Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Haroldo Mattos de Lemos
	 EEH 351 Desenvolvimento e Meio Ambiente 
			
Parte 2: O CONCEITO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Prof. Haroldo Mattos de Lemos*
3. Os anos 80
3.1. A Estratégia Mundial para a Conservação
Em 1981, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e o Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF), com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), lançaram a Estratégia Mundial para a Conservação (World Conservation Strategy). Esta proposta, visando a harmonizar o desenvolvimento sócio econômico com a conservação do meio ambiente, dá ênfase à necessidade de preservação dos ecossistemas naturais e, portanto, da diversidade biológica, e à utilização racional dos recursos naturais. A Estratégia Mundial para a Conservação lançou o conceito de "desenvolvimento sustentado", que, entretanto, seguia basicamente as mesmas linhas do "ecodesenvolvimento", lançado na Conferência de Founex, em 1971, mas com mais ênfase na preservação da biodiversidade. A Estratégia Mundial para a Conservação teve pequena repercussão por ter enfatizado mais a conservação do que o gerenciamento dos recursos naturais para um desenvolvimento sustentável, tendo em vista a satisfação das necessidades básicas da sociedade.
3.2. A Sessão Especial do Conselho de Administração do PNUMA
Em 1982, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente resolveu comemorar os dez anos da Conferência de Estocolmo, com uma Sessão Especial do seu Conselho de Administração, em Nairobi, Quênia. Nesta época, uma nova e importante preocupação entrava em cena: os problemas ambientais globais, que começavam a indicar que a geração de resíduos e poluição pelas atividades humanas já estava excedendo, em algumas áreas, a capacidade de assimilação da biosfera (Figura 5). As medições efetuadas revelavam que alguns resíduos das atividades humanas já ultrapassavam a capacidade natural de autodepuração da biosfera, e estavam se acumulando no ar (CO2, clorofluorcarbonos), nas águas (poluentes orgânicos persistentes, mercúrio) e nos solos, ou provocando degradação ambiental em velocidade superior à de regeneração natural (como o desmatamento, a perda de diversidade biológica, e a desertificação). Portanto, à preocupação com o esgotamento das fontes de recursos naturais se somava a preocupação com os limites de absorção dos resíduos das atividades humanas, muito mais difícil e mais complicado de se controlar.
A Sessão Especial do Conselho de Administração aprovou a Declaração de Nairobi, que classificava como preocupações ambientais tanto a pobreza do Sul quanto o consumo esbanjador do Norte. Durante a reunião, o PNUMA propôs ao seu Conselho de Administração que recomendasse às Nações Unidas a criação de uma Comissão Mundial Independente sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, para estudar as questões ambientais e de desenvolvimento até o ano 2000 e após, e propor soluções. Não houve consenso na reunião de 1982, pois alguns países desenvolvidos queriam que a comissão estudasse apenas as questões ambientais, embora a discussão em Estocolmo, em 1972, já tenha sido sobre meio ambiente e desenvolvimento. Somente na Reunião do Conselho de Administração de 1983 foi aprovada a proposta mais ampla, defendida pelos países em desenvolvimento, com a ajuda de alguns desenvolvidos, como os países nórdicos.
3.3. A Comissão Mundial Independente sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento 
Atendendo à sugestão do Conselho de Administração do PNUMA, a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou, no final de 1983, a Resolução 38/161, que criou a Comissão Mundial Independente sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. 
A Comissão Mundial foi presidida pela Sra. Gro Harlem Brundtland, ex-Primeira Ministra da Noruega. Um dos 21 membros da Comissão, que serviram em suas capacidades individuais foi o Dr. Paulo Nogueira Neto, que na época dirigia a Secretaria Especial do Meio Ambiente do Governo brasileiro. A Comissão, com o apoio de vários consultores internacionais e de reuniões e audiências públicas em todos os continentes, analisou vários aspectos da questão meio ambiente e desenvolvimento, como:
	 a)	o crescimento populacional: o grande problema é que a população nos países em desenvolvimento continuará crescendo e a dos países ricos ficará estável;
b)	a grave crise urbana que atinge os países em desenvolvimento, e que tende a se agravar ainda mais no futuro próximo;
c)	a pobreza, que reduz a capacidade das pessoas para usar os recursos naturais de forma racional, levando-as a exercer maior pressão sobre o meio ambiente. A Comissão discute o paradoxo da pobreza que faz com que os que menos possuem gastem mais para poder garantir sua sobrevivência. Na África Sub-Saariana, as mulheres caminham vários quilometros por dia para encontrar gravetos para poder cozinhar uma refeição para suas famílias. Depois, cozinham esta refeição numa panela de barro ao ar livre. Sem contar com a energia gasta na caminhada para colher os gravetos, elas gastam oito vezes mais energia do que as mulheres que cozinham num fogão a gás e em panelas de alumínio (muito mais eficientes que o barro na transmissão do calor). Um pobre que ilumina sua casa com lamparinas a querosene obtém menos de 7% da luz gerada por uma lâmpada elétrica de 100W, mas consome a mesma quantidade de energia. Para os pobres, portanto, a escassez de dinheiro constitui uma limitação maior do que a escassez de energia, pois eles são forçados a usar combustíveis "livres" (com baixo rendimento energético) e equipamentos ineficientes, como a panela de barro ou a lamparina de querosene;
d)	a grande disparidade entre os níveis de consumo de recursos nos países industrializados e nos em desenvolvimento: 25% da população (países ricos e elites dos países pobres) consome 75% de toda a energia primária produzida no mundo, 75% dos metais extraídos da crosta terrestre, 85% dos produtos da madeira e mais de 50% dos alimentos produzidos. A respeito desde padrão insustentável de consumo, Mahatma Gandhi dizia que "A Terra tem recursos suficientes para as necessidades de todos, mas não para a gula de todos";
e)	a disponibilidade de água para as atividades humanas, que seria um dos problemas ambientais mais graves que vamos enfrentar no início do século XXI.
