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Sistema de Solução de Conflitos Prof. MSc. Daniel Luchine Ishihara Aula 13: Arbitragem – Parte I Centro de Educação Superior de Brasília – CESB Instituto de Educação Superior de Brasília – IESB 1 Sistema de Solução de Conflitos Conteúdo Programático Unidade I : Noções Introdutórias. Acesso à Justiça. Unidade II: Negociação; Atividade: exercícios de negociação simulada. Unidade III: Conciliação; Atividade Prática: observação de uma conciliação do JEC. Unidade IV: Mediação. Atividade: análise de um vídeo de uma mediação. Unidade V: Justiça Restaurativa. Atividade: pesquisa. Unidade VI: Arbitragem. Plano de Ensino 2 Arbitragem - Conceito Conceito: Arruda Alvim: “instituição pela qual as pessoas capazes de contratar confiam a árbitros, por elas indicados ou não, o julgamento de seus litígios relativos a direitos transigíveis”. Carlos Alberto Carmona: “meio alternativo de solução de controvérsias através do qual as partes em litígio envolvendo direito disponível escolhem um juiz privado para decidir a controvérsia de forma autoritativa, ou seja, vinculativa para os litigantes”. 3 Arbitragem - Características Características principais: Heterocomposição heterônoma Solução rápida, deformalizada e especializada Sigilosidade Decisão do árbitro constitui título executivo judicial Árbitro pode homologar eventual acordo das partes Autonomia das partes (escolha do árbitro e do direito aplicável) 4 Arbitragem – base legal Base legal e aplicabilidade: Código civil: Art. 851. É admitido compromisso, judicial ou extrajudicial, para resolver litígios entre pessoas que podem contratar. Art. 852. É vedado compromisso para solução de questões de estado, de direito pessoal de família e de outras que não tenham caráter estritamente patrimonial. Art. 853. Admite-se nos contratos a cláusula compromissória, para resolver divergências mediante juízo arbitral, na forma estabelecida em lei especial. 5 Arbitragem – Origem histórica Grécia Mitologia: arbitragem entre os deuses Entre povos gregos: deuses comuns inspiravam a solução alternativa de conflitos Tratado da Paz de 445 a.C. entre Esparta e Atenas: presença de cláusula compromissória Roma Arbitragem entre estados e entre particulares Praetor peregrinus: árbitro para resolver litígios dos estrangeiros Regras mais abertas para a arbitragem – o árbitro não se submetia a qualquer lei. Período Justiniano: desenvolvimento da arbitragem, surgimento de ação judicial própria para o caso de descumprimento da decisão arbitral. 6 Segundo Cretella Júnior, apud Lenza (1997), "... o instituto da arbitragem encontra-se na mitologia grega quando Páris funciona como árbitro entre Atenas, Hera e Afrodite, em disputa pela maçã de ouro, destinada pelos deuses à mais bela". Arbitragem – Origem histórica Medievo Ausência de leis, fraqueza do Estado e poder da Igreja: desenvolvimento da arbitragem. Papa: árbitro supremo, auxiliado pelos bispos em cada território Norte da Itália: árbitros para os comerciantes (avaliação de bens) Contratos mercantis e marítimos com cláusulas compromissórias Pós-Revolução Francesa Arbitragem era a melhor alternativa para a justiça real absolutista Logo a arbitragem caiu em desuso devido à lei da arbitragem de 1806: excesso de formalidades 7 Arbitragem – Lei 9.307/96 Estrutura: Disposições gerais Convenções de arbitragem Árbitros Procedimento arbitral Sentença arbitral Sentenças arbitrais estrangeiras Disposições finais Derrogação do CPC: Capítulo XIV: do juízo arbitral (arts. 1.072 a 1.102) Do compromisso Dos árbitros Do procedimento Da homologação do laudo 8 A Lei 9307 tem 44 artigos em 7 capítulos. Foi escolhida a exclusão da arbitragem do CPC porque não trata apenas de direito processual. Arbitragem - Disposições Gerais Terminologia básicas: Órgão arbitral: árbitro único / grupo de árbitros Arbitragem ad hoc: pós-controvérsia Arbitragem institucional: pré-constituído Variações da arbitragem: High-low arbitration: para questões pecuniárias Arbitragem não vinculativa: interesse na opinião de terceiro neutro Med/Arb: arbitragem na falta de acordo Cláusula arbitral escalonada Desaconselhável se o mediador também atuará como árbitro 9 Arbitragem - Disposições Gerais Capacidade para utilizar a arbitragem: Art. 1º As pessoas capazes de contratar poderão valer-se da arbitragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. Aptidão genérica e específica do CC: Art. 1º Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil. Ver arts. 3º e 4º do CC para “incapazes” Art. 851. É admitido compromisso, judicial ou extrajudicial, para resolver litígios entre pessoas que podem contratar. Necessidade de autorização para os entes despersonalizados: Condomínio Massa falida Espólio Sociedade de fato 10 Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: I - os menores de dezesseis anos; II - os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos; III - os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua vontade. Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência mental, tenham o discernimento reduzido; III - os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo; IV - os pródigos. Arbitragem - Disposições Gerais 11 Julgamento por equidade: afasta a regra jurídica positiva de aplicação injusta no caso concreto Julgamento com equidade: auxilia a interpretação da lei para aplicar norma jurídica “Regras de direito”: Regras de forma e de fundo (processuais) “Bons costumes” (bonimores): Honestidade e recato esperado das pessoas, com dignidade e decoro social (Carmona) “Ordem pública”: Princípios indispensáveis à organização da vida social (Beviláqua), protegendo os sentimentos de justiça e de moral (Carmona) “Princípios gerais de direito”: Enunciações normativas de valor genérico, que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico (Reale) “Usos e costumes”: Direito não escrito consuetudinário (práticas reiteradas) “Regras internacionais de comércio” (lex mercatoria): Práticas contratuais, usos do comércio e princípios gerais do direito (Bortolotti) Arbitragem – Lei 9.307/96 Estrutura: Disposições gerais Convenções de arbitragem Árbitros Procedimento arbitral Sentença arbitral Sentenças arbitrais estrangeiras Disposições finais 12 A Lei 9307 tem 44 artigos em 7 capítulos. Foi escolhida a exclusão da arbitragem do CPC porque não trata apenas de direito processual. Arbitragem – Convenções de Arbitragem 13 Definição das convenções de arbitragem: Art. 4º - A cláusula compromissória é a convenção através da qual as partes em um contrato comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal contrato. Art. 9º - O compromisso arbitral é a convenção através da qual as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas, podendo ser judicial ou extrajudicial. Requisitos da cláusula compromissória: Por escrito (art. 4º, § 1º) Sem formalidades: remissão às regras contratuais gerais do direito civil Art. 10 - Constará, obrigatoriamente, do compromisso arbitral: I - o nome, profissão, estado civil e domicílio das partes; II - o nome, profissão e domicílio do árbitro, ou dos árbitros, ou, se for o caso, a identificação da entidade à qual as partes delegarem a indicação de árbitros; III - a matéria que será objeto da arbitragem; e IV - o lugar em que será proferida a sentença arbitral. Requisitos do compromisso arbitral: Art. 9º - O compromisso arbitral (...), podendo ser judicial ou extrajudicial. § 1º - O compromisso arbitral judicial celebrar-se-á por termo nos autos, perante o juízo ou tribunal, onde tem curso a demanda. § 2º - O compromisso arbitral extrajudicial será celebrado por escrito particular, assinado por duas testemunhas, ou por instrumento público. Requisitos da cláusula compromissória : Art. 4º - § 1º - A cláusula compromissória deve ser estipulada por escrito, podendo estar inserta no próprio contrato ou em documento apartado que a ele se refira. Procedimento garantidor da cláusula compromissória: Cláusula compromissória vazia: Não dispõe sobre a forma de instituição da arbitragem Instituição da forma: acordo privado (art. 6º, caput); ou via judicial (art. 6º, parágrafo único c/c art. 7º) Cláusula compromissória completa: Citação da parte resistente à instituição da arbitragem (art. 7º) Sentença do juiz valerá como compromisso arbitral Art. 6º - Não havendo acordo prévio sobre a forma de instituir a arbitragem, a parte interessada manifestará à outra parte sua intenção de dar início à arbitragem, por via postal ou por outro meio qualquer de comunicação, mediante comprovação de recebimento, convocando-a para, em dia, hora e local certos, firmar o compromisso arbitral. Parágrafo único - Não comparecendo a parte convocada ou, comparecendo, recusar-se a firmar o compromisso arbitral, poderá a outra