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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 107
Pres identePres identePres identePres identePres idente
Delmar Stahnke
Vice-PresidenteVice-PresidenteVice-PresidenteVice-PresidenteVice-Presidente
João Rosado Maldonado
COMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIALCOMISSÃO EDITORIAL
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Prof. Dr. Carlos Tadeu Pippi Salle (UFRGS)
Prof. Dr. Emerson Contesini (UFRGS)
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Prof. Dr. Luiz Alberto Oliveira Ribeiro (UFRGS)
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dade exclusiva dos autores.
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Citação parcial permitida, com referência à fonte.
COMUNIDADE EVANGÉLICA LUTERANA “SÃO PAULO”
 
V586 Veterinária em foco / Universidade Luterana do Brasil. – Vol. 1, n. 1 
(maio/out. 2003)- . – Canoas : Ed. ULBRA, 2003- . 
 v. ; 27 cm. 
 
 Semestral. 
 ISSN 1679-5237 
 
1. Medicina veterinária – periódicos. I. Universidade Luterana do 
Brasil. 
 
 CDU 619(05) 
Revista Veterinária em Foco
ISSN 1679-5237
Vol.4, n.2, jan./jun. 2007
Sumár ioSumár ioSumár ioSumár ioSumár io
109 Editorial
111 O ensino da cirurgia veterinária com ética e bem-estar animal
Beatriz Guilhembernard Kosachenco, Virgínia Bocorny Lunardi, Paulo Ricardo Centeno Rodrigues,
Maria Inês Witz, Jussara Zani Maia, Karine Gehlen Baja, Norma Centeno Rodrigues, Renato Silvano
Pulz
119 Resposta reprodutiva de novilhas acasaladas aos 14, 18 ou 26 meses de idade submetidas a
um protocolo de sincronização de estro
Carlos S. Gottschall, Leonardo C. Canellas, Eduardo T. Ferreira, Pedro R. Marques, Hélio R.
Bittencourt
131 Patologia clínica: colheita, conservação e remessa de amostras
Caroline Ferreira Simon, Cristine Bastos Dossin Fischer, Fabiana Silveira, Mariangela da Costa
Allgayer
143 O uso das cefalosporinas na clínica de pequenos animais: breve revisão
Paulo Ricardo Centeno Rodrigues, Beatriz Guilhembernard Kosachenco, Jussara Zani Maia,
Renato Silvano Pulz, João Roberto Braga de Mello
159 Associação de ultra-sonografia, urografia excretora e vaginocistografia no diagnóstico de
ectopia ureteral em fêmea canina
Ricardo Luis Grün, Márcio Aurélio da Costa Teixeira, Luis Cardoso Alves, Maria Inês Witz, Karine
Gehlen, Gabriela Klein Silva, Maria Eugênia Menezes Oliveira, Diego M. Norte
169 Ventriculite parasitária por Libyostrongylus sp em avestruz (Struthio camelus) e identificação
de ovos do parasita em amostras de fezes de ratitas de diferentes criatórios do Estado do Rio
Grande do Sul
Pierre do Valle Moreira, Cláudio Chiminazzo, Maria Teresa Queirolo, Mariane Feser, Victor Hermes
Cereser, Anamaria Telles Esmeraldino, Renata Difini, Luiz Cesar Bello Fallavena
177 Diarréia em leitões da maternidade e creche em uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) no
Rio Grande do Sul, Brasil
Manuela Lapenta da Cunha, Carolini F. Coelho, Fernanda S. Abileira, Luís G. Goulart do Nascimento,
Eloi G. Hinnah, Sérgio J. de Oliveira
185 Eimeriose ovina no Município de Major Vieira, Santa Catarina: relato de caso
Cristiane R. Cantelli, Daniela Pedrassani, Walter Surkamp, Sandra M. T. Marques, Celso Pilati
191 Urolitíase obstrutiva em ovinos: revisão de literatura
Hélio Martins de Aquino Neto, Elias Jorge Facury Filho, Antônio Último Carvalho, Fernando
Andrade Souza, Lilian de Rezende Jordão
203 Scrapie (paraplexia enzoótica) em ovinos no Brasil
Luiz Alberto Oliveira Ribeiro, Daniel Thompsen Passos, Norma Centeno Rodrigues, Tania de
Azevedo Weimer
209 Normas Editoriais
Editorial
Seguindo o exemplo de periódicos de excelente conceito em nosso país, a
revista Veterinária em Foco adota o sistema de análise e seleção dos artigos
a serem publicados. Exige assim, em primeiro lugar, que os mesmos estejam
redigidos conforme as normas da revista. Isso sendo atendido, duas cópias
impressas são enviadas para consultores ad hoc cujas atividades
profissionais estejam relacionas ao tema a ser analisado. Esses consultores
analisam, preenchem um formulário, apresentam as alterações a serem
feitas ou não recomendam para publicação. As duas cópias sujeitas a
alterações são devolvidas aos autores dos artigos, para as
correções, com
os pareceres e críticas. Caso seja proposto publicação com correções e
estas sejam realizadas, deve ser enviado disquete ou CD com a redação
final, acompanhado de uma cópia impressa.
Esta metodologia de trabalho exige disciplina no envio e recebimento das
correspondências para que sejam cumpridos os prazos, visto que a revista
é de tiragem semestral. Até o momento, os prazos estão sendo
rigorosamente cumpridos, o que exige atenção da Comissão Editorial, uma
vez que tem sido intensificado o recebimento de trabalhos de universidades
e centros de pesquisa procedentes de outros Estados do país. Para uma
revista com poucos anos de existência, como a Veterinária em Foco, o fato
de sobrarem artigos para novas edições, aguardando “na fila” para
divulgação, é uma ocorrência promissora para o futuro de nosso periódico.
A compreensão dos autores é fundamental no aguardo da publicação de
seus artigos, ao mesmo tempo em que tal fato serve como um indicativo
de confiança e credibilidade da comunidade científica em nosso periódico.
Comissão Editorial
110 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 111
O ensino da cirurgia veterinária
com ética e bem-estar animal
The teaching of veterinary surgery with ethics and animal welfare
KKKKKOSOSOSOSOSACHENCOACHENCOACHENCOACHENCOACHENCO, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard, Beatriz Guilhembernard – Médica Veterinária,
MSc, Professora de Cirurgia Veterinária, ULBRA/RS
LLLLLUNARDI, VUNARDI, VUNARDI, VUNARDI, VUNARDI, Virgínia Bocorny –irgínia Bocorny –irgínia Bocorny –irgínia Bocorny –irgínia Bocorny – Médica Veterinária, MSc, Professora
de Cirurgia Veterinária, ULBRA/RS
RODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, Paulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno –aulo Ricardo Centeno – Médico Veterinário, Esp.,
Professor de Anestesiologia Veterinária, ULBRA/RS
WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês –WITZ, Maria Inês – Médica Veterinária, MSc, Professora de Cirurgia
Veterinária ULBRA/RS
MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani –MAIA, Jussara Zani – Médica Veterinária, MSc, Professora de
Anestesiologia Veterinária, ULBRA/RS
BAJBAJBAJBAJBAJA, KA, KA, KA, KA, Karine Gehlen –arine Gehlen –arine Gehlen –arine Gehlen –arine Gehlen – Médica Veterinária, MSc, Professora de
Cirurgia Veterinária ULBRA/RS
RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno – Médica Veterinária, Dra., Professora
de Ética e Bem-Estar Animal, ULBRA/RS – Instituto de Pesquisas
Veterinárias “ Desidério Finamor”/FEPAGRO
PPPPPULZ, RULZ, RULZ, RULZ, RULZ, Renato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – Médico Veterinário, Dr., Professor de
Anestesiologia Veterinária, ULBRA/RS
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007
Endereço para correspondênciaEndereço para correspondênciaEndereço para correspondênciaEndereço para correspondênciaEndereço para correspondência: Av. Farroupilha 8001, Canoas, RS. E-mail:
kosachencobg@yahoo.com.br
RESUMO
Modificações no programa prático das disciplinas de Cirurgia do Curso de
Medicina Veterinária da ULBRA foram realizadas objetivando diminuir a
utilização de animais sadios para as aulas práticas. Em substituição aos
30 cães sadios provenientes de Centros de Controle de Zoonoses, foram
utilizadas alternativas como cadáveres e peças anatômicas oriundas de
frigoríficos, além de pacientes com patologias diversas cujos proprietários
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.111-117
112 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
eram carentes, proporcionando um perfeito desenvolvimento das
habilidades cirúrgicas iniciais que o aluno de medicina veterinária
necessita. Um programa de castração de cães e gatos foi disponibilizado
aos alunos possibilitando um treinamento mais efetivo na técnica cirúrgica
e anestésica, o que permitiu o aprimoramento da técnica operatória, o
desenvolvimento da consciência e do raciocínio cirúrgico e alertá-los
quanto às responsabilidades frente ao animal.
PPPPPalavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chave: ética, bem-estar animal, ensino, cirurgia.
ABSTRACT
Changes in the surgery practical classes at the Veterinary Medicine Faculty
– ULBRA, Brazil were introduced aiming to reduce the use of healthy
animals in such practices. The previous 30 dogs from the Zoonosis Control
Centers used were gradually substituted by carcass or viscera from
sloughter house origin. It was used also dogs and cats, holding some
pathology, that the owners could not match the treatment costs. Using
those alternative the veterinary student did develop surgical skills in an
appropriate way. Furthermore, a castration’s program of cats and dogs
was also available to the students in which they can practice surgery and
anesthesia skills. Such activity helps not only improve their surgical skills
but also their consciousness and responsibility with the animals.
Key words: Key words: Key words: Key words: Key words: Ethics, animal welfare, veterinary surgery education.
INTRODUÇÃO
A discussão quanto à condição moral dos animais e o direito dos homens
em utilizá-los em seu benefício, provocando seu sofrimento, atravessou
séculos de história e permanece latente. René Descartes, em seu ensaio “O
discurso do método”, de 1637, declarou que os animais eram como máquinas,
mecanismos sem alma e sem dor. A partir de então, as vivissecções tornaram-
se uma prática deliberada, embora mais tarde alguns estudiosos tenham
observado reações que poderiam sugerir dor (NETA, 2004).
Ferreira (1986) definia o bem-estar animal como “estado de perfeita
satisfação física ou moral”. Para Molento (2003), a definição comumente
aceita para bem-estar animal é a de um completo estado de saúde física
e mental em que o animal encontra-se em harmonia com seu meio
ambiente.
Na década de 90, a Associação Mundial de Veterinária reconheceu em seu
estatuto como sendo papel do médico veterinário a promoção do bem-
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 113
estar animal (WVA, 1993). O estabelecimento de uma política em bem-
estar animal criada por esta associação teve como resultado diversas
recomendações, como a necessidade de incorporar a disciplina de bem-
estar animal nos currículos de Medicina Veterinária. Apesar de,
filosoficamente e como ciência, existirem diferentes posicionamentos sobre
bem-estar animal, o compromisso com o tema tem crescido na Medicina
Veterinária. Mesmo assim, no Brasil são raras as iniciativas deste tipo de
abordagem no ensino (PAIXÃO, 2001). Na Inglaterra, estatísticas anuais
demonstram um decréscimo de dois terços no uso de animais para
educação nos últimos dez anos (JUKES et al., 2003). De acordo com
Molento (2003), a utilização de animais para pesquisa e ensino no Brasil
deve ser mais criteriosa, inclusive com maior vigilância e transparência
para a sociedade.
Segundo Buyukmihci (1996), a morte de animais no ensino de Medicina
Veterinária continua mais por conveniência ou hábito, e não porque é
pedagogicamente necessário, existindo, no momento, muito mais
alternativas do que matar animais sadios para o treinamento cirúrgico.
O mesmo autor observa que o treinamento cirúrgico oferecido aos
estudantes pelas Universidades, nas aulas de cirurgia, para a obtenção
do título de médico veterinário, não faz deles cirurgiões, e que é
necessário a prática dentro do bloco cirúrgico para promover a confiança
e a destreza que capacita o profissional. A pressão
social e dos estudantes
contra o uso de animais sadios na técnica cirúrgica tem auxiliado nas
pesquisas e no estudo de alternativas efetivas para o treinamento
cirúrgico (SMEAK et al., 1991; GREEFIELD et al., 1993). Em estudo
realizado por Bauer (1993) onde foram questionadas 31 escolas de
veterinária dos Estados Unidos e Canadá sobre a utilização de animais
vivos, cadáveres, modelos inanimados e outros métodos inovadores no
ensino cirúrgico, foi demonstrado que o número de aulas de cirurgia
que utilizam animais vivos está decrescendo e que as Escolas estão
interagindo com as sociedades protetoras de animais, de maneira que
seus estudantes realizem cirurgias e os animais submetidos sejam então
encaminhados para programas de adoção. Nesse mesmo estudo, o autor
citou que 59% das escolas questionadas possuíam programas conjuntos
com sociedades protetoras de animais. No Brasil, a Faculdade de
Veterinária da USP, em São Paulo, desenvolveu um programa inovador
no ensino da técnica cirúrgica, abolindo totalmente a utilização de
animais vivos em suas aulas práticas (SILVA et al., 2003).
Objetivando diminuir o número de animais utilizados pelas disciplinas
de Cirurgia do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana
do Brasil/ULBRA, no ano de 1999 foram propostas modificações no
programa prático das referidas disciplinas onde era utilizada uma média
de 30 animais sadios provenientes principalmente de Centros de Controle
de Zoonoses.
114 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
RELATO DO CASO
Em substituição aos 30 cães sadios provenientes de Centros de Controle
de Zoonoses para as disciplinas de Cirurgia Veterinária I e Cirurgia
Veterinária II foram utilizadas, nas aulas práticas das respectivas
disciplinas, alternativas como cadáveres e peças anatômicas oriundas de
frigoríficos, além de pacientes com patologias diversas cujos proprietários
eram carentes e não podiam arcar com os custos normais de uma cirurgia.
Na disciplina de Cirurgia Veterinária I o número de animais que era
utilizado, em média de 15 por semestre, foi reduzido à metade. Para levar
a cabo o programa prático da disciplina, passaram a ser utilizados
cadáveres frescos de cães que vinham a óbito no Hospital Veterinário da
ULBRA ou provenientes de clínicas particulares conveniadas com o Curso
de Medicina Veterinária. Estes cadáveres eram refrigerados para posterior
utilização. Do mesmo modo, peças de suínos provenientes de abatedouros
também foram agregadas às aulas práticas, sendo as mesmas mantidas
em refrigeração para pronta utilização. Após a utilização, os cadáveres e
peças eram descartados. No final do semestre, foram disponibilizados
animais vivos para cirurgias eletivas.
Na disciplina de Cirurgia Veterinária II o número de animais sadios utilizado
foi totalmente suprimido. Para procedimentos do trato respiratório foram
realizadas técnicas em cadáveres. Para o desenvolvimento das demais
técnicas operatórias, abriu-se a possibilidade de tratamento cirúrgico em
animais de proprietários de baixa renda, agendando-se pacientes que
apresentassem patologias específicas de interesse ao programa da disciplina.
Estes animais eram avaliados clinicamente através da rotina do Hospital
Veterinário da ULBRA, ou pelos alunos e professores da disciplina de Clínica
Veterinária II, em seu programa de aulas práticas. Esse agendamento se
processava sempre após avaliação dos exames complementares de
diagnóstico. Os procedimentos anestésicos e cirúrgicos foram desenvolvidos
em aula prática, pelos alunos da disciplina, com a supervisão dos professores.
Um programa de castração de cães e gatos de proprietários carentes foi
disponibilizado aos alunos que foram aprovados pela disciplina de Cirurgia
Veterinária I. A participação dos alunos no programa era voluntária. Os
denominados “proprietários de baixa renda” foram escolhidos mediante
critérios que envolviam a comprovação de renda e consentimento para
participar dos programas de esterilização e dos procedimentos cirúrgicos
desenvolvidos nas disciplinas.
RESULTADOS
As modificações no programa das disciplinas de Cirurgia do Curso de
Medicina Veterinária da ULBRA levaram aos seguintes resultados:
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 115
• Disciplina de Cirurgia Veterinária I: redução de aproximadamente 90%
na utilização de animais vivos para desenvolvimento das técnicas
operatórias. Nas cirurgias não eletivas, a utilização de cadáveres frescos de
cães que foram a óbito no Hospital Veterinário/ULBRA ou de clínicas
conveniadas proporcionou a realização do procedimento de celiotomia com
treinamento das técnicas de diérese, e síntese de fáscias musculares, tecido
subcutâneo e pele, e cirurgias oftálmicas como confecção de flapes de terceira
pálpebra e exenteração de globo ocular. Estômago, intestino, rins e bexiga
de suínos trazidos de abatedouros foram utilizados para os procedimentos
de gastrotomia, piloromiotomia, piloroplastia, enterotomia, ressecção e
anastomose intestinal, nefrotomia, nefrectomia e cistotomia. Animais vivos
foram utilizados para cirurgias eletivas, como ovário-histerectomia em
cadelas e gatas, descorna cosmética em bovinos, caudectomia e
rumenotomia em ovinos e orquiectomia, que podia ser em eqüinos, bovinos,
caninos, felinos e suínos. A utilização dos cadáveres e peças anatômicas no
primeiro bimestre da disciplina proporcionou aos alunos maior segurança
e preparo no tratamento das técnicas cirúrgicas eletivas frente ao animal
vivo, bem como maior preparo psicológico para interagirem com os
proprietários de animais, preparando-os para o programa de esterilização e
para a disciplina subseqüente, de Cirurgia Veterinária II.
• Disciplina de Cirurgia Veterinária II: supressão total de utilização de
animais sadios, sendo os pacientes selecionados através de um agendamento
prévio de proprietários de baixa renda, cadastrados para serem atendidos
pela disciplina. Entre os procedimentos cirúrgicos deste grupo de pacientes
estavam as cirurgias de nodulectomia, mastectomia regional e total,
herniorrafia, exérese de tumorações externas, ovário-histerectomia,
orquiectomia, blefaroplastia, sialoadenectomia, cistotomia, osteossíntese em
membros, correções de luxação patelar, artroplastia de cabeça e colo femorais,
amputação de dígitos, amputação de membro. Cadáveres refrigerados foram
utilizados para os procedimentos de traqueostomia, toracotomia, lobectomia
pulmonar e colocação de dreno torácico.
DISCUSSÃO
A opção de criar alternativas efetivas para o treinamento cirúrgico, sem o
uso de animais sadios, foi o motivador das mudanças nos programas práticos
das disciplinas de Cirurgia Veterinária da ULBRA, reforçada pela afirmação
de Greefield et al. (1993) que salientaram que a elaboração de alternativas
eficientes para o desenvolvimento das habilidades cirúrgicas passa pela
necessidade de responder à pressão da sociedade sobre o tema. A
conscientização do aluno sobre a questão ética que envolve o uso de animais
para fins didáticos foi uma conseqüência destas mudanças efetuadas, o
que concorda com Paixão (2001) que mencionou a necessidade do
compromisso com o bem-estar no ensino da Medicina Veterinária.
Para Buyukmihci (1996), o treinamento cirúrgico oferecido aos estudantes
116 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
de Medicina Veterinária durante os cursos não faz deles cirurgiões, e que é
necessário a prática dentro do bloco cirúrgico para promover a confiança e
a destreza que capacita o profissional. Corroborando com esta afirmação,
os programas de esterilização para cães e gatos desenvolvidos pelos
professores do Curso e disponibilizados aos alunos, proporcionou alternativas
para que o aprimoramento de sua habilidade cirúrgica e anestésica. Entre
o ano de 2000 e o primeiro semestre de 2006, 309 alunos cursaram as
disciplinas de Cirurgia. Desses, 216 realizaram treinamento voluntário,
operando no programa de esterilização
de cães e gatos, ou seja, 69,9% dos
acadêmicos exercitaram o raciocínio clínico-cirúrgico aprendido nas
disciplinas de cirurgia. Mesmo sendo uma atividade de livre escolha do
acadêmico, o percentual elevado de alunos que aprimoraram suas
habilidades cirúrgicas e anestésicas mostra a conscientização dos alunos
sobre o tema. Ainda que seja este um bom indicativo, deverá ser incluído,
na segunda fase do projeto, um questionário com a opinião dos alunos
sobre o programa, semelhante ao desenvolvido por Silva et al. (2003).
CONCLUSÃO
A utilização de peças frescas provenientes de frigoríficos e cadáveres frescos
são alternativas ao uso de animais sadios para a prática de técnicas
cirúrgicas variadas e proporciona perfeito desenvolvimento das habilidades
cirúrgicas iniciais que o aluno de Medicina Veterinária necessita.
A prática em pacientes vivos pertencentes a um proprietário permite o
aprimoramento da técnica operatória, desenvolve a consciência e o
raciocínio cirúrgico e a responsabilidade para com o animal.
REFERÊNCIAS
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models and computers in teaching veterinary surgery. Journal of Veterinary
Medical Association, v.203, n.7, p.1047-1051, 1993.
BUYUKMIHCI, N. Alternatives in veterinary surgical training. Humane
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FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2.ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
GREENFIELD, C. L.; JOHNSON, A. L.; ARENDS, M. W.; MARK, W.;
WROBLEWSKI, A. Development of parenchimal abdominal organ models
for use in teaching veterinary soft tissue surgery. Veterinary Surgery v.22,
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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 117
JUKES, N.; CHIUIA, M. From guinea pig to computer mouse: alternative
methods for a progressive, human education. 2.ed., Leicester: Interniche,
2003. 520p.
MOLENTO, C. F. M. Medicina Veterinária e Bem-estar Animal. Revista do
Conselho Federal de Medicina Veterinária. v.9, n.28/29, p.15-20, 2003.
NETA, J. H. Consciência Animal. Revista do Conselho Federal de Medicina
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PAIXÃO, R. L. Bioética e Medicina Veterinária: um encontro necessário.
Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária. v.7, n.23, p.20-26, 2001.
SILVA, R. M. G.; MATERA, J. M.; RIBEIRO, A. A. C. A avaliação do método
de ensino da técnica cirúrgica utilizando cadáveres quimicamente
preservados. Revista Educação Continuada CRMV-SP, v.7, n.23, p.59-65,
2004.
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WORLD VETERINARY ASSOCIATION. Policy on animal welfare, well-being
and ethology. World Veterinary Association Bulletin, v.10, p.9-10, 1993.
Resposta reprodutiva de novilhas
acasaladas aos 14, 18 ou 26 meses
de idade submetidas a um protocolo
de sincronização de estro
Reproductive Performance of Beef Heifers Mated at 14, 18 and 26
Months of Age Submitted to Estrus Synchronization
GOTGOTGOTGOTGOTTSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S.TSCHALL, Carlos S. – Médico Veterinário, MSc, Professor Adjunto
da Faculdade de Medicina Veterinária da ULBRA
CANELLCANELLCANELLCANELLCANELLAAAAAS, Leonardo C.S, Leonardo C.S, Leonardo C.S, Leonardo C.S, Leonardo C. – Acadêmico em Medicina Veterinária,
ULBRA/RS. Bolsista de Iniciação Científica PROICT/ULBRA
FERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo TFERREIRA, Eduardo T..... – Médico Veterinário, Mestrando em
Zootecnia, UFRGS. Bolsista do CNPq
MARQUES, PMARQUES, PMARQUES, PMARQUES, PMARQUES, Pedro Redro Redro Redro Redro R. – . – . – . – . – Acadêmico em Medicina Veterinária, ULBRA/RS.
BITBITBITBITBITTENCOURTENCOURTENCOURTENCOURTENCOURTTTTT, Hélio R, Hélio R, Hélio R, Hélio R, Hélio R..... – Estatístico MSc. Faculdade de Matemática
– PUCRS.
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: maio 2007
Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Av. Farroupilha, 8001. Canoas, RS. Bairro
São José. Prédio 14, Sala 127. CEP: 92425-900. Carlos Gottschall. E-mail:
carlosgott@cpovo.net
RESUMO
O trabalho teve como objetivo avaliar o desempenho reprodutivo de
novilhas acasaladas com diferentes idades submetidas a um protocolo de
sincronização de estro. Foram coletados, no período compreendido entre
2003 e 2005, dados de 270 novilhas de corte, com base racial britânica,
acasaladas aos 14 (A14, n = 70), 18 (A18, n = 36) ou 26 meses de idade
(A26, n = 164). O protocolo constituiu-se, primeiramente, da identificação
de novilhas em estro, seguida pela inseminação artificial convencional
(sem utilização de hormônios) após 12 horas durante 7 dias. No sétimo
dia, todos os animais não inseminados receberam uma aplicação de
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.119-129
120 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
prostaglandina F2 α e foram inseminados por mais 5 dias com
acompanhamento de cio, formando o tratamento IA. Após os 12 dias de
inseminação, essas novilhas foram submetidas ao repasse com touros,
enquanto que as que não foram inseminadas (por não terem manifestado
estro) foram apenas entouradas (tratamento ENT). As variáveis analisadas
para cada grupo foram peso ao início do acasalamento (PIA), taxa de
novilhas inseminadas (TIA), taxa de novilhas entouradas (TENT), taxa
de prenhez (TP) conforme a idade ao acasalamento e o tratamento. A TP
foi de 84,3 % para A14, 94,4% para A18 e 90,9 % para A26 (p>0,05).
Novilhas submetidas ao tratamento IA apresentaram maiores (p<0,01)
TP (93,80%) quando comparadas às do tratamento ENT (81,70%),
independentemente da idade ao acasalamento. A idade ao acasalamento
não interferiu na taxa de prenhez das novilhas. Animais mais velhos
apresentaram maior taxa de inseminação do que animais mais novos.
Novilhas inseminadas apresentaram maiores taxas de prenhez em relação
às entouradas.
PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: novilhas de corte, sincronização de estro, acasalamento.
ABSTRACT
The objective of this study was to evaluate the reproductive performance of
heifers mated at different ages and submitted to estrus sincronization. The
study was based on data from 270 heifers (British breeds and cross-breeds)
collected through the period from 2003 to 2005 and mated at 14 months old
(A14, n = 70), 18 months old (A18, n = 36) and 26 months old (A26, n =
164). The hormonal program was based initially on the animals estrus
identification following by conventional artificial insemination (without
hormonal utilization) after 12 hours during 7 days. At the seventh day, whole
animals that were not inseminated got one application of prostaglandin
F2a and were inseminated for more 5 days with estrus identification, making
a AI group. After 12 days of insemination, the animals were submitted to
cleanup bulls. The heifers that were not inseminated because they didn’t
show estrus, were served only by bulls, forming the BU groups. The
parameters analyzed were weight at beginning of mating (BW), rate of
inseminated heifers (RIH), percentage of heifers mated only with bulls
(HMB), pregnancy rates (PR) according to the reproductive technique and
age at mating. The PR was 84.3 % for the A14 group, 94.4 % for the A18
and 90.9 % for the A26 animals group. The AI group reached higher (p<0.01)
PR (93.80%) than those heifers served by using just bulls (81.70%), in spite
of the age at mating. Age at mating did not interfere in the pregnancy rate.