O relatório da Comissão, Nosso Futuro Comum8 (Our Common Future), divulgado em 1987, apresentou o conceito de desenvolvimento sustentável como sendo a única alternativa para o futuro da humanidade, evitando a incontrolável mortandade da população prevista nos dois primeiros modelos do Clube de Roma, e as graves convulsões sociais previstas no terceiro relatório. 
3.4. O conceito de desenvolvimento sustentável.
O desenvolvimento sustentável foi definido pela Comissão Brundtland como: 
"Aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades". 
É fácil concordar com este conceito, pois é puro bom senso, mas ele é extremamente complexo e controvertido quando se tenta aplicá-lo ao nosso dia-a-dia. Para alcançarmos o desenvolvimento sustentável serão necessárias mudanças fundamentais na nossa forma de pensar e na maneira em que vivemos, produzimos, consumimos etc. O desenvolvimento sustentável, portanto, além da dimensão ambiental, tecnológica e econômica, tem uma dimensão cultural e política, e vai exigir a participação democrática de todos na tomada de decisões para as mudanças que serão necessárias.
Vários pontos de controvérsia, com relação ao conceito de desenvolvimento sustentável, foram também levantados e discutidos durante a Rio 92:
a)	até que ponto é justo (ou ético) utilizar agora recursos que podem comprometer o bem-estar das futuras gerações?
b) as mudanças tecnológicas (biotecnologia, tecnologias industriais mais limpas) poderiam garantir a sustentabilidadeda biosfera ou seriam necessárias mudanças mais fundamentais, como padrões de vida mais baixos nos países industrializados?
c)	o que precisaria ser realmente preservado (ou sustentado)? Alguns economistas definiam como “capital social” o conjunto formado pelo meio ambiente, capital físico, organização social e tecnologia. Argumentavam, então, que o que deveria ser preservado, e se possível aumentado, é o capital social. Portanto, uma melhor organização social no futuro poderia contrabalançar uma maior degradação ambiental. Os ambientalistas, é claro, não concordavam com esta proposta.
 
Uma personalidade dos países industrializados chegou a declarar que o problema mais importante a ser resolvido para que pudéssemos alcançar o desenvolvimento sustentável era o "irresponsável" crescimento populacional nos países em desenvolvimento. Esqueceu, entretanto, da enorme diferença de consumo (portanto de impacto sobre a Biosfera) entre os habitantes dos países industrializados e os dos países em desenvolvimento. Na realidade, para alcançarmos o desenvolvimento sustentável, o indicador mais importante que teremos que levar em conta, procurando sempre minimizar o resultado, é o produto:
população x consumo de recursos per capita,
que representa o fluxo total de recursos da biosfera para o subsistema econômico, e que retorna à biosfera sob a forma de resíduos9. 
Este indicador é semelhante ao que se denomina hoje de "Pegada Ecológica" (Ecological Footprint). O conceito da pegada ecológica foi criado por Willian Rees e Mathis Wackernagel, que publicaram em 1995 o livro Our Ecological Footprint: Reducing Human Impact on the Earth.
A Pegada Ecológica é uma medida do que consumimos da natureza, em termos de água e terra produtiva, que ocupamos para produzir todos os recursos que consumimos e para absorver todos os resíduos que geramos. O planeta dispõe de 10.8 bilhões de hectares produtivos, que é menos que 25% de sua superfície. A ·área produtiva disponível a cada habitante do planeta é cerca de 1,8 hectares (ha), mas hoje os norte-americanos já usam mais do que o quíntuplo, ou seja, 9,71ha. Um habitante de Bangladesh possui uma pegada de cerca de 0,5 hectares.
Em 1961, a humanidade usava 70% da capacidade produtiva da Terra. Porém, a partir dos anos 80, com o crescimento populacional e o conseqüente aumento do consumo, a capacidade do planeta em fornecer os recursos necessários para as atividades humanas passou a ser insuficiente. Por volta de 1999 já consumíamos 25% a mais do que a capacidade de regeneração do planeta (pegada ecológica global per capita de 2,2 ha). Em outras palavras, o planeta precisaria de um ano e três meses para gerar os recursos usados pela humanidade num único ano. Criamos assim um déficit insuportável para as gerações futuras.
Para calcular a Pegada ecológica de um País ou região é necessário considerar todos os componentes que usam recursos naturais e produzem resíduos, como uso de minerais, água e energia, produção de alimentos, uso de madeira e área urbanizada. Quando usamos energia fóssil (carvão, gás natural e derivados do petróleo), a pegada ecológica inclui a área que deveria ser reservada para absorver o CO2 liberado para a atmosfera. Várias ONGs lançaram programas para cálculo da pegada ecológica, entre elas a Global Footprint Network (www.footprintnetwork.org).
A biocapacidade total do território brasileiro é de 18.615.000 km2, e a nossa pegada ecológica é de cerca de 2,6 ha. Alguns países, como o Brasil e Argentina, apresentam uma biocapacidade maior que sua pegada ecológica, ao contrário de outros, como México, Holanda, Japão e Estados Unidos. Se todos os habitantes da Terra tivessem o nível de consumo norte-americano, precisaríamos de três Terras semelhantes a nossa para garantirmos os recursos energéticos e materiais suficientes
4. Os anos 90
Em 1988, vinte anos após a decisão de realizar a Conferência sobre o Meio Ambiente Humano (proposta pela Suécia), a 43a. Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 43/196, que propunha realizar até 1992 uma nova conferência sobre temas ambientais. Um ano depois, em 1989, a 44a. Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou por consenso a Resolução 44/228, convocando para junho de l992 a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), com o objetivo de discutir as conclusões e propostas do Relatório Brundtland, particularmente o conceito do desenvolvimento sustentável, e comemorar os 20 anos da Conferência de Estocolmo.
