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CRIMINOLOGIA 2. SURGIMENTO DA CRIMINOLOGIA 2.1 Considerações Iniciais Não há consenso entre os doutrinadores sobre o exato momento do surgimento do estudo científico da criminologia. No final do Império Romano e início da Idade Média não se falavam em criminologia. No século IV, com estudos de Santo Agostinho, chegou-se a conclusão de que existiam homens bons (aqueles que acreditavam em Deus) e os maus (do diabo, satã), já demonstrando a conotação entre amigo/inimigo. O primeiro modelo de criminologia se dá com a obra “Martelo das Feiticeiras”, de 1487, escrita por Jacob Sprenger e Heinrich Kramer, no qual era abordado sobre a necessidade de combate ao crime em relação ao pior inimigo daquela sociedade: as bruxas. Nesse estudo, tais autores chegam a conclusão que as mulheres são seres inferiores e que por tal razão estariam mais suscetíveis as influências do diabo. A discussão sobre a origem da criminologia é profunda. Há que aponte Cesare Lombroso como o fundador da criminologia moderna, ao editar a obra “Homem Delinquente”, em 1876. Há quem aponte que mesmo antes de Lombroso, outros filósofos, antropólogos e sociólogos já tinham tratado sobre o tema, como é considerado o caso de Topinard, que em 1879 empregou pela primeira vez o termo “criminologia”, sendo posteriormente a vez de Garofalo de, em 1885, utilizar tal termo em uma das suas obras científicas. Como se sabe, a Escola Positivista italiana foi precedida pela Escola Clássica. Assim, poder-se-ia apontar esta escola como a primeira a trabalhar com conceitos de criminologia, com o seu expoente Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria, com o livro “Dos Delitos e das Penas”, em 1764. Segundo Shecaira: “A Escola Clássica enraíza suas idéias exclusivamente na razão iluminista e a Escola Positivista, na exacerbação da razão confirmada por meio da experimentação. Clássicos focaram seus olhares no fenômeno e encontraram o crime; positivistas fincaram suas reflexões nos autores desse fenômeno, encontrando o criminoso.” (2012, p. 72). Resumindo, não há como apontar, com certeza, qual é o marco histórico propulsor do nascimento da criminologia. Na verdade, todas essas informações trazidas pelas escolas e por filósofos fizeram nascer a criminologia. 2.2 Histórico do Pensamento Criminológico Uma das classificações históricas da Criminologia divide o seu desenvolvimento em duas fases: período pré-científico e período científico. O período pré-científico abrange desde a antiguidade onde encontramos alguns textos esparsos de alguns autores que já demonstravam preocupação com o crime, terminando com o surgimento do trabalho de Lombroso e de Beccaria. A criminologia passou a existir com o surgimento da Escola Clássica. Durante a Idade Média, destaca-se a influência e o poder político da Igreja, questão que determina todo o pensamento em torno da delinqüência por meio da Filosofia escolástica e da Teologia, que modelaram diretamente o campo do Direito Penal (confusão entre pecado e delito, pecador e delinquente). Pelo impacto social e histórico, sobressai-se a obra de Cesare Beccaria (Dos Delitos e das Penas). Sucintamente, Beccaria procurou fundamentar o direito de punir, bem como definir critérios de utilização da pena. O positivismo criminológico surge no fim do séc. XIX com a Scuola Positiva que foi encabeçada por Lombroso, Garofalo e Ferri. A Escola Positiva italiana apresentava duas direções opostas: a antropológica de Lombroso e a sociológica de Ferri, que fundamentava a necessidade do estudo sobre o crime sob o prisma do fator individual e social. O ponto de partida de Lombroso proveio de pesquisas craniométricas e criminosos, abrangendo fatores anatômicos, fisiológicos e mentais. A base da teoria, primeiramente foi o atavismo: o retrocesso atávico ao homem primitivo. Depois, a parada do desenvolvimento psíquico: comportamento do delinquente semelhante ao da criança. Por fim, a agressividade explosiva do epilético. Lombroso mudava o fundamento de sua teoria segundo as investigações que realizava. De Enrico Ferri (1856-1926) ficou a luta progressista, sob o enfoque: “Menos justiça penal, mais justiça social”. A contribuição principal de Lombroso para a Criminologia não é a sua famosa obra e nem no conceito do delinquente nato, mas sim no método que utilizou em suas investigações: o método empírico. Sua teoria foi formulada com base em resultados de mais de 400 autópsias de delinqüentes e seis mil análises de delinqüentes vivos. Lombroso apontava as seguintes características corporais do homem delinquente: protuberância occipital, órbitas grandes, testa fugidia, arcos superciliares excessivos, zigomas salientes, prognatismo inferior, nariz torcido, lábios grosso, arcada dentária defeituosa, braços excessivamente longos, mãos grandes, anomalias dos órgãos sexuais, orelhas grandes e separadas, polidactilia. As características anímicas, segundo o autor são: insensibilidade a dor, tendência a tatuagem, cinismo, vaidade, crueldade, falta de senso moral, preguiça excessiva, caráter impulsivo. (Albergaria, 1999, p. 131-132). O grande equívoco dos positivistas foi acreditar na possibilidade de se descobrir uma causa biológica para o fenômeno criminal. Ferri procurou corrigir essa postura unilateral, ao escrever sua Sociologia Criminal, onde acentua a importância dos fatores socioeconômicos e culturais da delinquência. A Escola Francesa de Lyon atacou fortemente as ideias de Lombroso. Entre os mais famosos integrantes dessa escola temos Lacassagne. A tese primordial da Escola de Lyon é a seguinte: o criminoso é como o micróbio ou o vírus, algo inócuo, até que o adequado ambiente o faz eclodir. Vale dizer: a predisposição pessoal e meio social fazem o criminoso. O fim do séc. XIX assistiu ainda ao surgimento da criminologia socialista em sentido amplo, entendida como explicação do crime a partir da natureza da sociedade capitalista e como crença no desaparecimento ou redução sistemática do crime depois de instaurado o socialismo. O séc. XX iniciou-se sob o signo do ecletismo, em que assistiu à exploração dos caminhos abertos no século anterior, sob a influência moderadora da união internacional de Direito Penal, fundada em 1889 por Hamel, Liszt e Prins. Consumou-se o abandono do antropologismo lombrosiano, progressivamente substituído pelas teorias explicativas de índole psicológica, psicanalítica, psiquiátrica e pela atenção dedicada às leis da hereditariedade, e combinação de cromossomos.