Oldest heifers
reached higher rate of inseminated heifers than younger ones.
Inseminated group reached higher pregnancy rate than heifers served only
by bulls.
Key words: Key words: Key words: Key words: Key words: Beef heifers, estrus synchronization, mating.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 121
INTRODUÇÃO
Atualmente, com o avanço da biotecnologia, existem diversas técnicas
disponíveis para a sincronização de estros de fêmeas bovinas. Dentre as
vantagens da sincronização de estros destacam-se a racionalização da
técnica de inseminação artificial, a concentração e redução do período de
parição, a praticidade para o desenvolvimento de testes de avaliação
zootécnica devido a padronização da idade dos animais, a racionalização
do manejo e comercialização dos animais (GREGORY, 2002). Segundo
Azeredo et al. (2007) a sincronização e a indução de estros na primeira
estação reprodutiva é uma metodologia capaz de auxiliar na repetição de
crias das primíparas, principalmente por resultar na concentração das
parições ao início da temporada. Em contrapartida, Bó et al. (2004)
afirmam que muitas vezes a falta de conhecimento dos mecanismos de
funcionamento dos sistemas endócrino e fisiológico da reprodução na
fêmea e os altos custos para a implantação de programas hormonais
limitam a utilização de protocolos de sincronização de estros e/ou
ovulação.
A prostaglandina e seus análogos sintéticos são amplamente utilizados
para a sincronização de estros em rebanhos de gado de corte. Quando os
animais estão ciclando a prostaglandina é o método mais econômico para
a sincronização de estros (GOTTSCHALL, 1996). Entretanto, o uso de
prostaglandina isoladamente só deverá ser feito em fêmeas cíclicas e com
a presença de corpo lúteo, tendo em vista que sua ação é luteolítica. A
maior limitação das prostaglandinas reside na ineficácia sobre fêmeas
que não possuam corpo lúteo, como novilhas pré-puberes e vacas em
anestro pós-parto (GAINES, 1994; GOTTSCHALL, 1996).
Gottschall et al. (2005) demonstra claramente que tecnologias jamais
devem ser aplicadas de forma indiscriminada sem antes considerar que
fatores nutricionais, sanitários e de manejo interferem sobre a resposta
reprodutiva. Segundo Bastos et al. (2003) a pesquisa de alternativas viáveis,
que sejam capazes de incrementar as taxas de prenhez em condições
extensivas de criação, associando a utilização de programas hormonais e
uso de inseminação artificial, merecem ser mais pesquisadas.
O objetivo deste trabalho foi avaliar os efeitos da utilização de um protocolo
de sincronização de estro com o uso de prostaglandina sobre o desempenho
reprodutivo de novilhas acasaladas aos 14, 18 ou 26 meses de idade.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi realizado a partir de informações obtidas de uma propriedade
particular situada no município de Cristal, no estado do Rio Grande do
Sul, entre os anos de 2003 e 2005. Foram analisados dados de 270 novilhas
122 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
de corte acasaladas entre novembro de 2004 e janeiro de 2005, aos 14
(A14), 18 (A18) ou 26 (A26) meses de idade. Desse total, 70 animais
compunham o grupo A14, 36 animais o grupo A18 e 164 animais o grupo
A26. Os animais utilizados eram de base racial britânica (Aberdeen Angus
e Devon) e suas respectivas cruzas com diferentes proporções de sangue
zebuíno.
As novilhas do grupo A14 nasceram na primavera de 2003, as novilhas do
grupo A18 nasceram no outono de 2003 e as novilhas do grupo A26
nasceram na primavera de 2002. Cada grupo foi manejado objetivando
atingir o peso mínimo de 300 kg por ocasião da primeira estação de
acasalamento. Os grupos A14 e A18 receberam pastagem de azevém
(Lolium multiflorum) no inverno-primavera de 2004. O grupo A26 foi
recriado em campo nativo, com ajuste de carga variável conforme a
disponibilidade de forragem.
A estação de acasalamento teve duração de 62 dias, iniciando no dia 19
de novembro de 2004 e terminando no dia 20 de janeiro de 2005. O
diagnóstico de prenhez, através de palpação retal, foi realizado em março
de 2005 após 60 dias do término da estação de acasalamento.
O protocolo utilizado para a sincronização de estros constituiu-se,
primeiramente, da identificação de novilhas em estro, seguida pela
inseminação artificial convencional das mesmas (sem utilização de
hormônios) após 12 horas durante 7 dias. No sétimo dia, todos os animais
não inseminados receberam uma aplicação de prostaglandina F2 α (agente
luteolítico) e foram inseminados por mais 5 dias com acompanhamento
de cio, formando o grupo inseminadas (IA). A observação de estros foi
realizada pela manhã e ao entardecer por pelo menos uma hora e meia
em cada período. Após os 12 dias de inseminação essas novilhas foram
submetidas ao repasse com touros, enquanto que as que não foram
inseminadas (por não terem manifestado estro – nos primeiros doze dias)
formaram o grupo entouradas (ENT). Os touros utilizados entraram no
lote de novilhas no dia 04/12/2004 sendo retirados no dia 20/01/2005.
Os touros foram usados na proporção touro: novilha de 1:30,
apresentavam entre 3 e 4 anos de idade e tiveram aptidão comprovada
previamente por exame andrológico.
O protocolo utilizado, de baixo custo, objetivou reduzir o período de
inseminação artificial, concentrar a manifestação de cio, ovulação e
parição, produzir terneiros mais uniformes e aumentar o número de
fêmeas parindo mais cedo. As variáveis analisadas para cada grupo
(inseminadas IA x entouradas ENT) foram peso ao início do acasalamento
(PIA), taxa de novilhas inseminadas (TIA), taxa de novilhas entouradas
(TENT), taxa de prenhez (TP) conforme a técnica reprodutiva e idade do
animal. A análise estatística foi feita pelo Modelo Linear Generalizado
(GLM) a partir do software SPSS, sendo a taxa de prenhez testada pelo
Qui-quadrado.
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RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela 1 apresenta o percentual de fêmeas inseminadas e entouradas
de acordo com a idade ao início do acasalamento.
Tabela 1 – Taxa de novilhas inseminadas e repassadas com touro (TIA) e taxa de novilhas apenas entouradas
(TENT) conforme a idade ao acasalamento.
Idade ao acasalamento n TIA (%) TENT (%)
14 meses (A14) 70 35,7 a 64,3 a
18 meses (A18) 36 66,7 b 33,3 b
26 meses (A26) 164 78,0 c 22,0 c
Total/Média 270 65,6 34,4
a,b,c na coluna, diferem entre si (p<0,01).
Os resultados indicam maior taxa de manifestação de estros, expressa
pelo maior número de animais inseminados, à medida que aumenta a
idade ao acasalamento. Segundo Schillo et al. (1992) a puberdade
(coincidente com a primeira ovulação e estro) em novilhas é o resultado
de uma série de eventos complexos que ocorrem no eixo endócrino-
reprodutivo. A idade do animal é um fator relacionado à puberdade
(SCHILLO et al, 1992; DI MARCO et. al, 2006), sendo que animais mais
velhos na mesma faixa de peso e grupo genético, como no caso do trabalho
em questão, tendem a apresentar maior maturidade fisiológica e
reprodutiva, o que possibilita que o sistema nervoso detecte relações neuro-
endócrinas favoráveis à produção de gonadotrofinas, conduzindo a um
desenvolvimento folicular mais intenso e promovendo a ocorrência da
ovulação e manifestação do estro (SIROIS e FORTUNE, 1988). Dessa forma,
sugere-se que os animais mais novos demonstraram, no presente
experimento, menor manifestação de estros no início da estação de
acasalamento. O grupo A26 apresentou 42,3 e 11,3 pontos percentuais a
mais de novilhas sendo inseminadas em relação aos grupos A14 e A18,
respectivamente.
A Tabela 2 mostra o peso ao início do acasalamento geral (PIAG), o peso
ao início do acasalamento das vacas que emprenharam (PIAP) e das vacas
que não emprenharam (PIAV) e a taxa de prenhez (TP), conforme a idade
ao acasalamento e o tratamento.
Tabela 2 – Peso ao início do acasalamento geral (PIAG), peso ao início do acasalamento de vacas que
emprenharam
(PIAP) e não emprenharam (PIAV) e taxa de prenhez (TP), conforme a idade ao acasalamento.
Idade ao acasalamentoIdade ao acasalamentoIdade ao acasalamentoIdade ao acasalamentoIdade ao acasalamento NNNNN PIAG (kg)PIAG (kg)PIAG (kg)PIAG (kg)PIAG (kg) PIAP (kg)PIAP (kg)PIAP (kg)PIAP (kg)PIAP (kg) PIAPIAPIAPIAPIAV (kg)V (kg)V (kg)V (kg)V (kg) TP (%)TP (%)TP (%)TP (%)TP (%)
14 meses (A14) 70 311,96 a 314,53 298,18 84,3
18 meses (A18) 36 333,00 b 334,56 306,50 94,4
26 meses (A26) 164 301,46 a 301,05 305,33 90,9
Total/Média 270 308,39 309,04 302,71 89,6
 a,b na coluna, diferem entre si (p<0,01).
124 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
O PIAG foi maior (p<0,01) para as novilhas A18 em relação às A14 e A26,
que não diferiram entre si (p>0,05). Na análise dos pesos ao acasalamento
de novilhas prenhes (PIAP) e vazias (PIAV) não houve diferença
significativa para nenhum dos grupos analisados (p>0,05), assim como
não houve diferença na taxa de prenhez. Esses resultados concordam com
os relatos de Rovira (1996), que indica uma relação linear entre peso e
fertilidade de novilhas de corte até os 65-68% do peso vivo adulto (cerca
de 300 kg para novilhas com base racial britânica). Segundo Rovira (1996),
acima desse peso, a fertilidade e a velocidade de concepção não apresentam
incremento significativo, o que explica o fato das novilhas A18 não terem
obtido uma taxa de prenhez superior às demais, mesmo sendo mais pesadas
ao início do acasalamento.
Azambuja (2003) trabalhando com novilhas acasaladas aos 14 meses,
reporta taxas de prenhez inferiores às obtidas no presente trabalho, de 35,4%
e 66,7% para pesos médios ao início do acasalamento também inferiores,
de 233,4 e 252,0 kg, respectivamente. Funston e Deutscher (2004), utilizando
novilhas acasaladas aos 14 meses, relataram taxas de prenhez similares aos
deste trabalho, respectivamente, de 93 e 88% em novilhas pesando 330 kg e
319 kg ao início da estação de acasalamento, não havendo diferença
estatística significativa entre as novilhas de diferentes pesos. Em experimento
utilizando novilhas acasaladas aos 18 meses, Barcellos et al. (2000) relatam
taxas de prenhez de 35,9 e 57,1% para pesos ao início do acasalamento de
261 e 283 kg, respectivamente, taxas e pesos inferiores às obtidas pelas
novilhas de mesma idade neste trabalho.
Esses resultados demonstram a relação positiva entre peso e taxa de prenhez
até um determinado limite de peso, conhecido como peso mínimo crítico.
Elevados pesos ao início do acasalamento tendem a proporcionar elevados
índices de prenhez (AZAMBUJA, 2003; GOTTSCHALL et al., 2005).
Entretanto, à medida que aumenta o peso ao acasalamento, a probabilidade
de prenhez fica semelhante para novilhas de diferentes idades, evidenciando
que a partir de determinadas faixas de peso não há incremento significativo
nas taxas de prenhez (GOTTSCHALL e CANELLAS, 2007).
Tabela 3 – Taxa de prenhez (TP) e peso ao início do acasalamento (PIA) de novilhas submetidas à inseminação
artificial e repassadas com touros (IA) e de novilhas exclusivamente entouradas (ENT), conforme a idade ao
acasalamento.
GrupoGrupoGrupoGrupoGrupo TTTTTratamentoratamentoratamentoratamentoratamento NNNNN PIA (kg)PIA (kg)PIA (kg)PIA (kg)PIA (kg) TP (%)TP (%)TP (%)TP (%)TP (%)
A14 IA 25 (35,7%) 316,52 96,0a
ENT 45 (64,3%) 309,42 77,8b
A18 IA 24 (66,7%) 340,92 95,8
ENT 12 (33,3%) 319,69 91,7
A26 IA 128 (78,0%) 304,02a 93,0
ENT 36 (22,0%) 292,33b 83,3
Total IA 177 (65,6%) 310,79 93,8A
ENT 93 (34,4%) 304,30 81,7B
a,b na coluna, diferem entre si (p<0,05).
A,B na coluna, diferem entre si (p<0,01).
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 125
As novilhas inseminadas nos doze primeiros dias da estação de
acasalamento e repassadas com touros (tratamento IA),
independentemente da idade, apresentaram 93,8% de prenhez,
expressando melhor desempenho reprodutivo em relação às novilhas
somente entouradas (tratamento ENT), que obtiveram uma taxa de
prenhez de 81,7% (p<0,01). Seguramente as novilhas inseminadas nos
primeiros doze dias, já haviam atingido a puberdade, pois demonstraram
estro ao início da estação de acasalamento e/ou responderam à ação da
prostaglandina. Essa ciclicidade se traduz por maior chance de concepção
dentro da estação de reprodutiva.
Na análise da idade ao primeiro acasalamento, novilhas dos grupos A18 e
A26 não demonstraram diferenças nas taxas de prenhez entre ou grupos
IA x ENT, enquanto novilhas mais jovens do grupo A14 apresentaram
diferenças nas taxas de prenhez entre ou grupos IA x ENT (P<0,05). Para
os dois grupos de animais mais velhos A18 e A24 a quantidade de novilhas
inseminadas foi percentualmente superior, o que indica um maior grau de
ciclicidade desses animais ao início da estação. No grupo ENT encontravam-
se novilhas não cíclicas, ou simplesmente não identificadas em estro. Para o
grupo A14 foi identificada superioridade na taxa de prenhez para o
tratamento IA (96,0%) em relação ao tratamento ENT (77,8%). Segundo
Byerley et al. (1987), novilhas acasaladas no terceiro estro apresentam maior
probabilidade de prenhez em relação a novilhas acasaladas no primeiro
estro, respectivamente de 78% e 57%. Esses dados podem explicar as
diferenças entre as taxas de prenhez dos grupos IA e ENT em função da
idade ao primeiro acasalamento. No grupo A14 o percentual de novilhas IA
e ENT foi respectivamente de 35,7% e 64,3 %, indicando um maior percentual
de novilhas acíclicas no início do trabalho. Mesmo ciclando durante a estação
de acasalamento a probabilidade de concepção no primeiro estro é inferior
a probabilidade de concepção no terceiro estro (BYERLEY et al, 1987). Os
dados indicam que um maior percentual de novilhas do grupo A14
manifestou estro após o período de inseminação artificial (tratamento ENT),
dispondo de um menor período de tempo para conceber, além de apresentar
um maior percentual de animais manifestando o primeiro estro durante a
estação de monta, o que resultou em uma menor taxa de prenhez para esse
grupo e dentro dessa idade (A14 ENT). Nesse contexto, Di Marco et al.
(2006) relatam que em sistemas intensivos de produção, com uso de
acasalamento precoce (A14), ocorre uma sintonia entre a idade da novilha,
ocorrência de puberdade e o período de acasalamento. Esses autores também
destacam as diferenças em fertilidade entre novilhas inseminadas no terceiro
estro comparadas ao primeiro estro, sendo menor em animais inseminados
no primeiro estro pós-puberdade. Nos grupos A18 e A26 o percentual de
novilhas IA, em relação às ENT foi maior, fato esse que explica a ausência
de diferença estatística nas TP desses animais e permite inferir que, nas
condições de manejo utilizadas, um maior percentual de novilhas de 18 e
26 meses já apresentavam ciclicidade, favorecendo a concepção mais precoce
dentro da estação de acasalamento em relação àquelas acasaladas aos 14
meses.
126 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Dados das Tabelas 2 e 3 mostram que não ocorreram diferenças entre
pesos ao início do acasalamento entre novilhas prenhes e vazias e novilhas
IA e ENT. Segundo Fox et al. (1988), o peso ótimo à cobertura de novilhas
de reposição varia de acordo com o tamanho corporal, sendo este peso em
torno de 60% do peso adulto da vaca. Segundo Rovira (1996), Gottschall
et al. (2005) e Gottschall e Canellas (2007), é fundamental um peso
adequado ao início da estação para uma ótima concepção. Esses autores
relacionam o peso mínimo a ser atingido a um percentual do peso vivo de
animais adultos gordos, sendo cerca de 65% do peso vivo adulto. Na
propriedade em questão as vacas gordas são vendidas com
aproximadamente 480 kg, o que representa cerca de 312 kg ao início da
estação de acasalamento, peso muito próximo ao obtido por animais de
todos os grupos. A importância do peso e suas relações é descrita por
Harwin et al. (1967), citado por Morris (1980),
onde os autores relatam
influências do peso sobre a velocidade de concepção em novilhas. Novilhas
com mais de 318 kg tiveram 100% de parição e um período médio de
acasalamento de 42 dias. Novilhas com peso entre 220 e 318 kg tiveram
83% de parição e um período médio de acasalamento de 62 dias. Novilhas
com peso inferior a 220 kg tiveram 60% de parição e um período médio de
acasalamento de 126 dias. Entretanto, Cunningham et al. (1981) não
encontraram diferenças na taxa de concepção de novilhas acasaladas aos
24 meses com mais de 310 kg quando comparada ao grupo de novilhas
com menos de 310 kg. Os dois trabalhos supracitados apresentam faixas
de comparação diferentes, e possivelmente no trabalho de Cunningham
et al. (1981) os animais apresentaram o peso mínimo crítico necessário
nos dois grupos. Gottschall (1999), em um estudo onde foi utilizado o
mesmo protocolo de sincronização de estro deste experimento, com
novilhas acasaladas aos 26 meses, encontrou pesos semelhantes para o
grupo IA e ENT, respectivamente de 307,9 kg e 300,9 kg (P>0,05),
entretanto a taxa de prenhez do grupo IA foi de 90,5%, superior a taxa de
prenhez do grupo de novilhas apenas entouradas (ENT), que foi de 68,9%
(P<0,01), indicando que outros fatores além do peso ao início do
acasalamento afetam a resposta reprodutiva, inclusive a ciclicidade. Para
as novilhas iniciarem a época de monta ciclando, de forma a conceber o
mais rápido possível, recomenda-se que estes animais alcancem 60-65%
do seu peso corporal adulto, denominado peso-alvo ou peso mínimo crítico
(BOLZE e CORAH, 1993; LYNCH et al., 1997). Lamb (2006) relata que
novilhas Angus atingem 50 e 90% de ciclicidade com 250 e 295 kg de peso
vivo, respectivamente. Kasari e Gleason (1996) afirmam que o peso-alvo
deve ser atingido cerca de 60 dias antes do início da estação de monta,
considerando que a fertilidade das novilhas aumenta depois do 3º e 4º cio,
como relatado anteriormente. Conforme dados reportados por Byerley et
al. (1987) a fertilidade em novilhas cobertas no primeiro cio puberal é em
torno de 21% menor que a de fêmeas cobertas no terceiro cio. Gottschall
e Canellas (2007), afirmam que a precocidade sexual, com ocorrência da
puberdade antes do início da estação de acasalamento, independentemente
da idade, será um fator de extrema importância para o desempenho
reprodutivo subseqüente. Fêmeas concebendo e parindo ao início das
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 127
respectivas estações terão mais tempo para a nova concepção ainda dentro
da estação de acasalamento (LESMEISTER et al., 1973).
CONCLUSÕES
A idade ao acasalamento não interferiu na taxa de prenhez das novilhas.
Animais mais velhos apresentaram maior taxa de inseminação do que
animais mais novos, sugerindo a hipótese de que novilhas mais velhas
tendem a apresentar maior percentual de ciclicidade ao início da estação
reprodutiva em relação a novilhas mais jovens. Novilhas sincronizadas e
inseminadas nos primeiros doze dias da estação de acasalamento
apresentaram maiores taxas de prenhez em relação àquelas apenas
entouradas.
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Patologia clínica: colheita,
conservação e remessa de amostras
Clinic pathology: collection, storage and samples delivering
SIMON, Caroline FSIMON, Caroline FSIMON, Caroline FSIMON, Caroline FSIMON, Caroline Ferreira – erreira – erreira – erreira – erreira – Med. Vet., Residente em Patologia
Clínica do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do
Brasil – RS
FISCHERFISCHERFISCHERFISCHERFISCHER, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin, Cristine Bastos Dossin – Med. Vet., MSc. Professora do
Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil – RS
SILSILSILSILSILVEIRA, FVEIRA, FVEIRA, FVEIRA, FVEIRA, Fabianaabianaabianaabianaabiana – Aluna do Curso de Biomedicina da Universidade
Luterana do Brasil – RS
ALLGAALLGAALLGAALLGAALLGAYERYERYERYERYER, Mariangela da Costa , Mariangela da Costa , Mariangela da Costa , Mariangela da Costa , Mariangela da Costa – Bióloga, Med. Vet., MSc.
Professora do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana
do Brasil – RS
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: fevereiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: maio 2007
Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência: Mariangela da Costa Allgayer. Av. Farroupilha,
nº 8001, Bairro São Luiz. CEP 92450-900. Prédio 25. ULBRA, Canoas/RS. E-mail:
bioclinica@ulbra.br
RESUMO
O resultado de um exame laboratorial confiável e de qualidade depende
do preparo do animal, da colheita do material e do manuseio e
armazenamento da amostra colhida. Fatores como hemólise, medo,
excitação, lipemia, armazenamento inadequado, demora no
processamento da amostra e a falta de informações sobre os sinais clínicos
e medicamentos utilizados no paciente podem interferir no diagnóstico e
tratamento de diversas patologias. Este trabalho tem o objetivo de fazer
uma revisão bibliográfica sobre os cuidados que devem ser tomados ao
colher e enviar amostras para realização de exames complementares no
laboratório de Patologia Clínica.
PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: colheita, hemólise, lipemia, patologia clínica.
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.131-141
132 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
ABSTRACT
The result of a reliable and of quality laboratory procedure depends on
the preparation of the animal, collection of the material, handle and
storagethe sample collected. Factors such as hemolysis, fear, excitement,
lipemia, inadequate stock, delay on the sample processing and the lack of
information of the clinical signs and the drugs used in the patient may
interfere in the diagnostic and treatment of several pathologies. This essay
aims to make a bibliography review about the cares that must be taken
when collecting and sending samples for complementary exams to the
clinic pathology laboratory.
KKKKKey words: ey words: ey words: ey words: ey words: collection, hemolysis, lipemia, clinic pathology.
INTRODUÇÃO
A acurácia dos testes laboratoriais e a interpretação dos resultados
dependem, primariamente, da qualidade da amostra recebida. Respeitar
as técnicas de colheita prepará-las e realizá-las com cuidado, buscando
artifícios para minimizar as alterações que possam ocorrer antes (ex.
estresse), durante (ex. garroteamento prolongado a anti-sepsia
inadequada), e após colheita (ex. contaminação) colabora para que haja
uma correta interpretação dos exames. A confiabilidade no uso do
laboratório como apoio diagnóstico depende da qualidade do material
utilizado para análise, ou seja, colheita e conservação adequada da
amostra. Adicionalmente, para o aproveitamento ótimo das análises em
patologia clínica deve existir uma relação estreita entre o médico
veterinário clínico e o laboratório de diagnóstico.
Os autores Gonzáles e Silva (2003); Kerr (2003) e Rebar et al. (2003)
relatam que envio de amostras inadequadas implica em perda de tempo,
de recursos e, em ocasiões, complicações na saúde do animal devido a
uma interpretação incompleta ou incorreta de resultados.
ENVIO DE AMOSTRAS
Amostras enviadas a qualquer laboratório de diagnóstico, devem possuir
uma identificação adequada, utilizando material que resista ao manejo,
isto é, tintas permanentes resistentes à água, fitas com cola ou etiquetas
com adesivo apropriado. Devem ser enviadas logo após a colheita e de
preferência refrigeradas.
Gonzáles e Silva (2003), Kerr (2003) e Rebar et al. (2003) comentam que
as amostras devem ser acompanhadas com um protocolo que inclua:
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 133
• Identificação do proprietário, médico veterinário ou pessoa responsável,
telefone e endereço;
• Dados de identificação do animal ou animais amostrado(s);
• Anamnese completa do paciente e/ou do rebanho, sem omitir dados
relevantes da história clínica, nutrição, reprodução, produção e manejo;
• A suspeita de doenças infecciosas, especialmente se elas forem
zoonóticas;
• O uso de qualquer tratamento medicamentoso, dieta diferente, excitação/
agitação durante a colheita da amostra, ou a utilização de um anestésico
geral que possa ser relevante na interpretação subseqüente dos resultados.
Segundo os autores citados acima, conservantes físicos ou químicos devem
ser utilizados com muita cautela, pois o uso inadequado pode fazer com
que a amostra seja inviabilizada. A embalagem a ser usada deve ser segura
para a amostra e principalmente aos que a manusearão. A padronização
da colheita por parte do médico veterinário através de um manual contendo
todos os procedimentos de colheita, é uma forma de garantir a qualidade
do resultado final do exame.
Bush (2004) relata que se vários exames forem realizados, é desejável colher
todas as amostras no mesmo momento, pois isso permite a correlação dos
achados e evita a possibilidade de que, entre as colheitas, o quadro clínico
tenha mudado, produzindo inconsistências nos resultados obtidos.
AMOSTRAS PARA HEMOGRAMA
Para o hemograma não importa o vaso sangüíneo selecionado para realizar
a obtenção da amostra, uma vez que não existem diferenças significativas
nas concentrações dos componentes sangüíneos que são mensurados
(GONZALES e SILVA, 2003). Porém, a veia jugular é grande o suficiente,
até mesmo em gatos para que sejam aspirados até 5 mL de sangue em
poucos segundos. Isso minimiza a estase venosa e a hemólise e permite
que a amostra seja transferida para um tubo com anticoagulante antes
de começar a coagular. O período de contenção é muito mais curto e,
muitos animais parecem rejeitar menos o posicionamento (KERR, 2003).
