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Sumário Abertura Créditos Dedicatória PREFÁCIO OBSERVAÇÕES PROPEDÊUTICAS INTRODUÇÃO 1 Justifıcação temática, objeto e fınalidades 2 Considerações epistemológicas e metodológicas CAPÍTULO I - PRESSUPOSTOS TEORÉTICOS SEÇÃO I - TEORIA DO DIREITO E MODELO DOGMÁTICO 3 O positivismo jurídico em suas linhas gerais 4 As críticas à teoria positivista 5 Por um positivismo reflexivo e integral SEÇÃO II - HERMENÊUTICA JURÍDICA 6 Subsunção mecânica e reducionismo interpretativo 7 Dos fatos à norma: ceticismo interpretativo 8 A moderna Teoria da Interpretação 9 Moralismo jurídico e jurisprudência dos valores 10 Espaço de interpretação: pluralismo exegético criativo SEÇÃO III - CONCEITO DE ATIVISMO JUDICIAL 11 O ativismo e o Direito Comparado 12 Ativismo e Estado de Direito Democrático: o princípio da separação dos Poderes 13 Discricionariedade legislativa e judicial. Interpretação e discricionariedade 14 Passivismo, interpretação criativa e ativismo judicial CAPÍTULO II - O ATIVISMO JUDICIAL À LUZ DO DIREITO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO SEÇÃO I - CARACTERIZAÇÃO DOGMÁTICA DO ATIVISMO 15 Aplicação da Constituição e ativismo 16 A categoria retórica das questões políticas 17 Os diversos graus de controle judiciário em matéria constitucional 18 A vinculação da interpretação ao texto-base 19 As exigências sistêmicas: princípios implícitos e nexos funcionais 20 A necessária intervenção legislativa para o desdobramento de princípios constitucionais 21 A limitação eficacial das normas constitucionais 22 Aspectos específicos do controle abstrato de normas SEÇÃO II - O ATIVISMO NA RECENTE JURISPRUDÊNCIA DO STF 23 Antecedente: a “doutrina brasileira do habeas corpus” 24 A aplicação irrefletida da modulação de efeitos temporais 25 A construção pretoriana da perda de mandato por desfiliação partidária 26 A restrição à nomeação de parentes para cargos de confiança 27 A implementação de direitos sociais veiculados por normas de eficácia limitada SEÇÃO III - OS FATORES DE IMPULSÃO DO ATIVISMO JUDICIÁRIO NO BRASIL 28 O modelo de Estado intervencionista 29 A expansão do controle abstrato de normas 30 O neoconstitucionalismo e sua fragilidade teorética 31 Dilemas institucionais do constitucionalismo brasileiro 32 Atividade normativa atípica do STF CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA Rua Henrique Schaumann, 270, Cerqueira César — São Paulo — SP CEP 05413-909 PABX: (11) 3613 3000 SACJUR: 0800 055 7688 De 2a a 6a, das 8:30 às 19:30 saraivajur@editorasaraiva.com.br Acesse: www.saraivajur.com.br FILIAIS AMAZONAS/RONDÔNIA/RORAIMA/ACRE Rua Costa Azevedo, 56 — Centro Fone: (92) 3633-4227 — Fax: (92) 3633-4782 — Manaus BAHIA/SERGIPE Rua Agripino Dórea, 23 — Brotas Fone: (71) 3381-5854/3381-5895 Fax: (71) 3381-0959 — Salvador BAURU (SÃO PAULO) Rua Monsenhor Claro, 2-55/2-57 — Centro Fone: (14) 3234-5643 — Fax: (14) 3234-7401 — Bauru CEARÁ/PIAUÍ/MARANHÃO Av. Filomeno Gomes, 670 — Jacarecanga Fone: (85) 3238-2323/3238-1384 Fax: (85) 3238-1331 — Fortaleza DISTRITO FEDERAL SIA/SUL Trecho 2 Lote 850 — Setor de Indústria e Abastecimento Fone: (61) 3344-2920/3344-2951 Fax: (61) 3344-1709 — Brasília GOIÁS/TOCANTINS Av. Independência, 5330 — Setor Aeroporto Fone: (62) 3225-2882/3212-2806 Fax: (62) 3224-3016 — Goiânia MATO GROSSO DO SUL/MATO GROSSO Rua 14 de Julho, 3148 — Centro Fone: (67) 3382-3682 — Fax: (67) 3382-0112 — Campo Grande MINAS GERAIS Rua Além Paraíba, 449 — Lagoinha Fone: (31) 3429-8300 — Fax: (31) 3429-8310 — Belo Horizonte PARÁ/AMAPÁ Travessa Apinagés, 186 — Batista Campos Fone: (91) 3222-9034/3224-9038 Fax: (91) 3241-0499 — Belém PARANÁ/SANTA CATARINA Rua Conselheiro Laurindo, 2895 — Prado Velho Fone/Fax: (41) 3332-4894 — Curitiba PERNAMBUCO/PARAÍBA/R. G. DO NORTE/ALAGOAS Rua Corredor do Bispo, 185 — Boa Vista Fone: (81) 3421-4246 — Fax: (81) 3421-4510 — Recife RIBEIRÃO PRETO (SÃO PAULO) Av. Francisco Junqueira, 1255 — Centro Fone: (16) 3610-5843 — Fax: (16) 3610-8284 — Ribeirão Preto RIO DE JANEIRO/ESPÍRITO SANTO Rua Visconde de Santa Isabel, 113 a 119 — Vila Isabel Fone: (21) 2577-9494 — Fax: (21) 2577-8867/2577-9565 — Rio de Janeiro RIO GRANDE DO SUL Av. A. J. Renner, 231 — Farrapos Fone/Fax: (51) 3371-4001/3371-1467/3371-1567 Porto Alegre SÃO PAULO Av. Antártica, 92 – Barra Funda Fone: (11) 3616-3666 — São Paulo ISBN : 9788502098800 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ramos, Elival da Silva Ativismo judicial : parâmetros dogmáticos / Elival da Silva Ramos. — São Paulo : Saraiva, 2010. Bibliografia. 1. Brasil. Supremo Tribunal Federal 2. Controle da constitucionalidade das leis 3. Jurisdição (Direito constitucional) 4. Poder Judiciário I. Título. 09-07342 CDU-342 (81) Índice para catálogo sistemático: 1. Brasil: Ativismo judicial: Direito constitucional 342 (81) Diretor editorial Antonio Luiz de Toledo Pinto Diretor de produção editorial Luiz Roberto Curia Assistente editorial Rosana Simone Silva Produção editorial Ligia Alves Clarissa Boraschi Maria Preparação de originais Maria Lúcia de Oliveira Godoy Arte e diagramacão Cristino Aparecida Agudo de Freitas Tavares Produção Gráfica Revisão de provas Rita de Cássia Queiroz Gorgati Ana Maria L. F. Benfica Serviços editoriois Ana Paula Mazzoco Vinicius Asevedo Vieira Capa Ana Dobón Data de fechamento da edição: 15-1-2010 Dúvidas? Acesse www.saraivajur.com.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. DEDICATÓRIA Frequento a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco há mais de trinta e sete anos. Primeiro, na condição de aluno de graduação; depois, na de aluno de pós-graduação; e, finalmente, na de professor de Direito Constitucional. Ao dedicar esta obra à “velha e sempre nova Academia”, destaco-lhe, talvez, a mais importante de suas características: o PLURALISMO. Esse autêntico princípio institucional tem permitido a convivência, sob seu abrigo, de pessoas com interesses intelectuais distintos, mas, sobretudo, de estudiosos que, tendo o Direito como objeto principal de análise, aprenderam a respeitar as diferentes percepções do fenômeno jurídico. Partícipes ativos da construção da democracia brasileira, sem abdicar em nenhum instante do ideal de JUSTIÇA, ali insistimos em estudar seriamente o DIREITO! PREFÁCIO A interpretação integra o léxico fundamental do Direito. É no direito em ação — na “law in action”, para falar com Roscoe Pound — que o intérprete se ocupa e se preocupa com a passagem das verba legis para a sententia legis. Esta passagem tem a sua complexidade própria, pois como já observava o jurista romano Celso, entender as leis (scire legis) não é conhecer-lhes as palavras mas sim a sua força e poderio (vim ac potestatem) (Digesto 1.3.17). Por isso mesmo o desafio da interpretação é um tema recorrente da Teoria Geral do Direito, que se renova numa interação entre continuidade e mudança, pois a hermenêutica jurídica acaba adquirindo novas configurações por obra dos processos de transformação da sociedade e do Estado. É por esta razão, como aponta Miguel Reale, que cada época “fixa as normas e os limites da sua exegese do Direito, em função dos valores culturais dominantes” (Miguel Reale, Estudos de Filosofia e Ciência do Direito, São Paulo: Saraiva, 1978, p. 72). Uma das características do Direito contemporâneo é a crescente complexidade da estrutura normativa das Constituições. Estas, ao deixarem de ser clássicas Constituições-garantia – que limitavam a matéria constitucional “aos limites e atribuições respectivas dos Poderes Políticos e aos Direitos Políticos, e individuais dos cidadãos”, para recorrer à linguagem do art. 178 da nossa primeira Constituição, a Constituição do Império de 1824 — passaram a colocar novos desafios para a interpretação constitucional. Estes desafios estão ligados à introdução, como matéria constitucional, de princípios, e à diferença que cabe fazer entre princípios e regras. Como explica Zagrebelsky, que integrou e presidiu a Corte Constitucional italiana, e por isso tem, neste campo, a experiência da law in action, regras são normas que proporcionam critérios específicos sobre como devemos, não devemos ou podemos atuar. Princípios, em contraste, são normas que proporcionam critérios para se tomar uma posição diante de situações concretas. Estas, no entanto, “a priori” são indeterminadas, só adquirindo significado operativo no momento da sua aplicação a um caso concreto, a elas não se podendo atribuir uma determinação em abstrato (Gustavo Zagrebelsky, Il diritto mitte, nova ed., Torino: Einaudi, 1992, p. 149). Daí a abertura ao mundo dos fatos e dos valores que os princípios favorecem na passagem, pela interpretação, das verba legis para a sententia legis. Isto vem levando a reavaliações críticas do positivismo jurídico, como aponta Carla Faralli ao traçar o mapa dos temas com os quais se confronta a Filosofia do Direito Contemporânea. Alexy e Dworkin são exemplos desta postura nas teorias constitucionalistas do Direito (cf. Carla Faralli, A Filosofia Contemporânea do Direito, temas e desafios, São Paulo: Martins Fontes, 2006, cap. I). Uma das consequências da expansão dos princípios na estrutura normativa das constituições é a de a elas conferir a característica de constituições com uma vis directiva. Esta tem como objetivo buscar responder à função promocional do Direito contemplada nos princípios. É por conta desta função promocional que o controle da constitucionalidade e a guarda da Constituição deixaram de cingir-se ao paradigma do controle da constitucionalidade dos atos do legislativo e do executivo e das atribuições dos entes federativos. Passaram, igualmente, a ocupar-se da tarefa de promover a realização dos valores positivados nos princípios constitucionais. Como a esfera da aplicação dos princípios da Constituição de 1988 e de outras constituições contemporâneas é relativamente indeterminada e dúctil e não se cinge à dimensão da validade, a interpretação dos critérios para a tomada de posição do juiz diante do caso concreto passa pelo balancing das ponderações. Deste modo a interpretação constitucional vem abrindo espaço no Brasil e em outros países para o ativismo judicial e, por via de consequência, para a expansão do poder judiciário e para a interpretação sempre mais extensiva da Constituição (cf. Pier Paolo Portinaro, Para além do Estado de Direito — tirania dos juízes ou anarquia dos advogados, in Pietro Costa e Danilo Zolo, org., O Estado de Direito, História, Teoria, Crítica, São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 465-488). O desdobramento e as consequências do ativismo judicial — seja no que diz respeito ao papel constitucional da divisão dos poderes, seja no que tange ao valor da segurança jurídica num estado de direito — suscita a preocupação com os limites objetivos do processo hermenêutico. Esta preocupação está voltada para conter os riscos de a interpretação extrapolar a desejável congruência normativa de uma Constituição, como expressão axiológica do mérito do “governo das leis” e das inconveniências do “governo dos homens”, inclusive o dos magistrados. É no contexto desta problemática voltada para lidar com os limites objetivos do processo hermenêutico que se situa este livro do prof. Elival da Silva Ramos, Ativismo Judicial — parâmetros dogmáticos. O livro é a tese com a qual conquistou, em 2009, o cargo de professor titular de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da USP. Tive o prazer de participar da Banca Examinadora do seu concurso — banca integrada pela profa Maria Sylvia Zanella Di Pietro e pelos professores Jorge Miranda, Cezar Saldanha de Souza Junior e Pedro Paulo Almeida Dutra, que, por unanimidade, o indicaram para o cargo. Antes de indicar, neste prefácio, as linhas mestras do seu trabalho e depois de o ter situado no âmbito da problemática dentro da qual se insere, creio que vale a pena lembrar que o tema dos princípios — como o da interpretação — não é uma novidade no léxico do Direito. Bobbio, resenhando o livro de Roberto Ago, Scienza giuridica e diritto internazionale, aponta a relevância da contribuição dos internacionalistas à teoria do direito, pois estudam um direito em movimento. Por isso, têm melhores condições para repensá-lo sem os hábitos mentais provenientes das considerações