vida de 1,8 horas e sua ligação a proteínas plasmáticas é baixa, em torno de 17%. Não sofre metabolização hepática, eliminando-se por filtração glomerular (80 a 90% da droga administrada). Em pacientes com insuficiência renal a dose e a dosagem devem sofrer ajustes. A cefixima surgiu em 1984, sendo a primeira cefalosporina de terceira geração absorvida por via oral. Suas características antimicrobianas são semelhantes às da cefotaxima, mostrando-se ativa contra microrganismos gram-negativos e estreptococos, mas sem ação contra estafilococos, enterococos, pseudomonas e bacteróides. É bastante resistente à ação de beta-lactamases produzidas por bacilos gram-negativos. A absorção da cefixima se dá por via oral, atingindo o nível sérico mais elevado após 4 horas da administração. A meia-vida sérica é de 3 a 4 horas e sua ligação protéica é de 70%. A droga não sofre metabolização, eliminando-se principalmente por via urinária. Cerca de 10% é eliminada por via biliar. Sua passagem através da barreira hemoliquórica é pequena, impedindo seu uso nas meningoencefalites (ADAMS, 2003; TAVARES, 2001). 154 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Na Figura 3, estão relacionadas as principais cefalosporinas de terceira geração utilizadas em cães e gatos. D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos Cefixima VO 10 mg/kg 12-24h. Idem Cefpodoxima proxetil VO 5 mg/kg 12h. 10 mg kg 24h. Idem Cefotaxima IV/IM/SC 25-50 mg/kg 8h. Idem Ceftriaxona IV/IM/SC 25-50 mg/kg 12h. Idem Ceftazidima IV/IM 30 mg/kg 8-12h. Idem Cefoperazona IV/IM 22 mg/kg 8-12h. ———- Cefotetano IV/IM/SC 30 mg/kg 8-12h. Idem Ceftiofur IV/SC 2,2-4,4 mg/kg 12-24h. Idem Moxalactama (Latamoxef) IV/IM 50 mg/kg 6-8h. idem Figura 3 – Cefalosporinas de terceira geração. Fonte: Adams, 2003; Andrade, 1997; Spinosa et al., 1999; Viana, 2003. CEFALOSPORINAS DE QUARTA GERAÇÃO As cefalosporinas de quarta geração são fruto de intensas pesquisas com o objetivo de desenvolver cefalosporinas que fossem resistentes à inativação por beta-lactamases, que conservassem a ação contra as bactérias gram-negativas, incluindo a ação antipseudomonas, e que tivessem elevada potência contra gram-positivos, especialmente contra os estafilococos. O primeiro representante do grupo foi o cefpirome, seguindo-se o cefepime e o cefquinome. O cefquinome foi desenvolvido para uso exclusivo em animais, sendo indicado para infecções respiratórias e do úbere em vacas. O cefquinome liga-se a proteínas plasmáticas em torno de 5-15%, apresenta uma meia-vida em torno de 1 a 2 horas em cães e de 1,5 a 3 horas em vacas. Sofre pequena metabolização hepática e sua eliminação é predominantemente renal. O cefpirome possui uma ação contra bacilos gram-negativos semelhante à cefotaxima, compara-se a ceftazidima na sua ação antipseudomonas e atua contra estafilococos em concentrações inibitórias semelhantes às da cefalotina. Ao contrário da cefoxitina e das cefalosporinas de terceira geração, é mínima sua capacidade indutora de resistência. Na figura 4, estão representadas as cefalosporinas de quarta geração com suas respectivas dosagens para cães, retiradas de trabalhos experimentais, necessitando, ainda, de maiores estudos para a sua confirmação. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 155 D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos Cefepime IV/IM 20-40 mg/kg 6-8h.* ———- Cefpirome IV 20 mg/kg 8-12h.* ———- Cefquinome IM 5 – 20 mg/kg 8-12h.* ———- Figura 4 – Cefalosporinas de quarta geração. Fonte: Gardner; Papich, 2001; Limbert et al., 1991. * Estas doses estão sendo utilizadas em trabalhos experimentais, não havendo, ainda, plena segurança sobre sua utilização em cães. USOS CLÍNICOS As cefalosporinas de primeira geração continuam sendo os antimicrobianos de eleição para a terapêutica empírica de muitas enfermidades infecciosas adquiridas em nosso meio. Devido a sua atividade predominantemente contra cocos gram-positivos, constituem os antimicrobianos de primeira linha na maior parte das infecções cutâneas e de tecidos moles. São eficientes no tratamento de infecções urinárias causadas por E. coli, Proteus mirabilis e Klebsiella pneumoniae. Também são úteis no tratamento das pneumonias, exceto nas causadas por Haemophilus e Klebsiella. As cefalosporinas de primeira geração são os antimicrobianos preferidos na profilaxia cirúrgica das cirurgias torácicas, ortopédicas e abdominais, constituindo exceção as cirurgias de intestino grosso e reto, que requerem um antimicrobiano com atividade anaeróbica superior (HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et al., 2001). As cefalosporinas de segunda geração são ativas contra as bactérias sensíveis às cefalosporinas de primeira geração, com a vantagem de ampliar seu espectro contra as bactérias gram-negativas e alguns anaeróbios. Proteus vulgaris, Klebsiella e Enterobacter são sensíveis aos compostos desta geração. De maneira geral este grupo de fármacos são pouco ativos contra Pseudomonas, Serratia e Enterococcus. São utilizadas em infecções orais, respiratórias, genitais, urinárias, ósseas, intra- abdominais e crônicas de tecidos moles. São utilizadas, também, na profilaxia cirúrgica das cirurgias do cólon e do reto (HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et al., 2001). As cefalosporinas de terceira geração são utilizadas em infecções por gram-negativos em pacientes hospitalizados, pneumonias adquiridas em ambiente hospitalar e abscesso pulmonar, infecções pós-operatórias de feridas, infecções urinárias causadas por catéteres, em associação com o metronidazol nas infecções intra-abdominais, nas meningoencefalites bacterianas, nas infecções genitais, nas infecções agudas ósseas e articulares, em pacientes neutropênicos com febre, bacteremia/septicemia, nas infecções por Pseudomonas, Enterobacter, Serratia e Citrobacter (HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et al., 2001). 156 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco As cefalosporinas de quarta geração, especialmente o cefquinome está sendo utilizado em mastites, infecções respiratórias e do casco em vacas leiteiras, e infecções respiratórias de suínos e, mais recentemente em eqüinos. Em pequenos animais, seu uso será preferencialmente hospitalar, naquelas infecções causadas por bactérias altamente resistentes a outros antimicrobianos, especialmente bactérias gram-positivas e gram-negativas produtoras de beta-lactamases. Convém lembrar que o custo das cefalosporinas de terceira e quarta gerações é um fator limitante na sua utilização terapêutica. (HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et al., 2001). EFEITOS COLATERAIS De acordo com Adams (2003) e Spinosa et al. (1999), as reações de hipersensibilidade às cefalosporinas relatadas em humanos parecem ser raras nas espécies domésticas. As cefalosporinas podem causar paraefeitos tóxicos, alérgicos, irritativos e superinfeção. No entanto, em humanos, a ocorrência desses efeitos é pouco freqüente. Existe a possibilidade de reação alérgica cruzada em cerca de 7 a 10% dos pacientes humanos alérgicos às penicilinas. Por via IM causam dor, por via IV podem causar flebites pela ação irritativa local. Manifestações gastrointestinais (náuseas, vômitos, dor abdominal e diarréia) ocorrem em 1 a 2% dos pacientes. Fenômenos de hipersensibilidade são possíveis, como rash cutâneo, eosinofilia, neutropenia, febre e prurido. Manifestações alérgicas mais graves, como anemia hemolítica e anafilaxia, são mais raras. As superinfecções constituem ocorrência possível, já que promovem alterações importantes das floras intestinal e respiratória (TAVARES, 2001). Segundo Adams (2003), a cefoperazona, o cefamandol e a moxalactama inibem a via dependente da vitamina K para a síntese dos fatores de coagulação, podendo levar à hipoproteinemia e a coagulopatia. As cefalosporinas na urina podem causar reação positiva falsa para glicosúria e proteinúria. CONCLUSÃO Na clínica de pequenos animais o uso das cefalosporinas de primeira geração, como a cefalexina, é bastante difundido, principalmente na clínica dermatológica, enquanto que a cefalotina está substituindo, com vantagem, a ampicilina na profilaxia cirúrgica, haja vista a grande resistência bacteriana às penicilinas de segunda geração. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 157 As cefalosporinas de segunda geração absorvidas pela via oral, como o cefaclor, ainda não são utilizadas na rotina da clínica dermatológica, devido principalmente ao seu custo mais elevado, sendo prescritas quando há indicação do antibiograma. A cefoxitina está iniciando seu uso mais restrita aos pacientes hospitalizados, com histórico de infecção de maior gravidade. As cefalosporinas de terceira geração passaram a ser utilizadas com o lançamento do ceftiofur, droga de uso exclusivo em veterinária, muitos clínicos desconhecem a sua menor eficácia contra bactérias gram-positivas, associando a classificação por gerações a eficácia crescente sobre todas as bactérias. Soma-se a isso, a propaganda dos laboratórios farmacêuticos, que escondem características que possam ser interpretadas como pontos fracos que interferirão no desempenho das vendas de seus produtos. O grupo das cefalosporinas de quarta geração praticamente não é utilizado em pequenos animais, o cefquinome, cefalosporina de uso exclusivo em veterinária foi aprovado, na Europa, para uso em vacas no ano de 1994, como intramamário em vacas leiteiras em 1998, para uso em suínos no ano de 1999 e para uso em eqüinos no ano de 2005. Esta cefalosporina está tentando sua aprovação para uso em animais nos Estados Unidos, mas está encontrando forte resistência por parte das Associações Médicas, preocupadas com a disseminação da resistência bacteriana a outras cefalosporinas de quarta geração, que muitas vezes são a última esperança no tratamento de pacientes humanos com grave infecção por múltiplas bactérias altamente resistentes aos antibióticos convencionais para essas situações. Certamente, o conhecimento profundo das drogas antimicrobianas e suas indicações é a principal arma na luta contra as infecções que acometem homens e animais, e esse conhecimento é fundamental para retardar o surgimento da resistência bacteriana e garantir que os antimicrobianos manterão sua eficácia ao longo do tempo. REFERÊNCIAS ADAMS, H. R. Farmacologia e Terapêutica em Veterinária. 8.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. ANDRADE, S. F. Manual de Terapêutica Veterinária. São Paulo: Roca, 1997. AUCOIN, D. 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Antibacterial activities in vitro and in vivo and pharmacokinetics of cefquinome (HR111V), a new broad-spectrum cephalosporin. Antimicrobial Agents and Chemotherapy. V. 35 (1), p. 14 – 19. 1991. MARÍN, R. Z; REGATEIRO, A. A; GUNDIÁN, J; MANRESA, R; SÁNCHEZ, J; SIRGADO, R. M. Cefalosporinas. Acta Medica, Habana, v.8 (1), p.40-47. 1998. PERERA, J. R. A; GIL, R. E; SANTANA, A. F. Cefalosporinas. Revista Cubana de Farmacia, Habana, v.35 (3), p.219-224. 2001. PRESCOTT. J. F; BAGGOT. J. D. Terapéutica Antimicrobiana Veterinaria. Zaragoza: Acribia, 1988. RAMOS, C. G. S. Estudo dos Padrões de Resistência aos b-Lactâmicos e Inibidores de b-Lactamases em Estirpes de Escherichia coli Uropatogênicas Isoladas em Animais. Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, Lisboa, Relatório de Estágio Profissional, 2002. SPINOSA, H; GÓRNIAK, S. L; BERNARDI, M. M. Farmacologia Aplicada à Medicina Veterinária. 2.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1999. TAVARES, W. Manual de Antibióticos e Quimioterápicos Antiinfecciosos. 3 ed. São Paulo: Atheneu, 2001. VIANA, F. A. B. Guia Terapêutico Veterinário. Lagoa Santa: Editora Cem, 2003. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 159 Associação de ultra-sonografia, urografia excretora e vaginocistografia no diagnóstico de ectopia ureteral em fêmea canina Association of ultrasonography, excretory urography and vaginography for diagnosis of ectopic ureter in a bitch GRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo Luisuisuisuisuis – Médico Veterinário Residente do Setor de Diagnóstico por Imagem da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) TEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da Costa – Doutor, Professor Adjunto da Disciplina de Diagnóstico por Imagem no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) ALALALALALVES, LVES, LVES, LVES, LVES, Luis Cardosouis Cardosouis Cardosouis Cardosouis Cardoso – Doutor, Professor Adjunto das Disciplinas de Diagnóstico por Imagem, Semiologia e Clínica I, no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) WITZ, Maria InêsWITZ, Maria InêsWITZ, Maria InêsWITZ, Maria InêsWITZ, Maria Inês – MSc., Professora Adjunta das Disciplinas de Cirurgia e Odontologia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – MSc., Professora Adjunta da Disciplina de Cirurgia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) SILSILSILSILSILVVVVVA, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein – Médica Veterinária Residente no Setor de Clínica e Cirurgia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – Médica Veterinária Residente no Setor de Cirurgia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) NORNORNORNORNORTE, Diego M. – TE, Diego M. – TE, Diego M. – TE, Diego M. – TE, Diego M. – Médico Veterinário Residente no Setor de Cirurgia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: maio 2007 Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Prof. Luis Cardoso Alves – Av. Farroupilha n° 8001 – Hospital Veterinário, Prédio 25, ULBRA Canoas/RS. CEP: 92420-280. E-mail: vetcardoso@pop.com.br Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.159-167 160 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco RESUMO Ureter ectópico é uma anormalidade congênita na qual um ou ambos ureteres não terminam no trígono vesical, sendo a anormalidade congênita mais comum do ureter. A ocorrência da ectopia ureteral é mais comum em cães do que em gatos, sendo mais freqüente nas fêmeas de ambas as espécies. O grau de hereditariedade deste distúrbio ainda não foi estabelecido. Os sinais clínicos normalmente começam a ser observados desde o nascimento até o desmame. Os ureteres não podem ser visualizados em radiografias simples, sendo essencial a utilização de meios contrastados para alcançar o diagnóstico preciso. O objetivo deste trabalho visa demonstrar o diagnóstico da ectopia ureteral, utilizando diferentes técnicas de exames por imagem, ultra-sonografia, radiografias contrastadas, servindo como diagnóstico