Esta é uma pré-visualização de arquivo. Entre para ver o arquivo original
· . . . . . . . . . . Per.s p ec t i. V d 5 . •.. . . . . . . . . UAqui est~oOS sdcerdotes; e muito embora sejam meus inimigos," meu sangue esta ligado ao deles." F. Nietzsche, Assim fa/au Zaratustra , IIouve tempo em que os descrentes, sem amar a Deus esem religiao, eram raros. Tao raros que elesmesmos r,e espantavam com sua descren'ra ea escondiam, como se ela fosse uma peste contagiosa. E de fato 0 era. Tanto assim que nao foram poucos os que acabaram queimados na fogueira, para que sua desgra'ra nao contaminasse os inocentes. To~ dos eram educados para ver e ouvir as coisas do muncio religioso, e a conversa cotidiana, este tenue fio que sustenta vis6es de mundo, confirmava - par meio de relatos de milagres, apari'r5es, vis5es, experiencias mfsticas,divinas e demonfacas - queesteeum .universoencantado e mara~ vilhoso no qual, por cleWise atraves de cada coisa e cada evento, se esconde e se revela um poder espiritual. 0 can~o gretariano, amtisica.deBach, astelas de HieronyulUs Bosch ePieter Bruegel, a catedral g6tica, a Divina Comedia, toclas essas obras sac express5es de urn mundo que vivia a vida temparaLsobaluze 'astrevas da etemiclade. 0 universe ffsico.se.estruturava ..ern ,tornodo drama da alma humana. E talvezseja esta a marcade todas as religi5es,par mais long(n~ quas que estejam.umas das outras: 0 esfoY!;o para pensar a realidade toda a partir da exigencia de que a vida fa<;a sentido. Mas alguma coisa ocorreu. Quebrou~se 0 encanto. 0 ceu, marada de Deus e seus santos, ficou de repente vazio. Virgens nao mais apareceram em grutas. Milagres se torna~ ram cada vez mais raros, e passaram a ocorrer sempre em lugares distantes com pessoas desconhecidas. A ciencia e a tecnologia avan'raram triunfalmente, construindo um mun~ do em que Deus nao era necessario como hip6tese de traba~ Iho. Uma das marcas do saber cientffico e seu rigorosoatefsmo II'IIIII!! I IIii I - ·0 que ere Ii g i-a 0 ? - . metodo16gico: um bi6logo nao invoca maus espfritos para expli~ car epidemias; nem um economista, os poderes do inferno para dar contas da inf1a~ao, da mesma forma que a astronomia modema, distante de Kepler, nao busca ouvir hannonias mu~ sicais divinas nas regularidades matematicas dos astros. Desapareceu a religiao? De forma alguma. Ela permane~ ce e frequentemente exibe uma vitalidade que se julgava extinta. Mas nao se pode negar que ela ja nao pode fre~ quentar aqueles lugares que um dia the pertenceram: foi expulsa dos centros do saber cientffico e das camaras onde se tomam as decis6es que concretamente determinam nos~ sas vidas. Nao sei de nenhuma instancia em que os te6logos tenham sido convidados a colaborar na elabora~ao de pla~ nos militares. Nao me consta, igualmente, que a sensibili~ dade moral dos profetas tenha sido aproveitada para 0 de~ senvolvimento de programas economicos. E e altamente duvidoso que qualquer industrial, convencido de que a natureza e criat;:ao de Deus, e portanto sagrada, tenha per~ dido 0 sono por causa dos males da polui~ao. . Permanece a experiencia religiosa, mas fora do mundo da ciencia, das fabricas, das usinas, das armas, do dinheiro, ~os bancos, da propaganda, da venda, da compra, do lucro. E compreensfvel que, diferentemente do que ocorria em passado nao muito distante, poucos pais sonhem com a carreira sacerdotal para seus filhos ... A situa~ao mudou. No mundo sagrado, a experiencia religiosa era parte integrante de cada um, da mesma forma - Perspectivas···· -. _. -.