que provêm, exclusivamente, do direito estatal (cf. Rivista trimestrale di diritto e procedura civile, v. VI, n. 2, giugno 1952, p. 479-483). Os internacionalistas vêm se confrontando, na sua prática, com o tema dos princípios gerais desde o momento em que o Estatuto da então Corte Permanente de Justiça Internacional, no primeiro pós-Guerra Mundial, no seu artigo 38, inseriu no mesmo plano que as convenções e os costumes, como fonte do Direito Internacional, “os princípios gerais do Direito reconhecidos pelas nações civilizadas”. No momento inicial, imaginou-se, numa época de grande presença do direito consuetudinário de não muitas convenções, que o papel dos princípios a serem recepcionados no ordenamento internacional, com lastro em direitos nacionais, seria o de impedir o non liquet e assegurar a inteireza, a unidade e a coerência de um direito incompleto. Daí, por meio de processos legalmente autorizados de heterointegração a expansão lógica do ordenamento internacional em especial em matéria de processo (prescrição, estoppel, ônus da prova, coisa julgada, igualdade das partes etc.). Nem todos os princípios invocados pela jurisprudência internacional foram e são de natureza processual, e a própria característica da dúctil indeterminação dos princípios foi propiciando, no correr dos tempos, a expansão axiológica do ordenamento internacional. Neste sentido, os princípios também acabaram desempenhando um papel de fonte material com características de fonte formal voltada para lidar, por meio da autointegração, com as aspirações normativas da agenda internacional. Daí a identificação, pela jurisprudência internacional, de obrigações erga omnes, e de normas de jus cogens, voltadas para completar o ordenamento internacional. Daí, igualmente, no campo da jurisprudência internacional dos direitos humanos e do meio ambiente (por exemplo, por via do princípio de precaução) o empenho em prol do ativismo judicial da interpretação extensiva. A esta tendência se contrapõe, no plano internacional, o compromisso na interpretação estrita, juridicamente prevista, por exemplo, no sistema de solução de controvérsias da OMC, das normas do seu ordenamento (cf. Norberto Bobbio, Contributi ad un dizionario giuridico, Torino: Giapichelli, 1994, verbete “Principi genenerali di diritto”, p. 217- 279; G. Strozzi, “I ‘principi’ dell ordinamento internazionale”, in I Principi Generali del Diritto, Atti dei Convegni di Lincei 96, Roma: Academia Nazionale di Lincei, 1992, p. 199-216). Em síntese, o que estou querendo apontar, com esta digressão sobre o Direito Internacional como um direito em movimento, é que os princípios inicialmente imaginados como um meio para a expansão lógica e coerente de um ordenamento jurídico, pelas suas próprias características normativas, promovem a expansão axiológica do Direito. Propiciam, assim, a interpretação extensiva e criam, por isso mesmo, incertezas normativas. Estas incidem num Direito Internacional que hoje tem como nota a fragmentação que singulariza os seus múltiplos regimes e provém da heterogeneidade dos valores e das assimetrias do poder num sistema internacional descentralizado no qual operam atores governamentais e não governamentais. É por esse motivo que o livro do prof. Elival da Silva Ramos, embora ancorado com rigor no Direito Constitucional brasileiro e nas discussões das teorias do constitucionalismo jurídico, tem um interesse que vai além do seu objeto específico, em função da sua preocupação com o valor da segurança jurídica. É uma contribuição aos temas da teoria geral do direito contemporâneo e do significado da rule of law, inclusive no plano internacional, em função de “une montée en puissance des juges” realçada com muita acuidade por Mireille Delmas-Marty. Com efeito, esta montée en puissance des juges coloca em questão o equilíbrio dos poderes e suscita o tema da segurança jurídica em função do papel próprio que os juízes vêm exercendo na administração do processo de globalização. Isto vem acontecendo, seja porque os juízes nacionais se internacionalizaram, em função das matérias que decidem, inclusive dialogando com a jurisprudência internacional e a jurisprudência de outros países, seja por conta da “jurisdicionalização” do Direito Internacional proveniente da multiplicação de jurisdições regionais e internacionais. Na medida em que não existe uma ordenação legislativa deste pluralismo jurídico, fica aberta a clássica pergunta “quem controlará os controladores”, se esta dimensão da pilotagem da globalização permanecer, sem parâmetros apropriados, na “jurisdictio” de um crescente ativismo judicial (cf. Mireille Delmas-Marty, La Refondation des Pouvoirs, Paris: Seuil, 2007, em especial p. 38, 41-43, 67). Faço estas observações na perspectiva de um internacionalista que é, igualmente, professor de Filosofia do Direito, porque entendo que esta, enquanto Filosofia do Direito dos juristas, para falar com Bobbio, é o fruto de um “parar para pensar” numa época de universais fugidios, como diria Hannah Arendt, os problemas da experiência jurídica que não encontram adequado encaminhamento no âmbito estrito do Direito Positivo (cf. Celso Lafer, Filosofia do Direito e Princípios Gerais: considerações sobre a pergunta “O que é a Filosofia do Direito”, in Alaor Caffé Alves et al., O que é a Filosofia do Direito?, Barueri, SP: Manole, 2004, p. 53-73). Por esse motivo o livro do prof. Elival da Silva Ramos trata, de maneira abrangente, para voltar à citação de Miguel Reale evocada no início deste prefácio, das normas e limites da exegese do Direito em função dos valores culturais que vêm prevalecendo no contexto da aplicação, pelo judiciário brasileiro, da Constituição de 1988. A nota identificadora deste livro do prof. Elival da Silva Ramos é uma análise crítica do ativismo judicial em matéria constitucional. Caracteriza-se por uma rigorosa contraposição ao pós-positivismo e muito especificamente aos neoconstitucionalistas brasileiros que, no seu entender, não são pós-positivistas, mas antipositivistas. Este confronto está baseado, na linha de Bobbio, numa defesa dos méritos de um positivismo jurídico moderado, numa acepção ampla e não estrita, que reconhece que a interpretação da Constituição pelo Judiciário na passagem das verba legis para a sententia legis não é um procedimento puramente lógico. Esta defesa de um positivismo jurídico moderado está lastreada na moderna teoria da interpretação e, por isso, o livro traz à colação as reflexões de Betti e Gadamer, que metodologicamente permitem lidar, no seu entender, com a interação entre princípios e regras. Leva em conta, ao mesmo tempo, importantes contribuições à teoria geral do Direito como as de Engish e Larenz. O objetivo do percurso do livro é o de delimitar o espaço da interpretação a partir de uma preocupação com a discricionariedade judicial. Daí a busca dos parâmetros dogmáticos que devem, na avaliação do prof. Elival da Silva Ramos, circunscrever a interpretação, pelo judiciário, dos princípios da Constituição de 1988, para assegurar o “governo das leis” e não favorecer o “governo dos homens”. Na tessitura do livro do prof. Elival da Silva Ramos estão presentes o tema da divisão constitucional dos poderes e a relevância de diferenciar e não confundir o momento da legislação e o momento da jurisdição. Estão igualmente presentes o tema da segurança jurídica e as virtudes da coerência jurídica — o respeito ao princípio do “pacta sunt servanda” do momento da criação das normas — que o ativismo judicial, destituído de parâmetros objetivos, pode colocar em xeque (cf. Norberto Bobbio, Contribuición a la Teoría de Derecho, org. Alfonso Ruiz Miguel, Valencia: Fernando Torres Ed., 1980, Formalismo Jurídico y Formalismo Ético, p. 105-117). Na condição de professor de Filosofia do Direito permito-me ir concluindo este prefácio, lembrando que Bobbio — tantas vezes invocado e bem invocado pelo prof. Elival da Silva Ramos —, ao tratar de relações entre Razão e Direito, explora as dificuldades que esta relação suscita apontando, em primeiro lugar, que o universo jurídico não é homogêneo — muito pelo contrário. A heterogeneidade no universo jurídico vem aumentando com a crescente presença dos princípios nos textos constitucionais que adiciona novas dificuldades no trato da criação das normas e da sua aplicação. Entende Bobbio, na discussão da relação Direito/Razão, que cabe a distinção entre leis da razão — razão aí entendida no sentido forte, como a capacidade humana de captar a natureza das coisas — e razão jurídica, razão aí concebida mais moderadamente como capacidade de racionar, de argumentar, de dar razões para sustentar uma posição (cf. Norberto Bobbio, Contributi ad un dizionario giuridico, cit., verbete “Ragione e diritto”, p. 295-297). O livro do prof. Elival da Silva Ramos contesta os defensores de um ativismo judicial que conferem ao magistrado- intérprete a competência de desvendar as leis da razão e esclarecer a natureza das coisas da Constituição de 1988. Vale-se da razão jurídica para fazer um vigoroso arrazoado da sua posição. Esta, na minha avaliação, inaugura em nosso meio, com pleno domínio do Direito Positivo, uma consistente elaboração doutrinária, articuladora do valor do garantismo jurídico em matéria de interpretação constitucional. O garantismo jurídico é uma expressão do positivismo jurídico e do princípio da legalidade e, por isso, como diz Bobbio, contrapõe o momento da legislação, que é, por excelência, o momento do poder, no qual prevalecem os juízos políticos de valor, e o momento da jurisdição, no qual cabe a ênfase no saber jurídico, e seus componentes dedutivos (cf. Norberto Bobbio, Contributi ad un dizionario giuridico, cit., verbete “Ragionamento giuridico”, p. 283-284; prefácio a Luigi Ferrajoli, Direito e Razão — Teoria do Garantismo Penal, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 9 e 11). A elaboração dos parâmetros dogmáticos que devem circunscrever o ativismo judicial — a que se dedicou neste livro — é um empenho na veritas que deve nortear a passagem das verba legis à sententia legis, na interpretação da Constituição de 1988, no atual momento da vida do Direito Constitucional brasileiro. O seu livro está na ordem do dia do debate jurídico brasileiro. Dele o leitor sairá, pela qualidade, rigor e vigor da sua exposição, amplamente esclarecido do que está em jogo na dinâmica da exegese constitucional no Brasil. É o que me permito realçar na conclusão deste prefácio, com o mais alto apreço intelectual pelo A., e presidente da Banca Examinadora que o consagrou como professor titular de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da USP. CELSO LAFER Dezembro de 2009 OBSERVAÇÕES PROPEDÊUTICAS No intuito de privilegiar a clareza e de facilitar a leitura, as citações de trabalhos de autores estrangeiros, sem tradução para o português, que tenham importado na transcrição de excertos doutrinários, foram feitas mediante versão para o vernáculo, da exclusiva responsabilidade do autor. De modo correlato, trechos de obras de autores nacionais, anteriores à ortografia em vigor, sofreram adaptação aos atuais padrões ortográficos. As obras ou os artigos que tenham sido citados apenas por interessarem a um aspecto específico e marginal do trabalho não foram incluídos na bibliografia final, na qual, por outro lado, estão presentes obras e artigos consultados e de íntima conexão com a temática desenvolvida, não obstante, eventualmente, não tenham sido objeto de referência ao longo do texto. Em relação às indicações bibliográficas, serviram de parâmetro os padrões formais utilizados na edição de obras jurídicas pelas principais editoras nacionais. No que concerne às abreviaturas, deixou-se de apresentar um glossário porque foram utilizadas de modo a não gerar dúvida quanto ao significado, sendo que, relativamente a medidas de natureza processual, empregou-se a simbologia constante do sítio eletrônico do Supremo Tribunal Federal. INTRODUÇÃO 1 Justifıcação temática, objeto e fınalidades Em manifestação veiculada por prestigioso órgão de imprensa1, o Presidente do Senado e do Congresso Nacional expressou o desconforto institucional do Poder Legislativo brasileiro diante de práticas adotadas pelos outros Poderes que lhe ameaçam a primazia