Entre os vários países que se ofereceram para sediar a Conferência (Suécia, Canadá, Rússia), o Brasil acabou sendo escolhido, e decidiu realiza-la na cidade do Rio de Janeiro (as outras candidatas foram Brasília, Manaus e São Paulo). 	
Além das reuniões preparatórias convocadas pelas Nações Unidas (em Nova York, Genebra e Nairobi), muitas outras reuniões foram promovidas por diversos países, pelas organizações não governamentais (ONGs) ambientalistas, pela comunidade científica, pelos empresários e outros setores independentes. Entre elas, as reuniões coordenadas pelo PNUMA para a negociação dos textos das futuras Conferências de Diversidade Biológica e de Mudanças Climáticas.
4.1. A Conferência do Rio de Janeiro, em 1992.
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD) foi realizada entre 3 e 14 de junho de 1992 no Rio de Janeiro, e contou com dois eventos principais: 
a) a Conferência das Nações Unidas (Governamental), com a presença de 178 países e a participação de 112 Chefes de Estado (12 a 14 de junho), resultando na maior conferência deste tipo jamais realizada; 
b) o Fórum Global, uma conferência paralela dos setores independentes (Organizações Não Governamentais ambientalistas e ligadas a outros setores do desenvolvimento, às indústrias, aos povos tradicionais, às mulheres, etc.). 
Ao todo, participaram dos eventos mais de 30 mil pessoas, num acontecimento que foi considerado um marco na história da humanidade, pela sua contribuição para a mudança do estilo de desenvolvimento das nossas gerações futuras. 
Os principais resultados da Conferência do Rio de Janeiro foram:
 Aprovação da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento;
 Aprovação da Declaração sobre Florestas;
 Aprovação da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica;
 Aprovação da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas;
 Apresentação da Agenda 21;
 Proposta da criação da Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas;
 - Compromisso com os países africanos para uma futura Convenção das Nações Unidas sobre Desertificação (aprovada em 1995).
4.1.1. Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. 
É um documento formado por 27 princípios básicos, com o objetivo de estabelecer uma nova e justa parceria global, através da criação de novos níveis de cooperação entre os Estados, os setores mais importantes da sociedade e a população. Esta Declaração não tem força legal, mas assim como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos, os Governos que aprovaram a Declaração do Rio têm a obrigação moral de aderir aos seus princípios. 
De fato, os princípios da Declaração do Rio de Janeiro foram usados nas Convenções da Diversidade Biológica e das Mudanças Climáticas, e têm sido usados internacionalmente durante as discussões de vários problemas ambientais. Entre os princípios mais importantes da Declaração estão:
- Princípio 1: Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza.
- Principio 2: Os Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com os princípios do Direito Internacional, têm o direito soberano de explorar seus próprios recursos, segundo suas próprias políticas ambientais e de desenvolvimento, e a responsabilidade de assegurarque atividades sob sua jurisdição ou controle não causem danos ao meio ambiente de outros Estados ou áreas além dos limites da jurisdição nacional.
 - Principio 5: Todos os Estados e todos os indivíduos, como requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável, devem cooperar na tarefa essencial de erradicar a pobreza, de forma a reduzir as disparidades nos padrões de vida no mundo e melhor atender as necessidades da maioria da população mundial.
 - Principio 7: Os Estados devem cooperar, em um espírito de parceria global, para a conservação, proteção e restauração da saúde e da integridade do ecossistema terrestre. Considerando as distintas contribuições para a degradação ambiental global, os Estados têm responsabilidades comuns porém diferenciadas. Os países desenvolvidos reconhecem a responsabilidade que têm na busca internacional do desenvolvimento sustentável, em vista das pressões exercidas por suas sociedades sobre o meio ambiente global e das tecnologias e recursos financeiros que controlam.
 -	Principio 8: Para atingir o desenvolvimento sustentável e mais alta qualidade de vida para todos, os Estados devem reduzir e eliminar padrões insustentáveis de produção e consumo e promover políticas demográficas adequadas.
 - Princípio 10: A melhor maneira de tratar questões ambientais é assegurar a participação, no nível apropriado, de todos os cidadãos interessados. No nível nacional, cada indivíduo deve ter acesso adequado a informações relativas ao meio ambiente de que disponham as autoridades públicas, inclusive informações sobre materiais e atividades perigosas em suas comunidades, bem como a oportunidade de participar em processos de tomada de decisões.
 -	Principio 12: Os Estados devem cooperar para o estabelecimento de um sistema econômico internacional aberto e favorável, propício ao crescimento econômico e ao desenvolvimento sustentável em todos os países, de modo a possibilitar o tratamento mais adequado dos problemas da degradação ambiental. Medidas de política comercial para propósitos ambientais não devem constituir-se em meios para a imposição de discriminações arbitrárias ou injustificáveis, ou em barreiras disfarçadas ao comércio internacional.
 -	Princípio 13: Os Estados devem desenvolver legislação nacional relativa à responsabilidade e indenização das vitimas de poluição e outros danos ambientais.
 -	Principio 14: Os Estados devem cooperar de modo efetivo para desestimular ou prevenir a realocação ou transferência para outros Estados de quaisquer atividades ou substâncias que causem degradação ambiental grave ou que sejam prejudiciais à saúde humana.
 - Princípio 15: De modo a proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deve ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.