auxiliar, definitivo e comparativo, demonstrando radiograficamente após dois meses a viabilidade do ureter reimplantado cirurgicamente. PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: ureter ectópico, ultra-sonografia, vaginocistografia, urografia excretora, cães. ABSTRACT Ectopic ureter is a congenital abnormality in which one or both ureters are not ending on the bladder trigone, being the most common ureter congenital disturbance. The ocurrence of ectopic ureter is more frequent in dogs than it is in cats, in females of both species. It is still unknown the level of heredity. Clinical signs usually are observed on newborn or weaned animals. The ureters are not seen on routine radiography, being necessary the use of contrast medium. The objective of this work is demonstrate the ectopic ureter diagnosis by means of different radiographic techniques, as auxiliary diagnostic tools, showing radiographically the viability of re- implanted ureters two months after surgery. KKKKKey words:ey words:ey words:ey words:ey words: ectopic ureter, ultrassound, vaginocistografia, excretory urography, dogs. INTRODUÇÃO A ectopia ureteral é uma anormalidade congênita na qual um ou ambos ureteres não terminam no trígono vesical, e se deve à diferenciação anormal dos ductos mesonéfricos e metanéfricos (CRAWFORD, 1993; BJORLING e CHRISTIE, 1998; FORRESTER e LEES, 1998). Pode ser unilateral ou bilateral e estar associado a outras anomalias congênitas do trato urinário e também acompanhar desordens adquiridas como: hidronefrose, hidroureter, Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 161 hipoplasia da vesícula urinária e infecção do trato urinário (OWENS e BIERY, 1993; BJORLING e CHRISTIE, 1998; FORRESTER e LEES, 1998; HOSKINS, 2004; KEALLY e McALLISTER, 2005). O acometimento bilateral é mais freqüente em cães, enquanto que em gatos, os ureteres ectópicos unilaterais e bilaterais ocorrem com mesma freqüência (BJORLING e CHRISTIE, 1998; KEALLY e McALLISTER, 2005). Na fêmea, um ureter ectópico pode se abrir no interior da vagina, na uretra, no colo da bexiga, no corpo ou colo uterino, e nos machos, os ureteres ectópicos terminam na uretra pélvica (CRAWFORD, 1993; BJORLING e CHRISTIE, 1998; FORRESTER e LEES, 1998; KEALLY e McALLISTER, 2005). O ureter ectópico pode ter uma única abertura num local anormal, ou pode ter abertura alongada para a bexiga (calha ureteral), uma abertura dupla, ou pode terminar num fundo cego (BJORLING e CHRISTIE, 1998). Os ureteres ectópicos podem ser extraluminais desviando-se completamente da bexiga ou intraluminais, correndo pela submucosa da bexiga, abrindo- se na uretra ou vagina (FOSSUM, 2002). Em alguns casos, o ureter permanece completamente extramural, contornando totalmente a bexiga antes de terminar na uretra, vagina ou útero. Ureteres ectópicos intramurais são mais difíceis de observar radiograficamente (WALDRON, 1998). Comumente encontra-se na presença da ectopia ureteral a incontinência urinária intermitente ou contínua, vaginite em decorrência de queimaduras com urina e eliminação normal da urina em alguns animais (CRAWFORD, 1993; STONE, 2003). O diagnóstico de ureter ectópico pode ser confirmado pela radiografia contrastada (urografia excretora, vaginocistografia), vaginoscopia ou laparotomia exploratória (WALDRON, 1998). Os ureteres não podem ser visualizados em radiografias simples, sendo essencial à utilização de meios contrastados para alcançar o diagnóstico preciso (FEENEY e JOHNSTON, 1994; STONE, 2003; KEALLY e McALLISTER, 2005). A ectopia ureteral somente pode ser detectada através da ultra-sonografia se houver dilatação do ureter, ureterite ou obstrução. Alguns achados sonográficos ajudam a confirmar a presença do ureter ectópico, como a ausência do jato ureteral (pelo modo Doppler) e a visibilização do ureter ectópico passando caudalmente pelo trígono vesical e inserindo-se na uretra próxima ao colo da bexiga urinária ou na uretra prostática (NYLAND et al., 1995; CARVALHO, 2004). O diagnóstico diferencial de ectopia ureteral deve ser feito de micção inapropriada, incompetência do mecanismo esfinctérico uretral, desobstrução uracal, incontinência paradoxal, infecção no trato urinário e poliúria grave associada com insuficiência renal, causada por nefropatia congênita ou pielonefrite grave (STONE, 2003). O tratamento cirúrgico freqüentemente corrige a incontinência associada 162 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco ao ureter ectópico em gatos, mas até 50 a 60% dos cães tratados cirurgicamente podem apresentar algum grau de incontinência (posicional, de esforço, noturna, ou de outro tipo) (BJORLING e CHRISTIE, 1998; FOSSUM, 2002). Deve-se realizar uma neoureterostomia em casos de ureteres ectópicos intramurais. Caso seja extramural, dever-se-á resseccioná-lo e reimplantá-lo no lúmen vesical. O tratamento com agonistas dos receptores alfa-adrenérgicos podem aumentar o tônus do esfíncter uretral e diminuir a incontinência pós-cirúrgica (FOSSUM, 2002). A nefrectomia deve ser realizada apenas em casos de comprometimento renal e quando o rim contralateral tiver plena capacidade funcional (KOSACHENCO et al., 1994). O objetivo deste trabalho visa demonstrar o diagnóstico da ectopia ureteral, através de técnicas de exames radiográficos contrastados diferentes, servindo como diagnóstico auxiliar e definitivo na detecção do ureter ectópico, bem como, visualizar a funcionalidade do órgão após correção da anomalia congênita cirurgicamente. RELATO DE CASO Uma fêmea com três meses de idade, da raça Poodle, foi atendida no HV- ULBRA apresentando incontinência urinária. O animal estava recebendo antibioticoterapia há duas semanas, sem melhora clínica, as fezes estavam normais, havia recebido duas doses de vacina polivalente e vermífugo. Ao exame clínico constatou-se temperatura retal (TR) 38,5°C, mucosas rosadas, freqüência cardíaca (FC) de 132 bpm, ausculta respiratória normal, hidratação e tempo de preenchimento capilar (TPC) normais. Foi constatada presença de urina nos pêlos da região perineal, não sendo possível a palpação da vesícula urinária. A suspeita clínica inicial era de cistite ou anormalidade congênita. Foi coletado sangue e urina para exames, os quais apresentaram-se sem alterações dignas de nota. Foi solicitada ultra-sonografia abdominal com ênfase no trato urinário. Durante a realização do exame de ultra-som foi constatada uma linha não ecogênica contígua à bexiga sugerindo um ureter ectópico dilatado, conforme ilustra a Figura 1. Para melhor definição do diagnóstico foi solicitado que o paciente fosse submetido a um jejum total de 24 horas e enema para realização de urografia excretora. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 163 O animal foi anestesiado com infusão contínua de propofol, inicialmente foi realizada uma radiografia abdominal lateral simples (Figura 2) na qual não foram constatadas alterações. Após foi injetado 10 ml de contraste iodado por via endovenosa repetindo-se a radiografia látero-lateral (Figura 3). Neste exame foi possível constatar os rins, pelve renal com dilatação no lado direito e os ureteres com o direito mais calibroso, foi ainda observado presença de contraste na bexiga, não sendo possível visibilizar a inserção dos ureteres na bexiga. Realizou-se então uma vaginocistografia, injetando-se 10 ml de contraste iodado através de uma sonda de foley n°4 inserida no vestíbulo, com o bulbo inflado. O volume de contraste injetado foi suficiente para distender a vagina, penetrar no ureter ectópico (direito) atingindo até a pelve renal. O contraste também penetrou no útero permitindo também a identificação dos cornos uterinos. Somente após este exame foi possível confirmar com maior precisão o diagnóstico de dilatação do ureter direito e ectopia do mesmo com inserção na parede dorsal da vagina, conforme ilustram as figuras 4 e 5. Figura 1 – Ultra-sonografia evidenciando uma linha não ecogênica contígua à bexiga (seta), sugerindo ureter ectópico dilatado. Figura 2 – Radiografia abdominal látero-lateral simples sem alterações visíveis. 164 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Figura 3 – Radiografia látero-lateral após urografia excretora com o contraste já na bexiga (seta), inconclusiva para o diagnóstico da ectopia ureteral. D Figura 4 – Radiografia ventrodorsal logo após vaginocistografia evidenciando o preenchimento de contraste da bexiga, do corno uterino esquerdo (seta larga) e dos ureteres na saída da pelve (seta estreita). Figura 5 – Radiografia látero-lateral após vaginocistografia, evidenciando dilatação do ureter (seta larga) e ectopia ureteral na parede dorsal da vagina (seta estreita). Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 165 Foi realizado procedimento cirúrgico de neoureterostomia do ureter ectópico no local anatômico normal, e foi solicitado que o animal retornasse para realização de vaginocistografia controle após 30 dias. Na data prevista o proprietário retornou com o animal, que se apresentava ativo, alimentando-se bem e sem sinais de incontinência urinária. Repetiu- se a urografia excretora injetando-se 10 ml de contraste iodado por via endovenosa seguida de vaginocistografia com aplicação de 15 ml de contraste iodado através de uma sonda uretral n° 6, refazendo as mesmas posições radiográficas anteriores. Neste exame pode-se observar que o contraste preencheu a bexiga, identificam-se os ureteres junto ao trígono vesical, porém não se observa mais a imagem do mesmo inserido na vagina o que confirma sua funcionalidade (Figura 5). DISCUSSÃO Confirmou-se no relato descrito a vagina como órgão preferencial para a localização do ureter ectópico, conforme relatos de Bjorling e Christie (1998), Stone (2003), Keally e Mcallister (2005). Também se pode observar que o local mais comumente descrito dos ureteres ectópicos em relação à bexiga é a posição intramural, no interior da parede da bexiga, comumente entre a muscular e a submucosa descrito por Bjorling e Christie (1998). Existem muitas limitações para o diagnóstico de ureter ectópico pelo ultra- som, confirmando a solicitação de um exame complementar mais específico (CARVALHO, 2004). Os transdutores de alta resolução e uma experiência considerável em ultra-sonografia são necessários para alcançar o diagnóstico (KEALLY e McALLISTER, 2005). O método de escolha pela maioria dos autores para diagnosticar o ureter ectópico é a urografia excretora, que fornece informações acerca das dimensões das pelves renais e dos ureteres, podendo identificar o local de desembocadura dos ureteres (WALDRON, 1998). No presente estudo esta Figura 6 – Radiografia látero-lateral controle 30 dias de pós-operatório após urografia excretora e vaginocistografia com contraste apenas na bexiga. 166 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco técnica não foi satisfatória possivelmente pela sobreposição na região hipogástrica, houve necessidade de acrescentar outro exame contrastado para visualização da ectopia ureteral, concordando com os autores que descrevem o uso combinado da urografia excretora associada com a vaginocistografia (BJORLING e CHRISTIE, 1998; RUBIN, 2002; HUDSON et al., 2003). No caso relatado o animal retornou após dois meses, não apresentando sinais de incontinência urinária. Na repetição da urografia excretora e vaginocistografia, constatou-se a ausência do ureter ectópico, que associada à avaliação clínica permitiu concluir pela normalização do quadro clínico. A avaliação repetida após alguns meses é importante, já que 50 a 60% das cadelas permanecem incontinentes após serem tratadas cirurgicamente, provavelmente devido a fatores iatrogênicos (STONE, 2003). CONCLUSÃO A associação da ultra-sonografia com duas técnicas radiográficas contrastadas foi útil para melhorar o grau de precisão na identificação e localização da ectopia ureteral, visibilizando-se o trato urinário superior através da urografia excretora e sendo possível delimitar a inserção na parede dorsal da vagina a partir da vaginocistografia. REFERÊNCIAS BJORLING, J. D.; CHRISTIE, G. Ureteres. In: SLATTER, D. Manual de Cirurgia de Pequenos Animais. 2.ed. São Paulo: Manole, 1998. p.1714-1720. CARVALHO, C. F. Sistema Urinário: Rins, Ureteres, Bexiga Urinária e Uretra. 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CHIMINAZZOCHIMINAZZOCHIMINAZZOCHIMINAZZOCHIMINAZZO, Cláudio Cláudio Cláudio Cláudio Cláudio – Médico Veterinário, MSc, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil QUEIROLOQUEIROLOQUEIROLOQUEIROLOQUEIROLO, Maria TMaria TMaria TMaria TMaria Teresa – eresa – eresa – eresa – eresa – Médica Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil FESERFESERFESERFESERFESER, Mariane – Mariane – Mariane – Mariane – Mariane – Médica Veterinária, Centro de Estudos da Universidade Luterana do Brasil (CEULBRA) CERESERCERESERCERESERCERESERCERESER,,,,, VVVVVictor Hermes – ictor Hermes – ictor Hermes – ictor Hermes – ictor Hermes – Médico Veterinário, MSc, Doutor, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil ESMERALDINOESMERALDINOESMERALDINOESMERALDINOESMERALDINO, Anamaria T, Anamaria T, Anamaria T, Anamaria T, Anamaria Telles –elles –elles –elles –elles – Médica Veterinária, MSc, Doutora, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil DIFINI, RDIFINI, RDIFINI, RDIFINI, RDIFINI, Renata – enata – enata – enata – enata – Acadêmica do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil FFFFFALLALLALLALLALLAAAAAVENA, LVENA, LVENA, LVENA, LVENA, Luiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – Médico Veterinário, MSc, Doutor, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: fevereiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007 Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: pi_vet@yahoo.com Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.169-176 170 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco RESUMO Relata-se trabalho realizado pelos laboratórios de histopatologia e parasitologia do Hospital Veterinário da ULBRA no período de 2006, no qual se identificou um caso de ventriculite causada por Libyostrongylus sp.em um avestruz e a infecção por esse nematódeo em varias aves criadas em quatro propriedades no estado do Rio Grande do Sul (BRASIL). O ventrículo de um avestruz encontrado morto foi remetido ao laboratório de Histopatologia desse hospital, tendo sido processado pela técnica rotineira e posteriormente examinado, tendo sido constatada a presença de vários parasitos incluídos na camada coilínea, a qual apresentava espessamento, erosões e áreas de hemorragia. A partir de