O ácido etilenodiamino tetra-acético (EDTA) é o anticoagulante de escolha
para a realização do hemograma nas espécies domésticas com exceção
das ratitas (avestruz) onde é preconizado o uso da heparina, pois nesta
espécie aviária, o contato dos eritrócitos com o EDTA causa hemólise intensa
da amostra. A heparina não é capaz de impedir a agregação plaquetária e
causa alterações morfológicas nos leucócitos, e por isso não deve ser
utilizada para a colheita de sangue para fins de
realização e interpretação
134 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
do hemograma nas espécies veterinárias. O citrato de sódio é recomendado
para os estudos das plaquetas e testes de coagulação (REBAR et al., 2003;
SINK e FELDMAN, 2006).
A amostra de sangue pode ser obtida diretamente de um tubo de colheita
contendo anticoagulante (tubos a vácuo) ou com uma seringa e
rapidamente transferido para um tubo de colheita com EDTA. O uso de
tubos a vácuo não é preconizado em pequenos animais devido à ocorrência
de hemólise na amostra, sendo preconizado a colheita em seringa. Após a
colheita com seringa deve ser realizada a transferência do sangue para o
tubo com EDTA, este tubo deve estar inclinado de forma que o sangue
desça pela parede, minimizando a hemólise. Imediatamente o tubo deve
ser fechado e homogeneizado por inversão delicadamente, propiciando
que o anticoagulante entre em contato com toda a amostra.
É essencial que os tubos com EDTA sejam preenchidos com o volume
especificado no rótulo. Se for colhida uma quantidade muito pequena de
sangue, a concentração resultante de EDTA danificará as células, se ao
contrário, o tubo for por preenchido em demasia, o sangue provavelmente
coagulará (KERR, 2003).
Tempo de armazenamento
Segundo Gonzáles e Silva (2003) as hemácias apresentam aumento da
suscetibilidade à lise após 24 horas em contato com EDTA. Este fato
permite que uma amostra possa ser processada até 24 horas após a colheita,
desde que a mesma permaneça sob refrigeração, esperando pelo menos
15 minutos depois da colheita em temperatura ambiente antes de ser
refrigerada, para evitar que ocorra hemólise. Se o sangue colhido
permanecer a temperatura ambiente, deve ser processado o mais rápido
possível após a colheita, pois as mostras sangüíneas armazenadas no EDTA
podem produzir alterações leucocitárias e artefatos morfológicos nas
lâminas de esfregaço se o sangue for deixado em temperatura ambiente
por mais de 3 horas (WEISS e TVEDTEN, 2004).
Efeito da hemólise no hemograma
Segundo Gonzáles e Silva (2003); Rebar et al. (2003); Sink e Feldman
(2006), as principais causas de hemólise são:
• Aspirar sangue rapidamente para dentro da seringa, usando uma agulha
com calibre pequeno;
• Tubos com fluoreto, que alteram o metabolismo das hemácias e a
deterioração celular começa imediatamente.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 135
• Seringas ou agulhas úmidas, ou água entrando nos tubos de colheita;
• Perder o vaso no meio da colheita e aplicar pressão negativa no sangue
já presente na seringa, ao procurar pelo vaso “perdido”;
• Colocar o sangue no tubo de colheita sem tirar a agulha da seringa, a
qual sempre deve ser removida;
• Homogeneização violenta, pois a inversão repetida é suficiente para
homogeneizar adequadamente;
• Amostras lipêmicas;
• Tempo decorrido até o processamento, especialmente se a amostra não
for refrigerada;
• Congelamento da amostra.
As alterações no hemograma e proteína plasmática total decorrentes de
amostras hemolisadas encontram-se listadas na Tabela 1. Cabe salientar
que o grau de alterações está relacionado com a hemólise evidenciada na
amostra.
Tabela 1 – Efeitos da hemólise nos parâmetros eritrocitários do hemograma e na proteína plasmática total (PPT).
E X A M EE X A M EE X A M EE X A M EE X A M E EFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISE
Eritrograma
Contagem de eritrócitos Diminuição
 Hematócrito Diminuição
 Hemoglobina Aumento
 CHCM* Aumento
 VCM** Diminuição
PPT Aumento
* Concentração de hemoglobina corpuscular média; **volume corpuscular médio
Fonte: Meyer et al. (1995).
Efeito da lipemia no hemograma
A lipemia ocorre com freqüência em amostras colhidas exatamente após
alimentação de um paciente (animais monogástricos), não sendo um
problema da amostra ou do manuseio desta, e sim uma característica do
paciente, podendo ser evitada pelo jejum no mínimo de 6 a 12 horas
(MEYER et al., 1995; KERR, 2003).
No eritrograma a concentração de hemoglobina falsamente elevada,
também pode ser causada pela lipemia, devido ao efeito do aumento de
turbidez na membrana fotométrica. Isto resultará em um valor falsamente
elevado de CHCM (KERR, 2003).
136 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Efeito do medo e excitação no hemograma
Esses efeitos são principalmente os da adrenalina, e tendem a ser mais
pronunciados no gato que no cão, além de serem transitórios.
Particularmente no gato, estes efeitos podem estar associados com o medo
e a contenção na colheita e também são evidentes em amostras sangüíneas
colhidas sob anestesia geral, se tiver ocorrido excitação durante a indução
(BUSH, 2004).
Para Gonzáles e Silva (2003), Rebar et al. (2003), Bush (2004) e Sink e
Feldman (2006) os principais efeitos do medo e excitação no hemograma
são descritos como:
• Aumento transitório no hematócrito, CHCM e contagem de eritrócitos,
resultante da contração do baço, liberando mais eritrócitos para a
circulação;
•Aumento na contagem de neutrófilos segmentados que migram do
compartimento marginal e são temporariamente redistribuídos para o
compartimento circulante, causando um discreto aumento no seu
número, um efeito que dura cerca de 30 minutos. Isto não é muito
comum em cães, mas ocorre freqüentemente em gatos, especialmente
naqueles mais jovens e saudáveis (é menos freqüente em animais
doentes), sendo que neste caso não haverá desvio à esquerda;
• Aumento temporário do número de linfócitos na circulação
(geralmente maior que o aumento de neutrófilos) ocorre em gatos,
mas não em cães;
• Alteração na contagem de eosinófilos, primeiramente ocorre uma discreta
eosinofilia (pico após 1 hora), seguida de uma eosinopenia moderada com
menores valores após, aproximadamente, 4 horas;
• Aumento no número de plaquetas, pois elas são mobilizadas do baço
após a excitação, sendo que no gato pode ser de apenas 3 minutos.
AMOSTRAS PARA PROCEDIMENTOS BIOQUÍMICOS
A maior parte das análises bioquímicas requer sangue total, plasma ou
soro. As instruções acompanham os analisadores bioquímicos e devem
ser consultadas para o tipo de amostra exigido (HENDRIX, 2006).
A principal fonte de deterioração, no que se refere aos exames bioquímicos,
são as hemácias, as quais devem ser separadas o mais rápido possível. A
melhor maneira de tratar uma amostra para bioquímica é fazer a
separação do plasma ou soro imediatamente depois da colheita. Se houver
atraso na separação das hemácias da amostra, isso fará toda a diferença
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 137
entre uma amostra útil e uma massa hemolisada que não deverá ser
analisada (KERR, 2003).
Efeito da hemólise sobre a bioquímica sangüínea
As alterações nos exames bioquímicos decorrentes da análise de uma
amostra hemolisada estão listadas na Tabela 2.
Tabela 2 – Efeito da hemólise sobre os resultados dos exames bioquímicos.
E X A M EE X A M EE X A M EE X A M EE X A M E EFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISEEFEITO DA HEMÓLISE
Aspartato aminotransferase – AST Aumento
Alanina aminotransferase – ALT Aumento
Lactato desidrogenase – LDH Aumento
Creatina quinase – CK Aumento
Amilase Diminuição
Lipase Aumento
Fosfatase Alcalina Aumento ou diminuição (dependendo do método utilizado)
Proteína total Aumento
Albumina Aumento
Cálcio Aumento
Fósforo Aumento
Creatinina Diminuição (dependendo do método utilizado)
Potássio Aumento (eqüino, bovino, cão da raça Akita)
Bilirrubina Leve aumento
 Fonte: Meyer et al. (1995).
Efeito da lipemia na bioquímica sangüínea
A lipemia altera a análise da amostra devido ao fato de que a opacidade
interfere com análise fotométrica e, nos casos graves, fica impossível obter
os valores bioquímicos (MEYER et al., 1995). Bush (2004) relata como
principais
efeitos da lipemia na bioquímica sangüínea, as seguintes
alterações:
• Atividade da amilase falsamente elevada, sendo uma consideração
importante no diagnóstico de pancreatite aguda porque a presença de
lipemia é bastante provável;
• Níveis de sódio e potássio falsamente diminuídos. Os níveis de sódio e
potássio aparecem menores porque os eletrólitos estão presentes apenas
na fração aquosa do plasma/soro. Quando houver um grande aumento
na fração lipídica (não aquosa), há o efeito de “diluição” de sódio e potássio
presentes no volume da amostra em questão;
138 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
• A hemólise também é uma conseqüência, pois a lipemia aumenta a
tendência à hemólise após colheita e manipulação.
Kerr (2003) descreve como efeitos da lipemia o aumento dos valores de
PPT, obtidos com um refratômetro. Estes valores podem estar falsamente
elevados pela turbidez e, dependendo da acurácia ou da determinação de
albumina, produzem uma relação albumina/globulina imprecisa.
Efeito do medo e da excitação na bioquímica sangüínea
Para Hendrix (2006) o medo e a excitação podem causar uma elevação
nos valores de glicose, porém nos cães a concentração de glicose raramente
excede 150 mg/dL pela excitação e, portanto, é pouco comum haver
glicosúria. Já nos gatos, a concentração de glicose no sangue pode atingir
300 a 400 mg/dL ou até mais, com a excitação e medo podendo ocorrer
glicosúria.
AMOSTRA PARA URINÁLISE
A primeira etapa na realização de uma urinálise é a colheita apropriada
de uma amostra urinária, que deve ser obtida cuidadosamente para
garantir resultados significativos. Há quatro métodos básicos para colheita
de uma amostra urinária: cistocentese, cateterização, compressão vesical
e micção espontânea (KERR, 2003). Os métodos preferidos são cistocentese
e cateterização, pois proporcionam amostras ideais para todos os aspectos
da urinálise ao manter a amostra livre da contaminação a partir do trato
genital distal e das áreas externas (HENDRIX, 2006).
Idealmente devem-se analisar amostras dentro de 30 minutos após a
colheita para evitar artefatos pós-colheita e alterações degenerativas. Se
uma análise imediata não for possível, a refrigeração preserva a maior
parte dos constituintes urinários por 6 a 12 horas adicionais. Em amostras
que são deixadas repousar por longos períodos em temperatura ambiente,
pode ocorrer redução de concentrações de glicose e bilirrubina, aumento
de pH resultante de degradação bacteriana da uréia em amônia, formação
de cristais com aumento da turvação da amostra, desintegração de
cilindros e eritrócitos (especialmente em urina diluída ou alcalina) e
proliferação bacteriana. Podem se formar muitos cristais em amostras
refrigeradas. As amostras devem ser aquecidas em temperatura ambiente
antes da avaliação e, ocasionalmente, cristais que são formados durante
o resfriamento podem não dissolver quando a amostra é aquecida. As
células tendem a se deteriorar rapidamente na urina e, assim, caso se
tenha de realizar uma avaliação citológica, deve-se centrifugar a urina
logo após a colheita e acrescentar 1 a 3 gotas de soro do paciente ou
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 139
albumina bovina ao sedimento para preservar a morfologia celular (KERR,
2003; HENDRIX, 2006 ).
Efeito do medo e excitação na urinálise
Segundo Navarro (1996) e Bush (2004), as alterações causadas na
urinálise pelo medo e a excitação são as seguintes:
• Glicosúria, a chamada glicosúria emocional, causada pela liberação
súbita de adrenalina, que leva a um aumento da mobilização da glicose.
• pH aumentado que pode ser resultado de ansiedade, causando palpitação
(hiperventilação) e perda de dióxido de carbono.
AMOSTRAS PARA ANÁLISE DE EFUSÕES
A colheita dos líquidos cavitários se faz através da punção com seringa e
agulha. Deve-se fazer sempre uma tricotomia no local de introdução da
agulha e proceder a uma anti-sepsia rigorosa, não esquecendo nunca o
risco de contaminação dos tecidos adjacentes que o procedimento oferece.
Deve-se utilizar uma agulha fina, pois as agulhas mais grossas apresentam
o inconveniente de produzir um orifício muito grande que pode levar ao
extravazamento de líquido. Se a quantidade de líquido for pequena, deve-
se transferi-lo imediatamente a um frasco contendo EDTA. Se a quantidade
for maior, deve-se encher também um tubo de ensaio sem anticoagulante.
O fluido acondicionado no tubo com EDTA serve para prevenir a
coagulação uma vez que é comum a punção de pequenos vasos no
momento da colheita. Este fluido deve ser utilizado para a determinação
de contagem celular. O frasco sem anticoagulante, serve para avaliar
parâmetros bioquímicos (COWELL e TYLER, 1993; SHELLY, 2003;
NAVARRO, 2005).
A toracocentese é comumente realizada no sexto, sétimo ou oitavo espaço
intercostal, imediatamente abaixo da articulação costocondral. Este
procedimento pode ser realizado com uma agulha borboleta de pequeno
calibre (nº 19 a 23). O ponto selecionado deve ser tricotomizado e, se
necessário, deve ser realizado o bloqueio anestésico local. O local é preparado
assepticamente e a agulha é introduzida no meio do espaço intercostal
selecionado. A agulha deve ser introduzida no espaço pleural até que a
pleura seja puncionada. O líquido deve ser aspirado delicadamente e as
amostras devem ser colocadas em frascos com e sem EDTA (FOSSUM, 2004).
Na abdominocentese o paciente deve ter a bexiga e os intestinos vazios
previamente, devido ao risco de perfurar esses órgãos durante a colheita.
140 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
O melhor local para punção é na linha média do abdome, 1 a 2 cm
posteriormente ao umbigo, com o animal também em pé ou em decúbito
lateral. Não há necessidade de anestesia ou tranquilização, mas o animal
deve ser bem contido. Se o líquido aparecer posteriormente a uma cirurgia,
deve-se tomar cuidado para não introduzir a agulha na ferida cirúrgica,
pelo risco que isso traz de traumatizar vísceras que eventualmente estejam
aderidas à sutura. Para colheita pode ser utilizado um cateter, o paciente
deve ser colocado em decúbito lateral e, procedida de uma anti-sepsia
local. Uma vez introduzido o cateter, fixa-se uma seringa à extremidade
do mesmo e puxa-se delicadamente o êmbolo. Se o líquido não vier, pode-
se introduzir uma pequena quantidade de solução salina estéril e morna,
massageando delicadamente o abdome para espalhar o líquido. Este deve
ser retirado por pressão negativa (NAVARRO, 2005).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os exames laboratoriais são úteis no direcionamento do diagnóstico e na
evolução de diversas patologias sendo que a obtenção de resultados
confiáveis depende principalmente da qualidade da amostra enviada.
Portanto, o laboratório de Patologia Clínica poderá ser de grande auxílio
na investigação e tratamento de afecções, desde que o clínico forneça
uma amostra adequada para processamento e dados suficientes para uma
melhor interpretação dos exames.
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de pequenos animais: breve revisão
The use of cephalosporins in small animals clinics: short review
RODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, PRODRIGUES, Paulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centenoaulo Ricardo Centeno – Médico Veterinário,
Especialista, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS
KKKKKOSOSOSOSOSACHENCOACHENCOACHENCOACHENCOACHENCO, Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard , Beatriz Guilhembernard – Médica Veterinária,
Mestre, Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS
MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – MAIA, Jussara Zani – Médica Veterinária, Mestre, Curso de Medicina
Veterinária – ULBRA/RS
PPPPPULZ, RULZ, RULZ, RULZ, RULZ, Renato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – enato Silvano – Médico Veterinário, Doutor, Curso de
Medicina Veterinária – ULBRA/RS
MELLOMELLOMELLOMELLOMELLO, João R, João R, João R, João R, João Roberto Braga de –oberto Braga de –oberto Braga de –oberto Braga de –oberto Braga de – Médico Veterinário, Doutor, Curso
de Medicina Veterinária – UFRGS
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007
Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Curso de Medicina Veterinária, ULBRA/RS.
Av. Farroupilha, 8001. Canoas/RS. Bairro São José. Prédio 14, sala 125. CEP: 92.425-
900. E-mail: priccenteno@hotmail.com
RESUMO
As cefalosporinas são um grupo de antibióticos de grande relevância na
área da clínica médica e cirúrgica, não só pela sua utilização como também
pela sua constante evolução, proporcionada pela Indústria Farmacêutica,
que está sempre pesquisando e trazendo ao mercado novos compostos com
grande eficácia contra bactérias gram-positivas e gram-negativas e, acima
de tudo, com elevada estabilidade frente às beta-lactamases. Este grupo de
antibióticos possui grande utilização em medicina humana e veterinária,
sendo especialmente utilizado na clínica de pequenos animais. Esta revisão
pretende abordar de modo sintético aspectos da história, da estrutura
química, do modo de ação, da resistência bacteriana, da classificação, dos
usos e efeitos adversos das cefalosporinas em cães e gatos.
PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: cefalosporinas, cães e gatos, usos clínicos.
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.143-158
144 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
ABSTRACT
The cephalosporins are an antibiotic group with a great relevance in
medical and surgical clinics because of their widely use and their constant
development by pharmaceutic industry that is ever offer new composts of
high efficacy against Gram-positive and negative bacteria, including with
great stability against beta-lactamases. This short review intend to explain
history aspects, chemical structure, action, antibacterial resistance,
classification, uses and adverse effects of cephalosporins.
Key words:Key words:Key words:Key words:Key words: cephalosporins, dogs and cats, clinical uses.
INTRODUÇÃO
O uso de drogas antimicrobianas, antibióticos e quimioterápicos, no
tratamento de diversas enfermidades do homem e dos animais, requer
um profundo conhecimento sobre as indicações de uso, o mecanismo de
ação, doses e dosagens, os possíveis efeitos adversos e resistência bacteriana
a esses fármacos.
O objetivo deste artigo é revisar os aspectos mais importantes sobre o uso
das cefalosporinas na clínica de pequenos animais, salientando, entretanto,
que para obter-se sucesso na quimioterapia das doenças infecciosas é
imprescindível o conhecimento dos agentes bacterianos envolvidos e sua
sensibilidade aos antimicrobianos.
Outra preocupação importante é a resistência bacteriana aos
antimicrobianos, que muitas vezes é induzida pelo mau uso que se faz
dessas drogas, ressaltando-se a escolha da droga, a dose, a via de
administração, a freqüência e a duração da terapia, que por serem
erroneamente determinadas, acabam trazendo prejuízos ao paciente e à
sociedade.
DEFINIÇÃO
As cefalosporinas são antibióticos beta-lactâmicos com amplo espectro
de ação, relativamente pouco tóxicas. O núcleo básico das cefalosporinas
é muito semelhante àquele das penicilinas, o isolamento deste núcleo foi
fundamental para a obtenção dos derivados semi-sintéticos atualmente
disponíveis no mercado (SPINOSA et al., 1999).
Os antibióticos beta-lactâmicos constituem uma família de substâncias
caracterizadas pela presença de um grupamento químico heterocíclico
azetidinona denominado anel beta-lactâmico. Deste grupo fazem parte as
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 145
penicilinas, as cefalosporinas, as cefamicinas e oxacefamicinas
(oxacefemas), as amidinopenicilinas, as carbapenemas, o ácido clavulânico,
o sulbactam e os antibióticos monobactâmicos (TAVARES, 2001).
HISTÓRICO
As primeiras descrições sobre o uso de antimicrobianos datam de 3000
anos, quando médicos chineses usavam bolores para tratar tumores
inflamatórios e feridas infeccionadas; e os sumérios recomendavam
emplastros com uma mistura de vinho, cerveja, zimbro e ameixas. Há
mais de 1500 anos os médicos indianos recomendavam a ingestão de
certos mofos para a cura de disenterias, os índios norte-americanos e os
maias utilizavam fungos para o tratamento de feridas, úlceras e infecções
intestinais (TAVARES, 2001).
As propriedades terapêuticas dos fungos existentes nos mofos e bolores,
para tratamento de infecções, é conhecida dos homens muito tempo antes
da descoberta dos micróbios e sua importância na gênese de muitas
enfermidades que atacam seres humanos e animais.
No século XIX demonstrou-se a origem infecciosa de várias doenças,
abrindo uma nova área para pesquisa de substâncias com ação deletéria
específica sobre agentes patogênicos. No início do século XX, os trabalhos
de Paul Ehrlich permitiram um avanço notável na pesquisa de substâncias
quimioterápicas com ação antimicrobiana.
A demonstração da atividade antimicrobiana das sulfas e da penicilina,
nas décadas de 30 e 40, na terapia das doenças infecciosas do homem e
dos animais foi o grande passo para o estabelecimento de uma nova era
na moderna quimioterapia.
Segundo Tavares (2001) e Gilman (1991) a descoberta das cefalosporinas
teve início durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Professor
Giuseppe Brotzu, da Universidade de Cagliari, Itália, desenvolvia uma
pesquisa à procura de fungos que, à semelhança do Penicillium notatum
(fungo do qual originou-se a penicilina), fossem dotados da capacidade
de produzir substâncias antibacterianas. Em 1945, após experimentar
centenas de microrganismos, Brotzu isolou do mar da Sardenha, próximo
a desembocadura de um cano de esgoto, um fungo identificado depois
como o Cephalosporium acremonium.
Foi constatado que o líquido de cultura em que era cultivado o fungo da
Sardenha continha 6 substâncias com propriedades antibacterianas, das
quais foram isoladas três: cefalosporina P, cefalosporina N e cefalosporina
C. As cefalosporinas
P e N demonstraram um espectro de ação muito
limitado, enquanto que a cefalosporina C revelou-se um antibiótico de amplo
146 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
espectro mas com fraca ação antibacteriana. Entretanto, chamou a atenção
dos pesquisadores o fato de que essa substância não era afetada pela ação
da penicilinase estafilocócica (MARÍN et al., 1998; TAVARES, 2001).
Em 1961, Loder e colaboradores descobriram o núcleo central da
cefalosporina C, o ácido 7-aminocefalosporânico (7-ACA). A partir daí, as
modificações nas cadeias laterais do 7-ACA possibilitaram a descoberta
de milhares de derivados semi-sintéticos, fixando-se os laboratórios de
pesquisa e farmacêuticos naqueles que apresentavam amplo espectro de
ação, resistência às beta-lactamases, absorção por via oral e parenteral e
menor toxicidade para o homem (TAVARES, 2001).
ESTRUTURA QUÍMICA
As cefalosporinas são antibióticos semi-sintéticos derivados do 7-ACA,
distinguindo-se entre si pelas cadeias laterais da molécula básica. Em geral,
modificações na cadeia lateral ligada ao carbono 3 do 7-ACA afetam as
características farmacológicas do antibiótico, ao passo que substituições no
anel beta-lactâmico, ou próximo dele, levam a uma maior ou menor resistência
às beta-lactamases bacterianas; modificações mais distantes do núcleo, na
cadeia lateral ligada ao carbono 7, tendem a alterar tanto as características
farmacológicas quanto as antibacterianas (GILMAN, 1991; TAVARES, 2001).
Segundo Gilman (1991) as cefamicinas e as oxacefemas são antibióticos
semi-sintéticos, que embora sejam quimicamente diferentes das
cefalosporinas, são estudados conjuntamente com estas, devido a
semelhança estrutural e características farmacológicas e antimicrobianas.
MECANISMO DE AÇÃO
Os antibióticos beta-lactâmicos têm ação bactericida, no entanto somente
produzem a lise das bactérias em fase de crescimento. As cefalosporinas,
assim como todos os beta-lactâmicos, inibem a síntese dos peptidoglicanos
formadores da parede celular e dos septos das bactérias sensíveis,
originando protoplastos osmoticamente instáveis e formas alongadas que
vêm a sofrer lise osmótica (PRESCOTT; BAGGOT, 1988; TAVARES, 2001).
O peptidoglicano é um componente heteropolimérico da parede celular
bacteriana, que lhe dá estabilidade mecânica rígida em virtude de sua
estrutura em treliça altamente cruzada. A parede celular é essencial para
o crescimento e desenvolvimento normal das bactérias. A espessura da
parede celular das bactérias gram-positivas é constituída de 50 a 100
moléculas, enquanto que é de 1 a 2 moléculas nas bactérias gram-negativas
(GILMAN, 1991; MARÍN et al., 1998).
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 147
A biossíntese do peptidoglicano ocorre em três etapas e envolve cerca de
30 enzimas bacterianas. As cefalosporinas atuam na última etapa da
síntese do peptidoglicano, inibindo a atividade das transpeptidases, que
são enzimas que promovem a união das cadeias peptídicas que formam
os polímeros mucocomplexos (também chamados de mureína) dos
peptidoglicanos.
Conforme Gilman (1991) e Ramos (2002), os antibióticos beta-lactâmicos
possuem outros alvos de atuação além da inibição das transpeptidases.
Esses alvos são coletivamente denominados de proteínas de ligação das
penicilinas (PBP – Penicillin Binding Proteins), que existem na face externa
da membrana citoplasmática e estão envolvidas na síntese do
peptidoglicano.
A semelhança estrutural entre o substrato nativo das PBP e o anel beta-
lactâmico permite a ligação covalente deste às PBP, inativando-as e,
consequentemente, induzindo a lise bacteriana. As PBP 1, 2 e 3 são
transpeptidases e transglicosidases, enquanto as PBP 4, 5 e 6 têm a
atividade de D,D-carboxipeptidases. Apenas a inativação das PBP 1, 2 ou
3 induz morte celular (RAMOS, 2002).
RESISTÊNCIA BACTERIANA ÀS CEFALOSPORINAS
O conhecimento do fenômeno de resistência bacteriana a agentes físicos
e químicos data de 1905, ou seja, do início da era microbiana, quando
Paul Ehrlich e seus colaboradores descobriram e relataram o fenômeno.
Em 1940, Abraham e Chain demonstraram em extratos de E. coli uma
enzima capaz de destruir a ação da penicilina, à qual denominaram
penicilinase. Foi comprovado que as características genéticas codificadoras
de resistência aos antimicrobianos existiam nas bactérias muito tempo
antes do primeiro uso da penicilina, no entanto, a expansão do problema
coincide com a introdução e ampla utilização de inúmeros antimicrobianos
na década de 1950/60 (TAVARES, 2001).
Atualmente, o uso clínico dos antimicrobianos em medicina humana,
veterinária e na agricultura, têm multiplicado o fenômeno da resistência,
já que esses fármacos acabam exercendo o papel de selecionadores de
estirpes resistentes.