 -	Principio 16: Tendo em vista que o poluidor deve, em princípio, arcar com o custo decorrente da poluição, as autoridades nacionais devem procurar promover a internalização dos custos ambientais e o uso dos instrumentos econômicos, levando na devida conta o interesse público, sem distorcer o comércio e os investimentos nacionais.
 - Principio 18: Os Estados devem notificar imediatamente outros Estados de quaisquer desastres naturais ou outras emergências que possam gerar efeitos nocivos súbitos sobre o meio ambiente destes últimos. Todos os esforços devem ser empreendidos pela comunidade internacional para auxiliar os Estados afetados.
 - Princípio 25: A paz, o desenvolvimento e a proteção ambiental são interdependentes e indivisíveis.
4.1.2. Declaração sobre Florestas.
Na forma aprovada pela Conferência, a Declaração foi uma vitória diplomática dos países em desenvolvimento, pois a proposta inicial era a aprovação de uma convenção sobre florestas tropicais. Esta Declaração também não tinha força legal, mas serviu de base para as discussões para uma futura Convenção sobre Florestas, que foram iniciadas logo após a Rio 92 pelo Painel Intergovernamental sobre Florestas, criado no âmbito da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, sediado em Nova York. 
A Declaração sobre Florestas previa (Princípios 14 e 1 5) a autonomia dos países em desenvolvimento a para a exploração sustentável dos seus recursos florestais e a eliminação de barreiras comerciais para os produtos florestais explorados em bases sustentáveis (de acordo com métodos de manejo florestal, recomendados por organismos multilaterais como a Organização Mundial de Madeiras Tropicais, que reúne os maiores produtores e consumidores de madeira do mundo). 
O Princípio 6 enfatiza que a função das florestas plantadas e das culturas agrícolas permanentes, como fontes sustentáveis e ambientalmente corretas de energia renovável e matéria prima industrial, deve ser reconhecida, melhorada e promovida. 
O Princípio 7 afirma que recursos financeiros específicos devem ser fornecidos aos países em desenvolvimento que estabeleçam programas para a conservação de áreas significativas de suas florestas. 
E os Princípios 9, 14 e 15 mencionam a importância da redução do endividamento externo dos países em desenvolvimento, através de um melhor acesso ao mercado para produtos florestais, especialmente os processados, e a remoção de barreiras tarifárias para os produtos florestais.
4.1.3. Convenção sobre a Diversidade Biológica. 
Os objetivos da Convenção são a conservação e o melhor conhecimento da diversidade biológica, o uso sustentável de seus componentes e a divisão justa e eqüitativa dos benefícios alcançados pela utilização de recursos genéticos (artigo 1). 
Previa a ajuda financeira com recursos novos e adicionais para que os países em desenvolvimento pudessem fazer frente aos custos incrementais para o atendimento às obrigações da Convenção (artigo 20). 
Define também os termos para que os países industrializados tenham acesso ao material genético e outros recursos biológicos dos países em desenvolvimento, e os termos através dos quais estes países terão acesso a tecnologias ambientais e novas tecnologias desenvolvidas a partir de materiais e recursos encontrados em suas florestas (artigos 15 e l6). 
A distribuição dos benefícios é tratada pelo artigo 19, que prevê que quando uma patente é gerada a partir de material genético retirado dos países em desenvolvimento, o país que gerou a patente deve repartir os lucros com o país em desenvolvimento. 
A Convenção sobre Diversidade Biológica foi assinada por 157 países no Rio de Janeiro, e entrou em vigor em 29 de dezembro de 1993, três meses após sua ratificação pelo 30o destes países, a Mongólia. A Primeira Conferência das Partes foi realizada entre 28 de novembro e 9 de dezembro de 1994, em Nassau, Bahamas.
4.1.4.	Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas. 
O objetivo da Convenção é a estabilização da concentração dos "gases estufa" (CO2, metano, ozônio, clorofluorcarbonos, óxidos de nitrogênio) em um nível que possa prevenir as perigosas interferências de atividades antropogênicas sobre os sistemas climáticos (artigo 2). 
A Convenção Quadro não é uma convenção completa, pois define um conjunto de princípios gerais e obrigações a serem cumpridas, mas deixa para as negociações subseqüentes o estabelecimento de metas específicas para a redução quantitativa das emissões dos 'gases estufa'. 
Os países devem proteger o clima segundo o princípio da equidade e de acordo com suas responsabilidades comuns mas diferenciadas e respectivas capacidades (artigo 3.1), e as incertezas científicas não devem ser usadas como razão para adiar medidas em áreas onde possam existir ameaças de danos sérios ou irreversíveis (artigo 3.2). 
Os países membros assumem a responsabilidadede publicar periodicamente inventários nacionais de emissões antropogênicas por fontes, e quantidades absorvidas por sumidouros, de todos os gases estufa que não são controlados pelo Protocolo de Montreal (como os clorofluorcarbonos). 
Devem promover e cooperar no desenvolvimento, aplicação e difusão, incluindo a transferência, de tecnologias que controlem, reduzam ou previnam as emissões antropogênicas dos gases estufa não controlados pelo Protocolo de Montreal. Devem também promover o gerenciamento sustentável dos sumidouros (ex. florestas em crescimento são sumidouros para CO2) e reservatórios (ex. florestas maduras) de todos os gases estufa não controlados pelo Protocolo de Montreal. 
A Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas foi assinada no Rio de Janeiro por 154 países e mais a União Européia, e entrou em vigor no dia 21 de março de 1994, três meses após sua ratificação pelo 50o destes países, que foi Portugal. A Primeira Conferência das Partes foi realizada entre 28 de março e 7 de abril de 1995, em Berlim.