então, procedeu- se ao exame parasitológico de amostras de fezes de avestruzes de criações em que se constatavam perdas significativas, assim como também foram coletados materiais de aves com suspeita da infecção. As fezes da ave encontrada morta, assim como as de outras com suspeita da infecção foram enviadas para o laboratório de parasitologia e processadas para identificação e quantificação dos ovos. A contagem dos ovos mostrou uma grande amplitude que variou entre 50 à 7600 opg. Também foi realizado o cultivo das fezes desses mesmos animais, com intuito de identificar o parasita na fase de larva infectante, confirmando a presença do parasita no Estado. O trabalho demonstra a necessidade de novos estudos que possibilitem estabelecer uma relação positiva entre os achados de necropsia e os valores de opg e coprocultura. PPPPPalavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chave: avestruzes, Libyostrongylus sp., histopatologia, parasitologia. ABSTRACT It is reported a work carried out by the Histopathology and the Parasitology laboratories of the Veterinary Hospital of the Lutheran University of Brazil (ULBRA), that allowing to identify a case of ventriculitis caused by Libyostrongylus sp in an ostrich and the parasitism by this nematode in several ostriches reared in four farms of the State of Rio Grande do Sul, Brazil. The ventriculus of a bird found dead was sent to the Histopathology Laboratory and processed by routine techniques for histopathological examination. Microscopically, several parasites embedded in the mucosal surface were observed, and the lining of the gizzard presented thickening, erosions and hemorrhagic areas. After this finding, parasitological examinations were carried out in fecal samples from ostriches of rearing farms in which important losses had occurred. All fecal samples, including feces previously collected from the ostrich diagnosed with parasitary ventriculitis were processed by the Parasitology laboratory in order to identify and to count eggs of parasites. The results indicated that the epg values display large amplitude, varying from 50 to 7600. Coprocultures Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 171 allowed identifying infecting larvae of Lybiostrongylus sp., confirming the presence of this parasite in ostriches, in Rio Grande do Sul State. KKKKKey words: ey words: ey words: ey words: ey words: Ostriches, Libyostrongylus sp., histopatology, parasitology. INTRODUÇÃO A estrutiocultura (criação de avestruzes) tem origem na África do Sul e iniciou em torno de 1863 (NELL, 1995, apud SILVA, 2001), onde atualmente está localizado o maior plantel do mundo. A estrutiocultura tem demonstrado grande destaque como importante alternativa para a agropecuária, tendo em vista seu grande potencial para exploração racional como fonte de produtos como carne, couro, plumas e outros (HUCHZERMEYER, 2000). Essas aves são classificadas como ratitas, termo originado do latim ratis, que significa canoa, pela aparência do osso esterno que é achatado e pode ser utilizado para se defender de outros machos. As ratitas diferenciam-se das outras aves pela ausência da quilha no osso esterno (a quilha é responsável por abrigar os músculos do vôo nas aves voadoras), assim como também pela falta da glândula uropigiana e do papo (utilizam a moela para estocagem dos alimentos), e pela separação das fezes e da urina na cloaca (SILVA, 2001). O avestruz é a maior ave viva na natureza, é corredora e incapaz de voar, possui asas muito fortes utilizadas para lutar contra seus oponentes, para rituais de acasalamento e para a termoregulação (HUCHZERMEYER, 2000). A estrutiocultura vem demonstrando uma grande expansão nos últimos anos no nosso país, com um plantel em formação, de cerca de 200 mil aves distribuídas em várias regiões do país. Estima-se que sua plena industrialização deva ocorrer nos próximos três anos (SATHYANAYARANA et al., 1981, apud MARINHO et al., 2005; ACAB, 2005). Segundo dados do ano de 2005 da ACAB (Associação dos criadores de Avestruzes do Brasil), o Brasil já demonstra, pela experiência dos seus estrutiocultores, que a atividade é uma ótima opção econômica, pois o país oferece boas características naturais tais como: clima, alimentos, mão-de-obra e infra- estrutura pecuária de fácil adaptação. Uma das grandes dificuldades dessa atividade é reconhecer animais enfermos, devido à falta de histórico clínico dos animais, uma vez que avestruzes doentes não demonstram alteração de comportamento para não chamar a atenção dos predadores, tendendo a se comportarem naturalmente até que sua energia chegue ao limite, morrendo subitamente (HUCHZERMEYER, 2000). As infecções gástricas parasitárias também 172 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco podem apresentar-se assintomáticas (animais adultos) ou ainda não produzirem sinais clínicos específicos, podendo o clínico não saber interpretá-las, e classificá-las erroneamente como impactações gástricas (HUCHZERMEYER, 2000; GORDO et al., 2002). Essa falta de sinais clínicos específicos nas gastrites parasitárias, além do desconhecimento do manejo adequado nessa enfermidade, exigem um estudo mais aprimorado sobre os agentes etiológicos, patogenia, sinais clínicos, padronização dos métodos de identificação e tratamento. Segundo Hurchzermeyer (2000); Gordo et al. (2002) e McKenna (2005), o gênero Libyostrongylus sp. é causador de gastrite parasitária, também conhecida como síndrome de “vrootmag” ou ainda “rotten stomach”, e a espécie mais patogênica, de acordo com os mesmos, é o L. douglasii. Conforme Lapage (1974), Angus (1978), Soulsby (1984) apud Hurchzermeyer (2000), Gordo et al. (2002), Mackerethg et al. (2004) e McKenna (2005), o Libyostrongylus sp. é um endoparasita cosmopolita, espoliador de sangue, cujo ciclo é similar ao de outros Trichostrongylus sp. Este parasita atinge a maturidade em 33 dias, sendo que a partir do 36o dia ovos já podem ser encontrados nas fezes dos animais infectados. Os ovos transformam-se em larvas infectantes em 60 a 120 horas, caso as condições ambientais sejam favoráveis; ovos embrionados podem resistir por até 3 anos no ambiente, enquanto que larvas infectantes duram nove ou mais meses. De acordo com Angus (1978) e Huchzermeyer (2000), as formas jovens desses endoparasitas fazem escavações na camada de revestimento interno (coilina) do proventrículo e da moela, sugando sangue e causando anemia severa, além de uma reação inflamatória grave, o que resulta na morte de indivíduos jovens (GORDO et al., 2002). Segundo Huchzermeyer (2000), Bastianello et al. (2005) e McKenna (2005), o diagnóstico pode ser obtido pela necropsia e pelo exame histológico. À necropsia, os parasitas são expostos pela retirada da coilina do proventrículo e da moela, sendo que, ao exame histológico são visualizados fragmentos dos parasitas aderidos à membrana desses órgãos. Por outro lado, existem técnicas de identificação de nematódeos, que consistem no exame parasitológico de fezes, (nos quais se observam ovos do tipo Strongyloidea) e também a coprocultura, técnica para obtenção e identificação de larvas infectantes, esta última permitindo a diferenciação entre Libyostrongylus sp. e Codiostomum struthionis (THEILER e ROBERTSON, 1915; BARTON e SEWARD, 1993, apud HUCHZERMEYER, 2000; BARTON e SEWARD,1993, apud GORDO et al., 2002). O presente trabalho visa relatar o encontro desses parasitas no proventrículo de uma ave, bem como divulgar os resultados de exames de fezes de avestruzes de diversos criatórios do Rio Grande do Sul. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 173 RELATO DE CASO Foi remetida ao laboratório de histopatologia do Hospital Veterinário da ULBRA/ Canoas, fixada em formalina a 10%, a moela de um avestruz encontrado morto em um criatório do Estado, seguindo-se o processamento histológico rotineiro, incluindo a desidratação, clarificação, impregnação em parafina, microtomia e a coloração dos cortes pelo método da hematoxilina e eosina (LUNA, 1968). Deste animal foram também recebidas fezes para exame parasitológico. Para a obtenção de ovos que possibilitariam a identificação do parasita foram colhidas e remetidas ao Laboratório de Parasitologia do mesmo Hospital Universitário, quarenta e sete amostras de fezes de avestruzes de sexo e idade variadas, procedentes de criatórios localizados no interior do RGS. A colheita das fezes foi realizada e armazenada em luvas ou em recipientes plásticos (datados e identificados conforme o número do piquete), e em seguida encaminhadas ao laboratório. Após, iniciou-se a contagem de ovos por grama de fezes e a identificação das larvas infectantes obtidas pela coprocultura. Para a quantificação dos ovos das fezes dos avestruzes, utilizou-se a técnica de Gordon e Whitlock ou OPG (ovos por grama de fezes), como no trabalho de Bonadiman et al. (2006). Para tanto, foram pesadas 4g de fezes e, ao material triturado, acrescentou-se 56 ml de solução fisiológica. Do material fecal homogeneizado, tamisado e novamente homogeneizado, retirou-se com auxílio de uma pipeta plástica de Pasteur, um volume aproximado de 0,20 ml para preenchimento de cada uma das células da câmara de McMaster. Para realização da leitura em microscópio, com aumento de 10X, aguardou-se 2 minutos esperando-se os ovos flutuarem. Procedeu-se a contagem do número de ovos do tipo Strongyloidea, entre as linhas de cada célula da câmara de McMaster. Os valores encontrados por célula foram somados e multiplicados por 50, revelando o número estimado de ovos por grama de fezes na amostra. A técnica de Roberts e O’Sullivan ou Coprocultura (HOFFMANN e FORTES, 1987), foi utilizada para obtenção e identificação de larvas infectantes. Como a literatura a respeito da quantidade de material (fezes, serragem) para executar essa técnica em avestruzes não é padronizada, optou-se em utilizar o mesmo procedimento adotado para ovinos. Misturaram-se as fezes já trituradas com serragem num frasco de vidro identificado, na proporção de 1:1. Umidificou-se a mistura e cobriu-se com uma Placa de Petry. O material foi colocado na estufa a 27°C por uma semana, buscando o desenvolvimento e a eclosão dos ovos até a liberação das larvas infectantes. Após este tempo, retirou-se o frasco de vidro com a cultura da estufa, acrescentou-se água morna até preencher o frasco, formando um menisco na parte superior. Cobriu-se com uma placa de Petry e inverteu-se. No espaço livre da placa colocou-se mais um pouco de água morna (40ºC), deixando-se em repouso durante uma hora. Nesse período, as larvas infectantes da cultura de fezes migraram para a placa. Retirou-se o líquido da placa, colocou-se em um 174 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco tubo de ensaio e refrigerou-se em repouso até sedimentar. Desprezou-se o sobrenadante e uma gota do sedimento com larvas foi colocada em uma lâmina; após, acrescentou-se uma gota de solução de Lugol a 1%, o que provocou a morte e a coloração das larvas. (HOFFMANN e FORTES, 1987). RESULTADOS E DISCUSSÃO O diagnóstico de infecções por Libyostrongylus sp. em ratitas, segundo Huchezermeyer, (2000); Mackerethg (2004) e Bastianello et al. (2005) pode ser baseado na presença de sinais clínicos, nos exames histopatológicos e também na detecção de ovos nos exames parasitológicos. Ao exame histopatológico, o órgão evidenciou intenso espessamento da camada de revestimento (coilina), hiperplasia glandular e a presença de numerosos fragmentos de parasitos nematódeos incluídos na mucosa do órgão (Figura 1). A morfologia dos parasitos foi considerada compatível com a do Libyostrongylus sp. Figura 1 – Moela. Presença de nematódeo infiltrado na mucosa. H X E, 100 X. Neste estudo, foram processadas amostras de fezes de aves, de quatro diferentes propriedades, sendo encontrados animais positivos para ovos do tipo Strongyloidea (Figura 2) em todos criadouros. Figura 2 – Ovo tipo Strongyloidea de Libyostrongylus sp Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 175 Na propriedade 1, foram processadas 3 amostras (3/3 positivas); na propriedade 2, foram processadas 3 amostras (3/3 positivas); na propriedade 3 foram processadas 9 amostras (8/9 positivas) e na propriedade 4, foram processadas 32 amostras (17/32 positivas). Para a realização da técnica de OPG, 4 gramas de fezes foram processadas e a amplitude para o OPG obtida nas amostras testadas variou de 50-7.600 ovos por grama de fezes. Bastianello et al. (2005) em seu trabalho, citam uma amplitude para o OPG variando entre 100-20.500 ovos por grama de fezes, em duas propriedades analisadas. Os resultados obtidos com a técnica de Gordon e Whitlock permitem ao médico veterinário realizar o controle parasitológico de um lote ou piquete, quantificando os ovos encontrados nas fezes. Através das coproculturas realizadas, foram obtidas e identificadas larvas infectantes de Libyostrongylus sp.,(Figuras 3 e 4), confirmando a presença do parasita no Brasil. Figura 3 – Porção caudal de larva infectante de Libyostrongylus sp. Figura 4 – Detalhe da cauda da larva infectante, terminando em botão. CONCLUSÃO Conclui-se, pela realização deste trabalho, que a infecção por Libyostrongylus sp. é uma causa de gastrite parasitária em avestruzes, e que a presença deste nematódeo é uma realidade em diferentes criatórios no Rio Grande do Sul. A larga amplitude na contagem de OPG observada indica a presença de diferentes cargas parasitárias, enfatizando a 176 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco necessidade de novos estudos que visem correlacionar os resultados encontrados no OPG com a patogenicidade do agente, bem como padronizar as técnicas de diagnóstico. REFERÊNCIAS ACAB (ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE AVESTRUZES DO BRASIL). Estrutiocultura. Disponível em: <http://www.acab.org.br/ ?md=estatico&pag=estrutiocultura/index> Acesso em: 07 jul. 2006. BASTIANELLO, S.; MCKENNA, P. B.; HUNTER, J.; JULIAN, A. Clinical and pathological aspects of Libyostrongylus infectious in ostriches. Surveillance, Wellington, v.32, n.3, p.2-6, abr. 2005. BONADIMAN, S. F.; EDERLI, N. B.; SOARES, A. K. 