A resistência aos antimicrobianos é um fenômeno genético, relacionado
à existência de genes contidos no microrganismo, os quais codificam
diferentes mecanismos bioquímicos que impedem a ação das drogas.
A resistência às cefalosporinas pode estar relacionada à incapacidade do
antibiótico em atingir os locais de ação, a alterações nas proteínas de
ligação do antibiótico, de tal modo que não haja interação, ou a enzimas
148 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
bacterianas (beta-lactamases) que são capazes de hidrolisar o anel beta-
lactâmico e inativar as cefalosporinas (GILMAN, 1991).
CLASSIFICAÇÃO
A primeira cefalosporina de uso clínico foi a cefalotina, introduzida em
1962 pelo Laboratório Lilly. Logo se seguiram a cefaloridina, cefaloglicina,
cefalexina, cefapirina, cefazolina, cefacetrila e cefradina, apresentando
características antimicrobianas comuns e com algumas diferenças
farmacocinéticas entre si. Esse grupo, à princípio, mostrava-se ativo contra
bactérias gram-positivas e gram-negativas, incluindo Escherichia coli,
Salmonella, Shigella, Klebsiella e Staphylococcus aureus produtor de
penicilinase. Com o tempo, esse grupo inicial de cefalosporinas, perdeu
sua atividade contra algumas bactérias gram-negativas como Klebsiella e
Proteus, que passaram a produzir beta-lactamases, que são enzimas
bacterianas que hidrolisam penicilinas e cefalosporinas, causando sua
inativação (TAVARES, 2001).
Mais tarde, novas modificações introduzidas nas cadeias laterais do 7-
ACA, conduziram à produção de cefalosporinas com propriedades
antimicrobianas diferentes das primitivas, constituindo novas gerações
deste grupo de antibióticos. As diferentes gerações de cefalosporinas se
diferenciam pela sua resistência progressiva às beta-lactamases produzidas
por bactérias gram-negativas (PRESCOTT; BAGGOT, 1988).
Conforme Gilman (1991), embora as cefalosporinas possam ser
classificadas de acordo com sua estrutura química, farmacologia clínica,
resistência à beta-lactamase ou espectro antimicrobiano, o sistema mais
aceito é a classificação por “gerações”, que se baseia nas características
antimicrobianas gerais desses fármacos.
CEFALOSPORINAS DE PRIMEIRA GERAÇÃO
Este grupo de cefalosporinas caracteriza-se por sua atividade bactericida
sobre bactérias gram-positivas e gram-negativas, por sua resistência às
beta-lactamases estafilocócicas e por sua sensibilidade frente às beta-
lactamases produzidas por germes gram-negativos. Em termos práticos,
a sensibilidade das cefalosporinas de primeira geração é aferida através
da cefalotina ou da cefalexina.
Possuem excelente eficácia contra Staphylococcus intermedius, Pasteurella
multocida, Bordetella bronchiseptica e Streptococcus β-hemolíticos, uma boa
eficácia contra Escherichia coli, Proteus mirabilis, Klebsiella pneumoniae,
Listeria, Bacillus, Actinomyces, Treponema, Leptospira, Erysipelothrix e
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 149
anaeróbios obrigatórios com exceção do Bacteroides fragilis. Não são
efetivos contra Enterococcus faecalis, Pseudomonas aeruginosa e Chlamydia
psittaci. A resistência dos microrganismos
às cefalosporinas de primeira
geração é cruzada entre os antibióticos do grupo (AUCOIN, 1993;
TAVARES, 2001).
As cefalosporinas de primeira geração são divididas em dois grandes
subgrupos, de acordo com sua propriedade de serem ou não absorvidas
por via oral. A cefalotina e a cefazolina não são absorvidas por via oral e
quando utilizadas por via IM, provocam dor intensa no local da injeção,
devendo ser utilizadas por via IV ou associadas a anestésicos locais para
uso IM.
A cefalotina, como as demais cefalosporinas, não penetra adequadamente
no meio intracelular, não sendo, portanto ativa contra bactérias que se
localizam no interior de células. Tampouco atravessa a barreira
hematoencefálica, não apresentando concentração no liquor e mantendo
níveis baixos no cérebro. Possui meia-vida curta (30 a 40 minutos), cerca
de 20 a 40% da cefalotina administrada é metabolizada no fígado. A
cefalotina e seu metabólito são eliminados em maior parte pelos rins,
principalmente por secreção tubular. Cerca de 75% da dose administrada
por via IV é eliminada pela urina em seis a oito horas. Pequena parte é
eliminada por via biliar.
A cefalotina, a cefazolina e as cefalosporinas de primeira geração
absorvidas por via oral sofrem acúmulo nos pacientes com insuficiência
renal, proporcional ao grau de insuficiência, devendo, nesses casos, sofrer
ajuste no intervalo entre as doses.
A cefalotina atravessa a barreira placentária atingindo concentrações
elevadas, eficazes e duradouras no sangue fetal e no líquido amniótico. A
cefalotina é uma droga utilizada com segurança durante a gravidez, tanto
no homem como nos animais.
A cefaloridina não é dolorosa por via IM, entretanto sua nefrotoxicidade
é maior que as demais cefalosporinas, por esse motivo seu uso não é
recomendado durante a gestação e nem em pacientes com insuficiência
renal. A cefapirina apresenta características antimicrobianas e
farmacológicas semelhantes às da cefalotina.
A cefalexina, o cefadroxil, e a cefradina são cefalosporinas absorvíveis
por via oral, possuem espectro, potência de ação e farmacodinâmica
semelhantes. Caracterizam-se por sua excelente absorção por via oral,
ligando-se pouco às proteínas plasmáticas, em torno de 10 a 15%; são
eliminadas por via renal, tanto por filtração glomerular como por secreção
tubular. O cefadroxil apresenta níveis sangüíneos mais prolongados que
a cefalexina, devido a uma absorção intestinal mais demorada e uma
excreção urinária mais lenta. Do mesmo modo que as cefalosporinas de
primeira geração de uso parenteral, as de uso oral não dão concentrações
150 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
terapêuticas no liquor, mesmo em pacientes com meningites. A cefalexina
não é metabolizada, e mais de 90% da droga é eliminada na urina (ADAMS,
2003; TAVARES, 2001).
Na Figura 1, estão relacionadas as principais cefalosporinas de primeira
geração utilizadas em cães e gatos.
D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos
Cefalexina VO 20-30 mg/kg 8-12h. Idem
Cefadroxil VO 20-30 mg/kg 8-12h. 20-22 mg/kg 8-12h.
Cefradina VO 10-25 mg/kg 6-8h. Idem
Cefazolina IV/IM/SC 15-30 mg/kg 8h. Idem
Cefalotina IV/IM/SC 10-30 mg/kg 4-8h. Idem
Cefaloridina IM 25 mg/kg 12h. Idem
Cefapirina IV/IM/SC 10-30 mg/kg 6-8h. Idem
 Figura 1 – Cefalosporinas de primeira geração.
 Fonte: Adams, 2003; Andrade, 1997; Spinosa et al., 1999; Viana, 2003.
CEFALOSPORINAS DE SEGUNDA GERAÇÃO
A busca por cefalosporinas com um espectro de ação mais amplo e maior
resistência à hidrólise enzimática pelas cefalosporinases, levou à descoberta
das cefalosporinas de segunda geração.
As cefalosporinas deste grupo têm ação contra bactérias gram-positivas,
cocos gram-negativos, hemófilos e enterobactérias, mas não são ativos
contra a Pseudomonas aeruginosa. Alguns representantes mostram-se ativos
contra o Bacteroides fragilis.
As cefalosporinas da segunda geração, de uso parenteral, são compostas
pelo cefamandol, cefuroxima, ceforanida, cefonicida e cefotiano,
verdadeiras cefalosporinas, e pela cefoxitina e cefmetazol, antibióticos da
família das cefamicinas. As de uso oral são representadas pelo cefaclor,
cefprozila, axetil cefuroxima e o hexetil cefotiano, sendo que os dois últimos
são ésteres das respectivas cefalosporinas.
As primeiras cefalosporinas de segunda geração, o cefamandol e a
cefoxitina, foram descobertas em 1972 e lançadas no mercado americano
em 1978. Embora de espectro mais amplo sobre os bacilos gram-negativos,
as cefalosporinas de segunda geração não são totalmente resistentes à
inativação por beta-lactamases. Os testes de sensibilidade in vitro são
realizados empregando-se a cefuroxima e a cefoxitina. A primeira é a
mais ativa representante do grupo contra bacilos gram-negativos e a
segunda é o padrão das cefamicinas, especialmente contra anaeróbios.
A cefuroxima e o seu éster, a axetil cefuroxima, é mais estável que o
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 151
cefamandol frente às beta-lactamases, e se mostra ativa contra diversas
cepas de Enterobacter, o qual produz cefalosporinases que inativam o
cefamandol e as cefalosporinas de primeira geração.
A cefoxitina pertence ao grupo das cefamicinas, antibióticos extraídos de
culturas de amostras de diversas espécies de Streptomyces, é um derivado
da cefamicina C e apresenta estrutura química semelhante à cefalotina,
diferenciando-se pela presença de um radical metoxílico no carbono 7, o
que caracteriza as cefamicinas.
A cefoxitina, assim como as cefalosporinas de segunda geração, possui
amplo espectro de ação, devido à resistência à inativação por beta-
lactamases produzidas por germes gram-positivos e gram-negativos. Sua
atividade antimicrobiana diferencia-se do cefamandol e da cefuroxima
por englobar as bactérias do gênero Serratia e o Bacteroides fragilis. Possui
uma ação excelente contra Staphylococcus intermedius, Escherichia coli,
Klebsiella pneumoniae, Pasteurella multocida, anaeróbios obrigatórios e
Streptococcus b-hemolíticos, sua atividade contra Proteus mirabilis é entre
boa a excelente, e a eficácia contra Bordetella bronchiseptica é razoável.
Não possui atividade contra Enterococcus faecalis, Pseudomonas aeruginosa
e Chlamydia psittaci (AUCOIN, 1993; TAVARES, 2001).
A cefoxitina apresenta uma meia-vida de aproximadamente 60 minutos,
liga-se a proteínas plasmáticas em cerca de 65%, não sofre metabolização
e é eliminada por via renal de modo inalterado dentro de 6 a 12 horas.
Nos pacientes com insuficiência renal moderada o intervalo recomendado
é de 12 horas, enquanto que nos pacientes com insuficiência renal grave
o intervalo entre as doses deve ser de 24 horas.
A cefuroxima apresenta baixa ligação às proteínas plasmáticas, cerca de
33%, a meia-vida é de aproximadamente 1 hora e 30 minutos, não sofre
metabolização e elimina-se de forma ativa na urina. Em torno de 90% de
uma dose administrada por via IV é recuperada na urina dentro de 8
horas. Uma pequena quantidade é eliminada por via biliar.
O cefaclor é uma cefalosporina clorada semi-sintética derivada da
cefalexina, é bem absorvido por via oral, atingindo o pico sangüíneo
máximo após 1 hora da administração de uma dose oral. Sua absorção
sofre interferência importante dos alimentos, tornando-se mais lenta e
ocorrendo diminuição da concentração sangüínea da droga em 25 a 50%
quando tomada junto com alimentos. Sua biodisponibilidade por via oral
situa-se entre 50 a 70%. Liga-se às proteínas séricas em cerca de 25%.
Tem meia-vida de aproximadamente 40 minutos, sendo totalmente
eliminada por via urinária dentro de 6 a 8 horas. O cefaclor não atravessa
a barreira hematoencefálica em concentração adequada à terapia das
meningites. Em pacientes com insuficiência renal não
há necessidade de
realizar ajustes na dose.
A principal vantagem do cefaclor em relação às cefalosporinas orais de
152 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
primeira geração consiste na atividade que possui contra Haemophilus, e
Moraxella, incluindo as cepas produtoras de beta-lactamases (ADAMS,
2003; TAVARES, 2001).
Na Figura 2, estão relacionadas as principais cefalosporinas de segunda
geração utilizadas em cães e gatos.
D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos
Cefaclor VO 10-20 mg/kg 8h. Idem
Cefamandol IV 15 mg/kg 4-6h. Idem
Cefuroxima IV 10-20 mg/kg 8-12h. ———-
Cefoxitina IV/IM/SC 10-30 mg/kg 8h. Idem
Cefmetazol IV/IM/SC 15 mg/kg 8h. Idem
 Figura 2 – Cefalosporinas de segunda geração.
 Fonte: Adams, 2003; Andrade, 1997; Spinosa et al., 1999; Viana, 2003.
CEFALOSPORINAS DE TERCEIRA GERAÇÃO
Os antibióticos pertencentes a este grupo caracterizam-se por apresentar
elevada atividade contra bactérias gram-negativas, inclusive as resistentes
às cefalosporinas da primeira e da segunda gerações. Apresentam grande
estabilidade frente às beta-lactamases, não sendo inativadas por grande
número destas enzimas produzidas por bactérias gram-negativas.
As cefalosporinas da terceira geração são menos ativas contra bactérias
gram-positivas e anaeróbios, ou seja, as cefalosporinas de primeira e
segunda gerações mostram-se mais efetivas contra cocos gram-positivos.
Alguns representantes deste grupo mostram-se ativos contra Pseudomonas
aeruginosa, porém são menos efetivos contra estafilococos (BARROS et
al., 1996; PRESCOTT; BAGGOT, 1988; TAVARES, 2001).
As cefalosporinas de terceira geração não devem ser empregadas de
maneira empírica no tratamento ambulatorial de infecções do trato
respiratório ou do trato urinário, nem como profilaxia pré-operatória,
pois além do seu custo elevado, existem evidências de que antibióticos
deste grupo possam induzir a produção de beta-lactamases cromossômicas
em bactérias gram-negativas, estimulando a resistência destes agentes
principalmente em ambiente hospitalar (TAVARES, 2001).
As cefalosporinas de terceira geração absorvidas por via parenteral com
pequena ação antipseudomonas são: cefotaxima, ceftriaxona, cefodizima,
cefmenoxima, ceftizoxima, ceftiofur, cefbuperazona, cefotetano e
moxalactama. A cefbuperazona e o cefotetano pertencem ao grupo das
cefamicinas, enquanto que a moxalactama pertence ao grupo das
oxacefamicinas. O ceftiofur foi desenvolvido exclusivamente para uso
veterinário (HORNISH; KOTARSKI, 2002).
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 153
As cefalosporinas de terceira geração absorvidas por via parenteral com
potente atividade antipseudomonas são: ceftazidima, cefoperazona e
cefsulodina.
As cefalosporinas de terceira geração absorvidas por via oral como a
cefixima, o cefetamet pivoxil e a cefpodoxima proxetil não são efetivas
contra Pseudomonas aeruginosa.
A cefotaxima possui uma meia-vida plasmática de aproximadamente 90
minutos, liga-se a proteínas plasmáticas em torno de 50%, sendo
metabolizada no fígado e eliminada por via renal. Em pacientes com
insuficiência renal moderada a grave o intervalo entre as doses deve ser
aumentado para 12 e 24 horas respectivamente.
Conforme Hornish e Kotarski (2002), o ceftiofur é uma cefalosporina de
terceira geração absorvida por via parenteral, desenvolvida exclusivamente
para uso em animais. Demonstra elevada atividade contra bactérias
associadas com doenças respiratórias, incluindo Pasteurella spp.,
Mannheimia spp., Actinobacillus spp., Streptococcus spp., Haemophilus spp.
e Salmonella cholerasuis. Também é ativo contra cepas de E. coli e
Salmonella. Não é efetivo contra Enterococcus e Pseudomonas.
O ceftiofur é extensamente metabolizado e seus metabólitos são excretados
inativos na urina e nas fezes, causando mínimo impacto sobre o
ecossistema microbiano, ou seja, o risco de exposição da microflora
intestinal e da microflora externa ao animal, à droga, é mínimo.
Características importantes para um antimicrobiano que foi originalmente
lançado para animais de produção, como vacas, suínos, ovelhas e eqüinos.
A ceftazidima apresenta uma meia-vida de 1,8 horas e sua ligação a
proteínas plasmáticas é baixa, em torno de 17%. Não sofre metabolização
hepática, eliminando-se por filtração glomerular (80 a 90% da droga
administrada). Em pacientes com insuficiência renal a dose e a dosagem
devem sofrer ajustes.
A cefixima surgiu em 1984, sendo a primeira cefalosporina de terceira
geração absorvida por via oral. Suas características antimicrobianas são
semelhantes às da cefotaxima, mostrando-se ativa contra microrganismos
gram-negativos e estreptococos, mas sem ação contra estafilococos,
enterococos, pseudomonas e bacteróides. É bastante resistente à ação de
beta-lactamases produzidas por bacilos gram-negativos.
A absorção da cefixima se dá por via oral, atingindo o nível sérico mais
elevado após 4 horas da administração. A meia-vida sérica é de 3 a 4
horas e sua ligação protéica é de 70%. A droga não sofre metabolização,
eliminando-se principalmente por via urinária. Cerca de 10% é eliminada
por via biliar. Sua passagem através da barreira hemoliquórica é pequena,
impedindo seu uso nas meningoencefalites (ADAMS, 2003; TAVARES,
2001).
154 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Na Figura 3, estão relacionadas as principais cefalosporinas de terceira
geração utilizadas em cães e gatos.
D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos
Cefixima VO 10 mg/kg 12-24h. Idem
Cefpodoxima proxetil VO 5 mg/kg 12h.
10 mg kg 24h. Idem
Cefotaxima IV/IM/SC 25-50 mg/kg 8h. Idem
Ceftriaxona IV/IM/SC 25-50 mg/kg 12h. Idem
Ceftazidima IV/IM 30 mg/kg 8-12h. Idem
Cefoperazona IV/IM 22 mg/kg 8-12h. ———-
Cefotetano IV/IM/SC 30 mg/kg 8-12h. Idem
Ceftiofur IV/SC 2,2-4,4 mg/kg 12-24h. Idem
Moxalactama (Latamoxef) IV/IM 50 mg/kg 6-8h. idem
 Figura 3 – Cefalosporinas de terceira geração.
 Fonte: Adams, 2003; Andrade, 1997; Spinosa et al., 1999; Viana, 2003.
CEFALOSPORINAS DE QUARTA GERAÇÃO
As cefalosporinas de quarta geração são fruto de intensas pesquisas com
o objetivo de desenvolver cefalosporinas que fossem resistentes à
inativação por beta-lactamases, que conservassem a ação contra as
bactérias gram-negativas, incluindo a ação antipseudomonas, e que
tivessem elevada potência contra gram-positivos, especialmente contra
os estafilococos.
O primeiro representante do grupo foi o cefpirome, seguindo-se o cefepime
e o cefquinome. O cefquinome foi desenvolvido para uso exclusivo em
animais, sendo indicado para infecções respiratórias e do úbere em vacas.
O cefquinome liga-se a proteínas plasmáticas em torno de 5-15%,
apresenta uma meia-vida em torno de 1 a 2 horas em cães e de 1,5 a 3
horas em vacas. Sofre pequena metabolização hepática e sua eliminação
é predominantemente renal.
O cefpirome possui uma ação contra bacilos gram-negativos semelhante
à cefotaxima, compara-se a ceftazidima na sua ação antipseudomonas e
atua contra estafilococos em concentrações inibitórias semelhantes às da
cefalotina. Ao contrário da cefoxitina e das cefalosporinas de terceira
geração, é mínima sua capacidade indutora de resistência.
Na figura 4, estão representadas as cefalosporinas de quarta geração com
suas respectivas dosagens para cães, retiradas de trabalhos experimentais,
necessitando, ainda, de maiores estudos para a sua confirmação.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 155
D r o g aD r o g aD r o g aD r o g aD r o g a V i aV i aV i aV i aV i a Dosagem
p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cãesDosagem p/cães Dosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatosDosagem p/gatos
Cefepime IV/IM 20-40 mg/kg 6-8h.* ———-
Cefpirome IV 20 mg/kg 8-12h.* ———-
Cefquinome IM 5 – 20 mg/kg 8-12h.* ———-
Figura 4 – Cefalosporinas de quarta geração.
Fonte: Gardner; Papich, 2001; Limbert et al., 1991.
* Estas doses estão sendo utilizadas em trabalhos experimentais, não havendo, ainda, plena
segurança sobre sua utilização em cães.
USOS CLÍNICOS
As cefalosporinas de primeira geração continuam sendo os
antimicrobianos de eleição para a terapêutica empírica de muitas
enfermidades infecciosas adquiridas em nosso meio. Devido a sua atividade
predominantemente contra cocos gram-positivos, constituem os
antimicrobianos de primeira linha na maior parte das infecções cutâneas
e de tecidos moles. São eficientes no tratamento de infecções urinárias
causadas por E. coli, Proteus mirabilis e Klebsiella pneumoniae. Também
são úteis no tratamento das pneumonias, exceto nas causadas por
Haemophilus e Klebsiella. As cefalosporinas de primeira geração são os
antimicrobianos preferidos na profilaxia cirúrgica das cirurgias torácicas,
ortopédicas e abdominais, constituindo exceção as cirurgias de intestino
grosso e reto, que requerem um antimicrobiano com atividade anaeróbica
superior (HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et
al., 2001).
As cefalosporinas de segunda geração são ativas contra as bactérias
sensíveis às cefalosporinas de primeira geração, com a vantagem de
ampliar seu espectro contra as bactérias gram-negativas e alguns
anaeróbios. Proteus vulgaris, Klebsiella e Enterobacter são sensíveis aos
compostos desta geração. De maneira geral este grupo de fármacos são
pouco ativos contra Pseudomonas, Serratia e Enterococcus. São utilizadas
em infecções orais, respiratórias, genitais, urinárias, ósseas, intra-
abdominais e crônicas de tecidos moles. São utilizadas, também, na
profilaxia cirúrgica das cirurgias do cólon e do reto (HORNISH; KOTARSKI,
2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et al., 2001).
As cefalosporinas de terceira geração são utilizadas em infecções por
gram-negativos em pacientes hospitalizados, pneumonias adquiridas em
ambiente hospitalar e abscesso pulmonar, infecções pós-operatórias de
feridas, infecções urinárias causadas por catéteres, em associação com o
metronidazol nas infecções intra-abdominais, nas meningoencefalites
bacterianas, nas infecções genitais, nas infecções agudas ósseas e
articulares, em pacientes neutropênicos com febre, bacteremia/septicemia,
nas infecções por Pseudomonas, Enterobacter, Serratia e Citrobacter
(HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998; PERERA et al., 2001).
156 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
As cefalosporinas de quarta geração, especialmente o cefquinome está
sendo utilizado em mastites, infecções respiratórias e do casco em vacas
leiteiras, e infecções respiratórias de suínos e, mais recentemente em
eqüinos. Em pequenos animais, seu uso será preferencialmente hospitalar,
naquelas infecções causadas por bactérias altamente resistentes a outros
antimicrobianos, especialmente bactérias gram-positivas e gram-negativas
produtoras de beta-lactamases. Convém lembrar que o custo das
cefalosporinas de terceira e quarta gerações é um fator limitante na sua
utilização terapêutica. (HORNISH; KOTARSKI, 2002; MARÍN et al., 1998;
PERERA et al., 2001).
EFEITOS COLATERAIS
De acordo com Adams (2003) e Spinosa et al. (1999), as reações de
hipersensibilidade às cefalosporinas relatadas em humanos parecem ser
raras nas espécies domésticas.
As cefalosporinas podem causar paraefeitos tóxicos, alérgicos, irritativos
e superinfeção. No entanto, em humanos, a ocorrência desses efeitos é
pouco freqüente. Existe a possibilidade de reação alérgica cruzada em
cerca de 7 a 10% dos pacientes humanos alérgicos às penicilinas. Por via
IM causam dor, por via IV podem causar flebites pela ação irritativa local.
Manifestações gastrointestinais (náuseas, vômitos, dor abdominal e
diarréia) ocorrem em 1 a 2% dos pacientes. Fenômenos de
hipersensibilidade são possíveis, como rash cutâneo, eosinofilia,
neutropenia, febre e prurido. Manifestações alérgicas mais graves, como
anemia hemolítica e anafilaxia, são mais raras. As superinfecções
constituem ocorrência possível, já que promovem alterações importantes
das floras intestinal e respiratória (TAVARES, 2001).
Segundo Adams (2003), a cefoperazona, o cefamandol e a moxalactama
inibem a via dependente da vitamina K para a síntese dos fatores de
coagulação, podendo levar à hipoproteinemia e a coagulopatia. As
cefalosporinas na urina podem causar reação positiva falsa para glicosúria
e proteinúria.
CONCLUSÃO
Na clínica de pequenos animais o uso das cefalosporinas de primeira
geração, como a cefalexina, é bastante difundido, principalmente na clínica
dermatológica, enquanto que a cefalotina está substituindo, com
vantagem, a ampicilina na profilaxia cirúrgica, haja vista a grande
resistência bacteriana às penicilinas de segunda geração.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 157
As cefalosporinas de segunda geração absorvidas pela via oral, como o
cefaclor, ainda não são utilizadas na rotina da clínica dermatológica,
devido principalmente ao seu custo mais elevado, sendo prescritas quando
há indicação do antibiograma. A cefoxitina está iniciando seu uso mais
restrita aos pacientes hospitalizados, com histórico de infecção de maior
gravidade.
As cefalosporinas de terceira geração passaram a ser utilizadas com o
lançamento do ceftiofur, droga de uso exclusivo em veterinária, muitos
clínicos desconhecem a sua menor eficácia contra bactérias gram-positivas,
associando a classificação por gerações a eficácia crescente sobre todas
as bactérias. Soma-se a isso, a propaganda dos laboratórios farmacêuticos,
que escondem características que possam ser interpretadas como pontos
fracos que interferirão no desempenho das vendas de seus produtos.
O grupo das cefalosporinas de quarta geração praticamente não é utilizado
em pequenos animais, o cefquinome, cefalosporina de uso exclusivo em
veterinária foi aprovado, na Europa, para uso em vacas no ano de 1994,
como intramamário em vacas leiteiras em 1998, para uso em suínos no
ano de 1999 e para uso em eqüinos no ano de 2005. Esta cefalosporina
está tentando sua aprovação para uso em animais nos Estados Unidos,
mas está encontrando forte resistência por parte das Associações Médicas,
preocupadas com a disseminação da resistência bacteriana a outras
cefalosporinas de quarta geração, que muitas vezes são a última esperança
no tratamento de pacientes humanos com grave infecção por múltiplas
bactérias altamente resistentes aos antibióticos convencionais para essas
situações.