no desempenho de uma de suas funções primordiais, a de legislar. De fato, não se ignora que o Congresso se encontra pressionado, de um lado pelo Poder Executivo, mercê da edição desenfreada de medidas provisórias com força de lei, desde a entrada em vigor da Constituição de 1988, e, de outro, por recentes decisões do Supremo Tribunal Federal, que teriam transposto os limites da lídima atividade jurisdicional que lhe compete exercer. Daí a exortação que culminou por fazer aquela autoridade em relação a esse último fenômeno, no sentido de que caberia “definir com precisão os limites da intromissão do Judiciário na seara parlamentar”. Entendo que se trata de questão de fundamental importância para os ulteriores desdobramentos do Estado Constitucional de Direito e da democracia no Brasil, podendo vir a se constituir, se bem equacionada, em elemento facilitador ao desenvolvimento socioeconômico do País ou em poderoso obstáculo, na hipótese inversa. Por certo a atuação harmônica dos Poderes, preconizada em termos principiológicos pelo Constituinte2, depende, em boa medida, de um sábio e prudente exercício das competências constitucionais que lhes foram assinaladas. Entretanto, a precisa identificação dos limites a que se sujeita o Poder Judiciário no exercício da jurisdição, dada a natureza eminentemente jurídica dessa função estatal, assume contornos técnicos inafastáveis, razão pela qual avulta a responsabilidade da doutrina constitucional na busca de resposta adequada ao problema posto. A concepção de um Estado submetido ao direito, como anota Manoel Gonçalves Ferreira Filho, articula-se em torno dos princípios da legalidade, da isonomia e da justicialidade3. Ademais, o controle da legalidade e do tratamento isonômico dispensado pelo legislador (e pela Administração Pública) por meio da função jurisdicional pressupõe o arquétipo da separação dos Poderes, com a distinção básica entre a expedição de textos normativos contendo parâmetros de ação e a atuação devotada, precipuamente, a propiciar a sua observância, condição para a especialização funcional dos órgãos de poder incumbidos de uma e outra atividade4. Logo, a transposição dos marcos que asseguram a tipicidade da função jurisdicional se faz com evidente prejuízo à construção conceitual do Estado de Direito, requisito para a existência de um sistema político democrático, sem o qual, por seu turno, se faz impossível o pleno atendimento às exigências da dignidade humana. Observa-se da literatura dedicada à temática do ativismo judicial em sentido amplo, vale dizer, à tensão entre os Poderes provocada pelo desempenho da função jurisdicional, que com grande frequência se associa o fenômeno ao controle de constitucionalidade das leis e atos normativos, bem como da omissão legislativa5. Não é difícil entender porque isso ocorre. A censura imposta por Cortes Constitucionais6 aos atos legislativos é algo extremamente delicado no contexto das relações entre os Poderes, em face do caráter redentor assumido pela lei na esteira das revoluções que puseram fim ao absolutismo monárquico7. Tanto assim que Hamilton, em O Federalista, se ocupou de justificar cabalmente a competência dos juízes e tribunais estadunidenses para declarar nulas as leis contrárias à Constituição 8, lançando as bases do que, depois da decisão de Marbury v. Madison, em 1803, viria a ser conhecido como doutrina do judicial review. Se assim é em sede de controle incidental, com eficácia restrita às partes, o que dizer então do controle de constitucionalidade exercido em abstrato, a título principal, com ampla eficácia subjetiva (efeitos erga omnes), manifestamente distante de práticas ordinárias da jurisdição. Mas, há um outro aspecto da denominada jurisdição constitucional que atrai para ela a polêmica em torno do ativismo judiciário e que tem relação direta com as características fluídas da linguagem que permeia o texto das Constituições9. Na falta de um parâmetro claro e preciso para a aferição da constitucionalidade dos atos normativos objeto de impugnação, as soluções encontradas pelas Cortes Constitucionais tendem a ser mais discutíveis sob o ponto de vista técnico-jurídico, com o que avultam as suspeitas de haver o órgão de controle extrapolado dos limites de seu mister. Na medida em que esses tribunais estão situados em posição cimeira no aparato judiciário ou ocupam posição isolada e externa em relação à Justiça dita ordinária suas decisões não são passíveis de revisão por outros órgãos jurisdicionais, o que só faz crescer a desconfiança em relação a possíveis abusos de poder. Pode-se assentar a legitimidade do exercício do controle jurisdicional de constitucionalidade das leis e omissões legislativas em justificativas dotadas de autonomia com referência à argumentação dogmática, como seria o caso da legitimidade fundada em razões de ordem moral10 ou na necessidade de preservação do ritual democrático11. A longa duração do debate sobre o tema da legitimidade do judicial review nos Estados Unidos12, que não dá sinais de arrefecer, indica, para quem adota uma visão pragmática na matéria, em que sobressaem os inquestionáveis ganhos trazidos pelo instituto em todas as dimensões da vida social (jurídica, política, socio-econômica etc.), a preferência por uma abordagem dogmática, a qual situa o controle de constitucionalidade como decorrência necessária do princípio da supremacia da Constituição13. Ou seja, a jurisdição constitucional é a consequência natural da adoção de Constituições rígidas, dotadas de superioridade hierárquica, sendo consagrada expressamente por suas disposições ou meramente deduzida dessa característica formal, utilizada como critério para solução de conflitos entre normas legais e constitucionais no exercício ordinário da jurisdição14. Por conseguinte, a questão da legitimidade (axiológica) do controle jurisdicional de constitucionalidade, que é externa à argumentação estritamente dogmática (juízo de validade formal e de eficácia jurídica), passa a ter por foco não a jurisdição constitucional em si e sim a própria Constituição que a consagra: em suma, o que caberia discutir é se o modelo de Estado Constitucional de Direito escolhido pelo Constituinte seria o mais adequado para implantar uma democracia. Sucede, porém, que controlar a constitucionalidade dos atos emanados do Poder Legislativo ou do Poder Executivo não é atividade que se possa exercer com total liberdade, pois a própria missão que lhe é assinalada (a preservação da Constituição) já aponta para a existência de limites. Como bem salientou Rubén Hernández Valle, “o limite do poder interpretativo dos tribunais constitucionais é um pressuposto da função de racionalização, estabilização e limitação que lhe é deferida pela Constituição”, para acrescentar que “se é certo que a referida função admite a possibilidade de mudança constitucional por meio da interpretação, também exclui a violação constitucional, ou seja, o desvio do texto em um caso concreto e a reforma da Constituição por meio da interpretação”15. Ao trabalhar a ideia de limites ao exercício da jurisdição constitucional, como visto, envolve-se o investigador, necessariamente, no tema da interpretação constitucional, o que exige que a análise dogmática se escore, consistentemente, no plano da Teoria do Direito16. Por conseguinte, o estudo do ativismo judicial em matéria constitucional permite um produtivo diálogo entre a Dogmática Jurídica e a Teoria (Geral) do Direito, com intensidade raramente observável no trato de institutos e categorias do Direito Constitucional. Finalmente, importa destacar as repercussões institucionais do assunto sob exame, mormente no sistema político brasileiro. Desde o seu nascedouro, a Constituição de 1988 tem convivido com profundas desconfianças em relação ao arranjo institucional por ela veiculado17. Nos últimos anos, parece mesmo haver se formado um consenso em relação à premência de uma ampla reforma política, que permita ao Estado brasileiro cumprir eficientemente com a sua missão constitucional, muito embora exista dissenso em relação à natureza e extensão das medidas a serem adotadas. Ora, se é certo, por um lado, que o Supremo Tribunal Federal há de ocupar lugar de destaque em qualquer reestruturação dos Poderes estatais que se pretenda promover, haja vista a centralidade da função de guardião da Constituição que lhe compete exercer no modelo de Estado Constitucional de Direito, de outra parte, não há como torná-lo imune a críticas deslegitimadoras da parte dos Poderes por ele fiscalizados se não forem claramente estabelecidos os marcos dentro dos quais sua atuação é constitucionalmente autorizada. Creio que mais não é preciso dizer para realçar porque o tema escolhido é de grande interesse para o Direito Constitucional brasileiro, não obstante não venha merecendo a atenção devida dos constitucionalistas pátrios, ao menos em termos de trabalhos monográficos. As abordagens acerca do ativismo judiciário encontráveis na literatura nacional, de modo não muito diverso do que ocorre no estrangeiro, se circunscrevem ao plano da Teoria do Direito, da Hermenêutica Jurídica, da Filosofia Política ou mesmo da Sociologia Jurídica18. Ressente-se, pois, a matéria da ausência de um tratamento predominantemente dogmático, conquanto assentado, como não poderia deixar de ser, em pressupostos teóricos mais gerais que sempre devem ser explicitados. Pretendo fazê-lo ao longo de dois capítulos: o primeiro, em que serão expostos os pressupostos teoréticos da abordagem e, o segundo, inteiramente dedicado ao exame do ativismo judicial sob o enfoque do Direito Constitucional brasileiro. O Capítulo I será, por seu turno, subdividido em três seções. Na Seção I, evidenciarei que a reflexão teórica que tenho desenvolvido em cerca de três décadas de estudos constitucionais se vincula ao modelo dogmático genérico do positivismo e, mais especificamente, a uma visão de Teoria do Direito estritamente positivista, conquanto comportando reflexão crítica sobre seus próprios postulados básicos, a partir da consideração de outros enfoques teóricos, bem como aberturas zetéticas ao conhecimento complementar de outras Ciências Jurídicas. Em seguida, na Seção II desse capítulo, procurarei demonstrar que a filiação a um positivismo renovado não é, de modo algum, incompatível com os principais postulados alcançados pela reflexão mais atualizada acerca da interpretação de textos jurídicos. Finalmente, na derradeira seção (III) do Capítulo I, centrarei meus esforços na elaboração de um conceito de ativismo judicial, que, ao contrário da enunciação dos parâmetros que permitem a identificação de uma prática ativista, situa-se no plano da Teoria do Direito, não sendo válido apenas para um determinado sistema normativo. A subdivisão do segundo capítulo também se fará em três seções. Na primeira delas reside o ponto nuclear deste trabalho, qual seja, a resposta à questão inicialmente posta sobre os limites a que o Poder Judiciário se sujeita ao exercer a jurisdição constitucional em sentido amplo19, vinculando-se a elaboração em torno do assunto ao direito constitucional positivo brasileiro. Além de serem assentados os parâmetros para se aquilatar se um juiz ou tribunal incidiu em ativismo, terei o ensejo de desenvolver reflexão sobre os diversos graus em que se manifesta o controle judiciário em matéria constitucional, algo que não me parece ser conscientemente percebido em nível doutrinário e operacional, muito embora resulte da prática jurisprudencial brasileira. Já a Seção II estará voltada a um exercício de Dogmática da Decisão20, mediante análise crítica de algumas decisões recentes do Supremo Tribunal Federal, denotadoras de um sensível incremento do ativismo no âmbito daquela Excelsa Corte, o que também me permitirá testar a adequação dos parâmetros caracterizadores da prática nefasta anteriormente estabelecidos. Por último, na Seção III, examinarei os fatores que têm impulsionado o ativismo judiciário após o advento da Constituição de 1988, discutindo em que medida são eles controláveis por meio da mera neutralização doutrinária do ativismo ou se demandam enfrentamento específico no plano teórico-pragmático (doutrina e jurisprudência) ou mediante reformulação normativa. As conclusões alcançadas ao longo da empreitada serão elencadas ao final, na forma de síntese, evocando, em item derradeiro, a grave responsabilidade que cabe à doutrina constitucional brasileira quanto ao esforço de modernização democrática que nossa sociedade vem empreendendo sob os auspícios da Carta de 1988. As finalidades que se pretende atingir com o presente estudo transparecem da própria justificação temática anteriormente desenvolvida. O objetivo fundamental é a identificação de parâmetros jurídico-dogmáticos consistentes que permitam qualificar de ativista, isto é, de contrário à Constituição e ao direito, o exercício da função jurisdicional em matéria constitucional. Com isso, estar-se-á sedimentando entendimento doutrinário que poderá contribuir para aplacar a tensão entre os Poderes, inerente ao desempenho da jurisdição constitucional, e que, em um sistema de controle complexo, como atualmente se configura o brasileiro, com variado instrumental à disposição do órgão de fiscalização, atinge dimensões relevantes. Em última análise, ao se preconizar a adoção de critérios que favoreçam à manutenção do Supremo Tribunal Federal no âmbito estrito de suas atribuições constitucionais, o que se pretende é o fortalecimento do Estado Democrático de Direito, sem o qual nenhum projeto político para o País poderá vingar, ao menos sob a moldura da Constituição de 5 de outubro de 198821. 