4.1.5.	Agenda 21. 
A Agenda 21 é um amplo programa de ação com a finalidade de dar efeito prático aos princípios aprovados na Declaração do Rio. Embora não tenha sido formalmente aprovada durante a Conferência do Rio de Janeiro, a Agenda 21 contém um roteiro detalhado de ações concretas a serem adotadas pelos governos, instituições das Nações Unidas, agências de desenvolvimento e setores independentes, para iniciar o processo de transição na direção do desenvolvimento sustentável. 
O documento está baseado na premissa de que a humanidade estava num momento de definição em sua história: continuar com as políticas atuais significava perpetuar as disparidades econômicas entre os países e dentro dos países, aumentar a pobreza, a fome, as doenças e o analfabetismo no mundo inteiro, e também continuar com a deterioração dos ecossistemas dos quais dependemos para manter a vida na Terra. Propõe mudar o rumo na direção de um melhor padrão de vida para todos, ecossistemas melhor gerenciados e protegidos, e um futuro mais próspero e seguro.
A Agenda 21 está dividida em 4 seções e 40 capítulos, com propostas de mais de cem programas contendo quase mil atividades. Todos os capítulos seguem a mesma estrutura: cada programa contém uma introdução, que define seu objetivo, seguida de uma seção denominada “bases para a ação”, que explica a necessidade do programa, a relação das atividades propostas, e finalmente, uma seção “meios para implementação”.
A Seção I trata das dimensões social e econômica do desenvolvimento sustentável em países em desenvolvimento: combate à pobreza, mudança dos padrões de consumo, dinâmica e sustentabilidade demográficas, proteção e promoção da saúde humana, desenvolvimento e direitos humanos, e a integração do meio ambiente no processo decisório.
A Seção II trata da conservação e gestão dos recursos naturais para o desenvolvimento. Inclui, entre outros, os seguintes tópicos: proteção da atmosfera, desertificação e seca, oceanos, água doce, resíduos perigosos, diversidade biológica, e combate ao desmatamento.
A Seção III trata do fortalecimento do papel de grupos sociais na implementação do objetivo do desenvolvimento sustentável. Inclui temas relativos a mulheres, juventude e crianças, indígenas, organizações não-governamentais, autoridades locais, trabalhadores e sindicatos, setor empresarial e indústrias, comunidade científica e tecnológica e agricultores.
Finalmente, a Seção IV trata dos meios de implantação, com capítulos sobre Recursos e Mecanismos Financeiros; Transferência, Cooperação e Capacitação Tecnológica; Ciência para o Desenvolvimento Sustentável; Promoção da Educação, Treinamento e Sensibilização da Sociedade; Mecanismos Nacionais e Cooperação Internacional para o Fortalecimento Institucional nos Países em Desenvolvimento; Informações para o Processo Decisório; Arranjos Institucionais Internacionais; e Instrumento e Mecanismos Jurídicos Internacionais. 
A Agenda 21 é um documento político, que pressupõe a ampla participação da sociedade na tomada das decisões necessárias, bem como a existência de instâncias institucionais que favoreçam sua implementação. É um processo de transformação cultural, de mudança de mentalidades e de comportamentos em direção a uma sociedade com padrões sustentáveis de produção e consumo. Pressupõe que os governos e a sociedade em geral sentem-se à mesa para discutir e diagnosticar os problemas, identificar e entender os conflitos envolvidos, e decidir sobre a melhor forma de resolvê-los, para iniciar o caminho na direção da sustentabilidade da biosfera.
4.1.5.1. As Agendas 21 Nacionais
O capítulo 38 da Agenda recomenda que os países criem uma estrutura de coordenação nacional, responsável pela elaboração das Agendas 21 Nacionais em cada país. A metodologia utilizada internacionalmente para a construção das Agendas 21 Nacionais contempla a parceria entre os diferentes níveis do Governo, o setor produtivo e a sociedade civil organizada. Até a Conferência Rio+5, realizada em 1997 no Rio de Janeiro, 65 países já haviam aprovado sua Agenda 21 Nacional.
As Agendas 21 Nacionais têm como objetivo elaborar os parâmetros de uma estratégia para o desenvolvimento sustentável, definindo as prioridades nacionais e viabilizando o uso sustentável dos recursos naturais. Devem levar em consideração as vantagens comparativas daquele país para produzir de forma mais eficiente os bens e serviços para a sociedade, assim como as fragilidades ambientais específicas.
No Brasil, o processo de elaboração da Agenda 21 Nacional sofreu grande atraso, principalmente em virtude das turbulências políticas que o país enfrentou logo após a Rio 92. Além do impeachment do Presidente da República, entre o início de 92 e final de 94, num período de três anos, o Governo Federal teve seis ministros/secretários responsáveis pelo meio ambiente. Em 1994, durante a gestão do Ministro Henrique Brandão Cavalcanti, a Secretaria de Meio Ambiente do Ministério do meio Ambiente preparou e entregou ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Representação no Brasil) um projeto para a discussão e aprovação da Agenda 21 Brasileira. Este projeto foi iniciado em 1995, durante a gestão do Ministro Gustavo Krause.
Em fevereiro de 1997, por meio de Decreto Presidencial, foi criada a Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional - CPDS, vinculada à Câmara de Recursos Naturais da Casa Civil da Presidência da República. A CPDS é uma comissão paritária, formada por representantes do governo, do setor produtivo e da sociedade civil, sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente.
A metodologia adotada para elaboração da Agenda incluiu a adoção de seis temas básicos, considerados de prioridade nacional: cidades sustentáveis; agricultura sustentável, gestão de recursos naturais; redução das desigualdades sociais; infra-estrutura e integração regional e ciência & tecnologia para o desenvolvimento sustentável.