Certamente, o conhecimento profundo das drogas antimicrobianas e suas
indicações é a principal arma na luta contra as infecções que acometem
homens e animais, e esse conhecimento é fundamental para retardar o
surgimento da resistência bacteriana e garantir que os antimicrobianos
manterão sua eficácia ao longo do tempo.
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Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.
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VIANA, F. A. B. Guia Terapêutico Veterinário. Lagoa Santa: Editora Cem,
2003.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 159
Associação de ultra-sonografia,
urografia excretora e vaginocistografia
no diagnóstico de ectopia ureteral em
fêmea canina
Association of ultrasonography, excretory urography and vaginography
for diagnosis of ectopic ureter in a bitch
GRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo LGRÜN, Ricardo Luisuisuisuisuis – Médico Veterinário Residente do Setor de
Diagnóstico por Imagem da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)
TEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da CostaTEIXEIRA, Márcio Aurélio da Costa – Doutor, Professor Adjunto
da Disciplina de Diagnóstico por Imagem no Curso de Medicina
Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)
ALALALALALVES, LVES, LVES, LVES, LVES, Luis Cardosouis Cardosouis Cardosouis Cardosouis Cardoso – Doutor, Professor Adjunto das Disciplinas de
Diagnóstico por Imagem, Semiologia e Clínica I, no Curso de Medicina
Veterinária da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)
WITZ, Maria InêsWITZ, Maria InêsWITZ, Maria InêsWITZ, Maria InêsWITZ, Maria Inês – MSc., Professora Adjunta das Disciplinas de
Cirurgia e Odontologia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA)
GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – GEHLEN, Karine – MSc., Professora Adjunta da Disciplina de Cirurgia
no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
(ULBRA)
SILSILSILSILSILVVVVVA, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein –A, Gabriela Klein – Médica Veterinária Residente no Setor de
Clínica e Cirurgia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA)
OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – OLIVEIRA, Maria Eugênia Menezes – Médica Veterinária Residente
no Setor de Cirurgia no Curso de Medicina Veterinária da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA)
NORNORNORNORNORTE, Diego M. – TE, Diego M. – TE, Diego M. – TE, Diego M. – TE, Diego M. – Médico Veterinário Residente no Setor de Cirurgia
no Curso de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
(ULBRA)
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: maio 2007
Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Prof. Luis Cardoso Alves – Av. Farroupilha n°
8001 – Hospital Veterinário, Prédio 25, ULBRA Canoas/RS. CEP: 92420-280. E-mail:
vetcardoso@pop.com.br
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.159-167
160 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
RESUMO
Ureter ectópico é uma anormalidade congênita na qual um ou ambos
ureteres não terminam no trígono vesical, sendo a anormalidade
congênita mais comum do ureter. A ocorrência da ectopia ureteral é mais
comum em cães do que em gatos, sendo mais freqüente nas fêmeas de
ambas as espécies. O grau de hereditariedade deste distúrbio ainda não
foi estabelecido. Os sinais clínicos normalmente começam a ser observados
desde o nascimento até o desmame. Os ureteres não podem ser visualizados
em radiografias simples, sendo essencial a utilização de meios contrastados
para alcançar o diagnóstico preciso. O objetivo deste trabalho visa
demonstrar o diagnóstico da ectopia ureteral, utilizando diferentes
técnicas de exames por imagem, ultra-sonografia, radiografias
contrastadas, servindo como diagnóstico auxiliar, definitivo e comparativo,
demonstrando radiograficamente após dois meses a viabilidade do ureter
reimplantado cirurgicamente.
PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: ureter ectópico, ultra-sonografia, vaginocistografia,
urografia excretora, cães.
ABSTRACT
Ectopic ureter is a congenital abnormality in which one or both ureters
are not ending on the bladder trigone, being the most common ureter
congenital disturbance. The ocurrence of ectopic ureter is more frequent
in dogs than it is in cats, in females of both species. It is still unknown the
level of heredity. Clinical signs usually are observed on newborn or weaned
animals. The ureters are not seen on routine radiography, being necessary
the use of contrast medium. The objective of this work is demonstrate the
ectopic ureter diagnosis by means of different radiographic techniques, as
auxiliary diagnostic tools, showing radiographically the viability of re-
implanted ureters two months after surgery.
KKKKKey words:ey words:ey words:ey words:ey words: ectopic ureter, ultrassound, vaginocistografia, excretory
urography, dogs.
INTRODUÇÃO
A ectopia ureteral é uma anormalidade congênita na qual um ou ambos
ureteres não terminam no trígono vesical, e se deve à diferenciação anormal
dos ductos mesonéfricos e metanéfricos (CRAWFORD, 1993; BJORLING e
CHRISTIE, 1998; FORRESTER e LEES, 1998). Pode ser unilateral ou bilateral
e estar associado a outras anomalias congênitas do trato urinário e também
acompanhar desordens adquiridas como: hidronefrose, hidroureter,
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 161
hipoplasia da vesícula urinária e infecção do trato urinário (OWENS e BIERY,
1993; BJORLING e CHRISTIE, 1998; FORRESTER e LEES, 1998; HOSKINS,
2004; KEALLY e McALLISTER, 2005).
O acometimento bilateral é mais freqüente em cães, enquanto que em
gatos, os ureteres ectópicos unilaterais e bilaterais ocorrem com mesma
freqüência (BJORLING e CHRISTIE, 1998; KEALLY e McALLISTER, 2005).
Na fêmea, um ureter ectópico pode se abrir no interior da vagina, na
uretra, no colo da bexiga, no corpo ou colo uterino, e nos machos, os
ureteres ectópicos terminam na uretra pélvica (CRAWFORD, 1993;
BJORLING e CHRISTIE, 1998; FORRESTER e LEES, 1998; KEALLY e
McALLISTER, 2005). O ureter ectópico pode ter uma única abertura num
local anormal, ou pode ter abertura alongada para a bexiga (calha
ureteral), uma abertura dupla, ou pode terminar num fundo cego
(BJORLING e CHRISTIE, 1998).
Os ureteres ectópicos podem ser extraluminais desviando-se completamente
da bexiga ou intraluminais, correndo pela submucosa da bexiga, abrindo-
se na uretra ou vagina (FOSSUM, 2002). Em alguns casos, o
ureter
permanece completamente extramural, contornando totalmente a bexiga
antes de terminar na uretra, vagina ou útero. Ureteres ectópicos intramurais
são mais difíceis de observar radiograficamente (WALDRON, 1998).
Comumente encontra-se na presença da ectopia ureteral a incontinência
urinária intermitente ou contínua, vaginite em decorrência de queimaduras
com urina e eliminação normal da urina em alguns animais (CRAWFORD,
1993; STONE, 2003).
O diagnóstico de ureter ectópico pode ser confirmado pela radiografia
contrastada (urografia excretora, vaginocistografia), vaginoscopia ou
laparotomia exploratória (WALDRON, 1998). Os ureteres não podem ser
visualizados em radiografias simples, sendo essencial à utilização de meios
contrastados para alcançar o diagnóstico preciso (FEENEY e JOHNSTON,
1994; STONE, 2003; KEALLY e McALLISTER, 2005). A ectopia ureteral
somente pode ser detectada através da ultra-sonografia se houver dilatação
do ureter, ureterite ou obstrução. Alguns achados sonográficos ajudam a
confirmar a presença do ureter ectópico, como a ausência do jato ureteral
(pelo modo Doppler) e a visibilização do ureter ectópico passando
caudalmente pelo trígono vesical e inserindo-se na uretra próxima ao colo
da bexiga urinária ou na uretra prostática (NYLAND et al., 1995;
CARVALHO, 2004).
O diagnóstico diferencial de ectopia ureteral deve ser feito de micção
inapropriada, incompetência do mecanismo esfinctérico uretral,
desobstrução uracal, incontinência paradoxal, infecção no trato urinário
e poliúria grave associada com insuficiência renal, causada por nefropatia
congênita ou pielonefrite grave (STONE, 2003).
O tratamento cirúrgico freqüentemente corrige a incontinência associada
162 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
ao ureter ectópico em gatos, mas até 50 a 60% dos cães tratados
cirurgicamente podem apresentar algum grau de incontinência
(posicional, de esforço, noturna, ou de outro tipo) (BJORLING e CHRISTIE,
1998; FOSSUM, 2002). Deve-se realizar uma neoureterostomia em casos
de ureteres ectópicos intramurais. Caso seja extramural, dever-se-á
resseccioná-lo e reimplantá-lo no lúmen vesical. O tratamento com
agonistas dos receptores alfa-adrenérgicos podem aumentar o tônus do
esfíncter uretral e diminuir a incontinência pós-cirúrgica (FOSSUM, 2002).
A nefrectomia deve ser realizada apenas em casos de comprometimento
renal e quando o rim contralateral tiver plena capacidade funcional
(KOSACHENCO et al., 1994).
O objetivo deste trabalho visa demonstrar o diagnóstico da ectopia ureteral,
através de técnicas de exames radiográficos contrastados diferentes,
servindo como diagnóstico auxiliar e definitivo na detecção do ureter
ectópico, bem como, visualizar a funcionalidade do órgão após correção
da anomalia congênita cirurgicamente.
RELATO DE CASO
Uma fêmea com três meses de idade, da raça Poodle, foi atendida no HV-
ULBRA apresentando incontinência urinária. O animal estava recebendo
antibioticoterapia há duas semanas, sem melhora clínica, as fezes estavam
normais, havia recebido duas doses de vacina polivalente e vermífugo.
Ao exame clínico constatou-se temperatura retal (TR) 38,5°C, mucosas
rosadas, freqüência cardíaca (FC) de 132 bpm, ausculta respiratória
normal, hidratação e tempo de preenchimento capilar (TPC) normais. Foi
constatada presença de urina nos pêlos da região perineal, não sendo
possível a palpação da vesícula urinária. A suspeita clínica inicial era de
cistite ou anormalidade congênita.
Foi coletado sangue e urina para exames, os quais apresentaram-se sem
alterações dignas de nota. Foi solicitada ultra-sonografia abdominal com
ênfase no trato urinário. Durante a realização do exame de ultra-som
foi constatada uma linha não ecogênica contígua à bexiga sugerindo
um ureter ectópico dilatado, conforme ilustra a Figura 1. Para melhor
definição do diagnóstico foi solicitado que o paciente fosse submetido a
um jejum total de 24 horas e enema para realização de urografia
excretora.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 163
O animal foi anestesiado com infusão contínua de propofol, inicialmente
foi realizada uma radiografia abdominal lateral simples (Figura 2) na
qual não foram constatadas alterações. Após foi injetado 10 ml de contraste
iodado por via endovenosa repetindo-se a radiografia látero-lateral (Figura
3). Neste exame foi possível constatar os rins, pelve renal com dilatação
no lado direito e os ureteres com o direito mais calibroso, foi ainda
observado presença de contraste na bexiga, não sendo possível visibilizar
a inserção dos ureteres na bexiga. Realizou-se então uma vaginocistografia,
injetando-se 10 ml de contraste iodado através de uma sonda de foley n°4
inserida no vestíbulo, com o bulbo inflado. O volume de contraste injetado
foi suficiente para distender a vagina, penetrar no ureter ectópico (direito)
atingindo até a pelve renal. O contraste também penetrou no útero
permitindo também a identificação dos cornos uterinos. Somente após
este exame foi possível confirmar com maior precisão o diagnóstico de
dilatação do ureter direito e ectopia do mesmo com inserção na parede
dorsal da vagina, conforme ilustram as figuras 4 e 5.
Figura 1 – Ultra-sonografia evidenciando uma linha não ecogênica contígua à bexiga (seta),
sugerindo ureter ectópico dilatado.
Figura 2 – Radiografia abdominal látero-lateral simples sem alterações visíveis.
164 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Figura 3 – Radiografia látero-lateral após urografia excretora com o contraste já na bexiga
(seta), inconclusiva para o diagnóstico da ectopia ureteral.
D
Figura 4 – Radiografia ventrodorsal logo após vaginocistografia evidenciando o preenchimento
de contraste da bexiga, do corno uterino esquerdo (seta larga) e dos ureteres na saída da pelve
(seta estreita).
Figura 5 – Radiografia látero-lateral após vaginocistografia, evidenciando dilatação do ureter
(seta larga) e ectopia ureteral na parede dorsal da vagina (seta estreita).
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 165
Foi realizado procedimento cirúrgico de neoureterostomia do ureter
ectópico no local anatômico normal, e foi solicitado que o animal
retornasse para realização de vaginocistografia controle após 30 dias.
Na data prevista o proprietário retornou com o animal, que se apresentava
ativo, alimentando-se bem e sem sinais de incontinência urinária. Repetiu-
se a urografia excretora injetando-se 10 ml de contraste iodado por via
endovenosa seguida de vaginocistografia com aplicação de 15 ml de
contraste iodado através de uma sonda uretral n° 6, refazendo as mesmas
posições radiográficas anteriores. Neste exame pode-se observar que o
contraste preencheu a bexiga, identificam-se os ureteres junto ao trígono
vesical, porém não se observa mais a imagem do mesmo inserido na vagina
o que confirma sua funcionalidade (Figura 5).
DISCUSSÃO
Confirmou-se no relato descrito a vagina como órgão preferencial para a
localização do ureter ectópico, conforme relatos de Bjorling e Christie
(1998), Stone (2003), Keally e Mcallister (2005). Também se pode observar
que o local mais comumente descrito dos ureteres ectópicos em relação à
bexiga é a posição intramural, no interior da parede da bexiga, comumente
entre a muscular e a submucosa descrito por Bjorling e Christie (1998).
Existem muitas limitações para o diagnóstico de ureter ectópico pelo ultra-
som, confirmando a solicitação de um exame complementar mais
específico (CARVALHO, 2004). Os transdutores de alta resolução e uma
experiência considerável em ultra-sonografia são necessários para alcançar
o diagnóstico (KEALLY e McALLISTER, 2005).
O método de escolha pela maioria dos autores para diagnosticar o ureter
ectópico é a urografia excretora, que fornece informações acerca das
dimensões das pelves renais e dos ureteres, podendo identificar o local de
desembocadura dos ureteres (WALDRON,
1998). No presente estudo esta
Figura 6 – Radiografia látero-lateral controle 30 dias de pós-operatório após urografia excretora
e vaginocistografia com contraste apenas na bexiga.
166 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
técnica não foi satisfatória possivelmente pela sobreposição na região
hipogástrica, houve necessidade de acrescentar outro exame contrastado para
visualização da ectopia ureteral, concordando com os autores que descrevem
o uso combinado da urografia excretora associada com a vaginocistografia
(BJORLING e CHRISTIE, 1998; RUBIN, 2002; HUDSON et al., 2003).
No caso relatado o animal retornou após dois meses, não apresentando
sinais de incontinência urinária. Na repetição da urografia excretora e
vaginocistografia, constatou-se a ausência do ureter ectópico, que associada
à avaliação clínica permitiu concluir pela normalização do quadro clínico.
A avaliação repetida após alguns meses é importante, já que 50 a 60% das
cadelas permanecem incontinentes após serem tratadas cirurgicamente,
provavelmente devido a fatores iatrogênicos (STONE, 2003).
CONCLUSÃO
A associação da ultra-sonografia com duas técnicas radiográficas
contrastadas foi útil para melhorar o grau de precisão na identificação e
localização da ectopia ureteral, visibilizando-se o trato urinário superior
através da urografia excretora e sendo possível delimitar a inserção na
parede dorsal da vagina a partir da vaginocistografia.
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Ventriculite parasitária por
Libyostrongylus sp em avestruz
(Struthio camelus) e identificação
de ovos do parasita em amostras
de fezes de ratitas de diferentes
criatórios do Estado do Rio Grande
do Sul
Parasitary ventriculitis in ostriches (Struthio camellus) by Libyostrongylus
sp., and identification of eggs of the parasite in samples of feces from
ratites reared in different farms in the State of Rio Grande do Sul
MORMORMORMORMOREIRA, Pierre do VEIRA, Pierre do VEIRA, Pierre do VEIRA, Pierre do VEIRA, Pierre do Valle – alle – alle – alle – alle – Aluno da Pós-Graduação em Residência.
Médico Veterinário da Universidade Luterana do Brasil.
CHIMINAZZOCHIMINAZZOCHIMINAZZOCHIMINAZZOCHIMINAZZO, Cláudio Cláudio Cláudio Cláudio Cláudio – Médico Veterinário, MSc, Faculdade de
Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
QUEIROLOQUEIROLOQUEIROLOQUEIROLOQUEIROLO, Maria TMaria TMaria TMaria TMaria Teresa – eresa – eresa – eresa – eresa – Médica Veterinária, Faculdade de
Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
FESERFESERFESERFESERFESER, Mariane – Mariane – Mariane – Mariane – Mariane – Médica Veterinária, Centro de Estudos da
Universidade Luterana do Brasil (CEULBRA)
CERESERCERESERCERESERCERESERCERESER,,,,, VVVVVictor Hermes – ictor Hermes – ictor Hermes – ictor Hermes – ictor Hermes – Médico Veterinário, MSc, Doutor,
Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
ESMERALDINOESMERALDINOESMERALDINOESMERALDINOESMERALDINO, Anamaria T, Anamaria T, Anamaria T, Anamaria T, Anamaria Telles –elles –elles –elles –elles – Médica Veterinária, MSc, Doutora,
Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
DIFINI, RDIFINI, RDIFINI, RDIFINI, RDIFINI, Renata – enata – enata – enata – enata – Acadêmica do Curso de Medicina Veterinária da
Universidade Luterana do Brasil
FFFFFALLALLALLALLALLAAAAAVENA, LVENA, LVENA, LVENA, LVENA, Luiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – uiz Cesar Bello – Médico Veterinário, MSc, Doutor,
Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Luterana do Brasil
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: fevereiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007
Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: pi_vet@yahoo.com
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.169-176
170 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
RESUMO
Relata-se trabalho realizado pelos laboratórios de histopatologia e
parasitologia do Hospital Veterinário da ULBRA no período de 2006, no
qual se identificou um caso de ventriculite causada por Libyostrongylus
sp.em um avestruz e a infecção por esse nematódeo em varias aves criadas
em quatro propriedades no estado do Rio Grande do Sul (BRASIL). O
ventrículo de um avestruz encontrado morto foi remetido ao laboratório
de Histopatologia desse hospital, tendo sido processado pela técnica
rotineira e posteriormente examinado, tendo sido constatada a presença
de vários parasitos incluídos na camada coilínea, a qual apresentava
espessamento, erosões e áreas de hemorragia. A partir de então, procedeu-
se ao exame parasitológico de amostras de fezes de avestruzes de criações
em que se constatavam perdas significativas, assim como também foram
coletados materiais de aves com suspeita da infecção. As fezes da ave
encontrada morta, assim como as de outras com suspeita da infecção
foram enviadas para o laboratório de parasitologia e processadas para
identificação e quantificação dos ovos. A contagem dos ovos mostrou uma
grande amplitude que variou entre 50 à 7600 opg. Também foi realizado
o cultivo das fezes desses mesmos animais, com intuito de identificar o
parasita na fase de larva infectante,
confirmando a presença do parasita
no Estado. O trabalho demonstra a necessidade de novos estudos que
possibilitem estabelecer uma relação positiva entre os achados de necropsia
e os valores de opg e coprocultura.
PPPPPalavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chave: avestruzes, Libyostrongylus sp., histopatologia,
parasitologia.
ABSTRACT
It is reported a work carried out by the Histopathology and the Parasitology
laboratories of the Veterinary Hospital of the Lutheran University of Brazil
(ULBRA), that allowing to identify a case of ventriculitis caused by
Libyostrongylus sp in an ostrich and the parasitism by this nematode in
several ostriches reared in four farms of the State of Rio Grande do Sul,
Brazil. The ventriculus of a bird found dead was sent to the Histopathology
Laboratory and processed by routine techniques for histopathological
examination. Microscopically, several parasites embedded in the mucosal
surface were observed, and the lining of the gizzard presented thickening,
erosions and hemorrhagic areas. After this finding, parasitological
examinations were carried out in fecal samples from ostriches of rearing
farms in which important losses had occurred. All fecal samples, including
feces previously collected from the ostrich diagnosed with parasitary
ventriculitis were processed by the Parasitology laboratory in order to
identify and to count eggs of parasites. The results indicated that the epg
values display large amplitude, varying from 50 to 7600. Coprocultures
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 171
allowed identifying infecting larvae of Lybiostrongylus sp., confirming the
presence of this parasite in ostriches, in Rio Grande do Sul State.
KKKKKey words: ey words: ey words: ey words: ey words: Ostriches, Libyostrongylus sp., histopatology, parasitology.
INTRODUÇÃO
A estrutiocultura (criação de avestruzes) tem origem na África do Sul e
iniciou em torno de 1863 (NELL, 1995, apud SILVA, 2001), onde
atualmente está localizado o maior plantel do mundo. A estrutiocultura
tem demonstrado grande destaque como importante alternativa para a
agropecuária, tendo em vista seu grande potencial para exploração
racional como fonte de produtos como carne, couro, plumas e outros
(HUCHZERMEYER, 2000).
Essas aves são classificadas como ratitas, termo originado do latim ratis,
que significa canoa, pela aparência do osso esterno que é achatado e pode
ser utilizado para se defender de outros machos.
As ratitas diferenciam-se das outras aves pela ausência da quilha no osso
esterno (a quilha é responsável por abrigar os músculos do vôo nas aves
voadoras), assim como também pela falta da glândula uropigiana e do
papo (utilizam a moela para estocagem dos alimentos), e pela separação
das fezes e da urina na cloaca (SILVA, 2001).
O avestruz é a maior ave viva na natureza, é corredora e incapaz de voar,
possui asas muito fortes utilizadas para lutar contra seus oponentes, para
rituais de acasalamento e para a termoregulação (HUCHZERMEYER,
2000).
A estrutiocultura vem demonstrando uma grande expansão nos últimos
anos no nosso país, com um plantel em formação, de cerca de 200 mil
aves distribuídas em várias regiões do país. Estima-se que sua plena
industrialização deva ocorrer nos próximos três anos (SATHYANAYARANA
et al., 1981, apud MARINHO et al., 2005; ACAB, 2005). Segundo dados do
ano de 2005 da ACAB (Associação dos criadores de Avestruzes do Brasil),
o Brasil já demonstra, pela experiência dos seus estrutiocultores, que a
atividade é uma ótima opção econômica, pois o país oferece boas
características naturais tais como: clima, alimentos, mão-de-obra e infra-
estrutura pecuária de fácil adaptação.
Uma das grandes dificuldades dessa atividade é reconhecer animais
enfermos, devido à falta de histórico clínico dos animais, uma vez que
avestruzes doentes não demonstram alteração de comportamento para
não chamar a atenção dos predadores, tendendo a se comportarem
naturalmente até que sua energia chegue ao limite, morrendo subitamente
(HUCHZERMEYER, 2000). As infecções gástricas parasitárias também
172 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
podem apresentar-se assintomáticas (animais adultos) ou ainda não
produzirem sinais clínicos específicos, podendo o clínico não saber
interpretá-las, e classificá-las erroneamente como impactações gástricas
(HUCHZERMEYER, 2000; GORDO et al., 2002).
Essa falta de sinais clínicos específicos nas gastrites parasitárias, além do
desconhecimento do manejo adequado nessa enfermidade, exigem um
estudo mais aprimorado sobre os agentes etiológicos, patogenia, sinais
clínicos, padronização dos métodos de identificação e tratamento.
Segundo Hurchzermeyer (2000); Gordo et al. (2002) e McKenna (2005),
o gênero Libyostrongylus sp. é causador de gastrite parasitária, também
conhecida como síndrome de “vrootmag” ou ainda “rotten stomach”, e a
espécie mais patogênica, de acordo com os mesmos, é o L. douglasii.
Conforme Lapage (1974), Angus (1978), Soulsby (1984) apud
Hurchzermeyer (2000), Gordo et al. (2002), Mackerethg et al. (2004) e
McKenna (2005), o Libyostrongylus sp. é um endoparasita cosmopolita,
espoliador de sangue, cujo ciclo é similar ao de outros Trichostrongylus sp.
Este parasita atinge a maturidade em 33 dias, sendo que a partir do 36o
dia ovos já podem ser encontrados nas fezes dos animais infectados. Os
ovos transformam-se em larvas infectantes em 60 a 120 horas, caso as
condições ambientais sejam favoráveis; ovos embrionados podem resistir
por até 3 anos no ambiente, enquanto que larvas infectantes duram nove
ou mais meses.
De acordo com Angus (1978) e Huchzermeyer (2000), as formas jovens
desses endoparasitas fazem escavações na camada de revestimento interno
(coilina) do proventrículo e da moela, sugando sangue e causando anemia
severa, além de uma reação inflamatória grave, o que resulta na morte de
indivíduos jovens (GORDO et al., 2002).
Segundo Huchzermeyer (2000), Bastianello et al. (2005) e McKenna
(2005), o diagnóstico pode ser obtido pela necropsia e pelo exame
histológico. À necropsia, os parasitas são expostos pela retirada da coilina
do proventrículo e da moela, sendo que, ao exame histológico são
visualizados fragmentos dos parasitas aderidos à membrana desses órgãos.
Por outro lado, existem técnicas de identificação de nematódeos, que
consistem no exame parasitológico de fezes, (nos quais se observam ovos
do tipo Strongyloidea) e também a coprocultura, técnica para obtenção e
identificação de larvas infectantes, esta última permitindo a diferenciação
entre Libyostrongylus sp. e Codiostomum struthionis (THEILER e
ROBERTSON, 1915; BARTON e SEWARD, 1993, apud HUCHZERMEYER,
2000; BARTON e SEWARD,1993, apud GORDO et al., 2002).
O presente trabalho visa relatar o encontro desses parasitas no
proventrículo de uma ave, bem como divulgar os resultados de exames de
fezes de avestruzes de diversos criatórios do Rio Grande do Sul.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 173
RELATO DE CASO
Foi remetida ao laboratório de histopatologia do Hospital Veterinário da
ULBRA/ Canoas, fixada em formalina a 10%, a moela de um avestruz
encontrado morto em um criatório do Estado, seguindo-se o
processamento histológico rotineiro, incluindo a desidratação, clarificação,
impregnação em parafina, microtomia e a coloração dos cortes pelo
método da hematoxilina e eosina (LUNA, 1968). Deste animal foram
também recebidas fezes para exame parasitológico.
Para a obtenção de ovos que possibilitariam a identificação do parasita
foram colhidas e remetidas ao Laboratório de Parasitologia do mesmo
Hospital Universitário, quarenta e sete amostras de fezes de avestruzes de
sexo e idade variadas, procedentes de criatórios localizados no interior do
RGS. A colheita das fezes foi realizada e armazenada em luvas ou em
recipientes plásticos (datados e identificados conforme
o número do
piquete), e em seguida encaminhadas ao laboratório. Após, iniciou-se a
contagem de ovos por grama de fezes e a identificação das larvas
infectantes obtidas pela coprocultura.