2 Considerações epistemológicas e metodológicas Uma vez estabelecido o objeto da investigação (o que se estuda), a sua razão de ser (porque se estuda) e as suas finalidades (para que se estuda), cabe, agora, voltar a atenção para o modo pelo qual se desenvolverá a pesquisa (como se estuda). O ativismo judicial pode ser examinado pelo cientista do direito como um mero fenômeno social, o qual, portanto, existe no plano fático, independentemente, do juízo de valor que se possa fazer a seu respeito ou da conformação ou não da prática ao direito vigente. É essa a abordagem dos que adotam concepções do direito similares às do realismo jurídico, que vicejou nos Estados Unidos a partir da década de vinte do século passado. Como bem mostra Denis de Castro Halis, “o realismo é fundamentalmente antiformalista (no sentido de não priorizar o estudo da estrutura formal do direito)”. Daí por que “os seus adeptos tinham por principal objetivo desmistificar o processo formal de aplicação do direito positivo pelos juízes, tentando pensar realisticamente os problemas legais”22. Não é difícil perceber que se trabalha aqui no campo da Sociologia do Direito23, perspectiva que facilita a compreensão de alguns dos fatores desencadeadores do ativismo24, mas que não permite o seu enquadramento em face das prescrições de um determinado ordenamento jurídico-constitucional, que é o que pretendo realizar. Aliás, aqueles que se debruçam sobre o tema do ativismo judicial sob um prisma sociológico, frequentemente, apontam como uma das dificuldades que se lhes antepõem a ausência de uma clara delimitação conceitual da matéria no plano da Dogmática e da Teoria do Direito25. Por seu turno, conforme precisa observação de Habermas, “a controvérsia dos constitucionalistas americanos em relação à legitimidade da jurisprudência constitucional (aí compreendido o tema do ativismo) segue mais na linha politológica do que na da metodologia do direito”26 e 27. Constata-se que o ativismo judicial é, nessa polêmica centenária, avaliado à luz de exigências da ideologia democrática, privilegiando-se o aspecto ético ou procedimental da democracia, conforme o caso. Hércules, o juiz idealizado por Dworkin, é autorizado a praticar o ativismo (no sentido amplo de criação do direito) em nome de uma concepção de direito como integridade, que procura conciliar o direito com a ética, vinculada ao processo histórico do constitucionalismo estadunidense, de índole sabidamente democrática28. Como bem sintetiza Javier Dorado Porras, “Ronald Dworkin procura justificar a jurisprudência das cortes Warren e Burger através de um interpretativismo moderado – que se baseia na defesa da teoria substantiva dos valores -, defendendo a ideia de que a Constituição tem um significado unívoco, e a necessidade de um tribunal ativista para determinar ou descobrir esse significado”29. O procedimentalismo de J. H. Ely, de outra parte, não deve ser compreendido como uma concepção cética da jurisprudência, que o situaria na prestigiosa corrente do pragmatismo estadunidense, e sim como a defesa de um ativismo moderado, que se limite à complementação do projeto democrático desenhado pelos Founding Fathers, voltado apenas à organização de um quadro institucional que favoreça o livre exercício da competição política30. Parte- se, portanto, da elaboração de uma teoria da democracia para se concluir em que condições seria legitimamente exercido o ativismo dos juízes e tribunais, mesmo que importando em interpretação e aplicação do direito descolada dos textos constitucionais ou legais de referência31. Muito embora Dworkin, Ely, Michael J. Perry32 e outros constitucionalistas estadunidenses seguramente estruturem o seu pensamento a partir de uma determinada concepção de direito, não abordam o tema do ativismo judicial sob o viés jurídico-dogmático, deixando, assim, amplo espaço a ser preenchido por trabalhos como este que ora se apresenta. A peculiaridade deste estudo, em termos dogmáticos, é que não tem ele por objeto um instituto ou mesmo uma categoria conceitual resultante de disposições normativas. O que se vai examinar é a violação ao direito (e não a sua configuração), qual seja, o afastamento do Poder Judiciário dos limites de sua competência para aplicar a Constituição. A aplicação de normas constitucionais, como restou assentado pela Hermenêutica filosófica, não pode ser apartada, salvo em termos lógico-conceituais, da tarefa de interpretar, de fixar o sentido dos textos de que emanam33. Por outro lado, a Teoria da Interpretação é o aspecto mais evidente da diferenciação que se faz entre as vertentes doutrinárias da Teoria do Direito atual. Daí por que, ao menos em nível de pressupostos teoréticos, há a necessidade de se construir o conceito de ativismo judicial de um modo mais amplo, assentado em determinada maneira de entender o direito e de proceder à interpretação-aplicação de seus preceitos normativos34. Contudo, mesmo uma conceituação ampla de ativismo não se revela minimamente funcional se não for conectada aos grandes sistemas jurídicos contemporâneos, porquanto são notórias, embora nem sempre levadas na devida conta, as diferenças entre os parâmetros que se impõem a um juiz do common law e do civi/ law no tocante ao exercício da jurisdição35. Além disso, não resta dúvida de que a discussão sobre os limites a serem observados pelos aplicadores oficiais do direito no desempenho de sua atividade judicante, como já se fez notar no item precedente, somente faz sentido em ordenamentos constitucionais estruturados sob a fórmula da separação dos Poderes36. Porém, se o ativismo pode ser conceituado em termos bem genéricos, próprios de uma Teoria do Direito, não se revela viável a especificação dos parâmetros que permitem caracterizar o exercício da jurisdição como desbordante de seus limites institucionais, sem adentrar o campo do direito positivo. São muitas as variáveis a serem aqui consideradas, sendo certo que, além do balizamento normativo, se deve ter presente a própria prática jurisprudencial, que com aqueles parâmetros há de manter relação dialética, interferindo sobre a sua configuração e sendo instada a deles não se desviar. E se é na jurisdição constitucional, entendida no sentido amplo de aplicação judicial da Constituição, que se faz mais forte a polêmica em torno do ativismo, se justifica a opção pelo tratamento da matéria apenas no âmbito do Direito Constitucional positivo. Tenho para mim que o alargamento da pesquisa, em termos interdisciplinares, não traria resultados muitos distintos dos que ora se espera alcançar, sem embargo das dificuldades que se anteporiam a tal empreitada de natureza enciclopédica. A metodologia que será empregada, pois, vincula-se ao modelo dogmático de investigação, comportando, fundamentalmente, o raciocínio dedutivo, não obstante certa utilização de raciocínio indutivo, haja vista que o pluralismo metodológico também acabou por se impor ao mundo do direito37. É o que justifica a avaliação da jurisprudência mais recente do Supremo Tribunal Federal à luz do conceito de ativismo judicial. Não se trata de um simples exercício de subsunção, objetivando a mera constatação da aplicabilidade ou não da conceituação previamente obtida em situações concretas de exercício da jurisdição constitucional. Mais do que isso, o que se pretende, na verdade, é completar a construção conceitual, analisando que elementos característicos estão presentes em julgados do STF que provocaram fortes reações no meio jurídico e na sociedade em geral, justamente por produzirem a sensação de que teria a Corte Suprema excedido os limites de suas competências. Portanto, a utilização, nesse passo, de método parcialmente indutivo é propiciar a confrontação dialética entre a conceituação abstrata e o mundo dos fatos38. CAPÍTULO I PRESSUPOSTOS TEORÉTICOS SEÇÃO I TEORIA DO DIREITO E MODELO DOGMÁTICO 3 O positivismo jurídico em suas linhas gerais 4 As críticas à teoria positivista 5 Por um positivismo reflexivo e integral 3 O positivismo jurídico em suas linhas gerais Nesta última década, difundiu-se entre os constitucionalistas brasileiros a retórica da superação do positivismo, enquanto modelo de compreensão do fenômeno jurídico. O Direito, na qualidade de Ciência que tem por objeto normas disciplinadoras do agir humano, repele o vazio, pois, ao contrário do que ocorre nas Ciências da Natureza, a ausência de um modelo aglutinador do conhecimento jurídico interfere no próprio desempenho das normas estudadas39. Destarte, no lugar desse “superado” positivismo, propõe-se que a Dogmática Constitucional se assente em um assim denominado “pós-positivismo”, entendido como “a designação provisória e genérica de um ideário difuso, no qual se incluem a definição das relações entre valores, princípios e regras, aspectos da chamada nova hermenêutica e a teoria dos direitos fundamentais”40. Conforme denunciou Dimitri Dimoulis, o veredicto antipositivista compõe uma retórica tautológica e permeada de argumentos emocionais41 e, portanto, de reduzido valor científico42, mas com graves consequências no plano da disfunção sistêmica examinada no presente trabalho, como adiante se verá. É saudável que os cultores do Direito Constitucional brasileiro tenham finalmente se ocupado de questionar o modelo dogmático43 predominante desde meados do século XIX, para verificar se continua funcional, quanto ao método, e válido quanto aos conceitos de Teoria do Direito que o estruturam. Todavia, para isso, importa assentar de modo claro e fundamentado as principais características do positivismo jurídico. O positivismo parte da premissa metodológica de que o direito deve ser estudado enquanto fato social, independentemente das considerações valorativas que se possa fazer a seu respeito44. O objeto da Dogmática Jurídica para os positivistas são as normas vigentes em determinado Estado, em uma determinada época, pouco importando se essas normas correspondem ou não ao ideal de justiça de quem as examina. Nas palavras de Norberto Bobbio, dessa atitude frente ao fenômeno jurídico “deriva uma particular teoria da validade do direito, dita teoria do formalismo jurídico, na qual a validade do direito se funda em critérios que concernem unicamente à sua estrutura formal (vale dizer, em palavras simples, o seu aspecto exterior), prescindindo do seu conteúdo”45 e 46. Observe-se que essa objetividade metodológica não importa, necessariamente, na aceitação passiva do direito posto (legislado ou costumeiro), pela completa desconsideração dos juízos de valor nele encarnados. Os positivistas sabem que as normas jurídicas prescrevem condutas e, portanto, intrinsecamente são juízos de valor (dever-ser). Todavia, “o ato com o qual é posta uma norma jurídica positiva é – tal como a eficácia da norma jurídica – um fato da ordem do ser“47. Essa dimensão factual, inerente ao processo de formação do direito, importa em atitude de mera