- que 0 sexo, a cor da pele, os membros, a linguagem. Uma pessoa sem religiao era uma anomalia. Nomundo dessacra- lizado as coisas se in verteram. Menos entre os homens co- muns, extemos aos drculos academicos, mas de forma in· .tensa.entre aqueles que pretendem ja haver passado pela ilumina<;ao cientffica, oembara<;o diante da experiencia religiosa pessoal e inegaveL Por raz6es 6bvias. Confessar~s~ religioso equivale a confessar~se habitante do mundo encan~ tado e magico do passado, ainda que apenas parcialmente. E 0 embara<;o vai crescendo a medida que nos aproximamos -das--cienciashumanas, justamente as queestudam a religiao. Comoe isso possivel? Como explicar essa distancia entre con~ecimento e experiencia? Simples! Nao e necessario -que 0 cientistatenha envolvimentos pessoais com amebas, cometas e venenos para compreende~los e conhece~los. Sen~ do valida a analogia, poder-se~ia concluirque nao selia . necessario ao cientistahaver tido experiencias religiosas . -pessoais como pressuposto parasuas investiga<;6es dos feno- menos religiosos. o problema e se a analogia pode ser invocada para todas as situa<;6es. Um surdo de nascen~a, poderia ele com~ preender a experiencia estetica que se tem ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven? Parece que nao. No entanto, lhe seria perfeitamente poss(vel fazer a ciencia do comporta~ mento das pessoas derivado da experiencia estetica: 0 surdo poderia ir a concertos e, sem ouvir uma s6 nota musical, observar e medir com rigor 0 que as pessoas fazem e 0 que nelas ocorre, desde suas rea<;6es fisio16gicas ate padr6es de I. II Jill/II Iliff I rei i g i a 0 ? . . . . . . . . relacionamento social, consequencias de experiencias pes~ soais esteticas a que ele mesmo nao tern acesso. Mas que tetia ele a dizer sobre a musical Nada. Creio que 0 mesmo acontece com a religiao. Eessa e a razao por que, como introduc;.aoa sua obra dassicasobre 0 'assunto, Rudolf Otto aconselha aqueles que nunca tiveram qualquer experiencia religiosa a nao. prosseguir com a leitura. E aqui terfamos de nos perguntarseexistem, realmente , essas pessoas das quais as perguntas religiosas foram radical- mente extirpadas. A religiao nao se liquida com a abstinen- cia dos atos sacramentais e a ausenCia dos lugares sagrados, da mesma forma que 0 desejo sexual nao se elimina com os votos de castidade. E e quando ador bate a porta e se esgotam os recursos da teenica quenas pessoas acordam os videntes, os exorcistas, os magic05, os euradores, os benze- dores, os sacerdotes, os profetas e poetas, aqueleque reza e suplica, sem saber direito a quem ..'.E surgem entao as per- guntas sobre 0 sentido da vida e 0 sentido da morte, per~ guntas das horas de insonia e diante do espelho ... 0 que ocone com frequencia e que as mesmas perguntas religiosas do passado se articulam agora, travestidas, por meia de sfm~ bolos secularizados. Metamorfoseiam-se os nomes. Persiste a mesma func;.aoreligiosa. Promessas terapeuticas de paz individual, de harmonia intima, de liberac;.aoda angustia, esperanc;.asde ordens sociais fratemas e justas, de resoluc;.ao das lutas entre os homens e de harmonia com a natureza, por mais disfarc;.adasque estejam nas mascaras· do jargao psicanalftico!psicologico, ou da linguagem da sociologia, da Per s pe ( t i va s . . '" . . . . . . polftica e da econo~ia, serao sempre express6es dos proble~ mas individuais e sociais em tome dos quais foram tecidas as teias religiosas. Se isso for verdade, seremos forc;.adosa conduir nao que nosso mundo se secularizou, mas antes que os deuses eesperanc;.as religiosasganharamnovos no~ mese novos rotulos, eseussacerdotes eprofetas, novas roupas, novos lugares e novos empregos. E facil identificar, isolare estudar a religiao como 0 comportamento exotica de gropos sociais restritos e dist3n~ tes..Mase necessaria reconhece~ la como presen<;ainvisivel, . sutil,:disfar<;ada, que se constitui num dos fios com que se tece 0 acontecer do nosso cotidiano. A religiao esta mais pr&ima de nossaexperiencia pessoal do que clesejamos admitir. 0 estudo da religiao, portanto, longe ~ ser uma janela que se abre apenas para panoramas exten10S,e como ..um espelho em·que nosvemos. Aqui a cienda da religiao e tambemciencia de nos mesmos; sapiencia, conhecimento saboroso. Como o dissepoeticamente Ludwig Feuerbach: "A consciencia de Deus e autoconsciencia; 0 conhecimento de Deus e autoconhecimento. A religiao e 0 solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revela,¥ao dos seus pensamentos Intimos, a confissao aberta dos seus segredos de amor". E poderfamos acrescentar: que tesouro oculto nao e religioso? Que confissao fntima de amor nao esta gravida de deuses? Quem seria esta pessoa vazia de tesouros ocultos e de segredos de amor?