Para a quantificação dos ovos das fezes dos avestruzes, utilizou-se a técnica
de Gordon e Whitlock ou OPG (ovos por grama de fezes), como no trabalho
de Bonadiman et al. (2006). Para tanto, foram pesadas 4g de fezes e, ao
material triturado, acrescentou-se 56 ml de solução fisiológica. Do material
fecal homogeneizado, tamisado e novamente homogeneizado, retirou-se com
auxílio de uma pipeta plástica de Pasteur, um volume aproximado de 0,20 ml
para preenchimento de cada uma das células da câmara de McMaster. Para
realização da leitura em microscópio, com aumento de 10X, aguardou-se 2
minutos esperando-se os ovos flutuarem. Procedeu-se a contagem do número
de ovos do tipo Strongyloidea, entre as linhas de cada célula da câmara de
McMaster. Os valores encontrados por célula foram somados e multiplicados
por 50, revelando o número estimado de ovos por grama de fezes na amostra.
A técnica de Roberts e O’Sullivan ou Coprocultura (HOFFMANN e FORTES,
1987), foi utilizada para obtenção e identificação de larvas infectantes. Como
a literatura a respeito da quantidade de material (fezes, serragem) para
executar essa técnica em avestruzes não é padronizada, optou-se em utilizar
o mesmo procedimento adotado para ovinos. Misturaram-se as fezes já
trituradas com serragem num frasco de vidro identificado, na proporção de
1:1. Umidificou-se a mistura e cobriu-se com uma Placa de Petry. O material
foi colocado na estufa a 27°C por uma semana, buscando o desenvolvimento
e a eclosão dos ovos até a liberação das larvas infectantes. Após este tempo,
retirou-se o frasco de vidro com a cultura da estufa, acrescentou-se água
morna até preencher o frasco, formando um menisco na parte superior.
Cobriu-se com uma placa de Petry e inverteu-se. No espaço livre da placa
colocou-se mais um pouco de água morna (40ºC), deixando-se em repouso
durante uma hora. Nesse período, as larvas infectantes da cultura de fezes
migraram para a placa. Retirou-se o líquido da placa, colocou-se em um
174 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
tubo de ensaio e refrigerou-se em repouso até sedimentar. Desprezou-se o
sobrenadante e uma gota do sedimento com larvas foi colocada em uma
lâmina; após, acrescentou-se uma gota de solução de Lugol a 1%, o que
provocou a morte e a coloração das larvas. (HOFFMANN e FORTES, 1987).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O diagnóstico de infecções por Libyostrongylus sp. em ratitas, segundo
Huchezermeyer, (2000); Mackerethg (2004) e Bastianello et al. (2005)
pode ser baseado na presença de sinais clínicos, nos exames histopatológicos
e também na detecção de ovos nos exames parasitológicos.
Ao exame histopatológico, o órgão evidenciou intenso espessamento da
camada de revestimento (coilina), hiperplasia glandular e a presença de
numerosos fragmentos de parasitos nematódeos incluídos na mucosa do
órgão (Figura 1). A morfologia dos parasitos foi considerada compatível
com a do Libyostrongylus sp.
Figura 1 – Moela. Presença de nematódeo infiltrado na mucosa. H X E, 100 X.
Neste estudo, foram processadas amostras de fezes de aves, de quatro
diferentes propriedades, sendo encontrados animais positivos para ovos
do tipo Strongyloidea (Figura 2) em todos criadouros.
Figura 2 – Ovo tipo Strongyloidea de Libyostrongylus sp
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 175
Na propriedade 1, foram processadas 3 amostras (3/3 positivas); na
propriedade 2, foram processadas 3 amostras (3/3 positivas); na propriedade
3 foram processadas 9 amostras (8/9 positivas) e na propriedade 4, foram
processadas 32 amostras (17/32 positivas). Para a realização da técnica de
OPG, 4 gramas de fezes foram processadas e a amplitude para o OPG obtida
nas amostras testadas variou de 50-7.600 ovos por grama de fezes. Bastianello
et al. (2005) em seu trabalho, citam uma amplitude para o OPG variando
entre 100-20.500 ovos por grama de fezes, em duas propriedades analisadas.
Os resultados obtidos com a técnica de Gordon e Whitlock permitem ao
médico veterinário realizar o controle parasitológico de um lote ou piquete,
quantificando os ovos encontrados nas fezes.
Através das coproculturas realizadas, foram obtidas e identificadas larvas
infectantes de Libyostrongylus sp.,(Figuras 3 e 4), confirmando a presença
do parasita no Brasil.
Figura 3 – Porção caudal de larva infectante de Libyostrongylus sp.
Figura 4 – Detalhe da cauda da larva infectante, terminando em botão.
CONCLUSÃO
Conclui-se, pela realização deste trabalho, que a infecção por
Libyostrongylus sp. é uma causa de gastrite parasitária em avestruzes, e
que a presença deste nematódeo é uma realidade em diferentes criatórios
no Rio Grande do Sul. A larga amplitude na contagem de OPG observada
indica a presença de diferentes cargas parasitárias, enfatizando a
176 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
necessidade de novos estudos que visem correlacionar os resultados
encontrados no OPG com a patogenicidade do agente, bem como
padronizar as técnicas de diagnóstico.
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e creche em uma Unidade
Produtora de Leitões (UPL) no Rio
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Diarrhoea in suckling and weaned pigs into a Piglets Production Unit
(PPU) in Rio Grande do Sul, Brazil
LLLLLAPENTAPENTAPENTAPENTAPENTA DA DA DA DA DA CUNHA, ManuelaA CUNHA, ManuelaA CUNHA, ManuelaA CUNHA, ManuelaA CUNHA, Manuela – Médica Veterinária
COELHOCOELHOCOELHOCOELHOCOELHO, Carolini F, Carolini F, Carolini F, Carolini F, Carolini F. –. –. –. –. – Médica Veterinária
ABILEIRA, FABILEIRA, FABILEIRA, FABILEIRA, FABILEIRA, Fernanda S.ernanda S.ernanda S.ernanda S.ernanda S. – Médica Veterinária, Residente de
Microbiologia, Laboratório de Bacteriologia e Micologia, Hospital
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GOULGOULGOULGOULGOULARARARARART DO NAT DO NAT DO NAT DO NAT DO NASCIMENTOSCIMENTOSCIMENTOSCIMENTOSCIMENTO, L, L, L, L, Luís G. –uís G. –uís G. –uís G. –uís G. – Médico Veterinário, Setor
de Suínos, COSUEL, Encantado, RS
HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. –HINNAH, Eloi G. – Médico Veterinário, Setor de Suínos, Cooperativa
Languirú, Teutônia, RS
OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de OLIVEIRA, Sérgio J. de – Prof. Dr.Curso de Medicina Veterinária,
Laboratório de Bacteriologia e Micologia, Hospital Veterinário, ULBRA
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007
Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência: Av Farroupilha, 8001, Canoas, RS, Bairro São
José, Prédio 14, Sala 127. CEP 92425-900. Sérgio J. de Oliveira. E-mail:
serjol@terra.com.br
RESUMO
Foi constatado surto de diarréia em leitões na maternidade e creche de uma
Unidade Produtora de Leitões (UPL) no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil.
Observou-se que uma das principais perdas na granja UPL devia-se à diarréia
em leitões. Havia a presença de fezes líquidas e pastosas amareladas no
piso da maternidade e da creche sendo que os leitões apresentavam o períneo
sujo pela defecação. Era rotina na granja o uso de toltrazuril contra a
coccidiose na primeira semana de vida dos leitões. Era também utilizada
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.177-184
178 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
injeção de gentamicina em todos os leitões da mesma baia,
independentemente de apresentarem ou não diarréia. Outro procedimento
rotineiro da granja era a administração de ácido (fórmico, propiônico) na
água de beber. Frente a este problema e não havendo melhora mesmo com
as medicações, foi colhido material fecal com o uso de suabes, de casos de
diarréia na maternidade e creche. Foram colhidas semanalmente 30 amostras,
durante cinco semanas, no total de 155 amostras, sendo 97 de leitões na
maternidade e 58 da creche. Os materiais foram examinados no Laboratório
de Bacteriologia do Hospital Veterinário da ULBRA, Campus Canoas, RS.
Foram isoladas 13 amostras de Escherichia coli hemolíticas e 140 de E. coli
não hemolíticas. E. coli hemolíticas foram isoladas respectivamente de 12
amostras de fezes de leitões na creche e uma de leitão na maternidade. Os
resultados dos antibiogramas revelaram resistência aos antimicrobianos
previamente utilizados na granja. Com o uso dos antibióticos indicados
pelos antibiogramas houve o controle dos casos de diarréia.
PPPPPalavras-chave: alavras-chave: alavras-chave: alavras-chave: alavras-chave: diarréia em leitões, maternidade, creche, colibacilose.
ABSTRACT
Diarrhoea in suckling and weaned pigs was the most important cause of
economic losses in a Piglet Production Unit (PPU) in the State of Rio Grande
do Sul, Brazil. Yellowish liquid feces were seen in the maternity and nursery
floors and on the piglets bodies. The PPU had as routine the use of toltrazuril
for the control of coccidiosis at the first week of life of the piglets, also it was
used injection of gentamycin into all the piglets from the litter when there
was the occurrence of diarrhoea. Facing this problem, because the procedures
did not improuve the health and did not reached the control of diarrhoea,
increasing economic losses, were collected rectal swabs from piglets
presenting liquid feces, from maternity and nursery, 30 samples/ week, for
five weeks, in a total of 155 samples, being 97 from suckling pigs and 58
from weaned pigs. Material was submitted to bacteriology in the Laboratory
of Bacteriology from the University Veterinary Hospital. It was isolated 13
strains of haemolytic E. coli and 140 non haemolytic E. coli. The results of
the antimicrobial susceptibility tests (AST) showed resistence of E. coli to
the previous treatment of routine. The use of antimicrobials shosen by AST
was effective for the control of colibacilosis.
KKKKKey words:ey words:ey words:ey words:ey words: Diarrohea in pigs, maternity, nursery, colibacilosis.
INTRODUÇÃO
Considera-se uma granja certificada quando esta se enquadra na
Instrução Normativa no 19 de 15 de fevereiro de 2002, sendo uma das
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 179
exigências a realização de exames semestrais em reprodutores para
diagnóstico de brucelose, tuberculose, sarna, doença de Aujeszky e peste
suína clássica. Além dessas doenças, a leptospirose deve ser controlada
por vacinação ou a granja deve ser livre da doença. Os veículos devem ser
desinfetados antes de entrarem na granja, funcionários e visitantes devem
banhar-se e vestir roupas da granja, além da passagem por pedilúvio antes
de cada sala. Em cada sala desocupada realiza-se o sistema “todos dentro
todos fora”, procedendo-se à limpeza e desinfecção, primeiramente
utilizando vassoura de fogo, a seguir a lavagem com água e desinfetante,
deixando-se um vazio sanitário de 48 a 72 horas antes do repovoamento.
Não é permitida a entrada de cães e gatos, há o controle de roedores e
moscas, bem como a proteção com tela antipássaros em todas as salas.
Os animais mortos destinam-se à compostagem, a limpeza de cada sala é
realizada duas vezes ao dia.
A granja em estudo possui todos os itens e realiza as práticas acima
mencionadas, sendo objetivo deste artigo relatar sucintamente o manejo
utilizado em uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) no Rio Grande do
Sul, bem como os procedimentos em casos de diarréia em leitões de
maternidade e creche.
Uso de vacinas na UPL
As leitoas sendo desmamadas e destinadas á recria recebem duas doses,
sendo uma entre 7 a 10 dias de idade e outra um dia antes do desmame,
das seguintes vacinas:
• Vacina contra a circovirose
• Vacina contra a rinite atrófica
• Vacina contra a pasteurelose
• Vacina contra a erisipela suína
Leitões machos e fêmeas destinados à terminação para abate são vacinados
nas mesmas idades, isto é, aos 10 dias e 20 dias contra a circovirose e um
dia antes do desmame são vacinados contra a pneumonia enzoótica. Na
Tabela 1 consta o esquema de vacinação dos reprodutores.
180 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Tabela 1 – Esquema de vacinação de leitoas, porcas e machos.
VVVVVacinasac inasac inasac inasac inas PorcasPorcasPorcasPorcasPorcas LeitoasLeitoasLeitoasLeitoasLeitoas MachosMachosMachosMachosMachos
Colibacilose Aos 100 dias de gestação 1a dose: 85 dias de gestação Não vacinam
2a dose: 100 dias de gestação
Rinite atrófica Aos 100 dias de gestação 1a dose: 85 dias de gestação A cada 6 meses
2a dose: 100 dias de gestação
Parvovirose 14 dias antes da cobertura 1a dose aos 165 dias de idade A cada 6 meses
2a dose 21 dias após
Pneumonia enzoótica Não vacinam Uma dose no recebimento Uma dose no recebimento
Circovirose A cada 6 meses Uma dose no recebimento A cada 6 meses
Leptospirose 14 dias antes da maternidade 1a dose aos 165 dias de idade Uma dose a cada 6 meses
2a dose 21 dias após
Manejo das reprodutoras
As fêmeas em gestação são distribuídas em compartimentos específicos,
respectivamente um pavilhão para leitoas primíparas e outro para porcas
com mais de dois partos. Leitoas recebem manejo diferenciado, pois se
espera que apresentem três cios para que
seja realizada a inseminação
artificial, com cerca de 210 dias de idade, sendo estimuladas diariamente
pelo macho para diagnóstico de cio. A fêmea detectada em cio recebe
uma marca para após 12 horas ser inseminada, repetindo-se duas vezes
de 12 em 12 horas, portanto em três doses. Todos os animais cobertos são
colocados em celas individuais e permanecem até 40 a 42 dias de gestação,
quando é confirmada a gestação através de equipamento de ultra-som.
Após a confirmação, são distribuídas em baias coletivas. A permanência
por aquele período em celas individuais tem o objetivo de evitar ou diminuir
a reabsorção de embriões e o conseqüente retorno ao cio.
Manejo de leitões de maternidade e creche
Os leitões na maternidade, logo após o nascimento, são envoltos em pó
secante para retirar a umidade de secreções oriundas do parto e auxiliar
a cicatrização do umbigo. Após recebem ferro injetável e são cortadas as
caudas. Em torno de 7 a 10 dias de idade os machos são castrados e todos
os leitões são vacinados. Leitões nascidos de parto com mais de doze
animais são transferidos para outra mãe que pariu em menor quantidade.
Quando os leitões completam 21 dias são transferidos para a creche. Nesta,
os leitões são agrupados em cerca de 16 por baia, e cada pavilhão contém
21 baias, totalizando 4.000 leitões. Após 64 dias de vida, pesando em torno
de 24 kg são transferidos para recria e terminação.
Manejo dos cachaços
Os machos selecionados são utilizados na inseminação artificial, sendo
colhido o sêmen a cada 7 dias, de acordo com a necessidade de fêmeas
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 181
que apresentem cio. Com três anos de idade os machos são castrados e
descartados, podendo sê-lo antes desta idade caso haja problemas de
infertilidade.
Ocorrência de diarréia em leitões
Na produção comercial de suínos, uma das principais causas de perdas
econômicas consiste na ocorrência de diarréia em leitões lactentes,
causando redução no desempenho de crescimento e mortalidade. As
enterites são doenças de natureza multifatorial, incluindo-se estresse,
ambiente contaminado, suínos portadores, nutrição deficiente, entre
outros. Segundo Alfieri (2003) devem ser considerados os custos adicionais
com a aquisição de medicamentos, mão de obra, menor desempenho dos
animais, desuniformidade dos lotes e predisposição dos leitões a outras
infecções, principalmente aquelas que acometem o trato respiratório. Na
Tabela 2, estão relacionadas as doenças entéricas mais freqüentes em
suínos, relacionadas à idade em que ocorrem.
Tabela 2 – Doenças entéricas mais freqüentes em suínos, relacionadas à idade de ocorrência.
D o e n ç a sD o e n ç a sD o e n ç a sD o e n ç a sD o e n ç a s IdadeIdadeIdadeIdadeIdade
Colibacilose 24h a 6 semanas
Clostridiose 1 dia a 2,5 semanas
Gastroenteríte transmissível 2 a 5 semanas
Rotavirose 1 dia a 5 semanas
Coccidiose 5 dias a 4 semanas
Salmonelose 3 semanas a 30 semanas
Disenteria suína 7 semanas a 30 semanas
Enterite necrótica, E. proliferativa 10 semanas 5 meses
Enterite proliferativa hemorrágica 4 meses até adulto
Úlcera gástrica 4 meses até adulto
 Mod. de Roppa (2003)
MATERIAIS E MÉTODOS
Frente à ocorrência de perdas por diarréia e não havendo melhora mesmo
com as medicações, foi colhido material fecal com o uso de suabes, de
casos de diarréia na maternidade e creche. Foram colhidos semanalmente
30 amostras, durante cinco semanas, no total de 155 amostras, sendo 97
de leitões na maternidade e 58 da creche.
Os materiais foram examinados no Laboratório de Bacteriologia do
Hospital Veterinário da ULBRA, Campus Canoas, RS. Cada suabe foi
inoculado em meios sólidos de Agar-sangue e MacConkey e incubados
em aerobiose por 24 horas. Assim também foi inoculada uma placa de
182 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Agar Sangue para cada material, incubando-se em jarra de anaerobiose,
por 48 horas. As culturas bacterianas foram identificadas pela forma das
colônias e realização de testes bioquímicos, sendo após verificada a
resistência a antimicrobianos (OLIVEIRA, 2000).
RESULTADOS
Observou-se que uma das principias perdas na granja UPL eram devidas a
diarréia em leitões. Havia a presença de fezes líquidas e pastosas
amareladas, no piso da maternidade e da creche e os leitões apresentavam
o períneo sujo pela defecação. Era rotina na granja o uso de toltrazuril
contra a coccidiose na primeira semana de vida dos leitões. Era também
utilizado injeção de gentamicina em todos os leitões da mesma baia,
independente de apresentarem ou não diarréia. Outro procedimento
rotineiro da granja era a administração de ácido (fórmico, propiônico),
na água na proporção de 1 litro para 1.000 litros d’água, em casos de
diarréia em leitões na creche. Quando não era obtido resultado com a
acidificação era adicionado norfloxacina na caixa d’água.
Foram isoladas 13 amostras de Escherichia coli hemolíticas e 140 de E. coli
não hemolíticas. E. coli hemolíticas foram isoladas respectivamente de 12
amostras de fezes de leitões na creche e uma de leitão na maternidade. Os
resultados dos antibiogramas realizados nas 13 amostras hemolíticas e
em 10 “pools” de isolados de E. coli não hemolítico constam na Tabela 3.
Os “pools” eram formados cada um pela mistura de 14 amostras não
hemolíticas.
Tabela 3 – Resultados dos antibiogramas realizados em amostras de E. coli hemolíticas e não hemolíticas
isoladas de casos de diarréia em leitões.
Antibióticos E. coli hemolíticos E. coli não hemolíticos
(13 amostras) (10 “pools”, 140 amostras)
Sens.* Interm. Resist. Sens. Interm. Resist.
Gentamicina 9 2 2 0 0 10
Amicacina 12 0 1 8 1 1
Colistina 11 0 2 9 0 1
Ceftiofur 13 0 0 9 1 0
Enrofloxacina 12 0 1 3 1 6
Oxitetraciclina 0 0 13 0 0 10
Tetrtaciclina 0 1 12 0 0 10
(*) Sens= sensível, suscetível; Interm.= sensibilidade intermediária; Resist. = resistentes.
Entre as amostras hemolíticas houve apenas duas resistentes à gentamicina
e uma resistente à enrofloxacina. No entanto, entre amostras não
hemolíticas de E. coli todas foram resistentes à gentamicina e seis foram
resistentes à enrofloxacina.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 183
Os antimicrobianos frente aos quais as amostras de E. coli se apresentaram
com maior suscetibilidade foram ceftiofur, amicacina e colistina (Tabela 3).
DISCUSSÃO
Observou-se que era rotina na granja o uso de gentamicina para todos os
leitões nas baias onde havia casos de diarréia. Outro procedimento
rotineiro era a acidificação da água para leitões. Os custos em
medicamentos eram elevados, pois um frasco de gentamicina de 20 mL
era adquirido por R$ 8,35, permitindo o tratamento de 40 leitões, suficiente
para 3 celas parideiras e meia. A partir dos resultados dos antibiogramas
verificou-se que as bactérias eram resistentes à gentamicina, explicando
o fato de não haver melhora sanitária. O uso de ácido na água também
não foi eficaz.
As causas de diarréia podem ser multifatoriais (LISBOA, 2004), sendo
importante a falta de higiene nas instalações. Observou-se que algumas
porcas na maternidade apresentavam as mamas sujas com fezes,
contaminando os recém nascidos ao mamarem. Como medida de manejo
foi recomendado que fossem varridas as celas parideiras duas vezes ao
dia para evitar acúmulo de água, urina e fezes no piso.
Foi detectado que 50 % entre 40 amostras de fezes colhidas na maternidade
eram positivas para E. coli e oriundas de leitões de mães primíparas
(leitoas), demonstrando a falta de imunização. A partir do momento em
que se iniciou o uso de antibióticos indicados pelos antibiogramas,
principalmente ceftiofur, as amostras positivas de ninhadas de leitoas
representaram 13 % positivas para E. coli.
O uso de antimicrobiano indicado por testes de suscetibilidade
proporcionou o controle das infecções por E. coli na granja, reduzindo
satisfatoriamente
os casos de diarréia em leitões, sugerindo que a
colibacilose era a principal causa dos problemas entéricos, embora não
fossem analisadas as amostras para rotavirus. Considerando-se que havia
tratamento rotineiro com toltrazuril, contra a coccidiose, esta doença
deveria estar sob controle e não foi motivo de investigação.
CONCLUSÕES
Confirmou-se que os problemas de diarréia, tanto na maternidade como
na creche eram de grande importância na Unidade Produtora de Leitões,
havendo o isolamento de E. coli não hemolítico em maior número do que
amostras hemolíticas.
184 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Verificou-se que os procedimentos rotineiros de controle e tratamento de
diarréias em leitões na granja não eram eficazes, aumentando as perdas
econômicas adicionadas dos gastos inúteis com medicamentos.
O sistema de cultivo e realização de antibiogramas reunindo-se amostras
não hemolíticas de E. coli em grupos (“pools”) como o realizado no presente
trabalho foi efetivo na indicação dos antibióticos para uso no tratamento
da colibacilose.
REFERÊNCIAS
ALFIERI, A. Diarréias neonatais em leitões, ocasionadas por vírus. Pork
World, n.13, p.64-66, 2003.
LISBOA, M. Fatores predisponentes para diarréia pós-desmame em leitões.
Suínos & Cia, n.8, p.31-34, 2004.
OLIVEIRA, S. J. Microbiologia Veterinária. Guia Bacteriológico Prático. 2.ed.
Canoas, Ed. ULBRA, 2000.
ROPPA, L. Doenças entéricas em suínos. Pork World. Ed. Especial, p.3-11,
fev. 2003.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 185
Eimeriose ovina no Município de
Major Vieira, Santa Catarina:
relato de caso
Ovine coccidioisis in Major Vieira, State of Santa Catarina: case report
CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – CANTELLI, Cristiane R. – Laboratório de Patologia Animal.
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC/CAV. Avenida Luiz
de Camões 2090, Bairro Conta Dinheiro, CEP 88520-000. E-mail:
a8crc@cav.udesc.br
PEDRAPEDRAPEDRAPEDRAPEDRASSSSSSSSSSANI, Daniela – ANI, Daniela – ANI, Daniela – ANI, Daniela – ANI, Daniela – Médica Veterinária Autônoma. Rua Roberto
Ehlke, 85, Canoinhas, SC. CEP 89460-000
SURKSURKSURKSURKSURKAMPAMPAMPAMPAMP,,,,, WWWWWalter – alter – alter – alter – alter – Médico Veterinário autônomo. Rua Afonso
Carvalho Kholer, 382, Canoinhas, SC. CEP 89460-000
MARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. TMARQUES, Sandra M. T. – . – . – . – . – Laboratório de Protozoologia, Faculdade
de Veterinária. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
Av. Bento Gonçalves, 9090, Bairro Agronomia, Porto Alegre, RS. CEP
91540-000. Fax: (51) 3316.7305, Caixa Postal: 15094. E-mail:
sandra.marques@ufrgs.br;sandra.tietz@terra.com.br
PILATI, Celso – PILATI, Celso – PILATI, Celso – PILATI, Celso – PILATI, Celso – Laboratório de Patologia Animal. Universidade do
Estado de Santa Catarina UDESC/CAV. Avenida Luiz de Camões 2090,
Bairro Conta Dinheiro, CEP 88520-000. E-mail: a8crc@cav.udesc.br
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: janeiro 2006
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: abril 2007
RESUMO
Surto de eimeriose ovina em um rebanho de 600 animais foi registrado no
município de Major Vieira, oeste de Santa Catarina, sul do Brasil. No exame
parasitológico, a contagem de oocistos por grama de fezes (OoPG)
evidenciou oocistos de Eimeria spp., com valores entre 700 e 1.870.000. À
necropsia, foi observada intensa palidez da carcaça, edema submandibular
e cavitário e intestino delgado com mucosa difusamente avermelhada. À
histopatologia foi evidenciada tumefação celular no fígado e rim, intestino
delgado com atrofia de vilosidades e criptas, intensa descamação celular
e intenso parasitismo das células epiteliais por Eimeria spp. Os ovinos foram
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.185-190
186 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
tratados com sulfaquinoxalina sódica 25% e moxidectina. No pós-
tratamento, todas as amostras foram negativas para Eimeria spp.
PPPPPalavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chavealavras-chave: ovinos, Eimeria spp., diagnóstico, coccidiose.
ABSTRACT
An outbreak of ovine coccidiosis in a herd with 600 animals was detected in
Major Vieira, west of the State of Santa Catarina, southern Brazil. The number
of oocysts per gram of feces revealed between 700 and 1,870,000 oocysts of
Eimeria spp. The necropsy demonstrated remarkably pale carcass,
submandibular and subcutaneous edema, and small bowel with a diffusely
reddish mucosa. The histopathological analysis showed cell swelling of the
liver and kidney, small bowel with atrophy of villi and crypts, pronounced
cell desquamation and remarkable epithelial cell parasitism by Eimeria spp.