constatação em relação ao direito existente (não se podem ignorar as normas em vigor). Porém, na compreensão, interpretação e aplicação das normas que integram o ordenamento jurídico, a dimensão valorativa do direito jamais deixará de estar presente, assumindo maior ou menor importância dependendo da teoria hermenêutica que se venha a adotar e dos correspondentes métodos interpretativos, que propiciarão ao intérprete-aplicador maior ou menor autonomia na modelagem do material normativo preexistente48. Em seu aspecto metodológico, pode-se afirmar que o positivismo jurídico identifica-se com a Dogmática Jurídica da modernidade, que sucedeu ao modelo do Jusnaturalismo. Portanto, nesse sentido amplo, não apenas o positivismo não está superado, como participa da base comum a todas as correntes doutrinárias que, a partir da metodologia positivista, se digladiam quanto a aspectos mais específicos de Teoria do Direito, como é o caso, por exemplo, da Teoria da Interpretação. Ou seja, no veredicto preciso de Bobbio, “como a ciência consiste na descrição avaliatória da realidade, o método positivista é pura e simplesmente o método científico e, portanto, é necessário adotá-lo se se quer fazer ciência jurídica ou teoria do direito”. Ao contrário, se for descartado o método positivista, “não se fará ciência, mas filosofia ou ideologia do direito”49. Assiste inteira razão a Dimitri Dimoulis quando afirma que “o êxito teórico da abordagem positivista lato sensu é ignorado pela maioria dos autores nacionais que insistem em indicar os ‘fracassos’ do positivismo jurídico, sem levar em consideração que quase todos os estudiosos modernos admitem a positividade do direito e sua mutabilidade no tempo, de acordo com decisões dos detentores do poder, rejeitando a possibilidade de um direito paralelo, independentemente da vontade política dos legisladores humanos“50. Entretanto, pode-se aludir à existência de um positivismo jurídico em sentido estrito, que, partindo do pressuposto metodológico já exposto, compõe uma certa visão teórica do direito em função de alguns elementos-chave. Em primeiro lugar, aponta-se a presença da coação, como um aspecto indissoluvelmente relacionado ao fenômeno jurídico. Entretanto, no âmbito do positivismo jurídico, a chamada doutrina da coatividade do direito passou por importante reformulação. Com efeito, a visão tradicional em que a coação é parte integrante do próprio conceito de direito, permitindo a identificação de uma norma como jurídica ou não, foi substituída por uma abordagem moderna, segundo a qual a força física é objeto de regulação pelo direito, que pode dela prescindir e continuar existindo51. No tocante às fontes do direito, o positivismo estrito afirma a predominância da legislação sobre as demais fontes, como o costume e a jurisprudência. A meu juízo, por vezes não se tem compreendido adequadamente o legalismo positivista. A racionalização do exercício do poder que acompanhou o surgimento do Estado moderno importou na domesticação das fontes de produção do direito52. Em outras palavras, o Estado assumiu o controle do processo de criação de normas jurídicas, anteriormente difuso no meio social, e estabeleceu um rígido escalonamento hierárquico entre as diversas fontes, situando em primeiro plano a lei em sentido formal, ou seja, o ato normativo editado “pelo órgão legislativo mediante o procedimento correspondente, com total independência em relação ao seu conteúdo”53. Todavia, a tônica dessa característica do positivismo está na preponderância do direito estatal (direito posto pelo Estado, direito positivo) em relação ao direito não estatal, como o originário do costume. Quanto ao direito estatal em si, parte-se da constatação de que os ordenamentos contemporâneos, além de complexos (várias fontes), são hierarquizados, isto é, “suas fontes se dispõem em planos diversos, hierarquicamente subordinados um ao outro”54. Por conseguinte, a predominância do ato decorrente do exercício da função legislativa sobre as demais fontes não é, propriamente, um traço tipificador das proposições positivistas, em sentido estrito, tendo aparecido nos escritos dos positivistas europeus do século XIX e das primeiras décadas do século XX pela circunstância de se viver, então, no Velho Continente o período do Estado Legal55. Com a definitiva consolidação do sistema europeu de controle de constitucionalidade, principalmente após a segunda metade do século passado, a Constituição, e não a lei, passou a assumir a primazia das fontes de produção do direito estatal, sem que isso venha a representar alteração significativa nos marcos do positivismo teórico. O terceiro elemento-chave da construção teórica positivista diz respeito à teoria da imperatividade do direito, construída a partir da ideia segundo a qual a norma jurídica teria a estrutura de um comando dirigido aos súditos pelo soberano, com indisfarçável vínculo à concepção legalista-estatal do direito, “isto é, com a concepção que considera o Estado como única fonte do direito e determina a lei como expressão do poder normativo do Estado”56. Essa formulação clássica da teoria da imperatividade, alcunhada por Bobbio de “imperativismo ingênuo”57, sofreu fortes críticas no âmbito da própria Dogmática positivista, as principais delas advindas de Kelsen que associou a estrutura das normas jurídicas ao elemento coatividade. Para o mestre da Escola de Viena, a ordem jurídica pode ser descrita como um conjunto de “proposições enunciando que, sob pressupostos determinados (determinados pela ordem jurídica), devem ser aplicados certos atos de coerção (determinados igualmente pela ordem jurídica)” 58. Portanto, volta-se a atenção para a estrutura lógico-formal da norma jurídica, apresentada como a de um imperativo hipotético, imperativo esse que não seria dirigido aos nacionais (os súditos da monarquia) e sim aos operadores oficiais do direito (os magistrados). Norberto Bobbio, em sua Teoria da norma jurídica, mostra que a revisão ocorrida na teoria da imperatividade prendeu-se às especificidades desse elemento da doutrina positivista e não à sua base comum, por ele divisada na “pertinência das normas jurídicas, sejam elas comandos propriamente ditos ou imperativos impessoais ou imperativos hipotéticos ou normas técnicas e assim por diante, à categoria das proposições prescritivas”59. Porém, como assinalado pelo jusfilósofo italiano, o elemento mais importante para a caracterização do positivismo e sua contribuição mais original à Teoria do Direito consiste no conceito de ordenamento jurídico, vale dizer, na ideia de que o direito objetivo compõe-se de um conjunto de normas que não se encontram meramente justapostas e sim integradas, logicamente, em um único sistema60. Essa concepção foi elegantemente exposta por Hans Kelsen, na Teoria pura do Direito, pondo o fecho da unidade sistêmica do ordenamento em um pressuposto lógico-transcendental, por ele intitulado de norma fundamental61, e contornando, com isso, a evidência de que a ordem jurídica se origina de algo que é externo ao direito, qual seja, a aceitação pela sociedade de uma Constituição ou de alguma sorte de norma de re conhecimento62, da qual derive a força cogente de atos normativos emanados do Parlamento ou de normas costumeiras. Da unidade sistêmica antes referida decorrem outras duas características atribuídas pelo positivismo ao ordenamento jurídico, a coerência, isto é, nele não haveria normas incompatíveis entre si e a completude. Esse último elemento da Teoria do Direito positivista constitui, para Bobbio, “o coração do coração (se é lícita uma tal expressão) do positivismo jurídico”, pois está “estreitamente ligada ao princípio da certeza do direito, que é a ideologia fundamental deste movimento jurídico”. E prossegue invocando a observação de Radbruch no sentido de que “o princípio da completitude do direito se apresenta necessário para conciliar entre si dois outros temas juspositivistas fundamentais: aquele segundo o qual o juiz não pode criar o direito e aquele segundo o qual o juiz não pode jamais recusar-se a resolver uma controvérsia qualquer”63. A coerência do ordenamento jurídico é assegurada pelo estabelecimento dos chamados critérios de solução de antinomias, a saber, o hierárquico (lex superior derogat inferiori), o cronológico (lex posterior derogat priori) e da especialidade (lex specialis derogat generali). Entretanto, não há como negar a insuficiência dos três critérios em algumas situações, ou seja, “quando há um conflito entre os próprios critérios, no sentido de que a uma mesma antinomia se possa aplicar dois critérios, cada um deles levando a um resultado diverso” e “quando não é possível aplicar nenhum dos três critérios”, “visto que há duas normas antinômicas que são contemporâneas, paritárias e gerais”64. De igual modo, sem que se aparte do positivismo jurídico em sentido estrito, a tese da completude do ordenamento foi submetida a severas críticas, que culminaram em certa relativização do conceito, como se verifica da rica exposição da matéria feita por Karl Engisch65. Ao sumariar o pensamento do autor germânico, Maria Helena Diniz, em obra monográfica dedicada ao tema das lacunas no direito, anota que se admite “dessa forma a existência de autênticas lacunas na ordem jurídica que devem ser colmatadas pelo poder competente, mediante o emprego de mecanismos jurídicos, a fim de que se mantenha como princípio a completude do sistema jurídico”66. O último elemento do edifício teórico positivista, considerado, como se advertiu de início, em seu sentido estrito, diz respeito ao modo pelo qual se desenvolve a atividade de interpretação dos textos normativos. Em razão da importância da matéria e de sua íntima conexão com o objeto da investigação que ora se desenvolve, dedicar-se-á maior espaço ao assunto na Seção II do presente capítulo, em que se examinará a Teoria da Interpretação preconizada pelo positivismo clássico e a crítica a que foi dura-mente submetida, tanto pelas correntes dissidentes que se formaram sob o agasalho do positivismo metodológico, quanto por aqueles juristas que não se apartaram do pensamento positivista stricto sensu. Sob influência do positivismo filosófico, o positivismo jurídico (estrito) buscou de todas as formas construir uma teoria puramente cognoscitiva, isto é, que compreendesse o direito como ele é, não o submetendo a uma avaliação valorativa ou ideológica. No entanto, pode-se afirmar que o objetivo não foi plenamente atingido, pois, visto de um modo abrangente, o movimento positivista “parece não só um certo modo de entender o direito (de destacar-lhe os caracteres constitutivos), como também um certo modo de querer o direito; parece, portanto, não somente uma teoria, mas também uma ideologia”67. Nas vertentes jurídicas e filosóficas que confluíram para a formação do positivismo alemão no século XIX percebe-se, facilmente, a presença da ideologia positivista, que culminou em autêntico culto ao direito estatal. Conforme ensina Karl Larenz, a Ciência Jurídica germânica do século XIX, “sob as vestes do historicismo, ocultava quase sempre uma índole racionalista e que (embora inconfessadamente), na medida em que considerava o Direito positivo como um organismo racional e assim o procurava compreender, alguma coisa conservava do pensamento jusnaturalista”68. Essa tendência ideológica, como atesta Bobbio, recebeu influência direta da concepção hegeliana de Estado, que não lhe atribui mero valor técnico, não sendo o Estado “um simples instrumento de realização dos fins dos indivíduos (como é no pensamento liberal), mas um valor ético, é a manifestação suprema do Espírito no seu devir histórico e portanto é ele mesmo o fim último ao qual os indivíduos estão subordinados” 69. Essa divinização do direito estatal, que floresceu no idealismo jurídico alemão, caracteriza o que o jusfilósofo peninsular denominou de versão “extremista” ou “forte” do positivismo ético, a qual recebeu críticas inflamadas da parte dos não positivistas, por haver contribuído, segundo eles, para a instalação de sistemas totalitários na Alemanha e na Itália na primeira metade do século XX. Importa advertir, já de início, que o vínculo entre o positivismo ideológico radical e o nazismo ou o fascismo está longe de ser comprovado, até porque, no âmbito do positivismo, o culto à lei se faz (quando se faz) em um quadro institucional típico do Estado de Direito liberal, sabidamente incompatível com o modelo de Estado totalitário70. Os arautos do “novo Direito Constitucional brasileiro”, todavia, não se pejaram de utilizar o argumento emocional da reductio ad Hitlerum71, em seu firme intento de demonstrar a superação do positivismo (em sentido estrito, embora não admitam que continuam vinculados à metodologia positivista)72. De toda sorte, como demonstra Norberto Bobbio, “na história não se encontra um acordo permanente entre positivismo jurídico e positivismo jurídico ético extremista”. Ao contrário, o que parece frequentar o modelo dogmático positivista é a versão moderada do positivismo ético, que “não se limita a considerar o direito como meio necessário para realizar a ordem, mas sustenta que a lei seja a forma mais perfeita de direito”, em face da generalidade e abstração que qualificam a lei em seu sentido material, traços peculiares esses que “faltam às normas jurídicas produzidas pelas outras fontes”73. 