parte propor a demanda de que trata o Art. 7º desta Lei, perante o órgão do Poder Judiciário a que, originariamente, tocaria o julgamento da causa. Art. 7º - Existindo cláusula compromissória e havendo resistência quanto à instituição da arbitragem, poderá a parte interessada requerer a citação da outra parte para comparecer em juízo a fim de lavrar-se o compromisso, designando o juiz audiência especial para tal fim. (...) § 2º - Comparecendo as partes à audiência, o juiz tentará, previamente, a conciliação acerca do litígio. Não obtendo sucesso, tentará o juiz conduzir as partes à celebração, de comum acordo, do compromisso arbitral. (...) § 7º - A sentença que julgar procedente o pedido valerá como compromisso arbitral. Arbitragem – Convenções de Arbitragem 14 Significados: Antes da Lei 9307/96: cláusula compromissória era mero pré-contrato (pacto de contrahendo) – não afastada obrigatoriamente a jurisdição estatal, era mera promessa de se fixar compromisso arbitral (modelo clássico francês) Pós Lei 9307/96: Carmona: sinônimos de “convenção arbitral” (convenio arbitral) Efeitos: Afasta a jurisdição estatal O juiz togado se torna incompetente para o conhecimento da ação Arbitragem – Convenções de Arbitragem Cláusula compromissória nos contratos de adesão: Art. 4º - § 2º - Nos contratos de adesão, a cláusula compromissória só terá eficácia se o aderente tomar a iniciativa de instituir a arbitragem ou concordar, expressamente, com a sua instituição, desde que por escrito em documento anexo ou em negrito, com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula. No CDC: Art. 51 - São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem; Conclusão: vale a cláusula compromissória no contrato de adesão (do policitante) apenas se conferir ao aderente (oblato) a opção de não aceitá-la 15 DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DO CONSUMIDOR. CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM. NULIDADE DA CLÁUSULA. É nula a cláusula que determine a utilização compulsória da arbitragem em contrato que envolva relação de consumo, ainda que de compra e venda de imóvel, salvo se houver posterior concordância de ambas as partes. A Lei de Arbitragem dispõe que a pactuação do compromisso e da cláusula arbitral constitui hipótese de extinção do processo sem julgamento do mérito, obrigando a observância da arbitragem quando pactuada pelas partes com derrogação da jurisdição estatal. Tratando-se de contratos de adesão genéricos, a mencionada lei restringe a eficácia da cláusula compromissória, permitindo-a na hipótese em que o aderente tome a iniciativa de instituir a arbitragem ou de concordar expressamente com a sua instituição (art. 4º, § 2º, da Lei n. 9.307/1996). O art. 51, VII, do CDC estabelece serem nulas as cláusulas contratuais que determinem a utilização compulsória da arbitragem. Porém, o CDC veda apenas a adoção prévia e compulsória da arbitragem no momento da celebração do contrato, mas não impede que, posteriormente, diante de eventual litígio, havendo consenso entre as partes (em especial a aquiescência do consumidor), seja instaurado o procedimento arbitral. Portanto, não há conflito entre as regras dos arts. 51, VII, do CDC e 4º, § 2º, da Lei n. 9.307/1996; pois, havendo contrato de adesão que regule uma relação de consumo, deve-se aplicar a regra específica do CDC, inclusive nos contratos de compra e venda de imóvel. Assim, o ajuizamento da ação judicial evidencia, ainda que de forma implícita, a discordância do autor em se submeter ao procedimento arbitral. Precedente citado: REsp 819.519-PE, DJ 5/11/2007. REsp 1.169.841-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 6/11/2012. Exemplos de cláusula compromissória: Câmara de Comércio Internacional (CCI): “Todas as controvérsias oriundas ou relacionadas ao presente contrato serão resolvidas de forma definitiva segundo o Regulamento de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional, por meio de um ou mais árbitros nomeados de acordo com tal regulamento” Conselho Nacional de Instituições de Mediação e Arbitragem (CONIMA): “Qualquer litígio originado do presente contrato será definitivamente resolvido por arbitragem, de acordo com o Regulamento da INSTITUIÇÃO ADMINISTRADORA, por um ou mais árbitros nomeados de conformidade com tal Regulamento.” Sistema de Solução de Conflitos Próxima aula: Arbitragem – parte II 16