The sheep were treated with sulfaquinoxaline sodium 25% and moxidectin.
After treatment, all the samples were negative for Eimeria spp.
Key wordsKey wordsKey wordsKey wordsKey words: Sheep, Eimeria spp., diagnosis, coccidiosis.
INTRODUÇÃO
Espécies do gênero Eimeria (Apicomplexa: Eimeriidae) Schneider 1875,
são protozoários cosmopolitas que parasitam o epitélio intestinal, em cujo
ciclo biológico se estabelece uma reprodução sexual por esquizogonia,
gametogonia e esporogonia. O estádio infectante é o oocisto eliminado
juntamente com as fezes. São descritas quinze espécies do gênero Eimeria
em ovinos, com predominância de determinadas espécies sobre outras
(PLATZER et al., 2005). Na maioria dos hospedeiros, os parasitos co-existem
causando mínimo dano. A eimeriose clínica somente ocorre se o hospedeiro
for submetido à infecção maciça ou se sua imunidade estiver diminuída
(TAYLOR, 1995).
Oocistos de espécies de Eimeria são freqüentemente encontrados nas fezes
de ovinos, independente da idade, apesar de animais jovens, com menos de
seis meses de vida, serem os mais susceptíveis e eliminarem maior quantidade
de oocistos (TAYLOR e CATCHPOLE, 1994; REEG et al., 2005). Entretanto,
algumas espécies são altamente patogênicas e o quadro clínico das formas
mais severas são caracterizados por diarréia escura, profusa, desidratação,
anorexia, febre, letargia, alta mortalidade, redução na conversão alimentar
e produção de lã de baixa qualidade (LIMA, 2004). Fitzgerald (1980) calculou
perdas mundiais anuais de cerca de 140 milhões de dólares decorrentes da
eimeriose ovina. No Brasil, as publicações não relatam dados atuais
relacionados aos prejuízos econômicos determinados pela eimeriose.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 187
A eimeriose ovina é um importante fator limitante para a criação destes
animais em todo o Brasil. O tipo de sistema de produção é outro fator que
influi diretamente sobre as características da eimeriose. Com alta densidade
populacional, a infecção ocorre com maior facilidade, pela disponibilidade
de grande quantidade de oocistos que são eliminados junto com as fezes.
As instalações e utensílios utilizados para a criação dos animais têm uma
grande importância na sua epidemiologia (SANTOS et al., 2000; LIMA,
2004). Nessas condições, em que um número considerável de animais
permanece confinado, por períodos de tempo relativamente longos, o
ambiente e o manejo favorecem o seu aparecimento (FAYER, 1980; FAYER
e REID, 1982).
O diagnóstico da eimeriose deve ser feito associando-se a anamnese, com
informações sobre manejo, sistema de criação, sinais clínicos, exame
parasitológico, com a identificação de oocistos nas fezes e através de lesões
à necropsia e evidenciação das diversas formas parasitárias em cortes
histológicos do intestino (LIMA, 2004).
RELATO DE CASO
Neste trabalho, relata-se um surto de eimeriose ocorrido no mês de março
de 2005 em um rebanho composto por 600 ovinos de corte, sem raça
definida, com idade entre 5 a 7
meses, adquiridos para terminação e
submetidos em regime de semiconfinamento, em uma propriedade no
município de Major Vieira, na Região Oeste do Estado de Santa Catarina,
no Sul do Brasil. Os animais eram mantidos, a maior parte do tempo,
fechados no aprisco. As instalações eram de piso de chão batido, coberto
com maravalha, parcialmente reposta, mas não trocada. Os animais
recebiam suplementação mineral comercial e casca de soja, no cocho,
uma vez ao dia. Durante o dia eram soltos por algumas horas em pastagem
de mombaça (Panicum maximum), tanzânia (P. maximum Jacq.) e papua
(Brachiaria plantaginea) em condições precárias.
Na visita à propriedade, após o aparte dos animais, a inspeção visual e o
exame clínico do rebanho evidenciaram em torno de 50% dos ovinos com
emagrecimento acentuado, apatia, anorexia, diarréia profusa e escura,
anemia grave e alguns deles com edema submandibular. Havia 34 animais
mortos e foram necropsiados 5 deles, sendo coletados fragmentos de
pulmão, coração, rim, fígado, baço, abomaso e intestino preservados em
formalina a 10% , processados e corados com Hematoxilina & Eosina.
Foram coletadas amostras de fezes de 56 ovinos (51 animais vivos e 5 animais
necropsiados), preservadas sob refrigeração, e analisadas pela técnica da
flutuação em solução saturada de cloreto de sódio, segundo Ueno e Gonçalves
(1988). Nas amostras positivas foram feitas contagens de oocistos por grama
de fezes (OoPG) pela técnica de Gordon e Whitlock (1939), com o auxílio da
188 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
câmara McMaster, além da evidenciação da presença de ovos de helmintos
e contagem de ovos por grama de fezes (OPG).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No exame coproparasitológico de 56 amostras, a contagem de oocistos
variou de 700 até 1.187.000 oocistos de Eimeria spp. por grama de fezes
(OoPG). Também foi detectada em 22 amostras fecais (39,28%) a presença
de ovos de helmintos do tipo Strongyloidea, com contagem variando de
500 até 3000 ovos por grama de fezes (OPG).
À necropsia dos 5 animais, macroscopicamente observou-se palidez intensa
da carcaça, edema submandibular e cavitário, abomaso evidenciando alguns
parasitos e mucosa sem alteração e intestino delgado com mucosa
difusamente avermelhada. O exame histopatológico do fígado mostrou fina
vacuolização do citoplasma e hepatócitos; o rim apresentou leve degeneração
do epitélio tubular; o intestino delgado apresentou enterite hemorrágica, e
principalmente no íleo, diagnosticou-se atrofia de vilosidades e criptas com
intensa descamação celular e intenso parasitismo das células epiteliais por
merontes, macrogametas e microgametas de Eimeria spp., leve infiltrado
difuso linfoplasmocitário e eosinofílico (Figura 1).
Figura 1 – Corte histolgico de intestino delgado de ovino. Intensa infecção de vilosidades intestinais
por macrogameta (Ma), microgameta (Mi) e merontes (M) de Eimeria sp. HE (aumento 40 X). Foto:
Célso Pilati.
Estas alterações foram semelhantes as descritas por Amarante et al. (1993)
e Taylor et al. (2003), com evidenciação de formas parasitárias, embora
tenham encontrado outros estádios do parasito no intestino.
O diagnóstico parasitológico indicou haver co-infecção com protozoários
e helmintos em 39,28% das amostras analisadas. Entretanto houve a
evidência da presença de diferentes formas parasitárias de Eimeria spp.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 189
em 100% das amostras de fezes e em todos os cortes histológicos de intestino
delgado analisados.
Diante deste diagnóstico foi recomendado o tratamento da eimeriose, com
o uso de sulfaquinoxalina sódica a 25%, de nome comercial Coccifim, na
dose de 100 g/400 litros de água, via oral, disponível no bebedouro durante
três dias e moxidectina, anti-helmíntico de nome comercial Cydectin 1%,
dose de 1ml/50 kg, dose única por via subcutânea como anti-helmíntico.
No exame parasitológico de fezes, sete dias pós-tratamento, todos os
resultados foram negativos para Eimeria spp. e ovos de helmintos. Além
disso, a condição corpórea dos animais foi sendo recuperada
gradativamente. Devido à gravidade do caso clínico e a necessidade de
uma rápida intervenção no rebanho para reverter o quadro de morbidade
e mortalidade, ficou a lacuna na identificação das espécies do gênero
Eimeria e de helmintos, importantes para o estudo de espécies patogênicas
prevalecentes na propriedade e é reconhecida a necessidade de estudos
detalhados das espécies de Eimeria envolvidas na infecção clínica.
Entretanto, o proprietário foi orientado quanto a conduta de manejo, a
fim de eliminar os fatores predisponentes à contaminação ambiental e
manutenção da infecção nos animais.
CONCLUSÕES
De acordo com o resultado do oocistograma associado aos sinais clínicos,
achados histopatológicos e ao tratamento aplicado aos animais, concluiu-
se que a eimeriose foi a principal causa de mortalidade e morbidade dos
ovinos. Entretanto a co-infecção com helmintos gastrintestinais pode ter
se somado para o agravamento do surto.
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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 191
Urolitíase obstrutiva em ovinos:
revisão de literatura
Obstructive urolithiasis in sheep: a review
AQUINO NETOAQUINO NETOAQUINO NETOAQUINO NETOAQUINO NETO, Hélio Martins de – , Hélio Martins de – , Hélio Martins de – , Hélio Martins de – , Hélio Martins de – Médico Veterinário, Mestrando
em Clínica e Cirurgia Veterinárias – UFMG/MG. E-mail:
hvet51@yahoo.com.br
FFFFFACURACURACURACURACURY FILHOY FILHOY FILHOY FILHOY FILHO, Elias Jorge – , Elias Jorge – , Elias Jorge – , Elias Jorge – , Elias Jorge – Médico Veterinário, Doutor, Professor
Adjunto do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias – UFMG/MG
CARCARCARCARCARVVVVVALHOALHOALHOALHOALHO, Antônio Último –, Antônio Último –, Antônio Último –, Antônio Último –, Antônio Último – Médico Veterinário, Doutor, Professor
Adjunto do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias – UFMG/MG
SSSSSOUOUOUOUOUZA, FZA, FZA, FZA, FZA, Fernando Andrade – ernando Andrade – ernando Andrade – ernando Andrade – ernando Andrade – Médico Veterinário, Doutorando em
Clínica e Cirurgia Veterinárias, UFMG/MG
JORDÃOJORDÃOJORDÃOJORDÃOJORDÃO, Lilian de R, Lilian de R, Lilian de R, Lilian de R, Lilian de Rezende –ezende –ezende –ezende –ezende – Médica Veterinária, Mestranda em
Zootecnia – UFMG/MG
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: abril 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: junho 2007
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RESUMO
A intensificação na produção de ovinos no Brasil foi uma tendência nos
últimos anos, devido à profissionalização da atividade. Estas alterações
no manejo dos animais foram responsáveis pelo aumento dos quadros de
urolitíase obstrutiva. Diversos fatores nutricionais e de manejo têm sido
implicados como predisponentes para o surgimento da doença. Os
resultados com tratamento ainda são pouco efetivos e a adoção de medidas
preventivas adequadas pode reduzir o aparecimento de novos casos nos
rebanhos. Dados sobre a real situação da urolitíase no Brasil ainda são
escassos.
PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: doenças, ovino, urolitíase obstrutiva.
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.191-202
192 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
ABSTRACT
In the last years, there was a big change in the sheep production in Brazil,
specially with the feedlot of the animals, to grown up the profits. These
management’s changes were responsible for the increase on obstructive
urolithiasis cases. Many nutritional and management factors are pointed like
predispose for this disease. Usually the treatment is ineffective and preventive
measures are very important to reduce the occurrence of new cases. There
are few data about the real situation of the ovine urolithiasis in Brazil.
Key words:Key words:Key words:Key words:Key words: Disease, sheep, obstructive urolithiasis.
1 INTRODUÇÃO
Há trinta anos era impossível imaginar a criação de ovinos como um
negócio organizado e rentável no Brasil. Na época a produção de pequenos
ruminantes era vista como atividade secundária, com exceção da
ovinocultura de lã na região Sul, onde o mercado internacional consolidado
era a força motriz da organização da produção. A partir de meados dos
anos setenta, no entanto, esforços passaram a ser despendidos com vistas
à organização dos sistemas de produção e das cadeias produtivas como
um todo. Hoje ocupamos a oitava posição no ranking mundial do setor,
com um rebanho estimado em 14,5 milhões de ovinos, representando 1,45%
do rebanho mundial (CORRÊA, 2005).
Com a gradativa profissionalização da ovinocultura, várias mudanças
ocorreram nos sistemas de produção. A principal delas foi a intensificação,
em busca da máxima produção e rápido retorno do capital investido. Isto,
aliado à comercialização de animais de elite em exposições agropecuárias,
acarretou profundas alterações no manejo dos ovinos, nos quais aumentou
a incidência de doenças metabólicas. Dentre estas enfermidades está a
urolitíase obstrutiva, que apesar de ser influenciada por diversos fatores, possui
uma marcante relação com o manejo nutricional e tem especial importância
nos sistemas de criação intensiva (ORTOLANI, 1996; SIMPLÍCIO et al., 2004).
O objetivo deste trabalho é fornecer subsídios para a compreensão dos
fatores envolvidos no desenvolvimento da urolitíase obstrutiva em ovinos,
enfatizando as mais adequadas medidas de manejo que deverão ser
adotadas para que se minimizem os riscos de incidência desta doença.
2 DEFINIÇÃO E ETIOLOGIA
Urolitíase é uma condição associada com a presença de cálculos ou com
quantidades excessivas de cristais no trato urinário. Em princípio, a
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 193
formação dos cálculos no trato urinário pode predispor o animal à cistite
(RADOSTITS et al., 2002). Os cálculos ou urólitos tornam-se um problema
ainda mais grave quando obstruem o trato urinário levando à condição
clínica denominada urolitíase obstrutiva. A doença possui muitos nomes,
entre eles cálculos urinários, pedras na bexiga, pedra nos rins, além de
doença do trato urinário inferior (GARCIA, 1996; ROSS, 2001).
A etiologia é complexa e multifatorial. Influências geográficas e sazonais
assim como fatores dietéticos, ambientais, hormonais e doenças infecciosas
do sistema urinário têm sido descritos como responsáveis pela formação
dos urólitos (EVELETH e MILLEN, 1939; SILVA E SILVA, 1983).
3 EPIDEMIOLOGIA E PATOGENIA
A urolitíase obstrutiva desenvolve-se em ruminantes quando solutos
urinários inorgânicos ou orgânicos são precipitados e depositam-se sobre
uma matriz orgânica, que se solidificará transformando-se em urólito. A
matriz ou núcleo é habitualmente um mucopolissacarídeo ou
mucoproteína e podem consistir de leucócitos mortos, fibrina, restos
celulares ou bactérias aglutinadas (LARSON, 1996; JONES et al., 2000).
Deste modo, inflamações ou infecções do sistema urinário, além da ação
de substâncias estrogênicas exógenas, que promovem hipertrofia e
queratinização das glândulas sexuais secundárias, podem favorecer a
formação dos núcleos dos urólitos (RADOSTITS et al., 2002).
Além do mecanismo acima, conhecido como hipótese matricial, outras duas
hipóteses são colocadas pelos pesquisadores como possíveis meios para a
formação dos cálculos. Uma delas é a hipótese do inibidor de cristalização,
que enfatiza a importância dos colóides protetores, responsáveis por
converter a urina em um gel e prevenir deste modo a formação de
precipitados. A última hipótese é a da precipitação-cristalização, que destaca
a importância da supersaturação salina na urina. Independentemente destes
ou de outros mecanismos, os cálculos não podem ser produzidos sem três
fatores fundamentais: concentração suficientemente alta de constituintes
formadores do cálculo na urina; tempo adequado destes constituintes no
trato urinário; e para alguns tipos de cálculos, como estruvita (fosfato
amoníaco magnesiano), cistina ou cálculos de urato, um pH favorável para
a cristalização. Qualquer aspecto que acentue um destes pontos predispõe
a formação de urólitos (ROSS, 2001).
Há vários fatores predisponentes que interagem e contribuem para o
aparecimento da urolitíase obstrutiva em ovinos. Dentre os principais
podemos destacar o sexo, raça, dieta, sistema de criação, manejo nutricional
e a concentração urinária (ORTOLANI, 1996; SILVA, 1997; RADOSTITS et
al., 2002). Diversos autores enfatizam a nutrição como o mais importante
fator que influencia a prevalência da doença (RADOSTITS et al., 2002).
194 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Processos obstrutivos ocorrem quase que exclusivamente em machos
(99%). Embora a formação de cálculos seja provavelmente igual em ambos
os sexos, uma uretra mais curta e de maior diâmetro nas fêmeas oferece
menores chances de obstrução (OEHME, 1965; BAILEY, 1981). Apesar de
raro, Gera e Nigam (1979) e Divers et al. (1989) relataram casos de
urolitíase obstrutiva em fêmeas bovinas. Os principais pontos de retenção
de urólitos no trato genital de ovinos machos localizam-se na flexura
sigmóide
e no processo uretral, locais em que a uretra torna-se mais estreita
(ORTOLANI, 1996; RADOSTITS et al., 2002).
Animais castrados precocemente são mais susceptíveis à urolitíase
obstrutiva porque não apresentam um completo desenvolvimento do
diâmetro uretral devido à falta de exposição a andrógenos (THOMPSON,
2001). Este processo provoca acúmulo de urina na bexiga e pode levar à
precipitação de urina com formação de cálculos (SILVA e SILVA, 1983).
Comparação entre medidas de diâmetro uretral de bezerros castrados com
um e sete meses de idade e o de touros, revelou que nos animais castrados
aos sete meses e nos touros, passariam respectivamente cálculos 13% e
44% maiores que nos castrados com um mês de vida (HAWKINS, 1965).
Field et al. (1986) comparando a excreção de fósforo em cinco raças ovinas
(Texel, Suffolk, Finnish Landrace, East Friesland, Blackface), concluíram
que o Texel excretava quatro vezes mais fósforo que o Suffolk e o Finnish
Landrace, duas vezes e meia a mais que o East Friesland e duas vezes
mais que o Blackface, levantando a hipótese que a raça poderia de alguma
forma influenciar a formação de urólitos pela elevada concentração de
fósforo urinário.
A composição dos cálculos uretrais varia e depende em grande parte da
dieta dos animais. Os cálculos de sílica estão entre os mais importantes
para ovinos criados a pasto, devido à presença deste elemento em várias
espécies de gramíneas (BAILEY, 1981). Cálculos de estruvita, carbonato e
fosfato de cálcio também foram descritos para animais manejados nestas
mesmas condições (RADOSTITS et al., 2002). Os ovinos confinados e
alimentados com dieta rica em concentrados, normalmente, apresentam
cálculos compostos de estruvita (McINTOSH, 1978).
O desequilíbrio na alimentação dos animais por meio do fornecimento de
dietas ricas em fósforo e pobres em cálcio pode provocar a formação de
urólitos em ovinos. Esta situação ocorre quando são oferecidas grandes
quantidades de grãos e utilização de concentrados minerais ricos em
fósforo, em especial quando se oferecem a ovinos sais minerais apropriados
a bovinos (WEAVER, 1963; ORTOLANI, 1996). A predisposição à formação
de cálculos é decorrente do aumento da excreção de fósforo e alterações
no pH urinário (HAVEN et al., 1993).
O magnésio também tem sido envolvido no mecanismo de formação dos
cálculos, porém seu papel ainda não está completamente esclarecido.
Crookshank et al. (1967) afirmam que este mecanismo, nas condições de
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 195
desequilíbrio mineral, deve-se à retenção renal de magnésio e ao aumento
na excreção do fósforo e do cálcio, o que aumenta a concentração da
urina e favorece a urolitíase. Por outro lado, Cuddeford (1987) observou
baixa prevalência de urolitíase em animais recebendo quatro vezes mais
magnésio que os níveis requeridos, porém com adequada relação entre
cálcio e fósforo na dieta. Concluiu deste modo que a elevada concentração
de magnésio dietético, por si só, não causa urolitíase.
Ovinos criados em sistema de confinamento são mais susceptíveis a
obstruções uretrais, provavelmente devido a uma combinação de
alimentação com alta concentração de minerais, altos níveis de
mucoproteínas na urina e pouca fibra efetiva. No caso dos animais criados
extensivamente, o alto consumo de água mineralizada e pastagens ricas
em sílica ou oxalato, associadas a episódios de privação ou excessiva perda
de água contribuem para o desenvolvimento desta afecção (UNANIAN et
al., 1985; MANOLE, 1993; RADOSTITS et al., 2002).
O pH urinário é outro fator muito importante que interfere na formação
dos urólitos por afetar a solubilidade de alguns componentes presentes
na urina (RADOSTITS et al., 2002). O pH normal da urina dos ruminantes
está situado em torno de 7,0 a 9,5. Quando o pH urinário aumenta um
pouco e permanece próximo ao seu limite superior, cristais de carbonato
de cálcio e de fosfato começam a se precipitar (JUBB e KENNEDY, 1974).
À medida que o pH aumenta, os colóides urinários perdem sua habilidade
de comportarem-se como um gel protetor, e a precipitação de minerais,
particularmente fosfatos e carbonatos, é facilitada (FLOYD, 1993).
Práticas inadequadas de manejo também exercem a sua parcela de
contribuição para o desenvolvimento da urolitíase obstrutiva. Os animais
podem ser forçados a aumentar a concentração urinária, que favorece a
precipitação de minerais, pela dificuldade de acesso à água. Este é um
problema especial nos rebanhos extensivos, pela falta de familiaridade
com o sistema de distribuição de água e pequena quantidade de água
disponível. A utilização de hormônios promotores de crescimento, como o
etilbestrol, favorece o aparecimento da doença por provocarem metaplasia
extensiva dos órgãos sexuais, incluindo mudanças epiteliais na mucosa
uretral, além de aumentarem os níveis de peptídeos, proteínas e
mucoproteínas na urina (GARDINER et al., 1966).
A deficiência de vitamina A, embora ainda de forma controversa, também
tem sido sugerida como fator predisponente por produzir queratinização
do epitélio do sistema urinário, pois a descamação destas células
queratinizadas servirá de núcleo para os sais precipitados (SILVA, 1997).
Experimento conduzido por Swingle e Marsh (1956) concluiu que a
deficiência de vitamina A não é por si só uma condição suficiente para
provocar urolitíase obstrutiva.
O curso da urolitíase depende da localização e do grau de obstrução do
trato urinário. Os urólitos podem estar presentes nos rins, ureteres, bexiga
196 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
ou uretra, sem necessariamente causar obstrução do fluxo urinário. A
obstrução de um dos ureteres pode causar hidronefrose unilateral com
compensação do rim não afetado (RADOSTITS et al., 2002). A doença clínica
ocorre quando o fluxo urinário fica interrompido em decorrência do
alojamento dos cálculos na uretra (DIVERS et al., 1989; JONES et al., 2000).
4 SINAIS CLÍNICOS
Os cálculos na pelve renal ou ureteres normalmente não são diagnosticados
antes da morte. Ocasionalmente a saída da pelve renal fica bloqueada, e a
distensão aguda resultante pode causar dor acompanhada de andar rígido.
Cálculos na bexiga podem causar cistite e são acompanhados pelos sinais
desta afecção (RADOSTITS et al., 2002).
Casos iniciais de urolitíase obstrutiva são associados com sinais de dor
uretral (OEHME, 1965). Os ovinos afetados apresentam-se inquietos e
com redução gradativa do apetite até chegar à anorexia (ORTOLANI,
1996). Outros sinais comuns são o balançar da cauda, pateamento, coices
no abdome, bruxismo, além de freqüente postura de micção, porém sem
a eliminação de urina, ou em algumas vezes eliminando gotas de urina
coradas com sangue. Um intenso precipitado de cristais normalmente é
visível nos pêlos prepuciais ou por dentro das coxas (SMITH, 1993; VAN
METRE et al., 1996a; SILVA, 1997; THOMPSON, 2001).
Caso a obstrução uretral não seja aliviada, a perfuração da uretra ou
ruptura de bexiga pode ocorrer em 48 horas. Após ruptura uretral, a urina
extravasa para o tecido conjuntivo da parede abdominal ventral e para o
prepúcio, causando um aumento de volume líquido que pode se disseminar
até o tórax. Quando a bexiga rompe, há um alívio imediato do desconforto,
mas anorexia e depressão surgem com o desenvolvimento da uremia
(RADOSTITS et al., 2002).
5 TRATAMENTO
O tratamento para a urolitíase obstrutiva em ovinos, visa o
restabelecimento do fluxo urinário e a correção dos desequilíbrios hídrico
e eletrolítico (THOMPSON, 2001). Existem dois tipos de tratamento para
esta enfermidade, o conservativo e o cirúrgico, cada um deles
apresentando vantagens e desvantagens, que devem ser detalhadamente
expostas ao proprietário e adotadas pelo médico veterinário após
consideração individual de cada caso clínico (GASTHUYS et al., 1993).
O tratamento conservativo ou médico inclui amputação do processo
uretral, antibioticoterapia,
administração de anti-espasmódicos,
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 197
acidificantes urinários e reposição hidroeletrolítica (McINTOSH, 1978; VAN
METRE et al., 1996a). Em razão do grande número de cálculos localizados
no processo uretral dos ovinos e considerando-se a simplicidade do
procedimento, a amputação do mesmo é considerada um tratamento
conservativo nesta espécie. A sua remoção não interfere na vida reprodutiva
ou fertilidade dos animais. As taxas de insucesso na amputação do
processo uretral são altas em decorrência da formação bastante comum,
de múltiplos cálculos em ovinos, favorecendo uma obstrução mais
proximal (OEHME, 1965; HAVEN et al., 1993).
Oehme (1965) obteve bons resultados com a administração de anti-
espasmódicos ou tranqüilizantes para favorecer a eliminação dos cálculos
uretrais, através da redução dos espasmos da musculatura lisa da uretra
e relaxamento do músculo retrator do pênis, diminuindo assim a flexura
peniana. Este autor relata que se após seis horas o fluxo não retornar ao
normal e a distensão da bexiga for crítica, uma segunda dose dos
medicamentos deve ser feita. Caso a obstrução não seja desfeita dentro de
12 a 18 horas depois da primeira aplicação, outro tratamento deve ser
adotado.
A utilização de acidificantes urinários na tentativa de dissolver os cálculos
é muito difundida como tratamento para a urolitíase, mas não tem
alcançado bons resultados. Mostra-se eficiente quando usada como método
preventivo, reduzindo a precipitação dos solutos urinários (RADOSTITS
et al., 2002). Apesar disso, Cockcroft (1993) conseguiu desfazer urolitíase
obstrutiva em um carneiro administrando 10 gramas de cloreto de amônio
diariamente.
Quando o tratamento conservativo não é eficiente para desfazer a
obstrução, a intervenção cirúrgica faz-se necessária, devendo-se levar em
consideração a localização da obstrução, integridade da uretra ou bexiga
e o valor e pretensão de uso do animal (GASTHUYS et al., 1993;
RAKESTRAW et al., 1995).