O trabalho resultou em seis documentos temáticos que serviram de subsídios para elaboração do conteúdo da Agenda 21 Brasileira. Os documentos temáticos foram elaborados com base num processo participativo, que envolveu diversos segmentos da sociedade brasileira: instituições governamentais, o setor empresarial, sindicatos, a área acadêmica, os movimentos sociais e as organizações não governamentais. O documento final de cada tema tem a seguinte estrutura: marco conceitual, diagnóstico dos principais entraves à sustentabilidade do tema, proposição de ações e meios de implementação. 
Em junho de 2000 foi lançado o documento “Agenda 21 Brasileira - Bases para Discussão”. Foram realizados debates em 26 Estados da Federação (única exceção: Acre), com a parceria dos governos estaduais, através das secretarias de Meio Ambiente, instituições de credito e fomento ao desenvolvimento no país (Banco do Nordeste, SUDENE, SUDAM, Banco da Amazônia, Caixa Econômica Federal,Banco do Brasil, Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul) e da Petrobrás. 
Em seguida, foram realizados cinco seminários, um em cada região do país, envolvendo diferentes realidades e necessidades, enriquecendo as discussões entre os diversos atores envolvidos, sempre buscando os posicionamentos e contribuições que representassem o consenso do grupo. Todos os eventos estaduais quanto os regionais foram coordenados pelo Ministério do Meio Ambiente. Este processo envolveu cerca de 40 mil participantes em todo o país.
Segundo o jornalista Washington Novaes, o fato mais importante deste processo foi a explicitação de conflitos. Por exemplo, durante a discussão sobre agricultura sustentável, foram discutidos os custos embutidos nos nossos modelos agropecuários. Os modelos de monoculturas e de mecanização intensiva, que exigem a remoção da cobertura vegetal, implicam na perda da biodiversidade (que além do mais, exige a maior aplicação de “defensivos agrícolas” para controlar as pragas) e na erosão acelerada do solo. Estima-se que a erosão resulta na perda de um bilhão de toneladas de solo fértil por ano no Brasil. Outro conflito importante foi revelado durante a discussão sobre infra-estrutura e integração regional. Os técnicos da área de energia defendiam a necessidade de ampliação pura e simples da oferta de energia, com a construção de novas usinas hidrelétricas, enquanto os ambientalistas defendiam que a prioridade deveria ser a conservação de energia, para reduzir a necessidade de novos investimentos e dos impactos ambientais associados. 
No início de 2002, a tempo de ser apresentada na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (Johannesburgo, agosto 2002), a Agenda 21 Brasileira foi lançada com dois volumes: Ações Prioritárias e Resultado da Consulta Nacional. 
A elaboração e o lançamento da Agenda 21 Brasileira recebeu pouca atenção dos nossos meios de comunicação. Contribuiu para isto o atraso na sua elaboração e aprovação. O seu lançamento poucos meses antes da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, em 2002, também contribuiu para a pouca atenção dedicada pelos meios de comunicação.
4.1.5.2. As Agendas 21 Regionais
Alguns Estados brasileiros, entre eles o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia, já lançaram suas Agendas 21 Estaduais. Em 1995 o Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado afirmava que os programas e ações do governo deveriam ter como referência básica a questão ambiental, e que a elaboração da Agenda 21 com base nos documentos finais da Eco-92 era uma atividade prioritária.
O caso do Estado de Minas Gerais é um bom exemplo. Já em 1995 o Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado afirmava que os programas e ações do governo deveriam ter como referência básica a questão ambiental, e que a elaboração da Agenda 21 com base nos documentos finais da Eco-92 era uma atividade prioritária. Foi então criada a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Também em 1995 foi aprovada a Lei 12040, que criou o ICMS Ecológico, incentivando a preservação dos recursos naturais e o saneamento ambiental. Pelo sucesso obtido, este tipo de instrumento econômico vem sendo adotado por um número cada vez maior de estados.
4.1.5.3. As Agendas 21 Locais
O capítulo 28 da Agenda 21, “Iniciativas das autoridades locais em apoio à Agenda 21”, estabelece as premissas, métodos e princípios para a orientação das autoridades locais na busca do desenvolvimento sustentável. As Agendas 21 Locais têm importância fundamental na construção do desenvolvimento sustentável, pelo enorme poder de mobilização que as comunidades e os governos locais apresentam. No mundo inteiro, mais de 2.000 cidades já adotaram suas Agendas 21 Locais. Várias cidades brasileiras, como São Paulo, Belo Horizonte, Campinas, Vitória, Angra dos Reis, Santos, Porto Alegre e Curitiba elaboraram suas Agendas 21 Locais. 
O Ministério do Meio Ambiente – MMA tem dado apoio técnico e financeiro (pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente) à elaboração das Agendas 21 Locais e publicou um documento intitulado “Manual para a Implantação das Agendas 21 Locais”. 
4.1.5.4. Os recursos necessários para a implantação da Agenda 21
A questão central para a implantação das Agendas 21 era a da disponibilidade de recursos adicionais para que os países em desenvolvimento, cuja maior prioridade era o desenvolvimento econômico (para redução da pobreza). O secretariado da Conferência do Rio de Janeiro estimou em 120 bilhões de dólares os recursos necessários para que os países em desenvolvimento implantassem suas Agenda 21. O Instituto de Pesquisa do Desenvolvimento Econômico das Nações Unidas estimou, em 1992, que os países subdesenvolvidos precisariam, somente para retomar seu desenvolvimento, de recursos adicionais de cerca de US$ 60 bilhões por ano até o ano 2000. Considerando os gastos com a proteção ambiental, os recursos adicionais necessários atingiriam US$ 140 bilhões por ano, que é uma estimativa bem semelhante à da Agenda 21. 