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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 177 Diarréia em leitões da maternidade e creche em uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) no Rio Grande do Sul, Brasil Diarrhoea in suckling and weaned pigs into a Piglets Production Unit (PPU) in Rio Grande do Sul, Brazil LLLLLAPENTAPENTAPENTAPENTAPENTA DA DA DA DA DA CUNHA, ManuelaA CUNHA, ManuelaA CUNHA, ManuelaA CUNHA, ManuelaA CUNHA, Manuela – Médica Veterinária COELHOCOELHOCOELHOCOELHOCOELHO, Carolini F, Carolini F, Carolini F, Carolini F, Carolini F. –. –. –. –. – Médica Veterinária ABILEIRA, FABILEIRA, FABILEIRA, FABILEIRA, FABILEIRA, Fernanda S.ernanda S.ernanda S.ernanda S.ernanda S. – Médica Veterinária, Residente de Microbiologia, Laboratório de Bacteriologia e Micologia, Hospital Veterinário, ULBRA, Canoas, RS GOULGOULGOULGOULGOULARARARARART DO NAT DO NAT DO NAT DO NAT DO NASCIMENTOSCIMENTOSCIMENTOSCIMENTOSCIMENTO, L, L, L, L, Luís G. –uís G. –uís G. –uís G. –uís G. – Médico Veterinário, Setor de Suínos, COSUEL, Encantado, RS HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. – Médico Veterinário, Setor de Suínos, Cooperativa Languirú, Teutônia, RS OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de – Prof. Dr.Curso de Medicina Veterinária, Laboratório de Bacteriologia e Micologia, Hospital Veterinário, ULBRA Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007 Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência: Av Farroupilha, 8001, Canoas, RS, Bairro São José, Prédio 14, Sala 127. CEP 92425-900. Sérgio J. de Oliveira. E-mail: serjol@terra.com.br RESUMO Foi constatado surto de diarréia em leitões na maternidade e creche de uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Observou-se que uma das principais perdas na granja UPL devia-se à diarréia em leitões. Havia a presença de fezes líquidas e pastosas amareladas no piso da maternidade e da creche sendo que os leitões apresentavam o períneo sujo pela defecação. Era rotina na granja o uso de toltrazuril contra a coccidiose na primeira semana de vida dos leitões. Era também utilizada Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.177-184 178 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco injeção de gentamicina em todos os leitões da mesma baia, independentemente de apresentarem ou não diarréia. Outro procedimento rotineiro da granja era a administração de ácido (fórmico, propiônico) na água de beber. Frente a este problema e não havendo melhora mesmo com as medicações, foi colhido material fecal com o uso de suabes, de casos de diarréia na maternidade e creche. Foram colhidas semanalmente 30 amostras, durante cinco semanas, no total de 155 amostras, sendo 97 de leitões na maternidade e 58 da creche. Os materiais foram examinados no Laboratório de Bacteriologia do Hospital Veterinário da ULBRA, Campus Canoas, RS. Foram isoladas 13 amostras de Escherichia coli hemolíticas e 140 de E. coli não hemolíticas. E. coli hemolíticas foram isoladas respectivamente de 12 amostras de fezes de leitões na creche e uma de leitão na maternidade. Os resultados dos antibiogramas revelaram resistência aos antimicrobianos previamente utilizados na granja. Com o uso dos antibióticos indicados pelos antibiogramas houve o controle dos casos de diarréia. PPPPPalavras-chave: alavras-chave: alavras-chave: alavras-chave: alavras-chave: diarréia em leitões, maternidade, creche, colibacilose. ABSTRACT Diarrhoea in suckling and weaned pigs was the most important cause of economic losses in a Piglet Production Unit (PPU) in the State of Rio Grande do Sul, Brazil. Yellowish liquid feces were seen in the maternity and nursery floors and on the piglets bodies. The PPU had as routine the use of toltrazuril for the control of coccidiosis at the first week of life of the piglets, also it was used injection of gentamycin into all the piglets from the litter when there was the occurrence of diarrhoea. Facing this problem, because the procedures did not improuve the health and did not reached the control of diarrhoea, increasing economic losses, were collected rectal swabs from piglets presenting liquid feces, from maternity and nursery, 30 samples/ week, for five weeks, in a total of 155 samples, being 97 from suckling pigs and 58 from weaned pigs. Material was submitted to bacteriology in the Laboratory of Bacteriology from the University Veterinary Hospital. It was isolated 13 strains of haemolytic E. coli and 140 non haemolytic E. coli. The results of the antimicrobial susceptibility tests (AST) showed resistence of E. coli to the previous treatment of routine. The use of antimicrobials shosen by AST was effective for the control of colibacilosis. KKKKKey words:ey words:ey words:ey words:ey words: Diarrohea in pigs, maternity, nursery, colibacilosis. INTRODUÇÃO Considera-se uma granja certificada quando esta se enquadra na Instrução Normativa no 19 de 15 de fevereiro de 2002, sendo uma das Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 179 exigências a realização de exames semestrais em reprodutores para diagnóstico de brucelose, tuberculose, sarna, doença de Aujeszky e peste suína clássica. Além dessas doenças, a leptospirose deve ser controlada por vacinação ou a granja deve ser livre da doença. Os veículos devem ser desinfetados antes de entrarem na granja, funcionários e visitantes devem banhar-se e vestir roupas da granja, além da passagem por pedilúvio antes de cada sala. Em cada sala desocupada realiza-se o sistema “todos dentro todos fora”, procedendo-se à limpeza e desinfecção, primeiramente utilizando vassoura de fogo, a seguir a lavagem com água e desinfetante, deixando-se um vazio sanitário de 48 a 72 horas antes do repovoamento. Não é permitida a entrada de cães e gatos, há o controle de roedores e moscas, bem como a proteção com tela antipássaros em todas as salas. Os animais mortos destinam-se à compostagem, a limpeza de cada sala é realizada duas vezes ao dia. A granja em estudo possui todos os itens e realiza as práticas acima mencionadas, sendo objetivo deste artigo relatar sucintamente o manejo utilizado em uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) no Rio Grande do Sul, bem como os procedimentos em casos de diarréia em leitões de maternidade e creche. Uso de vacinas na UPL As leitoas sendo desmamadas e destinadas á recria recebem duas doses, sendo uma entre 7 a 10 dias de idade e outra um dia antes do desmame, das seguintes vacinas: • Vacina contra a circovirose • Vacina contra a rinite atrófica • Vacina contra a pasteurelose • Vacina contra a erisipela suína Leitões machos e fêmeas destinados à terminação para abate são vacinados nas mesmas idades, isto é, aos 10 dias e 20 dias contra a circovirose e um dia antes do desmame são vacinados contra a pneumonia enzoótica. Na Tabela 1 consta o esquema de vacinação dos reprodutores. 180 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Tabela 1 – Esquema de vacinação de leitoas, porcas e machos. VVVVVacinasac inasac inasac inasac inas PorcasPorcasPorcasPorcasPorcas LeitoasLeitoasLeitoasLeitoasLeitoas MachosMachosMachosMachosMachos Colibacilose Aos 100 dias de gestação 1a dose: 85 dias de gestação Não vacinam 2a dose: 100 dias de gestação Rinite atrófica Aos 100 dias de gestação 1a dose: 85 dias de gestação A cada 6 meses 2a dose: 100 dias de gestação Parvovirose 14 dias antes da cobertura 1a dose aos 165 dias de idade A cada 6 meses 2a dose 21 dias após Pneumonia enzoótica Não vacinam Uma dose no recebimento Uma dose no recebimento Circovirose A cada 6 meses Uma dose no recebimento A cada 6 meses Leptospirose 14 dias antes da maternidade 1a dose aos 165 dias de idade Uma dose a cada 6 meses 2a dose 21 dias após Manejo das reprodutoras As fêmeas em gestação são distribuídas em compartimentos específicos, respectivamente um pavilhão para leitoas primíparas e outro para porcas com mais de dois partos. Leitoas recebem manejo diferenciado, pois se espera que apresentem três cios para que seja realizada a inseminação artificial, com cerca de 210 dias de idade, sendo estimuladas diariamente pelo macho para diagnóstico de cio. A fêmea detectada em cio recebe uma marca para após 12 horas ser inseminada, repetindo-se duas vezes de 12 em 12 horas, portanto em três doses. Todos os animais cobertos são colocados em celas individuais e permanecem até 40 a 42 dias de gestação, quando é confirmada a gestação através de equipamento de ultra-som. Após a confirmação, são distribuídas em baias coletivas. A permanência por aquele período em celas individuais tem o objetivo de evitar ou diminuir a reabsorção de embriões e o conseqüente retorno ao cio. Manejo de leitões de maternidade e creche Os leitões na maternidade, logo após o nascimento, são envoltos em pó secante para retirar a umidade de secreções oriundas do parto e auxiliar a cicatrização do umbigo. Após recebem ferro injetável e são cortadas as caudas. Em torno de 7 a 10 dias de idade os machos são castrados e todos os leitões são vacinados. Leitões nascidos de parto com mais de doze animais são transferidos para outra mãe que pariu em menor quantidade. Quando os leitões completam 21 dias são transferidos para a creche. Nesta, os leitões são agrupados em cerca de 16 por baia, e cada pavilhão contém 21 baias, totalizando 4.000 leitões. Após 64 dias de vida, pesando em torno de 24 kg são transferidos para recria e terminação. Manejo dos cachaços Os machos selecionados são utilizados na inseminação artificial, sendo colhido o sêmen a cada 7 dias, de acordo com a necessidade de fêmeas Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 181 que apresentem cio. Com três anos de idade os machos são castrados e descartados, podendo sê-lo antes desta idade caso haja problemas de infertilidade. Ocorrência de diarréia em leitões Na produção comercial de suínos, uma das principais causas de perdas econômicas consiste na ocorrência de diarréia em leitões lactentes, causando redução no desempenho de crescimento e mortalidade. As enterites são doenças de natureza multifatorial, incluindo-se estresse, ambiente contaminado, suínos portadores, nutrição deficiente, entre outros. Segundo Alfieri (2003) devem ser considerados os custos adicionais com a aquisição de medicamentos, mão de obra, menor desempenho dos animais, desuniformidade dos lotes e predisposição dos leitões a outras infecções, principalmente aquelas que acometem o trato respiratório. Na Tabela 2, estão relacionadas as doenças entéricas mais freqüentes em suínos, relacionadas à idade em que ocorrem. Tabela 2 – Doenças entéricas mais freqüentes em suínos, relacionadas à idade de ocorrência. D o e n ç a sD o e n ç a sD o e n ç a sD o e n ç a sD o e n ç a s IdadeIdadeIdadeIdadeIdade Colibacilose 24h a 6 semanas Clostridiose 1 dia a 2,5 semanas Gastroenteríte transmissível 2 a 5 semanas Rotavirose 1 dia a 5 semanas Coccidiose 5 dias a 4 semanas Salmonelose 3 semanas a 30 semanas Disenteria suína 7 semanas a 30 semanas Enterite necrótica, E. proliferativa 10 semanas 5 meses Enterite proliferativa hemorrágica 4 meses até adulto Úlcera gástrica 4 meses até adulto Mod. de Roppa (2003) MATERIAIS E MÉTODOS Frente à ocorrência de perdas por diarréia e não havendo melhora mesmo com as medicações, foi colhido material fecal com o uso de suabes, de casos de diarréia na maternidade e creche. Foram colhidos semanalmente 30 amostras, durante cinco semanas, no total de 155 amostras, sendo 97 de leitões na maternidade e 58 da creche. Os materiais foram examinados no Laboratório de Bacteriologia do Hospital Veterinário da ULBRA, Campus Canoas, RS. Cada suabe foi inoculado em meios sólidos de Agar-sangue e MacConkey e incubados em aerobiose por 24 horas. Assim também foi inoculada uma placa de 182 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Agar Sangue para cada material, incubando-se em jarra de anaerobiose, por 48 horas. As culturas bacterianas foram identificadas pela forma das colônias e realização de testes bioquímicos, sendo após verificada a resistência a antimicrobianos (OLIVEIRA, 2000). RESULTADOS Observou-se que uma das principias perdas na granja UPL eram devidas a diarréia em leitões. Havia a presença de fezes líquidas e pastosas amareladas, no piso da maternidade e da creche e os leitões apresentavam o períneo sujo pela defecação. Era rotina na granja o uso de toltrazuril contra a coccidiose na primeira semana de vida dos leitões. Era também utilizado injeção de gentamicina em todos os leitões da mesma baia, independente de apresentarem ou não diarréia. Outro procedimento rotineiro da granja era a administração de ácido (fórmico, propiônico), na água na proporção de 1 litro para 1.000 litros d’água, em casos de diarréia em leitões na creche. Quando não era obtido resultado com a acidificação era adicionado norfloxacina na caixa d’água. Foram isoladas 13 amostras de Escherichia coli hemolíticas e 140 de E. coli não hemolíticas. E. coli hemolíticas foram isoladas respectivamente de 12 amostras de fezes de leitões na creche e uma de leitão na maternidade. Os resultados dos antibiogramas realizados nas 13 amostras hemolíticas e em 10 “pools” de isolados de E. coli não hemolítico constam na Tabela 3. Os “pools” eram formados cada um pela mistura de 14 amostras não hemolíticas. Tabela 3 – Resultados dos antibiogramas realizados em amostras de E. coli hemolíticas e não hemolíticas isoladas de casos de diarréia em leitões. Antibióticos E. coli hemolíticos E. coli não hemolíticos (13 amostras) (10 “pools”, 140 amostras) Sens.* Interm. Resist. Sens. Interm. Resist. Gentamicina 9 2 2 0 0 10 Amicacina 12 0 1 8 1 1 Colistina 11 0 2 9 0 1 Ceftiofur 13 0 0 9 1 0 Enrofloxacina 12 0 1 3 1 6 Oxitetraciclina 0 0 13 0 0 10 Tetrtaciclina 0 1 12 0 0 10 (*) Sens= sensível, suscetível; Interm.= sensibilidade intermediária; Resist. = resistentes. Entre as amostras hemolíticas houve apenas duas resistentes à gentamicina e uma resistente à enrofloxacina. No entanto, entre amostras não hemolíticas de E. coli todas foram resistentes à gentamicina e seis foram resistentes à enrofloxacina. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 183 Os antimicrobianos frente aos quais as amostras de E. coli se apresentaram com maior suscetibilidade foram ceftiofur, amicacina e colistina (Tabela 3). DISCUSSÃO Observou-se que era rotina na granja o uso de gentamicina para todos os leitões nas baias onde havia casos de diarréia. Outro procedimento rotineiro era a acidificação da água para leitões. Os custos em medicamentos eram elevados, pois um frasco de gentamicina de 20 mL era adquirido por R$ 8,35, permitindo o tratamento de 40 leitões, suficiente para 3 celas parideiras e meia. A partir dos resultados dos antibiogramas verificou-se que as bactérias eram resistentes à gentamicina, explicando o fato de não haver melhora sanitária. O uso de ácido na água também não foi eficaz. As causas de diarréia podem ser multifatoriais (LISBOA, 2004), sendo importante a falta de higiene nas instalações. Observou-se que algumas porcas na maternidade apresentavam as mamas sujas com fezes, contaminando os recém nascidos ao mamarem. Como medida de manejo foi recomendado que fossem varridas as celas parideiras duas vezes ao dia para evitar acúmulo de água, urina e fezes no piso. Foi detectado que 50 % entre 40 amostras de fezes colhidas na maternidade eram positivas para E. coli e oriundas de leitões de mães primíparas (leitoas), demonstrando a falta de imunização. A partir do momento em que se iniciou o uso de antibióticos indicados pelos antibiogramas, principalmente ceftiofur, as amostras positivas de ninhadas de leitoas representaram 13 % positivas para E. coli. O uso de antimicrobiano indicado por testes de suscetibilidade proporcionou o controle das infecções por E. coli na granja, reduzindo satisfatoriamente os casos de diarréia em leitões, sugerindo que a colibacilose era a principal causa dos problemas entéricos, embora não fossem analisadas as amostras para rotavirus. Considerando-se que havia tratamento rotineiro com toltrazuril, contra a coccidiose, esta doença deveria estar sob controle e não foi motivo de investigação. CONCLUSÕES Confirmou-se que os problemas de diarréia, tanto na maternidade como na creche eram de grande importância na Unidade Produtora de Leitões, havendo o isolamento de E. coli não hemolítico em maior número do que amostras hemolíticas. 184 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Verificou-se que os procedimentos rotineiros de controle e tratamento de diarréias em leitões na granja não eram eficazes, aumentando as perdas econômicas adicionadas dos gastos inúteis com medicamentos. O sistema de cultivo e realização de antibiogramas reunindo-se amostras não hemolíticas de E. coli em grupos (“pools”) como o realizado no presente trabalho foi efetivo na indicação dos antibióticos para uso no tratamento da colibacilose. REFERÊNCIAS ALFIERI, A. Diarréias neonatais em leitões, ocasionadas por vírus. Pork World, n.13, p.64-66, 2003. LISBOA, M. Fatores predisponentes para diarréia pós-desmame em leitões. Suínos & Cia, n.8, p.31-34, 2004. OLIVEIRA, S. J. Microbiologia Veterinária. Guia Bacteriológico Prático. 2.ed. Canoas, Ed. ULBRA, 2000. ROPPA, L. Doenças entéricas em suínos. Pork World. Ed. Especial, p.3-11, fev. 2003. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 185 Eimeriose ovina no Município de Major Vieira, Santa Catarina: relato de caso Ovine coccidioisis in Major Vieira, State of Santa Catarina: case report CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – Laboratório de Patologia Animal. Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC/CAV. Avenida Luiz de Camões 2090, Bairro Conta Dinheiro, CEP 88520-000. E-mail: a8crc@cav.udesc.br PEDRAPEDRAPEDRAPEDRAPEDRASSSSSSSSSSANI, Daniela – ANI, Daniela – ANI, Daniela – ANI, Daniela – ANI, Daniela – Médica Veterinária Autônoma. Rua Roberto Ehlke, 85, Canoinhas, SC. CEP 89460-000 SURKSURKSURKSURKSURKAMPAMPAMPAMPAMP,,,,, WWWWWalter – alter – alter – alter – alter – Médico Veterinário autônomo. Rua Afonso Carvalho Kholer, 382, Canoinhas, SC. CEP 89460-000 MARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. T. – . – . – . – . – Laboratório de Protozoologia, Faculdade de Veterinária. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Av. Bento Gonçalves, 9090, Bairro Agronomia, Porto Alegre, RS. CEP 91540-000. Fax: (51) 3316.7305, Caixa Postal: 15094. E-mail: sandra.marques@ufrgs.br;sandra.tietz@terra.com.br PILATI, Celso – PILATI, Celso – PILATI, Celso – PILATI, Celso – PILATI, Celso – Laboratório de Patologia Animal. Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC/CAV. Avenida Luiz de Camões 2090, Bairro Conta Dinheiro, CEP 88520-000. E-mail: a8crc@cav.udesc.br Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2006 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007 RESUMO Surto de eimeriose ovina em um rebanho de 600 animais foi registrado no município de Major Vieira, oeste de Santa Catarina, sul do Brasil. No exame parasitológico, a contagem de oocistos por grama de fezes (OoPG) evidenciou oocistos de Eimeria spp., com valores entre 700 e 1.870.000. À necropsia, foi observada intensa palidez da carcaça, edema submandibular e cavitário e intestino delgado com mucosa difusamente avermelhada. À histopatologia foi evidenciada tumefação celular no fígado e rim, intestino delgado com atrofia de vilosidades e criptas, intensa descamação celular e intenso parasitismo das células epiteliais por Eimeria spp. Os ovinos foram Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.185-190 186 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco tratados com sulfaquinoxalina sódica 25% e moxidectina. No pós- tratamento, todas as amostras foram negativas para Eimeria spp. PPPPPalavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chave: ovinos, Eimeria spp., diagnóstico, coccidiose. ABSTRACT An outbreak of ovine coccidiosis in a herd with 600 animals was detected in Major Vieira, west of the State of Santa Catarina, southern Brazil. The number of oocysts per gram of feces revealed between 700 and 1,870,000 oocysts of Eimeria spp. The necropsy demonstrated remarkably pale carcass, submandibular and subcutaneous edema, and small bowel with a diffusely reddish mucosa. The histopathological analysis showed cell swelling of the liver and kidney, small bowel with atrophy of villi and crypts, pronounced cell desquamation and remarkable epithelial cell parasitism by Eimeria spp. The sheep were treated with sulfaquinoxaline sodium 25% and moxidectin. After treatment, all the samples were negative for Eimeria spp. Key wordsKey wordsKey wordsKey wordsKey words: Sheep, Eimeria spp., diagnosis, coccidiosis. INTRODUÇÃO Espécies do gênero Eimeria (Apicomplexa: Eimeriidae) Schneider 1875, são protozoários cosmopolitas que parasitam o epitélio intestinal, em cujo ciclo biológico se estabelece uma reprodução sexual por esquizogonia, gametogonia e esporogonia. O estádio infectante é o oocisto eliminado juntamente com as fezes. São descritas quinze espécies do gênero Eimeria em ovinos, com predominância de determinadas espécies sobre outras (PLATZER et al., 2005). Na maioria dos hospedeiros, os parasitos co-existem causando mínimo dano. A eimeriose clínica somente ocorre se o hospedeiro for submetido à infecção maciça ou se sua imunidade estiver diminuída (TAYLOR, 1995). Oocistos de espécies de Eimeria são freqüentemente encontrados nas fezes de ovinos, independente da idade, apesar de animais jovens, com menos de seis meses de vida, serem os mais susceptíveis e eliminarem maior quantidade de oocistos (TAYLOR e CATCHPOLE, 1994; REEG et al., 2005). Entretanto, algumas espécies são altamente patogênicas e o quadro clínico das formas mais severas são caracterizados por diarréia escura, profusa, desidratação, anorexia, febre, letargia, alta mortalidade, redução na conversão alimentar e produção de lã de baixa qualidade (LIMA, 2004). Fitzgerald (1980) calculou perdas mundiais anuais de cerca de 140 milhões de dólares decorrentes da eimeriose ovina. No Brasil, as publicações não relatam dados atuais relacionados aos prejuízos econômicos determinados pela eimeriose. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 187 A eimeriose ovina é um importante fator limitante para a criação destes animais em todo o Brasil. O tipo de sistema de produção é outro fator que influi diretamente sobre as características da eimeriose. Com alta densidade populacional, a infecção ocorre com maior facilidade, pela disponibilidade de grande quantidade de oocistos que são eliminados junto com as fezes. As instalações e utensílios utilizados para a criação dos animais têm uma grande importância na sua epidemiologia (SANTOS et al., 2000; LIMA, 2004). Nessas condições, em que um número considerável de animais permanece confinado, por períodos de tempo relativamente longos, o ambiente e o manejo favorecem o seu aparecimento (FAYER, 1980; FAYER e REID, 1982). O diagnóstico da eimeriose deve ser feito associando-se a anamnese, com informações sobre manejo, sistema de criação, sinais clínicos, exame parasitológico, com a identificação de oocistos nas fezes e através de lesões à necropsia e evidenciação das diversas formas parasitárias em cortes histológicos do intestino (LIMA, 2004). RELATO DE CASO Neste trabalho, relata-se um surto de eimeriose ocorrido no mês de março de 2005 em um rebanho composto por 600 ovinos de corte, sem raça definida, com idade entre 5 a 7 meses, adquiridos para terminação e submetidos em regime de semiconfinamento, em uma propriedade no município de Major Vieira, na Região Oeste do Estado de Santa Catarina, no Sul do Brasil. Os animais eram mantidos, a maior parte do tempo, fechados no aprisco. As instalações eram de piso de chão batido, coberto com maravalha, parcialmente reposta, mas não trocada. Os animais recebiam suplementação mineral comercial e casca de soja, no cocho, uma vez ao dia. Durante o dia eram soltos por algumas horas em pastagem de mombaça (Panicum maximum), tanzânia (P. maximum Jacq.) e papua (Brachiaria plantaginea) em condições precárias. Na visita à propriedade, após o aparte dos animais, a inspeção visual e o exame clínico do rebanho evidenciaram em torno de 50% dos ovinos com emagrecimento acentuado, apatia, anorexia, diarréia profusa e escura, anemia grave e alguns deles com edema submandibular. Havia 34 animais mortos e foram necropsiados 5 deles, sendo coletados fragmentos de pulmão, coração, rim, fígado, baço, abomaso e intestino preservados em formalina a 10% , processados e corados com Hematoxilina & Eosina. Foram coletadas amostras de fezes de 56 ovinos (51 animais vivos e 5 animais necropsiados), preservadas sob refrigeração, e analisadas pela técnica da flutuação em solução saturada de cloreto de sódio, segundo Ueno e Gonçalves (1988). Nas amostras positivas foram feitas contagens de oocistos por grama de fezes (OoPG) pela técnica de Gordon e Whitlock (1939), com o auxílio da 188 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco câmara McMaster, além da evidenciação da presença de ovos de helmintos e contagem de ovos por grama de fezes (OPG). RESULTADOS E DISCUSSÃO No exame coproparasitológico de 56 amostras, a contagem de oocistos variou de 700 até 1.187.000 oocistos de Eimeria spp. por grama de fezes (OoPG). Também foi detectada em 22 amostras fecais (39,28%) a presença de ovos de helmintos do tipo Strongyloidea, com contagem variando de 500 até 3000 ovos por grama de fezes (OPG). À necropsia dos 5 animais, macroscopicamente observou-se palidez intensa da carcaça, edema submandibular e cavitário, abomaso evidenciando alguns parasitos e mucosa sem alteração e intestino delgado com mucosa difusamente avermelhada. O exame histopatológico do fígado mostrou fina vacuolização do citoplasma e hepatócitos; o rim apresentou leve degeneração do epitélio tubular; o intestino delgado apresentou enterite hemorrágica, e principalmente no íleo, diagnosticou-se atrofia de vilosidades e criptas com intensa descamação celular e intenso parasitismo das células epiteliais por merontes, macrogametas e microgametas de Eimeria spp., leve infiltrado difuso linfoplasmocitário e eosinofílico (Figura 1). Figura 1 – Corte histolgico de intestino delgado de ovino. Intensa infecção de vilosidades intestinais por macrogameta (Ma), microgameta (Mi) e merontes (M) de Eimeria sp. HE (aumento 40 X). Foto: Célso Pilati. Estas alterações foram semelhantes as descritas por Amarante et al. (1993) e Taylor et al. (2003), com evidenciação de formas parasitárias, embora tenham encontrado outros estádios do parasito no intestino. O diagnóstico parasitológico indicou haver co-infecção com protozoários e helmintos em 39,28% das amostras analisadas. Entretanto houve a evidência da presença de diferentes formas parasitárias de Eimeria spp. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 189 em 100% das amostras de fezes e em todos os cortes histológicos de intestino delgado analisados. Diante deste diagnóstico foi recomendado o tratamento da eimeriose, com o uso de sulfaquinoxalina sódica a 25%, de nome comercial Coccifim, na dose de 100 g/400 litros de água, via oral, disponível no bebedouro durante três dias e moxidectina, anti-helmíntico de nome comercial Cydectin 1%, dose de 1ml/50 kg, dose única por via subcutânea como anti-helmíntico. No exame parasitológico de fezes, sete dias pós-tratamento, todos os resultados foram negativos para Eimeria spp. e ovos de helmintos. Além disso, a condição corpórea dos animais foi sendo recuperada gradativamente. Devido à gravidade do caso clínico e a necessidade de uma rápida intervenção no rebanho para reverter o quadro de morbidade e mortalidade, ficou a lacuna na identificação das espécies do gênero Eimeria e de helmintos, importantes para o estudo de espécies patogênicas prevalecentes na propriedade e é reconhecida a necessidade de estudos detalhados das espécies de Eimeria envolvidas na infecção clínica. Entretanto, o proprietário foi orientado quanto a conduta de manejo, a fim de eliminar os fatores predisponentes à contaminação ambiental e manutenção da infecção nos animais. CONCLUSÕES De acordo com o resultado do oocistograma associado aos sinais clínicos, achados histopatológicos e ao tratamento aplicado aos animais, concluiu- se que a eimeriose foi a principal causa de mortalidade e morbidade dos ovinos. Entretanto a co-infecção com helmintos gastrintestinais pode ter se somado para o agravamento do surto. REFERÊNCIAS AMARANTE, A. F. T.; BARBOSA, M. A.; SEQUEIRA, J. L. Coccidiose em cordeiros em Botucatu-SP. Relato de dois casos (Short Communication). Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v.2, n.1, p.73-74, 1993. FAYER, R. Epidemiology of protozoan infections: the coccidia. Veterinary Parasitology, v.6, p.75-103, 1980. FAYER, R.; REID, W. M. Control of coccidiosis. In: LONG, P. L. The biology of the coccidia. Baltimore: Univ. Park Press, 1982, p.287-327. FITZGERALD, P. R. The economic impact of coccidiosis in domestic animals, Advances in Veterinary Science and Comparative Medicine, v.24, p.121-143, 1980. 190 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco GORDON, H. McL.; WHITLOCK, H. V. A new technique for counting nematode eggs in sheep faeces. Journal of the Council for Scientific and Industrial Australian, v.12, n.1, p.50-52, 1939. LIMA, J. D. Coccidiose dos ruminantes domésticos. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v.23, suplemento 1, p.9-13, 2004. PLATZER, B.; PROSL, H; CIESLICKI, M.; JOACHIM, A. 