Os procedimentos cirúrgicos mais utilizados no tratamento da urolitíase
obstrutiva são amputações penianas, uretrostomia perineal, cistotomia,
cistostomia com colocação de cateter e, algumas vezes, combinação destas
técnicas (HAVEN et al., 1993; RAKESTRAW et al., 1995). A amputação
peniana e as cirurgias uretrais obtêm bons resultados quanto ao
restabelecimento do fluxo urinário, porém podem apresentar uma série
de complicações como infiltração de urina no tecido subcutâneo,
inflamação, estenose uretral, além de inviabilizarem o animal para a
reprodução. Deste modo as mesmas são mais indicadas para rebanhos
comerciais, visando a recuperação do estado geral dos animais para que
possam ser abatidos posteriormente (VAN METRE et al., 1996b).
As técnicas de cistotomia e cistostomia com cateter, embora também
possuam desvantagens, têm apresentado bons resultados devido à
possibilidade de retirada dos cálculos alojados na bexiga, lavagem uretral
198 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
com fluxo normógrado e retrógrado, além de estar associada com poucas
complicações pós-operatórias e um risco mínimo de estenose uretral. A
cistotomia não afeta a capacidade reprodutiva dos animais e deste modo
pode ser indicada para reprodutores (HAVEN et al., 1993). Dados de Van
Metre et al. (1996b) revelaram que os tempos médios de recidivas para
animais submetidos a técnicas de uretrostomia e cistotomia foram,
respectivamente, de 4 e 15 meses.
Figura 1 – Ovino com urolitíase obstrutiva, submetido a tratamento por meio da técnica da
cistostomia com colocação de cateter.
6 PROFILAXIA
Considerando-se o grande número de fatores que atuam na etiologia da
urolitíase obstrutiva e o ainda limitado entendimento sobre as diversas
interações que ocorrem entre eles, vários são os pontos que devem ser
abordados na prevenção desta doença (McINTOSH, 1978). Pequenas
alterações no manejo, como o fracionamento do concentrado em várias
porções diárias, contribuem para diminuir a concentração urinária pós-
prandial que ocorre nos ovinos alimentados com grande quantidade de
ração uma única vez ao dia. Elevada concentração urinária aumenta o
potencial de precipitação de íons calculogênicos e favorece o
desenvolvimento de cálculos (BAILEY, 1981).
Uma das principais medidas para a prevenção da urolitíase é o fornecimento
de uma dieta balanceada, associada ao fato de que a ingestão diária de
concentrado não deve exceder 2% do peso vivo do animal. A relação cálcio:
fósforo ideal para ovinos é de 3:1 e não deve ser diminuída além de 2:1,
sob a penalidade de aumentar a excreção de fósforo urinário (ORTOLANI,
1996). A absorção de fósforo no trato gastrintestinal fica reduzida pelo
aumento na proporção de cálcio na ração, e deste modo, o aumento do
nível de cálcio protege contra o potencial de urolitíase das rações ricas em
fósforo (PACKETT e HAUSCHILD, 1964; HOAR et al., 1970). Deve-se evitar
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 199
o fornecimento de rações de bezerros e sal mineral de bovinos de leite
para ovinos, em razão das altas quantidades de fósforo presentes nestes
produtos (ORTOLANI, 1996).
A adição gradual de cloreto de sódio até o nível de 3 a 5% da ingestão de
matéria seca, reduz a incidência de urolitíase (HAWKINS, 1965;
ROMANOWSKI, 1965). Isto decorre do aumento da ingestão de água,
que promove uma diluição da urina, associada ao fato de que a presença
adicional de íons cloreto pode levar à formação de cloreto de magnésio na
urina, que é mais solúvel que o fosfato de magnésio (ROMANOWSKI,
1965; UDALL et al., 1965). Os íons cloreto na urina também são capazes
de ligar-se às mucoproteínas, diminuindo deste modo a ligação desta com
fosfato e silicato e, consequentemente, reduzindo a formação de cálculos
(SMITH, 1993).
A estruvita, um dos principais componentes dos cálculos de ovinos
confinados, precipita-se em soluções alcalinas. A adição de cerca de 7 a
10g/dia de cloreto de amônio à dieta, acidifica a urina que é
fisiologicamente alcalina nos ovinos e reduz a incidência de cálculos
urinários (CROOKSHANK; 1970; THOMPSON, 2001).
A ingestão de quantidade satisfatória de água é fundamental para
promover diurese e evitar concentração urinária. Os proprietários devem
ser instruídos a respeito da importância deste fator para os animais mais
predispostos a manifestar urolitíase. Deste modo, grandes lotes de animais
criados em sistema extensivo devem ser providos de várias fontes de água
para facilitar o acesso, já que dificilmente um ovino se afastaria do rebanho
em busca de água. Nos confinamentos, a quantidade de bebedouros deve
ser adequada e os mesmos devem ser mantidos sempre limpos e com água
fresca (LARSON, 1996; VAN METRE et al., 1996b).
Quando a causa da urolitíase for devida à exposição ao pasto, as fêmeas
poderão ser utilizadas para pastar em locais de maior predisposição, uma
vez que são menos susceptíveis de desenvolver obstrução do trato urinário.
Em áreas em que a concentração de oxalato é alta nas pastagens, ovinos
castrados devem ter somente acesso limitado às mesmas. O adiamento da
castração pode reduzir a incidência de urolitíase obstrutiva, por permitir
maior dilatação da uretra, porém a melhora não é bastante significativa
(RADOSTITS et al., 2002).
7 CONCLUSÕES
A urolitíase obstrutiva é uma importante doença que afeta principalmente
ovinos machos de todas as idades, em especial aqueles que são criados de
forma mais intensiva e com dieta desbalanceada. A intensificação da
produção de ovinos acarreta modificações nos padrões de criação,
200 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
especialmente na nutrição, aumentando as chances de desenvolvimento
de urolitíase.
A clínica de ruminantes, diferentemente de como era vista nos seus
primórdios, hoje deve ser encarada como um instrumento de auxílio dentro
dos sistemas produtivos, enquadrando-se no conceito
moderno de
medicina de produção. Desta forma, é fundamental que o Médico
Veterinário conheça os pontos onde deve atuar, para que os riscos sejam
minimizados através da adoção de medidas preventivas eficientes. Estas
medidas são especialmente importantes na urolitíase obstrutiva, em razão
dos elevados custos de tratamento e das relativas pequenas taxas de
sucesso, que inviabilizam o sistema de produção.
Devido ao grande número de fatores envolvidos na formação dos cálculos,
mais trabalhos devem ser conduzidos para esclarecer alguns pontos ainda
obscuros neste processo. Infelizmente são escassos os dados a respeito da
real situação da urolitíase no Brasil e o desenvolvimento de pesquisas nesta
área, certamente em muito contribuirão para o desenvolvimento da
ovinocultura nacional.
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Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 203
Scrapie (paraplexia enzoótica) em
ovinos no Brasil
Scrapie in Brazilian sheep
RIBEIRORIBEIRORIBEIRORIBEIRORIBEIRO, L, L, L, L, Luiz Alberto Oliveira –uiz Alberto Oliveira –uiz Alberto Oliveira –uiz Alberto Oliveira –uiz Alberto Oliveira – Médico Veterinário, MSc, Doutor.
Departamento de Medicina Animal, Faculdade de Veterinária – UFRGS
PPPPPAAAAASSSSSSSSSSOS, Daniel ThompsenOS, Daniel ThompsenOS, Daniel ThompsenOS, Daniel ThompsenOS, Daniel Thompsen – Médico Veterinário, MSc, Doutor. Curso
de Medicina Veterinária – ULBRA/RS
RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma
Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno –RODRIGUES, Norma Centeno – Médica Veterinária, MSc, Doutora.
Curso de Medicina Veterinária – ULBRA/RS
WEIMERWEIMERWEIMERWEIMERWEIMER, T, T, T, T, Tania de Azevedo –ania de Azevedo –ania de Azevedo –ania de Azevedo –ania de Azevedo – Doutora em Genética, Curso de
Medicina Veterinária – ULBRA/RS
Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento:Data de recebimento: abril 2007
Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação:Data de aprovação: junho 2007
Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência:Endereço para correspondência: Av. Bento Gonçalves 9090, Porto Alegre/RS.
CEP: 91540-000. E-mail: berto@ufrgs.br
RESUMO
Scrapie é uma enfermidade caracterizada por encefalite espongiforme de
ovinos e caprinos introduzida no rebanho brasileiro pela importação de
ovinos do Reino Unido e de países da América do Norte. Embora,
inicialmente esta doença tenha sido diagnosticada em animais importados,
foram confirmados casos recentes, em 2006, em ovinos nascidos no Brasil.
A análise de genótipos realizada em ovinos Suffolk demonstrou que mais
da metade dos animais examinados (55%) pertenciam a grupo de alto
risco para scrapie e que somente 3,8% são de genótipo resistente. São
discutidas as medidas de controle dessa enfermidade, propostas pelas
autoridades sanitárias brasileiras e sugeridas medidas complementares.
PPPPPalavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave:alavras-chave: scrapie, encefalite espongiforme, genotipagem.
ABSTRACT
Scrapie is a spongiform encephalopathie of sheep and goats introduced
into brazilian flock throughout importation of life sheep from United
Kingdom and North America countries. Although the first cases of the
disease were always in ovine imported from overseas, recent cases
Veterinária em Foco Canoas v. 4 n.2 jan./jun. 2007 p.203-209
204 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
diagnosed in 2006 were detected in animals born in Brazil. Genotyping
carried out in Suffolk national flock showed that 55% of the animals belong
to the most susceptible group for scrapie and only 3,8% were of resistant
genotype. Scrapie control measures proposed by the local animal health
authorities are presented and complementary actions are suggested.
KKKKKey words:ey words:ey words:ey words:ey words: Scrapie, spongiform encephalopathy, genetic variability.
INTRODUÇÃO
O scrapie é uma doença degenerativa do sistema nervoso central (SNC)
de ovinos e caprinos. Ela pertence ao grupo das encefalites espongiformes
que atingem vinte espécies de mamíferos, incluindo o homem. Este grupo
de doenças é também referido como doenças priônicas. A enfermidade
tem sido reconhecida em ovinos por mais de 200 anos, estando presente
em vários países, sendo a Austrália e a Nova Zelândia considerados locais
livres (JEFFREY; GONZÁLES, 2007).
A etiologia da doença é atribuída a um “prion” sigla criada para designar
“proteinaceous infectious particle” (partícula protéica infecciosa). A proteína
normal – PrPc é uma glicoproteína encontrada em todos os mamíferos,
cuja função não está bem estabelecida. A proteína alterada é referida na
literatura como PrPsc, protease resistente, que ao microscópio eletrônico,
pode ser evidenciada por estruturas designadas “Fibrilas Associadas ao
Scrapie” (SAF). O prion é extremamente resistente a desinfetantes e a
agentes físicos convencionais.
A transmissão ocorre, principalmente, da ovelha para o cordeiro, no período
perinatal. Pastagens contaminadas com fluídos fetais tornam-se fonte de
infecção para cordeiros contemporâneos e para outros ovinos adultos do
rebanho. O carneiro teria um papel secundário através da dispersão de prole
geneticamente susceptível à infecção (DAWSON et al., 1998).
No presente artigo são apresentados dados sobre a ocorrência de scrapie
no rebanho ovino brasileiro é discutido o caráter genético dessa
enfermidade e sugeridas medidas para seu efetivo controle.
SCRAPIE NO BRASIL
Scrapie foi introduzido no Brasil pela importação de ovinos Hampshire
Down de rebanhos ingleses. O primeiro caso foi identificado em 1978 no
RS (FERNANDES et al., 1978), seguindo-se de um segundo episódio em
1985 no Paraná (RIBEIRO, 1993). Diante dos fatos, o governo brasileiro
proibiu a importação de animais do Reino Unido mas manteve abertas as
fronteiras para a introdução de ovinos de outros países, USA e Canadá em
particular, onde a doença é endêmica. Segundo Ojeda e Oliveira (1998)
de 1991 a 1996 foram importados 2267 ovinos, a maioria dos USA.
A relação atualizada dos casos de scrapie ocorridos em rebanhos ovinos
no Brasil é apresentada na Tabela 1.
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 205
Tabela 1 – Casos de scrapie ocorridos em ovinos no Brasil – período 1978 a 2006.
Ano Raça Procedência Estado
1978 Hampshire Down Reino Unido RS
1985 Wiltshire Horn Reino Unido PR
1995 Suffolk USA RS
1997 Suffolk USA PR
2001 Hampshire Down Canadá PR
2003 Hampshire Down Brasil PR
2006 Hampshire Down Brasil MS
2006 Suffolk Brasil RS
 Adaptado de Ribeiro e Rodrigues (2001).
Os dados da Tabela 1 revelam que a doença vem sempre ocorrendo em rebanhos
onde foram importados animais de países da América do Norte. O governo
brasileiro não permite mais a importação de ovinos em pé desses países, mas,
mesmo assim, novos casos têm sido diagnosticados. Em pelo menos um dos
surtos o animal que mostrou sintomas era nascido na propriedade, indicando,
desta forma, que a enfermidade vem se transmitindo em rebanhos nacionais.
Finalmente, deve ser mencionado que o scrapie, até o momento, só foi
diagnosticado no Brasil em ovinos das raças Suffolk e H. Down, excetuando-
se o caso de 1985 ocorrido em um animal importado da raça Wiltshire
Horn. O Uruguai e a Argentina são tidos como livres da enfermidade. Na
Argentina, existe entretanto, uma referência a “sarna seca” que tem
ocorrido (ou vem ocorrendo) na patagônia onde, no passado, foram
importados ovinos de raças inglesas.
Os casos de scrapie citados acima foram todos comunicados ao
Departamento de Saúde Animal (DAS) da Secretaria de Defesa Agropecuária
do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), tendo sido
tomadas medidas de sacrifício de animais e interdição das propriedades.
Entretanto, até recentemente, não havia por parte das autoridades sanitárias
brasileiras nenhuma ação de monitoramento e controle de scrapie em ovinos.
As informações disponíveis sobre essa enfermidade no Brasil indicam que
ela já está estabelecida no rebanho ovino nacional, ou, na melhor das
hipóteses, é uma doença emergente. Na verdade, para o MAPA, o scrapie
não é mais uma doença exótica (OIE, 2005).
CASO RECENTE NO RIO GRANDE DO SUL
Na última semana de julho/2006, deu entrada no Hospital de Clínicas
Veterinárias – HCV da Faculdade de Veterinária – UFRGS, um carneiro
Suffolk, adulto (3 anos), de um criatório do Estado. O carneiro foi adquirido
durante a Expointer 2005 e usado na temporada de monta de 2006 sem
apresentar alterações visíveis. Entretanto, após esse período, ele apresentou
incoordenação motora, principalmente do trem posterior. O animal foi
examinado clinicamente, sendo submetido a exame radiográfico que não
revelou fratura ou lesão que explicasse a paraplegia.
Em um segundo exame clínico foi observado que o animal apresentava
206 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
movimentos mandibulares (mascar chiclete) quando estimulado na região lombar
e colapso após exercitado, sendo levantada a suspeita de scrapie. O exame de
imunohistoquímica do tecido linfóide da terceira pálpebra, coletado do animal
vivo foi positivo para scrapie. Este resultado foi confirmado após a necropsia, pelo
exame histopatológico e de imunohistoquímica de tecido nervoso e linfóide. O
exame de genotipagem
para o códon 171 identificou o carneiro com o genótipo
QQ, característico de ovinos altamente suscetíveis ao scrapie. O caso foi oficialmente
comunicado às autoridades sanitárias do MAPA que tomaram as medidas cabíveis.
MEDIDAS SANITÁRIAS EM CASOS DE SCRAPIE
O MAPA criou em 2004, um grupo de trabalho para propor um Programa de
Sanidade de Ovinos e Caprinos (PNSCO). O trabalho desta comissão resultou
na Instrução Normativa n°53, de 12 de julho de 2004 que aprova o regulamento
técnico do PNSCO. Entre outras doenças a portaria define aspectos relacionados
às ações de vigilância e controle da Paraplexia Enzoótica dos Ovinos (Scrapie).
Resumidamente, as medidas de saneamento de foco a serem adotadas
pelo Serviço Oficial são as seguintes:
I. Visita e interdição do estabelecimento.
II. Sacrifício e eliminação de todos os animais com sinais clínicos e coleta
de material para exame.
III. Condução de investigação epidemiológica:
(a) Localização e sacrifício de todos os ascendentes diretos (pai,
mãe e avós).
(b) Localização de irmãos e meio irmãos por parte da mãe do animal
positivo, para sacrifício.
(c) Caso o animal positivo seja fêmea determinar a localização dos
descendentes até segunda geração (filhos e netos), sacrificar ou
submetê-los a genotipagem.
(d) A genotipagem deverá ser paga pelo proprietário. Todos os
animais sensíveis (AAQQ, AAQH) e muito sensível (AVQQ), sem sinais
clínicos, deverão ser sacrificados num prazo máximo de 60 dias. Os
ovinos resistentes (AARR) e de pouco a médio risco (AAQR)
envolvidos no foco deverão ser abatidos até sete anos de idade, ou
no máximo cinco anos após a abertura do foco.
GENOTIPAGEM PARA SUSCETIBILIDADE A SCRAPIE EM
SUFFOLK NO BRASIL
Em vários países como Reino Unido, Comunidade Européia e USA a
genotipagem para suscetibilidade à scrapie tem sido uma ferramenta
usada em planos de controle dessa enfermidade (DAWSON et al., 1998).
Amostras de sangue são encaminhadas ao laboratório, que após a extração
do DNA, identificará o seu genótipo. Em Suffolk e H. Down os códons 171
(arginina – R, histidina – H e glutamina – Q) e 136 (alanina – A e valina
Veterinária em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 207
– V) são os mais importantes. Para estas raças, conforme as combinações
dos genótipos, poderemos identificar animais muito sensíveis AVQQ,
sensíveis AAQQ, AAQH, pouco a médio risco AAQR e resistentes AARR.
Dados acumulados de resultados de genotipagem para suscetibilidade ao
scrapie em ovinos Suffolk referidos por Ribeiro et al. (2005) estão
demonstrados na Tabela 2.
Tabela 2 – Genotipagem para scrapie (Códon 136 e 171) em ovinos Suffolk no Rio Grande do Sul.
GenótipoGenótipoGenótipoGenótipoGenótipo Risco de scrapie*Risco de scrapie*Risco de scrapie*Risco de scrapie*Risco de scrapie* n° ovinosn° ovinosn° ovinosn° ovinosn° ovinos %%%%%
AARR R1 05 3,88
 AAQR R3 52 40,31
AVQR R4 01 0,77
AAQQ R5 71 55,04
Total 129
*R1= risco mínimo, R3= pouco a médio risco, R4= médio a alto risco, R5 = muito sensível,
segundo DAWSON et al. (1998).
Os dados mostram que mais da metade dos ovinos Suffolk genotipados
(55,04%) pertencem ao grupo de alto risco para scrapie. Por outro lado,
os animais resistentes representam somente 3,8% da população
estudada. A prevalência destes genótipos é bastante semelhante a
encontrada em rebanhos Suffolk americanos que não foram previamente
selecionados para resistência (YUZBASIVAN-GURKAN et al., 1999).
A genotipagem para scrapie realizada em 29 ovinos da raça Santa Inês,
criadas no nordeste brasileiro descrita por Lima et al. (2007) mostrou que
41,3% dos animais pertenciam ao grupo de alto ou médio risco e somente
10,3% foram do genótipo resistente. Os autores destacam que embora a
scrapie não tenha sido descrito em ovinos deslanados é importante
conhecer a sensibilidade desses animais pois cruzas de ovelhas Santa Inês
com carneiros Suffolk e H. Down são bastante freqüentes.
Deve-se mencionar que a genotipagem para scrapie tem despertado
interesse, embora seja uma técnica relativamente nova e ainda de custos
razoáveis para o criador nacional. Pelo menos um criatório do Rio Grande
do Sul realizou genotipagem em 50 animais de seu plantel. Criadores de
ovinos Santa Inês, do Brasil Central, já começaram a genotipar alguns
animais. Os criadores vêem na técnica um instrumento para agregar valor
e confiabilidade aos produtos da cabanha.
Os genótipos encontrados nos rebanhos de Suffolk ajudam a explicar os
casos de scrapie ocorridos no rebanho nacional. Infelizmente, em
importações de ovinos do Reino Unido e USA/Canadá, vieram animais
infectados com o prion. A transmissão desse agente infeccioso foi facilitada
pela genética altamente sensível, favorecendo dessa forma o
estabelecimento do scrapie em nossos rebanhos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ocorrência de dois surtos de scrapie no primeiro semestre de 2006 no Mato
Grosso do Sul (MS) e no Rio Grande do Sul (RS) deverá alertar as autoridades
208 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
responsáveis pela Defesa Sanitária Animal Brasileira. Surtos ocasionais de
febre aftosa e o recente surto de New Castle em aves do RS, levaram a enormes
prejuízos ao setor primário especialmente aqueles voltados para exportação.
Para acessar o risco de encefalopatia espongiforme bovina (BSE) em um
país, as organizações internacionais consideram a presença de casos de
scrapie no rebanho ovino local. A ocorrência de novos surtos de scrapie
poderá, assim penalizar nosso país com aumento do risco de BSE. Tal
fato, teria reflexo em nossas exportações de carne bovina. Portanto, seria
pertinente sugerir as medidas que seguem:
a. Planejamento e execução de extenso inquérito sobre fatores de risco
da ocorrência de novos casos de scrapie em rebanhos brasileiros;
b. Promover “workshop” sobre risco de introdução de doenças exóticas
pela importação de animais;
c. Difundir, colocando à disposição da ARCO a técnica de genotipagem a
suscetibilidade genética a scrapie, permitindo identificar ovinos resistentes
ao scrapie;
d. Certificação pelo MAPA de Centros Estaduais de Diagnóstico Veterinário
para encefalites espongiformes.
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suffolk sheep. 6th International Sheep Veterinary Congress – Proceedings,
17-21 June 2005, Creta, Grécia, p.274-275, 2005.
RIBEIRO, L. A. O.; RODRIGUES, N.C. Scrapie. A Hora Veterinária, n.120,
p.15-22, 2001.
YUZBASIVAN-GURKAN, V. N.; KREHBIEL, J. D.; CAO, Y.; VENTA, P. J.
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for detection of different alleles at codon 136 and 171 of ovine prion protein
gene. American Journal Veterinary Research., v.60, p.884-887, 1999.
Veterinária
em Foco - v.4, n.2, jan./jun. 2007 209
NORMAS EDITORIAIS
POLÍTICA E REGRAS GERAIS
A revista VETERINÁRIA EM FOCO, publicação científica da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA), com periodicidade semestral, publica arti-
gos científicos, revisões bibliográficas, relatos de casos e notas técnicas
referentes à área de Ciências Veterinárias, que a ela deverão ser destina-
dos com exclusividade. É editada sob responsabilidade do Curso de Medi-
cina Veterinária da Ulbra.
Os artigos científicos, revisões bibliográficas, relatos de casos e notas de-
vem ser enviados em tres cópias redigidas em computador, em word, fon-
te 12, Times New Roman, espaço duplo entre linhas, folha tamanho A4
(21,0 x 30,0 cm), margem direita 2,5cm e esquerda 3cm. As páginas de-
vem ser numeradas e rubricadas pelos autores. Os trabalhos devem ser
acompanhados de ofício assinado pelos autores.
Os artigos serão submetidos a exame por 3 pesquisadores com atividade na
linha de pesquisa do tema a ser publicado, tendo a Revista o cuidado de man-
ter sob sigilo a identidade dos autores e dos consultores. Disquetes serão soli-
citados após a submissão dos trabalhos e aprovação pelos consultores.
1- O artigo científicoartigo científicoartigo científicoartigo científicoartigo científico deverá conter os seguintes tópicos: Título
(em português e inglês); RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key
words; INTRODUÇÃO (com revisão da literatura); MATERIAL E
MÉTODOS; RESULTADOS E DISCUSSÃO; CONCLUSÃO; AGRADE-
CIMENTOS; REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
2- A revisão bibliográficarevisão bibliográficarevisão bibliográficarevisão bibliográficarevisão bibliográfica deverá conter: Título (em português e
inglês); RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key words;
INTRODUÇÃO; DESENVOLVIMENTO; CONCLUSÃO; REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS.
3- A notanotanotanotanota deverá conter: Título (em português e inglês); RESUMO;
Palavras-chave; ABSTRACT; Key words; seguido do texto, sem sub-
divisão, abrangendo introdução, metodologia, resultados, discussão
e conclusão, com REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
4- O relato de casorelato de casorelato de casorelato de casorelato de caso deverá conter: Título (em português e inglês);
RESUMO; Palavras-chave; ABSTRACT; Key words; INTRODUÇÃO
(com revisão de literatura); RELATO DO CASO; RESULTADOS E
DISCUSSÃO; CONCLUSÃO; REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
ORGANIZAÇÃO DO TEXTO
Título
Deve ser claro e conciso, em caixa alta e negrito, sem ponto final, em
português e inglês.
210 v.4, n.2, jan./jun. 2007 - Veterinária em Foco
Autores
Deve constar o nome por extenso de cada autor, abaixo do título, seguido
de informação sobre atividade profissional, maior titulação e lugar/ano
de obtenção, Instituição em que trabalha, endereço completo e E-mail.
Resumo e Abstract
O resumo deve ser suficientemente completo para fornecer um panorama ade-
quado do que trata o artigo, sem, porém, ultrapassar 350 palavras. Logo após,
indicar as palavras-chave / key words (mínimo de três) para indexação.
Citações e Referências Bibliográficas
Citações bibliográficas no texto deverão constar na INTRODUÇÃO, MA-
TERIAL E MÉTODOS E DISCUSSÃO no artigo científico, conforme exem-
plo: um único autor (SILVA, 1993); dois autores (SOARES & SILVA, 1994);
mais de dois autores (SOARES et al., 1996). Quando são citados mais de
um trabalho, separa-se por ponto e vírgula dentro do parênteses (SOA-
RES, 1993; SOARES & SILVA, 1994; SILVA et al., 1998).
Referências devem ser redigidas em página separada e ordenadas alfabe-
ticamente pelos sobrenomes dos autores, elaboradas conforme a ABNT
(NBR-6023).
Tabelas e Figuras
As Tabelas e Figuras devem ser numeradas de forma independente, com
números arábicos. As Tabelas devem ter o título acima das mesmas, escri-
to em letra igual à do texto, mas em tamanho menor.
As Figuras devem ter o título abaixo das mesmas.
Tabelas e Figuras podem ser inseridas no texto.
Endereço para correspondência
Revista VETERINÁRIA EM FOCO
Av. Farroupilha, 8001 - Prédio 14 - Sala 125
São José / RS - Brasil
CEP: 92425-900
E-mail: secagrarias@ulbra.com
Disponível eletronicamente
www.editoradaulbra.com.br
www.ulbra.br/veterinaria

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