Uma das decepções da Conferência do Rio foi o não comprometimento dos países industrializados com o nível desejado de recursos adicionais para os países do Terceiro Mundo. A proposta para que os países ricos destinassem 0,7% do seu PIB para a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (Oficial Development Aid - ODA) de seus vizinhos pobres acabou sendo aprovada, mas sem uma data definida: “o mais cedo possível”, foi a linguagem adotada. 
O cumprimento desta decisão significaria aproximadamente US$ 60 bilhões novos por ano, cerca de metade dos recursos necessários para executar as atividades propostas pela Agenda 21. E isto não seria tão difícil, pois a Noruega dedicava, naquela época, 1,17% do seu PIB para ajuda aos países pobres! A outra metade, 60 bilhões, poderia sair dos orçamentos dos próprios países em desenvolvimento, redirecionando seus orçamentos para os objetivos da Agenda 21. 
Alguns países ricos insistiram que fossem utilizados apenas os mecanismos já em funcionamento, como o Fundo Mundial para o Meio Ambiente (Global Environment Facility), coordenado pelo Banco Mundial, PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e PNUMA, e que seria ampliado para atender a esta tarefa.
Algumas propostas para gerar os recursos necessários discutidas antes e durante a Rio 92 foram o imposto sobre a emissão de CO2 de origem fóssil, uma taxa de 10% sobre a utilização de carvão (que geraria cerca de US$ 25 bilhões por ano), e uma taxa de US$1,00 sobre cada barril de petróleo exportado. Destas, apenas alguns países criaram taxas de emissão de CO2.
4.1.5.5. A Dívida Externa e o Comércio Internacional
Durante a discussão de recursos adicionais para os países em desenvolvimento, estes dois assuntos inter-relacionados foram também discutidos. Por causa da crise da divida externa, os países em desenvolvimento pagaram, durante grande parte dos anos 80, US$ 50 bilhões a mais por ano aos países industrializados do que receberam como financiamentos. Entre 1983 e 1989, o total de transferências de recursos do Sul para o Norte foi de aproximadamente US$ 241 bilhões11. 
O que é incrível, entretanto, é que, durante os anos 80, os países em desenvolvimento pagaram efetivamente 17% ao ano de juros sobre suas dividas externas, enquanto os países industrializados pagaram apenas 4% ao ano12. O motivo é a taxa de risco, isto é, a taxa que leva em conta a possibilidade do país em desenvolvimento não pagarem os empréstimos. Novamente, o paradoxo da pobreza, mencionado no Relatório Nosso Futuro Comum: aqueles que menos têm, acabam pagando mais.
O comércio internacional, por sua vez, é fundamental para o desenvolvimento global, e está diretamente relacionado com a equidade e com a sustentabilidade da biosfera. À época da Rio 92, estimava-se que o custo para os países em desenvolvimento das restrições ao acesso aos mercados dos países industrializados para seus produtos manufaturados, agrícolas, tropicais etc.,era de US$ 40 bilhões por ano, comparados com os aproximadamente US$ 50 bilhões que eram doados anualmente pelos países ricos como Ajuda Oficial ao Desenvolvimento aos países pobres13.
O número crescente de barreiras não alfandegárias contra as exportações do Terceiro Mundo e o protecionismo nos países industrializados é uma formidável barreira contra o desenvolvimento sustentável dos países do Terceiro Mundo. Os subsídios agrícolas na Comunidade Européia e nos Estados Unidos provocam a inundação dos mercados mundiais com produtos agrícolas subsidiados, causando a redução dos seus preços e impedindo o acesso dos produtos dos países em desenvolvimento. Para obter os recursos necessários em moeda forte (inclusive para pagar as suas dividas externas), os países em desenvolvimento são obrigados a aumentar sua produção, caindo num circulo vicioso, conhecido como "a armadilha dos commodities"13.
4.1.5.6. Comissão sobre o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas - CDS
A CDS foi proposta pela Conferência do Rio de Janeiro e criada pela Resolução 47/191 da Assembléia Geral das Nações Unidas em 22 de dezembro de 1992. A CDS é uma comissão funcional do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), composta de 53 membros representantes de países membros da ONU, eleitos para períodos de 3 anos de duração. A CDS se reúne todo o ano, por um período de duas a três semanas, e recebe apoio da Divisão de Desenvolvimento Sustentável do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU.
O papel da CDS como um foro de alto nível para o desenvolvimento sustentável inclui:
Revisar o progresso, nos níveis local, regional e internacional, da implantação das recomendações e compromissos contidos nos documentos da Conferência do Rio de Janeiro, isto é, a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e a Agenda 21;
Elaborar orientação política e opções para futuras atividades para acompanhar o Plano de Implementação de Johannesburgo (objetivo incluído após a Rio + 10);
Promover o dialogo e construir parcerias para o desenvolvimento sustentável com governos, a comunidade internacional e os maiores grupos identificados na Agenda 21 como atores fundamentais fora do governo central, e que desempenham um papel importante na transição para o desenvolvimento sustentável.
4.2. O Relatório "Além dos Limites"
No final de 1992, um grupo de cientistas, alguns dos quais tinham participado da elaboração do Primeiro Relatório do Clube de Roma, Os Limites do Crescimento, lançaram um novo livro, Além dos Limites14. Os cientistas refizeram o modelo matemático utilizado pelo Clube de Roma em 1971, usando computadores muito mais desenvolvidos e potentes, e um conjunto de dados mundiais mais confiável e completo. O Além dos Limites confirmou que o modelo utilizado em 1971 refletia de forma bastante acurada as condições daquela época, incluindo os resultados do modelo anterior, com a possibilidade de uma incontrolável mortandade da população em meados do século XXI. 