4 As críticas à teoria positivista Desde a sua consolidação enquanto proposta doutrinária de compreensão do fenômeno jurídico e de estruturação da Dogmática, o positivismo foi submetido a intensas críticas. Algumas delas, como já se viu no item anterior, importaram na revisão de certos aspectos da doutrina positivista, porém sem o abandono da perspectiva teórica, mesmo em seu sentido estrito. Em outras situações, ainda que sem um retorno ao jusnaturalismo, sob o prisma metodológico, houve um afastamento de tal ordem de postulados básicos do positivismo que se pode falar em concepções do direito alternativas ao positivismo stricto sensu. Muitas dessas propostas teóricas conflitantes não resistiram à passagem do tempo, constituindo um mero “modismo” intelectual, logo superado pela evidência de sua inadequação à realidade do sistema jurídico que pretendem explicar. Certas vertentes de Teoria do Direito, entretanto, se colocam no cenário atual como autênticas alternativas ao positivismo jurídico, chegando mesmo a lhe roubar a primazia teorética, conquanto, em termos de funcionamento efetivo do sistema jurídico, nada pareça ameaçar-lhe a predominância. A valorização excessiva do formalismo abstrato e do raciocínio dedutivo, típico da Jurisprudência dos Conceitos, escola que marcou a ascensão do positivismo na Alemanha do século XIX, foi verberada pela Jurisprudência dos Interesses de Jhering e Philipp Heck. Releva notar que a principal discrepância entre as duas tendências teoréticas se deu no plano da aplicação judicial do direito e do uso dos métodos de interpretação. Destarte, “enquanto ‘a orientação antiga, a jurisprudência dos conceitos’, limita o juiz ‘à subsunção lógica da matéria de facto nos conceitos jurídicos’ - e, nessa conformidade, concebe o ordenamento como um sistema fechado de conceitos jurídicos, promovendo assim ‘o primado da lógica’ no trabalho científico do Direito —, a jurisprudência dos interesses tende, ao invés, para o ‘primado da pesquisa vital e da valoração vital”’. Para a formulação crítica em destaque, a lei continua a ocupar posição predominante no plano das fontes do direito, porém passa a ser vista não como um produto da razão abstrata e sim de interesses concretos dos membros da comunidade. Daí o cerne da proposta teórica da Jurisprudência dos Interesses estar na exigência dirigida aos órgãos incumbidos da aplicação oficial do direito de conhecerem “com rigor, historicamente, os interesses reais que causaram a lei e de tomar em conta, na decisão de cada caso, os interesses que assim se descobriram”74. Para tanto a metódica adequada há de ser fundada na interpretação histórico- teleológica, conforme propugnou Heck, em obra clássica dedicada à Hermenêutica75. Importa ter pre-sente, no entanto, que Jurisprudência dos Interesses não liberou a função jurisdicional de seu compromisso com os limites impostos pelo legislador, embora a tenha conectado à realidade social, configurando antes uma revisão crítica interna ao positivismo jurídico do que a sua negação76. Um aprofundamento da crítica formulada pela Jurisprudência dos Interesses conduziu, também na Alemanha, a uma corrente teórica que, efetivamente, rompeu com o positivismo. Trata-se do Movimento do Direito Livre, a que se associa, principalmente, o nome de Eugen Ehrlich, por ter se valido da expressão “Teoria do Direito Livre” em conferência proferida em 190377. Na verdade, partem os adeptos do movimento da crítica à atividade de subsunção mecânica, propugnada pelo positivismo no século XIX. Todavia, ao invés de apenas ampliarem a esfera de liberdade do intérprete-aplicador, acabam por instaurar o subjetivismo, ao eliminar por completo a vinculação do juiz à normatividade legal, pois “é a vontade de chegar a uma decisão já antecipadamente conhecida que preside à escolha dos lugares da lei que permitem fundamentar essa decisão”78. É flagrante, pois, a diferença de abordagem com relação à Jurisprudência dos Interesses, que, fiel ao positivismo, influenciou significativamente a Dogmática Jurídica, ao passo que o Direito Livre não passou de “uma ventania romântica que assolou os domínios da Jurisprudência”79. Uma visão panorâmica das correntes que se apartaram do positivismo jurídico em sentido estrito e que continuam exercendo influência nos domínios da Teoria do Direito permite a identificação de duas tendências diversas. De um lado a vertente sociológica, que, em oposição ao normativismo positivista, desloca o foco de análise para os elementos fáticos do fenômeno jurídico, principalmente para a contribuição das decisões judiciais na conformação pragmática do direito. E, de outro lado, a vertente filosófica ou axiológica, que tenta recuperar, conquanto de modo restrito, o antigo postulado jusnaturalista de identificação entre direito e moral. Na matriz sociológica, deve-se mencionar o realismo jurídico, de Karl Llewellyn e Jerome Frank, modelo dogmático que, a partir da década de 20 do século passado, passou a exercer grande influência teórica e prática nos Estados Unidos. O realismo rompe com o pensamento positivista em um ponto importante, concernente ao posicionamento hierarquizado das fontes do direito, tendo a lei ou a Constituição como o escalão máximo. Na conhecida frase do juiz da Suprema Corte Charles Evans Hughes, ele mesmo um não realista80, nota-se a influência do movimento na primeira metade do século XX. Disse ele que nos Estados Unidos se vivia sob uma Constituição, “mas a Constituição é o que os juízes dizem que é”81. Portanto, em autêntica inversão de sentido, a fonte do direito por excelência passa a ser a jurisprudência, consubstanciando as decisões judiciais, enquanto fatos normativos (criadores do direito) primários, o objeto central da Dogmática, restando em segundo plano os atos legislativos e as construções doutrinárias. Explora- se, pois, uma dicotomia, que se tornou usual na doutrina estadunidense, entre o “direito formal, aquele que oficialmente deve prevalecer, expresso nos textos legais e nas compilações jurisprudenciais (o /aw in books)” e o “direito vivo ou ‘em ação’, que se constrói na prática (o /aw in action)”82. A rejeição à exposição conceitual das estruturas normativas (provenientes das leis e precedentes judiciais) era tão grande entre os realistas que se pode mesmo questionar se faziam eles ou não Teoria do Direito83. Por certo estavam mais preocupados em refutar “a ‘teoria oficial’ do common /aw de então, no que diz respeito, especialmente, ao dogma da não construção do direito pelo juiz”. Afinal, segundo o entendimento doutrinário predominante, os magistrados deveriam se limitar a aplicar as normas (legais ou advindas de precedentes) preexistentes, o que foi refutado pelo realismo sob o argumento da impossibilidade prática, sendo, portanto, necessário “abandonar as ficções doutrinais e reconhecer o papel decisivo do juiz no funcionamento do sistema jurídico”84. O realismo jurídico termina, desse modo, por rejeitar a própria estrutura normativa (dever-ser) do ordenamento jurídico, realçada pelo positivismo, ao considerar o direito um mero “conjunto de fatos, isto é, de decisões efetivamente tomadas (ou condutas assumidas) em relação a um caso e empiricamente constatáveis”85. Não se deve confundir o realismo jurídico com a chamada Jurisprudência Sociológica que se desenvolveu em paralelo, praticamente no mesmo período, nos Estados Unidos, tendo como seus dois maiores expoentes o juiz da Suprema Corte Benjamin Cardozo e o decano de Harvard, Roscoe Pound. Embora tendo diversos pontos em comum com o realismo, mormente a crítica ao formalismo exacerbado e a priorização do estudo das decisões judiciais, a Jurisprudência Sociológica não chegou a se apartar do positivismo jurídico em sentido estrito, não obstante tenha avançado bastante sobre as deficiências do positivismo clássico. Com efeito, no campo da Teoria da Interpretação, Cardozo e Pound enxergam o exercício da jurisdição como uma atividade essencialmente criadora (e não meramente reprodutiva), orientada pelas “exigências da vida”, razão pela qual preconizam a opção preferencial pelo método teleológico. No entanto, como aponta Denis de Castro Halis, em artigo dedicado ao legado teórico de Benjamin N. Cardozo, aceitava ele a existência de limites ao exercício da criatividade jurisprudencial, pois “o juiz deve atuar criativamente suprindo as fontes formais e, mesmo nesse âmbito, não pode, por exemplo, ‘restringir os princípios gerais da organização judiciária, explícita ou implicitamente consagrados, nem formular uma regulamentação pormenorizada para o exercício de certos direitos, estabelecendo dilatações de prazo, de formalidades, de regras de publicidade’”86. Vale destacar, de outra parte, que o realismo jurídico, “com sua concepção instrumental de Direito foi retomado na década de oitenta, porém então renomeado para pragmatismo jurídico”, contando, dentre seus propagadores, diversos integrantes da Suprema Corte, tais como Brandeis, Frankfurter, Jackson, Douglas, Brennan, Powell, Stevens, White e Breyer87. Cabe, finalmente, examinar as propostas teóricas que, sem defender um retorno à Dogmática jusnaturalista, afastaram-se do positivismo ao postularem, em alguma medida, a coincidência entre o direito e a moral. Essa correspondência não será necessária como no jusnaturalismo, que condicionava a existência do direito positivo à sua conformação ao direito natural, fazendo coincidir validade formal e validade ética (legalidade e legitimidade). Todavia, será vista como um objetivo a ser perseguido ou como uma tendência irrefreável. Não se pode aqui identificar uma escola ou movimento que tenha aglutinado os autores que adotam essa percepção do fenômeno jurídico, havendo significativas diferenças entre eles, até porque alguns trabalham com sistemas filiados ao common law, ao passo que outros se vinculam à tradição romano-germânica. No entanto, tomando como referência o antipositivismo ético que os une, permito-me adotar a terminologia propugnada por Miguel Reale ao denominar essa alternativa teórica ao positivismo estrito de “moralismo jurídico”88. Na Alemanha, o moralismo jurídico está intimamente associado à implantação de um sistema de controle concentrado de constitucionalidade das leis com o advento da Lei Fundamental de Bonn e ao esforço do Bundesverfassungsgericht em identificar uma ordem objetiva de valores, a partir do texto constitucional, servindo de anteparo a qualquer tentativa dos Poderes políticos de desvirtuamento do sistema democrático, pelo uso abusivo de suas franquias. Não é difícil surpreender na doutrina e jurisprudência germânicas posteriores à Segunda Guerra a revivescência do pensamento jusnaturalista, sem que isso implique, no entanto, o retorno à Dogmática do direito natural89. Nesse sentido, Habermas é peremptório ao afirmar que “para o Tribunal Constitucional Federal, a Lei Fundamental da República Federal da Alemanha não constitui um sistema de regras estruturado através de princípios, mas uma ‘ordem concreta de valores’”90. Não é diferente a apreciação de García de Enterría, asseverando que “se tornou usual falar, desde a promulgação da Lei Fundamental, de uma substituição do