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E-mail: hvet51@yahoo.com.br FFFFFACURACURACURACURACURY FILHOY FILHOY FILHOY FILHOY FILHO, Elias Jorge – , Elias Jorge – , Elias Jorge – , Elias Jorge – , Elias Jorge – Médico Veterinário, Doutor, Professor Adjunto do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias – UFMG/MG CARCARCARCARCARVVVVVALHOALHOALHOALHOALHO, Antônio Último –, Antônio Último –, Antônio Último –, Antônio Último –, Antônio Último – Médico Veterinário, Doutor, Professor Adjunto do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias – UFMG/MG SSSSSOUOUOUOUOUZA, FZA, FZA, FZA, FZA, Fernando Andrade – ernando Andrade – ernando Andrade – ernando Andrade – ernando Andrade – Médico Veterinário, Doutorando em Clínica e Cirurgia Veterinárias, UFMG/MG JORDÃOJORDÃOJORDÃOJORDÃOJORDÃO, Lilian de R, Lilian de R, Lilian de R, Lilian de R, Lilian de Rezende –ezende –ezende –ezende –ezende – Médica Veterinária, Mestranda em Zootecnia – UFMG/MG Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: abril 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: junho 2007 Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Avenida Antônio Carlos 6627, Caixa Postal 567, Campus da UFMG – Escola de Veterinária, CEP 30123-970, Belo Horizonte – MG. E-mail: facury@vet.ufmg.br; hvet51@yahoo.com.br RESUMO A intensificação na produção de ovinos no Brasil foi uma tendência nos últimos anos, devido à profissionalização da atividade. Estas alterações no manejo dos animais foram responsáveis pelo aumento dos quadros de urolitíase obstrutiva. Diversos fatores nutricionais e de manejo têm sido implicados como predisponentes para o surgimento da doença. Os resultados com tratamento ainda são pouco efetivos e a adoção de medidas preventivas adequadas pode reduzir o aparecimento de novos casos nos rebanhos. Dados sobre a real situação da urolitíase no Brasil ainda são escassos. PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: doenças, ovino, urolitíase obstrutiva. Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.191-202 192 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco ABSTRACT In the last years, there was a big change in the sheep production in Brazil, specially with the feedlot of the animals, to grown up the profits. These management’s changes were responsible for the increase on obstructive urolithiasis cases. Many nutritional and management factors are pointed like predispose for this disease. Usually the treatment is ineffective and preventive measures are very important to reduce the occurrence of new cases. There are few data about the real situation of the ovine urolithiasis in Brazil. Key words:Key words:Key words:Key words:Key words: Disease, sheep, obstructive urolithiasis. 1 INTRODUÇÃO Há trinta anos era impossível imaginar a criação de ovinos como um negócio organizado e rentável no Brasil. Na época a produção de pequenos ruminantes era vista como atividade secundária, com exceção da ovinocultura de lã na região Sul, onde o mercado internacional consolidado era a força motriz da organização da produção. A partir de meados dos anos setenta, no entanto, esforços passaram a ser despendidos com vistas à organização dos sistemas de produção e das cadeias produtivas como um todo. Hoje ocupamos a oitava posição no ranking mundial do setor, com um rebanho estimado em 14,5 milhões de ovinos, representando 1,45% do rebanho mundial (CORRÊA, 2005). Com a gradativa profissionalização da ovinocultura, várias mudanças ocorreram nos sistemas de produção. A principal delas foi a intensificação, em busca da máxima produção e rápido retorno do capital investido. Isto, aliado à comercialização de animais de elite em exposições agropecuárias, acarretou profundas alterações no manejo dos ovinos, nos quais aumentou a incidência de doenças metabólicas. Dentre estas enfermidades está a urolitíase obstrutiva, que apesar de ser influenciada por diversos fatores, possui uma marcante relação com o manejo nutricional e tem especial importância nos sistemas de criação intensiva (ORTOLANI, 1996; SIMPLÍCIO et al., 2004). O objetivo deste trabalho é fornecer subsídios para a compreensão dos fatores envolvidos no desenvolvimento da urolitíase obstrutiva em ovinos, enfatizando as mais adequadas medidas de manejo que deverão ser adotadas para que se minimizem os riscos de incidência desta doença. 2 DEFINIÇÃO E ETIOLOGIA Urolitíase é uma condição associada com a presença de cálculos ou com quantidades excessivas de cristais no trato urinário. Em princípio, a Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 193 formação dos cálculos no trato urinário pode predispor o animal à cistite (RADOSTITS et al., 2002). Os cálculos ou urólitos tornam-se um problema ainda mais grave quando obstruem o trato urinário levando à condição clínica denominada urolitíase obstrutiva. A doença possui muitos nomes, entre eles cálculos urinários, pedras na bexiga, pedra nos rins, além de doença do trato urinário inferior (GARCIA, 1996; ROSS, 2001). A etiologia é complexa e multifatorial. Influências geográficas e sazonais assim como fatores dietéticos, ambientais, hormonais e doenças infecciosas do sistema urinário têm sido descritos como responsáveis pela formação dos urólitos (EVELETH e MILLEN, 1939; SILVA E SILVA, 1983). 3 EPIDEMIOLOGIA E PATOGENIA A urolitíase obstrutiva desenvolve-se em ruminantes quando solutos urinários inorgânicos ou orgânicos são precipitados e depositam-se sobre uma matriz orgânica, que se solidificará transformando-se em urólito. A matriz ou núcleo é habitualmente um mucopolissacarídeo ou mucoproteína e podem consistir de leucócitos mortos, fibrina, restos celulares ou bactérias aglutinadas (LARSON, 1996; JONES et al., 2000). Deste modo, inflamações ou infecções do sistema urinário, além da ação de substâncias estrogênicas exógenas, que promovem hipertrofia e queratinização das glândulas sexuais secundárias, podem favorecer a formação dos núcleos dos urólitos (RADOSTITS et al., 2002). Além do mecanismo acima, conhecido como hipótese matricial, outras duas hipóteses são colocadas pelos pesquisadores como possíveis meios para a formação dos cálculos. Uma delas é a hipótese do inibidor de cristalização, que enfatiza a importância dos colóides protetores, responsáveis por converter a urina em um gel e prevenir deste modo a formação de precipitados. A última hipótese é a da precipitação-cristalização, que destaca a importância da supersaturação salina na urina. Independentemente destes ou de outros mecanismos, os cálculos não podem ser produzidos sem três fatores fundamentais: concentração suficientemente alta de constituintes formadores do cálculo na urina; tempo adequado destes constituintes no trato urinário; e para alguns tipos de cálculos, como estruvita (fosfato amoníaco magnesiano), cistina ou cálculos de urato, um pH favorável para a cristalização. Qualquer aspecto que acentue um destes pontos predispõe a formação de urólitos (ROSS, 2001). Há vários fatores predisponentes que interagem e contribuem para o aparecimento da urolitíase obstrutiva em ovinos. Dentre os principais podemos destacar o sexo, raça, dieta, sistema de criação, manejo nutricional e a concentração urinária (ORTOLANI, 1996; SILVA, 1997; RADOSTITS et al., 2002). Diversos autores enfatizam a nutrição como o mais importante fator que influencia a prevalência da doença (RADOSTITS et al., 2002). 194 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Processos obstrutivos ocorrem quase que exclusivamente em machos (99%). Embora a formação de cálculos seja provavelmente igual em ambos os sexos, uma uretra mais curta e de maior diâmetro nas fêmeas oferece menores chances de obstrução (OEHME, 1965; BAILEY, 1981). Apesar de raro, Gera e Nigam (1979) e Divers et al. (1989) relataram casos de urolitíase obstrutiva em fêmeas bovinas. Os principais pontos de retenção de urólitos no trato genital de ovinos machos localizam-se na flexura sigmóide e no processo uretral, locais em que a uretra torna-se mais estreita (ORTOLANI, 1996; RADOSTITS et al., 2002). Animais castrados precocemente são mais susceptíveis à urolitíase obstrutiva porque não apresentam um completo desenvolvimento do diâmetro uretral devido à falta de exposição a andrógenos (THOMPSON, 2001). Este processo provoca acúmulo de urina na bexiga e pode levar à precipitação de urina com formação de cálculos (SILVA e SILVA, 1983). Comparação entre medidas de diâmetro uretral de bezerros castrados com um e sete meses de idade e o de touros, revelou que nos animais castrados aos sete meses e nos touros, passariam respectivamente cálculos 13% e 44% maiores que nos castrados com um mês de vida (HAWKINS, 1965). Field et al. (1986) comparando a excreção de fósforo em cinco raças ovinas (Texel, Suffolk, Finnish Landrace, East Friesland, Blackface), concluíram que o Texel excretava quatro vezes mais fósforo que o Suffolk e o Finnish Landrace, duas vezes e meia a mais que o East Friesland e duas vezes mais que o Blackface, levantando a hipótese que a raça poderia de alguma forma influenciar a formação de urólitos pela elevada concentração de fósforo urinário. A composição dos cálculos uretrais varia e depende em grande parte da dieta dos animais. Os cálculos de sílica estão entre os mais importantes para ovinos criados a pasto, devido à presença deste elemento em várias espécies de gramíneas (BAILEY, 1981). Cálculos de estruvita, carbonato e fosfato de cálcio também foram descritos para animais manejados nestas mesmas condições (RADOSTITS et al., 2002). Os ovinos confinados e alimentados com dieta rica em concentrados, normalmente, apresentam cálculos compostos de estruvita (McINTOSH, 1978). O desequilíbrio na alimentação dos animais por meio do fornecimento de dietas ricas em fósforo e pobres em cálcio pode provocar a formação de urólitos em ovinos. Esta situação ocorre quando são oferecidas grandes quantidades de grãos e utilização de concentrados minerais ricos em fósforo, em especial quando se oferecem a ovinos sais minerais apropriados a bovinos (WEAVER, 1963; ORTOLANI, 1996). A predisposição à formação de cálculos é decorrente do aumento da excreção de fósforo e alterações no pH urinário (HAVEN et al., 1993). O magnésio também tem sido envolvido no mecanismo de formação dos cálculos, porém seu papel ainda não está completamente esclarecido. Crookshank et al. (1967) afirmam que este mecanismo, nas condições de Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 195 desequilíbrio mineral, deve-se à retenção renal de magnésio e ao aumento na excreção do fósforo e do cálcio, o que aumenta a concentração da urina e favorece a urolitíase. Por outro lado, Cuddeford (1987) observou baixa prevalência de urolitíase em animais recebendo quatro vezes mais magnésio que os níveis requeridos, porém com adequada relação entre cálcio e fósforo na dieta. Concluiu deste modo que a elevada concentração de magnésio dietético, por si só, não causa urolitíase. Ovinos criados em sistema de confinamento são mais susceptíveis a obstruções uretrais, provavelmente devido a uma combinação de alimentação com alta concentração de minerais, altos níveis de mucoproteínas na urina e pouca fibra efetiva. No caso dos animais criados extensivamente, o alto consumo de água mineralizada e pastagens ricas em sílica ou oxalato, associadas a episódios de privação ou excessiva perda de água contribuem para o desenvolvimento desta afecção (UNANIAN et al., 1985; MANOLE, 1993; RADOSTITS et al., 2002). O pH urinário é outro fator muito importante que interfere na formação dos urólitos por afetar a solubilidade de alguns componentes presentes na urina (RADOSTITS et al., 2002). O pH normal da urina dos ruminantes está situado em torno de 7,0 a 9,5. Quando o pH urinário aumenta um pouco e permanece próximo ao seu limite superior, cristais de carbonato de cálcio e de fosfato começam a se precipitar (JUBB e KENNEDY, 1974). À medida que o pH aumenta, os colóides urinários perdem sua habilidade de comportarem-se como um gel protetor, e a precipitação de minerais, particularmente fosfatos e carbonatos, é facilitada (FLOYD, 1993). Práticas inadequadas de manejo também exercem a sua parcela de contribuição para o desenvolvimento da urolitíase obstrutiva. Os animais podem ser forçados a aumentar a concentração urinária, que favorece a precipitação de minerais, pela dificuldade de acesso à água. Este é um problema especial nos rebanhos extensivos, pela falta de familiaridade com o sistema de distribuição de água e pequena quantidade de água disponível. A utilização de hormônios promotores de crescimento, como o etilbestrol, favorece o aparecimento da doença por provocarem metaplasia extensiva dos órgãos sexuais, incluindo mudanças epiteliais na mucosa uretral, além de aumentarem os níveis de peptídeos, proteínas e mucoproteínas na urina (GARDINER et al., 1966). A deficiência de vitamina A, embora ainda de forma controversa, também tem sido sugerida como fator predisponente por produzir queratinização do epitélio do sistema urinário, pois a descamação destas células queratinizadas servirá de núcleo para os sais precipitados (SILVA, 1997). Experimento conduzido por Swingle e Marsh (1956) concluiu que a deficiência de vitamina A não é por si só uma condição suficiente para provocar urolitíase obstrutiva. O curso da urolitíase depende da localização e do grau de obstrução do trato urinário. Os urólitos podem estar presentes nos rins, ureteres, bexiga 196 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco ou uretra, sem necessariamente causar obstrução do fluxo urinário. A obstrução de um dos ureteres pode causar hidronefrose unilateral com compensação do rim não afetado (RADOSTITS et al., 2002). A doença clínica ocorre quando o fluxo urinário fica interrompido em decorrência do alojamento dos cálculos na uretra (DIVERS et al., 1989; JONES et al., 2000). 4 SINAIS CLÍNICOS Os cálculos na pelve renal ou ureteres normalmente não são diagnosticados antes da morte. Ocasionalmente a saída da pelve renal fica bloqueada, e a distensão aguda resultante pode causar dor acompanhada de andar rígido. Cálculos na bexiga podem causar cistite e são acompanhados pelos sinais desta afecção (RADOSTITS et al., 2002). Casos iniciais de urolitíase obstrutiva são associados com sinais de dor uretral (OEHME, 1965). Os ovinos afetados apresentam-se inquietos e com redução gradativa do apetite até chegar à anorexia (ORTOLANI, 1996). Outros sinais comuns são o balançar da cauda, pateamento, coices no abdome, bruxismo, além de freqüente postura de micção, porém sem a eliminação de urina, ou em algumas vezes eliminando gotas de urina coradas com sangue. Um intenso precipitado de cristais normalmente é visível nos pêlos prepuciais ou por dentro das coxas (SMITH, 1993; VAN METRE et al., 1996a; SILVA, 1997; THOMPSON, 2001). Caso a obstrução uretral não seja aliviada, a perfuração da uretra ou ruptura de bexiga pode ocorrer em 48 horas. Após ruptura uretral, a urina extravasa para o tecido conjuntivo da parede abdominal ventral e para o prepúcio, causando um aumento de volume líquido que pode se disseminar até o tórax. Quando a bexiga rompe, há um alívio imediato do desconforto, mas anorexia e depressão surgem com o desenvolvimento da uremia (RADOSTITS et al., 2002). 