A nova publicação descreve as características de uma sociedade que cresceu além dos seus limites, utilizando os recursos naturais mais rápido do que eles podem ser restaurados, e liberando resíduos e poluentes acima da capacidade de absorção da biosfera. As principais conclusões do Além dos Limites são:
a)	a velocidade de utilização pelo homem de muitos recursos essenciais e da geração de vários tipos de poluentes já ultrapassou os limites fisicamente sustentáveis. Sem uma redução significativa nos fluxos de materiais e de energia, haverá, a partir de 2020, um declínio incontrolável na produção de alimentos per capita, no uso de energia e na produção industrial;
b)	este declínio pode ser evitado com uma revisão completa das políticas que perpetuam o crescimento do consumo material e da população, e com um aumento rápido e drástico na eficiência de utilização de materiais e energia;
c)	uma sociedade sustentável é técnica e economicamente viável, ao invés daquela que tenta resolver seus problemas através do crescimento constante. A transição para uma sociedade sustentável exige equilíbrio cuidadoso entre objetivos de curto e longo prazo e ênfase em suficiência, equidade e qualidade de vida, em vez de quantidade de produção. Além de tecnologia e produtividade, a transição vai exigir maturidade, compaixão e sabedoria. Os maiores obstáculos são psicológicos, sociais e políticos.
Evitando as criticas que a proposta do “crescimento zero” provocou, os autores fazem questão de afirmar que suas teses não significam que os pobres devam se conformar com a pobreza, nem os ricos tenham que se tornar pobres. Embora os indicadores sugiram que o mundo viaja numa trajetória insustentável, é possível alterar o curso se tivermos vontade política para utilizar, no pouco tempo disponível, o conhecimento e a habilidade tecnológica existente.
Os autores usaram a mesma técnica do Limites do Crescimento, desenvolvendo dez cenários diferentes, desde o primeiro que procura retratar o que aconteceria mantendo as tendências atuais, até o décimo, que procura retratar o cenário ideal para a humanidade. O cenário 1 previa que:
 a) os sistemas mundiais continuariam a evoluir sem mudanças significativas;
 b)	os avanços tecnológicos na agricultura, indústria e serviços sociais aconteceriam de acordo com padrões estabelecidos;
 c) tenta-se fazer com que todas as pessoas atinjam o nível de economia industrial e pós- industrial;
 d) a partir do ano 2000 a erosão dos solos aumenta e a poluição começa afetar a fertilidade do solo;
 e) entre 1990 e 2020 a população cresce 50% e a produção industrial 85%, dobrando a taxa de utilização dos recursos naturais;
 f) a produção total de alimentos começa a cair após 2015, o que provoca a necessidade de maiores investimentos no setor agrícola;
 g) mais capital e energia são necessários para descobrir, extrair e refinar o que ainda existe.
Figura III -1 – Cenário 1, Além dos Limites
A Figura acima mostra as conseqüências deste cenário, com a redução, a partir de 2020 da produção industrial e de alimentos, seguida de uma incontrolável mortandade da população.
O cenário 10 foi desenvolvido com as seguintes premissas:
 a) a partir de 1995, a população mundial decide por uma família com média de dois filhos, e tem à sua disposição tecnologias efetivas de controle da natalidade;
 b) as famílias definem um limite de consumo, e quando atingem aproximadamente o nível material de vida da Europa de hoje, elas dizem 'suficiente' e se dedicam a atingir outros objetivos não materiais;
 c)	a partir de 1995, o mundo dá alta prioridade ao desenvolvimento e utilização de tecnologias que aumentam a eficiência do uso de materiais e energia, diminui as emissões de poluentes (desperdícios), controla a erosão do solo e aumenta a produtividade da terra;
 d)	ao final do século 21, as novas tecnologias reduzem em 80% o uso de recursos não renováveis por unidade de produção, e em 90% a poluição gerada;
 e)	a população é estabilizada em pouco menos de 8 bilhões, e vive com o nível material de vida escolhido por pelo menos um século;
 f) metade dos recursos naturais originais (1900) ainda existem em 2100.
Os resultados obtidos foram a estabilização da produção de alimentos e produção industrial e a estabilização da população mundial em cerca de oito bilhões de habitantes. Entretanto, os autores nos alertavam que se adiássemos por 20 anos a adoção das políticas que produziram o cenário 10, a população cresceria demais, a poluição atingiria níveis muito altos, os recursos seriam usados em demasia, e o colapso não seria mais evitável.
O relatório que o PNUMA lançou em dezembro de 199210, comemorando os seus 20 anos de existência, também nos alertava que não poderíamos continuar a fazer nos próximos vinte anos o que fizemos nos últimos vinte, sob penade abreviarmos perigosamente a sustentabilidade da vida humana na biosfera. Para vencer o desafio à nossa frente, seria necessário que todos os setores da sociedade estivessem conscientes e dispostos a procurar, com todo o empenho possível, os caminhos para o desenvolvimento sustentável.
BIBLIOGRAFIA
8. Comissão Mundial Independente sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, “Nosso
 Futuro Comum", Editora da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1988.
9. Goodland, R. et alii, "Environmentally Sustainable Economic Development: Building on
 Brundtland", Environment Working Paper n. 46, World Bank, Washington 1991.
10.	United Nations Environment Programme, “The World Environment 1972-1992 - Two 
 Decades of Challenges”, Chapman & Hall, London, 1992.
11.	United Nations Development Programme, “Human Development Report 1992”, UNDP,
 New York, 1992.
12.	United Nations Development Programme, “Choices, The Human Development 
 Magazine”, UNDP, New York, June 1992.
13.	lntemational lnstitute for Sustainable Development, “Trade and Environment”, IISD, 
 London, 1992.
14. Meadows, D. et alii, "Beyond the Limits”, Chelsea Green Publishing Co., Vermont,
 USA, 1992. 
�PAGE �1�
�PAGE �1