Estado de Direito em sentido formal por um Estado de Direito em sentido material, que justamente integra na própria legalidade os valores superiores e, paralelamente, por uma autêntica decisão constitucional pelo Direito Natural, ainda que isso já seja mais questionável”91. Essa mesma concepção, qual seja, a da existência de uma ordem de valores externa que serve de referência ao direito positivo está implícita na teoria dos direitos fundamentais de Alexy, pois, muito embora tenha tido o cuidado de precisar que os direitos fundamentais sempre emanam de normas jurídicas (positivas), sejam elas princípios ou regras, essas normas são por ele equiparadas a valores, compondo um quadro de preferências dotado de um mínimo de objetividade e que, como tal, se impõe ao próprio Constituinte originário92. O pressuposto teórico da existência de uma ordem objetiva de valores, com a pretensão de se impor ao direito positivo, provoca consequências diretas no tocante à atividade de interpretação-aplicação de textos normativos. Não por outra razão, os moralistas jurídicos se empenham ao máximo em corrigir aquilo que identificam como desvios da ordem de valores por eles idealizada. Como não negam a existência do direito positivo imperfeito (na sua visão), o seu trabalho será facilitado na medida em que a estrutura dos dispositivos objeto de interpretação conceda maior liberdade ao exegeta-aplicador, como sucede com os textos normativos que se utilizam de conceitos indeterminados ou que veiculam normas principiológicas (comuns no âmbito constitucional). Essa liberdade de movimentação, por certo, não é incompatível com a teoria positivista, sendo, ao contrário, convertida no postulado da discricionariedade ou liberdade de escolha do aplicador por muitos de seus mais renomados adeptos93. No caso do moralismo jurídico, porém, acaba sendo convertida no fetiche da única solução correta. Ademais, sendo o intérprete-aplicador guiado pelo objetivo de aproximar o direito da moral, não se incomodará de ultrapassar as barreiras que o próprio direito positivo se lhe antepõe, o que restará evidenciado mais adiante94. Mas, “a adaptação do direito à moral pode ocorrer de forma ainda mais direta, admitindo que as normas que contradizem as exigências morais percam sua validade”95, tal qual preconizava o jusnaturalismo. A esse propósito, Alexy professa o que Alfonso García Figueroa intitula de um jusnaturalismo fraco ou debilitado, com forte inspiração na obra de G. Radbruch. Parte o constitucionalista germânico da distinção entre quatro modalidades de normas jurídicas positivas: as moralmente indiferentes, as justas, as injustas e as extremamente injustas, sendo que a estas últimas, e apenas a elas, deveria ser negada validade jurídica. Essa manobra, como bem observou o referido autor espanhol, “permite manter certa vinculação conceitual do Direito à moral, ao mesmo tempo em que evita a indesejável consequência de ter que afirmar que as normas jurídicas são necessariamente justas”96. Ainda no contexto do moralismo jurídico, merece especial referência a construção teórica de Ronald Dworkin, sucessor de Hart no ensino da Filosofia do Direito em Oxford e que com ele travou intensa polêmica teorética. Dworkin estruturou uma proposta teórica de compreensão do direito extremamente complexa e original, mas que, por se confessar peculiar a uma determinada cultura jurídica (a do direito anglo-americano), demonstra extrema fragilidade em termos de Teoria do Direito, que se pressupõe geral97. O jusfilósofo em questão expressamente rejeita tanto o positivismo jurídico (em sentido estrito), por ele ora incluído no rol das teorias semânticas do direito (positivismo clássico), ora convertido em corrente intitulada de convencionalismo (positivismo interpretativo), quanto o pragmatismo jurídico. E tal rejeição está fundada na diferente maneira de dar resposta a três questões tidas como cruciais à elaboração de um conceito de direito que melhor se adapte aos sistemas inglês e estadunidense, razão pela qual formula a teoria do direito como integridade: “Primeiro, justifica-se o suposto elo entre o direito e a coerção? Faz algum sentido exigir que a força pública seja usada somente em conformidade com os direitos e responsabilidades que ‘decorrem’ de decisões políticas anteriores? Segundo, se tal sentido existe, qual é ele? Terceiro, que leitura de ‘decorrer’ – que noção de coerência com decisões precedentes – é a mais apropriada? A resposta que uma concepção dá a essa terceira pergunta determina os direitos e responsabilidades jurídicos concretos que reconhece. (...) Do ponto de vista da minha sugestão conceitual, o pragmatismo jurídico é uma concepção cética do direito. Responde negativamente à primeira pergunta que coloquei: nega que uma comunidade assegura alguma vantagem real ao exigir que as decisões de um juiz sejam verificadas por qualquer suposto direito dos litigantes à coerência com outras decisões políticas tomadas no passado. (...) Como o convencionalismo, o direito como integridade aceita sem reservas o direito e as pretensões juridicamente asseguradas. Contudo, responde à segunda pergunta de modo muito diferente. Supõe que a vinculação ao direito beneficia a sociedade não apenas por oferecer previsibilidade ou equidade processual, ou em algum outro aspecto instrumental, mas por assegurarem (sic), entre os cidadãos, um tipo de igualdade que torna sua comunidade mais genuína e aperfeiçoa sua justificativa moral para exercer o poder político que exerce. A resposta da integridade à terceira pergunta – sua descrição da natureza da coerência com as decisões políticas do passado, exigida pelo direito – apresenta uma diferença correspondente com a resposta dada pelo convencionalismo. Sustenta que direitos e responsabilidades decorrem de decisões anteriores e, por isso, têm valor legal, não só quando estão explícitos nessas decisões, mas também quando procedem dos princípios de moral pessoal e política que as decisões explícitas pressupõem a título de justificativa“98. De modo diverso do moralismo jurídico alemão, Dworkin não concebe uma ordem objetiva de valores que sirva de referência para correções e, em situações de injustiça extrema, para a validação formal do direito positivo. O próprio sistema jurídico por ele tomado como referência (o dos Estados Unidos) é considerado a encarnação histórica dessa ordem de valores, razão pela qual a coincidência entre direito e moral não se põe como objetivo a ser alcançado e sim como um dado ou como uma tendência necessária99. Não se trata, é bem de ver, de nenhuma forma de determinismo histórico e sim da obediência ao pressuposto metodológico estabelecido por Dworkin, qual seja, o de que “o direito como integridade fornece tanto uma melhor adequação quanto uma melhor justificativa” da prática jurídica estadunidense100. 5 Por um positivismo reflexivo e integral Não é possível tratar de um tema como o dos limites ao poder criativo da jurisdição constitucional (em sentido amplo) e dos parâmetros ao correspondente ativismo judiciário sem explicitar os pressupostos de que se parte em termos de Teoria da Interpretação, a qual, por seu turno, se vincula, necessariamente, a determinado modo de compreender o direito, vale dizer, a determinada Teoria do Direito. O entrosamento desta com os saberes específicos da Dogmática Jurídica é muito mais intenso e profundo do que imaginam os operadores do direito e mesmo alguns juristas de perfil pragmático. Como adverte Habermas, a Teoria do Direito, “ao contrário das teorias filosóficas da justiça, movimenta-se nos limites de ordens jurídicas concretas”, extraindo “os seus dados do direito vigente, de leis e casos precedentes, de doutrinas dogmáticas, de contextos políticos da legislação, de fontes históricas do direito etc.”. Daí por que, “unindo- se à dogmática jurídica, privilegia a perspectiva jurídica”101. Após uma breve resenha dos principais modelos dogmáticos que gozam de prestígio na atualidade, ou seja, o positivismo (em sentido estrito), o realismo (pragmatismo) e o moralismo jurídicos, cabe, agora, um posicionamento pessoal diante dessas vertentes teoréticas, assumindo-se a perspectiva de que não se cuida apenas de compreender o fenômeno jurídico, mas, igualmente, de influir na sua conformação. De modo coerente com o perfil de minhas investigações passadas, importa deixar explícitos os pressupostos positivistas que orientam o presente trabalho. Quanto à adoção do positivismo metodológico, que toma como objeto de estudo o direito vigente, não haveria como não o praticar, salvo com prejuízo à cientificidade do discurso doutrinário subsequente. Mesmo os que constatam a perda de vigor do positivismo jurídico nas últimas duas ou três décadas, reconhecem que “não parece possível pensar uma teoria do direito que não seja em alguma medida positivista” 102. Refiro-me, contudo, à convicção de que, com os ajustes por que passou ao longo de quase dois séculos de predomínio teórico, adicionados a outros que estão em curso, as bases do positivismo estrito continuam sólidas. Não se registram controvérsias relevantes sobre a relação necessária existente entre coação e ordenamento jurídico, vista essa característica de uma perspectiva sistêmica103. O mesmo se diga quanto à imperatividade do direito, registrando-se razoável consenso doutrinário em torno da configuração das normas jurídicas como proposições prescritivas hipotéticas104. A concepção sistêmica do direito imanente ao positivismo jurídico subsiste, conquanto as características decorrentes da coerência e da completude tenham sido relativizadas a partir de reflexões já absorvidas pela própria teoria positivista. Assim, no veredicto de Bobbio, “um ordenamento jurídico não é necessariamente coerente, porque podem existir no âmbito do mesmo ordenamento duas normas incompatíveis e serem ambas válidas la compatibilidade não é um critério de validade)”, do mesmo modo que “um ordenamento não é necessariamente completo, porque a completitude deriva da norma geral exclusiva, ou norma de clausura, que na maior parte dos casos – excluído o direito penal – não existe”105. Sem que se possa falar em rompimento com o positivismo, Claus-Wilhelm Canaris trouxe importante contribuição à teoria do ordenamento, ao assentar que a regra estrutural106 da unidade do sistema jurídico não se reduz a um mero postulado lógico-jurídico, apresentando direta imbricação com o princípio da igualdade. No seu aspecto negativo, o postulado da unidade constitui “uma emanação do princípio da igualdade, enquanto procura garantir a ausência de contradições da ordem jurídica (...) e por outro – no seu componente positivo – ela não representa mais do que a realização da ‘tendência generalizadora’ da justiça, que exige a superação dos numerosos aspectos possivelmente relevantes no caso concreto, a favor de uns poucos princípios, abstractos e gerais”107 . Esclareça-se, no entanto, que a caracterização do sistema jurídico como ordem axiológica se dá a partir de uma concepção formal do princípio da isonomia: “A esse propósito deve-se, por fim, focar expressamente uma especificidade: quando se fala aqui, constantemente, da adequação dos valores, pretende-se significar isso mesmo. Não se trata, portanto, da ‘justeza material’, mas apenas da ‘adequação’ formal de uma valoração – na qual ‘formal’ não se deve, evidentemente, entender no sentido de ‘lógico- formal’ mas sim no sentido em que também se fala do caráter ‘formal’ do princípio da igualdade. Por outras palavras: não é tarefa do pensamento teleológico, tanto quanto vem agora a propósito, encontrar uma qualquer regulação ‘justa’, a priori no seu conteúdo – por exemplo no sentido do Direito Natural ou da doutrina do ‘Direito justo’ – mas apenas, uma vez legislado um valor (primário), pensar todas as suas consequências até ao fim, transpô-lo para casos comparáveis, solucionar contradições com outros valores já legislados e evitar contradições derivadas do aparecimento de novos valores“108. Quanto ao, por assim dizer, “legalismo positivista”, já restou esclarecido que não é característica elementar do positivismo jurídico a afirmação da primazia da lei, em sentido formal, sobre as demais fontes do direito. Antes, se deve apontar como um postulado positivista o predomínio