5 TRATAMENTO O tratamento para a urolitíase obstrutiva em ovinos, visa o restabelecimento do fluxo urinário e a correção dos desequilíbrios hídrico e eletrolítico (THOMPSON, 2001). Existem dois tipos de tratamento para esta enfermidade, o conservativo e o cirúrgico, cada um deles apresentando vantagens e desvantagens, que devem ser detalhadamente expostas ao proprietário e adotadas pelo médico veterinário após consideração individual de cada caso clínico (GASTHUYS et al., 1993). O tratamento conservativo ou médico inclui amputação do processo uretral, antibioticoterapia, administração de anti-espasmódicos, Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 197 acidificantes urinários e reposição hidroeletrolítica (McINTOSH, 1978; VAN METRE et al., 1996a). Em razão do grande número de cálculos localizados no processo uretral dos ovinos e considerando-se a simplicidade do procedimento, a amputação do mesmo é considerada um tratamento conservativo nesta espécie. A sua remoção não interfere na vida reprodutiva ou fertilidade dos animais. As taxas de insucesso na amputação do processo uretral são altas em decorrência da formação bastante comum, de múltiplos cálculos em ovinos, favorecendo uma obstrução mais proximal (OEHME, 1965; HAVEN et al., 1993). Oehme (1965) obteve bons resultados com a administração de anti- espasmódicos ou tranqüilizantes para favorecer a eliminação dos cálculos uretrais, através da redução dos espasmos da musculatura lisa da uretra e relaxamento do músculo retrator do pênis, diminuindo assim a flexura peniana. Este autor relata que se após seis horas o fluxo não retornar ao normal e a distensão da bexiga for crítica, uma segunda dose dos medicamentos deve ser feita. Caso a obstrução não seja desfeita dentro de 12 a 18 horas depois da primeira aplicação, outro tratamento deve ser adotado. A utilização de acidificantes urinários na tentativa de dissolver os cálculos é muito difundida como tratamento para a urolitíase, mas não tem alcançado bons resultados. Mostra-se eficiente quando usada como método preventivo, reduzindo a precipitação dos solutos urinários (RADOSTITS et al., 2002). Apesar disso, Cockcroft (1993) conseguiu desfazer urolitíase obstrutiva em um carneiro administrando 10 gramas de cloreto de amônio diariamente. Quando o tratamento conservativo não é eficiente para desfazer a obstrução, a intervenção cirúrgica faz-se necessária, devendo-se levar em consideração a localização da obstrução, integridade da uretra ou bexiga e o valor e pretensão de uso do animal (GASTHUYS et al., 1993; RAKESTRAW et al., 1995). Os procedimentos cirúrgicos mais utilizados no tratamento da urolitíase obstrutiva são amputações penianas, uretrostomia perineal, cistotomia, cistostomia com colocação de cateter e, algumas vezes, combinação destas técnicas (HAVEN et al., 1993; RAKESTRAW et al., 1995). A amputação peniana e as cirurgias uretrais obtêm bons resultados quanto ao restabelecimento do fluxo urinário, porém podem apresentar uma série de complicações como infiltração de urina no tecido subcutâneo, inflamação, estenose uretral, além de inviabilizarem o animal para a reprodução. Deste modo as mesmas são mais indicadas para rebanhos comerciais, visando a recuperação do estado geral dos animais para que possam ser abatidos posteriormente (VAN METRE et al., 1996b). As técnicas de cistotomia e cistostomia com cateter, embora também possuam desvantagens, têm apresentado bons resultados devido à possibilidade de retirada dos cálculos alojados na bexiga, lavagem uretral 198 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco com fluxo normógrado e retrógrado, além de estar associada com poucas complicações pós-operatórias e um risco mínimo de estenose uretral. A cistotomia não afeta a capacidade reprodutiva dos animais e deste modo pode ser indicada para reprodutores (HAVEN et al., 1993). Dados de Van Metre et al. (1996b) revelaram que os tempos médios de recidivas para animais submetidos a técnicas de uretrostomia e cistotomia foram, respectivamente, de 4 e 15 meses. Figura 1 – Ovino com urolitíase obstrutiva, submetido a tratamento por meio da técnica da cistostomia com colocação de cateter. 6 PROFILAXIA Considerando-se o grande número de fatores que atuam na etiologia da urolitíase obstrutiva e o ainda limitado entendimento sobre as diversas interações que ocorrem entre eles, vários são os pontos que devem ser abordados na prevenção desta doença (McINTOSH, 1978). Pequenas alterações no manejo, como o fracionamento do concentrado em várias porções diárias, contribuem para diminuir a concentração urinária pós- prandial que ocorre nos ovinos alimentados com grande quantidade de ração uma única vez ao dia. Elevada concentração urinária aumenta o potencial de precipitação de íons calculogênicos e favorece o desenvolvimento de cálculos (BAILEY, 1981). Uma das principais medidas para a prevenção da urolitíase é o fornecimento de uma dieta balanceada, associada ao fato de que a ingestão diária de concentrado não deve exceder 2% do peso vivo do animal. A relação cálcio: fósforo ideal para ovinos é de 3:1 e não deve ser diminuída além de 2:1, sob a penalidade de aumentar a excreção de fósforo urinário (ORTOLANI, 1996). A absorção de fósforo no trato gastrintestinal fica reduzida pelo aumento na proporção de cálcio na ração, e deste modo, o aumento do nível de cálcio protege contra o potencial de urolitíase das rações ricas em fósforo (PACKETT e HAUSCHILD, 1964; HOAR et al., 1970). Deve-se evitar Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 199 o fornecimento de rações de bezerros e sal mineral de bovinos de leite para ovinos, em razão das altas quantidades de fósforo presentes nestes produtos (ORTOLANI, 1996). A adição gradual de cloreto de sódio até o nível de 3 a 5% da ingestão de matéria seca, reduz a incidência de urolitíase (HAWKINS, 1965; ROMANOWSKI, 1965). Isto decorre do aumento da ingestão de água, que promove uma diluição da urina, associada ao fato de que a presença adicional de íons cloreto pode levar à formação de cloreto de magnésio na urina, que é mais solúvel que o fosfato de magnésio (ROMANOWSKI, 1965; UDALL et al., 1965). Os íons cloreto na urina também são capazes de ligar-se às mucoproteínas, diminuindo deste modo a ligação desta com fosfato e silicato e, consequentemente, reduzindo a formação de cálculos (SMITH, 1993). A estruvita, um dos principais componentes dos cálculos de ovinos confinados, precipita-se em soluções alcalinas. A adição de cerca de 7 a 10g/dia de cloreto de amônio à dieta, acidifica a urina que é fisiologicamente alcalina nos ovinos e reduz a incidência de cálculos urinários (CROOKSHANK; 1970; THOMPSON, 2001). A ingestão de quantidade satisfatória de água é fundamental para promover diurese e evitar concentração urinária. Os proprietários devem ser instruídos a respeito da importância deste fator para os animais mais predispostos a manifestar urolitíase. Deste modo, grandes lotes de animais criados em sistema extensivo devem ser providos de várias fontes de água para facilitar o acesso, já que dificilmente um ovino se afastaria do rebanho em busca de água. Nos confinamentos, a quantidade de bebedouros deve ser adequada e os mesmos devem ser mantidos sempre limpos e com água fresca (LARSON, 1996; VAN METRE et al., 1996b). Quando a causa da urolitíase for devida à exposição ao pasto, as fêmeas poderão ser utilizadas para pastar em locais de maior predisposição, uma vez que são menos susceptíveis de desenvolver obstrução do trato urinário. Em áreas em que a concentração de oxalato é alta nas pastagens, ovinos castrados devem ter somente acesso limitado às mesmas. O adiamento da castração pode reduzir a incidência de urolitíase obstrutiva, por permitir maior dilatação da uretra, porém a melhora não é bastante significativa (RADOSTITS et al., 2002). 7 CONCLUSÕES A urolitíase obstrutiva é uma importante doença que afeta principalmente ovinos machos de todas as idades, em especial aqueles que são criados de forma mais intensiva e com dieta desbalanceada. A intensificação da produção de ovinos acarreta modificações nos padrões de criação, 200 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco especialmente na nutrição, aumentando as chances de desenvolvimento de urolitíase. A clínica de ruminantes, diferentemente de como era vista nos seus primórdios, hoje deve ser encarada como um instrumento de auxílio dentro dos sistemas produtivos, enquadrando-se no conceito moderno de medicina de produção. Desta forma, é fundamental que o Médico Veterinário conheça os pontos onde deve atuar, para que os riscos sejam minimizados através da adoção de medidas preventivas eficientes. Estas medidas são especialmente importantes na urolitíase obstrutiva, em razão dos elevados custos de tratamento e das relativas pequenas taxas de sucesso, que inviabilizam o sistema de produção. Devido ao grande número de fatores envolvidos na formação dos cálculos, mais trabalhos devem ser conduzidos para esclarecer alguns pontos ainda obscuros neste processo. Infelizmente são escassos os dados a respeito da real situação da urolitíase no Brasil e o desenvolvimento de pesquisas nesta área, certamente em muito contribuirão para o desenvolvimento da ovinocultura nacional. 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Departamento de Medicina Animal, Faculdade de Veterinária – UFRGS PPPPPAAAAASSSSSSSSSSOS, Daniel ThompsenOS, Daniel ThompsenOS, Daniel ThompsenOS, Daniel ThompsenOS, Daniel Thompsen – Médico Veterinário, MSc, Doutor. Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno – Médica Veterinária, MSc, Doutora. Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS WEIMERWEIMERWEIMERWEIMERWEIMER, T, T, T, T, Tania de Azevedo –ania de Azevedo –ania de Azevedo –ania de Azevedo –ania de Azevedo – Doutora em Genética, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: abril 2007 Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: junho 2007 Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência: Av. Bento Gonçalves 9090, Porto Alegre/RS. CEP: 91540-000. E-mail: berto@ufrgs.br RESUMO Scrapie é uma enfermidade caracterizada por encefalite espongiforme de ovinos e caprinos introduzida no rebanho brasileiro pela importação de ovinos do Reino Unido e de países da América do Norte. Embora, inicialmente esta doença tenha sido diagnosticada em animais importados, foram confirmados casos recentes, em 2006, em ovinos nascidos no Brasil. A análise de genótipos realizada em ovinos Suffolk demonstrou que mais da metade dos animais examinados (55%) pertenciam a grupo de alto risco para scrapie e que somente 3,8% são de genótipo resistente. São discutidas as medidas de controle dessa enfermidade, propostas pelas autoridades sanitárias brasileiras e sugeridas medidas complementares. PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: scrapie, encefalite espongiforme, genotipagem. ABSTRACT Scrapie is a spongiform encephalopathie of sheep and goats introduced into brazilian flock throughout importation of life sheep from United Kingdom and North America countries. Although the first cases of the disease were always in ovine imported from overseas, recent cases Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.203-209 204 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco diagnosed in 2006 were detected in animals born in Brazil. Genotyping carried out in Suffolk national flock showed that 55% of the animals belong to the most susceptible group for scrapie and only 3,8% were of resistant genotype. Scrapie control measures proposed by the local animal health authorities are presented and complementary actions are suggested. KKKKKey words:ey words:ey words:ey words:ey words: Scrapie, spongiform encephalopathy, genetic variability. INTRODUÇÃO O scrapie é uma doença degenerativa do sistema nervoso central (SNC) de ovinos e caprinos. Ela pertence ao grupo das encefalites espongiformes que atingem vinte espécies de mamíferos, incluindo o homem. Este grupo de doenças é também referido como doenças priônicas. A enfermidade tem sido reconhecida em ovinos por mais de 200 anos, estando presente em vários países, sendo a Austrália e a Nova Zelândia considerados locais livres (JEFFREY; GONZÁLES, 2007). A etiologia da doença é atribuída a um “prion” sigla criada para designar “proteinaceous infectious particle” (partícula protéica infecciosa). A proteína normal – PrPc é uma glicoproteína encontrada em todos os mamíferos, cuja função não está bem estabelecida. A proteína alterada é referida na literatura como PrPsc, protease resistente, que ao microscópio eletrônico, pode ser evidenciada por estruturas designadas “Fibrilas Associadas ao Scrapie” (SAF). O prion é extremamente resistente a desinfetantes e a agentes físicos convencionais. A transmissão ocorre, principalmente, da ovelha para o cordeiro, no período perinatal. Pastagens contaminadas com fluídos fetais tornam-se fonte de infecção para cordeiros contemporâneos e para outros ovinos adultos do rebanho. O carneiro teria um papel secundário através da dispersão de prole geneticamente susceptível à infecção (DAWSON et al., 1998). No presente artigo são apresentados dados sobre a ocorrência de scrapie no rebanho ovino brasileiro é discutido o caráter genético dessa enfermidade e sugeridas medidas para seu efetivo controle. SCRAPIE NO BRASIL Scrapie foi introduzido no Brasil pela importação de ovinos Hampshire Down de rebanhos ingleses. O primeiro caso foi identificado em 1978 no RS (FERNANDES et al., 1978), seguindo-se de um segundo episódio em 1985 no Paraná (RIBEIRO, 1993). Diante dos fatos, o governo brasileiro proibiu a importação de animais do Reino Unido mas manteve abertas as fronteiras para a introdução de ovinos de outros países, USA e Canadá em particular, onde a doença é endêmica. Segundo Ojeda e Oliveira (1998) de 1991 a 1996 foram importados 2267 ovinos, a maioria dos USA. A relação atualizada dos casos de scrapie ocorridos em rebanhos ovinos no Brasil é apresentada na Tabela 1. Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 205 Tabela 1 – Casos de scrapie ocorridos em ovinos no Brasil – período 1978 a 2006. Ano Raça Procedência Estado 1978 Hampshire Down Reino Unido RS 1985 Wiltshire Horn Reino Unido PR 1995 Suffolk USA RS 1997 Suffolk USA PR 2001 Hampshire Down Canadá PR 2003 Hampshire Down Brasil PR 2006 Hampshire Down Brasil MS 2006 Suffolk Brasil RS Adaptado de Ribeiro e Rodrigues (2001). Os dados da Tabela 1 revelam que a doença vem sempre ocorrendo em rebanhos onde foram importados animais de países da América do Norte. O governo brasileiro não permite mais a importação de ovinos em pé desses países, mas, mesmo assim, novos casos têm sido diagnosticados. Em pelo menos um dos surtos o animal que mostrou sintomas era nascido na propriedade, indicando, desta forma, que a enfermidade vem se transmitindo em rebanhos nacionais. Finalmente, deve ser mencionado que o scrapie, até o momento, só foi diagnosticado no Brasil em ovinos das raças Suffolk e H. Down, excetuando- se o caso de 1985 ocorrido em um animal importado da raça Wiltshire Horn. O Uruguai e a Argentina são tidos como livres da enfermidade. Na Argentina, existe entretanto, uma referência a “sarna seca” que tem ocorrido (ou vem ocorrendo) na patagônia onde, no passado, foram importados ovinos de raças inglesas. Os casos de scrapie citados acima foram todos comunicados ao Departamento de Saúde Animal (DAS) da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), tendo sido tomadas medidas de sacrifício de animais e interdição das propriedades. Entretanto, até recentemente, não havia por parte das autoridades sanitárias brasileiras nenhuma ação de monitoramento e controle de scrapie em ovinos. As informações disponíveis sobre essa enfermidade no Brasil indicam que ela já está estabelecida no rebanho ovino nacional, ou, na melhor das hipóteses, é uma doença emergente. Na verdade, para o MAPA, o scrapie não é mais uma doença exótica (OIE, 2005). CASO RECENTE NO RIO GRANDE DO SUL Na última semana de julho/2006, deu entrada no Hospital de Clínicas Veterinárias – HCV da Faculdade de Veterinária – UFRGS, um carneiro Suffolk, adulto (3 anos), de um criatório do Estado. O carneiro foi adquirido durante a Expointer 2005 e usado na temporada de monta de 2006 sem apresentar alterações visíveis. Entretanto, após esse período, ele apresentou incoordenação motora, principalmente do trem posterior. O animal foi examinado clinicamente, sendo submetido a exame radiográfico que não revelou fratura ou lesão que explicasse a paraplegia. Em um segundo exame clínico foi observado que o animal apresentava 206 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco movimentos mandibulares (mascar chiclete) quando estimulado na região lombar e colapso após exercitado, sendo levantada a suspeita de scrapie. O exame de imunohistoquímica do tecido linfóide da terceira pálpebra, coletado do animal vivo foi positivo para scrapie. Este resultado foi confirmado após a necropsia, pelo exame histopatológico e de imunohistoquímica de tecido nervoso e linfóide. O exame de genotipagem para o códon 171 identificou o carneiro com o genótipo QQ, característico de ovinos altamente suscetíveis ao scrapie. O caso foi oficialmente comunicado às autoridades sanitárias do MAPA que tomaram as medidas cabíveis. MEDIDAS SANITÁRIAS EM CASOS DE SCRAPIE O MAPA criou em 2004, um grupo de trabalho para propor um Programa de Sanidade de Ovinos e Caprinos (PNSCO). O trabalho desta comissão resultou na Instrução Normativa n°53, de 12 de julho de 2004 que aprova o regulamento técnico do PNSCO. Entre outras doenças a portaria define aspectos relacionados às ações de vigilância e controle da Paraplexia Enzoótica dos Ovinos (Scrapie). Resumidamente, as medidas de saneamento de foco a serem adotadas pelo Serviço Oficial são as seguintes: I. Visita e interdição do estabelecimento. II. Sacrifício e eliminação de todos os animais com sinais clínicos e coleta de material para exame. III. Condução de investigação epidemiológica: (a) Localização e sacrifício de todos os ascendentes diretos (pai, mãe e avós). (b) Localização de irmãos e meio irmãos por parte da mãe do animal positivo, para sacrifício. (c) Caso o animal positivo seja fêmea determinar a localização dos descendentes até segunda geração (filhos e netos), sacrificar ou submetê-los a genotipagem. (d) A genotipagem deverá ser paga pelo proprietário. Todos os animais sensíveis (AAQQ, AAQH) e muito sensível (AVQQ), sem sinais clínicos, deverão ser sacrificados num prazo máximo de 60 dias. Os ovinos resistentes (AARR) e de pouco a médio risco (AAQR) envolvidos no foco deverão ser abatidos até sete anos de idade, ou no máximo cinco anos após a abertura do foco. GENOTIPAGEM PARA SUSCETIBILIDADE A SCRAPIE EM SUFFOLK NO BRASIL Em vários países como Reino Unido, Comunidade Européia e USA a genotipagem para suscetibilidade à scrapie tem sido uma ferramenta usada em planos de controle dessa enfermidade (DAWSON et al., 1998). Amostras de sangue são encaminhadas ao laboratório, que após a extração do DNA, identificará o seu genótipo. Em Suffolk e H. Down os códons 171 (arginina – R, histidina – H e glutamina – Q) e 136 (alanina – A e valina Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 207 – V) são os mais importantes. Para estas raças, conforme as combinações dos genótipos, poderemos identificar animais muito sensíveis AVQQ, sensíveis AAQQ, AAQH, pouco a médio risco AAQR e resistentes AARR. Dados acumulados de resultados de genotipagem para suscetibilidade ao scrapie em ovinos Suffolk referidos por Ribeiro et al. (2005) estão demonstrados na Tabela 2. Tabela 2 – Genotipagem para scrapie (Códon 136 e 171) em ovinos Suffolk no Rio Grande do Sul. GenótipoGenótipoGenótipoGenótipoGenótipo Risco de scrapie*Risco de scrapie*Risco de scrapie*Risco de scrapie*Risco de scrapie* n° ovinosn° ovinosn° ovinosn° ovinosn° ovinos %%%%% AARR R1 05 3,88 AAQR R3 52 40,31 AVQR R4 01 0,77 AAQQ R5 71 55,04 Total 129 *R1= risco mínimo, R3= pouco a médio risco, R4= médio a alto risco, R5 = muito sensível, segundo DAWSON et al. (1998). Os dados mostram que mais da metade dos ovinos Suffolk genotipados (55,04%) pertencem ao grupo de alto risco para scrapie. Por outro lado, os animais resistentes representam somente 3,8% da população estudada. A prevalência destes genótipos é bastante semelhante a encontrada em rebanhos Suffolk americanos que não foram previamente selecionados para resistência (YUZBASIVAN-GURKAN et al., 1999). A genotipagem para scrapie realizada em 29 ovinos da raça Santa Inês, criadas no nordeste brasileiro descrita por Lima et al. (2007) mostrou que 41,3% dos animais pertenciam ao grupo de alto ou médio risco e somente 10,3% foram do genótipo resistente. Os autores destacam que embora a scrapie não tenha sido descrito em ovinos deslanados é importante conhecer a sensibilidade desses animais pois cruzas de ovelhas Santa Inês com carneiros Suffolk e H. Down são bastante freqüentes. Deve-se mencionar que a genotipagem para scrapie tem despertado interesse, embora seja uma técnica relativamente nova e ainda de custos razoáveis para o criador nacional. Pelo menos um criatório do Rio Grande do Sul realizou genotipagem em 50 animais de seu plantel. Criadores de ovinos Santa Inês, do Brasil Central, já começaram a genotipar alguns animais. Os criadores vêem na técnica um instrumento para agregar valor e confiabilidade aos produtos da cabanha. Os genótipos encontrados nos rebanhos de Suffolk ajudam a explicar os casos de scrapie ocorridos no rebanho nacional. Infelizmente, em importações de ovinos do Reino Unido e USA/Canadá, vieram animais infectados com o prion. A transmissão desse agente infeccioso foi facilitada pela genética altamente sensível, favorecendo dessa forma o estabelecimento do scrapie em nossos rebanhos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ocorrência de dois surtos de scrapie no primeiro semestre de 2006 no Mato Grosso do Sul (MS) e no Rio Grande do Sul (RS) deverá alertar as autoridades 208 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco responsáveis pela Defesa Sanitária Animal Brasileira. Surtos ocasionais de febre aftosa e o recente surto de New Castle em aves do RS, levaram a enormes prejuízos ao setor primário especialmente aqueles voltados para exportação. Para acessar o risco de encefalopatia espongiforme bovina (BSE) em um país, as organizações internacionais consideram a presença de casos de scrapie no rebanho ovino local. A ocorrência de novos surtos de scrapie poderá, assim penalizar nosso país com aumento do risco de BSE. Tal fato, teria reflexo em nossas exportações de carne bovina. Portanto, seria pertinente sugerir as medidas que seguem: a. Planejamento e execução de extenso inquérito sobre fatores de risco da ocorrência de novos casos de scrapie em rebanhos brasileiros; b. Promover “workshop” sobre risco de introdução de doenças exóticas pela importação de animais; c. Difundir, colocando à disposição da ARCO a técnica de genotipagem a suscetibilidade genética a scrapie, permitindo identificar ovinos resistentes ao scrapie; d. Certificação pelo MAPA de Centros Estaduais de Diagnóstico Veterinário para encefalites espongiformes. REFERÊNCIAS DAWSON, M.; HOINVILLE, L. J.; HOSIE, B. D.; HUNTER, N. Guindance on the use of PrP genotyping as an aid to the control of clinical scrapie. Veterinary Record, n.6, p.623-625, 1998. FERNANDES, R. E.; REAL, C. M.; FERNANDES, J. C. T. Scrapie em ovinos no Rio Grande do Sul. Arquivos da Faculdade de Veterinária – UFRGS, v.6, p.139-146, 1978. JEFFREY, M., GONZÁLEZ, L. Scrapie. Disease of Sheep, Editor: AITKEN, I. D. Blackwel Publishing:Oxford, 4.ed., p.242-250, 2007. LIMA, A. C. B.; BOSSERS, A.; SOUZA, C. E. A.; OLIVEIRA, S. M. P.; OLIVEIRA, D. M. PrP genotyping in a pedigree flock of Santa Inês sheep. Veterinary Record, v.10, p.336-337, 2007. OIE. World Animal Health Situation. 2005. Disponível em: <www.oie.int/wahid- prod/public.php?page=country_status&year=2005>. Acesso em 30 maio 2007. OJEDA, D. B.; OLIVEIRA, N. M. 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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 209 NORMAS EDITORIAIS POLÍTICA E REGRAS GERAIS A revista VETERINÁRIA EM FOCO, publicação científica da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), com periodicidade semestral, publica arti- gos científicos, revisões bibliográficas, relatos de casos e notas técnicas referentes à área de Ciências Veterinárias, que a ela deverão ser destina- dos com exclusividade. É editada sob responsabilidade do Curso de Medi- cina Veterinária da Ulbra. Os artigos científicos, revisões bibliográficas, relatos de casos e notas de- vem ser enviados em tres cópias redigidas em computador, em word, fon- te 12, Times New Roman, espaço duplo entre linhas, folha tamanho A4 (21,0 x 30,0 cm), margem direita 2,5cm e esquerda 3cm. As páginas de- vem ser numeradas e rubricadas pelos autores. Os trabalhos devem ser acompanhados de ofício assinado pelos autores. Os artigos serão submetidos a exame por 3 pesquisadores com atividade na linha de pesquisa do tema a ser publicado, tendo a Revista o cuidado de man- ter sob sigilo a identidade dos autores e dos consultores. Disquetes serão soli- citados após a submissão dos trabalhos e aprovação pelos consultores. 1- O artigo científicoartigo científicoartigo científicoartigo científicoartigo científico deverá conter os seguintes tópicos: Título (em português e inglês); RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key words; INTRODUÇÃO (com revisão da literatura); MATERIAL E MÉTODOS; RESULTADOS E DISCUSSÃO; CONCLUSÃO; AGRADE- CIMENTOS; REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 2- A revisão bibliográficarevisão bibliográficarevisão bibliográficarevisão bibliográficarevisão bibliográfica deverá conter: Título (em português e inglês); RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key words; INTRODUÇÃO; DESENVOLVIMENTO; CONCLUSÃO; REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 3- A notanotanotanotanota deverá conter: Título (em português e inglês); RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key words; seguido do texto, sem sub- divisão, abrangendo introdução, metodologia, resultados, discussão e conclusão, com REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 4- O relato de casorelato de casorelato de casorelato de casorelato de caso deverá conter: Título (em português e inglês); RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key words; INTRODUÇÃO (com revisão de literatura); RELATO DO CASO; RESULTADOS E DISCUSSÃO; CONCLUSÃO; REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. ORGANIZAÇÃO DO TEXTO Título Deve ser claro e conciso, em caixa alta e negrito, sem ponto final, em português e inglês. 210 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco Autores Deve constar o nome por extenso de cada autor, abaixo do título, seguido de informação sobre atividade profissional, maior titulação e lugar/ano de obtenção, Instituição em que trabalha, endereço completo e E-mail. Resumo e Abstract O resumo deve ser suficientemente completo para fornecer um panorama ade- quado do que trata o artigo, sem, porém, ultrapassar 350 palavras. Logo após, indicar as palavras-chave / key words (mínimo de três) para indexação. Citações e Referências Bibliográficas Citações bibliográficas no texto deverão constar na INTRODUÇÃO, MA- TERIAL E MÉTODOS E DISCUSSÃO no artigo científico, conforme exem- plo: um único autor (SILVA, 1993); dois autores (SOARES & SILVA, 1994); mais de dois autores (SOARES et al., 1996). Quando são citados mais de um trabalho, separa-se por ponto e vírgula dentro do parênteses (SOA- RES, 1993; SOARES & SILVA, 1994; SILVA et al., 1998). Referências devem ser redigidas em página separada e ordenadas alfabe- ticamente pelos sobrenomes dos autores, elaboradas conforme a ABNT (NBR-6023). Tabelas e Figuras As Tabelas e Figuras devem ser numeradas de forma independente, com números arábicos. As Tabelas devem ter o título acima das mesmas, escri- to em letra igual à do texto, mas em tamanho menor. As Figuras devem ter o título abaixo das mesmas. Tabelas e Figuras podem ser inseridas no texto. Endereço para correspondência Revista VETERINÁRIA EM FOCO Av. Farroupilha, 8001 - Prédio 14 - Sala 125 São José / RS - Brasil CEP: 92425-900 E-mail: secagrarias@ulbra.com Disponível eletronicamente www.editoradaulbra.com.br www.ulbra.br/veterinaria