das fontes estatais do direito, com o que se deveria aludir a um “estatismo positivista”, ainda assim com a nota de que certos autores, como Kelsen, subordinam o ordenamento interno ao direito internacional público109, parte dele oriundo da prática dos Estados e organizações internacionais110 e não da vontade dos Estados propriamente dita. Incidem, pois, em rematado equívoco os autores nacionais, usualmente adeptos do “neoconstitucionalismo”, que afirmam estar superada a concepção positivista de fontes do direito por situar a lei (formal) no ápice da hierarquia sistêmica111. A suplantação da lei pela Constituição, no plano das fontes do direito (interno), dando ensejo ao chamado Estado Constitucional de Direito, em nada afetou a Dogmática positivista, por não dizer respeito a um elemento essencial e sim meramente acidental ou conjuntural dessa vertente teorética, presente na obra de autores europeus que produziram trabalhos anteriormente à consolidação da jurisdição constitucional na Europa, em meados do século passado. Tanto é assim que Hans Kelsen, um dos mais representativos juristas filiados ao positivismo, posicionou a Constituição, e não a lei, no topo de sua pirâmide hierárquica, desconsiderado o pressuposto lógico-transcendental da norma fundamental112. Bem por isso, Alfonso García Figueroa observa que “o impacto do constitucionalismo se faz mais sensível onde representa uma verdadeira novidade, isto é, na cultura jurídica estatalista e legicêntrica do continente”113. Na mesma linha, Luis Prieto Sanchís demonstra que, sob o prisma descritivo, “o legalismo que se desenvolve na ciência jurídica europeia ao longo do século XIX é substancialmente correto”, porém, sob o prisma prescritivo, entendido como a defesa da “soberania da lei, por reunir esta uma série de condições que a fazem legítima, em particular seu fundamento democrático”, parece duvidoso “que o legalismo seja uma tese positivista”114. No que se refere à Teoria da Interpretação não há problema algum em se reconhecer que era esse o “calcanhar de Aquiles” do positivismo jurídico. Todavia, não tanto por se constituir a subsunção mecânica dos fatos concretos às prescrições legais um dogma positivista, como usualmente se afirma, e sim pela pouca dedicação do positivismo ao binômio interpretação-aplicação, bem como a seus desdobramentos no plano da teoria da argumentação115. Assim, desde que se possam completar as lacunas teoréticas do positivismo nesse campo, sem comprometer a sua identidade enquanto proposta de compreensão do direito, estará assegurada a validação do positivismo jurídico, em sentido estrito, enquanto modelo dogmático, pouco importando a constatação de que um número crescente de autores, mormente no âmbito do Direito Constitucional, se diz antipositivista ou pós-positivista. É o que pretendo fazer na próxima seção, toda ela dedicada às questões envolvidas na concretização do direito. Não penso que o positivismo jurídico produza, necessariamente um saber autocentrado e, por conseguinte, estéril, por se desvincular em demasia da realidade social e das aspirações valorativas da sociedade. A afirmação da Dogmática Jurídica como Ciência autônoma voltada ao estudo do fenômeno jurídico sob o ângulo normativo e tendo por objeto um determinado sistema jurídico ou a comparação intersistêmica trazia embutido o risco de alheamento do mundo real, que, efetivamente, veio a se materializar, como bem atesta a Jurisprudência dos Conceitos ou o reducionismo normativista kelseniano116 . Entretanto, sem abrir mão de sua especificidade no plano epistemológico, é possível desenvolver um conhecimento dogmático que não perca a capacidade de refletir sobre si próprio e, o que é fundamental no caso de uma Ciência que lida com normas prescritivas, a capacidade de avaliar a sua funcionalidade, tendo em vista que participa da conformação do direito que estuda e, portanto, deve participar da busca dos objetivos sócio-regulatórios desse mesmo ordenamento jurídico. Nesse sentido, é de vital importância a fundamentação daquilo que se constrói no âmbito dos setores específicos da Dogmática (os vários ramos do Direito) em termos de Teoria do Direito, tornando explícitos os pressupostos desse conhecimento setorial, no tocante ao conceito de direito, a percepção estrutural da ordem jurídica, o modo de construção de suas categorias lógicas, os métodos de trabalho com o material normativo e seu substrato material etc. Não se pode perder de vista, de outra parte, as aberturas que a própria faticidade do sistema jurídico oferece ao conhecimento dogmático. De todo o conjunto das Ciências Dogmáticas do Direito, o Direito Constitucional é o que melhor explora essa abertura, por permitir a visualização do processo de formação do sistema jurídico, o que juridiciza na forma da teoria do Poder Constituinte. Mas, a atenção aos elementos genéticos do sistema jurídico, como proficuamente reivindicou a Jurisprudência dos Interesses, é de extrema importância para todos os setores da Dogmática, atenuando, sobremaneira, a neutralidade que o kelsenianismo atribuiu ao operador do direito e aos seus estudiosos. Não se nega que os magistrados ou os juristas exerçam suas respectivas atividades (operacionais ou científicas) de modo diverso dos representantes políticos, em relação ao direito. Estes últimos praticam a política legislativa, com acentuada liberdade de opção entre as diretrizes em disputa, ao passo que aqueles outros devem respeitar as opções feitas, sendo-lhes facultada apenas a movimentação permitida pela normatização das escolhas políticas primárias117. Essa abertura à faticidade justifica a importância do conhecimento agregado por Ciências Jurídicas de perfil zetético, como a Sociologia, a Filosofia do Direito e a História do Direito118, que não devem permanecer distantes das preocupações de quem lida com o saber dogmático em primeiro plano119. Além de um positivismo reflexivo, propugno por um positivismo integral, isto é, que leve em conta a tríplice estrutura do fenômeno jurídico, tão bem caracterizada na obra filosófica de Miguel Reale. Ao cuidar da nomogênese jurídica, o Mestre das Arcadas associou os elementos fáticos e axiológicos à interferência necessária do poder, prelecionando que “o aparecimento de cada regra jurídica marca o momento culminante de uma experiência jurídica particular, a qual é solidária das demais, através de conexões múltiplas, umas aparentes e facilmente identificáveis, outras subentendidas ou ocultas nas tramas das relações sociais”. Daí por que se pode “dizer que os valores são como que fachos luminosos que, penetrando na realidade social, se refrangem em um sistema dinâmico de normas, cada uma delas correspondente a uma decisão”120. Ao contrário do que se lê com frequência na literatura jurídica nacional, não é inerente ao positivismo jurídico a completa abstração dos aspectos fáticos e axiológicos do fenômeno jurídico, que a ele se associa por força do prestígio da obra de Kelsen, tomada como uma autêntica “bíblia” positivista. Aliás, como observou Miguel Reale, sequer a teorização do fundador da Escola de Viena se mostra totalmente refratária à composição tricotômica do direito, porquanto nela está implícita, professando Kelsen um “liberalismo cético, afinalista, porque aberto igualmente a todos os fins”121. No que concerne à matéria fática de que se compõe ordenamento jurídico, a sua importância, que já houvera sido salientada pela Jurisprudência dos Interesses, se tornou ainda maior com o advento da moderna Teoria da Interpretação. Com efeito, a partir da premissa gadameriana de que todo ato de interpretação é também um ato de aplicação da norma interpretanda, não se pode mais subestimar a relação entre os elementos semânticos postos pela norma em sua expressão textual e a realidade fática assim recortada e que, em um processo de interação dinâmico conduzido pelo intérprete-aplicador, acabarão por se converter na norma jurídica propriamente dita (de conduta ou de decisão)122. E, mais do que isso, de há muito se consolidou, ainda sob o influxo da Hermenêutica clássica, construída sob os auspícios do positivismo jurídico, a ideia de que o direito deve guardar relação de funcionalidade com referência à vida social que pretende regular, o que fica patente diante do prestígio adquirido pelo método teleológico-evolutivo123. Mas, também, no plano axiológico, creio ser possível permanecer trabalhando dentro dos marcos do positivismo teórico, sem que se tenha que partilhar do ceticismo ou do relativismo ético de alguns renomados positivistas. Tanto o jusnaturalismo clássico, quanto a forma enfraquecida com que se apresenta hodiernamente, aqui intitulada de moralismo jurídico, trazem embutido um certo ontologismo axiológico, encarando os valores como objetos ideais, “anteriores a qualquer processo histórico, porque eternos”, sendo a história “uma tentativa incessante de atingir esse mundo transcendente (...), através de intuições124, que seriam as únicas vias de acesso até as realidades estimativas”125. Daí o idealismo em que incidem ao analisar o fenômeno jurídico, chegando, no limite, a recusar validade formal (vigência) a normas jurídicas positivas, por inadequação ao modelo de direito que tomam por referência, correspondente a um ideal de justiça dotado de objetividade direta ou ontológica. Tal idealismo sim se opõe claramente ao postulado positivista de separação entre direito e moral, enquanto conjuntos distintos de imperativos prescritivos. Para o positivismo, o direito positivo é dotado de objetividade direta, que decorre da formalização de seus mandamentos em textos dotados de existência comprovável. Ao contrário, os valores morais são “algo que o homem realiza em sua própria experiência e que vai assumindo expressões diversas e exemplares, através do tempo”. Isso não significa, contudo, que os valores não tenham objetividade indireta, radicada na demonstração de que determinadas manifestações históricas da consciência ética, depuradas com o uso da razão, melhor exprimem a natureza humana, sem prejuízo do desenvolvimento contínuo desse processo de avaliação crítica da objetividade dos valores fundamentais da pessoa humana, mediante interação dialética 126 entre o mundo do ser e o mundo do dever- ser127. Muito embora reconheça ser muito frequente entre os adeptos do positivismo jurídico o relativismo moral de perfil liberal, não partilho desse ponto de vista, sem, entretanto, refutar o postulado metodológico da separação entre direito e moral128. A crítica à orientação axiológica do direito vigente é feita, como se sabe, por meio da Política Legislativa ou Política do Direito, Ciência de caráter zetético que combina a investigação de todos os aspectos (sociológicos, axiológicos e de técnica legislativa) que confluem na nomogênese jurídica. Entretanto, mesmo partindo da realidade do direito vigente pode-se postular que, observados certos limites e condicionamentos, os espaços deixados em aberto pelo legislador sejam completados ou supridos por meio de processos interpretativos que considerem os valores fundamentais da pessoa humana aceitos por determinada sociedade, aceitação para a qual também contribuem os operadores do sistema jurídico e os seus construtores teóricos. Em suma, com algumas importantes correções de rota, creio que o positivismo jurídico possa satisfazer à “necessidade do discurso científico integral”, ressaltada por António Menezes Cordeiro129, bem como à ponderação de Alfonso García Figueroa, para quem “o que se pede ao positivista certamente é um maior compromisso com a filosofia moral e com a teoria da argumentação jurídica”130. VERSÃO DEMONSTRATIVA Esse produto é de uso exclusivo para demonstração, contendo apenas parte do conteúdo do livro original. Saraiva S/A Livreiros Editores VERSÃO DEMONSTRATIVA Esse produto é de uso exclusivo para demonstração, contendo apenas parte do conteúdo do livro original. Saraiva S/A Livreiros Editores VERSÃO DEMONSTRATIVA Esse produto é de uso exclusivo para demonstração, contendo apenas parte do conteúdo do livro original. Saraiva S/A Livreiros Editores VERSÃO DEMONSTRATIVA Esse produto é de uso exclusivo para demonstração, contendo apenas parte do conteúdo do livro original. 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